domingo, 14 de outubro de 2018

Aumento do número de sem-teto nos EUA é 'bomba-relógio'

Elas parecem estar em toda parte. São pessoas de diversas idades, dormindo sobre papelão ou diretamente no chão, sem teto, debaixo de pontes ou em parques com seus pertences em sacolas plásticas como símbolo de suas vidas em movimento.

Muitos chegaram às ruas recentemente, vítimas da prosperidade que nos últimos anos transformou muitas cidades da costa oeste dos Estados Unidos.

Enquanto as autoridades tentam responder a essa crescente crise, alguns dizem que o mais provável é que a situação piore.

O jornalista da BBC Hugo Bachega visitou a vibrante cidade de Portland, a maior de Oregon, no noroeste dos Estados Unidos e uma das que estão vivendo o problema.

"É uma cidade de clima agradável, cultura rica e pensamento progressista", conta Bachega.

"É também um núcleo de inovação, parte do chamado Silicon Forest (Vale da Floresta, em tradução literal) - apelido dado ao grupo de empresas de alta tecnologia localizadas na área metropolitana de Portland - e os novos residentes se mudaram para lá nos anos pós-crise, atraídos pelas empresas de alta tecnologia e seus trabalhos bem remunerados".

"Mas a bonança não chegou para todos", acrescenta o jornalista.

Calçada da Fama, em Los Angeles

O que aconteceu em Portland é uma história que se repete em várias cidades dos Estados Unidos, incluindo Nova York, Los Angeles e São Francisco.

A crescente demanda em uma área com falta de moradias rapidamente elevou o custo de vida e aqueles que estavam financeiramente no limite perderam a capacidade que tinham de pagar um lugar para viver.Image captionA situação que o país enfrenta é pior na região oeste, um destino normalmente escolhido por trabalhadores jovens com alta qualificação

Muitos foram resgatados por familiares e amigos ou programas governamentais e organizações de ajuda. Outros, no entanto, acabaram na rua. Os mais sortudos encontraram lugar em abrigos públicos. Não poucos estão agora em barracas de acampamento e veículos nas ruas.

"Mesmo que a economia esteja mais forte do que nunca", disse o prefeito de Portland, Ted Wheeler, do Partido Democrata, "a desigualdade está crescendo a um ritmo alarmante e os benefícios de uma economia em crescimento se concentram cada vez mais em menos mãos".

Muitos especialistas acreditam que é "uma bomba-relógio" nas ruas americanas que pode explodir para as autoridades, já que o problema está aumentando. "Temos mais desigualdade nos Estados Unidos, e isso, sem dúvida, tem impacto sobre as pessoas".

O número de moradores de rua aumentou em outras cidades prósperas da costa oeste do país, geralmente locais de destino para trabalhadores jovens com alto nível de qualificação, como São Francisco e Seattle - onde a culpa também tem sido atribuída aos preços em alta e aos despejos.

Os números exatos são sempre difíceis de serem estabelecidos, mas 553.742 pessoas estavam sem moradia em uma mesma noite nos Estados Unidos em 2017, segundo o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano.

Foi a primeira alta em sete anos. O número, no entanto, ainda foi 13% inferior ao de 2010, graças ao declínio registrado em 30 estados - uma queda ofuscada pelos altos aumentos no resto dos EUA, com Califórnia, Oregon e Washington entre os piores estados.

Los Angeles, onde a situação é descrita como um fenômeno sem precedentes e crescente, tem mais de 50 mil pessoas desabrigadas, logo atrás de Nova York, com cerca de 75 mil pessoas.

Apenas mamar

A função do governo cifra-se em lançar e receber os tributos e gastar depois o produto com as classes privilegiadas em que o poder público se apoia para exercer a sua dominação
Eduardo Frieiro

O raio

Aconteceu-me uma vez, num cruzamento, no meio da multidão, no vaivém. Parei, pisquei os olhos: não entendia nada. Nada, rigorosamente nada: não entendia as razões das coisas, dos homens, era tudo sem sentido, absurdo. E comecei a rir. Para mim, o estranho naquele momento foi que eu não tivesse percebido isso antes. E tivesse até então aceitado tudo: semáforos, veículos, cartazes, fardas, monumentos, essas coisas tão afastadas do significado do mundo, como se houvesse uma necessidade, uma coerência que ligasse umas às outras. Então o riso morreu em minha garganta, corei de vergonha. Gesticulei, para chamar a atenção dos passantes e – Parem um momento! – gritei – tem algo estranho! Está tudo errado! Fazemos coisas absurdas! Este não pode ser o caminho certo! Onde vamos acabar? As pessoas pararam ao meu redor, me examinavam, curiosas. Eu continuava ali no meio, gesticulava, ansioso para me explicar, torna-las participantes do raio que me iluminara de repente: e ficava quieto. Quieto, porque no momento em que levantei os braços e abri a boca a grande revelação foi como que engolida e as palavras saíram de mim assim, de chofre. - E daí? – perguntaram as pessoas. – O que o senhor quer dizer? Está tudo no lugar. Está tudo andando como deve andar. Cada coisa é conseqüência da outra. Cada coisa está vinculada às outras. Não vemos nada de absurdo ou de injustificado! E ali fiquei, perdido, porque diante dos meus olhos tudo voltara ao seu devido lugar e tudo me parecia natural, semáforos, monumentos, fardas, arranha-céus, trilhos de trem, mendigos, passeatas; e no entanto não me sentia tranqüilo, mas atormentado. - Desculpem – respondi. – Talvez eu é que tenha me enganado. Tive a impressão. Mas está tudo no lugar. Desculpem. – E me afastei entre seus olhares severos. Mas, mesmo agora, toda vez (freqüentemente) que me acontece não entender alguma coisa, então, instintivamente, me vem a esperança de que seja de novo a boa ocasião para que eu volte ao estado em que não entendia mais nada, para me apoderar dessa sabedoria diferente, encontrada e perdida no mesmo instante. 
 Ítalo Calvino, "Um general na biblioteca"

Imagem do Dia


Candidatos não passariam em teste para bombeiros

Há uma emergência na economia brasileira. Com o Tesouro esburacado e a dívida púbica em disparada, o País está arriscado a quebrar e a ter de pedir socorro em poucos anos, talvez ainda no mandato do próximo presidente. O alarme soa sem parar, mas os candidatos à Presidência parecem desconhecer o óbvio: seu desafio mais urgente será cuidar das finanças oficiais e impedir um desastre. Sem isso nenhum plano de governo, de qualquer coloração política, terá sentido prático. 

Mas eles continuam falando de seus planos como se o maior dos obstáculos fosse problema secundário, facilmente superável ou mesmo distante. Nenhum dos dois passaria num teste para o Corpo de Bombeiros ou para o serviço de pronto-socorro. Mas há uma diferença. Um reconhece explicitamente a existência de um problema fiscal importante, mas continua sem dizer com clareza como vai enfrentá-lo a partir de 2019. O outro mal admite a importância do problema e acena com aumento de gastos públicos no primeiro ano de mandato.


Para entender a emergência é bom começar pela dívida pública. O leitor pode escolher o critério. Pelo padrão de Brasília, em agosto o governo geral devia R$ 5,22 trilhões, soma equivalente a 77,3% do produto interno bruto (PIB). Em dezembro do ano passado a relação estava em 70%. No fim de 2018 estará bem próxima de 80% e continuará crescendo nos próximos anos. Pelo critério do Fundo Monetário Internacional (FMI), a relação dívida/PIB chegou a 84% no ano passado, deve atingir 88,4% em 2018, baterá em 97,1% em 2022, no fim do próximo mandato presidencial, e alcançará 98,3% no ano seguinte.

O critério oficial brasileiro exclui os títulos do Tesouro mantidos na carteira do Banco Central (BC). O padrão do Fundo facilita comparações internacionais. No ano passado a dívida do governo geral, no caso dos países emergentes e de renda média, equivalia a 48,7% do PIB. No caso da América Latina, a proporção média correspondia a 62,5%, mas esse número é obviamente distorcido pelo peso da dívida brasileira. O quadro, porém, é até pior: no ano passado a dívida média nas economias avançadas era igual a 75,1% do PIB, segundo o FMI.

Por qualquer critério, do Fundo ou do governo brasileiro, a situação do País é muito ruim e chama a atenção de financiadores e investidores do mercado internacional, especialmente, é claro, das agências de classificação de risco.
Quanto pior a classificação, maior o custo do financiamento conseguido no exterior. Mesmo sem esse peso adicional, o custo da rolagem da dívida pública brasileira é muito alto e assim continuará enquanto as contas oficiais permanecerem muito frágeis. 

O governo geral, considerado nesses cálculos, inclui os três níveis da administração. O problema é explicável principalmente pelo mau desempenho financeiro do governo central. Mas o endividamento de alguns Estados também cresceu perigosamente nos últimos anos, quando o governo petista afrouxou os controles e concedeu garantias de forma irresponsável.

A dívida continuará em expansão enquanto a administração for incapaz de pagar pelo menos os juros vencidos. Para pagar esse compromisso será necessário obter superávit primário, isto é, uma sobra nas contas do dia a dia do governo. Se o dinheiro for suficiente para cobrir apenas uma parte dos juros, o endividamento continuará a crescer, porque será preciso refinanciar também uma parcela dos encargos.

Enquanto esse quadro perdurar, os juros continuarão elevados e faltarão recursos para o investimento empresarial. Para captar dinheiro no mercado as empresas terão de competir, como tem ocorrido há muitos anos, com um governo devorador de uma enorme fatia da poupança disponível.

Tentar controlar o custo do crédito será inútil, como sempre foi, porque juros tabelados ou de alguma forma controlados acabam resultando em desajustes. Um dos mais visíveis é o aumento da inflação, como os brasileiros deveriam ter aprendido. Inflação baixa, ou em queda, e contas públicas no rumo do ajuste são os caminhos mais seguros para baratear o crédito, liberar recursos para investimento – público e privado – e elevar o potencial de crescimento econômico.

O guru econômico do candidato Jair Bolsonaro coordena uma grande equipe envolvida no planejamento do governo. Pouco se revelou, no entanto, sobre a estratégia de arrumação das finanças públicas e sobre o desenho para a reforma da Previdência. Privatizações e concessões foram apontadas como fontes de recursos para a redução da dívida. Mas o processo continua obscuro. Além disso, a dívida voltará a crescer, depois dessa operação, se faltar um ajuste efetivo do Orçamento público. Os detalhes permanecem misteriosos.

O petista Fernando Haddad mal admite a existência de um problema fiscal. Ao contrário: tem falado em eliminar o teto de gastos, em discutir a reforma da Previdência com o funcionalismo e em gastar mais para animar a economia. De onde virá o dinheiro? Como recursos dificilmente caem do céu, o caminho será um maior endividamento. Empresários poderão até aplaudir o impulso inicial, mas um desarranjo maior será inevitável, até porque os amigos da corte cobrarão incentivos fiscais e financeiros e proteção comercial.

O Haddad do segundo turno permanece incapaz de apresentar propostas econômicas claras e compatíveis com a experiência acumulada no Brasil e no exterior. Parou de falar em constituinte especial e de propor censura aos meios de comunicação (a tal regulação da mídia) e controle social dos Poderes (algo acima da democracia representativa). Mas continua representando, no essencial, o velho papel. Deixando de ir a Curitiba e reduzindo o uso da cor vermelha, ele apenas cumpre ordens de Lula – como sempre. O discurso pode ter mudado. Lula, o verdadeiro candidato, certamente é o mesmo.

Por que os militares não serão atingidos pela reforma da Previdência?

Economistas de todas as tendências demonstram consenso em dois pontos da crise brasileira, que precisam ser equacionados para que haja uma retomada sólida do desenvolvimento socioeconômico – a reforma da Previdência e a redução da dívida pública bruta, que engloba governo federal, INSS, governos estaduais e municipais. Sem essas duas providências, continuará a falta de recursos para gastos de primeira necessidade, como infra-estrutura, assistência à saúde, serviços de segurança e educação pública. Ou seja, sem solucionar esses dois desafios, o Brasil não tem futuro, será uma gigantesca Grécia tropical.


Diante dessa realidade, seria de se esperar que a campanha eleitoral dos presidenciáveis abordasse prioritariamente esses dois problemas gravíssimos, mas não é isso que se vê nos programas eleitorais, em que os candidatos irresponsavelmente nos prometem céus e terras, representando partidos que mais parecem as Organizações Tabajara a nos informar: “Seus problemas acabaram!”. Mas na verdade eles estão apenas começando…

O governo pega dinheiro emprestado com investidores para honrar os compromissos. Em troca, compromete-se a resgatar seus títulos com alguma correção, que pode ser prefixada (definida com antecedência) ou seguir a Selic, a inflação ou o câmbio.

Atualmente, a Selic está em 6,5% ao ano, no menor nível da história. No entanto, por causa das turbulências no mercado financeiro, esse papel continua a ser o mais atraente aos investidores. Como o governo não consegue pagar, vai rolando a dívida através da emissão de mais títulos, e a bola de neve segue aumentando, ameaçadoramente.

Apesar da gravidade da situação, o assunto não é discutido e a mídia se omite, criminosamente, porque está tão endividada quanto o governo e não pode enfrentar os banqueiros.

O buraco nas contas da Previdência chegou a R$ 268,8 bilhões no ano passado, em meio às discussões sobre a reforma no Congresso. Mas também no caso do déficit do INSS os candidatos são reticentes. E não é para menos. Os militares pesam 16 vezes mais no rombo da Previdência do que os segurados do INSS.

É espantoso que as Forças Armadas estejam fora da reforma da Previdência. O déficit da reforma (aposentadoria) de cada militar foi de ficou em R$ 99,4 mil no ano passado. E entre os servidores civis da União, o prejuízo do INSS foi de R$ 66,2 mil, contra apenas R$ 6,25 mil de cada segurado do INSS.

Não há um estudo, nenhuma palavra sobre os prejuízos bilionários da pejotização – a transformação de empregados em pessoas jurídicas, para que as empresas e seus funcionários possam sonegar INSS, FGTS e Imposto de Renda.

Ruína ideológica torna 2018 parecido com 1989

Recomeçou o horário eleitoral, agora em ritmo de mata-mata, com tempo de propaganda igual para os dois presidenciáveis. Num ponto, a disputa atual lembra a sucessão de 1989. A exemplo do que fizeram Collor e Lula na primeira eleição direta depois da ditadura militar, Bolsonaro e Haddad insultam-se em rede nacional, ocultando dos eleitores as fragilidades de suas propostas para um país em crise.


Há sobre a mesa do próximo presidente da República uma turbulência fiscal, uma crise moral e um Congresso fragmentado. O resultado das urnas não fará desaparecer os problemas. O que pode desaparecer é a legitimidade de um presidente eleito que tenha vendido na campanha soluções simplistas para encrencas complicadas.

Há 29 anos, Collor achincalhava Lula, acusando-o de planejar “luta armada”, inspirado em “Hitler e Khomeini”. Lula afrontava Collor, tachando-o de filho de uma família que “mata trabalhador rural”. Hoje, Bolsonaro trata Haddad como doutrinado do Foro de São Paulo, que fará do Brasil uma Cuba ou uma Venezuela. E Haddad insinua que Bolsonaro mergulhará o país na barbárie. O Brasil não será comunista. Também não há sinal de guerra civil. Mas as ruínas ideológicas de 2018 revelam que aquele horizonte bonito que viria junto com a democracia continua sendo uma utopia irrealizável.

sábado, 13 de outubro de 2018

Algumas reflexões sobre um estranho fenômeno chamado Jair Bolsonaro

Os chamados políticos profissionais, que a cada eleição saem às ruas para pedir votos, até agora não entenderam o que aconteceu desta vez. Por dever de ofício, os analistas políticos fazem contorcionismos e acrobacias intelectuais, para fingir que sabem explicar o fenômeno Jair Bolsonaro, mas na verdade também estão completamente perdidos, batendo cabeça, como se dizia antigamente. Tudo mudou na política, não há dúvida. E quando não há explicação, o jeito é fazer como no filme “Casablanca” e culpar os suspeitos de sempre, que hoje atendem pelo nome de “novos tempos”.

Os astrólogos da política diriam que houve a conjunção de cinco fatores sociais que se alinharam e explodiram como um Big Bang eleitoral: 1) a persistência da crise econômica e do desemprego; 2) a desmoralização da classe política pela corrupção epidêmica; 3) o primado da criminalidade e da insegurança; 4) a necessidade de acreditar no surgimento de um messias; 5) e a disseminação da comunicação via celular, whatsapp e redes sociais, que levou Bolsonaro à vitória na maior parte do país, perdendo apenas nos grotões, especialmente no Nordeste mais pobre e com menos celulares.

Na conjunção dos cinco fatores, surgiu o fenômeno Jair Messias Bolsonaro, que teve um extraordinário senso de oportunidade. Foi o primeiro candidato a se lançar, e sem ter partido, porque jamais ganharia legenda no PP. Sua campanha foi perfeita e barata, apenas viajando pelo país e plantando outdoors pelas estradas, para ressoar como voz do desapontamento coletivo.


Aos poucos, a campanha foi ganhando corpo, Bolsonaro passou a ser uma atração nos aeroportos e nos aviões de carreira. Não tinha partido nem teria exposição suficiente no rádio e TV. Mas nada disso o enfraqueceu, porque as redes sociais passaram a amplificar o discurso do candidato que expressava o descontentamento comum a todos, como uma catarse ciclópica nas nuvens da web. E quem embarcou na onda se deu bem, com a eleição em massa dos seguidores de Bolsonaro, os “antipolíticos”.

A eleição presidencial já está ganha desde a facada em Bolsonaro, mas vêm aí o dia seguinte, as semanas seguintes, os meses seguintes… Os governos dos três níveis – federal, estadual e municipal – estão quebrados. Não adianta os dois candidatos oferecerem quimeras, como ampliar a isenção do Imposto de Renda ou dar 13º para o Bolsa Família. Quem cumprir esse tipo de promessa estará enveredando pelo tenebroso caminho da irresponsabilidade fiscal, já percorrido por Dilma Rousseff até sofrer impeachment.

A dívida pública é a Esfinge que logo no primeiro dia desafiará o vencedor, que se chama Bolsonaro. Mesmo assessorado pelos generais, o capitão não conseguirá decifrar o enigma. Se tiver juízo, procurará então aconselhamento com a auditora Maria Lúcia Fattorelli, considerada uma das maiores especialistas mundiais em dívida pública. Ela lhe dirá exatamente o que fazer.

Pensamento do Dia


Falta água e sabão à 'frente democrática' do PT

Numa entrevista de porta de cadeia, o grão-petista Jaques Wagner insinuou nesta quinta-feira que todos os atores políticos comprometidos com a democracia têm a obrigação de aderir voluntariamente à “frente democrática” pró-Haddad. “A responsabilidade com o país nessa esquina da história brasileira é de voluntariado”, declarou Wagner. “Não acho que ninguém tenha que ser convidado. Quem tem responsabilidade tem que vir para dentro de uma plataforma democrática.”

A formulação de Jaques Wagner é tola e desonesta. Flerta com a tolice porque carrega nas entrelinhas a mensagem segundo a qual o PT faz ao país o favor de liderar uma cruzada anti-Bolsonaro. Roça a desonestidade porque o orador bem sabe que seu partido tornou-se um pedaço do problema, não da solução.

Ainda não se formou defronte do comitê de campanha de Fernando Haddad nenhuma fila de lideranças políticas ávidas por aderir à “frente democrática” do PT. Ao contrário. Ciro Gomes voou para a Europa. Marina Silva trancou-se em suas mágoas. Fernando Henrique Cardoso observa a movimentação de esguelha. Todos já foram vítimas de cotoveladas de Lula e do petismo.

Novo coordenador político do comitê de campanha de Haddad, Wagner encontrou os repórteres depois de conversar com Lula na cadeia. Era portador de um recado do presidiário. Ele mandara dizer que o PT, “com seus acertos e com seus erros”, sempre respeitou a democracia e as instituições. Conversa fiada.


A teoria da conspiração contra Lula, a “alma mais honesta desse país”, joga água no moinho antidemocrático do desrespeito às decisões judiciais e da fantasia de uma imprensa venal a serviço de uma elite invisível. As coisas seriam mais simples se pessoas como Lula, Wagner e Haddad admitissem que o PT operou como caixa registradora de propinas e que a cúpula partidária foi parar na cadeia porque cometeu crimes como corrupção e lavagem de dinheiro.

Em vez de autocrítica, Wagner despejou sobre os microfones autoelogios: “Continuo dizendo que o que a gente fez pela democracia brasileira e pelo povo é infinitamente maior do que os erros, que são públicos e eu não preciso relatar.” Os petistas têm dificuldades para chamar seus crimes pelo nome. Preferem classificar de “erros”, eufemismo para roubalheira.

Além de engordar patrimônios individuais, o mensalão e o petrolão não foram senão atentados contra a democracia, mecanismos de compra de apoio congressual com verbas surrupiadas do Estado. Quem acompanhou o processo de julgamento da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral, no ano passado, pôde perceber no voto do ministro Herman Benjamin que o mandato de 2014 foi comprado com verbas sujas da Odebrecht. Ao enterrar as ações por 4 votos contra 3, o TSE apenas piorou o soneto.

Com um pano de fundo assim, tão enodoado, a formação de uma frente anti-Bolsonaro encabeçada por Haddad seria vista como uma tentativa de enxaguar a roupa suja do petismo. Salvar-se-ia não a democracia, mas o PT. O petismo parece não ter percebido o que está se passando. Bolsonaro só chegou à antessala do gabinete presidencial porque representa os interesses da maior força política existente hoje no Brasil: o antipetismo. Falta água e sabão à proposta de “frente democrática” do PT.

Agora sim

Está finalmente explicado o motivo pelo qual o deputado Jair Bolsonaro venceu o primeiro turno das eleições presidenciais de 2018. 

Não é nada do que você pensa. 

A população nativa, na sua ignorância de sempre, estava achando que Bolsonaro ganhou porque teve 18 milhões de votos a mais que o segundo colocado. 

Imagine. 

Acreditar numa bobagem como essa só acontece mesmo com brasileiro, esse infeliz que vive longe dos bons centros do pensamento civilizado, progressista e moderno da humanidade, na Europa e nos Estados Unidos. 

Obviamente, não temos o nível mental necessário para entender o que entendem os jornalistas, cientistas políticos, sociólogos, filósofos e outros cérebros que habitam o bioma superior de Nova York, ou Paris, e dão a si próprios a incumbência de explicar o mundo às mentes menos desenvolvidas.
Tome-se, por exemplo, a televisão francesa. 

Ali eles sabem exatamente o que aconteceu no dia 7 de outubro no Brasil: Bolsonaro ficou em primeiro lugar na eleição por causa do racismo brasileiro.
Racismo? Como assim ─ que diabo uma coisa tem a ver com a outra? Os peritos da TV francesa explicam. 

A esquerda e o PT, nos governos do ex-presidente Lula e de Dilma Rousseff, favoreceram a “inclusão dos negros” no Brasil, e isso provocou a ascensão do ódio racial. 

Revoltados contra os “progressos” que o PT deu para os negros, os racistas brasileiros foram para o lado de Bolsonaro ─ e com isso aumentaram tanto os seus votos que ele acabou ficando em primeiro. 

Além disso, o “oficial do Exército” (coisa que o candidato deixou de ser há 30 anos), recebeu o apoio da elite rica. 

Aí fechou o esquema, resumem os comunicadores franceses: somando brancos, racistas e milionários, Bolsonaro acabou com aquela votação toda. 

Nada disso faz o menor sentido, mas nenhum mesmo ─ a começar pelo fato de que nem uma investigação do FBI seria capaz de descobrir o que, na prática, Lula e Dilma teriam feito de bom, algum dia, para algum negro de carne e osso.
Como seria possível, num país onde apenas 40% da população se declara branca, a matemática eleitoral favorecer quem não gosta de preto? 

Seria a maioria de pardos e negros, então, que estaria promovendo a ascensão do ódio racional contra si própria? 

Também é um mistério de onde saíram 50 milhões de racistas para votar em Bolsonaro ─ ou porque o candidato Hélio Lopes, conhecido como “Hélio Negão” e deputado federal mais votado do Rio de Janeiro com 350 mil votos, foi um dos seus maiores aliados na campanha eleitoral. 

Para piorar, além de negro retinto “Helio Negão” é sub-tenente do Exército, pobre e da Baixada fluminense. Elite branca?

O Brasil seria um fenômeno mundial se houvesse por aqui uma quantidade de ricos e milionários tão grande que conseguisse definir o resultado de uma eleição presidencial. 

Não dá para entender, igualmente, porque raios o candidato das elites faria a sua campanha de carro e a pé, enquanto o candidato das massas populares, Fernando Haddad, anda de cima para baixo num jatinho Citation Sovereign ─ um dos mais luxuosos do mundo, pertencente ao dono bilionário das Casas Bahia através de sua empresa de taxi-aéreo. 

(Se Haddad paga pelo aluguel já é ruim ─ de onde está saindo a fortuna necessária para isso? Se não paga é pior ainda.) 

Não dá para entender por que Bolsonaro não teve um tostão para a sua campanha e o “reformador social” Haddad, homem dos pobres, das massas miseráveis, dos sem-terra e sem-teto, das “comunidades” e das minorias, da resistência ao capitalismo, passou a eleição inteira nadando em dinheiro. 


Não dá para entender como seria possível existir no Brasil dezenas de milhões de “fascistas”, e “nazistas”, e exploradores do “trabalho escravo”, sem que ninguém tivesse conseguido perceber isso até hoje. 

Não, não dá para entender nada. 

Mas não esquente a sua cabeça; não é mesmo para você pensar em coisa complicada. 

A imprensa internacional, que tudo vê e tudo sabe, está aí justamente para explicar.

Pé na bunda

Quando o PT lutou pelo financiamento público das campanhas, e Romero Jucá aumentou o Fundo Eleitoral para R$ 3 bilhões para facilitar a vida das pessoas mais desprezadas e odiadas do Brasil, os analistas políticos tiveram a certeza de que os mesmos de sempre abocanhariam as maiores verbas de campanha, e a reeleição geral era certa. A renovação do Congresso seria impossível.

Mas a grande surpresa e alegria desses dias de ira foi ver gente como o onipresente e maligno Romero Jucá, o sinistro Eunício Oliveira, o trio Jovair Arantes, Cristiane Brasil e Ronaldo Nogueira (donos do Ministério do Trabalho), Lúcio Vieira Lima (irmão de Geddel), o multi-indiciado Valdir Raupp, o truculento Roberto Requião, os irmãos Sarney, Leonardo Picciani, o garoto da floresta Sibá Machado, Aníbal Gomes (parceiraço em vários processos e provável laranja de Renan Calheiros ), Marco Antônio Cabral (filho do multicondenado Sérgio), Luiz Sérgio e José Mentor, e mais 150, que foram postos na rua pelo voto popular indignado. Que também deu um rude golpe em Dilma Rousseff, por ter nos levado a uma crise que tanto contribuiu para a ascensão de Bolsonaro. O nós contra eles de Lula... deu neles. E ninguém reconhece nenhum erro.

São corruptos, ou incompetentes, ou fanáticos políticos, ou parceiros em falcatruas que desmoralizaram o Congresso, ou simplesmente burros. Tiveram o que mereceram: um pé na bunda.

Não se sabe o que será o novo Congresso, que também perdeu gente da qualidade de Cristovam Buarque e Cássio Cunha Lima, com uma maioria de novatos ainda não contaminados pelo vícios e privilégios dessa casta que se julgava intocável e suga e destrói o Brasil há décadas. Pena que Renan Calheiros, o pior de todos, escapou da degola, sabe-se lá a que preço.

Em compensação, no ódio aos políticos e no tsunami Bolsonaro, foram eleitos vários representantes da nova escória nacional, que serão até piores do que o lixo atual.

Mas humilhar essa gentalha que humilhou, roubou e atrasou o Brasil não tem preço.

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Dias de espanto

Aos homens é facultada, sob determinadas circunstâncias, a escolha de como viver e, surpreendentemente, de experimentar também formas de como morrer. Mais precisamente, de como morrer num sentido especulativo resultante de escolhas no transcurso da vida.

No final da década de 90 do século passado, o antropólogo mexicano Roger Bartra escreveu um pequeno artigo que toca nesse tema. A partir do contexto latino-americano, Bartra sugere quatro formas de experimentar a morte intelectual. A primeira é buscar a fama a qualquer custo, num campo específico de atuação ou na mídia. A segunda é tornar-se um especialista e conselheiro profissional. A terceira é o que ele chama de “morte mercantil”, uma opção assumida pelos escritores dos best-sellers do momento. Em todas se verifica a presença do vírus democrático (ou a massificação da cultura) na causa mortis. Por fim, a morte lenta, que ataca os intelectuais de esquerda que perderam seus referenciais depois do colapso do “comunismo histórico”. Eles continuam sua pregação utópica, mas demarcada por um pragmatismo cada vez mais explícito. Sem condescendência, Bartra termina o artigo brincando com os leitores a respeito da “sua morte intelectual”. Diz ele: “Eu já escolhi a minha... Mas não direi qual é!”.


Evidentemente, existem outras formas de vivenciar a morte intelectual. Há de tudo, desde a voz solitária do tribuno republicano pregando a refundação do Estado até os velhos líderes estudantis que se tornam gourmets famosos e apreciam viajar pelo mundo. Embora no campo da esquerda quase todos os intelectuais vivenciem, de alguma maneira, essa experiência, há situações drásticas como, por exemplo, a de Fernando Haddad, que decidiu experimentar a sua morte intelectual de maneira explícita e em praça pública quando assumiu, na atual campanha eleitoral, o papel de fantoche de Lula, preso em Curitiba por corrupção e com mais processos a serem julgados de gravidade similar à daquele que o condenou.

Em nosso tempo, não só os intelectuais experimentam a diversidade de formas de se aproximar ou consumar a “sua morte”. Hoje sabemos, pelo livro de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt Como as Democracias Morrem (Zahar, 2018), que também as democracias morrem não apenas por golpes de força, como antigamente. Embora as críticas feitas ao livro por Marcus André Melo em artigos recentes mereçam atenta leitura, especialmente sua crítica a respeito do desconhecimento da situação brasileira pelos autores, notadamente do papel desestabilizador da democracia promovido pelo PT.

Acontece que, ainda não estando consumada a sua morte, há atores, personalidades e mesmo partidos que começam a flertar vivamente com a experiência da morte política. A recente campanha eleitoral e seus resultados exibiram essa aproximação. O Brasil foi revolvido de cima a baixo. O resultado do primeiro turno não deixa dúvidas: acabaram-se os pactos que foram construídos durante a resistência ao regime ditatorial e mesmo os que foram estabelecidos com a democratização. Não há dúvida que os alicerces da chamada Constituição cidadã estão sendo atacados sem pena. A lúcida orientação de composição de frentes e alianças políticas articuladas em torno do centro político fracassou e isso denota o fim de uma era, sem que saibamos precisamente se está a nascer algo minimamente próximo do que foi a nossa experiência democrática até aqui. A tentativa de construção de um centro político afirmativo e autônomo não se consumou por muitas razões, a começar pela desconfiança nessa ideia mesma. Não são poucos os que entendem, apesar de ser um argumento anacrônico, que o centro é apenas um território de passagem entre a direita e a esquerda, os polos substantivos da política organizada.

Os atores que ganharam corpo desde 2013 e especialmente em 2015/2016 resolveram sair à luz do dia e disputar um jogo que cada vez mais se foi definindo como de soma zero, no qual o vencedor leva tudo. Os extremos predominaram, mas o eleitor não os sancionou em função de seus projetos para o País. O “fora isso” ou “fora aquilo” e o “nós contra eles” produziram um campo de hostilidades que fez vicejar a intolerância e o ódio. O rechaço aos políticos e aos partidos ganhou corações e mentes e instaurou o reino da antipolítica em suas diferentes versões: das visões plebeias às neoliberais, todos passaram a buscar um mundo à sua imagem e semelhança. É a vitória da cultura narcísica e a derrota da cultura democrática.

A chegada de dois polos excêntricos ao segundo turno não foi um raio em céu azul. O colapso do centro político acabou produzindo uma situação paradoxal: ele passa a ser o objeto de desejo dos dois extremos. O centro está morto. Viva o centro! Sua conquista será o que vai definir o segundo turno. E, no caso brasileiro, não apenas a futura governabilidade, mas a possibilidade real de o País continuar a viver em democracia.

Mas não será nenhuma mudança cosmética que garantirá a conquista do centro político. Os dois polos têm obsessões indisfarçáveis de visíveis inclinações autoritárias. À esquerda, não será a ancilosada noção de “frente única” (uma “frente de esquerda” ao velho estilo) o que vai angariar apoio em defesa da democracia. Haddad não passa de um construto enganoso de Lula. Não representa nem une os democratas brasileiros. Bolsonaro é a regressão aos anos pré-democracia e uma ameaça iliberal evidente.

Entre a catástrofe e o desastre, nossa frágil democracia terá de resistir para seguir respirando e ganhar sobrevida. É um momento difícil, no qual somente nos serve o “pessimismo da razão”. E o mais trágico é que não há nenhum locus facilmente reconhecível que vocalize algum “otimismo da vontade”. Atônitos, os brasileiros seguem os sinais de alerta buscando evitar, de alguma maneira, uma aproximação com a morte da democracia.

Neutralidade das tetas

No entender do povo, não há democracia nem autocracia: só há cleptocracia. Essa opinião absolutista é velha como a existência dos governos e, portanto, inextirpável
Eduardo Frieiro

Fragilidade ideológica

A onda direitista que varreu o Brasil junto com os efeitos do “antipetismo” arraigado nas almas brasileiras é a explicação recorrente e quase unânime para o desempenho exitoso de Jair Bolsonaro nesta eleição. Realmente é o que fazem supor as aparências. Mas não necessariamente é o que está depositado sob camadas menos aparentes da realidade ainda no aguardo de ser desvendadas.

Não tenho notícia de que o país fosse esquerdista em 2002 e assim tivesse se mantido pelos seguintes doze anos em que elegeu e reelegeu governantes do PT. Pelo critério das análises correntes, o brasileiro seria um povo muito volúvel. Foi de direita ao escolher Fernando Collor, aderiu ao centro quando elegeu Fernando Henrique duas vezes em primeiro turno, inscreveu-se na esquerda nas eleições e reeleições de Luiz Inácio da Silva e Dilma Rousseff, e voltou-se de novo para o direitismo ao levar Bolsonaro agora à condição de campeão do primeiro turno em situação numérica e politicamente difícil (para dizer pouco) de ser modificada.


Em nenhuma dessas ocasiões esteve em jogo a ideologia. Na maioria, o eleitor é antes de tudo um pragmático. Não é esquerdista nem direitista, é governista quando isso evoca a obtenção de benefícios, e daí faz a escolha que lhe parece mais vantajosa como demonstra a fidelidade do Nordeste ao PT — misto de gratidão e crença de que o Brasil possa ser “feliz de novo” mediante a mágica de um toque na tecla da urna.

Minoritários, os eleitores ideológicos habitam as extremidades, embora a média possa se comportar de maneira extremada quando pautada por turbulências mentais e emocionais. Duas eleições passadas foram, como esta agora, marcadas por boa dose de irracionalidade, algo comparado a uma “fé de manada” contra a qual não há argumento que dê jeito.

Fernando Collor já tinha sido um prefeito de Maceió e um governador de Alagoas nos moldes do que viria a ser na Presidência. No entanto, o eleitorado de 1989 não quis nem saber dos fatos, preferindo embarcar na simbologia do santo guerreiro. Fez o mesmo treze anos depois, quando preferiu acreditar num PT artificialmente repaginado e adaptado pelo marketing às circunstâncias a esquadrinhar racionalmente o comportamento do partido (e também do líder, Lula) nas duas décadas anteriores.

Repete o padrão agora, ao conferir a Bolsonaro atributos extraordinários que ele não tem e poderes que a um presidente não são permitidos. O eleitorado se posiciona em reação àquilo que por várias vezes escolheu mediante critérios e crenças equivocadas. Aplica força semelhante, mas em sentido contrário. O efeito “fé de manada”, contudo, é o mesmo.

Tudo isso para um resultado, lamentavelmente, cumpre informar, também desastroso. Tenha o segundo turno o resultado que tiver porque, preceito comezinho da psicologia, não se pode errar sempre esperando que um dia o erro se configure em acerto por obra do espírito santo protetor dos seres desprovidos de juízo.

O piloto sumiu

O candidato do PT à Presidência da República, Fenando Haddad, volta ao horário eleitoral hoje repaginado, vestido de verde-amarelo e com um discurso paz e amor. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu mentor intelectual e chefe político, desaparecerá da propaganda do petista. Resta saber se a dissimulação, que atende aos apelos dos setores “golpistas” que querem apoiá-lo como “um mal menor”, trará votos suficientes para vencer o pleito ou se a tática tipo “o piloto sumiu” confundirá ainda mais os eleitores. O tracking de ontem mostrava que Bolsonaro continua subindo e Haddad, caindo: a distância entre os dois seria de 18 pontos percentuais, com 10% de nulos e brancos.

Haddad mudou completamente a linha de campanha. Para chegar ao segundo turno, o PT alimentou a tática do ódio nas eleições, com o discurso “nós contra eles”, pois Lula considerava Bolsonaro o adversário ideal a ser batido no segundo turno. Quem eram “eles”? Os “golpistas neoliberais”, claro. Um post do petista Breno Altman, do site Opera Mundi, nas redes sociais, intitulado “Quem é o inimigo principal?”, no momento em que essa linha política passou a ser questionada internamente no PT, ilustra como Haddad chegou ao segundo turno: “São diferentes os alvos da primeira e da segunda volta, a meu juízo. No primeiro turno, os inimigos principais são os partidos e candidatos que comandam o bloco golpista, a começar por Geraldo Alckmin, mas se estendendo a Meirelles, Alvaro Dias, Amoedo e Marina Silva. A centro-direita deve continuar a ser destroçada por sua cumplicidade com o impeachment e a agenda antipopular, antidemocrática e antinacional do governo Temer. Sua destruição política é fundamental para a regeneração do país. Caso haja alguma chance, em algum momento, de levantar a cabeça, toda artilharia possível deve ser voltada para aniquilar os aliados de Temer.”


Intérprete fiel da lógica política petista, Altman antecipava o que viria depois: “No segundo turno, por óbvio, o inimigo principal será o neofascismo representado por Jair Bolsonaro. A inversão de objetivos táticos é tudo o que deseja o partido do golpe para buscar um caminho que enfraqueça a polarização entre Haddad e o capitão reformado, dando algum fôlego para uma candidatura de centro que possa ser apresentada como ‘mais viável’, ‘mais moderada’, para derrotar o neofascismo.” Haddad manteve a rotina de visitas semanais a Lula, vestiu a camiseta vermelha da campanha Lula livre e chegou ao segundo turno sem mudar o discurso. Não esperava, porém, que a transferência de votos do petista batesse no teto tão cedo, bem abaixo da rejeição que fez Bolsonaro subir ainda mais e quase vencer no primeiro turno.

“Aconteça o que aconteça, na delícia ou na dor, um objetivo estratégico terá sido alcançado nessas eleições: a destruição da centro-direita, do centro golpista, como alternativa viável para o comando do país”, disparou Altman, quando isso aconteceu. “A soma do arco Alckmin-Marina, somando Amoedo, Meirelles e Alvaro Dias, mal chega a 20% das intenções de voto. Essa é uma vitória importante do campo popular, que pavimenta o segundo turno e a marcha rumo ao triunfo em 28 de outubro.” Essa estratégia, porém, se tornou uma maldição para Haddad. A maioria dos partidos derrotados no primeiro turno optou pela neutralidade, alguns já se posicionam para permanecer em oposição, outros para aderir ao novo governo, vença Bolsonaro ou Haddad. Por ora, acompanham o jogo da arquibancada.

Entretanto, ninguém morre de véspera numa eleição tão disputada, ainda mais para presidente da República. Desde a reeleição de Lula, o PT tem uma fórmula eficaz para disputar o segundo turno: a tática do medo. Não será diferente agora, com a ajuda de atitudes fascistas dos partidários de Bolsonaro. Poderia ter sido usada antes, mas isso não interessava, porque o objetivo era o atual confronto. O problema de quem vende a alma a Mefistófeles, como Dr. Fausto, é que o Diabo quererá o seu corpo no inferno. Foi o que aconteceu com Haddad. Bolsonaro é acusado de machista, misógino e homofóbico, isso despertou os maus instintos das profundezas de uma sociedade traumatizada pela violência, pela corrupção e pela desestruturação das famílias. Essa narrativa até agora não foi capaz de superar a força do antipetismo, porque o partido governou como uma espécie de erva daninha.

Bolsonaro, porém, sentiu a pressão em relação a temas que atingem diretamente a população mais pobre. Nas eleições de 2006, quando Lula foi reeleito, Alckmin foi derrotado porque se disseminou que ele venderia a Petrobras e o Banco do Brasil e acabaria com o Programa Bolsa Família, que abriga 13 milhões de famílias. A tática se repetiu contra José Serra, em 2010, e Aécio Neves, em 2014. Agora está sendo usada novamente. Não foi à toa que Bolsonaro anunciou que não pretende privatizar as estatais e vai criar o 13º do Bolsa Família. A radicalização e a disseminação do ódio nas redes sociais, por uma militância que não mede as consequências do que escreve, já evoluem para confrontos físicos, que precisam ser contidos, porque isso a sociedade não suporta. Não fazem parte do jogo democrático, são atitudes realmente fascistas.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Brasil das crianças


O clima esquenta, a agropecuária sofre

É uma notícia que certamente contrariará os chamados “céticos do clima”, que põem em dúvida informações – até de cientistas respeitados – sobre o avanço alarmante dos problemas climáticos no mundo e seus possíveis desdobramentos, fruto em grande parte do chamado efeito estufa, gerado por emissões de gases para a atmosfera (dióxido de carbono, óxido nitroso e metano) desde o início da era industrial. Segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), já estamos muito perto de atingir na primeira metade deste século o limite de aumento de 1,5 grau Celsius, ou mesmo de 2 graus, na temperatura terrestre – considerado pelos cientistas um nível mais seguro para o planeta e para as espécies que o habitam. É um limite desejável consagrado pelo Acordo de Paris (2015), assinado por quase todas as nações. E terá repercussões graves se for ultrapassado. principalmente para o setor agropecuário, que responde por 70% das emissões brasileiras (com a fermentação entérica dos rebanhos, o uso de fertilizantes e novos desmatamentos) – esses gases respondem por 25% a 33% das emissões globais.

Segundo relatório da Embrapa divulgado este mês, as emissões de gases estufa triplicaram nos últimos 50 anos, inclusive em escala mundial, por causa do aumento do consumo per capita, do crescimento da população (dobrou no período para mais de 7 bilhões hoje) e de seu padrão de vida e consumo. Para o Brasil a situação poderá ser muito difícil, ainda mais lembrando que o País na próxima década, segundo a FAO-ONU, terá a maior produção agrícola da mundo e será o maior exportador de alimentos e fibras – mas para isso ainda terá de resolver problemas complexos de desmatamento, perda da biodiversidade, eutrofização e acidificação de corpos d’água. São questões relacionadas com a necessidade de avanço para uma agricultura mais sustentável.

Já em 2009, na COP-15, em Copenhague, o Brasil se comprometeu a reduzir até 2020 entre 36,1% e 38,95% de seus gases – e para isso criou um Plano Setorial de Mitigação a Adaptação ao Clima. Na COP-21, de 2015, a proposta foi de 37% sobre os gases do efeito estufa emitidos em 2005 – proposta para vigorar até 2027 e subir para 43% daí até 2030. Hoje são 14 milhões de hectares no sistema que congrega lavouras, pecuária e florestas.

Mas uma análise do Institute of Atmospheric Physics já projeta, com novo método de análise, um aquecimento de 4 graus Celsius (comparado com níveis pré-industriais) até 2084. Na China há análises semelhantes. E muitos outros institutos preveem até o fim deste século esse mesmo aumento de 4 graus. Com efeitos como calor recorde, inundações pesadas, secas extremas, aquecimento de oceanos.

São previsões que exigem mudanças imediatas e sem precedentes na economia mundial, como se discutiu na recente Conferência de Incheon, com fortes reações de EUA e Emirados Árabes, que defenderam os combustíveis fósseis. Mas ao final houve acordo conciliador.

Membro do IPCC, o professor Paulo Artaxo, da USP, pensa que muitos efeitos do aquecimento já são percebidos e serão intensificados antes que o aumento da temperatura atinja 1,5 grau. Entre os que já discutem o aumento, são citados escassez de alimentos, redução da biodiversidade, enchentes, mortalidade em massa de recifes de corais, elevação do nível do mar, ondas de calor, ciclones tropicais, disseminação de doenças.

O que acontecer entre 2018 e 2030 será determinado pelas emissões de dióxido de carbono. Entre os fatores mais citados pelos cientistas nesse âmbito, surge com insistência a necessidade de banir os combustíveis fósseis, principais geradores de emissões. Mas enfrentam resistência muito forte de empresas que atuam na produção e no comércio nesse setor. Assim como do setor que trabalha com madeiras na Amazônia brasileira. Relatório especial do IPCC, preparado a pedido do Fórum Mundial dos Cientistas, recomenda reduzir à metade os crimes globais nessa área, até 2020. Porque florestas têm papel central no panorama, assim como savanas e outras formas de vegetação natural, para captura do dióxido de carbono já presente na atmosfera. Também é indispensável trabalhar na restauração de florestas.

A resistência, diz o relatório, está na agropecuária, que responde por 70% das emissões, incluindo a fermentação entérica, e essa é mais uma razão para acelerar a transição para uma matriz energética neutra em carbono. Essa é, porém, uma das notícias que costumam ser contestadas pelos que têm interesses particulares questionados. Trata-se, entretanto, de estudos que põem em xeque análises atuais sobre matrizes energéticas e suas relações como a economia global ou investimentos estatais e privados. Precisam ser considerados e induzir modificações.

Na atual campanha presidencial, o candidato Jair Bolsonaro, em entrevistas, disse que a permanecer no acordo o Brasil teria de pagar “um preço caro para atender às exigências” e que “a soberania do País está em jogo”; Fernando Haddad, em seu plano de governo, comenta “como instituir uma política de transição para uma economia de baixo carbono e que pretenda honrar o acordo” (naofracking Brasil, 9/10).

Seja como for, a questão terá de ser encarada frontalmente. Aquecimento global, atingindo todos os continentes, todos os países, todos os viventes, não é problema que possa ser enfrentado apenas sacudindo os ombros e seguindo em frente com um assovio. Os preços são altos. Por mais que os “céticos do clima” neguem os efeitos desastrosos, eles estão diante dos olhos de quem queira ver. E afetam o bolso dos produtores.

É urgente que em cada país afetado os governos competentes concebam e executem planos de emergência, seguidos de políticas de maior prazo. Capazes de tranquilizar os países importadores. E os produtores locais. Além de afastar em escala global os dramas que começam a atingir todos produtores, importadores, consumidores.

O formidável ritual democrático

Quando Max Weber fala de poder ele faz distinções importantes para a compreensão da democracia. Um regime político centrado numa premissa revolucionária, pois é o único que periodicamente confirma pessoas em seus cargos, o que produz uma instabilidade estrutural paradoxalmente regulada.

Tanto isso é verdade que, quando se dá um golpe, se fala em tudo, menos em eleição. Esse grande rito garantidor de mudanças por dentro, esse formidável teste que une pessoas comuns a altos cargos necessários à administração pública. Política e sociedade estão juntas nas democracias e divorciadas nas ditaduras.

Weber é claro quando distingue poder de dominação. Algo básico para entender o governo dos humanos pelos humanos – esses bichos cujo programa é não ter programa sendo, por isso mesmo, dependente do que Weber chamou de legitimação. A dimensão que domestica o monopólio da força, justificando-a e racionalizando-a numa autoridade o que evita o caos ou, como dizia um outro clássico, a “guerra de todos contra todos”.

A dominação comunica quem manda e quem obedece. A passagem da força bruta para a dominação mediada e racionalizada por um sistema religioso ou jurídico é o que chamamos de sistema cultural – uma ordem capaz de lidar com suas diferenças, tomando-as como “naturais”.

Se o rei é ungido por Deus e se não existe dúvida sobre a existência de que as relações humanas são um produto de ancestrais míticos, que as criaram e engendraram os “costumes” com os quais vivemos, então a obediência não é devida à pessoa, mas ao papel que as pessoas desempenham, o qual tem uma chancela como divina ou legal.


O poder tem sempre o seu lado arbitrário e opressivo, mas a dominação é fundada em normas e gestos originários de narrativas sagradas ou de códigos ancestrais ou de leis naturais, fundadores da ordem humana. É assim que ela escapa da história e passa a impressão de eternidade.

O poder depende da força. A dominação requer acordos. “Tomar o poder” como querem os imbecis é uma banalidade; atingir – entretanto – um sistema razoável de dominação requer senso de justiça entre o mandante e o obediente. Pois entre eles existem normas e rituais que legitimam suas diferenças e podem revertê-las.

Tudo isso nos leva além de Weber para Arnold Van Gennep – o revelador da estrutura elementar dos rituais, essa base comportamental da legitimidade. Ele diz:

1. Os estágios críticos do ciclo de vida que começa com o nascimento, passa pela puberdade, casamento, paternidade, e, finalmente, chega com a morte; ainda que estejam relacionadas a eventos fisiológicos, são definidos socialmente;

2. A entrada e a saída desses estágios críticos são sempre marcadas por rituais e cerimônias não apenas nas “sociedades primitivas”, mas também na civilização cristã e nas civilizações da antiguidade;

3. Esses “ritos de passagem” incluem sempre três fases: separação (que remove os sujeitos do seu campo social rotineiro), transição ou margem e, finalmente, incorporação num novo campo e papel social.

Nas democracias, essas passagens ocorrem de tempos em temos naquilo que chamamos de eleição – esse grandioso processo cerimonial no qual legisladores e executivos são substituídos numa ampla competição determinada pelo “voto”. Por uma promessa representativa de lealdade e confiança.

Nesse sentido, a eleição é um ritual cujo objetivo explícito é a renovação – essa marca registrada do viés democrático. Ela é também uma ocasião na qual a sociedade pode reclamar aquilo a que aspira e ver-se a si mesma como um feixe de opiniões divergentes. Pode também servir como correção para governantes que traíram a confiança dos seus eleitores.

Foi exatamente a isso que assistimos tranquilamente neste último domingo e que iremos assistir novamente no “segundo turno” quando será finalizada a associação de um candidato (que passa) ao cargo de presidente da República (que permanece).

Temos hoje uma conjuntura eleitoral marcada por divergências somadas a ressentimentos que impedem agir com a tal racionalidade que o campo do político dizia possuir na sua definição moderna. Que Deus, esse representante de tudo o que tentamos enxergar, nos ajude e nos livre da violência, da extorsão e da impostura em nome da democracia.

A força da democracia

Calma, pessoal: nem o Brasil vai virar uma Venezuela, nem voltar à ditadura militar. Enquanto petistas denunciam o militarismo de Bolsonaro e os bolsonaristas atacam o bolivarianismo de Haddad – disputa dominante nas redes sociais – os dois candidatos caminham na direção do centro e da moderação.

Nenhum deles, ainda, escreveu carta ao povo brasileiro, mas fizeram clara manifestação na entrevista ao JN. Ambos descartaram a proposta de tentar uma nova constituição – que seria o passo inicial de mudança de regime. Bolsonaro desautorizou seu vice, o general Mourão, que falara na viabilidade de um “autogolpe”. Haddad desclassificou a fala de José Dirceu, para quem o objetivo do PT é tomar o poder, não apenas ganhar a eleição.


Pode-se suspeitar que essas manifestações foram da boca para fora. E de fato, no campo petista, há muita conversa bolivariana. Por exemplo: os ataques à imprensa, que levam às propostas de “controle social da mídia”, uma censura mal disfarçada;

. a defesa de líderes que promoveram o petrolão, um assalto ao Estado para comprar a política, a maior ofensa à democracia praticada desde o fim do regime militar;

. a defesa de ditaduras esquerdistas;

. e, claro, a Globo é a culpada pela disseminação da extrema-direita.

No campo bolsonarista, então, encontram-se ideias e condutas autoritárias para qualquer lado que se olhe. Por exemplo: o problema da segurança se resolve com a matança do maior número possível de bandidos, para o que é preciso armar os cidadãos – quando se sabe que as melhores polícias do mundo são também as que menos matam;

. minorias de todos os tipos, na política e nos costumes, devem ficar caladas e seguir as regras ditadas pela maioria – uma violação ao mais simples princípio democrático, que preza o respeito e garante a voz das minorias;

. a desumanidade do imperdoável elogio a torturadores;

. e, claro, a Globo é a culpada pela disseminação do esquerdismo.

Há mais barbaridades e mentiras nas redes, mas fiquemos com estas amostras.

A questão é outra. Por que Haddad precisou dizer explicitamente que o PT não quer conquistar o poder? Porque se continuar com esse viés ideológico, não ganha nem a eleição.

E lá se vai ele para o centro, para tentar ganhar a eleição – objetivo, aliás, difícil, dada a enorme diferença de votos do primeiro turno. Reparem: gostando ou não, contrariando ou não os seus radicais sinceros, Haddad nem ganharia a eleição, nem conseguiria governar se ficasse só com sua turma.

Resumindo: o PT foi de Lula para garantir a posse de sua base; agora vai de Haddad para buscar alguma coisa no centro e no anti-establishment dominantes. A chance é remota, mas é a única.

Já Bolsonaro está mais confortável. É favorito, sobretudo pela clara ascensão no final do primeiro turno. Ele precisa de poucos votos para confirmar a vitória e deve contar com parte do eleitorado que escolheu candidatos de direita e centro.

Está tão confortável que nem parece preocupado em obter apoios, por exemplo, dos candidatos a governador que foram ao segundo turno. Tem ocorrido um movimento contrário: candidatos estaduais declarando voto em Bolsonaro, sem qualquer negociação prévia, tentando pegar a onda conservadora.

O risco para Bolsonaro está do lado dele mesmo: uma declaração muito errada, algo de extremo radicalismo, antidemocrático, o abandono das propostas liberais em política econômica, ações violentas de seus seguidores.

Assim como Haddad não vai perder seu eleitorado e a militância mais à esquerda, mesmo que se aproxime do centro, também Bolsonaro não vai perder sua base mais radical no caso de um mesmo movimento.

Mas pode perder os líderes e eleitores que têm visão liberal e democrática, não apreciam a extrema direita, acham que Bolsonaro é um candidato fraco, mas menos ruim que a opção petista. Esse pessoal pode ir, por exemplo, para o voto nulo.

Foi a força da democracia, manifestada na votação de domingo, que levou os candidatos a jurar pela Constituição. Seria bom que não ficassem só nas declarações, mas tratassem de segurar seus radicais. 

Pensamento do Dia


Índice global aponta aumento da fome no Brasil

 O Brasil caiu 13 colocações no Índice Global da Fome deste ano em comparação com dados divulgados em 2017, refletindo uma tendência na direção equivocada mundo afora, alerta a Ação Agrária Alemã (Welthungerhilfe), uma das organizações responsáveis pelo índice atualizado anualmente.

Publicado nesta quinta-feira, o índice compilado também pela organização irlandesa Concern Worldwide e pelo Instituto Internacional de Investigação sobre Políticas Alimentares (IFPRI, na sigla em inglês) coloca o Brasil em 31° lugar entre 119 países, com 8,5 pontos, um valor que ainda é considerado baixo.

O Brasil obteve 5,4 pontos no índice de 2017, indicando que uma menor parcela da população passava fome. No ano passado, o país também figurava entre as nações que conseguiram diminuir a fome em mais de 50% a partir de 2000.

O estudo anual calcula o índice de fome com base nos dados consolidados mais atuais relativos a quatro indicadores: subnutrição, caquexia infantil (grau de extremo enfraquecimento e emagrecimento), atraso no crescimento e mortalidade infantil.

Para calcular os valores para 2018, as organizações compilaram dados internacionais relativos à subnutrição no período de 2015 a 2017. Os dados sobre o retardo do crescimento e a caquexia levaram em consideração o período entre 2013 e 2017, com os dados mais atuais disponíveis. E a mortalidade infantil levou em conta os dados de 2016.

Para observar a evolução no longo prazo, o índice indicou como referência os anos de 2000, 2005 e 2010. O Brasil registrou queda constante da fome nos períodos analisados, com uma média respectiva de 13, 7 e 6,6 pontos, respectivamente. Entre 2010 e 2018, a média voltou a subir, para 8,5 pontos.

Por outro lado, tanto o percentual de pessoas subnutridas no Brasil quanto o da mortalidade infantil diminuíram nos períodos de referência. Em 2000, 11,9% da população brasileira sofria de subnutrição. Em 2018, são 2,5%, e a tendência dessa é de queda, mostram os gráficos do estudo divulgados no site do índice.

As taxas de mortalidade de crianças com menos de cinco anos de idade também caíram nos períodos analisados, ainda que a curva seja mais rasa: de 3,6% em 2000 para 1,5% em 2018.

Já a taxa de disseminação da caquexia entre crianças com menos de cinco anos aumentou de 1,6% em 2005 para 5,5% em 2018, e o atraso no crescimento também registrou alta entre 2005 e 2018: de 7,1 para 13,4%.

A escala do Índice Global da Fome vai de 0 (sem fome) a 100 e tem as categorias "baixo" (de 0 a 9,9 pontos), "moderado" (de 10 a 19,9 pontos), "sério" (20 a 34,9 pontos), "muito sério" (36 a 49,9 pontos) e "grave" (número de pontos igual ou maior a 50).

Apesar de o índice de fome no mundo ter caído 28% desde 2000, o número de pessoas que passam fome no planeta aumentou para 821 milhões de pessoas, em parte devido a conflitos armados e efeitos das mudanças climáticas.

Segundo o especialista Klaus von Grebmer, da Ação Agrária Alemã, a tendência voltou a ir "na direção errada". "Se o ritmo do combate à fome continuar igual, 50 países não conseguirão eliminar a fome até 2030 [meta global]", disse a organização em comunicado nesta quinta-feira, durante a apresentação do relatório.

Em 51 países do mundo, a Ação Agrária Alemã avalia a situação como preocupante ou muito preocupante. A presidente da organização, Bärbel Dieckmann, exigiu mais empenho na eliminação de conflitos. "Não podemos vencer essa luta sem soluções políticas", afirmou.

As crianças são o grupo mais atingido pela fome no mundo: 151 milhões apresentam atraso no crescimento devido à subnutrição, e 51 milhões de crianças sofrem de extremo enfraquecimento e emagrecimento.

Das 821 milhões de pessoas que passam fome no mundo, cerca de 124 milhões sofrem de fome aguda, diz a Ação Agrária Alemã. O número representa um aumento expressivo em relação aos 80 milhões computados há dois anos, diz o Índice Global da Fome.

Todas as noites toca um telefone na lua

Todas as noites toca um telefone na Lua.
Sou eu, sou eu a marcar o número automático dos poetas de hoje
para gritar cá de baixo em código de astros:
Está lá? Está lá? Aqui Terra, zero, zero, zero, zero, zero.
S. O. S! Fome, ódio de mil patas, tiranos com cutelos de cinzas,
bandeiras de pele humana, olhos furados de cardos,
mortos que só vêem o céu através dos caminhos das raízes
— e as mães a baterem nos filhos
para lhes ensinarem a instrução primária das lágrimas.


Aqui escravos, preguiça, azorragues de chumbo derretido,
exportação de tédio dos palácios dos ricos, carregamentos de bocejos,
suor em latas para discursos de demagogos,
mordaças com restos de bocas de cadáveres,
fúria de túmulos, guerra, raptos, incestos, automóveis imbecis,
saques, mandíbulas nos olhos a roerem o azul
— e os dedos de súbito de ferro-em-brasa nos seios das mulheres,
lodo de sol aparente
que continuam a ser deusas nos jantares de cerimónia
com os colos luzidios das horas empertigadas.

Aqui planeta zero, zero, zero, nada, torres de musgo,
punhais a rasgarem noites em vez de chagas,
países de arame farpado, vulcões de sangue,
batalhas trespassadas do frio dos esqueletos concretos
— e ainda por cima a carne das mulheres só é real um momento,
um momento apenas
e em vão tentamos fixá-la com um sopro de frio
no rasto deste defunto com um caixão às costas
cheio de corações vivos.
José Gomes Ferreira

Brasil elegerá no segundo turno a melhor encenação

O segundo turno da disputa presidencial tornou-se um triste espetáculo. Nele, Fernando Haddad executa um striptease. E Jair Bolsonaro brinca de esconde-esconde. Haddad se despe de tudo o que possa lembrar o PT. Já não usa a máscara de Lula. Livrou-se do vermelho nas peças de campanha. Não bate mais ponto na cadeia de Curitiba. Parou de dizer nas entrevistas “boa noite, presidente Lula”. Baniu Dilma da memória.


Bolsonaro sacode um atestado médico e foge dos debates. Já cancelou quatro. Com larga vantagem sobre o rival, o capitão se esconde na trincheira das redes sociais, oferecendo-se ao eleitor em fragmentos. Quem gosta de armas, encontrará um Bolsonaro de sua preferência numa frase do WhatsApp. Quem acha que bandido bom é bandido morto assistirá um Bolsonaro ao seu feitio num vídeo do YouTube. Quem não suporta corrupção, ouvirá um Bolsonaro do seu agrado num áudio do Twitter.

Às voltas com a necessidade de compor uma “frente democrática”, Haddad faz de tudo para convencer a pessoas de que é maior do que o PT. Mas tudo parece não querer nada com Haddad. Quanto a Bolsonaro, quando tudo o que você vê do personagem nas redes sociais é subtraído de tudo o que você ignora, o que sobra é nada. Mantido o ritmo, o eleitor brasileiro elegerá neste segundo turno não o melhor presidente, mas a melhor encenação.

Os últimos capítulos do ciclo de 2013

O primeiro turno das eleições de 2018 praticamente esgotou o ciclo do sistema partidário iniciado na Nova República e consolidado com o impeachment de Collor. Esperava-se uma grande mudança política no pleito presidencial, mas não o tsunami - ou "bolsonami" - que atingiu as governadorias, as Assembleias Legislativas, a Câmara Federal e o Senado.

Tudo isso que parece ser completamente inusitado, na verdade não é. Trata-se do penúltimo capítulo da novela iniciada em junho de 2013. O fim da história - a escolha do presidente e a estruturação de seu governo - ainda está em aberto. Seja qual for o resultado, algo novo emergirá.

As manifestações de 2013 iniciaram o processo de derrocada de um sistema que foi muito estável durante 20 anos. Sem dúvida, esse arranjo político trouxe vários resultados positivos, como a estabilização econômica, a ampliação das políticas sociais e a manutenção e fortalecimento da democracia, o que permitiu inclusive uma crítica aguda da sociedade contra os partidos e políticos, bem como o "empoderamento" de instituições de controle no combate à corrupção.

Os passos seguintes vieram com a Operação Lava-Jato, o impeachment e o sentimento de total desesperança instalado durante o governo Temer, o presidente mais mal avaliado desde o inicio da redemocratização. Como resultado da soma de crises, o sentimento antissistema cresceu muito. Ele já havia se revelado em 2016 e, agora, teve seu ápice com a votação de Bolsonaro e de muitos de seus aliados nos Estados. À primeira vista, trata-se apenas de uma vitória do conservadorismo, no entanto, talvez seja mais complicado entender o epílogo de um processo de renovação política.


Para evitar a visão de quem já sabe o fim da história, é preciso compreender bem o recado das urnas, inclusive com suas contradições e lacunas. O aspecto que mais chama a atenção é um processo de renovação com perfil mais conservador. Isso ficou claro nos nomes que vão disputar o segundo turno em governadorias importantes, como Rio de Janeiro e Minas Gerais, ou que já ganharam no primeiro turno, como no Paraná. Mais do que isso, o PSL, vindo praticamente do nada, tornou-se o segundo maior partido na Câmara. O "bolsonarismo", mesmo que ainda seja um ideário difuso, mostrou que terá um lugar central no Brasil dos próximos anos. Sua prova de fogo, como a de todos os movimentos novos, será sua prática nos governos que vier a ocupar.

O crescimento conservador não significa que ele será majoritário no sistema político. Nos Etados, terá que negociar com vários governadores que se situam do centro para a esquerda. No Senado e na Câmara, está bem de longe da maioria. E mesmo com o estupendo desempenho de Bolsonaro, ele não ganhou no primeiro turno, tem 45% de rejeição e pode ter uma vitória tão apertada quanto a de Collor, ou mesmo perder. No caso de vitória, sem o apoio de outros grupos sociais, especialmente do centro do eleitorado, e sem conversar com adversários políticos com cargos institucionais, o "bolsonarismo" no poder precisará seguir um caminho mais bonapartista, algo que em nossa democracia não tem dado certo, como provam figuras políticas tão distintas quanto Jânio e Dilma.

Tão relevante quanto o crescimento do conservadorismo foi a enorme derrocada dos tradicionais MDB e PSDB, que diminuíram muito de tamanho nas eleições legislativas e no plano do Executivo. Foi a pior votação dos tucanos desde o surgimento do partido e o medebismo foi drasticamente reduzido na Câmara, passando de 66 deputados eleitos em 2014 para 34 agora.

PSDB e MDB, juntos com o PT, foram os principais pilares do sistema partidário que se estabilizou a partir do governo Itamar Franco e, especialmente, com a primeira vitória de Fernando Henrique à Presidência da República. De fato, há um clamor para renovar o modelo político e essas duas legendas precisarão se remodelar fortemente, ou serão substituídas por outras. O problema é que elas detinham quadros políticos profissionalizados para a articulação política e para a produção de políticas publicas (principalmente os tucanos), qualificações que não serão facilmente substituídas, pois demandam tempo e prática governamental.

O sistema político ficou ainda mais fragmentado, se levarmos em conta a distribuição de governadorias e o Legislativo: 30 legendas terão representantes na Câmara e 20 elegeram senadores, dois recordes do período da redemocratização. É possível que o bloco do Centrão seja novamente a forma de organizar os partidos do centro para a direita. Mas seus métodos vão ser colocados em questão muito mais do que noutras épocas, por conta dos novos atores que se elegeram em 2018.

Da tríade que alicerçou o jogo político desde o impeachment, o PT foi o que menos colecionou derrotas. Ele continua sendo o partido com maior número de deputados, ganhou o governo de três Estados - Bahia, Ceará e Piauí - e está ainda no segundo turno em outro, o Rio Grande do Norte. O desempenho petista no Nordeste foi ótimo. Na verdade, para além do petismo, a votação da centro-esquerda (PT, PSB, PDT e PCdoB) foi hegemônica entre os eleitores nordestinos, elegendo mais de um terço dos deputados e conquistando cinco Estados no primeiro turno. Porém, esse predomínio contrasta com sua perda de importância no Centro-Sul do país, cujos cidadãos se inclinaram mais à direita.

Mais do que isso: a enorme onda bolsonarista que se manifestou na reta final do primeiro turno relaciona-se fortemente com o antipetismo. É inegável que o PT continua sendo uma peça-chave do sistema, com um candidato presidencial com quase 30% dos votos nacionais, uma grande bancada no Congresso e uma força enorme no Nordeste, segunda Região com mais eleitores no país. Contudo, o voto no Centro-Sul brasileiro revelou um grande sentimento antipetista da população, que não só torna mais difícil uma vitória na eleição presidencial como gera barreiras a um possível governo Haddad.

As urnas trouxeram, portanto, várias configurações políticas e ninguém terá uma hegemonia clara. O país está dividido por diferentes medos, que assolam eleitores dos dois lados. Se quiserem vencer e, sobretudo, governar, Bolsonaro e Haddad terão de fazer acenos mais concretos ao centro e se mostrar dispostos a dialogar com múltiplos atores. O presidenciável do PSL precisará reduzir a desconfiança quanto a um possível comportamento autoritário e refratário aos direitos humanos. Suas falas e de seus aliados nos últimos anos deixam em pânico quase metade da população. Já o candidato petista assusta quase a outra metade, por conta do fracasso econômico da era Dilma, das denúncias de corrupção e da ambiguidade com que muitos líderes do PT tratam regimes autoritários como o da Venezuela.

Qualquer que seja o vencedor em 2018, ele terá de comandar a montagem de um sistema político cujas estruturas começaram a ruir em 2013 e deram um sinal fatal agora. Não há uma forma única de fazer isso. Lembro aos leitores que no princípio de tudo isso, em 2013, houve milhares de pessoas que foram às ruas gritar o lema "Sem partidos", o mesmo que havia sido cantado pelos fascistas comandados por Mussolini na Marcha sobre Roma. O sentimento antissistema é positivo na crítica às mazelas do sistema partidário, marcado por vários focos de corrupção e pela criação de uma oligarquia que barrou a renovação das lideranças políticas do país em quase todas as legendas. Não obstante, é preciso pensar numa refundação política que mantenha e fortaleça a democracia, e não jogar a criança fora junto com a água do banho.

Para fazer uma efetiva modernização da política brasileira, todos os espectros políticos terão que se repensar. O PT e a centro-esquerda precisam reformular seu programa de governo, buscando sua finalidade de combate à desigualdade por meio de políticas públicas renovadas, o que significa abandonar todo o legado dilmista. Além disso, precisam reafirmar a importância da democracia em todos os lugares do mundo e aumentar sua capacidade de diálogo com os diferentes. Nesta linha, o petismo será melhor se for menos hegemonista e mais inclusivo com outras forças políticas.

Do outro lado da disputa atual, é fundamental que o novo conservadorismo reafirme suas credenciais democráticas e aprenda com a experiência internacional de países governados por conservadores civilizados. Bem perto daqui há o caso do Chile, onde Sebastián Piñera faz políticas públicas geralmente lastreadas em evidências - e não no senso comum e em visões figadais - e demitiu recentemente um ministro que elogiara a ditadura. Uma corrente conservadora é importante em todas as democracias, mas quando ela é marcada por autoritarismos e amadorismos é um passo para o abismo.

Em poucas palavras: Bolsonaro poderá terminar a história iniciada pelas manifestações de 2013 com um rearranjo do sistema político seguindo as regras democráticas, ou poderá ser uma pá de cal na democracia duramente construída desde 1985. Ainda há dúvidas se essa novela iniciada pelo clamor das ruas vai terminar fortalecendo a soberania popular ou iniciar um novo período de trevas, em que os porões serão, novamente, mais importantes do que a luz do sol.

Imagem do Dia

Igreja da Luz, em Ibaraki (Japão) - Tadao Ando

O PT queria o quê?

A equipe de Fernando Haddad reclama do “apoio crítico” do PDT.

O PT queria mais, apoio incondicional semelhante ao já oferecido por Ciro Gomes em outros carnavais eleitorais.

Esperava também uma palavra amiga de Marina Silva e chegou a dar como certa a adesão pública de Fernando Henrique Cardoso devido às boas relações do ex-presidente com o ex-prefeito.


O anseio pela da formação de uma “frente democrática” pró-Haddad ficou só no desejo e não poderia ser diferente.

Inesperada não foi a recusa, mas a esperança do PT de que pudesse ser atendido.

Logo ele que jamais integrou frente alguma, jamais atendeu apelos a integrar movimentos em que não fosse o protagonista absoluto e sempre tratou aliados como inimigos.

Dos agora pretendidos presenteou com manobras de aniquilamento.

Sapecou em FH o carimbo da “herança maldita” após receber dele uma transição muito civilizada, dizimou Marina com sórdidas mentiras na eleição de 2014 e agora não faz 15 minutos que passou uma rasteira em Ciro impedindo uma aliança do PDT com o PSB.

O PT queria o quê?

Semear o fel e colher o mel? Pois é.

A recusa pela formação da “frente” é consequência direta dos maus tratos do partido aos adversários e também a aliados.