quarta-feira, 21 de junho de 2017

Bons dias!

Vi não me lembra onde...
É meu costume; quando não tenho que fazer em casa, ir por esse mundo de Cristo, se assim se pode chamar à cidade de São Sebastião, matar o tempo.

Não conheço melhor ofício, mormente se a gente se mete por bairros excêntricos; um homem, uma tabuleta, qualquer coisa basta a entreter o espírito, e a gente volta para casa "lesta e aguda", como se dizia em não sei que comédia antiga.

Naturalmente, cansadas as pernas, meto-me no primeiro Bond, que pode trazer-me à casa ou à Rua do Ouvidor, que é onde todos moramos. Se o Bond é dos que têm de ir por vias estreitas e atravancadas, torna-se um verdadeiro obséquio do céu. De quando em quando, para diante de uma carroça que despeja ou recolhe fardos. O cocheiro trava o carro, ata as rédeas, desce e acende um cigarro: o condutor desce também e vai dar uma vista de olhos ao obstáculo. Eu, e todos os veneráveis camelos da Arábia, vulgo passageiros, se estamos dizendo alguma coisa, calamo-nos para ruminar e esperar.

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Centro do Rio em 1879
Ninguém sabe o que sou quando rumino. Posso dizer, sem medo de errar, que rumino muito melhor do que falo. A palestra é uma espécie de peneira, por onde a idéia sai com dificuldade, creio que mais fina, mas muito menos sincera. Ruminando, a idéia fica integra e livre. Sou mais profundo ruminando; e mais elevado também.

Ainda anteontem, aproveitando uma meia hora de Bond parado, lembrou-me não sei como o incêndio do club dos Tenentes do Diabo. Ruminei os episódios todos, entre eles os atos de generosidade tia parte das sociedades congêneres; e fiquei triste de não estar naquela primeira juventude, em que a alma se mostra capaz de sacrifícios e de bravura. Todas essas dedicações dão prova de uma solidariedade rara, grata ao coração.

Dois episódios, porém, me deram a medida do que valho, quando rumino. Toda a gente os leu separadamente; o leitor e eu fomos os únicos que os comparamos. Refiro-me, primeiramente, à ação daqueles sócios de outro club, que correram à casa que ardia, e, acudindo-lhes à lembrança os estandartes, bradaram que era preciso salvá-los. "Salvemos os estandartes!", e tê-lo-iam feito, a troco da vida de alguns, se não fossem impedidos a tempo. Era loucura, mas loucura sublime. Os estandartes são para eles o símbolo da associação, representam a honra comum, as glórias comuns, o espírito que os liga e perpetua.

Esse foi o primeiro episódio. Ao pé dele temos o do empregado que dormia, na sala. Acordou este, cercado de fumo, que o ia sufocando e matando. Ergueu-se, compreendeu tudo, estava perdido, era preciso fugir. Pegou em si e no livro da escrituração e correu pela escada abaixo. Comparai esses dois atos, a salvação dos estandartes e a salvação do livro, e tereis uma imagem completa do homem. Vós mesmos que me ledes sois outros tantos exemplos de conclusão. Uns dirão que o empregado, salvando o livro, salvou o sólido; o resto é obra de sirgueiro. Outros replicarão que a contabilidade pode ser reconstituída, mas que o estandarte, símbolo da associação, é também a sua alma; velho e chamuscado, valeria muito mais que o que possa sair agora' novo, de uma loja. Compará-lo-ão à bandeira de uma nação, que os soldados perdem no combate, ou trazem esfarrapada e gloriosa.

E todos vós tereis razão; sois as duas metades do homem formais o homem todo... Entretanto, isso que aí fica dito está longe da sublimidade com que o ruminei. Oh! Se todos ficássemos calados! Que imensidade de belas e grandes idéias! Que saraus excelentes! Que sessões de Câmara! Que magníficas viagens de bond!

Mas por onde é que eu tinha principiado? Ah! Uma coisa que vi, sem saber onde... Não me lembro se foi andando de bond; creio que não. Fosse onde fosse, no centro da cidade ou fora dela. Vi, à porta de algumas casas, esqueletos de gente postos em atitudes joviais. Sabem que o meu único defeito é ser piegas; venero os esqueletos, já porque o são, já porque o não sou. Não sei se me explico.

Tiro o chapéu às caveiras; gosto da respeitosa liberdade com que Hamlet fala à do bobo Yorick. Esqueletos de mostrador, fazendo guifonas, sejam eles de verdade ou não, é coisa que me aflige. Há tanta coisa gaiata por esse mundo, que não vale a pena ir ao outro arrancar de lá os que dormem. Não desconheço que esta minha pieguice ia melhor em verso, com toada de recitativo ao piano: Mas é que eu não faço versos; isto não é verso: Venha o esqueleto, mais tristonho e grave Bem como a ave, que fugiu do além...

Sim, ponhamos o esqueleto nos mostradores, mas sério, tão sério como se fosse o próprio esqueleto do nosso avô, por exemplo... Obrigá-lo a uma polca, habanera, lundu ou cracoviana... Cracoviana? Sim, leitora amiga, é uma dança muito antiga, que o nosso amigo João, cá de casa, executa maravilhosamente, no intervalo dos seus trabalhos. Quando acaba, diz-nos sempre, parodiando um trecho de Shakespeare:

"Há entre a vossa e a minha idade, muitas mais coisas do que sonha a vossa vã filosofia."

Boas noites.
Machado de Assis (21 de janeiro de 1889), nos 178 anos de nascimento do escritor

Inesperados

macabro... eu sei la o que eu penso sobre religiao ou quem controla o universo ou dane-se... só quero viver a minha vida curtindo ao máximo com paz e amor que sei que me darei bem no futuro ❤️❤️❤️
A semana passada me surpreendeu com inesperados. O inesperado é o latente. Aquilo que se cobre com a capa das coisas claras e planejadas, mas resulta no seu oposto. A sovinice que arquiteta riqueza, a dificuldade legal manifesta para promover a propina latente da facilidade, o sublime socialismo que tem como alvo distribuir riqueza, mas que detesta opiniões divergentes. 

A morte visitou-me atingindo pessoas que eu admirava. É curioso constatar que apesar da morte ser o mais óbvio axioma da vida – pois só morre quem vivo está – ela continuamente nos surpreenda.

Seu incômodo poder decorre de incontáveis latências. A maior delas sendo talvez o modo como a morte inapelavelmente demonstra a nossa finitude. Esse bonito nome para a brutal concretude com a qual os nossos esbirros de onipotência e as nossas fantasias de permanência são negados.

Haja, pois, espanto quando ela aparece. Vivê-la como algo inesperado é, suspeito, um modo de acolhê-la porque são raros os que aceitam o seu convívio e milagrosos os que não são por ela contaminados.

Representada como um esqueleto coberto por uma mortalha – uma entidade descarnada, absolutamente impessoal e dona de uma igualdade objetiva, pois os ossos canibalizam caras e bocas, a morte é prova da separação entre aquilo que possui a mais profunda significação (é o fim de tudo que almejamos), ao mesmo tempo em que desfruta do nosso mais integral desconhecimento. Sentimos a morte, mas não a experimentamos ou conhecemos. Não sabemos como e o que ela é. Dela temos a experiência exterior, pois para conhecê-la por dentro teríamos que morrer e nesse gesto sem retorno, renegaríamos a vida: esse engenho inesgotável do saber e do conhecimento.

Por isso, os mortos queridos nos espantam na sua imobilidade de pedra. Como não reagem aos nossos soluços? Como não ouvem o que ainda temos para pedir ou contar? A morte rompe relações.

Na minha vida que já vai longa, vi muitas mortes e vivi o absurdo de enterrar quem – pela frágil lógica humana – eu esperava que fosse me sepultar.

Mas haveria alguma morte fora de hora, quando sabemos que ela é o sinal de que “chegou a nossa hora?”. Pode-se matar por engano ou boçalmente, como na guerra e nos radicalismos, mas na morte não há erro. Sem ter retorno ou reparo – ela simplesmente é.

Mesmo esperada, a morte surge como um inesperado, como foi o caso do tio de amigos queridos, falecido no mesmo dia em que o laureado jornalista Jorge Bastos Moreno – para quem, envolvido pela sua conhecida simpatia, escrevi o prefácio de seu livro 'A História de Mora: A Saga de Ulysses Guimarães' – também partia. Neste pequeno texto eu enfatizo o modo como ele recontava fatos públicos do ponto de vista de uma mulher, dona Mora, que, como Penélope, esperava e via com mais clareza as peripécias do herói.

Como os dois sepultamentos ocorreram no mesmo dia, fui obrigado a uma cruel escolha. E certamente por causa disso, relembrei no velório do qual participei que tudo na vida social tem um lado manifesto e um outro latente. O morto é explícita e ritualmente pranteado, mas alguém tem que providenciar o cemitério, a sepultura, o caixão e a vestimenta. O triste adeus de uma despedida, entretanto, promove encontros benfazejos com velhos e novos amigos.

O escritor inglês G. K. Chesterton chamava isso de “trabalho do morto”; um outro inglês, o antropólogo A.R. Radcliffe-Brown dizia que o sepultamento era o início da recomposição da teia social ocupada pelo morto. Robert K. Merton, um brilhante sociólogo americano hoje esquecido, sugeriu, inspirado em Max Weber, que toda instituição social tem uma “função manifesta” geralmente expressa nos seus estatutos (a ética protestante) e uma “função lamente” (o espírito do capitalismo), a qual surge como um inesperado e muitas vezes como ironia ou paradoxo de dentro dos seus contornos sociais.

A morte fez apreciar o Moreno, como um jornalista-profeta. Não o que advinha, mas o que diz o que os poderosos não gostam de ouvir porque foi escrito num tom inesperadamente latente – no limite da ironia e do politicamente correto. A função manifesta do jornalismo é estampar fatos. A latente é comentá-los. O modo como isso é feito separa o fofoqueiro do profeta que, ao lado do palácio real, prega uma jeremiada nos barões-ladrões.

Tal como acontece na morte, os políticos se elegem manifestamente para governar, mas o seu objetivo latente é roubar ou arrumar-se. Eis uma tese, mas sua demonstração, como diria um outro inglês, é uma outra história...

Paisagem do dia

lesbarei
Mykonos (Grécia)

Avançar: novo programa do governo é marketing

O presidente Michel Temer deve lançar nas próximas semanas um novo programa de investimentos, denominado “Avançar”. A iniciativa que substituirá o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) prevê investimentos totais de R$ 56,6 bilhões até o fim de 2018.

Para o secretário-geral da Contas Abertas, Gil Castello Branco, era previsível que o governo lançasse um programa para substituir o PAC, criado por Lula e Dilma, identificado diretamente com governos dos petistas.

"Há no Avançar um fundo de marketing. Era esperado que este governo lançasse um novo programa para enterrar o PAC", explica.

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O Avançar é parte do esforço de Temer para contrapor a crise política com medidas positivas no campo econômico. Dos R$ 56,66 bilhões a serem desembolsados pelo governo federal até o fim de 2018, São Paulo deverá receber R$ 5,01 bilhões, segundo dados preliminares a que o jornal O Estado de São Paulo' teve acesso. Em segundo lugar na destinação de recursos está a Bahia, com R$ 3,26 bilhões distribuídos por 1.027 projetos. Depois vem Pernambuco, com R$ 2,19 bilhões em 555 projetos.

No entanto, quase a metade dos investimentos previstos no período, R$ 20,89 bilhões, não estão direcionados a nenhum Estado específico. Eles estão alocados em projetos com impacto nacional como, por exemplo, a conclusão da Ferrovia Norte-sul, prevista para março de 2018.

Segundo a área técnica, essa divisão reflete projetos aprovados e iniciados há algum tempo, boa parte deles durante os governos de Dilma Rousseff e Lula. Desde 2015, com o agravamento da crise fiscal, o governo decidiu não iniciar investimentos novos. A ordem é terminar os que já estão em andamento.

Os R$ 56,66 bilhões em recursos orçamentários do Avançar não são dinheiro novo. Eles já estão no orçamento federal e correspondem à parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) que ficará pronta até dezembro de 2018.

Tal como o PAC, o Avançar terá uma parte formada por investimentos a cargo das empresas estatais, principalmente Petrobrás e Eletrobrás. Esse pedaço, chamado Avançar Energia, contará com R$ 224 bilhões em receitas geradas pelas próprias empresas.

Outro braço, chamado Avançar Cidades, reunirá os programas habitacionais, como o Minha Casa Minha Vida, os de mobilidade e os de saneamento. É possível que haja subdivisões do Avançar específicas para as áreas de Saúde e Educação. Os técnicos discutem, também, um Avançar Crédito, direcionado a prefeituras.

Uma versão do Avançar deverá ser apresentada a Temer no dia 28. Se não acontecerem ajustes, a expectativa é que o programa seja lançado em seguida.

A ideia do Avançar enfrentou resistências dentro do próprio governo, dado seu parentesco com o PAC. Havia receio que ele repetisse o roteiro do governo anterior: programas grandiosos que não saíam do papel. A atual equipe se esforça para mostrar que é diferente, principalmente na gestão do programa de concessões em infraestrutura. Há um empenho quase obsessivo em cumprir cronogramas e "fazer entregas".

A principal dúvida era se haveria dinheiro para fazer o Avançar. "Anunciam um programa de investimento após cortar dois terços do PAC até abril?" questiona Fernando Montero, economista-chefe da corretora Tullett Prebon.. Ele aponta que os desembolsos do programa caíram 64% em termos reais no primeiro quadrimestre deste ano, na comparação com igual período de 2016.

Mudar o fazer


Espera-se da política uma ética, um sentido de missão e de entrega aos outros. Essa conduta ética tornou-se no mundo todo uma exceção.
 
Talvez seja necessário falar menos dos políticos para nos preocuparmos mais com a política. Não aquela que nos é dada a ver pelas mídias mais poderosas que se tornaram hegemônicas. Teremos todos nós que inventar um outro modo de fazer política. Qual será esse modo? Não sei. Mas este sistema que se mundializou não serve 
Mia Couto

STF dirá ao país de que lado está na Lava Jato

O plenário do Supremo Tribunal Federal marcou para esta quarta-feira o julgamento de um recurso vital para o futuro da Lava Jato e de outras operações anticorrupção em curso no país. Os ministros da Corte decidirão se a delação premiada dos executivos do grupo JBS pode ou não ser revista. Dirão também se Edson Fachin, relator da Lava Jato, agiu corretamente ao homologar um acordo de colaboração judicial que os delatados sustentam não ter vinculação com o petrolão.

No fundo, o Supremo informará ao Brasil de que lado está no combate à roubalheira. Deve-se o sucesso do esforço que amedronta a oligarquia político-empresarial a três fatores: 1) o assalto aos cofres públicos passou a dar cadeia; 2) o pavor de ir em cana potencializou as delações; 3) as colaborações judiciais vitaminaram as investigações. Dependendo das decisões que tomar, o Supremo pode fortalecer o círculo virtuoso ou ressuscitar a roda da impunidade.

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Na pior das hipóteses, o plenário do Supremo endossa a tese de que os crimes da JBS não têm nada a ver com a Petrobras e retiram o processo das mãos de Fachin, anulando os atos praticados por ele. Iriam para o beleléu as delações e todas as suas consequências. Michel Temer e Aécio Neves levantariam um brinde e a investigação recuaria à estaca zero.

Numa hipótese intermediária, a conexão com a Lava Jato é reconhecida e Fachin permanece na relatoria. Entretanto, a maioria dos seus colegas consagra o entendimento segundo o qual o plenário do Supremo pode, sim, rever acordos de delação. Sobretudo num caso como o da JBS, em que a Procuradoria-Geral da República concedeu a Joesley Batista e Cia. o prêmio máximo: a imunidade penal.

Se isso acontecer, delações que esperam na fila para acontecer, como a do ex-ministro petista Antonio Palocci e a do ex-presidente da OAS Leo Pinheiro, podem subir no telhado. Novos delatores talvez concluam que os negociadores da Procuradoria, enfraquecidos, não terão mais como assegurar o cumprimento dos termos dos acordos.

Numa terceira hipótese, aparentemente improvável, o Supremo dá uma banana para os investigados e prestigia a relatoria de Fachin. De quebra, avaliza as delações superpremiadas no pressuposto de que a emenda pioraria o soneto. Melhor apanhar os delatores na próxima esquina, quando vierem à luz os resultados da investigação sobre o uso da informação privilegiada da delação para lucrar nos mercados de câmbio e de ações.

Em maio de 2015, quando a Lava Jato tinha pouco mais de um ano, Emílio Odebrecht espetou no noticiário uma nora com o seguinte teor: ''A corrupção é problema grave e deve ser tratado com respeito à lei e aos princípios do Estado democrático de Direito, mas é fundamental que a energia da nação, particularmente das lideranças, das autoridades e dos meios de comunicação, seja canalizada para o debate do que precisamos fazer para mudar o país. Quem aqui vive quer olhar com otimismo para o futuro -que não podemos esquecer-, sem ficar digerindo o passado e o presente.''

Meses depois, a Odebrecht oferecia à força-tarefa da Lava Jato aquela que entraria para a história como delação do fim do mundo. O Apocalipse remexeu o passado e convulsionou o presente. Se transformar a delação da JBS em algo parecido com aquele que Romero Jucá chamava de “estancar a sangria”, o Supremo consolidará a vocação do Brasil para o papel de mais antigo país do futuro do mundo.

Derrota do governo no Senado indica que políticos começam a despertar

Enquanto o presidente Michel Temer finge que está resolvendo alguma coisa em Moscou e Oslo, a política brasileira dá sinais de viver outra realidade. A rejeição da reforma trabalhista na Comissão de Assuntos Sociais no Senado é um importante indicativo, porque mostra que ainda há parlamentares conscientes em Brasília. O Planalto estava apostando todas as fichas nessa votação, para dar uma demonstração de força, com Temer podendo se jactar que a situação está tão sob controle que o Congresso aprova os projetos do governo até mesmo na ausência dele. Sonhar não é proibido, mas o resultado foi desastroso.

Os estrategistas do governo achavam que venceriam de 11 a 8, com folga de três votos. Mas os senadores Hélio José (PMDB-DF), Otto Alencar (PSD-BA) e Eduardo Amorim (PSDB- SE) desobedeceram às lideranças de seus partidos e viraram o placar para 10 a 9.


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O fato concreto é que nem todo parlamentar é idiota ou curvado ao poder. Desde quando assumiu interinamente, em maio de 2016, o governo tenta consagrar a tese de que a atual crise econômica é causada por equívocos existentes nas legislações da Previdência Social e da CLT, que estariam entravando o desenvolvimento.

A tese é insana e perversa, porque está ocorrendo justamente o contrário – o déficit da Previdência e o desemprego estão sendo provocados pela crise econômica. E o mais grave problema do país é a subida progressiva da dívida pública, mas este assunto não é discutido e a mídia se cala, para afetar os interesses do governo, dos banqueiros e do empresariado.

É o assunto mais importante do país e precisa ser discutido aberta e profundamente. Mas quem se interessa?

Se o país tivesse mantido o crescimento, nem estariam sendo discutidas essas reformas. Os deputados e senadores sabem que se trata de medidas perversas, que só vão atingir os pobres e a classe média. Os ricos e as elites já são pejotizados (viraram falsas pessoas jurídicas) e não estão nem aí.

Ao se transformarem em supostas empresas, ganham o direito de sonegar 17,5% de Imposto de Renda mensal e de não pagar nada à Previdência, enquanto as empresas verdadeiras, que realmente produzem riquezas e abrem empregos, têm de contribuir com 20% sobre o total da folha de pagamento.

A terceirização também dá margem de sonegação da Previdência. Ao invés de ser combatida, acaba de ser ampliada, abrangendo as atividades-fim.

O problema verdadeiro do país é a subida progressiva da dívida pública, mas este assunto não é discutido e a grande mídia se cala. Para se ter uma ideia da gravidade da situação, basta dizer que em apenas três meses (fevereiro, março e abril), a dívida pública subiu mais de 6%, ante uma inflação anual prevista para menos de 4%.

O governo (leia-se: Henrique Meirelles) diz que a situação está sob controle, mas isso só acontecerá daqui a 20 anos, segundo os planos do próprio ministro da Fazenda. No entanto, como dizia o genial economista John Maynard Keynes, a longo prazo todos estaremos mortos.

Paisagem brasileira

Areia, Paraíba - Brasil -
Areia (PB)

Reformar o quê, como, para quê?

O debate sobre a reforma política arrasta-se desde a Constituinte (1987-1988) e do plebiscito de 1993 sobre o sistema de governo, com resultados práticos assaz limitados. Todo ano, aí por volta de abril, o Congresso Nacional ressuscita a questão, para gáudio do jornalismo político e dos cultores acadêmicos da matéria.

Esquematicamente, creio poder afirmar que esse ciclo anual se repete com uma notável falta de clareza quanto ao que precisa ser reformado e aos objetivos mais amplos, direi mesmo estratégicos, de uma eventual reforma. Ao longo do tempo, essas duas carências foram agravadas por um retrocesso na discussão do modus faciendi – ao “como” da reforma. Em nome do realismo, convencionou-se que a reforma haveria de ser “fatiada”, minimalista, conceito válido enquanto referência às dificuldades de aprovação no Congresso, mas que obviamente prejudica a reflexão de substância quanto ao “quê” e ao “para quê” reformar. Sem esquecer que mesmo as finas fatias que começaram a ser cogitadas desde a segunda metade dos anos 1990 não percorreram com a suavidade esperada o trato digestivo dos senhores senadores e deputados.

Neste ano da graça de 2017, a discussão retorna envolta em espessas nuvens escuras. Seu objeto já não é a uma conjuntura de instabilidade institucional considerada em abstrato, mas uma instabilidade real batendo às nossas portas. Tampouco se trata de uma situação de ineficácia governamental crônica – de “ingovernabilidade”, no jargão dos cientistas políticos –, considerada em tese, mas dos graves danos infligidos ao País pelo governo da senhora Dilma Rousseff, da inacreditável perda de tempo exigida pelo impeachment e dos riscos que se perpetuam em razão da debilidade do governo Temer. Quase três anos de recessão e o assustador aumento do número de desempregados parece ainda insuficiente para os dirigentes políticos e os quadros formadores da opinião nacional encararem com seriedade a questão da reforma.

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Reformar o quê? Depois da tragicomédia do impeachment de Dilma Rousseff e do mero fato de se haver cogitado da antecipação das eleições de 2018, parece-me fora de dúvida que o cerne da questão é o sistema presidencialista de governo. O traço essencial desse sistema é, como sabemos, a rigidez. Do ponto de vista institucional, o Legislativo e o Executivo, eleitos em separado, com base em princípios distintos, nada devem um ao outro. Salvo o amargo remédio do impeachment, que inevitavelmente envolve o processo político num cipoal jurídico apenas acessível aos especialistas, um Poder não tem como influir sobre o outro. Inexiste base constitucional para tanto. Assim, seja qual for o tamanho do desastre causado por qualquer dos dois, ou por ambos, eventuais crises só podem ser superadas pela passagem do tempo. Não por ações e negociações políticas, mas pelo estrito formalismo do calendário nacional. O resto é golpe.

Essa, exatamente, é a situação em que o Brasil se encontra e que, a rigor, teve início já nas primeiras semanas do segundo mandato da senhora Rousseff. No sistema parlamentarista, o chefe de governo (primeiro-ministro) que não disponha de apoio congressual para governar pode ser afastado a qualquer tempo, tenha ou não cometido crime de responsabilidade. E a recíproca é verdadeira. Uma legislatura que se recuse a colaborar com o Executivo, aprovando em tempo razoável medidas de alta relevância para a sociedade, pode ser dissolvida, com a convocação de eleições parlamentares antecipadas. O Executivo dispõe, portanto, de uma alavanca poderosa para resolver impasses, evitando que os congressistas transformem diferenças razoáveis de avaliação num jogo estéril, num desperdício de tempo que o país não pode tolerar.

Deixei propositalmente de lado o problema do chamado “presidencialismo de coalizão”. Num quadro como o nosso, de proliferação partidária desordenada, é praticamente nula a chance de o Executivo formar uma base de apoio com duas ou três agremiações; se o maior partido dispõe de apenas cerca de 20% das cadeiras legislativas, o presidencialismo será inevitavelmente “de coalizão”. Os absurdos que tal condição implica aí estão, à vista de todos. Idealmente, portanto, a eventual adoção do parlamentarismo deve associar-se a uma freada enérgica na proliferação. Mas não concordo com a afirmação de que o conserto da estrutura partidária seja uma precondição para a mudança do sistema de governo. De fato, é comum ouvir que o parlamentarismo não pode ser implantado “com esse Congresso”, ou “com essa estrutura partidária fragmentada”. Ora, nas condições brasileiras, o que torna as alavancas parlamentaristas necessárias e urgentes é justamente o fato de termos “esse Congresso” e “esses partidos”, travas que o sistema presidencialista não tem como romper.

Reformar para quê? Aventuro-me a afirmar que a instabilidade do regime constitucional, risco intensamente considerado pelos constituintes de 1987-1988, já não é uma ameaça grave no Brasil. Muito mais séria é a ineficácia ou baixa eficiência do processo decisório (o risco da “ingovernabilidade”) – como o evidencia o sofrido andamento das reformas trabalhista e previdenciária no Congresso. Nunca é demais lembrar que o Brasil é um dos países aprisionados no que os economistas chamam de “armadilha da renda média”. Refiro-me aqui a países que chegaram até com certa facilidade ao patamar de 10 mil ou 12 mil dólares de renda anual por habitante, mas não conseguem pular para os 20 ou 25 mil, nível ainda modesto, característico dos países mais pobres da Europa, como Grécia e Portugal.

Ao que parece, os brasileiros já perderam a capacidade de se indignar

O país entrou em um buraco tão grande e sujo que é difícil identificar quais os erros precisam ser corrigidos e em que ordem as correções devem ocorrer. Alguém tem dúvida que, praticamente, não existe um setor que esteja realmente cumprindo com suas finalidades e atingindo os resultados necessários? É claro que não vale citar a exceção da Polícia Federal e da Lava Jato…

O setor público é dominado pelos servidores, que, sem comando e sem a qualificação necessária, tomou posse das estruturas na maioria das repartições, sejam federais, estaduais ou municipais. O típico exemplo é o caso do ensino público, nos três níveis, com entidades partidarizadas, sugadoras das suas próprias bases.

A área da segurança está descapitalizada em tudo, a partir também de seus quadros, e a criminalidade impera. O setor de saúde pública está mais do que falido, nas instituições federais, estaduais e municipais.

Reformas urgentes são necessárias, mas precisam abranger todas as áreas públicas. A partir delas, então poder-se-á “enquadrar” as áreas privadas.

Só como exemplo, em Porto Alegre a empresa de ônibus estatal (pública…), mesmo dando prejuízo, paga “bônus por resultados” aos funcionários. São as ditas “conquistas dos trabalhadores”. E quantas coisas há para relacionar, nos mesmos moldes deste caso.

O Brasil virou um carro velho, com ferrugem e sem peças de reposição. Uma sucata que só serve para ser derretida e vendida em blocos. Quem quer comprar? Mas aviso: tem de levar tudo!

Bem sei que o assunto mexe com os brios (será que ainda sabem o que isto representa?) de alguns, mas a maioria se omite e não demonstra capacidade de se indignar, nada, nada!

Um terço da humanidade enfrenta ondas de calor mortais

Um terço da população mundial está exposta a condições climáticas que produzem ondas de calor mortais devido à acumulação de gases do efeito estufa na atmosfera, e isso torna “quase inevitável” a ocorrência de mortes por altas temperaturas em vastas áreas do planeta. E as previsões para o futuro são ainda piores: a cifra chegará a 48% da população até 2100, mesmo que as emissões desses gases sejam reduzidas. Essas são as principais conclusões de um estudo realizado por geógrafos da Universidade do Havaí (EUA) que analisaram mais de 1.900 casos de mortes relacionadas ao calor nas últimas quatro décadas em 36 países.

“Foi um choque encontrar tantos casos”, conta por email Camilo Mora, principal responsável pela pesquisa. “Tínhamos estudado algumas ondas de calor como a que assolou a Europa em 2003, mas encontrar tantos registros de pessoas que faleceram devido a altas temperaturas em todo o mundo foi assombroso.”

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O estudo, publicado na revista Nature Climate Change, mostra que o risco geral de doenças ou mortes relacionadas ao calor aumenta constantemente desde 1980, devido à mudança climática. Os cientistas analisaram as condições de calor e umidade durante os episódios letais, a fim de estabelecer um limite acima do qual as circunstâncias se tornam mortais, como em 2003. Aquela onda de calor, nos meses de julho e agosto, foi apontada como sendo direta ou indiretamente responsável por 13.000 mortes na Espanha, segundo os cálculos do Instituto Nacional de Estatística (INE), que comparou esses dados com as mortes no mesmo período de 2002 e 2004. A mesma onda de calor causou aproximadamente 20.000 mortes em toda a Europa, segundo as cifras oficiais (um estudo posterior elevou o número a 70.000). O estudo também menciona a onda de calor de 2010 em Moscou, quando quase 10.000 pessoas morreram.

Os pesquisadores observam, porém, que as disfunções devidas ao calor não ocorrem somente durante as ondas maciças, mas sempre que se dá uma combinação entre um alto nível de umidade e temperaturas elevadas. “Existem casos de pessoas que morreram sob uma temperatura de 23 graus”, afirma Mora. A causa é a hipertermia, um excesso de calor corporal que pode gerar insolação e inflamações. “O suor não evapora quando há muita umidade, e o calor então se acumula no corpo”, explica o cientista.

As regiões tropicais, naturalmente bastante úmidas e com temperaturas elevadas, são as mais suscetíveis de ter de enfrentar ondas de calor. E, embora “qualquer um possa morrer” nessas circunstâncias, segundo escrevem os pesquisadores, os idosos são mais vulneráveis. “Seus corpos podem ceder a qualquer momento em situações assim. Uma onda de calor é como um teste de resistência em que muitos de nós serão reprovados”, diz Mora.

O estudo registra que as temperaturas elevadas e as condições de seca se exacerbaram nas áreas urbanas por causa da retirada das árvores, que proporcionam sombra e umidade refrescante. Mora faz questão de dizer que, embora medidas paliativas, como os alertas lançados pelo governo e o uso crescente de ar condicionado, tenham ajudado a reduzir o número de mortes, elas não são soluções viáveis no longo prazo. “O mais importante é prevenir novas ondas de calor. Temos de construir menos, emitir menos gases de efeito estufa e plantar árvores para refrescar as cidades”, defende ele. Para o geógrafo, as opções de que a humanidade dispõe para enfrentar as ondas de calor estão entre “ruins e terríveis”
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terça-feira, 20 de junho de 2017

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Sua Excelência, o corrupto

Neste momento, o personagem central da realidade política brasileira é o corrupto. Para alcançar poder, prestígio e dinheiro, age em favor dos seus interesses, transgredindo leis e regras sociais sem demonstrar qualquer arrependimento. Como a corrupção é uma doença social, o corrupto é um sociopata. Na psiquiatria esse tipo de comportamento é classificado como transtorno de personalidade, com características aparentes desde cedo, que devem ser controladas com medidas educacionais e limites. Há aspectos genéticos envolvidos, mas as vivências do indivíduo também são relevantes para essas condutas. A tolerância e a falta de punição contribuem para agravar o quadro. Os transtornos de personalidade são intratáveis, incuráveis e irreversíveis. Essas são algumas das opiniões do médico e psicoterapeuta João Augusto Figueiró, um dos maiores especialistas brasileiros no tema, com quem tive o prazer de conversar há vários anos, muito antes dos escândalos recentes.

Dentre os tipos de comportamento antissocial, uns são narcisistas e ostentam os bens adquiridos ilegalmente, enquanto outros são discretos e ocultam o patrimônio. Todos, porém, são calculistas e administram os riscos. Se a Suíça aderiu à cooperação internacional contra a lavagem de dinheiro, mudam a grana para Cingapura, como teria sugerido a ex-presidente Dilma Rousseff em 2015 a Mônica Moura, mulher do marqueteiro João Santana. Se não convém serem vistos em público, encontram-se fora da agenda nos porões do palácio. Transformam propina em joias, lanchas, prédios, apartamentos, reformas, sítios...

Sua Excelência, o corrupto Foto: Agência O Globo

Dentre os objetivos da Operação Lava-Jato, um dos mais relevantes é o de modificar a percepção de risco por parte dos corruptos. Até pouco tempo, o ganho era enorme e o risco, mínimo. De alguns anos para cá, na equação da corrupção a variável “risco” passou a ter um peso maior. Afinal, já são 141 condenações que resultaram em 1.428 anos de pena!

Mesmo após corruptos ilustres terem ido para a cadeia, ainda há encontros em pizzarias, de onde o “homem de confiança” de Temer saiu correndo com uma mala de dinheiro. Para Joesley Batista — o corrupto esperto e impune — até recentemente os políticos não estavam entendendo as consequências da Lava-Jato e a falência do sistema político. “Com a recuperação econômica, o brasileiro não iria mais para a rua, e eles poderiam abafar a Lava-Jato”, declarou Joesley. Não convém duvidar...

Quando a selva pega fogo, os bichos se unem. O petisco da moda em Brasília, saboreado por todos os líderes políticos, é a coxinha de mortadela. Em se tratando do combate à corrupção, há pelo menos três riscos iminentes: a eventual substituição do diretor-geral da Polícia Federal, Leandro Daiello; a sucessão do procurador-geral da República, Rodrigo Janot; e a reversão do entendimento do Supremo Tribunal Federal de decretar a prisão logo após decisão de segundo grau.

Em relação à Polícia Federal, no diálogo do senador afastado Aécio Neves com Joesley Batista, o tucano critica duramente o então ministro da Justiça, Osmar Serraglio, por não ter o controle da Polícia Federal. Aécio sugere uma seleção de delegados para receber inquéritos sobre determinados políticos. Na mesma linha, há vários governos, políticos e autoridades que tentam “adestrar” a Polícia Federal aos seus interesses, felizmente sem sucesso. No caso do sucessor de Janot, o sonho dos investigados é a designação de um novo “engavetador-geral da República”, para amansar os meninos da força-tarefa. A estratégia, ao que parece, é plantar na mídia informações de que haveria insatisfação dentro dos órgãos com os atuais dirigentes, os quais estariam “prejudicando” a operação. Assim, a sociedade, equivocadamente, apoiaria as mudanças de comando, e o palácio passaria, enfim, a controlar a PF e o MPF, como desejam todos os corruptos envolvidos.

Quanto à prisão após condenação em segunda instância, o ministro Gilmar Mendes já se manifestou dizendo que o cumprimento da medida é possível, mas não obrigatório e defendeu que a corte reveja a decisão. Com a lerdeza da Justiça e sem a perspectiva de prisão, voltaremos à estaca zero.

Enfim, essas canetadas, se conjugadas, poderão afetar a Lava-Jato, reduzir o risco dos corruptos e favorecer a impunidade de Suas Excelências. No Brasil, lamentavelmente, os investigados podem designar os seus investigadores e aprovar leis que os protegem. O momento faz lembrar uma frase do poeta Jonathan Swift, que viveu na Irlanda no século XVII: “Como as coisas andam, a política nada mais é que corrupção”.

Gil Castello Branco

A crise e os 'corruptos de estimação'

A crise cria seus símbolos e expressões, faz seu próprio idioma. Desvelando o ânimo de parte da sociedade, revela o espírito do tempo. ''Corrupto de estimação'' já é um dos termos consagrados por este conflito; não se sabe como surgiu, mas demonstra a situação em que preferências e vetos políticos se colocam acima de evidências de deterioração geral do sistema. Dá-se com isto suporte à sobrevivência de grupos e contextos políticos que precisariam ser rapidamente superados.

Estandartes da moralidade de apenas alguns meses atrás, agora, se recolhem; relativizam fatos, e douram versões: o que servia para Lula e Dilma não serve para Temer e Aécio, por exemplo. De sinal contrário, tudo o que há pouco era impróprio, era precipitação, era abuso em relação ao PT, empregado aos inimigos é, agora, justo. A crise coloca em cartaz seu festival de cinismos.

É mais um problema no interior do emaranhado de problemas do país. Do FlaXFlu fogem análises objetivas, esticando o tempo político da disputa. Relativiza-se, por exemplo, as revelações de Joesley Batista; elas, de fato, trazem prejuízo à economia, mas o acessório não pode negar o essencial: o presidente que não consegue se explicar.

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Por sua vez, petistas julgam com a pressa e o rigor que não admitem sejam julgados seus dirigentes. E esquivam-se: não haveria provas do envolvimento de Lula e Dilma com esquemas da JBS. ''Lula não foi gravado''. Zomba-se da inteligência geral ou da capacidade de Lula? Não se alivia o fato de ter-se consolidado um grande esquema de corrupção, durante os governos do PT.

Delação boa é a que arde no círculo social do outro. A crise gera essas contradições: argumentos e desculpas que antes cabiam na boca do adversário. Constitui-se, assim, o embate-empate na opinião pública que inibe o desenlace mais rápido da crise. Dividida, a sociedade se desmobiliza. A disputa dos partidos, na opinião pública, compreende exatamente isto, a paralisia. Sem pressão, os blocos políticos acomodam-se, não há rachas nem defecções. Cada um resguarda seu interesse.

Tenta-se desqualificar a crise: maliciosamente, surgem questionamentos sobre os motivos, afinal, do Ministério Público e da mídia que amplifica as denuncias. Difícil dizer. Fazem lembrar o motorista Eriberto França, cujo depoimento levou Fernando Collor de Mello ao impeachment. Na CPI, um deputado ''colorido'' lhe perguntou se denunciava ''apenas por amor à pátria''. Ao que o motorista devolveu: ''…e o senhor acha pouco, deputado?''

Ainda que se possa especular a respeito de razões que a razão desconheça, o fato é que a narrativa de Joesley Batista é reveladora do estado da arte do sistema político real: de fato, os maiores partidos do Brasil — e alguns de seus dirigentes — locupletaram-se com relações não republicanas, lambuzaram-se com o mel de grana graúda.

Não se apaga o papel que o PT teve nisso, não importam as alegadas e esfarrapadas desculpas de que foi em prol da inclusão social. Tampouco a recuperação econômica pode, por sua vez, esconder que o presidente recebeu, sim, nos subterrâneos do Palácio quem agora chama de ''notório bandido'', indicando-lhe um interlocutor pouco depois flagrado com uma mala de dinheiro. Nada faz esquecer que Aécio Neves fazia pedidos ao ''notório bandido'', mesmo depois de ter liderado um processo que retirou do poder um grupo ao qual o senador qualificava como ''organização criminosa''. Custa esquecer.

No geral, as explicações de cada um são frágeis e contraditórias; imaginar que nada disso ocorreu não faz sentido; há, ao menos, verossimilhança nos relatos. E, à parte disto, provas vivas às quais se procura enterrar. No mais, o STF julgará se os termos do acordo de leniência entre a JBS e o MP são válidos; numa lógica ''consequencialista'', avaliará se os áudios e as ladainhas de Joesley valem isso tudo, na missa da crise.

Pouco importa em quem, afinal, se votou em 2014. Tudo mudou. Não é o mesmo que trocar de time de futebol, virar casaca. Dicotomias e maniqueísmos deveriam desaparecer; vetos a partidos ou personagens não podem obscurecera realidade: o sistema político ruiu, as casas estão caindo. A vida precisa ser reconstruída com outro barro. E os corruptos de estimação devem, sem exceção, ser encaminhados às autoridades sanitárias.

Carlos Melo 

Gente fora do mapa

Família de operário na inauguração de Brasília, em 1960, fotografada pelo suíço René Burri
Família conhece Brasília (1960), René Burri

Américo Pisca-Pisca e os 'bissurdos' de Gilmar

Como não lhe faltassem argumentos, a certa altura do voto decisivo contra a cassação da chapa vencedora nas eleições presidenciais de 2014, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Gilmar Mendes, tirou da algibeira um personagem da nossa literatura infantil, Américo Pisca-Pisca. “De vez em quando a gente vê esse personagem andando por aí, o reformador da natureza”, disse. Na fábula de Monteiro Lobato, Pisca-Pisca punha defeito em tudo. Por que uma árvore grande como a jabuticabeira carrega frutos tão pequeninos? Por que abóboras enormes crescem ao chão, em frágeis plantas rasteiras? “Não era lógico que fosse o contrário?”, pergunta. “Se as coisas tivessem de ser reorganizadas por mim, eu trocaria as bolas – punha as jabuticabas na aboboreira e as abóboras na jabuticabeira.” Até que, “pisca-piscando que não acabava mais”, ele adormece sob a jabuticabeira, e uma jabuticaba cai-lhe sobre o nariz. Desperta, pisca, pisca de novo – e reflete: e se tivesse caído uma abóbora? “Deixemo-nos de reformas. Fique como está que está tudo muito bom”, diz. Para Gilmar, a fábula é um alerta para as tentativas de mudar o mundo sem atentar às consequências. “Muitas vezes, brincamos de Américo Pisca-Pisca, temos de ter muito cuidado com as instituições”, disse, ao votar pela manutenção do mandato do presidente Michel Temer. “Não devemos brincar de aprendizes de feiticeiro. Se quiserem tirar um presidente, não se aproveitem desse tipo de situação.”

Gilmar poderia ter prosseguido em sua leitura de Monteiro Lobato. Em A reforma da natureza, Dona Benta, Tia Nastácia, Pedrinho, Narizinho e o Visconde de Sabugosa se mandam para a Europa, convocados a negociar um acordo de paz entre as nações. Sozinha no Sítio do Picapau Amarelo, a espevitada Emília se mete a brincar de Pisca-Pisca. Convida uma amiga a ajudá-la a reformar os “bissurdos” que encontra na natureza. A experiência é um desastre. Um tico-tico com a ninhada nas costas mal consegue voar, laranjas sem casca não resistem nos pés, bezerros passam fome diante da vaca com torneiras nos úberes, livros comestíveis são devorados pelo porquinho Rabicó, borboletas lerdas, moscas sem asas, pernilongos, pulgas e percevejos sem peçonha, até mesmo o rinoceronte Quindim vira uma quimera sem chifre, com patas e caudas de outros animais – para não falar nas jabuticabas e abóboras. Ao voltar da Europa, Dona Benta, chocada, manda Emília desfazer as reinações. Mas nem todas. Deixa o leite assobiar para avisar que ferveu, aprova mudanças nos insetos e até que certos livros se tornem comida. “Há muita coisa aproveitável”, diz resignada a Emília. Pois aí a reforma da natureza não acaba. Emília e o Visconde se metem em experimentos glandulares que espalham pelo mundo insetos gigantescos. Para explicar a um cientista estrangeiro como tudo fora possível, ela se sai com a seguinte pérola: “Nosso segredo é o Faz de Conta. Não há o que não se consiga quando o processo aplicado é o Faz de Conta”.

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Eis um princípio que descreve bem os artifícios retóricos de Gilmar e dos demais ministros responsáveis por absolver a chapa Dilma-Temer. Só no mundo do Faz de Conta processual tantos crimes resistem a tamanha abundância de provas. Basta fazer de conta que as empresas offshore dos marqueteiros de Dilma não receberam, em 2014, dinheiro desviado dos contratos de sondas da Petrobras. Ou que nem um centavo do dinheiro sujo destinado aos partidos vitoriosos pelas empreiteiras citadas na petição inicial foi usado na campanha. Ou, então, que nada disso tenha sido confirmado por depoimentos – não só de delatores premiados, não só de executivos da Odebrecht –, por comprovantes de depósito e por extratos bancários. Está tudo lá, provado de modo exaustivo, detalhado e sólido, resistente a qualquer dúvida ou objeção, no voto do relator, ministro Herman Benjamin.

Em sua comparação, Gilmar só esqueceu o essencial. As leis da natureza não podem ser reformadas, já as humanas… Jogue-se sobre elas um pouquinho do pó de pirlimpimpim da retórica e pronto! Jabuticabas brotam feito cogumelos dos troncos da Justiça, começam a desabar sobre a cabeça de todos nós, mais um pouquinho e se tornam abóboras a rachar qualquer resquício de vergonha ou princípio ético. Não que a preocupação de Gilmar com a estabilidade seja descabida. Não se pode mesmo trocar de presidente a toda hora. Mas o que gera mais instabilidade? Condenar um governante por crimes comprovados ou mantê-lo no poder apesar deles, só para evitar mudanças de resultado incerto? Cada um terá sua resposta. Gilmar fica com o conservadorismo da fábula de Pisca-Pisca. Emília, alter ego de Lobato, não se faz de rogada: “O fabulista era um grande medroso; queria fazer uma fábula que desse razão ao seu medo de mudar”. Diante do julgamento do TSE, ainda completaria: “Bissurdo!”.

A gangsterização da política

Um empresário ‘dois em um’ – assumidamente corrompido e corruptor – está revelando em detalhes a gangsterização da política no Brasil. Sua metralhadora giratória, que dispara verdades documentadas e mentiras discursivas, evidencia um esquema criminoso de favorecimentos e propinas em “estados, ministérios, fundos de pensão, bancos e BNDES”. Joesley Batista garante que “o estado brasileiro está dominado por organizações criminosas, muitas das quais participamos e tivemos que financiar”. Mais direto impossível. Joesley JBS assegura que tudo o que diz está comprovado no Ministério Público.

Haveria um desdobramento natural desse tsunami político: os acusados que juram inocência deveriam processar o empresário por calúnia, de imediato, como Temer faz agora. Mas é estranhíssimo que não o tenha feito antes, quando da revelação da sua conversinha com Joesley na calada da noite do Jaburu, há três meses. Aliás, é também inusitado que ele tenha recebido com presteza quem considera um “bandido notório”. O fato do dono da holding J&S ter o “maior sucesso na história brasileira” abre portas palacianas?

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Joesley também deve, diante das ações que sofrerá, pleitear a “exceção da verdade”, pela qual poderá provar as acusações que fez, inclusive solicitando a quebra de sigilo dos que o processam, para confirmar a veracidade de suas afirmações.

Por óbvio, a Câmara dos Deputados, em recebendo o pedido de investigação sobre o presidente da República, fica na obrigação de autorizá-lo. Quem não aprovar essa medida elementar, por omissão (fugindo da votação) ou voto contrário, terá seu nome parlamentar carimbado como leniente com o acobertamento de denúncias gravíssimas que enlameiam a República. Quem alardeia honestidade não devia ficar em apuros. Teria que aceitar e mesmo desejar a apuração de tudo.

O que dá mais concretude à trágica gangsterização da política é a atitude dos partidos que têm parlamentares e dirigentes investigados ou réus. Via de regra, fazem “cara de paisagem”. Todos têm princípios éticos em seus estatutos e comissões para zelar por eles. O PP, com 38 parlamentares na Lava-Jato, a começar pelo seu presidente, senador Ciro Nogueira (PI), não se coçou.

O PT, com 25 e também com sua presidente nessa situação, abriu procedimentos contra André Vargas (PR) e Delcídio do Amaral (MS), que se desfiliaram. Sobre os “desvios”, como reconhecido por diversos sinceros militantes, não fez qualquer autocrítica.

O PMDB, com 22 na Lava-Jato e atingido fortemente pela delação da JBS, assumiu sem pudores o que seu presidente, o também investigado senador Jucá (RR), propôs: “estancar a sangria”, abafar tudo.

E o PSDB, até aqui com 13 mandatários denunciados, em especial seu presidente licenciado, senador Aécio Neves (MG), não toma outra providência senão a de proteger seus atingidos. Talvez venha argumentar que ainda não elaborou seu Código de Ética...

Esse silêncio partidário é revelador de que a corrupção que praticaram não era uma conduta inadequada de A ou B, mas algo derivado do próprio modus operandi da agremiação. Com raras exceções, elas adotaram servidão voluntária ao poder dissolvente do dinheiro.

Chico Alencar

Após reagir a Joesley, Temer precisa de espelho

Há três semanas, Joesley Batista era visto por Michel Temer como um empresário extraordinário, do tipo que pode ser recebido fora da agenda, perto da meia-noite, no palácio residencial da Presidência da República. Agora, acusado pelo dono da JBS de “chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil”, Temer passou a enxergar em Joesley a figura de um “bandido notório”. Decidiu processá-lo por injúria, além de cobrar indenização por danos morais.

Num vídeo divulgado na internet, Temer insinua que Joesley virou delator porque seu governo acabou com os “favores” que azeitavam negócios ilícitos com dinheiro público. Quando ainda era recebido no escurinho do Jaburu, Joesley pedia a Temer autorização para cobrar pendências junto ao ministro da Fazenda. E Temer. “Pode fazer isso”. O empresário pedia um interlocutor que intermediasse seus contatos com o presidente. E Temer indicava Rodrigo Rocha Loures, o homem da mala.


Temer faz muito bem em processar o corrupto confesso que o chama de quadrilheiro. É inaceitável que a Presidência da República seja desrespeitada dessa maneira. Agora, para manter a coerência, Temer precisa agir contra o seu grupo político.

O presidente não pode mais chamar de pessoa de “boa índole” alguém como Rocha Loures, o ex-assessor preso após receber mala com propina de 500 mil. E terá de demitir todos os ministros investigados, que dão ao seu governo a aparência daquilo que a Procuradoria chama de “organização criminosa”. No limite, Temer poderia consultar o espelho. Prestes a ser denunciado por corrupção, talvez o presidente se animasse a proteger a Presidência de si mesmo.

Paisagem brasileira

ARMANDO LEITE (SÉC.XIX-XX). Canoa em Repouso na Lagoa de Marapendi - Barra da Tijuca, óleo s madeira, 27 X 40. Assinado no c.i.e. e no verso (1949)
Canoa em repouso na Lagoa de Marapendi, Barra da Tijuca (RJ), 1949, Armando Leite

Educação tutelada

Ao decidir pelo recolhimento de um livro que continha um conto considerado “inadequado” para crianças de 7 anos de idade, o Ministério da Educação (MEC) se expõe a três grandes críticas: exercício de censura, conhecimento duvidoso sobre a função pedagógica dos contos tradicionais e suspeita a respeito do real valor dos diplomas de professor que o órgão valida.

O MEC alega que não fez censura, apenas descobriu, após a denúncia de alguns pais, que o texto, por tratar de incesto, seria inadequado para crianças de 7 anos. Não se discute aqui o mérito da obra – mesmo porque se trata de ficção popular, não literária. Mas o tema – um dos poucos tabus ainda remanescentes em nosso mundo pós-moderno – em pouco difere das violências nada sutis que caracterizam esse gênero: crianças abandonadas pelos pais, bruxas que transformam arbitrariamente sapos em príncipes e príncipes em sapos, pretendentes à princesa que são decapitados sumariamente se não acertarem as adivinhas do rei. E é muito menos pernicioso do que assistir às incestuosas relações que se desenrolam aos nossos olhos nas antecâmaras do poder envolvendo os setores público e privado e, aparentemente, os próprios Poderes entre si.

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A justificativa para recolher os livros baseou-se em pareceres internos do próprio Ministério da Educação – não houve debate com especialistas. Esse parecer revela desconhecimento da psicologia infantil e da função pedagógica dos contos populares. Crianças em todo o mundo tipicamente se maravilham por esse gênero entre os 3 anos e os 6 anos de idade – pelo menos desde Rudolf Steiner isso está bem estabelecido. Aqui reside a essência da questão, e convém aprofundar. Sejam os adeptos das interpretações psicanalíticas de Bruno Bettelheim, sejam os que acompanham os estudos de pesquisadores como Maria Tatar, condenar essa obra como inadequada em razão da idade das crianças é condenar todos os contos populares. Estes constituem um importante instrumento de amadurecimento emocional e cognitivo das crianças – especialmente entre os 3 anos e os 6 anos de idade, faixa etária em que seus critérios de decisão operam no branco e preto e suas certezas são maiores do que suas dúvidas.

A estrutura começa com o “era uma vez” abrindo espaço para imaginar e fugir do real. Os personagens são simples, consistentes e predizíveis, desempenham papéis sociais conhecidos, são estereotipados e não têm identidade pessoal. O enredo é tipicamente denso e violento e oferece oportunidades únicas para ajudar as crianças a refletir sobre temas universais como o bem e o mal, o certo e o errado, o justo e o injusto. O final, quase sempre feliz, reflete a aspiração de que um dia a justiça será feita.

Já o final infeliz reflete o princípio da realidade e pode causar tristeza ou indignação, mas não chega a causar surpresa à maioria das crianças. A transformação de princesa em bruxa ou em criada, ou do sapo em príncipe e vice-versa, reflete a arbitrariedade da nossa condição. Mas basta uma varinha mágica para reverter a ordem estabelecida. O medo, o terror, a arbitrariedade que antecedem a resolução do conflito ajudam a criança a sentir na pele e refletir sobre sua própria realidade – povoada de gigantes que tolhem a sua liberdade e impedem o exercício de sua curiosidade ilimitada e, na sua perspectiva, agem quase sempre de maneira arbitrária. Como agora o faz o MEC.

Cabe à família e à escola ensinar as crianças a lidar com o mundo como ele é – evitando, quando possível, que a criança sofra danos nesse processo. O maior antídoto contra a violência é enfrentá-la, ainda que com a ajuda da literatura. Mas se o MEC tiver razão, cabe a ele sustentar, com argumentos sólidos e num debate público com professores experientes e estudiosos do ramo, a idade para a qual o livro ora censurado seria recomendável.

Resta examinar a pergunta que não consegue calar: o Ministério da Educação desconfia que os professores não são capazes nem de escolher livros – por isso ele os escolhe – nem de calibrar a sua dosagem e interpretação? A suspeita possivelmente é fundada, mas se for confirmada o rei fica nu. Ou o MEC assume que os professores são competentes e delega a eles decisões pedagógicas importantes, ou, então, reconhece que não o são, que precisam ser tutelados e que os diplomas que ele valida são questionáveis.

Diante de tal situação, existem três saídas, sendo as duas primeiras inviáveis na prática. Uma delas consistiria em reconvocar os professores para recomeçar do zero uma formação adequada, a outra seria substituir os que não estiverem à altura do desafio e a terceira consistiria em assumir as deficiências como parte da realidade e usar estratégias comprovadamente eficazes para lidar com esse tipo de situação.

Voltamos, assim, ao ponto de partida. A censura se deu porque o MEC inventou um programa que não precisaria existir, mas que, ao existir, envolveu a escolha centralizada de leituras e, assim, colocou o Ministério na posição de censor. O problema, portanto, ocorreu porque, no lugar de promover políticas públicas que assegurem a melhoria da educação, o MEC opta por se envolver em ações emergenciais – projetos de curto fôlego e impacto zero. O próprio ministro Mendonça Filho reconheceu isso no início de sua gestão. Portanto, a causa maior do problema reside no próprio Ministério da Educação e na sua forma de entender o seu papel.

Mas ninguém tem coragem de reconhecer esses fatos e dar nome aos bois. Em vez de intervir no varejo e exercitar o poder de tutela, não seria mais interessante para o País que o governo central se concentrasse em estabelecer políticas que garantissem escolas e professores que possam atuar com autonomia em suas decisões pedagógicas?

João Batista Araujo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto

A força enfraquecida no Brasil

Mas, ao mesmo tempo, vemos que os cidadãos se mobilizam quando há algo que eles julgam importantes, mas em ações mais pontuais, não mais em grandes ideologias gerais. Por exemplo, se você é ecologista, você vai se engajar neste campo, ou no campo do feminismo, do casamento gay, e as pessoas vão se engajar nestes temas. Antes era direita e esquerda, capitalismo ou socialismo. Nas grandes ideologias, as pessoas não acreditam muito mais. Elas querem coisas mais pragmáticas.
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Então, isso criou um novo tipo de relação com a política e que, acho, deve nos levar a repensar os meios para melhorar o mundo. Porque se não é mais a política que tem a força de mudar o mundo, então o que seria? E eu acho que uma das grandes forças que deve fazê-lo é a educação. 
Gilles Lipovetsky, autor de "Era do Vazio" e "O Império do Efêmero" 

Meirelles mostra otimismo, mas equipe teme bondades do Planalto

Como convém ao cargo, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, anda propagandeando pelas redes sociais os bons indicadores da economia. Tenta usar números que sugerem a retomada da atividade como contraponto ao péssimo momento político vivido pelo país. Meirelles está imbuído da missão de manter a percepção de que, por meio de uma política econômica responsável, a confiança de consumidores, empresários e investidores se mantém intacta.

O ministro pode até obter algum resultado na sua empreitada. Mas, antes de tentar conquistar corações e mentes da população em geral, deveria conter a onda de insegurança que ronda a sua equipe. Nos bastidores, vários técnicos vêm se perguntando até que ponto o governo está disposto a manter o compromisso com o ajuste fiscal. Nos últimos dias, o presidente Michel Temer deu sinais claros de que está disposto a recorrer a um pacote de bondades para garantir sua sobrevivência.



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Na avaliação dos técnicos, não é recomendável para um governo que conseguiu reconstruir a credibilidade da política econômica com a promessa de um ajuste fiscal consistente ficar indicando que pode abrir os cofres para atender pleitos de aliados políticos. É enorme a limitação do Tesouro Nacional para cumprir todos os seus compromissos sem que o deficit primário previsto para este ano não ultrapasse o teto de R$ 139 bilhões. O risco de o rombo ser maior é bastante alto.

As promessas são muitas. Vão da correção da tabela do Imposto da Renda à repactuação de dívidas de estados num total de R$ 50 bilhões. Os técnicos reconhecem que algumas das bondades preparadas pelo governo são compreensíveis, mas não deveriam ser aventadas agora, quando ainda se está pavimentando o caminho para o equilíbrio das contas públicas. “Estamos muito longe de dizer que o ajuste fiscal está consolidado. Ainda vamos ter rombo fiscal por vários anos”, diz um dos técnicos. “O quadro está tão complicado que, em vez de se recuperar, a arrecadação está caindo”, emenda.

A expectativa da equipe econômica é de que as bondades alardeadas pelo governo fiquem na promessa. “Primeiro, porque, se tiradas do papel, não agregarão nada à economia. Segundo, porque não há espaço no Orçamento para estripulias”, assinala outro integrante da equipe econômica. Para ele, o governo deveria concentrar esforços a fim de aprovar as reformas trabalhista e da Previdência Social com um discurso de austeridade. É isso que manterá a confiança dos agentes econômicos.

Os técnicos destacam ainda que os bons números comemorados pelo governo não garantem uma recuperação concreta da atividade. São apenas sinais positivos. Em abril, o varejo e o setor de serviços cresceram 1%, já a indústria avançou 0,6%. Apesar desses indicadores, a maior parte dos especialistas acredita que o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre será negativo. Não se pode esquecer, segundo eles, que a economia praticamente parou da segunda metade de maio em diante, quando o país tomou conhecimento das delações dos irmãos Joesley e Wesley Batista, do grupo JBS.

Portanto, neste momento, a tal retomada é muito mais desejo do que realidade concreta. O ideal é que o governo mantenha a responsabilidade fiscal, pois essa será a maior garantia aos agentes econômicos de que não há espaço para retrocessos no ajuste fiscal. “Credibilidade é tudo neste momento. Vejam: a inflação está caindo e os juros, também. Mesmo que de forma desigual, a economia está reagindo. Não podemos abrir mão disso”, ressalta um ministro.


Ele acredita que, ao longo dos próximos meses, provavelmente até agosto, a inflação acumulada em 12 meses ficará bem próxima de 2%. “Teremos deflação em junho e, provavelmente, em julho, por causa da queda dos preços dos combustíveis e das tarifas de energia elétrica. Isso obrigará o Banco Central a manter o corte de juros em um ponto percentual”, acredita.

Responsabilidade, porém, é tudo. Foram as maluquices de Dilma Rousseff quando presidente da República, na condução da política econômica, que empurraram o Brasil para a mais profunda recessão da história e desempregaram 14 milhões de pessoas. Esse filme, no entanto, ninguém quer mais ver. A hora é de virar o jogo. E isso requer muito juízo.

Quem deve a Lula

Nélson Rodrigues, o Sófocles do subúrbio carioca, enchia a boca para dizer que “toda unanimidade é burra”. Poucas unanimidades sobreviveram à guerra das torcidas organizadas da rapina pública desde que Nélson saiu de fininho da vida para virar gênio da dramaturgia na paz do Senhor. Mas ainda há verdades tão óbvias que seduzem as multidões a ponto de arrancarem um gemidinho de gol perdido das galeras ensandecidas nas arquibancadas. Agora, por exemplo, o presidente Michel Temer, embarcado para a Noruega e a Rússia para fingir que governa, é uma quase unanimidade nacional. Poucos, muito poucos brasileiros, ainda apostam um centavo nele. E o fazem no melhor da boa-fé. Acreditam que ruim com ele, muito pior sem ele. Nunca ninguém vai tirar a prova dos nove nessa questão de última aposta contra a crise, porque a diaba continuará de qualquer jeito e quem não puder muito não se salvará nela.

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Alguns velhos cínicos, como o autor destas notas, acha que a grande maioria deve até ter uma antipatia congênita, pois o macróbio de Tietê não desperta apreço nem simpatia de ninguém com seu estilo mesoclítico e sua mentalidade neolítica. Meu amigo Mauro Guimarães, caipira de Bebedouro, costumava dizer que nunca é de bom alvitre desprezar a pré-racionalidade do povo. Acredito nessa máxima e faço fé de que mais do que a antipatia congênita, a voz estridente e os apostos em sequência enervante em nada influem no desgosto popular quanto ao primeiro mandatário. O povo apenas não se esquece, como este autor e mais alguns, de que Sua Excelência é apenas um acólito do esquema que, ao juntar PT, PMDB, outros partidecos e a oposição graúda do PSDB, paga com propina para não ir até o fundo das coisas, sob a égide de Luiz Inácio Lula da Silva, não deixando moeda sobre moeda nos cofres de Viúva.

Outra quase unanimidade, apadrinhado por Lula e recebido em segredo por Temer no Palácio do Jaburu, que o povo mantém para ele morar com a mulher e o filhinho temporão, é o bamba do abate de bois Joesley Batista. Poucos, muito poucos brasileiros, apenas o suficiente para não entrar na definição de burrice do autor de O Boca de Ouro, comprariam uma bicicleta usada do moço de Anápolis, embora consumam muitos produtos que suas empresas fabricam e vendem em supermercados – da coalhada da Vigor à costela da Friboi. É essa equação que Mauro chamava de “pré-racionalidade”. Não convém desconhecê-la abusivamente.

Atualmente essas duas referências nacionais da quase unanimidade contra disputam no ringue do MMA da política o cinturão do desagrado amplo, geral e irrestrito. Tudo indica que, por mais que lutem, ambos nunca escaparão do empate, assim como um lance de dados jamais abolirá o acaso, de acordo com o preceito mallarmaico. Todo brasileiro com mais de cinco anos, se não sabia, desconfiava de que o Batistinha é bandido de marca. Mas nunca foi um bandido NOSSO, que merecesse o perdão marxista do historiador britânico Eric Hobsbawn, como o célebre Robin Wood e o menos conhecido Ned Kelly. Joesley está mais para aqueles bandoleiros medíocres catalogados por Jorge Luís Borges em seu clássico dos clássicos da realidade tornada ficção História Universal da Infâmia.

Joesley é um bandidinho DELES – Lula, Dilma, Temer e Aecinho. Está sempre disposto a dar uma esmola pedida de bilhões, desde que ganhe mais bilhões em negócios da China patrocinados pelo desatento contribuinte traído. Michel Temer, seu recente desafeto, sabia disso. Tanto sabia que achou um bom redator para resumir a história de sucesso do bamba do abate que virou o papa da propina numa nota oficial que seus assessores prepararam para desmascarar o Billy the Kid do pequi.

Faço questão de reproduzir o texto, porque é exemplar em bile e síntese. “Em 2005, o Grupo JBS obteve seu primeiro financiamento no BNDES. Dois anos depois, alcançou um faturamento de R$ 4 bilhões. Em 2016, o faturamento das empresas da família Batista chegou a R$ 183 bilhões. Relação construída com governos do passado, muito antes que o presidente Michel Temer chegasse ao Palácio do Planalto. Toda essa história de ‘sucesso’ é preservada nos depoimentos e nas entrevistas do senhor Joesley Batista.” No primeiro parágrafo descreveu-se o malfeito, como diria a Doidinha Dilma, de quem Temer foi desprezado vice. No segundo, foram lembrados os artífices, quais sejam, “os reais parceiros de sua trajetória de pilhagens, os verdadeiros contatos de seu submundo, as conversas realmente comprometedoras com os sicários que o acompanhavam, os grandes tentáculos da organização criminosa que ele ajudou a forjar ficam em segundo plano, estrategicamente protegidos”.

É desnecessário perguntar que falha de memória impediu que o chefe do governo abrisse os porões do palácio para recebê-lo, ouvi-lo e até, de certa forma sutil, como é seu hábito, estimulá-lo. Mas importante é deixar registrado que ambos conheciam bem um ao outro e suas origens para dividirem aquela conversa “nada republicana”. Como Joesley repetiu, imitando com seu idioleto próximo do português o que falava Márcio Thomaz Bastos, professor de Lula em republicanismo.

O que nos interessa saber aqui é algo mais relevante e mais urgente: por que os agentes federais, os procuradores públicos de Brasília e o seriíssimo ministro Fachin não tiveram a curiosidade de perguntar como foi possível obrar aquele milagre citado no primeiro parágrafo da nota de Temer? O editor-chefe da revista Época, Diego Escosteguy, que chefia uma briosa equipe de repórteres investigadores e entrevistou o corsário dos abatedouros, foi um pouquinho, bem pouquinho, além. Até perguntou. Mas se contentou com vagas respostas. Sim, quem deu o dinheiro foi o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Não diga! Mas não, o doutor Luciano Coutinho nunca levou um mísero tostãozinho de recompensa, vulgo propina, por isso. E Lula, chefão do professor? Com esse aí Joesley teve duas conversinhas, mas elas foram bem republicanas. Terá sido sobre futebol, sexo ou cachaça? Não é mesmo fabuloso?

Então, é o caso de esclarecer algumas coisinhas. Primeiro, a Polícia Federal não é um monólito de republicanismo, como a definia o citado ex-ministro da Justiça do padim Lula. Não: a PF é uma areia radiativa que contamina adversários dos senhores de suas diversas facções: os petistas de Paulo Lacerda, os tucanos de Marcelo Itagiba, as viúvas de Tuma e por aí afora. Isso não é necessariamente mau. É até bom, pode crer, caro leitor. É dessa fragmentação que emerge o conhecimento que temos dos podres poderes nacionais, levantados por operações como a Castelo da Areia, dissolvida por Bastos no Superior Tribunal de Justiça (STJ), e a Lava Jato, que continua, impávido colosso, a assombrar políticos de todos os partidos que só não a enxugaram ainda por causa da idolatria que o povo lhe devota.

Quanto aos procuradores-gerais da República, é útil lembrar que Roberto Gurgel poupou o chefão do Partido dos Trabalhadores (PT), que o ungiu no alto cargo, nos libelos acusatórios do celebérrimo mensalão. E Rodrigo Janot teve cobrada sua ingratidão em telefonema desse mesmo Lula a Jaques Wagner. Terá chegado agora a hora da gratidão, quando seus subordinados não levaram em conta o dinheiro público que enriqueceu os irmãos Batista, tornando-os os maiores produtores de proteína animal do mundo? Pode ser que sim, pode ser que não. Novos fatos o dirão…

O prêmio máximo obtido pelos bilionários da JBS recebeu ainda o beneplácito homologatório do relator da Lava Jato no STF, ministro Luiz Edson Fachin. Este empreendeu longa e árdua batalha para ser aprovado pelo Senado para o lugar que Dilma lhe reservou no Supremo. Teve a seu lado o braço amigo de Ricardo Saud, um dos delatores premiados dos bambas do abate. E acólitos caros e solícitos pagos pelo Erário e emprestados por obra e graça de madama, cuja campanha apoiou às claras.

Pode ser que seja tudo mera coincidência. Mas quanta coincidência há em logo Lula ser credor de todos eles de uma forma ou de outra, não é?

Imagem do Dia

O Dar al-Hajar (Palácio Rocha) em Wadi Dawan, Yemen. O palácio está empoleirado no topo de um pináculo da rocha no Vale Wadi Dawan, ao norte da capital Sanaa, no  Iêmen. O histórico palácio de cinco andares foi construído por um governante do Iêmen,  Imam Mansour Ali Bin Mehdi Abbas em 1786 AD.  Na década de 1930, o monarca iemenita Imam Yahya Hameed Al-Din acrescentou o andar superior e anexos e usou-o como sua residência de verão.  Fotografia: Yahya Arhab / EPA.
Dar al-Hajar (Palácio da Rocha) em Wadi Dawan (Iêmen)

À espera do fato novo

O ex-deputado Ulysses Guimarães, presidente nos anos 80 do século passado do PMDB, da Câmara e da Assembleia Nacional Constituinte, costumava chamar de “Vossa Excelência” o fato político relevante. "Com a palavra, Vossa Excelência, o Fato", dizia Ulysses. E ensinava:

- O fato é tão ou mais importante do que qualquer autoridade que mereça ser chamada de Vossa Excelência. Um fato só pode ser revogado por um fato novo. Que, por sua vez, só pode ser revogado por um fato consumado.

No momento, “Sua Excelência, O Fato” é o estado de fraqueza de Michel Temer atingido há mais de um mês pela delação do empresário Joesley Batista, dono do Grupo JBS, e a gravação da conversa travada entre os dois no porão do Palácio do Jaburu, em Brasília.


Temer sangra desde então, e só se mantém no cargo porque a crise econômica descolou-se da crise política, e nenhum partido se considera apto para enfrentar a eleição repentina de um novo presidente. Todos os partidos, inclusiva o PT, preferem eleição em 2017, como manda a lei.

Isso não significa, todavia, que Temer completará o mandato herdado de Dilma ou subtraído dela. Um fato novo não só pode revogar o fato anterior, como também agravá-lo. E é à espera de um novo fato que a República tem respirado nas últimas semanas, e respirará as próximas.

Só quem tem conhecimento prévio das cartas a serem postas na mesa são a Polícia Federal e o Ministério Público. Quem mais participa do jogo fica no escuro até o surgimento das primeiras pistas sobre as cartas que receberá. Aí mal dá tempo para refletir sobre o que fazer em seguida.

Derrubar Dilma foi tarefa mais fácil do que derrubar Temer. Primeiro porque ela afundou o país na maior recessão econômica de sua história. Segundo porque perdeu o apoio do Congresso. Terceiro porque a crise econômica e a política caminhavam juntas.

Por menos que tenha melhorado, a situação econômica melhorou. Entre os aspirantes à sucessão de Temer, nenhum dá sinais de que pretenda dar uma guinada de 180 graus na condução da atual política econômica. Se Temer cair amanhã, o ministro Henrique Meirelles, da Fazenda, não cairá.

O chamado “mercado” já se convenceu disso. Portanto, para ele, que muito importa nas decisões dos políticos, não fará diferença se Temer ficar ou se sair. Ninguém alimenta mais esperança de que as reformas avancem como se desejava. Poderão ficar para depois.

A sorte de Temer, pois, só depende dele. Somente ele sabe o que fez ou o que deixou de fazer, o que está para ser descoberto e o que jamais será. Os dias por vir serão assim.

Quem é o chefão?

               I
Lula se encontrou com Temer
No mato ali por detrás:
Foram acertar as contas
(Quem sabe a hora é que faz),
Pra saber quem é o chefe
E qual dos dois roubou mais.

              II
Estavam os dois chateados
Com Joesley e com Janot:
São muitas contradições
Na voz de quem declarou
E agora ninguém sabe
Quem foi o que mais roubou.

             III
Joesley disse que Temer
Comanda a operação,
A tropa de Curitiba
Teve logo uma reação
E diz que o dedo de Lula
Comandou o Petrolão.


              IV
-Lula sempre foi o chefe -,
Disse o Doutor Lavajato.
Foi chefe do mensalão,
Comprando voto e mandato,
E incriminou Zé Dirceu
Pra ele pagar o pato.


              V
- Aquele sítio e o tríplex
São só uma tapeação.
Passaram o rodo na terra,
Que secaram a plantação;
Pobre, quando vê comida,
Se acaba no rubacão!


              VI
O filósofo João Caiti
Disse na Rua do Cancão
Que o esquema funcionou
Numa grande organização:
Com o chefe principal,
Cada um tinha uma função.


              VII
Lula mandava no topo,
José Dirceu na canhota,
Temer ia pela direita
E o resto da patota
Fazia a distribuição
Daquele monte de nota.


             VIII

Pelo lado dos tucanos
De São Paulo até Campina
José Serra, Aécio Neves,
A turma da Dudalina
Passaram a ser conhecidos
Como os chatos da propina.


            IX
Depois que José Dirceu
Se lascou no mensalão,
Palocci tornou-se o príncipe
E juntou mais de um trilhão,
Chegou a pensar em ser
O Poderoso Chefão.


              X
Mantega, com cara de morto,
Discursava pro povão,
Dizendo que o PT
Ia salvar a Nação,
Enquanto a turma dos bancos
Na grana passava a mão.


           XI
Lula e Temer lá no mato
Começaram a cochichar;
Chico de Tozinho enchia
De aveloz um caçuá
Quando ouviu esta proposta
Que os dois estavam a gestar:
- Vamos dizer que foi Dilma,
Que ela é doida e vai gostar!

O Brasil precisa de mais do que a Lava Jato

Felizmente chegou à pauta do dia a preocupação de que no Brasil a vida está reduzida às denúncias, às investigações e às delações premiadas, com seus respectivos abusos, idas e voltas. Denuncia-se tudo e todos. Denuncia-se com ou sem critério, em nome de interesses nacionais ou outros os mais diversos, muitas vezes irresponsavelmente, sem se levar em conta a reputação, a história e os compromissos de denunciados. Denunciam-se também bandalhos históricos, políticos vagabundos e enganadores, empresários forjados e que cresceram na corrupção, membros (ainda) do Executivo e do Judiciário que merecem o cerco em que estão vivendo.


Nessa tarefa têm colaborado segmentos da imprensa, da sociedade e das mídias sociais, que dão volume a um esquema de propagação de suspeitas às vezes criadas, mas também de fatos reais, que têm operado a revelação e a demolição de prósperas quadrilhas justamente alcançadas. As investigações empreendidas pela Polícia Federal, base dos processos dos quais se serve o Ministério Público para suas denúncias, ganharam o apoio de tecnologias que lhe permitem rebuscar a vida dos investigados desde seu batismo; não fosse a exposição midiática do processamento dessas investigações, estas seriam perfeitas. Show à parte, a PF é a ponta célere do conjunto da ópera, abreviando os resultados que se pretendem.

Em recente palestra feita pelo polêmico ministro Gilmar Mendes em Recife, no Grupo de Líderes Empresariais, esse realçou sua preocupação, como membro do STF, com a postura de membros do Ministério Público e da magistratura, levantando duras críticas à falta de objetividade na identificação do que deveria ser investigado.

Longe a pretensão de se nivelar com a mesma régua, a do ministro Gilmar Mendes, especialmente, tudo que se produziu nos últimos anos em termos da histórica responsabilização criminal de elevado número de gestores públicos, diretores de empresas estatais, políticos com mandatos no Legislativo e no Executivo – a Lava Jato é uma de nossas mais significativas conquistas históricas –, o país precisa encontrar uma saída para voltar ao desenvolvimento, à produção, ao emprego.

Estamos falidos, gravitando unicamente em torno dessa operação, que se deve avançar sem limites em seus resultados, não pode se transformar em nossa única esperança. Somos mais. O Brasil não pode esperar o fim da Lava Jato para empreender sua tão necessária agenda de reformas.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Memória e vergonha

Já lá se vai meio ano. 6 meses a se somarem aos últimos 4 jogados fora. Padecemos da maldição de Sísifo. Continuamos condenados a reviver a mesma história, as vezes com personagens novos, sem, entretanto, nada completar, nada conseguir, nada mudar.

Depois de tanto tempo, de tanta repetição, é perfeitamente compreensível que estejamos cansados. Que nossos ouvidos já estejam calejados. Que os olhos já se acostumaram. Que tenhamos aceitado destino aparentemente inevitável da agonia sem fim.

O distinto público não consegue mais apontar a diferença entre os membros da cleptocracia que assola a sociedade, o governo, as instituições. Parece tudo igual. E talvez seja mesmo.

Optamos pela mediocridade. Ninguém mais acredita dá para consertar. Agora ou no futuro previsível. Preferimos a estabilidade reservada aqueles que não sonham. Se despiorar, tudo bem. Não sonhamos. Não desejamos muito. Acreditamos em nada.


Os sonhos morreram sem foguete, reparo ou bilhete, luar ou violão. Apenas morreram. O sofrimento ficou sem sentido. Não mais construímos pontes. Acreditamos ser trabalhoso e inútil. Preferimos pinguelas, mesmo que claramente podres. Precariedade faz tempo não ser motivo de incomodo.

E quando assistimos o previsível e esperado colapso da pinguela, ficamos atônitos. Sem razão. Surpresa, seria que uma pinguela fosse conexão satisfatória entre o presente e um futuro mais digno.

Esquecemos nada. Aprendemos nada. E de alguma maneira esperamos que as coisas melhores pelas mãos dos mesmos líderes que comandaram o ataque aos cofres, a dignidade de todos e a cidadania. Lembramos de tudo claramente. E aprendemos nada.

Memoria não nos falta. Vergonha, por outro lado, está em falta. E desaparecendo rapidamente.

Elton Simões