sábado, 4 de novembro de 2017

Uma tumba para plantas brasileiras

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Quando conheci Luiza de Paula, estava no Pão de Açúcar, sobre os telhados do Rio de Janeiro. A princípio, não achei muito fácil conversar com ela. A bióloga de 29 anos era treinada para subir pedras lisas de granito sem escorregar e acabar sentada no traseiro – e fez isso bem melhor que, digamos assim, um jornalista alemão. Acima de tudo, ela tinha uma reação estreita com o granito. Em nossa caminhada, conversamos muito sobre placas de pedras. "Na verdade, estas placas estão cheias de vida”, disse Luiza de Paula. Agarrou-se com destreza em um galho, escalou mais um trecho e apontou as fendas e rachaduras entre as rochas. Bromélias! Orquídeas! Cactos! Musgos e algas azuis!

Há pouco tive a oportunidade de rever a bióloga, em Berlim. Luiza de Paula estava terminando de escrever sua tese de doutorado na Universidade de Rostock, e queria estar capacitada a usar novos métodos científicos para o seu grande sonho. Estava se propondo a descobrir muitas espécies de plantas em sua terra, pesquisá-las e catalogá-las da melhor maneira possível. "Brasil é o país mais rico do mundo no que diz respeito à diversidade de espécies de plantas”, me esclareceu. Da Floresta Tropical no Norte até a Mata Atlântica, dos desertos no Nordeste até o Pantanal úmido e quente.

Disse isso orgulhosa – mas parecia triste. O que foi, Luiza? "Hoje em dia estão desaparecendo muitas espécies de plantas no Brasil – e muitas não poderão sequer constar em nosso catálogo, antes de deixarem de existir.”

Os biótopos brasileiros, dizem os botânicos, estão sendo atacados por toda parte. Nas cidades, nas zonas industriais e minerações que se expandem. Na Floresta Amazônica sendo desmatada, em Minas Gerais nas barragens que se rompem e envenenam rios inteiros. Montanhas inteiras vêm sendo escavadas por tratores e, junto com elas, vão-se todas as plantas e os animais. E também suas pedras de granitos que se transformam em placas decorativas para cozinhas e banheiros. O Código Florestal e incontáveis leis de meio ambiente foram enfraquecidas drasticamente nos últimos anos. Áreas de preservação nacional foram invadidas por garimpeiros e madeireiros. Os órgãos oficiais do governo pouco fazem para impedir tudo isso.

Quando Luiza de Paula falava sobre essas coisas, ela não tinha o tom furioso de um ambientalista. Soava mais como uma profissional frustrada, uma cientista que teve seu trabalho interrompido. "Não conseguimos cumprir as metas”, diz a pesquisadora. Sobretudo nas regiões mais distantes do Brasil – na Floresta tropical, mas também em outras áreas do interior – pressupõe-se que existam inúmeras espécies ainda não pesquisadas.

Ela mesma já esteve presente em expedições nas quais famílias inteiras de novas plantas foram encontradas. Uma de suas plantas, recém-descoberta em Minas Gerais, foi até mesmo denominada com o nome da jovem pesquisadora. "Nos anos 1990 até 2006 foram descobertas novas espécies de plantas no Brasil a cada dois dias”, disse. E, mesmo assim, os botânicos presumem que só conheçam uma fração de todas elas.

Tudo bem. Fiz as perguntas desagradáveis. Não foi sempre assim, Luiza, plantas e animais entram em extinção? Não é este o curso da natureza?

"Atualmente a extinção não se dá através da natureza. Ela é antropogênica, provocada pelo homem. E está mais acelerada do que antes."

Mas precisamos de todas essas plantas? Você mesma disse que ninguém as conhece?

"Hoje em dia estamos perdendo tanto conhecimento genético! Nas plantas estão respostas para muitas de nossas perguntas: utilização medicinal, nutrição, e assim por diante”.

Mesmo?

"Quer um exemplo? Meu time de pesquisadores encontrou muitas plantas que quase secam por completo e, apesar disso, sobrevivem. No aquecimento global certamente vamos precisar do mapeamento genético destas plantas. Talvez possamos transferir esse gene para outras plantas, para milho ou soja.”

Talvez, acrescentou, isso possa nos salvar da fome. Luiza de Paula se via, como muitos de seus colegas, em uma corrida contra o tempo: desvendar o conhecimento da natureza brasileira e torná-lo útil ao ser humano, antes de que ele desapareça para sempre. O herbário no qual ela depositava plantas secas era chamado por ela, de brincadeira, de "nosso cemitério”. Mas acreditava que a morte da natureza brasileira não preocupa a maioria das pessoas.

"Hoje em dia estamos muito afastados da natureza”, disse Luiza. "Há pessoas que olham para um prato de arroz, comem dele todos os dias... mas quem ainda tem a noção de que veio de uma planta, e de como é a vida dessa planta?”

Thomas Fischermann

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Milagres acontecem. Desastres também

O perigo é quando agendas são mentirosas, candidatos mais fortes se desviam das principais questões e vendem soluções fáceis

Muita gente está desanimada com o cenário para as eleições presidenciais de 2018. E — quer saber? — o quadro, visto de hoje, mostra uma polarização perigosa. Esclarecendo: a polarização não é necessariamente perigosa. Não raro as sociedades ficam diante de opções opostas, entre uma agenda liberal e outra de esquerda, por exemplo. O perigo é quando as agendas são mentirosas, quando os candidatos mais fortes se desviam das principais questões e vendem soluções fáceis.




Para quem acha que isso está por acontecer no Brasil, sugiro voltarmos a 1992. Collor caiu, Itamar Franco assumiu em meio a uma crise econômica parecida com o pós-Dilma, recessão com inflação, mas ainda pior porque o país não tinha moeda com um mínimo de credibilidade. Haviam circulado nada menos que cinco moedas desde 1985, ano da redemocratização.

Em poucos meses de governo, Itamar teve três ministros da Fazenda. As expectativas só pioravam diante do então evidente despreparo do presidente para lidar com tamanha crise. No meio disso, Itamar recebe uma mensagem iluminada sabe-se lá de onde e nomeia Fernando Henrique Cardoso ministro da Fazenda. Talvez ninguém tenha sido mais surpreendido do que o próprio FHC, até então um satisfeito ministro das Relações Exteriores.

A escolha não entusiasmou. De fato, foi recebida com algum ceticismo. Fernando Henrique tinha mais credibilidade do que seus antecessores no cargo, mas não era economista nem especialmente familiarizado com a prática de política macroeconômica.

Foi, portanto, uma boa surpresa quando FHC, sociólogo do campo da esquerda à moda europeia, montou uma equipe com economistas de primeira e deu início a um programa claro: liquidar a inflação, introduzir a nova moeda e reformar as instituições econômicas na linha mais liberal e ortodoxa.

Deu no Plano Real e na eleição de FHC, em primeiro turno, em 1994 e 98, batendo Lula nas duas vezes. Não parecia, mas acabou sendo o homem certo na hora exata em que o país mais precisava.

O Real não foi apenas a introdução de uma moeda estável, reconhecida como tal pela população, mas o início de uma sequência de reformas que retiraram o caráter estatizante da Constituição de 1988. Modernizou a administração, do Ministério da Fazenda às estatais e bancos públicos, e introduziu a noção e as leis de responsabilidade fiscal.

Portanto, pessoal, milagres acontecem, e sempre há um jeito de sair da crise. Esta história parece dar razão à tese segundo a qual a sociedade encontra o líder de que precisa na hora em que precisa. A crise gera sua solução. Acrescente aí a doutrina econômica das expectativas racionais — as pessoas sempre tomam as decisões mais racionais e mais adequadas a seus interesses e necessidades — e pronto, é só esperar que surja o FHC de 2018.

Fácil demais, simples demais para ser verdade. O prêmio Nobel de economia deste ano, Richard Thaler, demonstra exatamente o contrário, que as pessoas frequentemente tomam decisões irracionais, contrárias a seus interesses. Falava das decisões econômicas, pessoais, mas pode-se aplicar à política. Quantos povos em quantos países não votam de maneira totalmente equivocada?

Ou seria Trump um líder selecionado pela História? E Dilma? Temer?

Por outro lado, é um fato que os franceses, colocados diante de radicais de esquerda (Mélenchon) e de direita (Marine Le Pen) e representantes da velha política, elegeram Macron, que se apresentou com uma agenda clara de reformas ditas impopulares (previdência, com aumento da idade mínima, trabalhista, com aumento da jornada de trabalho, e privatizações).

Portanto, pessoal, o Brasil não está perdido. Tampouco está salvo.

Carlos Alberto Sardenberg

Tudo a ver

Ninguém sabe se haverá mesmo, dentro de alguns anos, um muro de concreto fechando de ponta a ponta a fronteira terrestre entre os Estados Unidos e o México. Também não se sabe se pessoas da religião muçulmana serão no futuro próximo proibidas de entrar em território americano. É igualmente desconhecido se os cidadãos estrangeiros, de modo geral, passarão a ser considerados indesejáveis nos Estados Unidos, se o consumo de produtos importados será visto como uma atitude hostil aos interesses nacionais ou se a imprensa americana será tratada como uma inimiga do governo e do bem-estar comum. Mas é exatamente isso, entre outras ideias com o mesmo princípio ativo, que a maioria dos cidadãos americanos deseja que aconteça em seu país. Eis aí o problema: Donald Trump, que fez toda a sua campanha eleitoral propondo tais coisas, foi eleito para a Presidência dos Estados Unidos, mas quem realmente está querendo que a vida seja assim são os 60 milhões de cidadãos que votaram nele e o colocaram na Casa Branca. Mais do que Donald Trump, na verdade, venceu uma visão de como deve ser a política no mundo de hoje – e essa visão é doente.

Trata-se, antes de mais nada, da visão do “nós contra eles”. Esse “nós” é o povo bom, honesto e trabalhador – e defendido pelo grande líder popular. “Eles” são todos os que pensam de um modo diferente, ou propõem outras soluções para os problemas. São chamados de “elite”. Nunca se dão nomes ou identidades à “elite”. Trata-se do inimigo, apenas isso. São “eles” os culpados por tudo o que existe de errado no país; são eles que não deixam consertar os erros. Só pode ter razão quem concorda e apoia o grande líder saído do povo; e só ele, por força dos seus dons exclusivos, é capaz de ter soluções para os problemas. Essas soluções são sempre as mais fáceis, não requerem nenhum tipo de trabalho ou esforço e, mais do que tudo, têm a grande atração de desobrigar as pessoas de pensar; basta acreditar que o líder tem a capacidade de resolver tudo. E, se alguém achar que suas soluções podem estar erradas – bom, esse alguém é da “elite”, justamente, está do lado “deles”, e como tal não tem o direito de participar da vida pública.

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A visão política que venceu junto com Trump também acredita no “Estado forte”, e na sua intervenção bruta para resolver tudo o que é difícil. Esqueçam a gritaria de campanha contra o tamanho “do governo de Washington”, ou a intromissão do “Estado” na vida do cidadão. Na vida real, as propostas feitas pelo vencedor estão sempre chamando a autoridade pública para resolver as coisas. Há problemas com a travessia ilegal da fronteira mexicana? O governo tem de construir uma muralha na fronteira. Há problemas com o terrorismo originado em países muçulmanos? O governo tem de proibir a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos. Americanos estão perdendo empregos por causa da importação de produtos estrangeiros? O governo tem de bloquear as importações – e por aí se vai. Outro artigo de fé na ideologia de Trump é a hostilidade à imigração e aos imigrantes – vistos como uma ameaça ao emprego dos cidadãos americanos e aos valores maiores da sociedade. É gente que aceita trabalhar por um salário mais baixo; não se pode admitir que venham disputar empregos com o cidadão nacional.

O fechamento do mercado de trabalho é, na verdade, apenas um dos elementos de todo um pensamento protecionista, que não gosta do livre-comércio, da concorrência nem da liberdade econômica em geral. Trump prega a revisão de tratados e de práticas comerciais que abrem o mercado americano para produtos estrangeiros. Quer cortar importações. Quer proteger as empresas americanas criando dificuldades para as empresas de fora competirem com elas. Quer criar, manter ou desenvolver o “fornecedor nacional”. Na cabeça de Trump e de seu eleitorado, o mundo exterior não é visto como um possível fornecedor de novas tecnologias nem de produtos melhores, mais eficazes ou mais baratos – é visto como uma ameaça. O estrangeiro, segundo essa maneira de encarar o mundo, está sempre se organizando para prejudicar os interesses americanos. Trump não gosta da independência do Banco Central, que considera manipulado pelos grandes interesses financeiros. Não gosta de cultura – é coisa da “elite”. Não gosta de liberdade.

Donald Trump é apontado hoje como o maior perigo que a “direita” coloca para o mundo. Muito interessante, porque nada é tão parecido com o novo presidente americano quanto Lula e a esquerda brasileira. Trump e Lula – tudo a ver.

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Old boats.

Como a Bolívia se tornou o país que mais cresce na América do Sul

A Bolívia está há mais de uma década crescendo a uma média anual de 5% – muito superior à dos Estados Unidos e à dos países sul-americanos.

Apesar da crise no preço das commodities, o governo boliviano conseguiu manter o ritmo e foi cuidadoso para não desperdiçar o dinheiro que entrou após a nacionalização do gás e do petróleo em 2006.

O país tem crescido muito graças às exportações de gás natural que vende ao Brasil e à Argentina, o que gera o risco de ancorar seu crescimento a esse recurso. E, embora tenha feito esforços para diversificar a economia (com a venda de diesel, estanho e soja), permanece a pergunta de quanto tempo vai conseguir sustentar seu modelo de desenvolvimento.

Apesar disso, o crescimento ocorrido nos governos do presidente Evo Morales, que está no poder há mais de 10 anos, tem sido chamado de "milagre econômico boliviano".


No ano passado, a Bolívia cresceu 4,3%, sendo seguida por Paraguai (4,1%) e Peru (4%). A lista segue com Colômbia (2%), Chile (1,6%) e Uruguai (1,5%).

O desempenho foi bastante alto se comparado ao dos Estados Unidos, que cresceu apenas 1,5%, e com a América Latina, que teve uma retração de 0,9%. O Brasil teve retração de 3,6% em 2016.

No campo político, a gestão de Evo tem sido elogiada por suas reformas inclusivas, mas duramente criticada por suas supostas tendências autoritárias, casos de corrupção e o nascimento de uma chamada "burguesia aymara" – em referência ao povo indígena do qual Evo faz parte.

Embora haja posições distintas em relação à atuação política do governo Morales, sobre a condução da economia os especialistas nacionais e internacionais convergem.

Segundo eles, estes são os três pilares do sucesso econômico da Bolívia:
1. Gás e petróleo

Em 2006, quando Evo Morales decretou a nacionalização dos hidrocarbonetos (como gás e petróleo), a economia boliviana entrou em uma nova era.

Essa fase incluiu, em alguns casos, a transferência de empresas privadas para as mãos do Estado e, em outros, a renegociação de contratos com empresas estrangeiras que continuaram operando no país.


FMI prevê que o país deverá crescer 4,2% neste ano e 4% no próximo
Uma dezena de multinacionais assinaram novos contratos com a estatal YPFB (Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos), concordando em pagar uma taxa de entre 50% e 85% sobre o valor da produção, entre outras coisas.

"O governo aumentou consideravelmente as receitas do Estado", diz o economista Luis Pablo Cuba, professor convidado da Universidade Mayor de San Simón.

"A nacionalização e o imposto direto cobrado sobre os hidrocarbonetos foram alguns dos principais elementos que explicam o alto crescimento econômico", afirma.

A alta nas receitas foi acompanhada de fortes investimentos públicos e de um modelo de desenvolvimento produtivo baseado na demanda interna.

2. Investimento planejado

"Nos últimos 14 anos, o crescimento econômico foi impulsionado principalmente pelo explosão dos preços das matérias-primas, pelo aumento de impostos, pelos significativos investimentos públicos e pelo alto gasto em políticas sociais", disse um porta-voz do Fundo Monetário Internacional (FMI) à BBC Mundo.

"Durante a explosão das commodities, a pobreza diminuiu e o governo sabiamente guardou uma parte dos recursos, construindo uma grande reserva financeira'", afirma.

Essa poupança passou de US$ 700 milhões para US$ 20 bilhões, o que permitiu ao governo absorver o impacto da queda nos preços a partir de 2014.

A liderança da Bolívia no crescimento na América do Sul deve ser mantida neste ano e no próximo, segundo as projeções do FMI.

Uma análise da economista Nicole Laframboise, publicada no blog do órgão, sugere que outro fator importante foi a queda no uso de dólares (que costumava ser usado em vez da moeda local) há cerca de dez anos.

"Isso ajudou a melhorar a efetividade da política monetária, contribuiu para a estabilidade do setor financeiro e permitiu que mais bolivianos tivessem acesso a crédito e a serviços financeiros", disse a economista.
3. Estabilidade

Tanto economistas do FMI quanto analistas locais concordam que a estabilidade social contribuiu para o crescimento econômico.

Entre 2001 e 2005, a Bolívia teve cinco presidentes e um clima de alta polarização e conflito. O início do mandato de Evo também teve momentos complicados, como o processo constituinte e a oposição política se entrincheirando nas regiões ricas do país.

Mas o radicalismo dos primeiros anos foi diminuindo.

A isso se somam indicadores de inclusão social que favorecem a estabilidade. A pobreza diminuiu consideravelmente. Em 2004, 63% da população era pobre. Em 2015, esse índice passou a 39%.

A distribuição de renda também melhorou nesse período, de acordo com dados do FMI. A Bolívia passou de país mais desigual da América do Sul a uma posição média no continente.

Esses sucessos beneficiaram a imagem internacional de um país governado por um partido composto por organizações sindicais e centrais agrárias indígenas e camponesas – e que negociaram com o governo um acordo para evitar uma crise.

Adversários políticos do governo criticam o fato de alguns grupos foram excessivamente favorecidos pela entrada de dinheiro e que o crescimento, apesar de trazer benefícios, trouxe também a corrupção de políticos da situação.

Mesmo assim, a oposição reconhece que Evo tem tido uma política econômica segura e pragmática apesar do seu discurso radical - que inclui, por exemplo, a venda de gás através de contratos de longo prazo com cotação fixa, o controle da inflação e a manutenção das reservas fiscais.
Cecilia Barría

Juiz de favores

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A lógica de um juiz não pode ser a do amigo/inimigo, mas sim a do correto, justo e legítimo. O poder, inclusive o de juízes e tribunais, não existe para proteger amigos e perseguir inimigos, mas para servir ao bem e à justiça. Juiz que faz favores transaciona com o que não lhe pertence
Ministro do STF, Luiz Roberto Barroso durante o 34º Encontro Nacional dos Procuradores da República, em Porto de Galinhas (PE)

Luislinda queria escravizar contribuinte brasileiro

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Responsável pela pasta dos Direitos Humanos, a ministra Luislinda Valois não se revelou uma campeã das causas dos fracos e oprimidos. Mas assimilou rapidamente os maus hábitos dos poderosos. O Estadão conta que Luislinda escreveu 207 páginas para defender o seu direito de receber dois contracheques: o de ministra e o de desembargadora aposentada. Coisa de R$ 61 mil. Pela lei, nenhum servidor pode receber além do teto de R$ 33.700. Mas Luislinda quer furar o teto.

Filiada ao PSDB, Luislinda anotou no seu documento que “se assemelha ao trabalho escravo” o teto que limita seu salário a R$ 33.700 —noves fora o cartão coporativo, a moradia funcional, o carro oficial, o jato da FAB e outras mordomias. Ganha uma biografia de Zumbi dos Palmares quem for capaz de citar uma frase de Luislinda contra a portaria editada pelo governo para dificultar o combate ao trabalho escravo.

Alguém poderia cantarolar para Luislinda um trecho da música Maria Moita, de Carlos Lyra. Diz a letra: “Vou pedir ao meu Babalorixá / Pra fazer uma oração pra Xangô / Pra pôr pra trabalhar / Gente que nunca trabalhou.” Contaminada pelo refrão, Luislinda talvez não volte nunca mais a tentar escravizar o contribuinte brasileiro, que não merece ser acorrentado aos seus privilégios.

A volta da DisneyLula

Finalmente as coisas estão voltando ao normal no Brasil. Que bom que foi só um pesadelo. Lula saiu em caravana por Minas Gerais, prometendo salvar o país da elite branca e gananciosa. Que alegria voltar a ouvir isso. Por um tempo (de trevas), os brasileiros chegaram a achar que tinha sido o próprio Lula, com sua quadrilha de cupins do Estado nacional, o autor do maior assalto da história da República. Ufa... Não foi nada disso. Olha ele aí flanando livre e falando pelos cotovelos contra tudo e contra todos. Os cotovelos mais honestos do Brasil estão de volta.

Foi emocionante ouvir no rádio, na partida da caravana, a notícia de quantas cidades Lula iria percorrer, a expectativa sobre a presença de Dilma (haja coração!) e outros detalhes do grande evento – tudo comentado por um dirigente do PT, o partido mais injustiçado do presépio progressista. O grã-petista falava sozinho, sem ninguém de fora da igreja para quebrar o clima, nem para lembrar que Lula foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Estão vendo? Só pode ter sido um mal-entendido.

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Não era a Rádio Sucupira, mas nem Odorico Paraguaçu sonhou com uma cobertura tão bonita (talvez só comparável à de São Bernardo ou à de Guarujá). Foi muito legal ouvir o dirigente do PT anunciando solene que o governador de Minas, Fernando Pimentel, estava animado com a caravana e marcharia lado a lado com Lula. Viva a revolução!

Coincidências da vida: naquele mesmo dia, o companheiro Pimentel fora apontado pela Polícia Federal como coordenador de uma quadrilha de lavagem de dinheiro em campanhas eleitorais. Troço chato, que pode acontecer com qualquer bandoleiro patriótico. Mas vejam o que é a verdadeira solidariedade: o noticiário sobre a caravana não fez nenhuma referência aos problemas do governador com a polícia. Certíssimo! Roubo é questão de foro íntimo, ninguém tem nada com isso.

E assim vai o Brasil, no embalo da caravana purificadora de Lula, acordando daquele pesadelo terrível. Felizmente essa opinião pública atenta e determinada contra a corrupção (Lula ainda vai salvar a Lava Jato) nem se lembra mais quem foi Mônica Moura. É claro que não vamos estragar esse estado sublime. Quem quiser que vá ao Google. Falando francamente, talvez João Santana nem tenha existido. Pode ter sido só mais uma invenção de João Santana. E aquelas confissões todas sobre os formidáveis assaltos ao contribuinte via empreiteiras, você sonhou. O departamento de propinas da Odebrecht foi uma criação de seu inconsciente obsceno. Aliás, quem garante que a Odebrecht existe? Onde estão as provas? Os cães passam e a caravana ladra.

Enquanto isso, os verdadeiros guardiões da democracia se desdobram. Depois de defender com unhas, dentes e flechas o mandato da companheira Dilma, a mais honesta das delinquentes, Rodrigo Janot foi o primeiro a investir contra o terrível pesadelo elitista, agindo com o açougueiro biônico para derrubar o governo do sucessor. Foi uma ação vadia, mas não se podem exigir virtuosismos numa hora dessas. O herói bilionário inventado pelo PT com dinheiro do BNDES (seu) acabou preso, e Janot desmoralizado (embora ainda solto), mas a narrativa criada foi genial: o país não foi depenado por 13 anos de PT, mas por 13 meses do Conde Drácula.

Para qualquer plateia de circo, ainda mais num jardim de infância como o Brasil, não é difícil espalhar que a culpa é do mordomo. Afinal, o que é a vida senão um grande clichê cinematográfico? Foi o mordomo quem deixou entrar os que arrancaram a Petrobras da gangue do Dirceu. Imperdoável. Como ousa extinguir o pixuleco, maior conquista trabalhista deste século? Foi também o mordomo quem abriu a porta para a equipe econômica que tirou o país da vala em menos de um ano. Pau nele!

E lá vai a caravana da DisneyLula contra a corrupção, incluindo atrações internacionais como Bono Vox – cuja vox não foi ouvida nos 13 anos de ternura do bando, período em que o papa fofo (estrela da companhia) também não mandou recadinhos policiais a Nossa Senhora Aparecida. Tem ainda Dartagnol Foratemer caçando votos com seu nojo aos políticos e a ira santa de Gabriel Predador, que só não mata presidente petista.

O pesadelo acabou, Brasil. Acorda para entregar as calças.

Guilherme Fiuza

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Diálogo com os mortos

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Hoje, Dia de Finados, acordo
e vou ao cemitério dialogar com os mortos.
Me assento solitário
no mármore do poema
na cova rasa da história
e considero
os mortos de outrora
e a vergonha de estar vivo agora.

Olho os mortos em torno:
há qualquer coisa estranha e dura
no vazio de seus rostos:
– é vergonha,
é a calcinada amargura
segregada na solidão dos que choram
do fundo da sepultura.

Certamente não sabiam
que mesmo depois de mortos
uma vez mais morreriam
de vergonha e humilhação.

Vou dialogar com os mortos
e descubro
que os vivos é que estão surdos.
vou dialogar com os mortos
e escuto
que os vivos é que estão mudos.

– Podem os mortos em seus jazigos
emprestar sua voz aos vivos?
Será preciso um comício
de cinza, círios e ossos
para resgatar
os vivos mortos?

Mal formulo esse juízo, percebo
que me equivoco:
– são os mortos que me assomam à porta
sacudindo os ossos
brandindo vozes
desenterrando em mim
meus insepultos remorsos.

O que é isso? dança macabra?f
festa de bruxa: – abacadabra?

O que fazem na praça soltos
os mortos de nossa história?

O que fazem expostos, fora
da cova da memória?

Que dia torto, esquisito,
onde o morto é que está vivo
chorando na praça, às claras
a nossa escura desgraça…….

Diziam os sábios antigos
– os mortos governam os vivos.
Mas na ironia da frase
descubro um outro sentido
ao contemplar meu país
num desgoverno aflitivo.

Os que deviam reinar
estão sonâmbulos, perdidos
em seus palácios sombrios
em seus esquifes de vidro
olhando de longe a nação.

Não percebem que estão mortos
começam a já mal cheirar
e, no entanto, se recusam
a se deitar – no caixão.
Affonso Romano de Sant’Anna

Paisagem brasileira

Itaúnas - Itaúnas - ES
Itaúnas (ES)

Aborrecido com Torquato, Temer se faz de morto

Michel Temer decidiu tratar a crise que opõe o seu ministro da Justiça ao governo do Rio de Janeiro como uma espécie de bala perdida que passou de raspão pelo Palácio do Planalto. Aconselhado por um parlamentar fluminense a demitir Torquato Jardim, o presidente fez ouvidos moucos. Ante a cogitação de divulgar uma nota, preferiu se abster. Uma declaração oral? Refugou. Espera que a desavença seja sedada pelo feriado. Sem condições de agigantar-se em meio ao tiroteio, Temer agachou-se. Embora esteja aborrecido com o amigo Torquato, optou por não fazer nada. O que explica tudo.

Temer não deseja afastar o ministro. Mas ainda que desejasse, não teria condições de fazê-lo. Após transformar a Esplanada numa trincheira multipartidária de investigados, o presidente atiraria contra o próprio pé se colocasse no olho da rua um auxiliar com a ficha imaculada, cujo pecado foi ecoar meia dúzia de verdades contidas em relatórios sigilosos dos órgãos de inteligência sobre o acasalamento da política e da Polícia Militar fluminense com o crime organizado.

Empurrar Torquato para fora do governo, forçando-o a pedir para sair, também não seria uma manobra inteligente. Sobretudo porque Temer acaba de pegar em lanças para aprovar na Câmara o congelamento das investigações criminais contra si mesmo e contra os ministros palacianos Moreira Franco e Eliseu Padilha. Festejado nas redes sociais pela sinceridade, o titular da pasta da Justiça ganharia uma aparência de navio que abandona os ratos.

Para fazer média com o governador Luiz Fernando Pezão, Temer poderia submeter Torquato a uma admoestação cenográfica. Coisa para carioca ver. Mas o ministro da Justiça não é político. Ele faz a Temer o favor de gerir um ministério. Não domina a arte de engolir sapos. Tampouco parece afeito à prática de procurar saídas honrosas em meio à desonra. De resto, Temer se arrisca a entrar na briga do lado da polícia do Rio. A corporação não é 100% corrupta, como insinuou o ministro. Mas 95% dos seus membros dão aos 5% restantes uma péssima reputação.

A lógica da lei

O juiz Sergio Moro, aplaudido e criticado porque pôs na prisão uma quadrilha no poder, é um herói mas não é uma estrela. Porque a estrela é a lei que deve valer para pobres e ricos, famintos e gorrinhos, doentes e sãos, honestos e desonestos, poderosos e comuns. 

Pois a lei só é autêntica se vale também para quem não tem boa ou má-fé, dinheiro, poder, influência e prestígio. Sua lógica é implacável e seu alvo é o delito e não apenas a pessoa. A justiça razoável é o processo de adequação entre o crime, o delinquente e as suas circunstâncias.

Aí reside a sua universalidade, à qual se aplica até mesmo a quem a promulgou. Até mesmo Deus está – e eu digo isso com abalo –, Ele próprio, submetido à sua Lei.



Não é, pois, por acaso que a imagem da lei tem os olhos vendados, mas não é cega. A venda simboliza a determinação de não distinguir quem deve ser pesado na sua balança, cuja neutralidade, porém, é visível. A venda remete ao ideal de igualdade e a espada simula a penalidade que obrigatoriamente fecha o ciclo iniciado com o rompimento da norma.

Vendo a nossa crescente familiaridade com os processos legais e ainda um tanto bestificado pela prisão de alguns poderosos, enquanto aguardo (com uma imensa incerteza) a de outros tantos, é impossível não comparar minhas experiências com a lei nas diversas sociedades nas quais vivi.

Entre os Apinayé (uma humanidade sem escrita), seria impossível separar lei do costume, sempre muito mais abraçado do que contestado. Nessas sociedades fiéis a si mesmas, como diz Lévi-Strauss, vive-se sem a distinção marcante entre o individual e o coletivo e o revolucionismo, tão habitual no Leblon, é impossível. Além disso, a dinâmica social é dinamizada pela reciprocidade, de modo que mais vale dar e distribuir do que receber e guardar. Ali, eu não vi prisões e não descobri criminosos ou pervertidos.

Nos Estados Unidos, experimentei uma outra vivência da norma. Em South Bend, Indiana, vivi, nos anos 1980, uma experiência drástica com a lei local. Numa noite de verão, soube que meus filhos haviam sido presos quando, em estado de razoável influência do mero álcool, saíam, após um jogo, de um estádio de beisebol. Um membro do grupo tentou deixar o estádio por uma dada passagem, mas foi barrado por um policial à paisana. O grupo indagou o que havia ocorrido e meu filho Renato cometeu uma falta mortal: tocou com a mão, num gesto brasileiro, o ombro do policial: foi empurrado, empurrou de volta e, por isso, foi algemado. A agitação pública levou o grupo para a cadeia.

No xadrez da cidade, situado ao lado da prefeitura, um tranquilo sargento nos recebeu no melhor estilo dos filmes de Frank Capra, dissipando as fantasias de violência e tortura do pai. O guarda perguntou os nomes, confirmou-os, cobrou a respectiva fiança – imediatamente paga em dinheiro – e, depois de uma explicação-admoestação em tom sereno, disse que eles estavam de quarentena por três meses, pois, caso repetissem o mesmo delito, seriam enjaulados por mais tempo. Fomos todos para casa. Ninguém perguntou quem era quem e não houve nenhuma juridicidade barata ou papelada.

No dia seguinte, comentei envergonhado o ocorrido com alguns colegas de universidade. Foi quando descobri que todos haviam passado por experiências semelhantes. Lá, a polícia não era chamada e nem era um corpo exótico ou uma sentença final. Era simplesmente parte e parceira de uma sociedade na qual todos podiam cometer delitos sabendo que a polícia estava ao seu lado – para protegê-los ou puni-los.

Confesso que a generalidade da experiência em lidar com a polícia e a prisão foi, para mim, mais surpreendente do que o fato, até então dramático, de ver meus filhos presos.

Em dezembro de 1969, na véspera de voltar ao Brasil e ao Museu Nacional, depois de concluir meus estudos em Harvard, fui detido por um carro de polícia em Somerville, uma cidade vizinha de Cambridge, Massachusetts, a cerca de dois quarteirões da vila onde morava. Eu havia vendido meu primeiro caro, um velho fusca, para um vizinho e, por isso, não paguei a renovação da licença. Depois de um belo jantar, a polícia me perseguiu e me obrigou a parar.

Saindo do carro, o policial perguntou porque eu não tinha licenciado o meu automóvel. Mentirosamente respondi que ignorava tal obrigação. O policial olhou meus documentos e vendo que eu era aluno de Harvard, disse sério: “Você é da Harvard. É muito esperto para não saber dessa regra”. E falou algo que jamais esqueci: “Não minta! Se você continuar mentindo, a multa pode ser de 1.500 dólares!” (era tudo que havíamos economizado...). Aceitei o conselho, falei a verdade, ouvi uma espinafração e fui liberado.

Aquelas experiências me abriram ao seguinte: nas democracias, quanto mais você sabe, quanto mais você tem, quanto mais você é poderoso, maior é o seu dever de falar a verdade e de seguir a lei. Prestígio, riqueza, influência e poder não desobrigam – muito pelo contrário: obrigam.

*

PS: Lavar a Lava Jato seria a maior sujeira da nossa história política!

De novo, a banda podre

Em março de 2000, o antropólogo Luiz Eduardo Soares denunciou a existência de uma “banda podre” na polícia do Rio. Ele não disse mais que o óbvio, mas entrou na mira de deputados e coronéis. O governador Anthony Garotinho resolveu a crise da forma mais fácil: demitiu o colaborador, que atuava como subsecretário de Segurança.

Em novembro de 2017, o enredo ensaia se repetir com Torquato Jardim. Depois de apontar vínculos entre a PM do Rio e o crime organizado, o ministro da Justiça virou alvo de reações histéricas. O presidente da Assembleia Legislativa o chamou de mentiroso. O presidente da Câmara, de infantil e irresponsável. O governador Luiz Fernando Pezão ameaçou processá-lo no Supremo.
Os políticos fluminenses acusam Jardim de ofender a honra do Estado. Eles indicam que só vão recuar se a cabeça do ministro for servida numa bandeja. “Se a população do Rio ainda tem quem a defenda, é a Polícia Militar”, discursou o deputado Jorge Picciani, chefão local do PMDB.

“É a reação corporativista e provinciana de sempre”, comenta o antropólogo Luiz Eduardo Soares, 17 anos depois de ser demitido por criticar a polícia. “Isso me parece uma hipocrisia tremenda. O orgulho do Rio não está ferido por uma entrevista, e sim pela violência e pela corrupção”, afirma.

 As evidências de que a banda podre continua na ativa são fornecidas pela própria polícia. Em junho, 96 PMs foram presos sob acusação de receber mesada do tráfico. Em outubro, o comandante de uma UPP foi detido sob suspeita de desviar armas e munições. Negar o problema é o caminho mais seguro para não resolvê-lo.

Isso não significa que Jardim esteja liberado para fazer acusações graves sem ajudar a apurá-las. Ao assumir o cargo, ele já tropeçou na língua ao dizer que sua única experiência em segurança era o fato de ter sido assaltado. No dia em que denunciou os maus policiais, o professor Luiz Eduardo Soares foi ao Ministério Público e entregou um calhamaço de provas.

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'Se roubava para se fazer política, hoje se faz política para roubar

O que me faz voltar à operação Lava Jato é uma das frases – que uso para dar título a este artigo – do jornalista italiano Gianni Barbacetto, entrevistado no programa “Roda Viva”. Gianni trabalhou em jornal, rádio, televisão e cinema. Como repórter, cobriu a operação Mãos Limpas, que comprovou pagamentos de propinas a políticos com vistas à conquista de licitações na construção civil. Ela também inspirou a operação Lava Jato. Em companhia dos repórteres Marco Travaglio e Peter Gómez, que, na mesma época, foram repórteres do jornal “Il Fatto Quotidiano”, publicou o livro “Operação Mãos Limpas”. Sua entrevista à TV Cultura, sob o comando do jornalista Augusto Nunes, merece ser vista. Diria até que ela é imperdível. Está disponível no canal do YouTube.

Não sei se a frase dita por Gianni Barbacetto reflete, exatamente, o que acontece em nosso país. Todavia, de muitos anos para cá, ficou evidente que a política por estas bandas se transformou em eficiente meio para fazer negócio. Esqueceu-se de que “a arte de governar, segundo Thomaz Jefferson, consiste, exclusivamente, na arte de ser honesto”. São várias as causas dessa repulsiva distorção. Nosso sistema eleitoral é uma delas. Está na cabeceira. No início, usava-se, à vontade, o caixa 2 para se eleger. E ninguém contestava, apesar do desrespeito à essência do regime democrático. Só se elegia o candidato que dispunha de mais dinheiro. E isso ainda poderá ocorrer em 2018.

Era assim o paradigma adotado por qualquer político. As eleições foram encarecendo ao longo do tempo, e o caixa 2, que antes não era crime, já não bastava. Era necessário ir além. Afinal, na política, tudo era válido. Grassou, então, a propina, custeada por dinheiro público. Vários partidos políticos, obviamente acompanhados pelos eleitos, aparelharam empresas públicas e, por meio dos cupinchas que nomeavam para tocar sua gestão, desviaram bilhões de reais. Parte ia para os partidos (ou para seus donos) e para candidatos de sua preferência; parte ia para o bolso dos cupinchas, que enriqueciam criminosamente. Os depoimentos de executivos da Petrobras que fizeram delação premiada jamais serão apagados de nossa memória.

O que ocorre aqui acontece em outros países. Portugal, por exemplo, tem sua operação Lava Jato, não tão extensa, nem tão profunda, pelos valores que ela envolve. Chama-se “operação Marquês”. Há poucos dias, o Ministério Público denunciou o ex-presidente José Sócrates (2005-2011). A acusação contra ele – a de ter transformado seu gabinete num balcão de negócios – tem mais de 4.000 páginas. Pretende-se recuperar por lá, pelo menos, € 58 milhões. A operação portuguesa, segundo o colunista Mathias de Alencastro, da “Folha de S.Paulo”, “chega num momento em que Portugal atravessa sua melhor fase desde o começo do século: o crescimento do PIB atinge números históricos, e a classe política reconquistou uma imagem positiva. E, talvez ainda mais importante, a credibilidade das instituições, que se destacaram por sua discrição, permanece intacta”.

A operação de Portugal, que transcorre com discrição, lembra o que disse o advogado Técio Lins e Silva no artigo “Advocacia em tempo de cólera” (“O Globo”, 29.10.2017): “É inaceitável a alegação, falsa, de que o necessário combate à criminalidade, especialmente a que assalta os cofres públicos, exige a flexibilização de direitos”.

E é só!, diria o saudoso Ariosvaldo de Campos Pires.

Responda rápido

Por quem os sinos dobram?

Dia de Finados evoca a nossa finitude. Pensar na “irmã morte corporal, da qual nenhum ser vivente pode escapar”, como cantou Francisco de Assis (1182/1226) em seu magistral “Cântico das Criaturas”, é antídoto contra a vaidade, o orgulho e a ostentação – defeitos tão em voga nesses tempos de individualismo máximo. Mas é tempo também de lembrar da morte dos outros. Pensar nos que se foram por algum tipo de violência, mesmo que não os conheçamos, é exercício de alteridade, de solidariedade.

Assim, quero convidá-lo(a), paciente leitor(a), a refletir, por exemplo, sobre a morte trágica dos 358 somalis, vitimados por um violentíssimo e covarde atentado do grupo Al Shabab, ainda neste outubro. A destruição letal quase não foi mencionada na imprensa mundial e nacional. Vidas pobres, negras, africanas não contam? A Somália, onde uma terrível seca vitimou, há alguns anos, 250 mil pessoas, não faz parte do nosso planeta?

Proponho que você se coloque no lugar das famílias que, diariamente, têm um ente querido seu levado pela brutalidade da violência no Brasil. Em 2016, houve um aumento de 17,5% na morte de policiais (56% deles negros) e de 26% nas vítimas fatais de intervenções policiais (76% negros), diz o Anuário da Segurança Pública. Não há um dia sequer em que não saibamos de alguém que saiu de casa, para tocar sua vida, quem sabe cheio de planos alegres para um futuro não muito distante, e não voltou. Exercício de amor é “sentir na própria carne”, ter sensibilidade para quem se vê, subitamente, privado do filho, da parceira, do pai, da mãe, do(a) amigo(a). Não pode ser normal!
Charge O Tempo 02/11/2017

Lembre-se dos pais das crianças e dos adolescentes com a vida ceifada precocemente na creche em Janaúba (MG) e no colégio em Goiânia (GO). Não se trata de recomendar uma lembrança mórbida, carregada de luto e dor, mas de um pensamento que impulsione à ação. Para que cada um, à sua maneira, ajude a construir uma sociedade na qual desatinos como esses, perpetrados por pessoas desamparadas de afeto, sejam reduzidos, até desaparecer – ainda que só na época dos nossos tataranetos.

A morte provocada também mostra sua face sombria na natureza, da qual somos parte (consciência biológica que muitos ainda não têm). Mãos humanas, movidas a ganância, acenderam o fogo que devastou quase 30% da Chapada dos Veadeiros! “As araras voavam doidas, desesperadas, ao verem as chamas se aproximarem de seus ninhos e filhotes”, diz Leonilton Ferreira, gerente de uma pousada em São Jorge, porta de entrada para o Parque Nacional (OESP, 26/10/17).

Incêndios destruíram instalações e veículos do Ibama e do ICMBio em Humaitá, no sul do Amazonas. De novo a agressora ação humana, para que a morte do rio Madeira e a exploração predatória dos garimpos ilegais e das madeireiras clandestinas prossiga.

Como não considerar como “roteirista macabro” dessa trama toda um governo que decreta a mineração em área até então protegida (Renca) e baixa uma portaria reduzindo os controles contra o trabalho escravo?

A morte, às vezes, entra devagarinho na vida da gente. Em outras ocasiões, vem súbita, como brutal ruptura. É preciso estar atento e forte para enfrentá-la, em suas mil e uma formas. Nem sempre é possível derrotá-la, mas é necessário acreditar que, apesar de tudo, a vida vence. Nós, com nosso corpo perecível, nos eternizaremos nas generosas causas de justiça, igualdade e paz que abraçarmos.

Nada pelo social

“Tudo pelo social”, o slogan do governo Sarney, foi escolhido com base nas regras de ouro do marketing, mas deu tudo errado, com o fracasso do Plano Cruzado. Foi inspirado na Constituição de 1988, a carta cidadã de Ulysses Guimarães, que ampliou os direitos sociais dos brasileiros, contra a qual José Sarney se bateu, depois de embarcar no populismo voluntarista de sua política econômica de crescimento acelerado e naufragar. Acabou o mandato com o governo na lona, em meio à hiperinflação, juntamente com seus aliados. Todos eles assistiram perplexos uma disputa de segundo turno entre os ex-presidentes Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva, vencida pelo primeiro, que foi apeado do poder porque era um “outsider” na política. A crise econômica parecia imbatível.

Ministro da Fazenda de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardozo fez o ajuste fiscal e um plano de estabilização da economia que deram tão certo que acabou presidente da República. Foi eleito graças ao fim da hiperinflação. Seu governo fez a reforma patrimonial do Estado (privatizações) e adotou uma política social liberal, que consistiu na focalização dos gastos sociais nos mais pobres. As políticas sociais universalistas enfrentaram grande restrição de recursos, mesmo assim, foram inovadoras em alguns aspectos, entre os quais a universalização do ensino básico, sob comando do ex-ministro da Educação Paulo Renato, já falecido, e alguns êxitos importantes na saúde pública, como o controle da epidemia de Aids e a produção de medicamentos genéricos, com a quebra de patentes internacionais, mérito do senador José Serra (PSDB-SP).



Lula deitou e rolou quando assumiu o poder, porque a cama estava arrumada. A crise cambial que enfrentou foi fruto de expectativas negativas, mas acabou facilmente superada quando anunciou na Carta aos Brasileiros que manteria o “mais do mesmo” da política monetária do ex-ministro da Fazenda Pedro Malan: superavit fiscal, câmbio flutuante e meta de inflação. Na crise financeira internacional de 2008, porém, caiu no canto da sereia da chamada “nova matriz econômica” de Dilma Rousseff. Como o Brasil ainda surfava as altas taxas de crescimento da China e a expansão da economia mundial, Lula ampliou os programas sociais para 13 milhões de famílias de baixa renda e conseguiu manter taxas elevadas de crescimento na sua sucessão, chegando a 7% em 2010, quando Dilma foi eleita pela primeira vez.

Tudo parecia caminhar na direção da transformação do Brasil numa potência emergente, com uma classe média numerosa, mas o naufrágio era iminente. As manifestações de 2013 foram o recado dos jovens de que as coisas não estavam indo bem, apesar do oba-oba em torno da Copa do Mundo. Além disso, os sintomas de que a corrupção era sistêmica e fora organizada de cima pra baixo já eram aparentes. Mesmo assim, Dilma foi reeleita em 2014, quando a economia já mandava sinais de que o seu motor estava pifando.

Dilma ganhou o segundo mandato, mas não levou. O impeachment foi mais um ponto fora da curva, como o de Collor de Mello, mas uma decorrência de seus erros. Dilma não soube aproveitar as oportunidades, potencializou todas as ameaças, anulou os pontos fortes de seu governo e não compensou nenhum de seus próprios pontos fracos. O que parecia impossível aconteceu: perdeu o mandato de presidente da República com o povo na rua pedindo sua cabeça, enquanto o PT, acuado, procurava preservar suas forças com a narrativa do golpe e a candidatura de Lula a presidente em 2018.

Chegamos ao governo de Michel Temer, que não somente articulou a queda de Dilma, como herdou seu sistema de alianças, expurgado do PT e seus satélites de esquerda. A antiga oposição se incorporou ao governo, dando-lhe legitimidade e base de apoio no Congresso para enfrentar as adversidades. No caso, foram duas denúncias do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, ambas rejeitadas pela Câmara, da qual Temer foi presidente três vezes. Soube neutralizar pontos fracos e conter ameaças para preservar o mandato.

Temer reverteu a recessão e retomou o crescimento; jogou a inflação abaixo de 3,5% ao ano, com uma taxa de juros que deve chegar a 7%. Teria tudo para ter o mesmo sucesso de Itamar Franco e emplacar um sucessor, mas está longe disso. Além do desgaste provocado pelo envolvimento na Operação Lava-Jato, o governo parece não dar a menor bola para a questão social, haja vista a portaria sobre trabalho escravo, num país com 13 milhões de desempregados declarados. Não tem política de emprego, a face mais perversa da crise social, que cresce vegetativamente, a ponto de os indicadores de 2017 serem superiores aos de 2016, porque o ingresso de jovens no mercado de trabalho é superior à geração de novos postos de trabalho, que este ano atingiu 1 milhão de postos. O mais grave, porém, é a crise de segurança pública, na qual a violência urbana, principalmente no Rio de Janeiro, escandaliza o país e o mundo.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Criminalidade e democracia

O que leva o ser humano ao crime é uma questão controvertida, mas a da segurança pública é bem mais objetiva. Nós com 29,5, eles com 4,2 assassinatos por 100 mil habitantes, apesar de todas aquelas armas, as idas e vindas dos Estados Unidos no tratamento desse problema podem ter algum valor didático.

Na esteira da luta pelos direitos civis nos anos 50 e 60 a Suprema Corte, refletindo a “narrativa” política dominante na época, aprovou medidas para reforçar os direitos dos condenados. Sendo o crime “consequência da má distribuição de renda” e a política penal “enviesada por preconceitos de classe e raça”, era hora de o sistema se voltar precipuamente para a reabilitação das “vítimas da sociedade”.

A nova orientação resultou num declínio acentuado da população carcerária, mas a partir do meio da década as taxas de crimes violentos (incluem mais que assassinatos) começaram a subir. Foram de 200,2 por 100 mil em 1965 para 363,5 no fim da década e 487,8 por 100 mil em 1975.

O movimento pelos direitos das vítimas do crime decolou junto com o de libertação feminina, que denunciava as Cortes por culparem as vítimas nos crimes de estupro. Mas muito mais gente se sentiu embarcada nessa inversão. Surgiam associações por todos os lados exigindo o fim do prende e solta do Judiciário. Os “Pais de Crianças Assassinadas”, as “Mães Contra a Direção Alcoolizada”, a “Organização Nacional de Assistência às Vítimas do Crime” (NOVA)...

No mesmo 1975, Robert Martinson, do New York City College, publicou a primeira pesquisa nacional séria de resultados de programas de reabilitação. Eram praticamente nulos. Os fatos diziam que era impossível prever racionalmente a periculosidade futura de alguém pelo seu comportamento na prisão e que a reincidência era praticamente a norma para os criminosos que tinham tido penas encurtadas. Àquela altura, com todos os mecanismos de redução e de “penas alternativas” os condenados estavam cumprindo apenas 37% de suas sentenças na média nacional. O movimento focou, então, no conceito de “Veracidade das Sentenças”. Tanto para dar satisfação às vítimas quanto para desincentivar o crime, dizia-se, era necessário deter o prende e solta e o faz de conta do Judiciário e fazer com que as sentenças expressassem as penas que de fato seriam cumpridas.

Mas a execução foi mais difícil que a formulação da ideia. A discussão arrastava-se ainda quando em 1981, com Reagan presidente, os instrumentos de democracia semidireta, que andavam meio esquecidos, voltaram triunfalmente à cena com a revolta nacional contra impostos iniciada pela Proposition n.º 13 (dê um google que o caso é ótimo), uma lei de iniciativa popular contra um aumento abusivo do imposto sobre propriedade (IPTU) na Califórnia. Rapidamente o exemplo migrou para a área da segurança pública. Em 1982 os eleitores da Califórnia aprovaram, com a Proposition n.º 8, uma “Carta dos Direitos das Vítimas do Crime”. Ela começava por afirmar oficialmente que “a prisão serve para punir os criminosos”. Além de baixar a idade para tratar como adultos os criminosos juvenis violentos, ela estabelecia o conceito “Três Crimes e Você está Fora” (“Three Strikes and You’re Out”), dobrando a pena para o segundo e dando prisão perpétua a quem cometesse o terceiro. Na sequência, 21 Estados passaram leis populares impondo sentenças mínimas e critérios rígidos para a progressão de penas. “Comitês de sentença” independentes e instâncias de recurso contra reduções determinadas por juízes foram tentados. E a população carcerária começou a aumentar.

Com a “Epidemia do Crack”, que lá ocorreu nos anos 80, a situação tornou-se explosiva. Antigos hospitais, quartéis e depósitos foram transformados em presídios, às pressas. Estados como Michigan e Iowa passaram problemas tão graves que acabaram por criar mecanismos de “progressão de pena de emergência”, libertando prisioneiros escala de crimes acima toda vez que os níveis máximos de lotação dos presídios eram ultrapassados.

O movimento de refluxo teve início com a diferenciação entre traficantes e usuários e o estabelecimento de penas alternativas só para estes. Passo a passo, anos 80 afora, a nova tendência – “a segurança da sociedade vem em primeiro lugar e a conveniência do infrator deve estar subordinada a ela” – foi-se firmando com as penas de reclusão aumentando para crimes violentos e as alternativas se generalizando preferencialmente para crimes contra a propriedade.

Reconhecendo que o pêndulo tinha ido longe demais na volta do excesso de leniência, os californianos, em reformas sucessivas, também acabariam por revogar definitivamente a regra dos três crimes, em 1996. Mas com as experiências acumuladas o país chegou, em 1994, ao Violent Crime Control and Law Enforcement Act, assinado por Joe Biden, que recomendava 60 reformas incorporando o conceito de “Veracidade das Sentenças”, criando restrições mais bem definidas para a progressão de penas, institucionalizando os comitês de condicional para substituir a solitária discrição do juiz nessa tarefa, criando um fundo nacional para a construção de prisões e contratação de policiais, definindo crimes de ódio e dando outras providências.

As reformas nos Estados e nos municípios prosseguiram, então, a partir de um novo patamar mais claro e seguro para todos, pois o sentido do sistema de democracia semidireta é imitar a condição humana de mobilidade e ajuste permanente. O que ele tem de melhor é a força para trazer de volta à Terra as autoridades que o poder sem limites põe voando na estratosfera e obrigá-las a atacar os problemas que afligem a população pela vertente que lhes for indicada por ela. O resto acontece por ensaio e erro, como é adequado à nossa espécie, que, para além de estar sempre mais propensa ao erro do que ao acerto, vive num ambiente tão dinâmico que cada “solução” é sempre apenas o início do próximo problema.

Fernão Lara Mesquita

Sem direito à vida, o que resta?

Está dito no artigo 1º da Constituição que a República Federativa do Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito que tem como fundamentos, entre outros, a cidadania e a dignidade da pessoa humana.

O artigo 6º diz que são direitos sociais assegurados a todos os brasileiros a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer e a segurança pública.

O monopólio do emprego da força pertence ao Estado. Por isso, é obrigação dele proteger os cidadãos de qualquer perigo estrutural. Se é assim, e mesmo que não adiantasse...

Por que o Ministério Público, ou a Ordem dos Advogados do Brasil, ou o Congresso ou os partidos não batem à porta da Justiça contra o Estado a propósito da calamitosa situação de insegurança pública que vive o país?

Régis Soares charge da segurança

É mais do que calamitosa. A situação é de falência e só faz agravar-se, como fica demonstrado mais uma vez com os dados divulgados no 11° anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Somente em 2016, o país registrou 61.619 mortes violentas intencionais, como assassinatos. Foram 171 casos por dia e um crescimento de 3,8% em relação a 2015, chegando a uma taxa de 29,9 por 100 mil habitantes.

Matou-se por aqui em um ano tanto ou até mais do que matou a bomba atômica lançada sobre a cidade japonesa de Nagasaki em 9 de agosto de 1945, no desfecho da 2ª Guerra Mundial.

O número de mortos por aqui em um ano foi maior do que o total de soldados e civis americanos mortos durante toda a guerra do Vietnam. Em sete anos de guerra no Iraque, os Estados Unidos perderam 5 mil homens.

Em 2016, somados os gastos de todos os estados e da União, a despesa do poder público, dividida pelo número de habitantes, caiu 14,2%. Só no Amapá, o número de mortas violentas aumentou 52,1%. No Rio, 24,3%.

Lançado às pressas no início deste ano no rastro das rebeliões que provocaram mais de uma centena de mortes nos presídios, o Plano de Segurança Pública do governo federal não saiu do papel até agora.

Com o medo que nos obriga cada vez mais a uma vida de reclusão, a tudo assistimos bestificados e impotentes. Os mais afortunados tratam de abandonar o país. Os menos, imploram por socorro e não são escutados.

Ricardo Noblat

Vivandeiras petistas

“O que nós de esquerda devemos perguntar aos militares é a quem eles querem servir: ao povo e à nação ou à facção financista e rentista que assaltou o poder? Que rasgou a Constituição e o pacto social e que destrói, dia a dia, a soberania nacional, entregando de mão beijada para o capital externo nossas empresas – estatais ou não -, nossas riquezas minerais, nossas terras férteis.”

Não se trata, caros leitores, de um manifesto dos anos 50/60, quando a esquerda, contaminada pelo golpismo que permeou a nossa história desde o advento da República, também rondava os quartéis em busca de um “general do povo” e dava sua contribuição negativa para a divisão das Forças Armadas.

A citação é parte de um artigo de José Dirceu publicado recentemente no site Diário do Centro do Mundo e compartilhado nas redes sociais do lulopetismo, propugnando o “diálogo com os militares” para atrai-los para seu projeto de poder.

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O apelo a um discurso eivado de um nacionalismo anacrônico presta-se ainda a disputar com o deputado federal Jair Messias Bolsonaro a influência no mundo castrense, dada a pregação “nacionalista” do militar candidato. Não gratuitamente, o PT tem sido pródigo em elogios ao modelo “nacional estatista” do período, do presidente e general, Ernesto Geisel.

A pretendida aproximação com os militares é parte de movimento estratégico mais amplo do PT, na direção de sua bolivarianização. O modelo chavista de “democracia direta” voltou a ser cultivado por Lula. Em entrevista ao jornal espanhol El Mundo declarou que, se eleito, convocará referendo revogatório de medidas adotadas no governo Michel Temer. Para delírio do braço esquerdo do lulopetismo, o caudilho repetiu a ameaça em comício de sua caravana em Minas Gerais.

Na hipótese de um novo governo, dificilmente Lula teria maioria no parlamento para impor seu programa. Como o mensalão e o petrolão inviabilizaram a construção de uma maioria pela via da corrupção, restaria a ele a alternativa de emparedar o Congresso e o Poder Judiciário por meio de consultas populares.

Não há na nossa Constituição a figura do referendo revogatório. Sua aplicação no Brasil implicaria em ruptura constitucional, em o país se enveredar por uma “ditadura popular”, a exemplo da Venezuela de Hugo Chavez e Nicolás Maduro. Mas quem disse que não é essa a ideia?

Ora, as Forças Armadas são um obstáculo a tais planos. Desde a redemocratização dedicam-se exclusivamente a cumprir suas obrigações constitucionais e profissionais, razão pela qual temos o maior período desde o advento da República sem quartelada ou qualquer tipo de intervenção militar na vida política nacional.

Desviá-las de suas funções constitucionais é pré-requisito para o Partido dos Trabalhadores avançar em seu projeto autoritário. É aí que entram em campo as vivandeiras petistas com o objetivo de reintroduzir nos quartéis a polarização “esquerda-direita”. Querem retornar aos tempos da guerra-fria, quando a esquerda, maniqueisticamente, dividia as Forças Armadas em duas correntes: a “entreguista e golpista” e a “nacionalista e democrática”. Sintomaticamente, os termos estão presentes no artigo de José Dirceu.

A história está aí para registrar que o golpismo não foi monopólio da direita. A esquerda também fez suas incursões golpistas, vide 1935.

Na Venezuela, a cooptação dos militares se deu pela sua transformação em uma elite econômica dotada de privilégios e detentora dos principais cargos de direção das principais empresas e dos altos escalões do governo. Hoje, são o principal esteio da ditadura venezuelana. Os estrategistas do PT não ignoram o precedente histórico do modelo chavista, que, de resto, é o mesmo da Coreia do Norte, onde os militares são o principal sustentáculo da ditadura de Kim Jong-Um.

Para atrair os militares, o lulopetismo ressuscita concepções da esquerda que não deram conta da realidade brasileira nos anos 50/60, que dirá agora.

Em pleno século vinte e um, no limiar da Quarta Revolução Industrial e de mudança de paradigmas na economia, pensam o desenvolvimento do país pela via autóctone e de ruptura com o capital externo. O “imperialismo yankee” é visto como o invasor externo que suga as riquezas nacionais. Nessa visão distorcida, a missão das Forças Armadas seria defender o pré-sal, a Amazônia, as empresas nacionais do “polvo imperialista”.

Só que o Brasil não é a Venezuela e nossas instituições castrenses em nada se assemelham às do país de Chavez e Maduro. Temos uma economia diversificada e integrada à economia mundial, uma sociedade bem mais complexa. Nossas Forças Armadas são instituições permanente de Estado e impermeáveis a discursos de quem quer instrumentalizá-las para viabilizar seu projeto de poder.

Os remanescentes da esquerda armada ainda não deglutiram a derrota do passado e agora tentam dividir as Forças Armadas.

Se pensam, com seu canto, atrair os militares para uma aventura, as vivandeiras, de esquerda ou de direita, darão com os burros n’água. Os militares brasileiros parecem estar escolados para embarcar nessa nau de insensatez.

Gente fora do mapa

.1938 hobo during the Great Depression. All his earthly possessions fit in a bag.

Setor público criou quase 200 mil vagas entre julho e setembro

Apesar da frágil recuperação da economia e das dificuldades de caixa, o setor público voltou a contratar com tudo. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, apenas entre julho e setembro deste ano, prefeituras, governos estaduais e Executivo federal contrataram 191 mil pessoas, um aumento de 1,7% no quadro de servidores, que atingiu 11,5 milhões de trabalhadores.

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Esse forte crescimento surpreendeu os analistas, uma vez que todas as esferas de governo vêm reclamando da falta de recursos e muitas unidade da Federação estão com os gastos com servidores acima do permitido pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Acredita-se que muitas das contratações têm a ver com acertos políticos em troca de apoio. É um perigo para a máquina pública, cuja burocracia consome cada vez mais recursos que poderiam estar sendo destinados para as áreas sociais.

No Distrito Federal, a contratação está a todo vapor. Depois da aprovação do novo sistema de previdência dos servidores distritais, foram liberados R$ 170 milhões por mês. Com isso, o governador Rodrigo Rollemberg decidiu convocar aprovados em concursos, sobretudo para a área de saúde. Somente na semana passada, foram mas de 100 convocações.

Mesmo no governo federal, que vinha mantendo o discurso de que os concursos estavam suspensos, o quadro mudou. O ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, ressaltou que, pelo novo projeto de Orçamento de 2018, encaminhado ao Congresso, a União terá R$ 700 milhões disponíveis para contratar servidores. Mas só serão preenchidas vagas que estejam aberta ou que sejam liberadas por meio de aposentadorias de servidores.

O governo vinha usando o discurso da austeridade para aprovar o aumento das metas fiscais deste ano de 2018, ambas de deficit de até R$ 159 bilhões. Para não rasgar todo esse discurso, o Palácio do Planalto encaminhou ao Congresso medidas provisórias adiando o reajuste de servidores do ano que vem para 2019 e elevando a contribuição previdenciária deles de 11% para 14%.

Rio: Crime organizado X Estado esculhambado

O ministro Torquato Jardim, da Justiça, disse em voz alta o que era apenas murmurado por todas as autoridades que lidam com a área de segurança no governo federal. Torquato declarou, em essência, que a PM do Rio é controlada pelo crime organizado, não pelo governo estadual. Os criminosos participam da escolha do comando da Polícia Militar. E os chefes dos batalhões da PM são “sócios do crime”, disse Torquato. Registrei as manifestações do ministro. E isso abriu uma crise entre Brasília e o Rio.


Esse assunto não diz respeito apenas aos habitantes do Rio. Interessa a todos os brasileiros em dia com o fisco, pois o dinheiro dos impostos federais tem custeado o socorro das forças federais à segurança do Rio. O esforço envolve Forças Armadas, Polícia Federal, Polícia Rodoviária, Força Nacional de Segurança. Quem paga a conta, merece a verdade.

O ministro da Justiça não é um qualquer. Dispõe de informações privilegiadas. Reagir aos ataques com outros ataques, como fizeram as autoridades do Rio, não resolve o problema. A crise do Rio é um terremoto de verdades. A verdade mais cruel chama-se Sérgio Cabral. Desceu do governo para a cadeia. Quem supõe que num Estado que chegou a esse ponto o crime não se infiltrou na máquina de segurança é ingênuo ou cínico. Se não consegue lidar com as verdades que saltam aos olhos, não conseguirá lidar com a crise. Só uma coisa é pior do que o crime organizado: o Estado esculhambado.

Comprada por FHC, a reeleição se tornou a mãe da corrupção

Há 2.500 anos, na Grécia, Péricles chamou o povo para a praça pública e mandou decidir tudo pelo voto. Começava ali a civilização. Cada um valendo um. O voto é o homem como um animal igual. É a mais antiga e duradoura invenção social da humanidade. Com a roda, a pólvora, a eletricidade, o rádio, a televisão, a Internet, o homem mudou o mundo. Mas quem mudou o homem foi o voto. O voto fez o homem ser e se saber igual. Não enche barriga, mas derruba as tiranias.

A emenda da reeleição de Fernando Henrique foi comprada. A imprensa provou. Todo mundo sabe. Deputados renunciaram ao mandato com a boca na “botija” de Sergio Motta. A reeleição é uma rima de cão. É a vitória irrefreável da corrupção em todos os níveis: presidência, governadores e prefeitos.

Quando Fernando Henrique comprou a reeleição, Paulo Brossard, deputado, senador, ministro da Justiça e do Supremo Tribunal Federal, escreveu:

“A reeleição é um insulto à Nação, aos 150 anos do Brasil independente, a todos os homens públicos que passaram por este país. Se os generais tivessem querido, também teriam sido reeleitos. Não faltariam apoios.

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Pois bem. Foi preciso que chegasse à presidência da Republica não um militar, não um general, mas um civil, não um homem de caserna, mas um professor universitário, para que o Brasil regredisse ao nível mais baixo da América Latina em matéria de provimento da chefia do Estado.

A Constituição brasileira, na sua sabedoria, proibiu a reeleição dos presidentes. Sempre se vedou a eleição de Presidente para o período imediato.

Bastou um presidente ambicioso e sem senso de respeito à visão histórica nacional, para que a Constituição mudasse a favor de seu intento”.

 Josafá Marinho, senador, foi para a tribuna mostrar o crime da reeleição:

– “A Constituição de 88 instituiu a inelegibilidade absoluta, para os mesmos cargos, inclusive o presidente da Republica. Estipula a inelegibilidade relativa para os titulares que pretendam “outros cargos”, obrigando-os a renunciarem até seis meses antes do pleito.

– “Se o titular dos postos executivos está obrigado a renunciar para habilitar-se à eleição de “outro cargo”, por maior razão lógica há de ser compelido ao afastamento definitivo para a reconquista do “mesmo lugar”.

– “O fundamento moral e político de resguardo da liberdade do voto e de igualdade entre os candidatos, que o força a deixar o cargo pretendendo “outro”, cresce se seu propósito é ser reconduzido ao “mesmo” posto, de onde pode exercer influência preponderante no processo eleitoral”.

Não adiantou a reação dos dois ilustres juristas e da maioria da Nação. Fernando Henrique “ronivonou” o Congresso e a reeleição foi comprada.

(O ex-deputado ROnivon Santiago (ex-PFL, PMDB e PP) foi mascate da reeleição. O ex-deputado e delator da Lava Jato Pedro Corrêa (PP-PE) revelou que Ronivon admitiu ter recebido R$ 200 mil para apoiar a reeleição).

A reeleição é o princípio e o fim de todo tipo de corrupção por um motivo claro: no exercício do poder governadores, presidente e prefeitos têm muito mais força para negociar obras, superfaturar projetos e multiplicar apoios com dinheiro público. O Mensalão mostrou isso e o Petrolão tirou a prova dos nove, comprovando que reeleição rima com corrupção no mais alto grau de depravação.

Voto e alternância de poder são a mais antiga e duradoura invenção social da humanidade.

Sebastião Nery

Paisagem brasileira

Archimedes Dutra, Paisagem rural, 1939, osm, 22 x 26 cm
Paisagem rural (1939), Archimedes Dutra

'Esta é uma sociedade de órfãos de pais vivos'

Estaremos criando uma sociedade de jovens de pais ausentes, distraídos demais com a Internet, à qual Leonardo Calembo, de 41 anos, pai de um dos adolescentes mortos a tiros no colégio de Goiânia por um colega de classe, chamou, enquanto enterrava o filho, de “órfãos de pais vivos”, de pais já mortos para eles, porque ignoram seus problemas?

O eco da tragédia de Goiânia, que se revela a cada dia com informações mais alarmantes sobre a personalidade complexa do jovem de 14 anos que disparou na sala de aula contra os colegas, levará tampo para se dissipar, já que despertou o alarme em não poucas famílias. É como se, de repente, nos perguntássemos se realmente conhecemos nossos filhos e o que estão vivendo sem que saibamos.


O sociólogo Jorge Wertheim, que foi representante da Unesco no Brasil, acaba de escrever no jornal O Globo, comentando o caso do jovem assassino da escola de Goiás, que é significativo que em um país como o Brasil, “com um dos maiores índices de violência do mundo, se despreze a necessidade de investigar por que esses níveis inaceitáveis de violência assolam as escolas”.

Enquanto escrevo esta coluna, o jornal Folha de S. Paulo publica o que chama de “o mapa da morte”, com os dados de homicídios no Brasil em 2016, com um aumento de quase 4% em relação ao ano anterior. No total foram 61.689 homicídios, o que equivale a sete a cada hora, algo que supera muitas guerras juntas. É como se o Brasil sofresse a cada ano a explosão de uma bomba atômica. A de Hiroshima matou pouco mais do que se mata no Brasil todos os anos.

Algo que agrava esse mapa da morte é que metade desses homicídios é de jovens, o que significa que mais de 30.000 pais e mães tenham que enterrar filhos, algo que fere as leis da natureza. O normal é que os filhos enterrem os pais. A matança desses milhares de jovens conduz à aberração de que os pais se sintam órfãos dos filhos, sem poder desfrutar deles em vida.

A violência aumenta em todos os estratos do Brasil, dentro e fora dos lares. Também nas escolas, e com ela o fascínio dos rapazes pelas armas. Uma professora de ensino secundário me escreve para expressar sua surpresa ao perguntar a seus alunos o que desejariam ser quando adultos. Quase todos sonhavam em ser policiais. Por quê?, indagou a professora. “Para poder usar uma arma”, responderam em coro, o que poderia ser traduzido como “para poder matar”

Permitir ou não que as crianças e jovens vejam todo o tipo de violência virtual nos jogos, nos filmes, na televisão e nos celulares? Quando eu era estudante de psicologia em Roma, tive uma discussão com um de meus professores que defendia que as crianças deviam familiarizar-se com a violência para poder administrá-la quando adultas. É o que pensam ainda hoje até mesmo ilustres sociólogos. Para mim, porém, a vida real de hoje já oferece doses de sobra de violência, desde que se nasce, dentro e fora das casas, para que seja preciso acrescentar-lhe a violência virtual. Que as famílias tenham mais medo que seus filhos vejam cenas de sexo que de violência, que se assustem mais que vejam um nu do que uma execução é um sintoma que deveria nos levar a pensar, em um mundo cada vez mais fascinado pelas armas.

Jovens órfãos de pais vivos, pais que se veem sujeitos a enterrar filhos em flor e, se fosse pouco, desde 1980 até hoje segue aumentando no Brasil o número de suicídios juvenis, segundo o IPEA. É o ápice da tragédia da sociedade. Um jovem que se priva voluntariamente de uma vida que deveria estar repleta de esperança e projetos é uma chicotada na consciência dos adultos. Não são apenas órfãos virtuais, mas também jovens aos quais a vida se revela pior que a morte.

Mais do que saber se têm mais votos Lula, Doria ou Bolsonaro, os institutos de pesquisa deveriam se interessar em descobrir por que a juventude de uma sociedade como a do Brasil, que sempre teve como vocação a felicidade e os encontros festivos, se vê de repente representada por um triplo drama de orfandade. Quem salvará o Brasil não será, de fato, nenhum caudilho, herói ou messias, mas a tomada de consciência da sociedade de que as famílias precisam apostar para que seus filhos voltem “a ser sonhadores”, como pedia o jovem de outra escola em Olinda.

Quando um jovem pede aos pais que lhe dediquem mais tempo que a seu celular, ele lhes está suplicando mais afeto, ou está tentando contar-lhes que algo se está rompendo dentro dele. Quando lhe dizem: “depois, agora estou ocupado”, esse “depois” poderia ser tragicamente tarde.

Jetons já renderam R$ 16,4 milhões a autoridades

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Servidores do alto escalão e outros privilegiados já receberam este ano R$16,4 milhões na forma de honorários (jetons) pela participação em conselhos de administração de estatais, fundações, bancos públicos. A farra é ainda maior porque jetons não contam para o teto constitucional. O ministro Dyogo Oliveira (Planejamento) também tem seu jeton de R$18 mil mensais pagos pelo Senac. Embolsa R$41 mil líquidos. 

O conselho do BNDES, banco investigado em CPI no Congresso, paga mais de R$40 mil de jeton para seus integrantes.

O governo federal possui mais de 635 mil servidores, mas os R$16,4 milhões pagos em jetons foram distribuídos a cerca de 400.

Preso na Lava Jato, o ex-presidente do BB e Petrobras nos governos do PT Aldemir Bendine ganhava jetons da petroleira e do BNDES.

As delações dos corruptos de Mato Grosso rondam o Supremo

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A releitura do tiroteio verbal entre Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes revela uma diferença essencial. Gilmar improvisou. Barroso tinha na cabeça uma fala memorizada, cuidadosamente construída para que os golpes retóricos atingissem o adversário no limite da linha da cintura. Em vez de acusá-lo explicitamente de mentiroso e parcial, por exemplo, Barroso disse que Gilmar “normalmente não trabalha com a verdade” e “vai mudando a jurisprudência de acordo com o réu”.


Barroso também qualificou o misericordioso tratamento dispensado aos corruptos de estimação pelo ministro da defesa de culpados com um linguajar enganosamente polido: Gilmar teria estabelecido “uma parceria com a leniência em relação à criminalidade do colarinho branco”. O golpe mais rude, contudo, foi o menos notado pela plateia nacional. Ao ouvir que o Rio de Janeiro hoje não serve de exemplo para nada, Barroso replicou com uma alusão ao estado natal do oponente: “Vossa excelência deve achar que é Mato Grosso, onde está todo mundo preso”.

Gilmar foi à tréplica: “E no Rio, não estão?” Existem semelhanças entre os dois Estados, mas as diferenças são mais relevantes e, sobretudo, mais perigosas. O ex-governador fluminense Sérgio Cabral e outros figurões do seu reinado estão na cadeia. Da mesma forma, o ex-governador mato-grossense Silval Barbosa ficou um ano preso e só deixou a gaiola graças a um acordo de delação premiada. Foi esse o caminho que devolveu o direito de ir e vir ao ex-deputado José Riva, eterno chefão da Assembleia Legislativa.

A mais robusta diferença é que Barroso não tem nada a ver com Sérgio Cabral. Além de contemplar Silval com sucessivas demonstrações de amizade, Gilmar libertou José Riva com um habeas corpus. Os dois corruptos mato-grossenses só começaram a contar o que sabem. Logo estarão tratando de bandalheiras que envolvem o Poder Judiciário. É certo que as incontáveis patifarias não se limitam à primeira instância.
Augusto Nunes