segunda-feira, 8 de junho de 2020

Crônica da barbárie anunciada

“No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às cinco e meia da manhã”. Na primeira linha de Crônica de uma morte anunciada (1981), Gabriel García Márquez conta ao leitor que Santiago Nasar vai morrer. Todo mundo no povoado sabe que ele vai morrer, mas cada um tem suas razões para nada fazer. A morte anunciada do protagonista se cumpre com a ciência generalizada do povoado.

Hoje, somos Santiago Nasar. O fascismo no poder anuncia seu projeto de golpe, que trará repressão e violência estatal. A eugenia fascista no poder anuncia a morte de milhares de brasileiros pobres, negros; dos excluídos de toda sorte, dos frágeis e idosos. Indiferentes ou pensando nos próprios interesses, muitos dos que podem agir fecham os olhos, tal como os habitantes do povoado em que vivia o personagem de Márquez.

A barbárie está anunciada para onde quer que se olhe. Nas notícias de jornais, nos posts de redes sociais, no vídeo ministerial, na contagem crescente de vítimas, nas covas abertas, nas hordas brutalizadas de fascistas tomando os espaços públicos.

Há os que alertam. “Guardadas as devidas proporções, o ‘ovo da serpente’, à semelhança do que ocorreu na República de Weimar parece estar prestes a eclodir no Brasil”. É o decano da mais alta Corte advertindo que “bolsonaristas querem implantar uma desprezível e abjeta ditadura militar”.

Celso de Mello sabe ler a História, e são muitas as semelhanças. Na República de Weimar e aqui, agora, a barbárie chegou ao poder pelo voto, sob uma Constituição democrática e progressista que o eleito sempre disse que queria destruir. Tanto um quanto outro alcançaram o governo anunciando a barbárie.


Em Mein kampf (1925), Hitler escreveu: “temos que ser cruéis. Temos que recuperar a consciência tranquila para sermos cruéis. Que sorte para os ditadores que os homens não pensam”. Bolsonaro, por anos a fio, defendeu a ditadura, a tortura e o assassinato de opositores políticos. Tanto ele quanto Hitler tomaram o controle do Estado em meio a graves crises econômicas e sociais. Ambos têm a seu dispor gente brutalizada, animalizada e movida pelo ódio, além do apoio de uma parte insana da sociedade – que existe em qualquer sociedade, mas que o fascismo faz emergir com força.

E, no entanto, aqui e agora, como lá antes, há os que não veem o perigo e há os que veem, mas preferem seguir seus próprios caminhos mesmo com a serpente rompendo a casca do ovo.

Em meados dos anos 1920, os comunistas alemães negligenciaram o nazismo, pensando que, ao final, tudo aquilo acabaria lhes favorecendo. Stalin e os comunistas alemães elegeram não o nazismo, mas a social-democracia como a grande inimiga. A social-democracia era para eles o social-fascismo ou a parcela moderada do fascismo. Os comunistas alemães aprenderam a lição morrendo nos campos de concentração e, a União Soviética, tendo parte do país destruído e perdendo 20 milhões de vidas.

A lição da História está na síntese do anarquista Buenaventura Durruti, ainda nos anos 1930, antes de se desenrolar toda a barbárie nazifascista: o fascismo se destrói. Com o fascismo não se dialoga, não se concilia, não se admite omissão, não se admite outro cálculo ou estratégia que não seja o aniquilamento. O fascismo se destrói porque o fascismo, se não contido, destrói inevitavelmente. É essa a sua razão de ser. A barbárie é a sua natureza. Quem não destrói o fascismo é destruído. Simples assim.

Mas aqui, no Brasil, continua-se sem entender que o fascismo se destrói. Trata-se de mais um paralelo com os estertores de Weimar, com a agravante de que hoje há uma experiência cujo ensinamento é claro. Bolsonaro cultua a violência. Bolsonaro quer armar suas hordas. Bolsonaro é eugenista. Toma leite para mostrar que o branco é superior. Pouco importa quem vai morrer pelo vírus, se são velhos ou já têm doenças. Menos ônus para a sociedade, alívio para a Previdência. Bolsonaro anuncia que muitos vão morrer, “e daí?”. Bolsonaro tem um projeto e, se puder, irá executá-lo, assim como Hitler executou o seu porque pode.

O erro dos comunistas nos anos 1920 e 30 vai se reproduzindo agora. Eles pensavam que, ao fim e ao cabo, o combate ao fascismo não era impositivo; que poderiam prescindir de alianças, abrir mão de apoio ou não distinguir fascismo de antifascismo; que o tempo proporcionaria a deterioração natural do monstro.

Muitos caminham por veredas semelhantes. “Ninguém me respeita no PT. Eu quero francamente que eles vão à puta que pariu”, disse Ciro Gomes. “Em 2014 a campanha de Dilma inaugurou as fakes news. Não era o gabinete do ódio, mas era uma espécie de comitê do ódio”, disse Marina Silva. “Sinceramente, não tenho condições de assinar determinados documentos com determinadas pessoas”, disse Lula.

Dois ex-presidentes fazem declarações equivocadas ou moles diante do avanço da barbárie bolsonarista. Para Lula, não podemos sair por aí fazendo alianças a torto e a direito com gente que não está preocupada com os direitos dos trabalhadores – o que soa estranho, dito por quem nunca teve problemas com alianças, alguém que fez escolhas bastante discutíveis e trouxe para seu governo quadros de direita que jamais tiveram qualquer preocupação com os direitos dos trabalhadores.

Na retórica de Fernando Henrique Cardoso, Bolsonaro “está fazendo coisas que não são apropriadas”. Há uma política genocida em curso, mas o adjetivo é frouxo, lânguido: “apropriado”. Não é apropriado tal como, digamos, não é apropriada a falta de modos à mesa. Impeachment? Já tivemos dois, são traumáticos…

Há também os ressentidos: não podemos assinar manifestos, fazer aliança ou frente com quem apoiou o golpe de 2016. São os que tomam veneno pensando que vão matar o outro. Aqueles em que o juízo de certo e errado passa pelo filtro das emoções e desaparece. Há aqueles que querem impor aos aliados certas condições, o que desnatura o requisito lógico prejudicial do conceito: aliança é entre diferentes. Não se faz frente consigo mesmo.

O afastamento de Bolsonaro é para já. Será tanto mais rápido quanto mais ampla for e mais agilmente se mover a frente antifascista. Teremos companhias incômodas, mas é algo que já escapou da mera esfera da política. É imperativo categórico. Limite entre civilização e barbárie. Viver ou morrer. E tudo anunciado.

Luiz Carlos Prestes subiu ao palanque de Vargas, que mandara sua mulher, Olga Benario, grávida, judia, para morrer na Alemanha nazista. Submeteu-se à consciência, entre o que entendia ser o seu dever e sua própria individualidade, suas emoções e sentimentos. Usou a razão e olhou adiante de si. Hoje, trata-se apenas de ser antifascista. Amanhã a luta é outra. Albert Camus, que foi goleiro, disse que tudo que sabia da vida havia aprendido com o futebol. No domingo, o futebol nos mostrou como ser antifascistas.
Marcio Sotelo Felippe

País na cremação

Somos agora um país devassado pelo coronavírus. Nossa indústria está indo para o brejo, vamos perder 8% do PIB, uma massa de desempregados monumental e um capitalismo que não cria emprego. Eu não poderia imaginar uma situação pior. Olho pela janela de casa, fico vendo as árvores que tenho em frente, e não vejo país. O país está se derretendo como um sorvete
José Arthur Gianotti

Qual vai ser o golpe, Bolsonaro?

Agora que o Bolsonaro ameaça com o dele, eu gosto de lembrar que a minha ameaça de golpe preferida é a do golpe de ar. Ela vem junto com a doce voz de minha saudosa mãe e, lá do fundo da memória, eu ouço o aviso afetuoso para me proteger, não deixar a janela aberta, a porta também não, pois já farfalha vindo do quintal um vento encanado poderoso e junto com ele a ameaça letal, você não viu o que aconteceu com a vizinha?, do golpe de ar.

Todas as vozes dos anjos já anunciaram, em notas de repúdio, em manifestos, que vem aí o golpe de misericórdia na democracia. As futuras vítimas, no entanto, continuam discutindo entre elas a quem cabe fechar a janela e evitar a desgraça.

O que se planeja agora é óbvio como o golpe do paco, quando no meio da rua um sujeito bom de lábia trocava um pacote de papel velho por grana de verdade. É antigo, sim, e daí? Bolsonaro virou presidente acreditando na máxima da malandragem, a certeza de que nunca ninguém perdeu dinheiro apostando na ignorância alheia. Nos próximos dias vai atualizar o paco em sua versão federativa institucional.

Eu preferia estar falando do golpe de vista, aquele em que o goleiro plantando no meio do gol, diante da excelência da falta cobrada pelo atacante, não tem nada a fazer além de olhar, em posição privilegiada, a bola adentrar o fundo de suas redes. Seria muito futebol para estádios em quarentena.

Bolsonaro, para usar as metáforas conjugais de que ele tanto gosta, deu o golpe do baú. Declarou amor à República, prometeu democracia à Nação e acima de tudo dormir toda noite de conchinha com a patroa, a loura Constituição de 1988. Mentira, era tudo mentira, como previa o samba de corno. Ele enganou geral. Bolsonaro confessou que vai para a cama abraçado com uma pistola embaixo do travesseiro, ignorante para as freudianices comunistas de que todo revólver é um símbolo fálico.

Golpista de raiz, não está nem aí para essas fake news sobre sua heterossexualidade macha. Quer apenas um pretexto qualquer para sair atirando e usar a munição que, decreto atrás de decreto, põe no coldre dos homens de bem. Resta ao país a curiosidade mórbida de saber que tipo de golpe ele dará. Ainda há nas prateleiras as opções do autogolpe, do golpe de estado e do golpe de mão.

Desde a campanha de 2018, Bolsonaro dá o golpe da barriga. Deixa visível na silhueta um empacotamento mal-ajambrado de cintas e coletes, a lembrança sempre exposta aos fanáticos de que levou uma facada - e isso o tornaria o mártir escolhido para ressuscitar a inspiração cívica maior, o golpe de 1964.

O golpe do João sem braço também lhe seria apropriado. Segundo o professor Deonísio da Silva, é aquele dado pelo “preguiçoso, omisso ou trapaceador”. Na origem da expressão, “o golpista amarrava um dos braços sob a roupa, fingindo ser mutilado de guerra para obter esmola”. Bolsonaro, 28 anos de omissão como deputado federal, insinua, como autêntico João sem braço, que precisa do golpe pois o Congresso e o STF lhe amarraram as ações.

Deve ser desprezada apenas a possibilidade de Bolsonaro aplicar um golpe de mestre. Seria um tipo de oximoro, o encontro de palavras que se contrapõem. Mestre e Bolsonaro, definitivamente, são incompatíveis.

Bolsonaro comete crime de responsabilidade ao manipular números da covid-19

Ao esconder e manipular o número de novos casos e mortes diárias por Covid-19, o governo de Jair Bolsonaro atenta contra a segurança interna do país. A pandemia, a maior urgência sanitária do Brasil em mais de cem anos, requer que informações confiáveis circulem livremente, para que a doença possa ser melhor enfrentada tanto pelo governo, nas diversas esferas, como pelos cidadãos no seu cotidiano pessoal, familiar e profissional. A segurança interna do país está visceralmente ligada à saúde dos brasileiros.

A delinquência com os dados da Covid-19 também constitui improbidade administrativa, já que se trata de ato que foge aos princípios éticos mais elementares e contraria os interesses públicos.

Ambas as coisas — atentar contra a segurança interna e cometer improbidade administrativa — estão previstas na lei que rege o impeachment de um presidente da República. São crimes de responsabilidade.

Pensamento do Dia


O fascismo eterno e o fascismo tabajara

Fascismo tabajara é uma feliz expressão criada pelo cientista político Luiz Werneck Vianna. Fascismo eterno é um conceito do intelectual italiano Umberto Eco e foi tema de uma de suas conferências nos EUA.

Como muita gente nova tem me perguntado o que é o fascismo, resolvi trabalhar um pouco o tema, partindo das características eternas do fascismo para suas manifestações tropicais. A conferência de Umberto Eco acabou resultando num livro de 64 páginas. Ele entende como fascismo esse regime nacionalista, autoritário, que vigorou na Itália e foi derrubado no final da Segunda Guerra.

Quando garoto, Umberto Eco participava de concursos de composições com esse tema: “Devemos morrer pelo glória de Mussolini e o destino imortal da Itália?” Como um garoto esperto, respondia que sim. Eco viu os americanos ocuparem a Itália, Mussolini ser executado e refletiu tantos anos sobre o fascismo que acabou extraindo do regime as suas características que sobrevivem aos tempos.

São 14 traços essenciais e, segundo Eco, não precisam estar todos presentes para definir um regime fascista. É temerário condensá-los num curto artigo e apontar sua manifestação tabajara.

Alguns, no entanto, são tão evidentes que não demandam profundas análises comparativas.

Eco acha que para o fascismo eterno não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. “Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente.”


Daqui salto para dois outros traços essenciais: a relação com a cultura e a relação com as armas. Para o fascista, a relação com a cultura também é uma guerra permanente. Daí a célebre expressão atribuída por Eco a Goebbels: “Toda vez que ouço falar de cultura tenho vontade de sacar minha arma.”

No campo das armas, também se desenha um traço essencial do fascismo eterno. O fascismo eterno transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem de seu machismo, que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos não conformistas, como o homossexualismo.

Para Eco, o herói do fascismo eterno, para quem o sexo é um jogo difícil de jogar, prefere jogar com as armas, um simbolo fálico, e seus jogos de inveja se devem a uma permanente inveja do pênis.

Para aqueles que se veem despojados de qualquer identidade social, o fascismo diz que o único privilégio comum a todos é terem nascido no mesmo país. É a base do nacionalismo extremado. O único elemento que pode conferir identidade é o inimigo.

No fascismo há uma obsessão com a conspiração, sobretudo a internacional. Esse talvez seja um dos traços mais decisivos na nossa política externa. A própria ONU parece ser uma sede de conspiração, assim como a OMS e outros organismos internacionais. O aquecimento global é uma invenção do marxismo globalizante, o corona é um vírus comunista, destinado a enfraquecer os países do Ocidente.

Entre os 14 traços essenciais do fascismo eterno, na concepção de Eco, está também a recusa da modernidade. Escrevi sobre ele, mostrando que a proposta de Bolsonaro na verdade é uma retropia, uma volta a um passado ideal, ordenado e tranquilo, desenhado por Damares, com meninos vestidos de azul, meninas, de rosa.

O fascismo tabajara também defende um tipo de tradição religiosa, na qual a verdade foi revelada e não há espaço para o avanço do saber.

Só que aqui a verdade foi revelada nas profecias evangélicas, segundo as quais Cristo deve retornar ao Oriente Médio, quando Israel recuperar suas terras. É essa profecia que move o governo Bolsonaro a querer mudar para Jerusalém a embaixada brasileira.

O interessante, para finalizar, sem finalizar de fato porque há muito o que comparar ao longo dos traços restantes, o fascismo vê diversidade como um sinal de desacordo. Ele busca o consenso exacerbando no natural medo pela diferença. Seu primeiro apelo é contra os intrusos, logo, por definição tende ao racismo.

Umberto Eco morreu recentemente. Não viu surgir de novo o movimento antifascista. Mas, sobretudo, não pôde incluir um traço ao fascismo eterno que surge aqui como nos Estados Unidos: o fascismo chama de terrorista quem se insurge contra ele.
Fernando Gabeira

O caminho do arbítrio

Urge que o presidente Bolsonaro pare sua escalada rumo ao autoritarismo, mediante o uso indiscriminado do arbítrio. Decisões presidenciais num Estado democrático passam por uma série de mediações, sendo as mais importantes o Legislativo e o Judiciário, e no que concerne a este último, o STF. Arrogar a si a verdade e a decisão arbitrária só é fonte de confrontos incessantes.
Acontece que o presidente e sua família operam segundo a concepção schmittiana da distinção entre amigo e inimigo, fazendo que qualquer crítica ou divergência seja vista sob o prisma do inimigo a ser atacado. O mesmo vale para amigos em definições mutáveis, pois, ao passarem a ser considerados uma ameaça, tornam-se inimigos a ser abatidos – os casos mais eloquentes, Bebianno, Moro e Santos Cruz.

A distinção amigo-inimigo não é, todavia, exclusiva da extrema direita, vale também para a esquerda. O próprio Carl Schmitt, após ter sido apoiador entusiasta de Hitler, escreveu, no pós-guerra, que Mao e Lenin se encaixavam na mesma concepção, tecendo-lhes elogios. Chávez e agora Maduro são seus discípulos. A distinção lulopetista entre “nós” e “eles” é dessa mesma estirpe.

No caso da experiência venezuelana, considerada por Lula um exemplo de democracia, processou-se a subversão da democracia por meios democráticos. As instituições democráticas foram inicialmente preservadas, enquanto o seu interior foi progressivamente minado. A imprensa e os meios de comunicação em geral foram, passo a passo, calados, o Legislativo perdeu suas funções, com o presidente passando a legislar por decretos, e o Supremo Tribunal, após ser atacado, foi cooptado. Milícias foram criadas e passaram a violentar e controlar os cidadãos.

No Brasil, estamos vivendo um processo semelhante nos seus inícios, só que de sinal trocado. Da extrema esquerda passamos para a extrema direita. Os ataques sistemáticos à imprensa, aos meios de comunicação em geral e o financiamento e operação organizada de grupos encarregados de difundir fake news mostram essa tática de ataque ao “inimigo”. A ameaça de ruptura institucional, apesar de apresentada como defesa da democracia contra o espantalho do comunismo, é outro de seus braços. A constituição de milícias digitais, agora tornadas milícias de rua, até mesmo armadas, caso do grupo liderado por Sara Winter, é outro de seus instrumentos. A antiga bandeira preta da Ucrânia, símbolo da extrema direita naquele país, é o seu símbolo.

Na mesma linha, a declaração presidencial de que população brasileira deve ser armada para não ser escravizada procura, na verdade, a servidão dessas forças ao domínio da extrema direita. Uma coisa é a posse de armas no legítimo exercício da autodefesa, um direito; outra, muito diferente, é armar a população para se opor às autoridades, como os governadores de Estado, por suas políticas de combate à pandemia.

Contudo parar esse processo rumo ao precipício exige moderação do presidente, com a subsequente alteração da equipe governamental mediante o afastamento dos mais exaltados, os ideológicos. A perseguir tal política, as crises sanitária, política e econômica só tendem a se agravar, levando o País a um impasse perigoso, estando o próprio mandato presidencial em questão.

As recentes manifestações de reação a este autoritarismo por meio de vários manifestos pela democracia exibem uma sociedade atuante, ciente de que suas instituições devem ser defendidas independentemente dos governos. A democracia é tida por um valor maior, situado acima das contendas políticas e partidárias. No entanto, não deveria esse processo ser conduzido sob o modo de uma nova polarização, embora possa ser necessária num primeiro momento, sob pena de outra forma de autoritarismo surgir novamente no horizonte. O impasse institucional seria o seu resultado.

Salta à vista que dois terços da população brasileira não são pró-democracia, apesar de serem anti-Bolsonaro. Aí estão incluídos, por exemplo, os responsáveis pelo mensalão, que minaram o sistema representativo com a corrupção e o descalabro fiscal, para além das tentativas, felizmente infrutíferas, de controle da imprensa e dos meios de comunicação, apresentadas naquele então como sendo a verdadeira democracia. Para não falar das milícias do MST infernizando o campo brasileiro. Convém estar atentos a esses “novos democratas”.

Deve-se olhar igualmente com precaução a participação de torcidas organizadas nas manifestações, pois considerá-las como democráticas é outro equívoco. Na pressa de uma oposição atuante nas ruas, corre-se o risco de confundir alhos com bugalhos, na medida em que se caracterizam por serem uma espécie de quadrilhas, cujo prazer é extraído do uso da violência.

A sociedade brasileira deve sair da polarização, tendo como norte a democracia, sob pena de perpetuarmos o impasse pelos próximos dois anos e meio, além de corrermos o perigo de nele permanecer por mais quatro anos, seja sob a égide da extrema direita, seja da extrema esquerda.

O exemplo uruguaio

Por que não se divulgou mais a maneira tão eficiente como o Uruguai tem lutado contra o coronavírus? A verdade é que se trata de um pequeno país, de apenas três milhões e meio de habitantes, rodeado por vizinhos tão enormes quanto o Brasil e a Argentina. Mas esses dois gigantes teriam se saído muito melhor se, em vez de fazer o que fizeram para deter (ou incentivar, como seria melhor dito no caso brasileiro) a pandemia, tivessem seguido o exemplo uruguaio. Luis Lacalle Pou, o novo presidente do Uruguai, acabava de assumir o poder após derrotar a esquerdista Frente Ampla, que havia acumulado 15 anos de governo, com erros notáveis em política econômica, mas respeitando a liberdade de expressão e as eleições livres.

Na terça-feira 13 de março, conheceram-se os primeiros casos confirmados de coronavírus no país. Enfrentando as pressões da oposição de esquerda, e inclusive de sua própria aliança entre o Partido Nacional (ou Branco) e o Partido Colorado, Lacalle Pou se negou a impor uma quarentena, como fizeram tantos países do mundo. Apelou à responsabilidade dos cidadãos e declarou que ninguém que quisesse ir às ruas ou continuar trabalhando seria impedido, multado ou detido, e que não haveria aumento de impostos porque as empresas privadas desempenhariam um papel central na recuperação econômica do país após a catástrofe. Somente seriam suspensas as aulas dos colégios e haveria fechamento temporário das fronteiras.

A vice-presidenta do Uruguai, Beatriz Argimón, declarou à imprensa: “Para nós, a liberdade individual é muito importante. O presidente nunca quis tomar uma medida que não levasse em conta esse aspecto fundamental que é nossa filosofia de vida.” O resultado dessa política, que não quis se aproveitar do vírus, como fizeram alguns Governos democráticos na Europa e na América Latina, para restringir as liberdades e promover sua agenda política sem os inconvenientes de uma oposição parlamentar, não podia ter sido mais positiva.

Tenho diante de mim os resultados do último relatório emitido em Montevidéu, indicando que os mortos no Uruguai em decorrência da praga são 23, os contagiados são 826 e os recuperados, 689. É difícil imaginar um balanço menos trágico. É certo que a Suécia, que seguiu uma política semelhante à do Uruguai, tem muitos contágios e mortos para lamentar, sobretudo em lares de idosos, e que seus cidadãos agiram de maneira menos prudente e responsável que os uruguaios. A Suécia teve um superávit anual na balança comercial, de modo que será muito menos afetada pelos prejuízos econômicos de outros países que, para combater a pandemia, paralisaram suas atividades e deverão agora enfrentar as consequências.


O grande problema do Uruguai é sua fronteira com o Brasil, uma cidade compartilhada por ambos os países – onde, com o caos brasileiro criado por Bolsonaro, os contágios do coronavírus se multiplicam. Lacalle Pou visitou duas vezes a cidade fronteiriça de Rivera e, para saber se havia sido contagiado pelo vírus, manteve-se vários dias em isolamento voluntário.

Conheço Luis Lacalle Pou. Estive com ele em encontros de liberais e democratas, e não me surpreende que tenha sido a exceção à regra logo após assumir o poder, após uma campanha eleitoral formidável. É um homem jovem, de princípios, amante da liberdade e das ideias do verdadeiro progresso, que, com sua corajosa atitude frente a esta praga que se abateu sobre o mundo, pode agora poupar o Uruguai de boa parte da catástrofe econômica que atingirá os países onde os Governos, aterrorizados com a pandemia e a impopularidade, apressaram-se em fechar fábricas e lojas e a impor um confinamento severíssimo, ou em anunciar aumentos de impostos e nacionalizações, sem pensar que tudo isso contribuiria para agravar a tragédia econômica, uma das heranças da praga – talvez a mais difícil de resolver.

Lembro-me muito de minha primeira visita ao Uruguai, em 1966. Era uma época de ditaduras militares em toda a América Latina. Uma das exceções a essa tendência era o Uruguai; outras eram o Chile e a Costa Rica. Tudo era civilizado e notável nesse pequeno país de classe média, onde não se viam os gigantescos contrastes econômicos e sociais que apareciam aos montes na América Latina. Tudo me surpreendia: a forma como os jornais e as revistas eram bem escritos, a excelência de seus teatros, a magnífica livraria-antiquário Linardi y Risso, onde encontrei as primeiras edições de Onetti e de Borges e sua plêiade de escritores e críticos – Juan Carlos Onetti, Rodríguez Monegal, Idea Vilariño, Ángel Rama, Mario Benedetti, Ida Vitale, Martínez Moreno e muitos outros – um semanário, Marcha, que dedicava um terço de suas páginas à cultura e exerceria depois um grande papel em toda a América Latina. Chegar a esse país levantava o moral de um sul-americano. O mais admirável nele era sua democracia, a mais genuína de todo o continente.

O que levou os jovens uruguaios a revolucionar aquele país exemplar desatando a ação armada dos Tupamaros? O exemplo cubano, claro, o delirante sonho de trazer o paraíso à terra na base do disparo. As ações armadas e o terrorismo de esquerda foram esmagados, e o Exército – quem diria isso do Uruguai – estabeleceu uma ditadura implacável no que até então parecia a exceção aos maus costumes políticos latino-americanos.

Durante muitos anos, o Uruguai não foi nem de perto o que havia sido, e até Onetti, provavelmente o escritor mais indiferente à política e à revolução na história da América Latina, foi parar na prisão e se salvou (graças à Espanha) de passar longos anos na prisão. Terminaria em Madri. Não quis regressar ao seu país quando a ditadura terminou e a democracia restabelecida decidiu condecorá-lo.

Tudo aquilo ficou para trás, e a passagem pelo poder da Frente Ampla, essa coalizão de todas as esquerdas, serviu pelo menos para deixar claro que é possível na América Latina um governo de esquerda sem abrir mão da liberdade. Outros países latino-americanos também demonstraram, com governos de direita, que, ao contrário das caricaturas infligidas pela esquerda, também respeitam a lei e a crítica da imprensa, e garantem eleições livres. E, sobretudo, não roubam, uma propensão que compartilham (aqui e acolá) políticos de todas as ideologias.

Com Luis Lacalle Pou o Uruguai pode ir ainda mais longe, apesar do coronavírus. Se existe alguém que pode dirigir uma transformação profunda de seu país, graças às ideias democráticas, é ele, como tem demonstrado nesses dias difíceis nos quais iniciou sua gestão resistindo às pressões para que seguisse o exemplo de tantos Governos que acreditaram estar combatendo o flagelo da pandemia com aquartelamentos obrigatórios e fechamentos de escritórios e fábricas, o que sempre agrava a pobreza e pode vir acompanhado de barbaridades como nacionalizações e aumentos de impostos.

Seria formidável para a América Latina que da terra de José Enrique Rodó, cujas ideias foram uma religião para os jovens do século passado em todo o continente, saísse, como nestes dias, o exemplo de uma sociedade que, construída sobre o princípio ineludível da liberdade, assegure a justiça social apoiada numa economia de mercado, que garanta um alto nível de vida a todos os cidadãos, premie os que mais contribuem para o progresso comum, permita a livre competição e promova a cultura, em um ambiente de controvérsia civilizada. Em momentos tão difíceis como os que vive o planeta, sonhar não custa nada."

No Brasil de Alice soma vira subtração de cadáver

Aos poucos o país vai compreendendo por que Bolsonaro sustenta que não houve um golpe em 1964 nem aconteceu uma ditadura. Ele tramava montar o seu próprio regime militar. E não queria correr o risco de ser acusado de plágio. Coisa digna de Lewis Carroll e do País das Maravilhas que ele criou para Alice. No Brasil em que os generais batem continência para o capitão, a realidade é um incômodo inexistente.

No país da fantasia, os generais palacianos adulam o capitão reclamando do excesso de cadáveres no noticiário. E o Ministério da Saúde, convertido numa trincheira em que um general paraquedista comanda duas dezenas de militares e um par de soldados do centrão, transforma pandemia em pantomina tragicômica.


"Não vejo que o governo quer esconder os dados", disse o general Hamilton Mourão, vice-presidente do País das Maravilhas, ao comentar a mudança no modelo de divulgação da contabilidade fúnebre do coronavírus. "Ele mudou a metodologia. Não apresenta os números totais, que basta você somar com o dia anterior."

Horas depois, na noite de domingo, descobriu-se que, na pasta da Saúde, soma virou subtração. Cadáver, abstração. Às 20h30m, informou-se que 1.382 mortes foram registradas nas 24 horas anteriores. Dali a uma hora e meia, 857 cadáveres tomaram chá de sumiço. Em novo levantamento, o número de mortos caiu para 525.

O vaivém denuncia o desejo incontido do capitão de sumir com um pedaço da pilha de mais de 35 mil cadáveres, ajustando a realidade ao universo paralelo da "gripezinha". O problema é que os cadáveres estão aí.

Aliás, há tempos que nada esteve tão aí como a pilha de corpos do coronavírus. Os milhares de defuntos são a definição da coisa que está, inegavelmente, ali, e sobre a qual nenhuma desconversa é possível.

Fica entendido que, no regime militar que Bolsonaro inventou para seu próprio deleite, os cadáveres devem ser descartados, pois ameaçam a ordem da fantasia. Agora só falta arranjar desculpas melhores. Fazer desaparecer 35 mil cadáveres não é tão simples quanto sumir com o Fabrício Queiroz.

Brasil e a renúncia de Deus


O dia que o corona acabou

“Nestes dias, escreveu Pondé, precisamos de todos os santos”.

Deus resolveu demonstrar, efetivamente, que é brasileiro. Cedinho, mandou chamar Antônio, João e Pedro, os “donos” das celebrações e folguedos juninos na maior nação católica do mundo.

"Pedro, João e Antonio", ordenou, "vocês vão acabar com essa Praga que veio da China, tá matando todo mundo e meus conterrâneos". Pedro, habitualmente, o mais ousado, meneou a cabeça e largou – Senhor, eu sempre alertei que esses caras iam dar muito trabalho. Tá lembrado de Mao? Pedro – interrompeu o Senhor – essa conversa fica para depois. Agora, somos todos irmãos e os brasileiros são prioridade. Quero que no dia Sete de Setembro não exista mais um vírus no território brasileiro, sejam celebradas a independência e a vida de todos.

Recebidos, à noite, no Alvorada, fora da agenda oficial, eles apresentaram um plano de trabalho. O Presidente caiu de joelhos e, contrito, repetiu o seu mantra:  “O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, vocês têm carta verde e amarela. Branca, não. Plano, fora, ação! Discretamente. Se aparecerem nas pesquisas de opinião, voltarão ao Paraíso".


A partir de junho, só rolou notícia boa. Bomba!! A evidência científica da cura: o BolsocloroVick, mistura da cloroquina com Vick Vaporub (unguento que acaba com puxado, piado, asma e mata tudo quanto é vírus, muito usado pelos nossos pais e avós).

No dia treze, o Presidente dá a notícia e a OMS recomenda o novo remédio para todos os protocolos. Aí a curva “achatou”; depois entrou numa descendente; contaminação e óbitos caíram tendencialmente.

Definido o dia de volta à normalidade, um estudante de veterinária, brasileiro, fazendo PhD, na universidade do Butão sobre os mamíferos morcego e rato e o onívoro timbu (capital do Butão é Thimbu), descobriu a vacina contra o Covid-19, anunciada euforicamente no agourento 24 de agosto.

Foi a glória! O coração dos brasileiros encheu-se de perdão, amor e alegria. Antes de comparecer à parada militar, o Presidente fez um emocionado pronunciamento à nação: "Pô, gente, Paz, Amor e Alegria. Puta que pariu!"

 “Intendência é vida!” Olhou orgulhoso para o eficiente General Pazuello.</p>

Os Brasileiros foram às ruas, abraçaram-se entre risos e lágrimas. Síndicos e condôminos fizeram as pazes. Pela décima vez, Bolsonaro prometeu diálogo. Dória entrou no clima amigável com três fios de cabelo fora do lugar.

Ah, que alívio!

Forças Armadas não são milícias de facção partidária
Gilmar Mendes, ministro do STF

O que aconteceu com o Brasil?

O tocante artigo Meu Brasil brasileiro, de minha amiga Elena Landau, publicado neste jornal há alguns dias (22/5), ativou em mim umas memórias que entendi que poderia ser apropriado compartilhar com os leitores. O argentino Jorge Luis Borges, um europeísta assumido, tinha uma frase deliciosa acerca de si mesmo: “Soy un europeo nacido en el exilio”. Essa foi, muito modestamente, por analogia, minha sensação acerca do Brasil. Pela minha história, filho de pais argentinos, tendo nascido no Brasil e ido morar em Buenos Aires aos 10 meses de idade, eu era “um argentino nascido no Rio”.

Quando vim para o Brasil, na adolescência, eu o fiz deixando para trás lembranças associadas àquela época sangrenta da Argentina, uma das mais marcantes sendo a do sumiço de um primo distante. Ele engrossara a lista dos “desaparecidos” e, como quase todos nela, nunca mais voltou ao mundo dos vivos. Ao se esvair no ar, ele deixou a esposa – minha prima – grávida.

O pai – agora falecido – dessa minha prima era um prestigioso cardiologista, que trabalhava no Hospital Militar de Buenos Aires. Eram tempos terríveis e ele convivia com a suspeita de que, provavelmente, em algum momento deve ter tido como paciente um dos assassinos do seu genro.

Vivendo minha prima, após o desaparecimento do marido, na incerteza do que Alencar Furtado, em discurso famoso no Brasil, qualificara como as “viúvas do quem sabe se talvez”, o pai dela, querendo que a filha pudesse reconstituir a sua vida e já com o neto no mundo, ativou contatos chave e solicitou uma entrevista com o comandante de um dos principais comandos militares. Deste, dizia-se, emanavam as decisões acerca de quem poderia ser considerado preso oficial e quem estava destinado a algum dos temíveis “voos da morte”, que despejavam os cadáveres dos “desaparecidos” no Rio da Prata.


O comandante recebeu-o e disse então a frase que, ouvida no relato do pai da minha prima, nunca mais me saiu da memória e reapareceu algumas vezes nos meus pesadelos da juventude: “Doctor, está usted hablando con la persona justa. Yo soy el administrador de la muerte”. Essa era a Argentina da qual minha família escapou no já longínquo ano de 1976.

Corta para o Brasil da mesma época. Só soube do episódio que vou relatar há poucos anos, mas ele aconteceu naquela época e reflete com precisão o contraste da situação dos dois países.

No tempo dos militares, no Brasil, existia a “linha dura” e o que esta chamava de “melancias” (verdes por fora, vermelhas por dentro), na visão de quem todo aquele que não aderisse ao credo mais radical era considerado “comunista”. Em meados dos anos 1970, a cúpula do PCdoB havia sido dizimada, num evento que tinha deixado sequelas negativas para o governo. Depois disso, um político, importante liderança civil do governo Geisel, recebeu a visita de um desses representantes da “linha dura”. Sem meias palavras, este lhe disse o seguinte: “Nós sabemos que você conhece o pessoal do Partidão. Pois bem, eles vão realizar um encontro de cúpula mês que vem. Eles não sabem que nós sabemos, mas nós sabemos. Se esse encontro ocorrer, não vai ter jeito: eles vão ser mortos. E nós não queremos isso. Portanto, peço-lhe um favor: transmita essa informação a eles, para que esse encontro não ocorra”.

Esse líder civil do governo militar entrou em contato com emissários do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e foi pessoalmente se encontrar dias depois, numa igreja de Brasília, com um representante pessoal de Giocondo Dias, o líder do partido na ausência de Luiz Carlos Prestes, então no exílio. Cada um se ajoelhou para rezar, a certa distância um do outro para não ser algo óbvio, e foi então que esse deputado, liberal das antigas, como Sobral Pinto, transmitiu o recado. O encontro não se realizou e a vida dos membros do Comitê Central do Partido Comunista foi poupada.

Muitos anos depois, já adoentado, ambos idosos, Giocondo Dias tocou a campainha do apartamento daquele político da Arena. Sua mensagem: “Venho lhe agradecer por ter salvado a minha vida nos anos 70”. Sempre que conto a história me emociono.

Costumo dizer, pela experiência de vida que já expliquei acima, que não sou apenas brasileiro: eu virei brasileiro. Sendo o país onde nasci um desconhecido para mim até os 14 anos, foi a terra que acolheu a mim e minha família. Por contraste com o inferno da Argentina daquela época, o País pelo qual nos encantamos é o retratado nessa bela história que relatei acima: uma terra de nuances, de sensibilidade, de humanidade, de sentimentos nobres e de afeto. O país em que, mesmo num governo autoritário, a “turma” mais dura tentava mitigar os conflitos e havia algum respeito pela diferença, cuidados a tomar, diálogo e certa classe.

Hoje, neste festival diário a que assistimos no noticiário, que mistura agressividade, grosseria, falta total de empatia e a exacerbação do conflito, não reconheço mais o País que nos recebeu. Quatro décadas e meia depois daquela época, a pergunta que não quer calar é: o que aconteceu com o Brasil?

A volta do turismo, a pandemia e uma lição do Mágico de Oz

À medida que o mundo lentamente reabre para as viagens, é um bom momento para lembrar que estamos emergindo de um período sem precedentes na história humana: nunca tanta gente esteve proibida de ir a tantos lugares, todos ao mesmo tempo.

Para o setor mundial de viagens e turismo, que movimenta 8,9 trilhões de dólares, os 330 milhões de empregos que ele cria, e o 1,4 bilhão de nós que participamos como viajantes em 2019, as grandes questões são: as coisas vão algum dia retornar ao normal? Como será esse "novo normal"?

A Organização Mundial de Turismo das Nações Unidas calcula que o número de viajantes internacionais poderá cair até 80%. Então, a outra grande questão é se ter uns 3 milhões de pessoas a menos trafegando pelo mundo, todo dia, é tão ruim assim, afinal de contas. Quem sabe, poderia ser até uma coisa boa?

Há muito o setor turístico tem sido atacado por seu impacto imensamente negativo sobre o meio ambiente, a forma como transforma a cultura em bem de consumo, expulsa os residentes de lugares onde têm vivido há gerações, e rouba as almas dos que permanecem.

Os defensores, contudo, sempre alegam que os benefícios econômicos superam as desvantagens, sendo as viagens e turismo atualmente responsáveis por quase 11% dos empregos de todo o mundo. O argumento comercial parece inatacável, tratando-se de um setor que contribuiu para quase 10% do PIB mundial em 2019.

Aí veio a covid-19. E súbito se constata que, afinal, essa atividade não é tão boa assim para os negócios: foi o turismo da China continental, onde os especialistas creem que o surto se originou, o responsável por a doença alcançar proporções de pandemia dentro de poucas semanas.

A Universidade de Cambridge calcula que, no pior dos casos, a economia global possa perder até 82 trilhões de dólares nos próximos cinco anos, devido aos danos da pandemia. Mesmo a "projeção consensual" do estudo, prevendo um prejuízo de 27 trilhões de dólares em cinco anos, continua sendo prova de que não há mais argumento comercial pelo turismo.

Visto por esse ângulo, o setor se revela como o maior conto do vigário da história da globalização. Ainda assim, uma maioria insiste em acreditar que ele é uma boa coisa, apesar de todas esmagadoras provas em contrário.

Como Dorothy no início do filme O Mágico de Oz, de 1939, continuamos acreditando que felicidade é viajar para distantes locais exóticos, "para além do arco-íris", onde os céus são azuis e os sonhos se tornam realidade. Acreditamos nisso, embora raramente seja o que vivenciamos.

Aí viajamos para novos lugares, procurando mais felicidade, maior realização. Essa é a dinâmica mortal que está propelindo o turismo em todo o mundo. A menos que escapemos dela, nunca estaremos seguros, sustentáveis ou econômicos.

Com a Europa reavivando sua indústria turística, muitos se preparam para encarar esperas mais longas nos aeroportos, preços mais altos de passagens e acomodação, serviços reduzidos e acesso restrito a resorts e atrações culturais. Já outros preferirão cortar seus planos de férias, em vez de participar da restauração de um turismo que tenta se reinventar como setor mais seguro, mais sustentável.

Isso quer dizer: passar mais tempo em casa e na própria localidade. E para quem vive em metrópoles, como eu, haverá mais de nossas cidades para aproveitar, sem os turistas.

Quando Dorothy finalmente acorda de seu sonho, lá no Kansas, ela revela uma lição aprendida em Oz que também poderia nos ajudar a formar expectativas mais realistas sobre o turismo, nesse momento em que se tenta reavivá-lo: "Não há lugar como nosso lar."
Kevin Cote

Tentando respirar

Sei que opinião individual não interessa. Não importa que, ao contrário do presidente, eu jamais tenha tido o impulso de ouvir filho atrás da porta e sinta engulhos diante de quem acha isso recomendável. Mas confesso uma posição pessoal: sou contra prorrogar mandatos. Por isso, não gostei nada quando se falou em adiar para outro ano as eleições municipais, a pretexto da pandemia. Ainda bem que Rodrigo Maia também pensa assim. E o ministro Barroso, agora presidente do TSE, está firme na busca de alternativas que garantam a continuidade democrática no pleito, sem irresponsabilidade sanitária. Acaba de autorizar convenções virtuais para escolha dos candidatos. E como os testes das urnas eletrônicas devem ser presenciais, que haja condições seguras de trabalho para os funcionários da Justiça Eleitoral neles envolvidos. 

Pode-se fazer a votação em horário dilatado ou em mais de um dia. Talvez postergar um pouco a data, mas permitindo que a posse dos novos eleitos fique dentro do previsto na legislação. Talvez até valha considerar a hipótese de suspender a obrigatoriedade do voto neste pleito. Claro, a palavra final é do Congresso. Vejo que outros se preocupam com isso, não estou sozinha.

A mostrar que não estamos sós e inertes nestes tempos de perdas dolorosas, de Covid e de violência como a que matou George Floyd, também os democratas se mexem para tentar respirar. Contra quem quer nos asfixiar, crescem movimentos suprapartidários dispostos a passar por cima de mágoas antigas e defender as instituições. Irmanados na resistência capaz de unir diferenças. Sem alimentar confrontos, projetos pessoais ou veleidades hegemônicas. Já vêm tarde e são muito bem-vindos. Definem-se a favor da Constituição, da vida, da saúde, da justiça, da educação, da arte, da ciência, da igualdade, da Amazônia, da responsabilidade na economia, da sustentabilidade, das instituições, da liberdade de imprensa.

Está difícil respirar democracia. Mas somos muitos. Juntos ganhamos alento e força.

domingo, 7 de junho de 2020

Ruas vazias falam mais alto

Grupos pequenos filmados bem de pertinho para parecer multidões, carreatas com buzinaços ao lado de hospitais, plateia na rampa do Palácio do Planalto entre abraços, beijos e selfies com o “mito”. Xingamentos e agressões físicas a jornalistas. Fora STF, Fora Congresso, Intervenção Militar Já, bandeiras de Israel e da Ucrânia. Todos os domingos o presidente Jair Bolsonaro tem se lambuzado com mimos desse tipo de seus fiéis. Agora, ele inverte tudo: ferozes, antidemocratas e “marginais” são os outros.

Provocadas sem se saber ao certo por qual lado, as cenas de violência no primeiro domingo em que os movimentos pró-democracia decidiram ir às ruas, soaram como um round extra depois do gongo final para um Bolsonaro abatido por todos os lados. De pronto, pediu para os seus fanáticos evitarem os domingos, sabendo, claro, que isso não ocorreria. Aposta tudo no caos.

O palco de encomenda – e infiltrados para tal não estão descartados - é quebra-quebra, atiradores de pedras, destruição, gás lacrimogênio.

Nada melhor para o presidente do que a briga de rua para desanuviar as tensões recentes provocadas pelos dois processos em curso na Suprema Corte. Um sobre a sua confessa tentativa de interferir na Polícia Federal, motivo da demissão do ex-juiz Sérgio Moro do Ministério da Justiça, e outro, mais aflitivo, que esmiúça seus filhos, empresários e políticos amigos unidos em redes de notícias falsas. E ainda pelo TSE, que nessa semana inicia julgamento de impugnação da chapa que o elegeu por motivo similar: o uso de dinheiro ilícito de empresas nessas redes para fermentar mentiras.

Uma pancadaria entre torcidas permite ainda apontar os contras como “terroristas”, o que fez e continuará fazendo Bolsonaro vibrar. Pode até, nos delírios do presidente, dar um empurrão a uma sonhada intervenção armada (militar ou não) em nome da ordem.

>A conceituação muito particular e avessa que o presidente faz de liberdade, só válida para os seus apoiadores, e de democracia, que na cartilha dele inclui desobediência civil, impedem o desdenho a tal desvario. Muito menos o esforço para agradar as corporações militares, em especial as polícias estaduais sob comando dos governadores, cuja insubordinação já foi incentivada pelo presidente.

Soma-se à rota do perigo a obsessão por armar a população – “eu quero todo mundo armado” –, que na semana passada teve um toque a mais no reforço à milicianos, com a decisão do presidente de liberar ao público fuzis 5.56 e 7.62, até então de uso exclusivo das Forças Armadas.

Mais do que tudo, a guerra das ruas ajuda a embaçar o foco no ponto que mais impacta negativamente o seu governo: o pouco caso com a pandemia.

Rechaçado até pelo ídolo Donald Trump, que condenou a forma de o Brasil agir diante da multiplicação de infectados e mortos, Bolsonaro sentiu os efeitos danosos do vírus. Não sob o país, mas no seu perfil no Twitter, essa sim, sua verdadeira preocupação.

Depois de a Fundação Getúlio Vargas apontar ou aumento de críticas e a queda seguidores devido ao coronavírus, Bolsonaro até tentou se consertar na inauguração do primeiro hospital de campanha federal, em Águas Lindas, Goiás. “Do fundo do coração, torço para que pouca gente venha para cá, que é sinal de que não precisa de atendimento”.

Pronto. Uma única e rápida menção ao flagelo que já matou mais de 35 mil brasileiros. Em seguida, voltou ao discurso de sempre: reabertura o comércio, facilidades para importação de armas, renovação de carteira de aviador, suspensão da troca de tacógrafos e de chip nas bombas de combustível. Tudo, menos o essencial: o combate à pandemia.

Como se vê, há motivos de sobra para que as ruas em balbúrdia sejam desejadas pelo bolsonarismo.

Não há espaço mais democrático do que as ruas. Elas foram determinantes para alcançar o sufrágio universal, avançar na conquista por direitos civis, liberdades de expressão e comportamento. Seu grito derruba e forja governos, cria e destrói ditaduras, ceva guerras e paz.

No Brasil, de estopim para o golpe militar de 1964 elas se vestiram para a campanha pelas Diretas Já. Desiludidas, depuseram dois presidentes da República eleitos pelo voto que motivara tanta luta. E voltaram a falar alto nas jornadas de junho de 2013.

A democracia está umbilicalmente atada às ruas. A causa é nobre, urgente. Mas hoje, em nome do distanciamento social que a ciência e o juízo exigem e contra os incitamentos à violência que só a Bolsonaro servem, torço para que elas estejam vazias. É assim que a sua voz se fortalece em tempos de pandemia e de perigosas provocações.

Mary Zaidan

Um teste para militares, milicianos e o que ainda existe de regime democrático

A repulsa a Bolsonaro e seus agentes precisou de um ano e cinco meses de antigoverno para, enfim, mostrar que não é apenas um sentimento coletivo. Tem corpo, tem vida, pode mover-se e move-se. Com passos iniciais mas decididos, nomes expostos sem temor e já os primeiros atos públicos bem sucedidos em Porto Alegre, São Paulo, Manaus, Rio e outros despertares.

Esses opositores da volta ao autoritarismo começam uma caminhada sem certeza de onde pisam, envoltos em nebulosidade institucional que nenhuma declaração, civil e muito menos se militar dissipa. É uma ação defensiva de algo que, em grande parte, não existe mais. A rigor, o regime vigente não é mais aquele nascido em 1985, com a exclusão da ditadura e modelado nas ambições democráticas da Constituição. Em que regime vivemos, não se sabe.


Participar ou não das manifestações propostas para hoje, a partir de São Paulo, consumiu discussões cujo resultado só será conhecido já nas ruas. A hipótese, por um lado, de que Bolsonaro se valha do ato opositor para consumar uma rasteira na Constituição, ou faça algo para inculpar os adversários, é confrontada pelo argumento de que tal cautela se estenderia pelo tempo afora, como Bolsonaro continuará antidemocrata.

A divergência, com ponderações não desprezíveis de um lado e outro, a um só tempo denuncia e prova que estão esfumaçadas as liberdades de pensamento, de expressão e de manifestação política —ou a própria cidadania, que decorre de tais pilares da Constituição democrática.

As agitações para um regime militar, logo, para outra ditadura, contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, com ataques à liberdade de imprensa e a jornalistas, e mesmo a lutadores diretos contra o vírus homicida, isso se repete sem restrição. E sem risco algum para seus autores e mandantes instalados no palaciano gabinete do ódio.

São agitações criminais, tendo o próprio Bolsonaro como expoente e a presença de generais, reformados e da ativa. Agora, com participação até mesmo do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. Eventos só possíveis e impunes onde a Constituição e as leis pertinentes estão dilaceradas.

Não cabe dúvida alguma de que as liberdades constitucionais da cidadania estão usurpadas. Nessa corrente de delinquência política, militar e institucional, os que se manifestem contra a depravação do regime “são marginais e terroristas”, na qualificação feita pelo ex-tenente terrorista Jair Bolsonaro. Ou “baderneiros”, como prefere vice e general Hamilton Mourão. Só mudam a forma, a procedência é a mesma: o vocabulário assimilado na ditadura, com as ideias.

De volta a ela (ainda?) não estamos. No regime da Constituição democrática já não estamos. Em apenas 17 meses, o que os democratas perderam em cidadania e o país perdeu com retrocessos sociais, econômicos e culturais, é muito mais do que por ora se percebe. Não falta muito mais a perder, caso esmaeça o movimento que se inicia contra o autoritarismo neofascista. Hoje talvez seja um teste, não só para o que ainda existe de regime democrático. Também para militares e milicianos.

Brasil reabre salões militares


Só o ódio não é fake

A editora Todavia acaba de entrar em alto estilo no mercado de livros eletrônicos, com uma coleção de ensaios meditados e produzidos durante a pandemia por intelectuais do calibre da economista Laura Carvalho e dos cientistas políticos Marcos Nobre e Conrado Hubner. São e-books com, em média, 100 páginas (ou telas), todos fulcrados no inacreditável governo Bolsonaro e à venda em plataformas como Amazon e Apple. O primeiro da série, Ponto-Final, de Nobre, está na rede desde o último dia 29.

No fim deste mês, a editora Caminhos lança Guerra Cultural e Retórica do Ódio: Crônicas do Brasil, de João Cezar Castro Rocha, em formato tradicional. Castro Rocha é professor de literatura comparada da Unerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e um obstinado estudioso do iracundo obscurantismo bolsonarista desde quando todo mundo só tinha olhos para a Lava Jato e a agenda econômica do Posto Ipiranga.


Os dois livros, inteligentes, bem argumentados e sem ressaibo acadêmico, nos ajudam a compreender com consistência e sutileza o pesadelo que passamos a viver depois da eleição do mais ignorante, grosseiro e nefasto presidente da história da República. São duas análises complementares, sem ordem preferencial de leitura, embora por enquanto apenas Ponto-Final, por sorte o de maior amplitude, esteja disponível.

Hubner trata da guerra de Bolsonaro contra a democracia em suas várias instâncias, o que inclui, evidentemente, sua guerra contra a cultura. Ainda durante as eleições de 2018, Hubner rotulou o futuro presidente de “o candidato do colapso”, labéu paulatinamente justificado nos primeiros 14 meses de seu mandato. A pandemia pode apressar a derrocada.

O capitão não governa, só sabe hostilizar, ameaçar, agredir, cortar verbas, destruir. “Ele transformou a devastação em estilo de governo”, diz Hubner. Em seu governo, só o ódio não é fake. Cercado de ministros civis e militares de inauditas incompetência e sabujice, ele não preside, ele comanda uma guerra. Civil. Prometida reiteradas vezes. E é por isso que se empenha em armar a população, como se dela, armada, precisasse para se proteger dos 70% que não o apoiam. Mas as milícias precisam renovar seu arsenal, certo?

Por acreditar que “o xingamento despolitiza”, não ajuda em nada a entender o que estamos vivendo e nos desobriga de pensar, Hubner é contra tratar Bolsonaro como burro e demente. Desobrigar de pensar é, a seu ver, um dos grandes objetivos do projeto autoritário do capitão. Para ele, a disputa política segue uma lógica belicista e a cultura de morte que a acompanha.

“É uma política de morte que considera conversa fiada a ideia de que a disputa política se faz sobre um terreno comum compartilhado e compartilhável”, acrescenta Hubner. Por inviabilizar a convivência democrática, só a necropolítica serve ao objetivo principal do presidente, que sempre foi destruir a democracia e, consequentemente, impor uma ditadura.



Ponto-Final, que não deveria ter esse hífen, é uma das expressões prediletas de Bolsonaro, principalmente ao lidar com a imprensa, expediente típico de quem exige ter a última palavra e impor o silêncio numa discussão. Coincidência ou não, ganhou esse nome a lei que em 1986 paralisou os processos contra agentes da ditadura militar argentina, mas acabou declarada inconstitucional em 2005, levando à prisão diversos de seus verdugos. Hubner alerta: “É uma expressão traiçoeira, volta-se sempre contra quem faz uso dela”.

Como é sabido e lamentado, não impusemos sequer um ponto e vírgula à ditadura de 64, o que por certo viabilizou a ascensão, para não falar da mera existência do bolsonarismo e seu culto ao torturador Ustra e dos zumbis da linha dura frotista que presentemente vagam pelo Planalto.

Em suas crônicas do Brasil intoxicado pela retórica do ódio, o prof. Castro Rocha passa pela blitzkrieg orientada em escala mundial por Steve Bannon, o Dr. Mabuse das fake news, para logo chegar à nossa jabuticaba digital, com seus influenciadores de aluguel e seu vasto exército de robôs, ora investigados pela PF e sitiados por uma CPMI.

No DNA do “gabinete do ódio” misturam-se a velha Doutrina de Segurança Nacional e suas paranoias sobre “inimigo interno”, o discurso revanchista e revisionista sobre o golpe de 64 fermentado no projeto Orvil (o anagramático Livro Secreto do Exército com que o general Leônidas Pires Gonçalves tentou em vão abafar e desautorizar os documentos e relatos irrefutáveis sobre as arbitrariedades, torturas e desaparecimentos de corpos na ditadura, denunciados no livro Brasil: Nunca Mais) e as alucinações pornofascistas daquele astrólogo da Virginia, o Svengali ideológico de várias Trilbis que (de)compõem o governo Bolsonaro.

O prof. Castro Rocha reconstitui, nas necessárias minúcias, a evolução dessa lavagem cerebral marcada pelo ressentimento e a ideia fixa de que comunistas planejam dominar e destruir o Brasil infiltrados nas universidades, na mídia, nas artes – em toda cultura, enfim. Essa ladainha expiatória, cediça e em descrédito desde a Guerra Fria, já lastreou um bocado de ditaduras de extrema direita, inclusive aqui, e continua sendo o cantochão dos bolsonaristas, com eco na cúpula do governo, que enquanto alardeia não pretender um golpe (ou autogolpe), esmera-se em instrumentalizar todas as instituições do Estado a seu favor.

A função precípua da guerra cultural bolsonarista poderia ser, mas não é, a imposição dos valores de sua grei, que inexistem ou são anulados por falas e atos de seu líder, cujo único desígnio, vale insistir, é a destruição sistemática das instituições. Para o professor, “chegou a hora de dizermos com todas as letras que é um governo de extrema direita, apenas interessado num projeto autoritário de poder cuja finalidade última é eliminar todo aquele que pense de forma diversa”.

Os desafios e a resistência

Os índios estão se afastando das aldeias e entrando mais profundamente na floresta para fazer o isolamento social. Foi o que o fotógrafo Sebastião Salgado contou. O desmatamento pode liberar outros vírus e bactérias que hoje vivem em equilíbrio no ecossistema da Amazônia, por isso, preservar a floresta é proteger a humanidade contra novas pandemias. Foi o que disse o cientista Paulo Artaxo, da USP. Temos o que celebrar na área ambiental: a resistência do ambientalismo, da comunidade científica, da sociedade brasileira. É o que pensa a ex-ministra Marina Silva.

Ontem, eu mediei um debate entre os três aqui no jornal, pelo dia do meio ambiente. Cada um de sua casa, como convém nos tempos atuais. De Paris, Sebastião Salgado está em contato direto com o solo da Amazônia. Ele disse que das comunidades indígenas saem as informações mais precisas do que ocorre na floresta. Perigos imensos rondam os povos indígenas.

— Na terra Yanomami há 22 mil garimpeiros, e eles podem levar a Covid-19, além da destruição ambiental. No Vale do Javari, onde vivem os isolados Korubo, há também os garimpeiros. É conhecido que os indígenas não têm as defesas imunológicas que nós temos. Na Amazônia há a maior riqueza cultural do planeta, mais de 300 tribos que falam quase 200 línguas, há 120 grupos que nunca foram contactados. Pode haver um genocídio — diz Salgado.

Paulo Artaxo disse que há paralelos entre as crises do clima, da perda de biodiversidade e a da Covid-19. Para todas elas a solução está na ciência:

— A extrema-direita não aceita a ciência, a não ser quando é do seu interesse. Essas três crises juntas podem ter efeitos devastadores. O desmatamento da Amazônia tem impacto climático, provoca perda de biodiversidade e cria desequilíbrio num ecossistema que evoluiu por milhões de anos onde há inúmeros patógenos, vírus e bactérias. Eles podem ser liberados, como aconteceu com o ebola na África.

Para enfrentar os três problemas juntos, Artaxo recomenda procurar o desmatamento zero e proteger as populações indígenas, que são os guardiões da floresta. As áreas mais preservadas da floresta são exatamente as terras indígenas.



Marina disse que a sociedade brasileira tem resistido aos constantes ataques ao meio ambiente nos últimos anos:

— Para não ficar apenas nas tristezas, diante do desmonte da governança ambiental por um ministro que conspira contra a sua própria pasta, é preciso lembrar que estava tudo pronto para aprovar a MP da grilagem e ela saiu de pauta, Salles tentou passar sua boiada e mudar a Lei da Mata Atlântica e teve que revogar seu ato. Por isso digo que é preciso celebrar, neste e em outros governos, os momentos em que a resistência venceu — disse a ex-ministra que, no seu tempo no Ministério do Meio Ambiente, criou um plano de combate ao desmatamento que foi mantido mesmo após a sua saída e reduziu em 83% a taxa anual de destruição da Amazônia.

Paulo Artaxo disse que sempre perguntam a ele, em seminários, quando o mundo voltará ao normal. Ele estranha a pergunta:

— Não é normal destruir 10 mil km2 de floresta amazônica por ano, não é normal emitir 48 gigatoneladas de CO2 por ano, não é normal ter sete milhões de carros em São Paulo criando transtornos e fazendo a população respirar o ar insalubre. O aumento da temperatura pode tornar o Nordeste inabitável em poucas décadas. Não existe lockdown para o clima. O normal seria buscar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

Salgado diz que o desmonte que o governo Bolsonaro tem feito ameaça o estado brasileiro. A Funai, que já teve grandes antropólogos na direção, hoje é dirigida por um delegado de polícia. Há outros órgãos sob ataque:

— Temos que evitar a "venezuelização" do Brasil. Bolsonaro está empregando muitos militares, para dar a impressão de que o Exército está apoiando a extrema-direita, um grupo sectário, mas não está. O Exército é uma grande instituição que está na Amazônia protegendo nosso território e os povos indígenas.

Marina disse que atualmente grupos da sociedade civil estão se unindo, em movimentos como o Juntos, ou Somos 70%, para proteger a democracia. Ela acha que a pandemia mostrou que a nova economia é ainda mais necessária, e que a inclusão tem que ser também digital. Hoje, quem está excluído digitalmente não consegue estudar nem trabalhar.

O ‘chavismo’ de Bolsonaro e o risco das milícias armadas no Brasil

Três episódios recentes demonstram o nível de violência que a política brasileira tem ganhado. No primeiro um grupo de quinze atiradores, alguns usando camisetas com a imagem do presidente, se filmam descarregando suas armas em alvos enquanto entoam gritos de “Bolsonaro” e xingamentos ao governador de São Paulo, João Doria. O vídeo foi amplamente compartilhado em redes sociais, inclusive por um dos filhos do presidente.

No segundo caso, o ex-deputado Roberto Jefferson, que reapareceu há poucas semanas para reforçar a tropa de choque do presidente, entoa um discurso de guerra civil, dizendo que já estaria “desenferrujando” seu revólver para enfrentar os que tentarem ir às ruas contra Bolsonaro.

Por último, temos o presidente assumindo publicamente no vídeo da fatídica reunião ministerial que a conversa de armas para defesa da família e propriedades não passava de fachada, já que sua intenção de "escancarar a questão do armamento” é para que seus apoiadores possam pressionar (armados) todos que fazem críticas ao seu Governo.

Tudo isso se torna ainda mais grave visto que não estamos diante de nenhuma ameaça externa. As únicas crises são gestadas pelo próprio Governo. Longe de repudiar esses ataques, Bolsonaro os municia garantindo que não precisem recorrer a revólveres enferrujados nem a munições velhas.



Desde o início de seu mandato, sabendo que não teria apoio popular nem votos necessários para mexer na lei de controle de armas, Bolsonaro realizou flexibilizações via decreto para facilitar a aquisição (dispensando comprovação de necessidade), aumentou a potência de armas que civis podem comprar, liberando calibres e armas como carabinas semi-automáticas antes de uso exclusivo das forças de segurança, multiplicou —por meio da portaria citada por ele na reunião de ministros— por 12 o limite de munição anual para cidadãos comuns (de 50 para 600 unidades), além de facilitar recargas de munição caseiras, que não são rastreáveis. Soma-se a isso, a recente e injustificável determinação de cassar portarias do Exército que traziam normas técnicas para melhorar a marcação e rastreabilidade de armas e munições, aprimoramentos fundamentais para a elucidação de crimes, comprovando o perigoso uso político da Presidência em seu ataque às normas que combatem o tráfico de armas e contrariando sua suposta intenção de combate ao crime.

Só no primeiro ano de Governo foram mais de 50 mil novas armas vendidas no mercado civil. O grupo de CACs (colecionadores, atiradores e caçadores), em que se enquadram os integrantes do vídeo do início do artigo, reúne sozinho um arsenal de quase meio milhão de armas, segundo o Exército, e vive um crescimento exponencial de integrantes estimulados pela série de "privilégios” que o presidente Bolsonaro não para de conceder. Desde que ele assumiu, este grupo conseguiu aumento no limite de armas —atiradores esportivos podem ter até 60— e também aumento da validade de seus registros, o que na prática implica em prazos de até 10 anos para refazer uma avaliação psicológica ou apresentar um novo atestado de antecedentes. Conseguiu ainda permissão para ter fuzis e comprar até 180 mil munições e 20 kg de pólvora por ano para recarregar munições em casa.

Aliar este arsenal de proporções irracionais à violência política pode gerar resultados explosivos. O “vamos fuzilar a petralhada” anunciado pelo atual presidente na campanha de 2018 já era violento e antidemocrático quando proferido. Com milhares de armas a mais em circulação deveria despertar urgência na atuação dos órgãos competentes.

Vale lembrar que, ainda que a Constituição vede a presença armada em manifestações, tivemos recentemente um caso em São Paulo em que um militante pró-Bolsonaro disparou contra uma jovem após uma desavença na avenida Paulista. Em 2015, manifestantes de um acampamento pró-ditadura militar já haviam realizado disparos contra a Marcha de Mulheres Negras em Brasília. E, mais recentemente, houve casos de disparos contra apartamentos que realizavam panelaço no bairro paulistano de Perdizes.

O incentivo a uma retórica política violenta e o armamento de facções para defesa de governos não encontra lugar em Estados democráticos e hoje é visto nas milícias de apoio ao Governo Maduro na Venezuela, com acampamentos, treinamento militar e armas.

Bolsonaro fez sua campanha afirmando que elegê-lo seria evitar que o Brasil se transformasse em uma Venezuela, mas todos os seus passos, ataques à imprensa, paranoia de ameaça estrangeira e discurso de intimidação de qualquer força que questione o seu Governo o colocam cada dia mais próximo de Nicolás Maduro.
Bruno Langeani

Onde mora o perigo

Bolsonaro está usando as Forças Armadas, de uma forma bem clara, como um elemento de intimidação. E as Forças Armadas, pura e simplesmente, estão se deixando usar. E isso não é o único perigo dele. Ele tem uma boa penetração nas Polícias Militares. Então, muito possivelmente, ele pode estar articulando um golpe usando Polícias Militares e neutralizando as Forças Armadas. Ele pode estar até em um ponto em que não precise usar as Forças Armadas. Basta que elas fiquem neutras e deixem a Polícia Militar atuar
Fernando Gabeira

Governo procura dinheiro no cofre para melhorar a própria imagem

Em tempos de aperto, o governo foi procurar alguns trocados no cofre para melhorar a própria imagem. Numa portaria publicada nesta quinta (4), o Ministério da Economia tirou R$ 83,9 milhões do orçamento do Bolsa Família e repassou o dinheiro para bancar um aumento de gastos da Presidência com ações de publicidade institucional.

O valor representa uma fração minúscula das despesas totais do programa social, mas reflete com nitidez as prioridades e as escolhas políticas da equipe de Jair Bolsonaro.

A pasta de Paulo Guedes tentou justificar a tesourada. Afirmou que 95% das famílias atendidas passaram a receber o auxílio emergencial criado na pandemia do coronavírus. "Nenhum beneficiário do Bolsa Família foi prejudicado no recebimento de seu benefício", acrescentou.

Faltou dizer que o programa tem hoje uma fila de espera de 430 mil famílias —que se cadastraram, mas ainda não recebem o pagamento. Esse corte, de acordo com técnicos do governo, poderia atender 70 mil famílias no segundo semestre deste ano.

Os contabilistas do Ministério da Economia, entretanto, não foram além das cifras de uma planilha. A pasta fala como se o dinheiro estivesse sobrando, mas não explica por que o governo decidiu inflar justamente o orçamento de comunicação institucional do Palácio do Planalto, enquanto o país ainda tenta conter a pior crise sanitária desta geração.

O dinheiro remanejado seria suficiente para comprar mais de 3.500 ventiladores pulmonares usados no tratamento das vítimas do coronavírus. Quando o Ministério da Saúde assina contratos para a produção desses equipamentos, o governo faz festa para divulgar a proeza.

Com os novos milhões, a Secretaria de Comunicação da Presidência quase dobrou seu orçamento para essas ações. Nessa rubrica, já foram contabilizadas despesas com campanhas para melhorar a imagem do governo no exterior e até com a manutenção das contas do Planalto nas redes sociais, que costumam encher o presidente de elogios.

Bolsonaro copia Stalin e manda apagar a tragédia do Covid-19

Admita-se por uma questão de justiça: tudo o que o presidente Jair Bolsonaro faz de errado (ou seja: quase tudo), ele faz muito bem feito. O caso do combate à pandemia do coronavírus é um exemplo. Bolsonaro poderia ter ignorado o vírus, o que já seria um suicídio político, mas não. Chamou-o de gripezinha, calculou que mataria no máximo 800 brasileiros, como se isso fosse pouco, e declarou que o mais importante seria salvar a economia.

Satisfeito? Não. Demitiu o ministro da Saúde, o mais popular do governo, porque ele era… Era o ministro mais popular do governo, o que o incomodava. Substituiu-o por um médico sem experiência em administração pública e tentou impor todas as suas vontades a ele. O médico pediu demissão em menos de um mês. Foi sucedido por um general com fama de ser especialista em logística. A única coisa que se fato sabe é dizer amém a Bolsonaro.

Henfil — O Pasquim, Rio de Janeiro, 31.08.1979 a 06.09.1979
Bastou? Não. Para completar sua obra quase perfeita, que o imortalizará quando for escrita a história da pandemia que assolou o mundo no começo do século 21, Bolsonaro apelou para um recurso muito usado pelo ex-ditador comunista soviético Joseph Stalin: apagar imagens que o desagradam. Stalin mandava apagar das fotografias oficiais figuras que haviam caído em desgraça por divergirem dele. Antes ou depois, mandava executá-las.

Inconformado com o número crescente de mortos pela gripezinha, e assustado com os estragos políticos causados à sua imagem de governante relapso, Bolsonaro mandou apagar os números sobre a tragédia oferecidos por páginas oficiais na internet. No início da noite, saiu do ar o site oficial da covid-19 que apresentava um balanço detalhado sobre a situação da pandemia. No início da madrugada, a página do Portal da Transparência.

Um dia após tornar-se o 3º país com mais mortes por coronavírus, o Brasil registrou 1.005 novas mortes nas últimas 24 horas, o que eleva o total para 35.026. É o quarto dia consecutivo que o país contabiliza mais de mil mortes em 24 horas. De quinta para sexta, foram confirmados ainda 30.830 novos casos da doença, o que aumentou o total de casos para 645.771. Isso acontece quando as medidas de isolamento estão sendo relaxadas.

O Ministério da Saúde vai recontar o número de mortos. Segundo o milionário Carlos Wizard, ligado a negócios do ramo de hospitais e que já despacha como futuro secretário da Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do ministério, os dados atuais seriam “fantasiosos ou manipulados”. Antes da ascensão do general e do milionário, ambos bolsonaristas de berço, o ministério reconhecera que há um grande número de subnotificações.

Mas não é disse que se trata. Afirma Wizard: “Tinha muita gente morrendo por outras causas e os gestores públicos, puramente por interesse de ter um orçamento maior nos seus municípios, nos seus estados, colocavam todo mundo como covid. Estamos revendo esses óbitos”. Entendeu? Rever para enxugar os números. Enxugar para que eles pareçam menores. Como se isso fosse capaz de desidratar a tragédia. Como se assim fosse possível reescrevê-la.

O país aguarda os novos números para debochar deles. Nos últimos 3 dias, por orientação de Bolsonaro, o governo atrasou a divulgação dos boletins sobre o coronavírus com o objetivo de prejudicar sua veiculação pelos telejornais no horário nobre. Os boletins saíam nos fins de tarde. Passaram a sair depois das 19h. Ultimamente, perto das 22h. “Não interessa de quem partiu [a ordem]”, decretou Bolsonaro quando perguntado a respeito.