sexta-feira, 4 de outubro de 2019

'Ele sobreviveu com sua armadura de livros e letras'

Nem sempre a vida supera a literatura. Em alguns casos, elas são cúmplices na árdua tarefa de não deixar um fato cair no esquecimento ou de esquentar o que aparentemente esfriou no fio da memória. Com o perdão dos leitores que preferem a imprevisibilidade até o final, para se falar do recém-lançado O livro preto de Ariel (Editora Reaja, 2019), um desses casos em que a violência da vida adentra a ficção e parece por esta realçada, é oportuno citar um trecho da última página. “Ele sobreviveu com sua armadura de livros e letras”, anuncia o narrador. E nesta frase curta cabe parte da potência que este livro, o terceiro do autor baiano Hamilton Borges, 52 anos, carrega e nos oferece.

A trajetória do protagonista Ariel em certa medida parafraseia o provérbio africano que diz: “Até que os leões tenham suas histórias, os contos de caça glorificarão sempre o caçador”. Jovem negro, morador do Nordeste de Amaralina, bairro pobre da capital baiana, preso sem entender sob que acusação, sem direito a um julgamento justo, violentado nas instalações do sistema prisional, é o sujeito em primeiro plano de uma revolução que se dá pela soma da consciência das fissuras do sistema e da corrupção do Estado, da força das ações coletivas e do acesso, ainda que mínimo, ao conhecimento. A narrativa da vida de Ariel, antes e durante quatro anos na prisão, mescla ficção e realidade de vários jovens negros como ele. A partir de sua experiência carcerária, conhecemos diferentes perfis de homens pretos marcados pelo racismo, extremamente eficiente, pode-se dizer, em suas práticas de exclusão e morte.


A cadeia, narrada por Borges, acumula memórias das pequenas humilhações cotidianas da população negra da Bahia, do medo de ser confundido com bandido na rua ou de acabar “esquecido” na prisão por falta de um defensor público. Além disso, as condições de alimentação, higiene e atendimento médico precários são explorados com a honestidade que falta muitas vezes em outros tipos de relatos, como os dos programas policiais de televisão. Destaca-se também o protagonismo das mulheres na luta, na contracorrente dos constrangimentos a que são submetidas mães e companheiras dos homens presos durante as visitas ou nas abordagens policiais nos bairros.

Um elemento fundamental do enredo é a recuperação da Chacina do Cabula, o que coloca o livro inevitavelmente na encruzilhada entre ficção e documento. Na chacina, doze jovens, entre 16 e 27 anos, foram mortos pela Polícia Militar da Bahia em fevereiro de 2015. Os laudos à época indicaram que foram disparados 143 tiros, 88 atingindo os corpos em posição de autodefesa. Os nove policiais militares indiciados pelo crime são réus e chegaram a ser julgados e absolvidos no mesmo ano, porém a sentença foi anulada após pedido do Ministério Público da Bahia.

Da trama real à escritura, o romance faz dois movimentos importantes; o primeiro, um recuo necessário na história recente da cidade de Salvador, para falar do genocídio da população negra e periférica, da militarização do sistema carcerário, das condições de vida dos presos, do racismo estrutural que marca previamente negros como população preferencial dos presídios e que nos serve de janela para pensar sobre o que ocorre em todo o país. O segundo, igualmente profundo, é o chamado sobre o poder transformador da literatura. Ariel mantém a sanidade quando preso graças ao amor pela namorada que o ajudou a aprender a ler longe da faixa etária prescrita pelo sistema de ensino, e por meio de uma escrita quase compulsiva praticada a contragosto das condições do presídio. Resumindo assim, pode soar romântico ou populista, mas não é, como não foi com Lima Barreto, Solano Trindade, Paulo Colina, Adão Ventura e tantos outros autores que deram tessitura a corpos negros. Ariel, sujeito que deve ser pensado no coletivo, e o livro que escreve nas paredes da penitenciária acabam por homenagear à literatura enquanto lugar de resistência e proteção.

Encontrar o equilíbrio entre ficção e história, forma literária e conteúdo, escrita e denúncia é a tarefa incontestável do autor. Ariel transmuda uma cela em biblioteca e as paredes de uma solitária em folhas de papel, convocando o leitor a pensar como a leitura pode mudar rumos. Como bem define Matheuza Xavier, militante da organização política “Reaja ou será mort@” e coordenadora da Escola Pan-africanista Winnie Mandela, ele é “o herói tão esperado de nossos tempos, da pele preta e com lápis na mão”.

Do livro também escorre uma atualidade desconfortante, comprovada de novo pelos dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o assombroso número de pessoas mortas pela polícia. Para trazer à superfície a violência por que é marcada a vida da população negra, além de Ariel, conhecemos uma galeria de personagens invisíveis no cotidiano branco de classe média; são homens, vendedores ambulantes, catadores de material reciclável, porteiros e lixeiros que se deslocam para os bairros nobres durante o dia. São mulheres que carregam o mundo nas costas, porque maternar homens e mulheres negros sabendo como opera o sistema de exclusão é a primeira batalha das suas vidas, e depois porque elas vão para o front em nome da justiça e em defesa dos direitos de filhos, sobrinhos e companheiros.

Em termos de representação de personagens negros, dar humanidade a quem o tecido social muitas vezes renega é algo a ser mais explorado na literatura. Os novos nomes que despontam em festas literárias e selos editoriais preocupados com esta autoria fazem uma curva importante, mas ainda incipiente, sobretudo em se tratando de temáticas específicas, como é o caso de Hamilton Borges. Ciente disso, o autor assume a posição de um escritor que quer propor novas representações não apenas da população preta, mas daquela que ocupa talvez a mais perversa instituição de controle social. O desafio de denunciar o Estado e ao mesmo passo humanizar personagens que apenas mais recentemente deixam de ocupar papeis subalternos torna o livro necessário para qualquer leitor disposto a entender o mundo equivocado e cruel em que fomos arremessados. É um convite a conhecer outras perspectivas sociais, o que deveria bastar como experiência estética. Para além, é claro, de marcar em nossa literatura atual uma narrativa de compreensão da própria história em marcha a partir da visão de sujeitos sem privilégios, alijados em uma posição quase intransponível de mobilidade social.

Com O livro preto de Ariel, Borges parece encerrar uma primeira e bem realizada trilogia em diferentes gêneros (conto, poesia e romance), uma vez que nos livros anteriores, Salvador: cidade-túmulo (2018) e Teoria Geral do Fracasso (2017), o autor trata dos mesmos temas: violência contra negros, racismo antinegro, as condições e os modos de operar do sistema penitenciário. Na capital mais negra do país, na cidade mais negra fora da África, ter a pele preta, para usar o emblemático título de Ana Maria Gonçalves, já é “um defeito de cor”. O livro preto de Ariel chega em hora apropriada, quando não apenas a Bahia, mas todo o país, precisa com urgência enfrentar a crueldade que nos leva dois séculos para trás e nos recoloca num lugar de barbárie.
Edma de Góis

A porra da árvore

Nesta terça-feira (1º), numa tentativa de elevar sua estatura como estadista, o presidente Bolsonaro subiu numa cadeira e discursou para um grupo de garimpeiros na entrada do Palácio do Planalto. Segundo ele, a campanha estrangeira em defesa da floresta amazônica não quer saber da preservação ambiental ou da proteção aos índios. E, de acordo com sua ideia do nível de sofisticação de sua plateia, declarou: "O interesse na Amazônia não é no índio, nem na porra da árvore. É no minério!".


A maneira de Bolsonaro se referir à árvore é injusta. A árvore não é uma porra. É verdade que contém uma seiva que, à visão desarmada, pode ser confundida com o esperma --ambos são espessos, aderentes e viscosos. Mas a semelhança acaba aí, e Bolsonaro, matuto de origem, sabe disso. Seu uso de "porra", portanto, só pode ter se dado na forma chula, significando, segundo o Aurélio, "enfado, impaciência, desagrado". É o que as árvores lhe provocam, donde estar dedicando seu mandato a transformar o Brasil num pasto ou numa Serra Pelada sem volta. Deve isso aos patronos da sua candidatura.

O jovem Bolsonaro certamente se aplicava em chutar árvores, desfolhar galhos ou urinar em canteiros. Mas, se cursou a escola fundamental, talvez tenha aprendido que o Brasil nasceu de uma árvore: o pau-brasil, cujo ciclo econômico durou pouco, pela exploração irresponsável que o levou à quase extinção. Bolsonaro não gosta dos índios, mas sua mentalidade tem algo em comum com a deles --também é extrativista.

Quanto à porra, expressão que usou para desmerecer a árvore, é bom lembrar que, na origem, Bolsonaro também já foi uma. Pelo menos, foi chapinhando nela que se cruzaram os genes que o formaram. Em respeito ao leitor, vou me abster de entrar em detalhes.

Basta dizer que, embora talvez Bolsonaro não acredite, o processo de sua fecundação foi o mesmo que gerou o cacique Raoni.
Ruy Castro*

Todos os poderes do Supremo

Embora não conheça os bastidores e meu trabalho costume ser distante de Brasília, às vezes sou tentado a dar explicações simples sobre esse complexo movimento do Supremo. Toffoli num certo momento, atendendo Flávio Bolsonaro, proibiu o Coaf de passar informações financeiras aos órgãos de investigação. Em seguida, Alexandre de Moraes suspendeu uma investigação do Coaf, na esteira da decisão de Toffoli. Finalmente, Gilmar confirmou a suspensão do processo de Flávio e Queiroz.

A decisão de Toffoli é problemática em si, pois traz prejuízos à luta contra a corrupção e se choca com compromissos internacionais do País. De sua parte, Bolsonaro escanteou o Coaf e o transformou num órgão de inteligência financeira no Banco Central.


Tudo começou com o dinheiro de Fabrício Queiroz e Flávio Bolsonaro. O mínimo que se pode dizer e que é difícil de explicar, senão não haveria tanto empenho em bloquear as investigações. Mas o Coaf numa outra dimensão estava também examinando as contas bancárias da mulher de Toffoli e da de Gilmar. Pobre Coaf: uniu o presidente e dois Poderes contra ele. Sem contar Senado e Câmara, cujos líderes não morrem de amores por quem segue o curso do dinheiro.

Para agravar o problema, surgiu um grupo corrupto na Receita Federal, precisamente em contato com a Lava Jato do Rio de Janeiro. Foi desmantelado nesta semana. Tudo indica que acessou ilegalmente os dados da mulher de Gilmar.

Quando Toffoli proibiu usar dados do Coaf, ainda não se sabia desses crimes dos fiscais, levantados pela própria Lava Jato. E sua decisão repercute em centenas de casos policiais no Brasil, paralisa investigações. A suspeita de corrupção na Polícia Federal, por exemplo, não poderia suspender todas as suas atividades no combate ao crime.

Toffoli criou uma delegacia própria dentro do STF. Alexandre de Moraes funciona como o delegado. Censurou a revista Crusoé, determinou buscas e apreensões na casa das pessoas.

Eles têm um canto próprio de poder e os outros ministros parecem conformar-se. As lamentáveis declarações de Janot serviram para fortalecer esse núcleo e, simultaneamente, revelar seu viés autoritário.

Considero razoável que, depois do que disse, fosse apreendida a arma de Rodrigo Janot. Para evitar recaídas. No entanto, é completamente inexplicável apreender celulares, computadores e tablets na casa do ex-procurador. Não esclarece nada sobre o caso, todavia abre um leque de informações valiosas no jogo do poder.

Da mesma forma, é exagerado proibir que Janot se aproxime de qualquer ministro do Supremo. Não há nenhum indício de que represente perigo para os dez restantes. É supor que Janot encontrasse um ministro e dissesse: não tem o Gilmar, vai você mesmo.

São passos de uma dança velha como a política. A pretexto de combater os métodos autoritários, enveredam pelo caminho que querem combater.

Numa decisão do plenário, o Supremo deu a entender que poderia suspender muitas condenações da Lava Jato. Minha presunção é de ter sido apenas um bode na sala: restringir a anulação da sentença aos casos de quem recorreu.

Apenas uma presunção. O Supremo sabe que não há uma oposição pequena no Congresso e Jair Bolsonaro foi neutralizado pelo flanco aberto no caso de Flávio e Queiroz. A única modulação possível nasce na sociedade, embora algumas manifestações que pedem o fechamento do STF acabem por fortalecê-lo, tal como é. É uma situação complicada e no fundo está em jogo não a extinção da Lava Jato, mas o limite do freio de arrumação.

Se as coisas marcham nesse ritmo, o limite será dado com o fim da prisão em segunda instância. Suponho que esse seja o marco que pretendem atingir.

Não considero surpreendente que Lula tenha desprezado a progressão de sua pena e se recusado a deixar a prisão. Empregou toda a sua energia na tese de que é inocente e nega o processo de corrupção. Por que, agora, sair da cadeia e enfraquecer a própria narrativa? Sobretudo porque no horizonte está a decisão do Supremo sobre a prisão em segunda instância, ou mesmo a suspeição de Sergio Moro. Ele se mostra mais experiente que seus conselheiros.

Num mundo em que as narrativas atropelam as evidências, elas são a matéria-prima do processo eleitoral. Narrativas contra narrativas, as do populismo de direita ou de esquerda continuam sendo as que mais polarizam. Esse confronto é previsível e existe em outros países. O que há de singular é ver como a política caiu nas mãos da Justiça. De um lado, pela incapacidade de resolver no espaço próprio grandes temas nacionais. O Supremo decide pelos parlamentares. Além disso, tanto esquerda como direita têm seus problemas criminais e precisam sempre da boa vontade dos ministros.

Não creio que Toffoli, Gilmar e Moraes queiram o poder apenas para si. Duvido que contestassem o surgimento de outro núcleo, com objetivos próprios e, quem sabe, sua própria delegacia informal. Poderes monocráticos ou mesmo grupais na alta Corte são apenas um reflexo do vazio em torno dela.

O que é possível hoje, e nesse sentido a democracia está de pé, é protestar, mesmo sabendo que são eles que decidem se ouvem ou não. Como disse acima, é uma democracia. Mas não do tipo que você está satisfeito com seu funcionamento.

O processo de redemocratização foi tocado com consensos bastante amplos, como o da luta pelas eleições diretas. Os próprios atores o levaram para um impasse. Vieram a Lava Jato, as delações do fim do mundo.

As eleições eram um caminho para recomeçar. Mas a renovação foi insuficiente no Congresso. E Bolsonaro é um museu de novidades.

O próprio calendário eleitoral pode reanimar a energia renovadora, voltada para as cidades e seus problemas. Ainda assim, o quadro nacional continua inquietante.

É algo que pode ser também retomado com novas batalhas eleitorais. Mas não suprime a questão: o que fazer até lá, como se mover nesse labirinto?

Imagem do Dia


Planos para o passado

Eu queria escrever aqui alguma coisa que fizesse sentido em meio a esta absurda distopia em que estamos metidos. Mas não consigo. A realidade me engole, mastiga e me cospe. Eu só queria dizer que tenho um monte de motivos para acreditar que vai dar tudo certo, e que vamos sair desta ainda mais fortes como nação. Mas não posso. Os diários populares saltam na minha garganta e me sufocam cotidianamente. Eu ficaria feliz da vida se no horizonte, mesmo que distante, assim, apagadinha, alguma esperança acenasse com um lenço branco. Mas não vejo sequer a miragem de uma saída honesta. Muito antes pelo contrário. São trevas que nos assolam. Há em curso um movimento de ataque à inteligência e às liberdades individuais. Seria prazeroso trazer aqui as últimas conquistas nas áreas da ciência e da pesquisa, os resultados dos nossos projetos em educação e saúde. Mas foram todos guilhotinados. Serviram suas cabeças em bandejas de nióbio. Como me faria bem revelar, em primeira mão, algum avanço, qualquer que seja, na direção de um futuro digno. Acontece que estamos marchando em uma esteira elétrica ensaboada, os que ainda não caíram não saem do lugar. É triste. É mais que triste. É nojento. Alguém poderia, por favor, me trazer um Fontol?! Perdoem, caríssimos, minha desesperança, mas é que eu não consigo mais fingir que não é comigo. Não me comove fazer planos para o passado.

Dístico

Neste tempo de misérias feitos
só se vive contrafeito

Mário da Silva Brito

Licença para matar (e ocultar provas)

O governo vai gastar R$ 10 milhões para promover o chamado pacote anticrime. As peças publicitárias foram apresentadas ontem, em solenidade no Planalto. Usam viaturas cenográficas e linguagem sensacionalista, no tom dos programas policiais de TV.
A campanha tem lances de propaganda enganosa. Um dos anúncios trata da prisão em segunda instância, que os deputados já retiraram do texto original. Quem assistir aos comerciais ficará com a impressão de que a proposta está prestes a ser aprovada.

O pacote tem sido criticado por proteger policiais que cometem excessos “sob escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. Ontem o ministro Sergio Moro insistiu que isso não significa uma licença para matar. Faltou combinar com o presidente Jair Bolsonaro, que voltou a defender PMs acusados de execuções.


“Muitas vezes, a gente vê um policial militar que é mais conhecido ser alçado para uma função e vem a imprensa dizer: ‘Ele tem 20 autos de resistência’. Tinha que ter 50! É sinal de que ele trabalha”, disse. O presidente contou que batia ponto na cadeia de Benfica para visitar PMs presos. Ele acrescentou que muitos seriam vítimas de “ativismo” da Justiça e do Ministério Público. “Um absurdo isso daí!”, esbravejou.

Desde a campanha, Bolsonaro repete que o policial que mata “tem que ser condecorado e não processado”. Ontem a Polícia Civil prendeu quatro pessoas ligadas ao PM reformado Ronnie Lessa, acusado de executar a vereadora Marielle Franco. De acordo com as investigações, o grupo jogou a arma do crime no mar.

A suspeita de ocultação de provas também ronda a morte da menina Ágatha Félix, de oito anos. A PM alega que ela morreu durante tiroteio, versão contestada pela família. Dos onze policiais chamados para a reconstituição do crime, só dois apareceram. O caso mobilizou o país, mas Bolsonaro se recusa a comentá-lo.

Ontem a PM prometeu apurar o relato, publicado pela revista “Veja”, de que agentes teriam ido ao hospital para pegar a bala que matou a menina. Em Brasília, Moro foi questionado sobre o silêncio do presidente. “A pergunta não é apropriada”, desconversou.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Cretáceo do Brasil


Normalidade à brasileira

Dias atrás fiz uma análise do discurso de Bolsonaro na ONU e recebi um comentário interessante. O sujeito dizia que minha avaliação estava OK, mas tinha um problema.

Eu parecia supor que o Brasil vivia uma situação de “normalidade democrática”. Terminava dizendo achar completamente “anormal” qualquer pessoa que havia gostado daquele discurso.

Curiosa visão de pluralismo político contida nesta ideia: quem discorda de mim não é apenas alguém que pensa e defende valores diferentes dos meus. É simplesmente anormal.

O que poderia ser apenas mais uma besteira, típica da internet, me pareceu um sintoma do Brasil atual. Na outra semana, escrevi algo sobre as relações entre Executivo e Congresso e fui repreendido, por um velho amigo, dizendo que o simples fato de fazer analise política, no Brasil de hoje, sem “denunciar e tomar posição”, era uma “rendição à barbárie”. Seria o mesmo que analisar o quadro partidário na Alemanha à época da ascensão do Führer, nos anos 1930.


É isso. Fácil, fácil, escorregamos para a mesmíssima intolerância que imaginamos combater. Nos tornamos uma peça do tribalismo vazio que marca nossas democracias. As guerras culturais dão o tom, o nível de participação dos cidadãos explodiu e com ele a organização de interesses e visões de mundo, no que antes chamávamos de “sociedade civil”.

O fato é que vivemos um dualismo. No mundo da retórica e das redes sociais, reina a fantasia sobre a crise brasileira. A própria palavra “crise”, de tão abusada, perdeu o sentido.

Há um pouco de tudo neste mundo curioso. Na recente decisão do STF disciplinando as alegações finais, em processos com réus delatores, li gente bacana dizendo que nossa Suprema Corte havia transformado o Brasil numa “ditadura dos delinquentes de todo tipo”.

De um teórico governista, li a provocação tola: “Ainda não será mesmo a hora de falar em um cabo e um soldado?”. Do lado que perdeu a eleição, o conteúdo é farto. Os teóricos do “risco democrático” cada vez mais torcem para que esqueçam suas previsões de que o nosso hino seria trocado pela Giovinezzi fascista e camisas negras desfilariam, ao cair da tarde, pela orla de Copacabana.

No mundo real da política, o cenário é outro. Vivemos um quadro típico da normalidade à brasileira.

Vimos se formar uma maioria reformista, no Congresso Nacional, que desde a PEC do teto, em 2016, obteve vitórias sistemáticas que chegaram a 353 e 345 votos, na Câmara, nas recentes votações da reforma da Previdência e MP da Liberdade Econômica. Este é, por certo, nosso principal ativo político.

Mas há zonas de sombras à frente. Não avançamos nada no plano da reforma das instituições políticas.

Ainda em junho, o TSE entregou a Rodrigo Maia um projeto de reforma que previa a introdução do voto distrital já para as eleições de 2020.

Coordenado pelo ministro Luís Roberto Barroso, o projeto era inteligente e factível, mas ninguém deu bola. Estávamos todos preocupados com a “barbárie” do último tuíte não sei de quem, enquanto o Congresso aprovava um afrouxamento geral dos controles sobre o uso do dinheiro público nas eleições.

Acho curioso quando escuto falar no “projeto bolsonarista” para o país. Imagina-se que frases soltas, ditas aqui e ali, possam funcionar como uma ideia de país. Confesso não ver nada disso.

Este é um governo de baixo consenso em relação a sua própria agenda econômica de liberalização, e isso fica claro com as indefinições quanto à reforma tributária, a inexistência de um projeto minimamente consistente de reforma do Estado, a falta de apetite político para aprovar pautas que o próprio governo apresentou, como a autonomia do Banco Central, e à lenta desidratação a que foi submetida a reforma da Previdência.

Talvez a cara verdadeira do Brasil de hoje seja mesmo esta: a de um país que depende de um leilão do pré-sal para fechar as contas, não irá investir virtualmente nada, ano que vem, e fala em fazer uma reforma tributária sem reduzir um centavo sequer da carga tributária de 35% do PIB.

O que falta é exatamente um “projeto nacional” ao governo. A última vez que ensaiamos algo parecido com isso foi à época do programa de estabilização econômica e reforma do Estado, nos anos 1990.

Projeto por certo inconcluso. Imaginar que as orações da ministra Damares, os tuítes da turma palaciana e as palestras metafísicas de nosso chanceler-filósofo expressem um “projeto de país” não passa de uma fantasia divertida. Estamos muito longe disso, neste país em que a normalidade beira ao tédio.
Fernando Schüler

Palavras que ofendem

O racismo é, de fato, uma praga. A consciência de que é preciso combatê-la está hoje por toda parte. Exagero por exagero, é melhor exagerar o contrário. A boa convivência de raças e etnias, com a aceitação da diferença. Parece uma coisa simples e no entanto joga os homens uns contra os outros, na guerra declarada, ou na encoberta discriminação. Ainda agora renascente na França com Le Pen. E por aí afora.

Mas no afã antirracista, acontecem coisas curiosas e até engraçadas. Seja nos Estados Unidos, onde o racismo é explícito, seja em qualquer outro país, a começar pelo Brasil. Em Washington, hoje com uma população de maioria negra, querem mudar o nome dos campeões de futebol americano, os Redskins. A iniciativa parte dos que advogam a causa dos índios. Para eles, chamar de "peles-vermelhas" jogadores de futebol é puro deboche.


Se a moda pega, daqui a pouco se levanta uma voz contra chamar de rubro-negro a um torcedor do Flamengo. A palavra composta pode ofender ao mesmo tempo índios e negros. Por esse caminho, não demora e a China se queixa ao protocolo do Itamaraty. E protesta contra o nome da febre amarela. Sem falar no perigo amarelo, que é japonês. Com argumentos assim, o vocabulário vai sofrer um expurgo de todo tamanho. Muitas palavras vão ser cassadas.

Já houve a denúncia de judiar. Como judiação e judiaria, o verbo traz um ressaibo antissemita. E o antissemitismo lembra o que há de pior neste mundo. Mas não é só o judeu que está escondido na raiz etimológica de certas palavras. Volto ao chinês e lembro chinesice. Chinoiserie em francês. Aliás, francesia ou francesismo pode ser objeto de protesto da França. Como “sair à francesa".

Ninguém escapa. Palavras e expressões em todas as línguas escondem silenciosos rancores. A eterna hostilidade ao gringo, ao que é diferente. O calor senegalesco pelo menos aqui no Rio não é culpa do Senegal. Nem é só para inglês ver. Os ingleses, por terem sido donos do mundo, não escapam do enfoque pejorativo. Nem Deus. O feminismo ainda agora protesta contra o gênero masculino de Deus. Parece humor negro. Se é que esta expressão já não entrou na lista negra, como racista. Lista negra? Ih, piorou!
Otto Lara Resende (Folha SP, 16/5/1992)

Investimento verde

Os recorrentes abalos ético-políticos no âmbito das institucionalidades, somados à instabilidade econômica que assola o Brasil ao longo de tantos anos, vêm incrementando dia a dia as dificuldades para a retomada do desenvolvimento no País. Uma crise fiscal profunda cerca de 12,6 milhões de desempregados.

Queda de renda e muita desconfiança com relação ao nosso futuro mantêm um horizonte de prosperidade vicejante como pura miragem. A perspectiva é de crescimento tímido, mesmo quando concluída a reforma da Previdência.

O governo adotou medidas para tentar acelerar a retomada, como a liberação de saques do FGTS e o incentivo à Semana do Brasil. Mas o caminho seguro para crescer é o investimento. E nessa rota do desenvolvimento há uma estação de parada obrigatória: a efetivação das reformas estruturantes, como a tributária, reforma de RH dos governos e privatizações, entre outros.

Somente pela refundação de leis e marcos regulatórios nacionais nos tornaremos um país viável a investimentos de relevância e na medida de nossas necessidades e oportunidades. Esse é o meio para impulsionar projetos e obras que criem oportunidades, restabeleçam a confiança na economia e ponham o Brasil, novamente, no rumo do desenvolvimento.

É urgente consertar as contas públicas na União, nos Estados e municípios. É preciso criar um ambiente de negócios sustentado por segurança jurídica, transparência e contemporaneidade com o mundo integrado que hoje experimentamos.


Mas não dá para ficarmos parados enquanto o País tenta atualizar-se. Em face da baixíssima capacidade de investimento público, este é o momento de setores maduros, que trabalham alinhados ao conceito de bioeconomia, fazerem aportes significativos na produção de riqueza no País, sinalizando que o futuro é inovação, sustentabilidade, competitividade e produtividade.

A indústria de árvores cultivadas para fins industriais, um setor nacional competitivo e integrado às cadeias globais, tem investimentos de R$ 32 bilhões previstos até 2023, com geração de 36 mil empregos nas obras e 11 mil vagas fixas na operação dos empreendimentos. Esse é um setor que, mesmo no período entre 2014 e 2017, quando a crise atingiu seu ápice e diversos segmentos apresentaram retração, investiu mais de R$ 20 bilhões no Brasil.

A Klabin, com investimentos na cidade de Ortigueira (PR) de R$ 9,1 bilhões, deve criar 9 mil empregos no período de expansão da fábrica. A Berneck iniciou as obras da nova unidade da empresa, que produzirá MDF e serrados, em Lages (SC), com mais R$ 850 milhões investidos. Em Mato Grosso do Sul, a Eldorado planeja uma usina de energia renovável, movida a biomassa, com investimento de R$ 350 milhões, que deve empregar 1.500 pessoas nas obras. Em Três Barras (SC), a WestRock está desembolsando mais R$ 1,2 bilhão, com 2.700 vagas temporárias.

Não para por aí. A Bracell aplica R$ 7,5 bilhões no interior de São Paulo, em Lençóis Paulista, que deve gerar 7,5 mil vagas no período de implantação. Já a Duratex, com investimentos de R$ 3,5 bilhões em Araguari (MG), abrirá mais 6,5 mil vagas. Nestes dois casos, as empresas trabalharão com celulose solúvel, produto inovador, que é capaz de produzir lenços umedecidos e tecidos finos para confecções.

Mais dois investimentos foram anunciados no Nordeste, um projeto da WestRock e outro da Klabin, mostrando a amplitude de regiões que essas iniciativas cobrem. São duas novas fábricas de embalagens de papel, importantes protagonistas da bioeconomia. Esse setor, aliás, é crucial para a entrega de produtos renováveis, biodegradáveis, e contribui para as metas do Brasil no Acordo de Paris e os objetivos de desenvolvimento sustentável da Agenda 2030 da ONU. É importante mencionar também a conclusão da fusão Suzano- Fibria no início de 2019, uma empresa que nasceu como a maior produtora de celulose de fibra curta do mundo.

Mas não adiantará investirmos altos valores se não cuidarmos do futuro. É necessário rever a maneira de fazer negócios, pensar em alternativas a materiais de origem fóssil.

Nesse sentido, os serviços ambientais realizados pela floresta em pé têm muito valor, até para girar a economia. As florestas são responsáveis por remover e estocar carbono, produzir o oxigênio que respiramos, conservam solo e água. Servem de hábitat para a biodiversidade. Tudo isso contribui para um regime de chuvas e clima mais estáveis, evita pragas e doenças, entre outros aspectos que impactam as atividades de uso da terra. O Brasil é uma potência ambiental.

A COP-25, que será realizada em Santiago, no Chile, em dezembro, é a oportunidade para que governo, setor privado, ONGs e academia se unam para que o Brasil assuma o protagonismo ambiental e auxilie o mundo na mitigação das mudanças climáticas. Não é à toa que o tema deixou de ser pauta de uma área e passou a ser assunto estratégico. Clima é economia na veia, é oportunidade para o Brasil e para os brasileiros.

Precisamos garantir que o artigo 6 do Acordo de Paris, que regulamenta internacionalmente o mercado de carbono, seja finalizado em Santiago. O mercado de carbono, com uma política clara e bem definida, pode incentivar o setor produtivo, principalmente os pequenos empreendedores, a atuar como indutor da economia de baixo carbono.

Se quisermos concluir a travessia rumo à retomada do crescimento econômico, é preciso acelerar os investimentos de porte e sustentáveis. O governo, com baixa capacidade de investimento, deve evoluir com a aprovação de reformas estruturantes, que melhorem o ambiente de negócios. Assim se abre espaço para o avanço dos recursos da iniciativa privada. Mas é preciso investir com consciência e atuar com responsabilidade, cuidando do meio ambiente e trabalhando para que o Brasil modernize sua governança, garantindo às futuras gerações condições para a construção de uma nova nação.

Pensamento do Dia


Que porra é essa, Bolsonaro?

Que porra é essa, Bolsonaro? Logo você, um cara que se anunciava tão preocupado com o que entra nas orelhas da família, usar um palavreado de esquina, uma porra de palavra que parecia própria apenas dessa cultura esquerdopata que você tinha vindo para acabar e em seguida substituir com os bons propósitos do Deus acima de tudo!


O que Deus, pobre senhor de barbas brancas, encarapitado em sua nuvem de algodão doce, um bom sujeito tantas vezes evocado como uma síntese da pureza de propósitos de seu governo, o que ele vai achar dessa porra toda de ter um presidente da república, trepado num banquinho em frente ao palácio, distribuindo o palavrão a torto e a direito, sem filtro, nas orelhas da velhinhas, das crianças e dessas novas senhoras enroladas no véu verde e amarelo da anunciada purificação nacional?

Que porra é essa, Bolsonaro, de apenas alguns meses depois de substituir um presidente que governava na base de mesóclises, um delírio igualmente estapafúrdio diante da realidade brasileira, usar como palavra de ordem um vitupério de cinco letras que ninguém diz em rede nacional antes das 23 horas? Não faz muito tempo, um menino que dissesse isso em casa, num canto escondido dela, era levado pela orelha até o banheiro e ali o pai severo lhe limparia a boca com água e sabão.

O Brasil já teve vários tipos de grosseria federal proferidas da mesma cadeira. Já teve presidente que preferia o cheiro dos cavalos ao do povo, outro se orgulhava daquilo roxo, todos nivelados pela lamentável baixaria da falta de educação. Não é um país de muita sorte, mas o palavreado procurava se esconder dentro de um certo decoro parlamentar tropicalista. Encher a boca e usar "porra" para expressar uma ideia de governar o meio ambiente é um acontecimento inédito na república. O Brasil virou um palavrão.

O porra do Bolsonaro não é uma peça de teatro de denúncia, um Bacurau do cinema, um rap do Emicida ou um conto do João Antonio, esses momentos em que pela representação artística é justificável se valer de todas as palavras para que a realidade, geralmente a dos desvalidos de escolas, dos premidos pela infelicidade social, se faça entendível. O porra, em pleno palácio, foge a qualquer expectativa de bons princípios de civilidade e norte ao país. Está fora da ordem nacional. Para não deixar qualquer dúvida, é usado no discurso para adjetivar a árvore - e, como se sabe, o nome do país tem origem numa delas. É a porra do Brasil.

Vulgaridade da loucura

Hoje evita-se usar a palavra louco. Que disparate. Os poucos psiquiatras por quem tenho respeito falam sempre da loucura das pessoas. Usam as palavras curtas, simples, autênticas. Não digo […] desordem de personalidade […]

Digo doida, é isso que digo. Doida tem o som certo, é uma palavra vulgar, uma palavra que nos diz como a loucura pode vir bater-nos à porta como uma camioneta de entrega de encomendas. As coisas horríveis também são vulgares
Julian Barnes, "O Papagaio de Flaubert"

O pior ministro

Contingenciamento é corte de orçamento. Descontingenciamento é reposição, total ou parcial, do corte feito. Administrar as verbas na boca do caixa é uma arte, mas não é plano de governo, projeto de país, medida ou ação, muito menos em áreas sensíveis ao conhecimento, à ciência. O ministro da Educação acertou quando chamou o corte o que aplicou a algumas universidades mas errou, quando advertido, ao tentar vincular não mais o corte, mas o contingenciamento, às universidades de cujo corpo discente desaprova a forma de viver. Esta semana o ministro errou de novo, uma constante em sua gestão, ao fazer um auê, como se fosse mérito seu, para anunciar parte da parte da reposição das verbas orçamentárias para universidades, e parte, da parte, da parte, das verbas de bolsas de pós-graduação da Capes. É de constrangimento o sentimento que preside as relações do dirigente do MEC com o resto do governo e com seu público particular.

Não por acaso, este é o pior ministro do governo Bolsonaro (Abraham) e o pior ministro da Educação dos últimos 40 anos (Weintraub).



O ministro só aparece criando conflitos. Volta e meia, quando sua situação está muito ruim, sai um pouco da cena de guerra para reaparecer, grandiloquente, anunciando números, pesquisas e acompanhamentos que os órgãos do MEC produzem historicamente. Nada é mérito seu. Por sinal, se há o que anunciar, deve aos seus antecessores.

A última do Weintraub tem sempre uma boa plateia, é diversão certa, para quem gosta do gênero. Mais folclórico que Ricardo Vélez, o preposto de Olavo de Carvalho na área de Educação, que o antecedeu e sucumbiu aos primeiros acordes do controle ideológico que pretendeu fazer da vida inteligente daquele mundo por ele governado. O atual ministro discursa e atua de forma mais contundente que o primeiro preposto olavista na Educação.


Weintraub não tem a metade da vivência de Velez nessa área, mas é mais duro, mais grosso, mais errático, mais vazio que ele. Ambos sofreram a falta de substância do governo, não foram por ele supridos pois entendido está que deveriam suprir Jair Bolsonaro.

Se alguém souber o que pretende Abraham Weintraub, deve contar para o presidente de forma que use a informação a seu favor. Jair Bolsonaro passa ao largo da Educação. Área do debate e do diálogo, a Educação, hoje, dá pena. Só tem perdas.

Quais os governos que o atual mais admira, cita e copia? Os militares. Pois a Educação encontrou campo fértil nas administrações de Esther de Figueiredo Ferraz, uma educadora respeitada, de Eduardo Portella, acadêmico e escritor, intelectual reconhecido, e Rubem Ludwig, um general educado, acostumado com as relações civilizadas, que levou para a Secretaria Executiva e para ajudá-lo em alguns escalões militares também traquejados nas atividades civis, como o coronel Sérgio Pasqualli.

Até os conflitos, inerentes a esta área, tinham nível. Certa vez, depois de ter a UNE (união nacional dos estudantes) gritando na porta do prédio do MEC, em greve já há alguns dias, o ministro Ludwig reagiu: “É a Carolina, o tempo passou na janela e só a UNE não viu”, disse resgatando o verso da música de Chico Buarque. O presidente da UNE, Aldo Rebelo, que depois seria deputado, presidente da Câmara, ministro de Ciência e Tecnologia, Esportes, Coordenação Política, Defesa, devolveu no mesmo tom, com verso de Noel Rosa: “Quem é você, general, que não sabe o que diz? Meu Deus do céu, que palpite infeliz”!.

Da briga poética do regime militar este governo nada preservou. Hoje o ministro dos estudantes é tosco, agressivo, não diz a que veio e deixa sua personalidade se sobrepor, sem cabimento, a qualquer conteúdo da sua gestão.

Senadores passam a sujo a reforma da Previdência

O Senado concluiu, finalmente, o primeiro turno da votação da reforma da Previdência. Antes mesmo da realização do segundo turno, já é possível afirmar o seguinte: os senadores demonstraram no debate sobre a reforma que não estão à altura da realidade do país. Esperava-se que passassem a limpo a proposta aprovada na Câmara. Mas um pedaço do Senado decidiu passar a sujo a emenda constitucional previdenciária. Não melhoraram o texto. E ainda conseguiram piorar o que já não era ideal.


Estava entendido que os senadores trabalhariam para manter a economia obtida na Câmara: R$ 933 bilhões em uma década. E tentariam reintroduzir na reforma os servidores de estados e municípios. Fariam isso numa emenda à parte, que seguiria para a apreciação dos deputados, sem prejuízo da promulgação de todo o resto. Pois bem. Os senadores lipoaspiraram a economia, reduzindo-a para cerca de R$ 800 bilhões em dez anos. Foram para o beleléu, por ora, R$ 133 bilhões.

A emenda paralela, que deveria seguir para a Câmara com um tópico único —a questão de estados e municípios— virou um caldeirão em que se misturam encrencas que os deputados já haviam tratado. E não há na Câmara a mais remota disposição de voltar a esses temas. Ou seja: corre-se o risco de perder a oportunidade de desarmar a bomba dos servidores estaduais e municipais, que vai explodir dentro dos cofres do Tesouro Nacional.

Como se tudo isso fosse pouco, os senadores passam a reforma previdenciária a sujo num ambiente de chantagem explícita. Cobram definições sobre a partilha de dividendos de petróleo com governadores e prefeitos, o que é republicano. Exigem otras cositas más.

Na parte em que é republicana, a exigência dos senadores é burra, pois entregar dinheiro de petróleo a estados e municípios sem resolver o passivo previdenciário é como entregar com uma mão e retirar com a outra. Na parte em que é espúria, a chantagem inclui nas exigências compensação pela futura aprovação da indicação de Eduardo Bolsonaro à embaixada brasileira em Washington. O despudor revela deixa que certos senadores ainda perambulam pelos corredores do Congresso com um código de barras na gravata.

Aliado ao garimpo, Bolsonaro prepara embate com a Igreja

"É o minério, estúpido!"

Jair Bolsonaro disse que não dará entrevistas enquanto os jornais “não fizerem uma matéria real sobre o que aconteceu na ONU”. A imprensa noticiou que o presidente fez um discurso agressivo, exaltou a ditadura militar, atacou um cacique de 89 anos e mentiu sobre as queimadas na Amazônia. Na visão dele, uma “matéria real” trocaria o registro desses fatos por elogios.

A ameaça de boicote à imprensa não é nova. Bolsonaro já havia prometido silenciar outras vezes, mas nunca conseguiu segurar a língua. Ontem ele fez um esforço extra para cumprir a promessa. Ignorou os jornalistas e não discursou em solenidade oficial. Só falou em público uma vez, em minicomício para garimpeiros.

Numa cena incomum, o presidente foi até a porta do palácio e subiu numa cadeira para discursar. Do pedestal improvisado, expôs o que pensa sobre a floresta. “O interesse na Amazônia não é no índio nem na porra da árvore. É no minério!”, afirmou.


Bolsonaro não disfarça. Desde a campanha, ele critica as leis ambientais e promete incentivar a criação de novas Serras Peladas. Em seu lobby pela mineração, o presidente já comprou briga com índios, ambientalistas, servidores do Ibama e líderes europeus. Agora prepara o terreno para um embate com a Igreja Católica.

Ontem o bispo de Marajó, dom Evaristo Spengler, fez um apelo contra a exploração do subsolo amazônico. “Queremos pedir um não a projeto de mineração em territórios indígenas, não ao garimpo legal e ilegal na Amazônia, não à regularização de novos garimpos”, disse. Ele é um dos organizadores do sínodo que discutirá as ameaças à floresta a partir deste domingo.

Às vésperas do encontro, a tropa bolsonarista já trata a Igreja como inimiga. O presidente avisou que não vai a Roma para a canonização da irmã Dulce. No sábado, o guru Olavo de Carvalho disparou ofensas ao Papa Francisco. “Para mim, esse Bergoglio já deu no saco. Ele não é Papa nem no sentido figurado do termo”, atacou.

No minicomício de ontem, Bolsonaro encaixou uma nova provocação ao cacique Raoni, que já foi recebido com honras no Vaticano. “É outro que vive tomando champanhe em outros países por aí...”, desdenhou.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

A Amazônia que festeja Bolsonaro: 'Quem tem que decidir nosso futuro é a gente'

"Se eu tenho 3.000 hectares, produzo em 1.000 e preservo os 2.000 restantes, acho que deveríamos receber royalties por preservar a Amazônia. Quem vai pagar?", desafia o produtor Silvério Fernandes, dono em sociedade com os irmãos de uma área equivalente a 11.000 campos de futebol profissional no coração da Amazônia paraense. A resposta vem em seguida: "Esses países da Europa". "Se estão mandando dinheiro para as ONGs, por que não mandar para o proprietário para ajudá-lo a preservar?", completa o também empresário agrícola Renato Frossard.

Fernandes e Frossard receberam o EL PAÍS em Altamira, a cidade do Pará que é a porta de entrada na floresta em transformação, em uma casa de alvenaria simples, sede de um núcleo sindical de produtores que abrange 11 municípios da rodovia Transamazônica. Estavam junto a Flavio Frossard, irmão de Renato, todos dispostos a defender o Governo Bolsonaro das intensas críticas de que era alvo no final de agosto, no auge da crise das queimadas na região. De bermuda jeans e chinelos no pé, além de uma voz mansa que não se altera, Fernandes não deixa transparecer o que ele representa para essa região da bacia do rio Xingu: dinheiro e poder. As quatro propriedades que a família possui no município de Anapu, vizinho a Altamira, somam 12.000 hectares. Dedicam-se sobretudo à pecuária, a principal atividade econômica da região, pela facilidade de ser implantada em meio a pouca infraestrutura. O Pará é o quinto Estado em quantidade de cabeças de boi, 20,5 milhões, segundo mostrou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em pesquisa de 2017.

Renato e Flávio Frossard possuem 3.000 hectares de terra em Uruará, a 327 quilômetros de Anapu. Plantam cacau, outra especialidade na região que não para de crescer. Os irmãos são do Rio de Janeiro, onde ainda moram, e possuem outras propriedades rurais em Minas Gerais. Representam uma elite do Sul e Sudeste que decidiu investir na Amazônia entre os anos 70 e 80.

Foi nessa mesma época que a família Fernandes desembarcou em Altamira. Para colonizar os arredores da Transamazônica, os Governos militares emitiam títulos de terra provisórios que deveriam ser definitivos caso as terras se tornassem produtivas. Como isso nem sempre acontecia, os títulos começaram a ser cancelados. Dentro deste confuso processo, compradores surgiam em busca de terra barata que a União começava a retomar para si. Entre esses compradores estava o patriarca dos Fernandes. Até hoje Silvério e seus irmãos não possuem o título definitivo de suas fazendas — assim como mais de 80% dos produtores da região, segundo sindicatos do setor. O caso segue emperrado na Justiça, que já chegou a determinar reintegração de posse.


Toda a insegurança jurídica, emblemática do conflito fundiário amazônico, não impediu que a família construísse sua fortuna. Hoje, além de comandar o núcleo sindical da Transamazônica, Fernandes preside o sindicato de produtores rurais de Anapu. Também já foi vice-prefeito de Altamira por oito anos. Nas eleições de 2018, tentou se eleger deputado estadual do Pará com a benção de Jair Bolsonaro, que chegou a gravar um vídeo de apoio e aparecia em cartazes ao lado do fazendeiro. O então candidato presidencial conseguiu 45,2% dos votos válidos no Pará no segundo turno, mas perdeu para o petista Fernando Haddad (PT). Porém, o ultradireitista venceu com folga em Altamira, com 63,2% dos votos, e levou também em cinco dos sete Estados do Norte do país.

Bolsonaro elegeu-se presidente com o discurso inequívoco de apoio ao agronegócio, acusando sem provas ONGs de serem as representantes da ingerência estrangeira na Amazônia. prometendo flexibilizar multas ambientais e abrir terras indígenas para a exploração econômica — o mesmo que repetiu na Assembleia Geral da ONU na semana passada. "O interesse na Amazônia não é no índio e nem na porra da árvore, é no minério", disse o presidente nesta terça a garimpeiros, outro grupo próximo do Planalto. "Ele está certo, quem tem que decidir nosso futuro e da Amazônia somos nós", defende Fernandes.
Fogo em Altamira

Fernandes e os Frossard também fazem coro ao discurso presidencial e consideram que a imprensa promove "manipulação" e desinformação ao abordar o aumento dos desmatamentos seguidos de incêndios. Mas os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) indicam que Altamira é o epicentro da crise ambiental na Amazônia. O território com mais áreas devastadas e queimadas é também o maior município do Brasil em extensão: são quase 160.000 quilômetros quadrados, área equivalente a quase quatro Estados do Rio de Janeiro, a maior parte em florestas nacionais e territórios indígenas. No topo do ranking da devastação estão ainda cidades vizinhas da Bacia do Rio Xingu, como São Félix do Xingu, Novo Progresso e Senador José Porfírio. A corrida por solo fértil, ouro e madeiras valiosas fez com que os números disparassem a partir de maio, ainda que tenham se inclinado à média anual neste setembro.

"Neste ano aumentou a pressão em áreas protegidas, porque estamos em um momento deliberado em que o Governo dá sinais de que tolera esse tipo de coisa em unidades de conservação e terra indígena", explica Tasso Azevedo, coordenador da MapBiomas, ONG que cruza os dados de desmatamento com os de incêndio para certificar-se de que um decorre do outro. "Desmatamento é função direta da expectativa de impunidade. Porque desmatar custa caro, não é barato. Dar o sinal de que vai legalizar invasões em áreas protegidas ao mesmo tempo que desmantela a fiscalização do IBAMA é a mesma coisa que dizer 'pode ir lá'". Uma pesquisa da consultoria Atlas divulgada pelo EL PAÍS mostrou que 67% dos brasileiros acreditam que a Amazônia vive uma crise ambiental, mas estão divididos com relação ao papel do Governo Bolsonaro na crise. Mais de 80% se posicionam contra o garimpo e o desmatamento nas reservas ambientais e indígenas ou defendem a prisão dos grileiros que venham a ser responsabilizados pelos incêndios.

São duas visões antagônicas de Brasil que deixam o terreno das ideias e se encontram em sangrentos campos de batalha na região de Altamira. De um lado estão aqueles que, como Fernandes e os irmãos Frossard, acreditam que o desenvolvimento chegará a partir da exploração da terra e dos recursos naturais da Amazônia. Não se dizem contrários à preservação do meio ambiente, mas se mostram alinhados ao Governo Bolsonaro no que diz respeito à legalização de garimpeiros e grileiros que atuam ilegalmente. "Primeiro, o Brasil é assim, os bandeirantes colonizaram o país dessa forma. Chegaram, ocuparam... O poder público vem depois", argumenta Fernandes. "Segundo, as pessoas precisam se alimentar".

Ainda que não se digam contrários às leis ambientais, os três produtores amigos respaldam o discurso de Bolsonaro contra órgãos de fiscalização como o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (IBAMA), o qual definem como uma indústria de multas — Fernandes e seus irmãos já foram condenados por crimes ambientais que somam quase 30 milhões de reais em punições. Também rejeitam enfaticamente os assentamentos de agricultores feitos pelo Instituto de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), uma vez que muitas vezes abarcam suas terras que estão em litígio com a União. "São invasores e os principais responsáveis pelo desmatamento", acusa Fernandes.

Por fim, dirigem duras críticas à política de demarcação de terras indígenas promovida pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). "Vão criando reservas indígenas e reservas naturais em áreas riquíssimas. E não podemos explorar aquilo?", questiona Flavio Frossard. "A gente sabe que é uma cortina de fumaça por trás de grandes interesses internacionais pelo solo da Amazônia", completa, ecoando Bolsonaro. Seu irmão Renato faz referência implícita ao acordo entre Mercosul e União Europeia que a França de Emmanuel Macron ameaça romper caso o Governo não preserve a Amazônia: "Sabemos que a produção brasileira de alimentos incomoda outros países produtores".

Do outro lado dessa disputa estão as populações alvo de suas críticas: os índios em territórios demarcados pelo Estado brasileiro, ribeirinhos em terras ricas e férteis e pequenos agricultores e extrativistas que vivem em comunidades e assentamentos do INCRA. Ao lado deles estão Organizações Não-Governamentais ou organismos como a Comissão Pastoral da Terra, vinculada à Igreja Católica. No geral defendem um modelo alternativo e mais sustentável que inclui o reparto mais igualitário da terra e o respeito pelos modos de vida tradicional.
Felipe Betim (Leia mais)

Uma conjuntura muito favorável ao poder, mas com aquele probleminha

O modus operandi congressual do bolsonarismo vai ficando cada vez mais nítido. Não há obsessão por tratorar o Legislativo. No plano parlamentar, aceita-se o jogo. O que os parlamentares perderam em espaço político na Esplanada, ganharam em oportunidades de protagonismo. O governo manda os projetos, o Parlamento faz quase o que bem entende, depois o presidente veta, e o Legislativo também derruba os vetos que deseja.

Não sei se chega a ser uma nova política, mas tem boa dose de novidade, ao menos neste último meio século. Nos governos militares, o Congresso, quando estava aberto, era uma máquina carimbadora do Executivo, graças também ao bipartidarismo, aos atos institucionais e às cassações periódicas de mandatos. Quando nada disso era suficiente vinha o fechamento. Como por exemplo no Pacote de Abril de 1977.

Depois nasceu a Nova República, uma oportunidade do país aos políticos. Mas Tancredo Neves morreu, José Sarney virou um presidente não tão forte, e sofreu a dualidade de poder imposta pela Constituinte e Ulysses Guimarães. E teve de escancarar a máquina aos políticos para sobreviver. Sucedeu-o Fernando Collor, que quis fazer uma nova política e acabou derrubado. Por questiúnculas, como Dilma Rousseff um quarto de século depois.

E surgiu Fernando Henrique Cardoso para derrotar o PT de Luiz Inácio Lula da Silva, que estava forte depois da queda do seu antípoda, Collor. FHC governou à moda tradicional, e teve tranquilidade, também porque a nova política tinha dado errado. E graças à velha e boa política o tucano sobreviveu à debacle do Real na transição do primeiro para o segundo mandato. O país parecia vacinado contra impeachments. Parecia.

Lula governou conforme a cartilha da Nova República. Aprendendo com Sarney, Collor e Fernando Henrique, procurou montar uma base sólida no Congresso para evitar surpresas. Também por isso, escapou na crise do chamado mensalão, reelegeu-se e elegeu a sucessora. Que se sentiu num momento suficientemente forte para deixar os aliados na rua da amargura da Lava Jato. Deu no que deu.

Agora Jair Bolsonaro propõe uma nova oportunidade para um modelo que falhou duas vezes.


Verdade que o atual presidente faz isso numa conjuntura excepcionalmente favorável. Para começar, dois terços do Congresso estão potencialmente alinhados com a agenda do Executivo. O governo acha, e tem uma dose de razão, que mesmo se nada fizer o Legislativo terá de andar na linha do Executivo, pois os deputados e senadores não terão como explicar aos seus eleitores se fizerem diferente.

E o financiamento empresarial de campanhas está vetado, o que diminui a atratividade da ocupação de certos espaços ministeriais e nas estatais. Claro que sempre o olho pode crescer. Mas o mar não está pra peixe. E os partidos estão razoavelmente abastecidos pelos recursos públicos para sobreviver e fazer suas campanhas. Então, se o Planalto executa com competência o orçamento das emendas, tem combustível para navegar.

Para ajudar, o reinado absolutista da Lava Jato parece ter entrado no seu até agora pior inverno. E Bolsonaro tem assim facilitada a tarefa de recolocar o gênio dentro da garrafa, ou pelo menos tentar. Era previsível, e foi previsto, que o Bonaparte saído das urnas precisaria restabelecer o Poder Moderador do Executivo, tradicional desde que D. Pedro I fechou a Constituinte e outorgou a primeira Carta do Brasil independente.

Nisso, no essencial, Planalto, Congresso e Supremo vêm jogando juntos, pois interessa a todos acabar, ou pelo menos reduzir, a disfuncionalidade institucional em que o país foi atirado desde que Executivo e Legislativo ficaram acuados pela Lava Jato. E, enquanto esta permanece uma ameaça letal, seria pouco inteligente os três lugares geométricos da Praça dos Três Poderes ficarem de mimimi uns com os outros.

Sem contar que o PT não está propriamente infeliz com o esforço bolsonarista para controlar a fera. Sempre há a possibilidade, claro, de a Lava Jato voltar a se concentrar só no PT, mas até isso teria um lado útil para o petismo: reforçaria a narrativa de vitimização, já bem nutrida pelas interessantes revelações do The Intercept e parceiros. Depois da VazaJato, a Lava Jato nunca mais será a mesma, apesar das juras de amor do novo PGR.

Então está tudo bem? Não, tem aquele probleminha: quase 13 milhões de desempregados, fora os subempregados e desalentados em geral. Eis a fenda na represa, fenda que se não for fechada embaralha bem esse jogo. Ninguém vai querer ser sócio do fracasso. Mas enquanto não chega o dia do juízo político o bolsonarismo aproveita o mar de almirante para radicalizar na guerra de posição, inclusive no campo cultural. Já que Gramsci está na moda.
Alon Feuerwerker 

Gente fora do mapa


Aliado ao garimpo, Bolsonaro prepara embate com Igreja

Aliado ao lobby dos garimpeiros, Bolsonaro já comprou briga com índios, ambientalistas e líderes europeus. Agora ele prepara um novo embate com a Igreja Católica

Jair Bolsonaro disse que não dará entrevistas enquanto os jornais “não fizerem uma matéria real sobre o que aconteceu na ONU”. A imprensa noticiou que o presidente fez um discurso agressivo, exaltou a ditadura militar, atacou um cacique de 89 anos e mentiu sobre as queimadas na Amazônia. Na visão dele, uma “matéria real” trocaria o registro desses fatos por elogios.

A ameaça de boicote à imprensa não é nova. Bolsonaro já havia prometido silenciar outras vezes, mas nunca conseguiu segurar a língua. Ontem ele fez um esforço extra para cumprir a promessa. Ignorou os jornalistas e não discursou em solenidade oficial. Só falou em público uma vez, em minicomício para garimpeiros.

Numa cena incomum, o presidente foi até a porta do palácio e subiu numa cadeira para discursar. Do pedestal improvisado, expôs o que pensa sobre a floresta. “O interesse na Amazônia não é no índio nem na porra da árvore. É no minério!”, afirmou.

Bolsonaro não disfarça. Desde a campanha, ele critica as leis ambientais e promete incentivar a criação de novas Serras Peladas. Em seu lobby pela mineração, o presidente já comprou briga com índios, ambientalistas, servidores do Ibama e líderes europeus. Agora prepara o terreno para um embate com a Igreja Católica.

Ontem o bispo de Marajó, dom Evaristo Spengler, fez um apelo contra a exploração do subsolo amazônico. “Queremos pedir um não a projeto de mineração em territórios indígenas, não ao garimpo legal e ilegal na Amzônia, não à regularização de novos garimpos”, disse. Ele é um dos organizadores do sínodo que discutirá as ameaças à floresta a partir deste domingo.

Às vésperas do encontro, a tropa bolsonarista já trata a Igreja como inimiga. O presidente avisou que não vai a Roma para a canonização da irmã Dulce. No sábado, o guru Olavo de Carvalho disparou ofensas ao Papa Francisco. “Para mim, esse Bergoglio já deu no saco. Ele não é Papa nem no sentido figurado do termo”, atacou.

No minicomício de ontem, Bolsonaro encaixou uma nova provocação ao cacique Raoni, que já foi recebido com honras no Vaticano. “É outro que vive tomando champanhe em outros países por aí...”, desdenhou.

Re Piketty

 Saiu outro livro do Thomas Piketty, o economista francês cujo livro anterior, “O capital no século 21”, causou enjoos na direita e euforia na esquerda porque destruía a tese de que era só deixar o capitalismo solto que, com o tempo, ele resolveria tudo, da desigualdade social ao bicho-de-pé. O título do novo livro é “Capitalismo e ideologia”, e ele consegue ser maior em número de páginas do que o anterior. Apesar do alvoroço que causou, “Capital no século 21” não fez maiores estragos no pensamento econômico da época porque, segundo os cínicos, ninguém conseguia carregar, o que dirá ler, um volume daquele tamanho. Ler na cama, arriscando um aprofundamento do esterno, então, nem pensar.


Mesmo assim, “O capital no século 21” vendeu mais de dois milhões de exemplares e foi considerado o mais bem-sucedido livro sobre economia publicado no mundo depois da “Teoria geral” do John Maynard Keynes. Com uma diferença: o livro de Keynes foi lançado no fim da Segunda Guerra Mundial, quando o mundo se organizava para evitar a repetição de tragédias como a guerra, e o clima geral de otimismo permitia pensar na economia como uma entidade racionalizável, seguindo a teoria de Keynes. Já Piketty lança seus livros num mundo radicalizado pelo predomínio do capital financeiro e uma desigualdade social explosiva, que parece irreversível, imune a qualquer tipo de racionalização. Outra diferença entre Keynes e Piketty é o estilo, não das teses, mas da sua apresentação. Keynes era um intelectual de gostos finos, Piketty recorre à cultura pop e a personagens da ficção popular (Jane Austen, Dickens, Balzac) para tornar a leitura dos seus tijolos mais agradável.

O novo Piketty foi publicado, por enquanto, só na França. Sairá em inglês em março. Sua mensagem é a mesma do outro livro: o capitalismo, do jeito que vai, caminha pra um desastre. Como evitar o desastre? Taxar mais os mais ricos. Mudar as leis de sucessão que só favorecem fortunas herdadas etc. Piketty não é comunista. Se declara um social-democrata no modelo europeu, só disposto a levar o social e o democrático um pouco mais longe. Um bom exemplo.
Luis Fernando Verisimo

Alerta de um real Príncipe

No século em que estamos em que os povos se acham assaz instruídos de seus direitos, é mistér que príncipes igualmente estejam e conheçam que são homens e não divindades, e que lhes e indispensável terem muitos conhecimentos e boa opinião, para que possam ser mais depressa amados do que mesmo respeitados - o respeito de um povo livre para seu chefe deve nascer da convicção, que aquele tem, de que seu Chefe é capaz de o fazer chegar àquele grau de felicidade a que ele aspira, e assim não sendo, desgraçado Chefe, desgraçado Povo
Pedro I em carta a Pedro II em 1832

Brasil, um grande Coari

Velho Brasil. Bolsonaro deu o “de acordo” às novas regras para os partidos políticos, afrouxando a prática de caixa dois e lavagem de dinheiro. Não deu maiores explicações. Admito que ainda me surpreendo com o pregoeiro da honestidade e dos bons costumes.

Isso foi na sexta, 27. Mesmo dia em que foi preso Adailzinho, prefeito de Coari, município do Amazonas, acusado de corrupção. Roubalheira no talo. Menos de 450 quilômetros de Manaus, e a 6 horas de distância de Brasilia, por ar, terra e rio, o que acontece por lá é vício brasileiro. E assim promete esse novo Brasil velho.

Rica em royalties, localizada à beira do rio Solimões, Coari tem a segunda arrecadação do Amazonas. Perde para a capital. Lá está a plataforma de Urucu, da Petrobras. Muito dinheiro em beneficio de poucos... o tal prefeito e seus parças. Adailzinho aparecia uma vez por semana na cidade que o elegeu, e pagava débitos da prefeitura com 30% de propina.

Isso é Brasil. Coari é tudo isso aqui. Nesse mesmo final de semana, o presidente que prometia acabar com a corrupção e os mal feitos, recebeu no Palácio da Alvorada, pela segunda vez, extra agenda, o defensor do encrencado senador Flávio Bolsonaro. Flavio está envolvido em estranhas transações financeiras, identificadas pelo COAF.

Bolsonaro não deu satisfação ao público do que tratou com o advogado do filho 01. Age como sempre agiu. Dono de suas temíveis verdades e dos votos dos que tristemente o elegeram. Era previsível. Insano em declarações e ameaças, Jair Bolsonaro enganou cegos e surdos na politica.

Da semana que passou, Bolsonaro e Adailzinho só perderam para a escandalosa confissão de Rodrigo Janot, ex-Procurador Geral da República. Até quem o chamava de “esquisitíssimo”, e conhece seu temperamento desassossegado, não apostaria um real na possibilidade de Janot, então na PGR, entrar com um revólver no STF para matar o ministro Gilmar Mendes. Depois se matar.

Mas foi o que ele próprio contou em entrevista a Veja. No livro "Nada Menos que Tudo", escrito pelos jornalistas Jailton de Carvalho e Guilherme Evelin, Janot põe a nu políticos que tentaram cooptá-lo, ministros acovardados do STF, classifica Eduardo Cunha como o “pior dos criminosos”, e duvida do caráter ético do ex-juiz Sergio Moro.

Janot acredita que será julgado pela história. Escreveu um livro para dar sua versão dos fatos. Bolsonaro ainda tem tempo de procurar um ghost-writer. Alguém com estômago para ouvir suas “memórias”. A história, capitão, o julgará com mais rigor que Janot. Pode estar certo.
Mirian Guaraciaba

Pensamento do Dia


O ódio de Trump contra a imprensa contagiou o Brasil

Chegou ao Brasil o perigoso vírus do ódio à imprensa e aos meios de comunicação em geral, difundido pelo presidente norte-americano, Donald Trump, e que está contagiando as experiências autoritárias da nova extrema direita mundial, uma mistura de nazismo e fascismo modernos. É algo que se revela no fato de o presidente Jair Bolsonaro intensificar a cada dia seus ataques contra veículos aos quais acusa diretamente de estarem criando "uma imagem negativa” dele próprio e do Brasil no mundo. Acompanham-no nesse discurso seus filhos, alguns de seus ministros e até o general Heleno.

Mas é Bolsonaro quem mais se dedica a atacar a imprensa quando pode. Em suas famosas lives nas redes sociais, a imprensa era o segundo tema mais mencionado até o último dia 19, segundo o jornal Metrópole, que analisou todas as transmissões ao vivo que ele fez aos seus eleitores desde que assumiu o poder. O tema mais citado foi a reforma da Previdência. Num café da manhã com correspondentes estrangeiros, do qual participou Carla Jiménez, diretora da edição Brasil do EL PAÍS, o presidente acusou a imprensa brasileira de envenenar sua imagem no exterior: “Entendo perfeitamente o tamanho do envenenamento do Brasil fora dele”.


Os jornais locais noticiaram que, em sua recente viagem à ONU, Bolsonaro disse a Trump que o amava (“I love you”). Aparentemente, esse amor lhe inoculou a fórmula do ódio aos meios de comunicação e a estratégia, que começa a contagiar o mundo todo, de qualificar como fake news qualquer notícia que simplesmente o desagrade.

Sabemos, entretanto, que ao longo da História todos os aprendizes de ditadores começaram se irritando primeiro com as críticas recebidas na imprensa, e acabaram fechando-a ou transformando-a em um instrumento fiel, como ocorreu com o fascismo, o nazismo e o franquismo, por exemplo. Daí que já seja um clássico na política que os anátemas dos líderes políticos à imprensa sejam o presságio de tentações ditatoriais.

Todos os autoritarismos e extremismos, de direita ou de esquerda, concordam que os meios de comunicação, por amor à pátria, devem estar a favor de suas loucuras e fiéis aos seus ditames, sobretudo quando se leva em conta que tais movimentos extremistas costumam estar impregnados de misticismos religiosos e arroubos nacionalistas.

É curioso que no Brasil um dos filhos do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), indicado nada menos que a embaixador nos Estados Unidos, tenha candidamente admitido que o Governo do seu pai, que batiza eufemisticamente como “conservador”, ainda não conte com uma imprensa conservadora porque foi eleito “sem que houvesse uma universidade conservadora, uma militância conservadora organizada e sem um partido conservador”. E acrescentou: “Por isso tampouco temos uma imprensa conservadora”.

Esse discurso faz sentido aos seus eleitores mais radicais, que tomam as dores de seus governantes. São estimulados a sonhar com um poder que domine tudo, incapaz de conviver com as diferenças e com uma imprensa livre capaz de informar em liberdade. A imprensa se transforma em seguida, onde chega ao poder, em inimizade a combater, inclusive com ameaças de morte aos jornalistas que não se ajoelharem.

É o que acaba de denunciar o jornalista americano Jim Acosta, da CNN, autor do livro O Inimigo do Povo, em uma entrevista à Folha de S.Paulo. Ele, que foi humilhado publicamente por Trump por fazer perguntas das quais o presidente não gostou, está recebendo ameaças de morte, inclusive contra sua família, algo insólito nos Estados Unidos, onde sempre existiu, sob presidentes de todas as tendências, a máxima liberdade de expressão da mídia.

É verdade que nenhum governo, por mais progressista que seja, gosta das críticas da imprensa. Para eles, os meios de comunicação deveriam servir sobretudo para divulgar o bem que eles estão fazendo ao povo, e seria melhor que esquecessem seus pecados. Prefeririam todos uma imprensa asséptica, ou mesmo complacente. A diferença é que, para os ditadores ou aspirantes a tal, não basta esse “não gostar das críticas”; eles preferem emudecê-las, eliminando os protagonistas se for necessário.

Para testar o grau de maturidade democrática de um governo ou de um presidente, basta medir sua capacidade de aceitar críticas, respeitando a lei sagrada da liberdade de expressão ou sua tentação de dobrá-la ou eliminá-la. E, ao mesmo tempo, os meios de comunicação, que tampouco são sempre inocentes, medem seu grau de democracia na medida em que não se omitem de informar às pessoas sobre os desmandos do poder. Há momentos em que é justamente a imprensa que tem a responsabilidade sagrada de denunciar sem meias palavras quando a democracia começa a ser visivelmente ameaçada.

Na história das aberrações no campo da perseguição, não apenas dos jornalistas, mas das ideias, não é possível esquecer quando se fala em liberdade de expressão e de ideias, a famosa queima de livros em público, na Alemanha nazista, apenas porque não coincidiam com as ideias de Hitler. O regime organizou uma marcha com tochas e 25.000 livros foram queimados em público, entre eles obras de Freud, Einstein e Hemingway, arrancadas de bibliotecas e livrarias.

Naquela época, a escritora e ativista, surda e cega, Helen Keller levantou a voz para declarar que “a tirania não pode derrotar o poder das ideias”. E de nada serviu que o “amor cego” ao poder de turno fosse obrigado então nas escolas.

No Brasil já se viveu a censura durante a ditadura, quando jornais que inclusive tinham apoiado o golpe militar, como o Estado de S. Paulo, publicavam receitas ou poemas de Luís de Camões no lugar dos textos censurados. Mas é grave que fora do país comecem a ser ouvidos toques de sino de tentações autoritárias e nostalgias nazifascistas. Ainda não se estão queimando livros, mas já assustou todos os amantes da democracia e da liberdade o recolhimento de um livro de literatura infantil com desenhos de um casal gay na importante Bienal do Livro do Rio de Janeiro.

Na Alemanha de Hitler se exaltava a “limpeza do espírito alemão”, que era um passaporte a todas as aberrações, e se proclamava o slogan copiado hoje pelo presidente brasileiro: “Alemanha acima de tudo”. Aqui, é “Brasil acima de tudo” e, além disso, “Deus acima de todos”. Que Deus? Na Itália, Benito Mussolini, que era ateu militante, acabou como defensor do Vaticano e beijando o anel dos papas. E até batizou seus filhos como católicos. Os votos da Igreja valiam isso e muito mais.

Franco, na Espanha, considerado um militar sem religião, acabou saindo em procissão na rua, com o privilégio do Papa de andar sob o dossel como o Santíssimo Sacramento, acompanhado por bispos e cardeais que emudeceram quando o Caudilho começou a controlar os meios de comunicação colocando censores até dentro dos jornais, que decidiam o que se podia publicar ou não, pelo bem da Pátria.

Somente quando os primeiros jornais livres começaram a sair às ruas na Espanha, depois da morte do ditador em 1975 – entre eles este em que escrevo desde então –, as pessoas souberam que a barbárie de uma das ditaduras mais longas e duras da Europa havia perdido e a liberdade havia renascido.

Pouco tempo depois do restabelecimento da democracia ainda ressoavam ímpetos autoritários. Em 23 de fevereiro de 1981, militares atacaram o Congresso durante uma votação, em Madri. Com armas em punho, o tenente-coronel Antonio Tejero controlava o lugar e não escondia suas intenções. Retomar o poder para os militares. O então rei Juan Carlos repudiou o movimento, enquanto os tanques do Exército se dirigiam para tomar a redação do EL PAÍS. Sob intensa adrenalina, o então diretor Juan Luis Cebrián e sua equipe tiveram que reagir rapidamente. Para informar os espanhóis sobre o risco de cair novamente em mãos autoritárias, produziu uma edição especial do jornal e colocou na capa a manchete em letras grandes: “Golpe de Estado, EL PAÍS com a Constituição”.

Fizeram um rápido editorial dizendo que acontecesse o que fosse nas horas seguintes, o jornal estaria a favor da Constituição e da democracia. A edição especial começou a ser distribuída de mão em mão nas ruas para que as pessoas ficassem sabendo do que estava acontecendo e fortalecessem a resistência. Havia uma missão especial que era fazer chegar um exemplar com o duro editorial ao Congresso ocupado militarmente. Assim os golpistas saberiam que não teriam o poder tão fácil. Quando o exemplar do EL PAÍS entrou no Congresso, os jornalistas presentes entenderam que o golpe havia fracassado e a democracia tinha ganhado.
Juan Arias

Uma viagem no túnel do tempo

Camisa polo, crachá no pescoço, o bilionário agricultor Blairo Maggi, 63 anos, se surpreendia a cada passo no Vale do Silício (EUA). Mês passado, visitou-o com executivos da sua Amaggi, cujo lucro subiu 50,5% (R$ 804,8 milhões). Imaginaram uma viagem ao futuro, mas na Califórnia descobriram a relatividade do tempo. Principalmente, no agronegócio (44% do total de exportações brasileiras).

Maggi, maior produtor mundial de soja, espantou-se com a transformação no campo. A lavoura já opera máquinas capazes de identificar doenças em plantas, medir teor de argila e nível de fertilidade do solo, indicar se as vacas "tão prenhas" e monitorar a gestação e doenças.

Provou e gostou das carnes de boi, de aves, ovos e leite feitos em laboratório a partir de células-tronco. Ouviu sobre como a carne e o leite podem ter adição de vitaminas e remédios. Se crianças precisam de nutrientes, vacinas ou antibióticos, a dose vai adicionada à carne ou leite, com mesmo sabor. O leite de laboratório já tem 20% do mercado dos EUA.

Mais surpreendente foram as hortas verticais da Plenty. Elas mostram ser possível alimentar milhares com pequenas fazendas, usando 99% menos terra que o padrão brasileiro, com somente 5% do atual consumo de água, sem pesticidas e sementes transgênicas. As plantas crescem durante 18 horas por dia, com qualidade três vezes acima da habitual, em safra contínua. Maggi degustou alfaces. Achou "ótimas".

No Brasil, a novidade é o peso do custo Bolsonaro no caixa das empresas do agronegócio, efeito da retórica radical de um presidente em constante fuga da realidade. Em paralelo, cerca de 350 empresas de tecnologia para agropecuária paralisaram investimentos à espera da anunciada regulamentação setorial. O governo segue patinando num cipoal 75 mil leis produzidas nos últimos 17 anos. São 290 páginas e 820 artigos com regras num único decreto (6.759/2002). E há 602 portarias que afetam a tecnologia e os negócios de alimentos.

Em Brasília, o milagre da modernidade é outro. Como escreveu o poeta Cacaso, "a água já não vira vinho, vira direto vinagre".

Bolsonaro ganha novos heróis: Toffoli e Gilmar

Há uma enorme falta de sintonia entre o discurso de Jair Bolsonaro e a blindagem oferecida ao primogênito Flávio Bolsonaro. O pai diz representar a "nova política". Jura que não tolera a corrupção. O filho, acusado de peculato e lavagem de dinheiro, declara que é honesto. Mas não faz muita questão de demonstrar. É um virtuoso pouco convencional. Em vez de apressar o processo para provar rapidamente sua inocência, Flávio quebra lanças para trancar a investigação. Tornou-se um caso inédito de político superblindado.


Flávio Bolsonaro já dispunha de liminar expedida em julho pelo presidente do Supremo, Dias Toffoli —aquela que suspendeu em todo país os processos fornidos com dados detalhados do Coaf. O Zero Um passou a dispor de um segundo escudo, fornecido dessa vez pelo supremo guardião dos direitos individuais Gilmar Mendes. O Supremo colocou uma trava adicional numa porta que já estava lacrada.

Vale a pena relembrar o que dizia Jair Bolsonaro em dezembro, pouco antes de tomar posse na Presidência sobre a investigação que nasceu de uma movimentação bancária suspeita de Fabricio Queiroz, o faz tudo dos Bolsonaro. Dizia o presidente: "Se algo estiver errado —seja comigo, com meu filho ou com o Queiroz— que paguemos a conta deste erro. Não podemos comungar com erro de ninguém. O que a gente mais quer é que seja esclarecido o mais rápido possível."

Quem observa a conjuntura atual não enxerga em cena esse Jair Bolsonaro de dezembro. Hoje, o pai transforma a blindagem do primeiro-filho num processo de oxidação do próprio governo. Na Idade Mídia, em que a vida escorre pelas redes sociais, a nova realidade deixa atordoados os súditos virtuais do bolsonarismo. Para quem defendia o fechamento do Supremo Tribunal Federal, passar a tratar Dias Toffoli e Gilmar Mendes como heróis da resistência é um processo que exige uma revolução mental.