sábado, 22 de abril de 2017

Sozinho e abandonado

Chega a dar pena o abandono em que se encontra o ex-presidente Lula. No caso, abandonado por antigos amigos e líderes políticos de diversos matizes. Quanto a seus eleitores e admiradores, será melhor aguardar as manifestações programadas para a greve geral, dia 28, e demais protestos contra as iniciativas do governo Michel Temer e o próprio presidente.

O que salta aos olhos é o comportamento da mídia, das elites e dos partidos até pouco formando ao lado do primeiro companheiro. Teriam um apartamento de luxo no Guarujá e um sítio em Atibaia bastado para transformar um ex-operário em réu sem sentença e sem perdão?

É certo que os salários de torneiro-mecânico e depois, de presidente da República por oito anos, além de uma aposentadoria, não bastariam para justificar um patrimônio do valor apresentado pelo Lula. Só que não constituem motivo para a transformação do Lula em réprobo ou inimigo público número um. Por trás dessa carga de cavalaria desenvolvida contra ele não estão erros e exageros praticados no passado. Abre-se o medo do futuro. Há meses que ele lidera as pesquisas presidenciais para 2018. Diante da possibilidade de voltar ao palácio do Planalto, levantam-se as elites temerosas de que, eleito, ele desmanchará diretrizes e realizações de Michel Temer favoráveis à manutenção das massas assalariadas no patamar da pobreza e da indigência. É o medo dos poderosos de perder os privilégios que agora vem sendo restabelecidos pelas reformas neoliberais daqueles que tomaram o poder.

Por isso desencadeia-se a campanha que é menos contra o ex-presidente e mais em favor do que representaria sua volta ao poder, ou seja, o fim das mudanças previdenciárias, trabalhistas e fiscais favoráveis às elites.

Ignora-se em que vão dar os choques e as tertúlias entre as duas forças secularmente empenhadas na luta pelo poder. O Lula é apenas um símbolo. Se quiserem, um detalhe: a retomada de medidas que poderiam melhorar a vida dos menos favorecidos. A interrupção da escalada que manterá os benefícios das elites. Assim, tornou-se um perigo para os mesmos de sempre. Mesmo que para afastá-lo o argumento se concentre num apartamento de luxo e num sítio paradisíaco em meio à Serra do Mar…

Paisagem brasileira

Parque Estadual José Lutzenberger - Torres, RS ©Germano Schüür:
Parque Estadual José Lutzenberger, em Torres (RS) - Germano Schüür

Mãe em cena: e a hora do vamos ver de Moro e Lula

“No meio do caminho desta vida / me vi perdido numa selva escura, / solitário, sem sol e sem saída./ Ah, como armar no ar uma figura / dessa selva selvagem, dura, forte, que, só de eu a pensar, me desfigura?/ É quase tão amargo como a morte; / mas para expor o bem que eu encontrei, / outros dados darei da minha sorte”
(Trecho de “Inferno”, Canto I, extraído de “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri)

Abril de 2017 corre infernal e desabalado no mundo, mas principalmente neste lado de baixo da linha imaginária do equador que nos toca viver: o incrível outono brasileiro deste tempo temerário trafega do jeito que o diabo gosta, mas com Deus de olhos bem abertos. Parece que estamos na encruzilhada entre as melhores apostas de redenção de um País (para muitos) e das maiores desesperanças (para outros tantos).

Os dias são assim: nem a senhora mãe de 93 anos de idade do figurão, do poder baiano e nacional, fica de fora. Foi arrastada também, esta semana, pela hecatombe política, governamental e moral causada pela saraivada de depoimentos, em delações premiadas, dos dois donos e dos principais executivos do império empresarial Odebrecht, no processo histórico da Lava Jato. Liberados semana passada pelo STF, devidamente acompanhados de áudios e imagens que seguem causando abalos e devastando biografias e reputações por toda parte.

Crua, popular e implacavelmente. Sem poupar ninguém com real ou aparente culpa no cartório. É bem o caso – para citar apenas um, mas emblemático, grave e assustador exemplo – da revelação feita por Hilberto Mascarenhas (deslavado executivo encarregado de tocar o departamento principal de distribuição de propinas do grupo comandado pelo patriarca Emílio Odebrecht (e seu filho Marcelo, preso há quase do  is anos em uma cadeia de Curitiba).


A partir de Salvador, a cidade de todos os santos e de quase todos os pecados (no dizer de um dos seus maiores cronistas do cotidiano, já falecido), Mascarenhas chefiava o clandestino setor que funcionou, a pleno vapor, durante anos seguidos. Principalmente, e com mais intensidade e amplitude corruptora, em períodos eleitorais ou de apresentações ou votações no Congresso, e assembleias estaduais, de projetos e medidas não de relevância pública, e sim de interesse financeiro direto da empreiteira fundada pelo velho Norberto.

Ao longo de três gerações, a maior empresa nacional da construção civil criou muitos braços. Afiou suas garras. Virou também a máquina "bem azeitada" (expressão mais ao gosto de seus donos na Bahia) de controle e dominação política e governamental, que a sociedade brasileira e o mundo cada dia descobrem um pouco mais, desde o começo da Lava Jato, quando a Polícia Federal, os procuradores da República e o juiz Sergio Moro começaram a escarafunchar a roubalheira sem tamanho alastrada na Petrobras, maior orgulho nacional até então. Práticas que vêm de longe, já se sabe, mas que encontraram em 13 anos dos governos petistas de Lula e Dilma o terreno mais pantanoso e adequado para crescer, prosperar, dominar um país e se expandir continente e mundo afora, avassaladoramente.É o que se vê, pelos rela tos de entrega da dinheirama da corrupção em quartos de hotéis, em desvãos de aeroportos, em baias de hipódromos... E as revelações mais escabrosas não param de surgir, a cada dia e a cada noticiário.

Os delatores não poupam nada nem ninguém, aparentemente. O homem do setor de pagamentos de vendidos políticos, governantes e altos burocratas do governo, Hilberto Mascarenhas, por exemplo, contou que a pessoa que recebia a propina indicava o local de entrega. O caixa-mor do propinoduto revelou então, que teve entrega de propina até em casa de mãe. Confirmou que foram pagos R$ 500 mil para o então governador da Bahia, Jaques Wagner, na casa da mãe dele, no Rio de Janeiro.

"Ele (Wagner) teve algum problema lá com a mãe dele e não queria mais que fosse usada a casa da mãe dele para fazer esse pagamento. Ele pediu e nós fizemos um esforço grande e conseguimos pagar em Salvador", contou cruamente Mascarenhas. Wagner repudiou as afirmações do homem da Odebrecht. Disse em nota ao JN, que o delator é um criminoso confesso que tenta reduzir a sua pena, "nem que para isso tenha de envolver uma senhora de 93 anos". Em Feira da Santana, na condição de secretário do governo petista de Rui Costa, reforçou a negativa ao participar de comício político mal disfarçado de ato administrativo, já de olho na reeleição do afilhado que colocou no Palácio de Ondina. A conferir.

E, como se não bastasse, ainda tivemos na quinta-feira, os depoimentos de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, e de Antônio Palocci, ex-ministro da Fazenda, ambos com potência explosiva suficiente para deixar o ex-presidente Lula e Brasília insones e em estado de pavor. Tudo isso enquanto Curitiba vive dias de expectativas. No dia 3 de maio, o ex-presidente Lula, acusado de praticar crimes de corrupção passiva e de lavagem de dinheiro, prestará depoimento na Justiça Federal, diante do juiz Sérgio Moro.

Na capital paranaense os comentários sobre o "duelo" corre em todas a bocas, a começar pela "Boca Maldita", ponto referencial de manifestações políticas da cidade. Estive por lá no começo deste ano. No mês que vem não poderei ir. Mas espero se repita agora, algo semelhante ao pensamento expressado pelo motorista de taxi, um simpático tipo nipônico, quando conduzia o jornalista ao hotel, em janeiro. Comentei sobre a chuva que caía então em Curitiba. E o japa, tranquilo, sorrindo, falou: "é bom chover, que haja muita chuva, assim não faltará água para a Lava Jato continuar seu trabalho de limpeza de toda a sujeira em nosso país". Então, que venha maio e a chuva.

Quatro alegações falsas de céticos do clima

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A mudança climática não é apenas uma questão de acreditar ou não: sobre o tema, há pesquisas e fatos. Portanto, é hora de examinar as afirmações dos céticos - e mostrar por que elas estão erradas.
1 – Se o aquecimento global é real, por que estamos vivendo invernos com recorde de frio? Por que 1998 foi muito mais quente do que a maioria dos anos seguintes. Por que a superfície congelada no Hemisfério Sul está aumentando? O planeta não deveria estar ficando mais quente?
Sim, os fenômenos são reais. É errado, porém, considerá-los uma prova contra o aquecimento global. Isso porque as temperaturas globais não aumentam de forma linear e uniforme: alguns invernos no hemisfério norte, como no ano 2009/2010, foram particularmente frios, e outros mais quentes. Muitos fatores influenciam o clima: extraterrestres e terrestres, naturais ou antropogênicos (causados pelas atividades humanas), que interagem uns com os outros.

Por exemplo, há o El Niño, um fenômeno climático que, nos últimos anos, causou frequentemente altas temperaturas. Além de causar inundações em certas partes do mundo e secas em outras, o El Niño acarreta também temperaturas recordes temporárias – como no ano de 1998.

A extensão da cobertura de gelo na Antártida aumenta, enquanto no Ártico acontece exatamente o oposto. A principal razão é que a Antártida é afetada de forma diferente, em comparação com o Ártico, por ventos e correntes marítimas que protegem a região contra muitas influências climáticas. Portanto, o caso especial da Antártida não coloca em xeque o aquecimento global.

Apesar de todas as variações, observa-se, desde o início das medições sistemáticas, em 1880, um aumento das temperaturas médias da atmosfera terrestre e do mar. O ano de 2016 foi o mais quente desde 1880, sendo que o segundo e o terceiro mais quentes foram 2015 e 2014. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a temperatura global média aumentou em 0,85 graus Celsius de 1880 a 2012. Cada uma das últimas três décadas foi mais quente do que todas as anteriores desde 1850.
2 – A mudança climática é um processo natural e não causado pelo homem. As emissões de CO2 pelos humanos são pequenas demais para influenciar o clima.
Sim, é verdade. O clima está mudando desde que a Terra existe. No decurso de milhões de anos, os períodos frios e quentes sempre se alternam – um processo natural. A natureza tem também sua parcela nas mudanças climáticas desde a industrialização, ou seja, no aumento da temperatura global, aquecimento dos oceanos e aumento dos gases de efeito estufa na atmosfera.

Mas a mudança climática dos últimos 50 a 150 anos ocorre muito mais rápido do que quaisquer outras fases de aquecimentos conhecidas na história recente do nosso planeta.

Em seu último relatório de 2013, o IPCC considera como "muito provável" que a influência humana é a principal causa do aquecimento desde a metade do século 20. O aumento da liberação de gases de efeito estufa como o dióxido de carbono e metano pelo homem levou a uma concentração de gases na atmosfera que não ocorria desde 800 mil anos atrás. Segundo o IPCC, desde 1750, a concentração de CO2 aumentou 40% e, de metano, 150%.

É verdade que o CO2 também é liberado por vulcões e está contido no mar, no ar, em plantas e em regiões permafrost. Mas a natureza absorve o CO2 que ela também libera, gerando, assim, um equilíbrio. No entanto, as emissões adicionais dos seres humanos não podem ser totalmente absorvidas: elas são "em excesso" e acabam na atmosfera terrestre. Este processo se torna ainda mais significativo, por exemplo, devido ao desmatamento de florestas e o degelo das regiões permafrost.

Cerca de 97% de todos os pesquisadores sobre o clima estão certos de que as atividades humanas influenciam a mudança climática. Portanto, pode-se falar de um consenso científico. De acordo com estudos, os 3% dos cientistas que negam o aquecimento global antropogênico – quer dizer, causados pelo homem – são, muitas vezes, menos especializados na área. Eles vêm geralmente de observatórios conservadores como o Instituto Cato, que é financiado, entre outros, pela Volkswagen e empresas de energia.
3 – Se não conseguimos prever com exatidão como será o tempo amanhã, como podemos antever o clima daqui a 100 anos?
Quem não conhece essa situação: a previsão era de um fim de semana com muito sol, mas, no final das contas, ele foi chuvoso.

Em princípio, as previsões meteorológicas são diferentes dos modelos climáticos. O tempo é referente a um período mais curto, caótico e influenciado por muitos fatores. Por outro lado, o clima é referente a um prazo mais longo, e eventos caóticos são estatisticamente equilibrados. Portanto, reconhecer uma tendência climática ao longo de várias décadas – no caso de um aumento de temperatura causada por gases de efeito estufa – é mais fácil do que prever o tempo com precisão de horas.

Segundo o IPCC, a confiabilidade das previsões climáticas nos últimos anos melhorou significativamente. Muitos modelos climáticos foram desenvolvidos e são capazes de fazer uma simulação mais completa.

4 – Ok, então a temperatura está aumentando em todo o mundo em apenas alguns graus Celsius. Isso é realmente tão ruim? Afinal, a Terra já lidou com muitas mudanças.
Dois ou três graus a mais não parece muito. Algumas pessoas acham até melhor ter mais verão e menos inverno. Mas esses graus Celsius de diferença podem ter consequências extremas para o clima global.

De acordo com o IPCC, sem uma proteção ambiciosa do clima, a temperatura média global poderia subir 5,4 graus até o final do século 21 em comparação ao período pré-industrial. Isso significaria mais eventos climáticos extremos, como secas e precipitações intensas.

Assim, as geleiras continuariam a derreter, o nível do mar subiria e muitas regiões habitadas pelos humanos seriam inundadas. Os oceanos se tornariam mais quentes e ácidos, e a flora e fauna sofreriam.

A Terra é um sistema flexível. No passado, ela e seus habitantes já tiveram que se adaptar a notórias mudanças. Mas a capacidade de mudar também tem seus limites: a mudança climática antropogênica é muito mais rápida do que a capacidade de adaptação da natureza a essas alterações causadas pelos homens.

Os cidadãos brasileiros diante da crise política

A divulgação do pagamento de propinas expôs os responsáveis pelo desmantelamento do país, diante do desvio dos recursos da saúde, da educação, do saneamento e da infraestrutura. Os brasileiros ficaram, então, revoltados, pregando severa punição aos criminosos e questionando o processo administrativo, porque as autoridades roubam descaradamente, enquanto milhões de contribuintes não dispõem de recursos mínimos para sobreviver.

Atravessamos, portanto, um período crítico, pois os corruptos ainda podem levar a melhor, em sua matreirice parlamentar, mantendo suas estratégias para sugar o patrimônio público e dominar a população ignorante e dependente de benesses oficiais. Ou teremos avanço considerável se os cidadãos honestos assumirem o protagonismo, exigindo revisão geral da gestão pública, com novo código de conduta para que as autoridades fiquem comprometidas com a transparência, a austeridade e os projetos indispensáveis ao bem-estar coletivo.


Uma reviravolta dessa magnitude cobra intensa participação em todos os ambientes, preparando-nos para as eleições de 2018, quando selecionaremos novos governantes pelo voto soberano, consciente e livre, prestigiando lideranças confiáveis e eliminando oportunistas, desonestos e demagogos, que pretendem apenas perenizar seu poder, transferindo-o depois a seus descendentes.

Não cabe fazer agora campanha contra o sufrágio obrigatório, porque isso pode ensejar a permanência de alguns vícios, enquanto radicais discursam sobre a falácia da democracia e a necessidade de retorno do regime militar. Quando houve a redemocratização do Brasil, em 1985, imaginamos que as eleições diretas proporcionariam liberdade e desenvolvimento, mas os escândalos tornaram-se rotina nas administrações subsequentes. Os últimos acontecimentos estão apenas trazendo mais lama para a história política, expondo a inesgotável capacidade das autoridades para ludibriar um país que poderia viver dias melhores. A aversão ao voto obrigatório tem crescido, pois os candidatos de sempre não se acanham de recorrer a meios ilícitos para atingir objetivos que estão sempre na contramão dos interesses nacionais. Alguns cidadãos mais críticos dizem que os brasileiros vão reconhecer sua conivência com meios sórdidos para obter sucesso, o que seria uma demonstração de nossa decadência moral.

Precisamos resistir a proposições sobre anulação do voto para demonstrar repulsa à criminalidade na administração pública, porque isso não é solução para alterar o quadro político. Estaríamos abrindo mão de um direito essencial à cidadania sem oferecer alternativas para um grave problema, pois o candidato de alguns será o governante de todos. Ou seja, a ética passiva não contribui para a transformação dos esquemas viciados, pois lideranças nocivas crescem justamente no vácuo deixado por aqueles que não se posicionam efetivamente no pleito, delegando a outros a escolha de quem assumirá o poder.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Fim do mundo, novo mundo

A delação dos dirigentes da Odebrecht não trouxe tantas novidades para quem leu os vazamentos. No entanto, a forma como se apresentou – vídeos dos delatores, riqueza de detalhes e algumas surpresas – trouxe grande impacto mesmo para os que conheciam os dados principais da trama.

Para começar, alguns obstáculos técnicos: as denúncias não foram hierarquizadas e divididas em blocos. E o áudio das delações era bastante sofrível. Aliás, a qualidade do áudio é uma crítica que faço não apenas à Lava Jato. Parece que vivemos numa era pré-estereofônica, na contramão de uma tecnologia cada vez mais acessível.

Percebo à distância que grandes peixes passaram quase em branco, como o negócio dos submarinos com a França. Aliás, dos 200 depoimentos ainda em sigilo, quase todos tratam de aventuras internacionais e da participação do BNDES, algo que me interessa na proporção em que se esforçam para escondê-los. Nesse oceano de informações, algumas dolorosas, porque trazem também decepção sobre certas pessoas, escolhi uma frase de Emílio Odebrecht para comentar, aquela em que ele diz que a corrupção existe há 30 anos e ele não entende a surpresa da imprensa, que não a teria denunciado.

Reconheço que mostrar-se surpreso e ser ao mesmo tempo um observador da vida política nacional é contraditório. Só posso entender esse movimento de alguns comentaristas pelo desejo de empatia com seus leitores ou espectadores, estes, sim, sem o mesmo nível de informação, estupefatos com os bastidores das relações entre políticos e empreiteiros.


Não é verdade que o sistema de corrupção, ao longo dos anos de redemocratização, não tenha sido denunciado. A própria Odebrecht confirma isso ao confessar que sofisticou o processo depois da CPI dos Anões do Orçamento. O jornalista Jânio de Freitas foi um pioneiro ao desmascarar licitações fraudadas na Ferrovia Norte-Sul. Grandes operações da Polícia Federal, como a Castelo de Areia, morreram na praia porque a Justiça anulou as provas, algo que o ministro Gilmar Mendes chegou a sugerir para a Lava Jato.

E posso me concentrar num episódio que conheço bem, para contestar parcialmente a fala de Emílio Odebrecht. Refiro-me ao caso que ficou conhecido, graças à esperteza de Lula, como o dos aloprados do PT. É a história dos petistas detidos com R$ 1,6 milhão em dinheiro, nas eleições de 2006. Eu era o relator da CPI dos Sanguessugas incumbido desse caso. Ele tinha relação com a CPI porque José Serra, supostamente, seria denunciado pelos principais acusados de superfaturar ambulâncias.

Tentei desvendá-lo ouvindo depoimentos, era o instrumento que tinha. Os petistas estavam eufóricos com a reeleição de Lula. Não davam pistas.

A imprensa trabalhou muito. Dois repórteres da Veja chegaram a ser detidos na Polícia Federal de São Paulo. O então diretor da revista, Mário Sabino, foi indiciado por tentar informar os seus leitores.

O que a CPI não tinha nem a imprensa conseguiu foi o detalhe revelado agora pela delação: num dos maços de notas destinados a comprar o dossiê contra Serra havia uma etiqueta de uma empresa da cervejaria Itaipava. No contexto atual, o caso seria esclarecido a partir desse detalhe, desprezado nas investigações.

Não quero afirmar que a imprensa tenha sido uma combatente heroica da corrupção, sobretudo porque sob esse conceito mais geral há comportamentos muito distintos. Quero afirmar apenas suas limitações. Ela não pode quebrar sigilos bancários e telefônicos, muito menos realizar entrevistas seguidas de condução coercitiva.

O que mudou essencialmente o quadro foi a eficácia da Lava Jato. Ela evitou todas as armadilhas em que caíram as operações derrotadas pelo poderoso sistema de corrupção.

Foi graças às investigações e sólidas provas da Lava Jato que a imprensa conseguiu avançar, contribuindo com seu esforço para desvendar a engrenagem que sufocava o Brasil. O interessante é a crítica pendular que ela sofre. Quase sempre foi acusada de inventar denúncias. Recentemente, o PT qualificava os escândalos que o envolvem como uma “conspiração midiática”. Emílio Odebrecht a acusa-a de ter silenciado ao longo dos anos e fazer agora um grande estardalhaço. Mas a verdade é o quanto tanto a PF como os procuradores evoluíram com o tempo e com os fracassos relativos. E a própria imprensa se tornou mais cautelosa ao se mover em terreno tão delicado.

Alguns dos mais importantes vazamentos foram em blogs, que têm uma estrutura mais leve e, por causa disso, ousam mais. O que Emílio Odebrecht não considerou em sua fala foram os enormes avanços havidos no Brasil, enquanto empreiteiras e políticos vivam num mundo à parte.

A experiência de vida mostra que muitas coisas que eram proibidas no passado passam a ser permitidas com o tempo, como, por exemplo, o divórcio e a união de gays. Mas história é mais complicada. Muitas coisas, antes toleradas, passam a ser proibidas com o tempo, como o assédio sexual por exemplo.

Alguns fatores tornaram a corrupção conhecida de quem observava friamente o processo, mais vulnerável que no passado. Um desses fatores é a maior transparência impulsionada também pela revolução digital. Outro aspecto importante, talvez inspirado pela Justiça americana, é a tática de rastreamento do dinheiro de propinas através dos labirintos do sistema financeiro internacional.

Finalmente, certas mudanças de atitude, como a da Suíça, foram fundamentais. A Suíça se abriu, a polícia brasileira mudou, a tolerância das pessoas comuns mudou, foram tantas mudanças que é bastante compreensível que a bolha tenha estourado agora, e não antes, apesar de inúmeras tentativas frustradas.

Mesmo sem me importar com os risos pragmáticos, diria que Emílio poderia aprender com o escândalo uma lição mais valiosa que sua fortuna: a impermanência de tudo, o constante processo de mudanças.

Fernando Gabeira

Com Lula à beira do abismo, Palocci se apresenta para o papel de sabonete

Lula, Dilma e o PT afirmam que não praticaram nenhum crime. O que há é um complô de investigadores mal intencionados, mancomunados com juízes parciais, uma imprensa golpista e quase oito dezenas de delatores vagabundos que não hesitam em inventar mentiras. Pois bem. Surgiu uma novidade nesse enredo: Antonio Palocci, petista de quatro costados, sinalizou a Sergio Moro o desejo de delatar.

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Até aqui, o petismo só foi delatado por terceiros. Enquanto Lula e Dilma fazem barulho em liberdade, petistas como José Dirceu e João Vaccari guardam obsequioso silêncio atrás das grades. Preso e cercado pelos investigadores, Palocci parece não dispor da mesma capacidade de resistência. Ofereceu a Sérgio Moro “nomes, endereços e operações”. Coisa suficiente para ocupar a Lava Jato por mais um ano. Se forem incluídos no lance os empresários que o adularam o poder petista nos últimos 13 anos, vai faltar mão-de-obra à investigação.

A situação é mais ou menos a seguinte: Lula, Dilma e o PT estão na beira do abismo. E Palocci se oferece à Lava Jato para fazer o papel de sabonete. Se contar tudo o que sabe, ficará difícil para os companheiros equilibrar-se na borda do precipício sem escorregar nas revelações de Palocci, ex-ministro de Lula e Dilma. Para essa dupla, desqualificar o neo-delator seria como cuspir no reflexo do espelho.

Gente fora do mapa

E ainda temos a coragem de acharmos que nossa vida é difícil!:

Merece continência

A aguda crise moral, expressa em incontáveis escândalos de corrupção, nos compromete o futuro. Esse momento tão grave não pode servir a disputas paralisantes
General Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército 

A política republicana

Não gosto, nem trato de política. Não há assunto que mais me repugne do que aquilo que se chama habitualmente política. Eu a encaro, como todo o povo a vê, isto é, um ajuntamento de piratas mais ou menos diplomados que exploram a desgraça e a miséria dos humildes.

Nunca quereria tratar de semelhante assunto, mas a minha obrigação de escritor leva-me a dizer alguma coisa a respeito, a fim de que não pareça que há medo em dar, sobre a questão, qualquer opinião.

No Império, apesar de tudo, ela tinha alguma grandeza e beleza. As fórmulas eram mais ou menos respeitadas; os homens tinham elevação moral e mesmo, em alguns, havia desinteresse.

Não é mentira isto, tanto assim, que muitos que passaram pelas maiores posições morreram pobríssimos e a sua descendência só tem de fortuna o nome que recebeu.

O que havia neles, não era a ambição de dinheiro. Era, certamente, a de glória e de nome; e, por isso mesmo, pouco se incomodariam com os proventos da “indústria política”

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A República, porém, trazendo tona dos poderes públicos, a borra do Brasil, transformou completamente os nossos costumes administrativos e todos os “arrivistas” se fizeram políticos para enriquecer.

Já na Revolução Francesa a coisa foi a mesma. Fouché, que era um pobretão, sem ofício nem benefício, atravessando todas as vicissitudes da Grande Crise, acabou morrendo milionário.

Como ele, muitos outros que não cito aqui para não ser fastidioso.

Até este ponto eu perdôo toda a espécie de revolucionários e derrubadores de regimes; mas o que não acho razoável é que eles queiram modelar todas as almas na forma das suas próprias.

A República no Brasil é o regime da corrução. Todas as opiniões devem, por esta ou aquela paga, ser estabelecidas pelos poderosos do dia. Ninguém admite que se divirja deles e, para que não haja divergências, há a “verba secreta”, os reservados deste ou daquele Ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência.

A vida, infelizmente, deve ser uma luta; e quem não sabe lutar, não é homem.

A gente do Brasil, entretanto, pensa que a existência nossa deve ser a submissão aos Acácios e Pachecos, para obter ajudas de custo e sinecuras.

Vem disto a nossa esterilidade mental, a nossa falta de originalidade intelectual, a pobreza da nossa paisagem moral e a desgraça que se nota no geral da nossa população.

Ninguém quer discutir; ninguém quer agitar idéias; ninguém quer dar a emoção íntima que tem da vida e das coisas. Todos querem “comer”.

“Comem” os juristas, “comem” os filósofos, “comem” os médicos, “comem” os advogados, “comem” os poetas, “comem” os romancistas, “comem” os engenheiros, “comem” os jornalistas: o Brasil é uma vasta “comilança”.

Esse aspecto da nossa terra para quem analisa o seu estado atual, com toda a independência de espírito, nasceu-lhe depois da República.

Foi o novo regime que lhe deu tão nojenta feição para os seus homens públicos de todos os matizes.

Parecia que o Império reprimia tanta sordidez nas nossas almas.

Ele tinha a virtude da modéstia e implantou em nós essa mesma virtude; mas, proclamada que foi a República, ali, no Campo de Santana, por três batalhões, o Brasil perdeu a vergonha e os seus filhos ficaram capachos, para sugar os cofres públicos, desta ou daquela forma.

Não se admite mais independência de pensamento ou de espírito. Quando não se consegue, por dinheiro, abafa-se.

É a política da corrupção, quando não é a do arrocho.

Viva a República!

Lima Barreto (A.B.C., 19-10-1918)

Os efeitos da demagogia

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Dos perversos efeitos da irresponsabilidade fiscal dos governos lulopetistas, os mais significativos foram a reversão da queda da desigualdade e a estagnação do desenvolvimento humano, constatadas por estudos recém-publicados. Tal cenário indica o grau de deterioração do bem-estar da atual geração de brasileiros e, especialmente, as perspectivas sombrias para as próximas, algo que não pode ser modificado por medidas triviais. Se era preciso alguma prova de que a promessa demagógica de felicidade instantânea e sem sacrifícios pereniza a mediocridade e compromete o futuro do País, a prova aí está.

O mais recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) mostrou que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, com dados de 2015, ficou estagnado pela primeira vez desde 2004. Isso significa que as políticas de Lula da Silva e, principalmente, de Dilma Rousseff, a título de fazer “justiça social” e “incluir o pobre no Orçamento”, como gostam de alardear os ex-presidentes petistas, na verdade tiveram o efeito exatamente oposto ao pretendido – isto é, em vez de ajudar os mais pobres, interromperam o processo de melhoria da qualidade de vida do conjunto da sociedade.

O IDH leva em conta renda, educação e saúde. Vai de 0 a 1 – quanto mais próximo de 1, maior o desenvolvimento. Em 2015, o Brasil obteve IDH de 0,754, o mesmo de 2014. Entre 188 países, o Brasil ficou estacionado em 79.º lugar, ao lado de Granada. Continua entre os países considerados de “alto desenvolvimento humano”, mas encontra-se abaixo de Cuba (68.º) e Venezuela (71.º).

Quando o índice é ajustado se levando em conta a desigualdade – de renda, de saúde e de educação –, o Brasil cai 19 posições. Pelo Coeficiente de Gini, que mede especificamente a desigualdade de renda, o Brasil aparece como o 10.º mais desigual entre 143 países.

Esse aspecto aparece em outro estudo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), segundo o qual em 2016 houve o primeiro aumento da disparidade de renda domiciliar per capita em 22 anos. Isso significa que o ganho proporcionado pela estabilização da economia com o Plano Real, implementado há 23 anos, foi comprometido pelos governos de Lula e Dilma.

A façanha da dupla é espantosa. A partir de meados dos anos 1990 o Brasil começou a caminhar para reduzir a afrontosa desigualdade de renda que marca sua sociedade desde sempre. O controle da inflação deu o primeiro impulso para isso, pois permitiu que os mais pobres parassem de pagar, na forma do chamado “imposto inflacionário”, o custo do endividamento inconsequente do governo.

Foi necessário ainda um grande esforço para levar escolaridade às classes mais baixas, aumentando suas possibilidades no mercado de trabalho. Além disso, os programas de transferência condicionada de renda foram importantes para ajudar a mitigar a miséria.

Tudo somado, esperava-se que, no ritmo verificado a partir do início dos anos 2000, o Brasil já tivesse erradicado a pobreza extrema por volta de 2016. Mas isso não ocorreu. Ao contrário, em 2015 voltou a crescer o número de famílias com rendimento per capita inferior a 25% do salário mínimo, chegando a 9,2% da população, contra 8% em 2014, de acordo com dados do IBGE. Um ano depois, em 2016, a desigualdade cresceu 1,6% em relação a 2015, conforme o estudo da FGV, anulando os ganhos dos anos anteriores.

Os indicadores de desigualdade são especialmente significativos porque refletem os efeitos de longo prazo das políticas econômicas. A redução da renda dos mais pobres e o consequente aumento do abismo destes em relação aos mais ricos, depois de um período em que essa diferença parecia fadada a diminuir em razão da maturidade econômica e institucional do País, não resultam de erros pontuais, mas sim de decisões que respeitaram uma visão totalmente equivocada do papel do Estado no desenvolvimento. Mas os governos petistas entenderam que justiça social não é o resultado de um processo econômico de longo prazo, e sim um ato de vontade. O resultado dessa insanidade está aí.

Editorial - O Estadão

Paisagem brasileira

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Lula, o lobista da Odebrecht

Com um sorriso matreiro, Emilio, pai do Marcelo, a dupla baiana proprietária da megaempresa Odebrecht, relata, sempre com leveza, como se estivesse relatando um fait-divers banal, de que modo a direção da empresa bolou a atuação do Lula de uma maneira que favorecesse o ex-presidente e ao mesmo tempo a empresa.

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Fez do Lula o cartão de visitas da empresa. Como? Ao armar palanques para o boy fazer palestras onde expunha o nada que é o que ocupa sua mente vazia e receber, por esse feito fantástico, de 150 a 200 mil dólares por cada vez que se exibia em todo o esplendor de sua vaidosa ignorância.

Com essa manobra esperta, enchia a burra do petista e mantinha iluminado o nome Odebrecht.

Quer dizer, ao mesmo tempo em que atendia aos pedidos do amigo por cada vez mais dinheiro, ajudava a Odebrecht a se impor como um nome extraordinário a ser aprovado e aclamado em países onde falta tudo, menos dinheiro no bolso de seus governantes.

Nós, os brasileiros, habituados aos blablablas ocos e toscos do Lula, estranhávamos o montante que ele recebia por cada palestra. Como assim, tem louco disposto a pagar essa pequena fortuna para ouvir a churumela de sempre?

A explicação, dada agora por Emílio Odebrecht, é simples: a empresa bancava o orador e assim fazia propaganda de si mesma. Afinal, uma construtora que tem a seu favor um cara como o Lula, só pode ser uma boa empresa, calculavam os ouvintes.

Se Lula, o homem bom que se gaba de ter acabado com a pobreza no Brasil é amigo da Odebrecht, quem somos nós, pensavam os assistentes das palestras, para não aprovar quem nos abençoa com as obras dessa empresa? Assim era a propaganda da empresa baiana. E ainda tem quem ache que 200 mil dólares era um excesso?

A explicação é boa, pensei. Mas, ao mesmo tempo, duvidei que durasse muito. E não durou.

Lula é esperto, mas é bronco. Já Emílio Odebrecht é esperto e não tem nada de ignorante, é engenheiro formado pela Universidade Federal da Bahia.

Ele sabe, como afirmou seu filho, que não há político eleito sem uma bicada no Caixa 2. Sabia que Marcelo, embora determinado a não se curvar diante de uma delação, ia acabar falando. Sabia que nada merecia tanto sacrifício.

O filho preso há quase dois anos é um espinho na alma de sua mulher, dona Regina. Na dele também, presumo, mas ele precisa continuar a manter a Odebrecht viva. Tem uma empresa a zelar. Tem netos.

E assim os donos da Odebrechet resolveram falar. Falam, e como falam!

Começa o chorrilho de delações. Ainda levaremos muitos meses ouvindo empresários e políticos envolvidos com as manobras que tanto mal fazem a quem ouve.

Alguns são irônicos, alguns são risonhos, alguns são patéticos, alguns são firmes no que dizem, outros parecem duvidar do que falam...

Mas vem aí o depoimento do garoto-propaganda da Odebrecht. Será um espetáculo imperdível! Esse 3 de maio entrará para a História!

Será um depoimento ou uma delação? O que se sabe é que Lula convocou 87 testemunhas para defendê-lo. Como disse o ex-deputado Paulo Delgado, se a verdade é uma só, para que tantas testemunhas? (Coluna do Ancelmo Goes, O Globo, 20 de abril)

De qualquer modo, Deus provou que é brasileiro, sim. Está aí a Lava-Jato que não nos deixa duvidar!

Volta à cena do crime

Se eu voltar em 2018 é para colocar as coisas no eixo outra vez 
Lula à rádio Fan de Aracaju

O 'bon vivant' do Agreste

Foi o amigo dileto, Emílio Odebrecht, que o ajuda desde os idos de 70 com presentes, agrados e muita propina, quem assim o classificou: “Lula é um bon vivant, não tem nada de esquerda, gosta de coisa boa!”. Mimos como uma conta aberta em seu nome no valor de R$ 40 milhões, com saques à disposição em dinheiro vivo na hora desejada, reformas de sítio, palestras regiamente pagas em troca de vantagens, apartamento, jatinhos, terreno, qualquer coisa. Era só o “chefe” mandar. Ou pedir. Ajuda meu filho, meu irmão, meu compadre, meu partido. Valia a pena. No universo idílico que ronda Lula tudo é fruto de uma benevolência extrema. Do toma-lá-da-cá. Dos favores. Nos idos dos anos 80, o memorável “Senhor Diretas” Ulysses Guimarães já diagnosticava com uma precisão cirúrgica: “o mau de Lula é que ele parece gostar de viver de obséquios”. Os fatos teimaram em demonstrar. Estavam certos Ulysses e o patriarca do grupo que agora faz a “delação do fim do mundo”. O petista sempre deu sinais nesse sentido. Quando da primeira vitória nas eleições presidenciais, lá foi ele comemorar com uma garrafa de vinho Romanée-Conti, ao custo de US$ 5 mil (paga por outro amigo, naturalmente). Lula jactava-se pelos ventos da sorte e pelas boas relações com os amigos. Não há como negar: ele também é um fiel e generoso amigo. Ao menos dos ricos amigos, numa convivência tão estreita como promíscua. Fez mais por eles que recebeu. Não há dúvida. Foi capaz de prejudicar estatais e o povo que recolhe impostos em prol dos negócios da empresa do amigo Emílio. Seguiu sempre a surrada máxima “para os amigos, tudo!”. Com o patrimônio alheio – de cada um de nós, brasileiros. Você bancou a farra. Mas isso é detalhe. Não seria da conta de ninguém, é verdade, se o deplorável hábito de pedir tudo a todos ocorresse estritamente na platitude das relações desinteressadas. Infelizmente não foi bem assim. O que ele fez chama-se corrupção. Em benefício próprio e dos seus. Com a quebra inexorável das finanças de um País. Está evidenciado. Lula instaurou a corrupção como política de Estado. Em suas gestões, e na da sucessora Dilma , os desvios ganharam conotação de praga endêmica, institucionalizada e alastraram-se para cada departamento, autarquia ou organismo federal. Às favas com os escrúpulos. Lula hoje diz que as acusações são mentira. Só ele fala a verdade. Seria a história mais fabulosa do mundo um conluio tão bem arquitetado de delatores, que contam em requintes de detalhes as tramoias do grande líder, com o intuito exclusivo de condená-lo. Quem não se condói de tamanha injustiça? Lula agora reclama das noites insones, temerário de ser preso a qualquer momento. Os companheiros ideológicos desembarcam. O marxista Noam Chomsky, admirador de primeira hora, reclamou do partido e do seu criador que “simplesmente não pode manter as mãos fora da caixa registradora…que está roubando o tempo todo”. A alternativa do retirante nordestino que virou presidente – e acredita estar sendo penalizado por essa condição – é reagir no grito. Insistir na nauseabunda mentira. Seus convictos aliados – detentores de uma fé incondicional, que enxergam o homem quase como uma divindade, a despeito de seus reincidentes pecados – convocam a militância para armar um verdadeiro circo de protestos em frente à sede da Polícia Federal, em Curitiba, onde no próximo dia 3 acontece o que já vem sendo chamado como o “embate do século” entre o paladino da justiça, Sergio Moro, e o cacique objeto da cega veneração. Os mais extremados abarrotam as redes sociais com ameaças de “guerra civil”, num tom belicoso que extrapola para o crime, sem receio de reprimendas. A lei, ora a lei, não vale para o grande comandante. Quando você nasce como a alma mais honesta que existe, qualquer um precisa respeitar. Ele está acima dos demais. Não podem pairar dúvidas sobre seus atos. É preciso louvar a santidade. Ela não mente, não erra, não comete faltas. Onipotente, onisciente, acima do bem e do mal, não pode ser alcançada pelas infâmias da raia miúda, nem condenada pela justiça dos mortais. De forma alguma. Por esse modo muito peculiar de visão dos fatos, Lula não pediu nada a ninguém. Lula não levou propina. Não armou quadrilha de desvios. Muito menos costurou esquemas que lesaram o Tesouro. Aquele sítio, com notas frias, ora bolas, era do amigo. O tríplex, de outro amigo. O apê onde mora, também. Se de 2006 para cá uma empresa quis dar mais de R$ 10 bilhões, como confessou, em propinas para Lula e sua turma do poder, o problema é dela. Se ganhou como contrapartida grandes obras públicas, foi sorte. O Estádio do Corinthians, sonho de mais de R$ 1 bilhão de Lula, era merecido. Maldosos, os brasileiros! Há de se perguntar aos áulicos seguidores do petista se por acaso tiveram tempo e o cuidado de ouvir os depoimentos dos delatores, gravados em áudio e vídeo e mostrados a quem quisesse ver? Atentaram para o volume de informações, para a avalanche de evidências e provas já colhidas? É esse o País que desejam para si e para os seus, sob o julgo de um esquema de bandalheira sem fim? A ladroagem ilimitada e a arrogância populista não podem virar exemplo. Destruiu recentemente a Venezuela nas mãos do caudilho Hugo Chaves. Não podem se repetir pela ambição desmedida do “bon vivant” Lula.

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Great Wall of India– The Kumbalgarh Fort. This is the second largest continuous wall on the whole planet. There are 360 Hindu Temples within the fort complex, along with the Maharaja's Grand Palace, Yet bewilderingly, it is still little known outside of India! So beautiful. A awesome structure.:
Kumbalgarh  a grande muralha da Índia

A lista anestésica de Fachin

Os anjos da guarda que protegem os picaretas no Brasil trabalham duro. Veja o caso de Luiz Inácio da Silva. Trata-se sem dúvida de um brasileiro lambido pela sorte. As evidências criminais chovem sobre ele, mas sempre aparece alguém dizendo que a próxima será a gota d’água. Já há um oceano de gotas d’água no prontuário desse cidadão, e ele continua flanando à solta. Quando enfim surge a gota das gotas, aparece também o anjo dos anjos – Edson Fachin, o companheiro providencial.

Marcelo Odebrecht confirmou a Sergio Moro que a designação “amigo” nas planilhas de corrupção da empreiteira se referia ao tal Luiz Inácio, o “Lula”. Conforme se especulava há tempos, esse Lula, que inclusive presidiu o Brasil por um tempão, recebeu dezenas de milhões de reais em dinheiro vivo a título de propina pelo assalto ao Estado brasileiro, especialmente à Petrobras – R$ 40 milhões até onde a vista alcança, por enquanto. A Lava Jato já tem os detalhes de todo o organograma do assalto governamental – vamos repetir: governamental – da quadrilha petista, inclusive com as delinquências subsidiárias de Dilma, Palocci e Mantega, os afilhados do Brasil. Aí se deu o milagre.

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Diretamente do reino das togas esvoaçantes – o mesmo de onde vinham os raios paralisantes contra o impeachment – desaba sobre o país a mística lista de Fachin. Contendo políticos de todos os principais partidos do país, devidamente premiados com autorizações de inquéritos, a lista consegue de imediato o efeito pretendido: a opinião pública (que Deus a tenha) conclui que todo mundo roubou, não só o PT. Alívio instantâneo para os autores do maior assalto da história da República.

O sistema de influências sobre as disputas eleitorais é gigantesco e cheio de distorções – e é claro que já apareceram os paladinos de um sistema puro, em que as diversas forças da sociedade não influenciariam o voto de ninguém. É a eleição do mundo da Lua. Na Terra, quem é influente pode e deve influenciar – seja uma empresa, seja um rostinho bonito da TV, seja o pipoqueiro da esquina.
Uma empreiteira gulosa pode apostar num candidato pilantra achando que vai ganhar dinheiro no mandato dele, assim como um cantor ignorante pode afiançar um candidato demagogo achando que vai ficar bem na foto. Duas formas de influência igualmente doentes e legítimas. O que se passou no Brasil foi que, no âmbito das empresas, disseminou-se a cultura da doação generalizada – contribuir com tudo quanto é campanha virou uma espécie de seguro de vida empresarial na gangorra da política. Houve até empresário (muitos) fazendo doação clandestina só porque não queria aparecer – e parecer estar num jogo de cartas marcadas. O caixa dois se espalhou de forma fútil. E hoje serve aos que querem misturar futilidade com criminalidade.

Qualquer desses candidatos apontados pela delação da Odebrecht como beneficiários de doações por fora deve ser investigado e punido. Mas aí se impõe a pergunta: quantos na lista de Fachin eram governantes vendendo o governo para empresas privadas? Políticos usando sua condição de mandatários para formar um fabuloso caixa partidário e pessoal a partir de propina – vamos repetir: propina – institucionalizada nas relações com o governo, muitas vezes fantasiada de doação legal ao partido?

Vamos responder a essas perguntas pela enésima vez, porque brasileiro não desiste nunca: só o PT, o Partido dos Trabalhadores, a sigla imaculada da alma mais honesta do planeta, sistematizou a corrupção dessa forma e nessa escala – construindo um duto dos cofres públicos para o caixa do partido e, sabe-se agora, também com ramal para os bolsos dos guerreiros do povo.

Uma pesquisa mostrou Cunha à frente de Dirceu como vilão da Lava Jato. Outra pergunta: qual dos dois ferrou mais a sua vida, caro leitor? Respondemos por você: com toda a gincana de corrupção atribuída a Cunha, quem arrebentou suas finanças foi o projeto de Dirceu e meliantes associados. A gangue de Lula (e mais ninguém) prostituiu a União.

A lista de Fachin, coincidentemente divulgada em cima da revelação crucial de Marcelo Odebrecht sobre o esquema, prova que anjo da guarda existe. Mas logo terá de passar o bastão ao santo padroeiro dos presidiários.

Capital do mal

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A corrupção transforma a infraestrutura brasileira numa das mais caras e ineficientes do mundo
Paulo Ricardo Stark, presidente da Siemens do Brasil, envolvida no escândalo de corrupção em 2006 nos mesmos moldes revelados agora pela Lava Jato

O país passado a limpo?

A ebulição permanente das delações dos funcionários da Odebrecht vem ofuscando a decisão a ser adotada pelo Tribunal Superior Eleitoral diante da possibilidade de cassação da chapa Dilma-Temer, em 2014. Porque está de pé a hipótese da cassação dos vitoriosos daquele ano nas eleições presidenciais. Seria uma desarrumação completa do cenário político nacional. Dilma Rousseff já foi alvejada com o impeachment, mas Michel Temer ocupa a presidência da República. Se vier a ser cassado, não terá alternativa senão deixar o palácio do Planalto, ainda que possa recorrer da sentença ao Supremo Tribunal Federal.


Discute-se se esse recurso terá ou não efeito suspensivo, quer dizer, o atual presidente recorrerá no exercício de suas prerrogativas ou manterá o cargo até a decisão da mais alta corte nacional de justiça. De qualquer forma, seu equilíbrio ficará instável. No atual período de crise política, será péssimo para as instituições já combalidas.
Diante de sua cassação, Michel Temer já declarou que disposições de Judiciário não se discutem. Cumprem-se. Nesse caso, quem ocuparia seu lugar, na ausência de um vice-presidente?

Assumiria o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Até quando? Pela lógica, até que o Congresso elegesse um sucessor para terminar o atual mandato, a 31 de dezembro de 2018. Seria o quarto personagem a ocupar a chefia do governo, imaginando-se vantagem para Rodrigo Maia, mas certeza, ninguém tem. Deputados e senadores disporiam da prerrogativa de indicar quem quisessem.

Por tudo isso, admite-se que o bom senso venha a prevalecer, ou seja, que o Tribunal Superior Eleitoral não sacrifique uma chapa já desgastada, preservando Michel Temer. Só que garantir, ninguém pode.

Registra-se uma outra opção: que diante do sacrifício de Temer, o Congresso aprove emenda constitucional estabelecendo eleições gerais no país, logo depois da cassação da dupla Dilma-Temer. Até mesmo com mandatos de quatro ou cinco anos para o novo presidente, deputados, senadores e, de tabela, porque não governadores e parlamentares estaduais. Uma limpeza geral, uma forma de o país e as instituições serem passados a limpo. A rodada encontra-se em aberto. Quem quiser que arrisque um palpite.

Precisa-se de um herói

O cenário que temos é razoavelmente previsível. Temer irá com seu governo até o final. Em 2018. Porque ninguém deseja que ele acabe antes. Nem mesmo aqueles que hoje gritam, pelas ruas, Fora Temer. Já no próximo ano vamos ter campanhas presidenciais. Estão próximas demais. Sem contar que a economia só agora começa a se recuperar. Se sair Temer (ou Meireles), antes disso, vamos nos converter em algo próximo à Venezuela.

Único consenso, hoje, é que nossas elites são muito ruins. Velhas. Praticantes de uma pornopolítica (a expressão é do mestre Roberto Damatta). Não obstante eleitas por brasileiros, em absoluta falta de sintonia com eles. Com seus valores. Com suas expectativas. Com suas esperanças.

Capitão Brasil (Antônio Peres)
O futuro desejável pode vir de algum tipo de consenso social. Entre cidadãos. A partir do reconhecimento da prevalência do interesse coletivo sobre o individual. Esse é o cenário que todos desejamos. Talvez inviável, nos dias que correm. Alternativa seria, então, a adesão dos eleitores a um herói. Um salvador da pátria. Em linguagem mais simples, caso as mudanças não venham de baixo, como seria desejável, elas virão de cima.

É comum se dizer que isso iria ser ruim, para o país. E cita-se, invariavelmente, (Silvio) Berlusconi. Não é uma comparação justa. Berlusconi foi herói só no seu primeiro governo, em 1994/1995. Que, logo depois, acabou derrotado por Romano Prodi. Democracia é coisa boa. Os heróis passam. Depois, trocou seu partido – de Força Italia para Povo da Liberdade. Sendo notórias suas relações com a máfia calabresa ('Ndrangheta) e os muitos processos que respondeu por corrupção e fraude. Mas já não era, então, herói de nada. E ainda assim, como um político tradicional, ganhou eleições em 2004/2005, 2005/2006 e 2008/2011. Eleições tem disso.

Berlusconi é só um exemplo ruim. Mas poderíamos lembrar de um bom. Como o Papa Francisco. Que veio redimir a Igreja Católica, em meio a uma crise devastadora – decorrente de sua incapacidade em se modernizar. Sofrendo perdas de fiéis para igrejas evangélicas ou messiânicas. Até que veio do fim do mundo. Da América Latina. Para fazer reformas modernizantes. Francisco, para a Igreja, foi uma benção.

A sensação, hoje, é que nomes tradicionais não sobreviverão até o próximo ano. Uns porque serão atingidos pela Lei da Ficha Limpa. Outros porque não terão coragem para subir em palanques, depois de tantos processos. Outros, mais, porque seus discursos perderam atualidade. Envelheceram. Há um herói em gestação, entre nós. Só não vê quem não quer. Ou for cego. Será ruim ou bom?, para o Brasil. É cedo para dizer.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A Lava-Jato é um ativo brasileiro

Não foi apenas o capitalismo de amigos que assolou o Brasil. Foi pior: uma mistura de dois desvios do capitalismo, o de amigos com o estatal.

A relação entre setores privados e governo existe em qualquer país capitalista, mesmo naqueles de menor presença do Estado na economia. As empresas sempre têm o que conversar com a administração pública, seja com o Executivo, seja com o Legislativo. Leis, regulamentos e burocracias afetam a atividade econômica, de modo que é normal o interesse das companhias privadas em participar de algum modo das decisões políticas.


A diferença é que essa relação pode ser legal e regulada — o caso do lobby nos Estados Unidos, por exemplo — ou, digamos, informal. Nas duas situações pode haver promiscuidade, mas é claro que a maior possibilidade de desvios ocorre no modo informal.

No mundo todo, hoje, está em curso um processo de normatizar as relações entre agentes públicos e privados. Em muitos lugares, chega-se a detalhes: os encontros devem ser públicos, com agenda oficial, o burocrata ou legislador não pode ter almoço grátis, nem presentes, e por aí vai.

Mas tudo isso é relativamente recente. Não faz muito tempo que multinacionais americanas e, sobretudo, europeias podiam abater como despesa as comissões pagas a agentes de terceiros governos, sempre de países emergentes.

Isso começou a acabar quando o governo americano se lançou num forte combate ao terrorismo e ao tráfico de drogas. O método principal foi seguir o caminho do dinheiro que financiava o crime. Nessa rota, os policiais, promotores e juízes chegaram aos paraísos fiscais e lá encontraram também pessoas e empresas normais, legais, mas que escondiam dinheiro do Imposto de Renda, por exemplo, ou para subornar governos, partidos políticos e seus agentes.

O primeiro grande embate internacional das autoridades americanas foi com os bancos suíços. Estes se recusavam a abrir as contas de cidadãos americanos acusados de sonegar impostos transferindo dinheiro não declarado para a Europa. Demorou, mas os bancos, punidos com multas no mercado de ações de Wall Street, acabaram entregando as contas.

Seguiu-se uma nova legislação na Suíça, na prática acabando com o sigilo bancário, assim acompanhando o que aconteceu em quase todo o mundo democrático. Isso ajudou, e muito, as operações da Lava-Jato.

(Em uma das delações da Odebrecht, um executivo explicou que a empresa fazia as “operações estruturadas” na Suíça, mas não nos EUA, onde a coisa era mais difícil. Pois a empresa acabou apanhada nos dois países, embora quase tenha conseguido tirar o dinheiro da Suíça).

Também entram em vigor os acordos internacionais que ampliam as relações e troca de informações entre polícias, órgãos da receita e bancos centrais. Leis de repatriação, como essas que tivemos no Brasil, foram editadas em diversos países. Como aqui, lá também os bancos e advogados recomendaram expressamente que seus clientes declarassem o dinheiro escondido.

Muitos bancos americanos e europeus simplesmente fecharam contas de brasileiros e mandaram um cheque para os clientes que se recusaram a declarar. Como sabiam disso? Exigiam cópias do IR no qual constasse os valores depositados no exterior.

Tudo isso para dizer que o combate à corrupção, ao dinheiro escondido, seja para qualquer fim, é universal e está em curso em toda parte. Ou seja, a Lava-Jato é um ativo brasileiro.

Vejam esta notícia de ontem: o presidente de Governo da Espanha, Mariano Rajoy, líder do Partido Popular, foi convocado como testemunha, para comparecer pessoalmente ao tribunal, obrigado a contar a verdade, com contraditório e publicidade. O processo: corrupção em obras públicas, seguida de financiamento ilegal de seu partido, que lá eles chamam de “caixa b” — sim, o nosso conhecido caixa 2.

No Brasil, essas regras sobre o comportamento dos agentes públicos e suas relações com as empresas privadas são recentes e nem sempre respeitadas. Mas depois da Lava-Jato, hoje são as empresas privadas aqui instaladas que mais se preocupam com a legalidade e a transparência de suas relações com o governo.

Têm medo da Lava-Jato e da justiça internacional. A Odebrecht está pagando multas nos EUA. Em outras palavras: se antes era lucrativo ser amigo do governo e dos partidos principais, agora ficou perigoso.

Mas o caso brasileiro é mais grave por causa do tamanho do capitalismo de estado. O governo não apenas é o maior contratante de obras e serviços, como controla boa parte do crédito, através de grandes bancos comerciais e de desenvolvimento, e é dono de empresas dominantes em setores cruciais, como a Petrobras e a Eletrobras. Tem muito espaço para os amigos.

Reduzir esse tamanho do Estado é também uma forma de combater a corrupção.

Carlos Alberto Sardenberg 

Nadando...


Não, o presidente não é um pato manco. Operando um sistema político doente, com auxiliares alvejados e reduzidíssima capacidade de enforcement, Temer é, por enquanto, apenas uma espécie curiosa de anatídeo com necessidades especiais. Nada, anda e voa ao seu modo desajeitado, mas se movimenta de qualquer forma.
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Se, de todo modo, qualquer avanço serve conquanto salve as aparências, vai em frente mesmo que seu movimento que não seja retilíneo nem uniforme. Vai com dificuldades, mas vai. Sabe que viver não é preciso; que preciso é saber nadar.Carlos Melo

Excluídos

De algum tempo para cá, a parte da sociedade que mora em favelas e bairros pobres é qualificada como "excluída". Ou seja, os moradores da Rocinha e do Vidigal, por exemplo, não vivem ali porque não dispõem de recursos para morar em Ipanema ou Leblon, e sim porque foram excluídos da comunidade dos ricos. E eu, com minha mania de fazer perguntas desagradáveis, indago: mas alguma vez aquele pessoal da Rocinha morou nos bairros de classe média alta e dos milionários? Afora um ou outro que possa ter se arruinado socialmente ou que tenha optado por residir ali, todos os demais foram levados a isso por sua condição econômica ou porque ali nasceram. Então por que considerá-los "excluídos", se nunca estiveram "incluídos"?

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No meu pouco entendimento, excluído é quem pertenceu a uma entidade ou a comunidade e dela foi expulso ou impedido de nela continuar. Quem nunca pertenceu às classes remediadas ou abastadas não pode ter sido excluído delas. Mais apropriado seria dizer que nunca foi incluído. Ainda assim, se não me equivoco, incorreríamos em erro. Senão, vejamos: a Rocinha, o Vidigal, o Borel e a favela da Maré fazem parte da cidade do Rio de Janeiro, não fazem? Seria correto afirmar, então, quer seja do ponto de vista urbanístico, quer do demográfico e social, que o Rio são apenas os bairros em que reside a parte mais abastada da população? Se fizermos isso, então, sim, estaremos excluindo parte considerável do território e da gente que constitui a cidade do Rio e que, portanto, pertence a ela.

Consideremos agora a questão de outro ponto de vista. Nos morros e favelas da cidade residem cerca de 1 milhão de pessoas, que têm vida social ativa, pois trabalham, estudam, participam de organizações comunitárias e recreativas. A maioria delas trabalha fora de sua comunidade, no comércio, na indústria, no serviço público, ou desenvolve atividade informal. Logo, participa da vida econômica, cultural e esportiva da cidade. Em que sentido, então, essa gente estaria excluída? Não resta dúvida de que as famílias faveladas, na sua ampla maioria, vivem em condições precárias, tanto no que se refere ao conforto domiciliar quanto à alimentação, às condições de higiene e saneamento, educação, saúde e segurança. Mas não estão excluídas da preocupação dos políticos que, na época das eleições, vão até lá em busca de votos. Há, nessa comunidade, cabos eleitorais, pessoas que atuam em associações de bairro e fazem a ligação com os centros políticos de poder. É certo que a grande maioria dessa gente não participa da vida política, mas isso ocorre também com as demais pessoas, morem onde morarem. Por todas essas razões, somos obrigados a concluir que os pobres e favelados estão incluídos na vida econômica, social e política da sociedade.

No entanto, isso não significa que estejam em pé de igualdade com as pessoas das classes médias e ricas. Não estão e, na sua grande maioria, descendem de gerações de brasileiros que tampouco gozaram dessa igualdade. Muitos descendem de antigos escravos e de brancos pobres que, pela carência de meios e pela desigualdade que rege o processo social, jamais tiveram possibilidade de ascender econômica e socialmente. Eles não foram excluídos simplesmente porque jamais estiveram incluídos entre os mais ou menos privilegiados.

Por que, então, cientistas políticos, sociólogos e jornalistas, entre outros, falam de exclusão social? Por ignorância não será, já que todos eles estão a par do que, bem ou mal, tentei demonstrar aqui. Creio que, consciente ou inconscientemente, procura-se levar a sociedade a pensar que a desigualdade social não é conseqüência de fatores objetivos, do sistema econômico, mas sim resultado da deliberação de pessoas cruéis que empurram os mais fracos para fora da sociedade e os condenam à miséria.

Em vez de admitir que esse sistema, por visar acima de tudo o lucro e ser, por definição, concentrador da riqueza, é que dificulta, ainda que não impeça, a ascensão dos mais pobres, procura-se fazer crer que a desigualdade é fruto de decisões pessoais. Ignora-se que, no sistema capitalista, quem não tem emprego também está incluído nele, como exército de reserva de mão-de-obra, com a função de pressionar o trabalhador e limitar-lhe as reivindicações. A eliminação da miséria beneficia o sistema pois amplia o mercado consumidor. O empresário pode ser, como você ou eu, bom ou mau, generoso ou sovina, mas, como disse Marx, "o capital governa o capitalista". O problema está no sistema, não nas pessoas.

Ferreira Gullar

O grito


Meu país me faz sofrer; meu país amarga em mim 
Augusto Frederico Schmidt (1906-1965)

O veneno da mentira e a educação

"Um país se faz com homens e livros", ensinou Monteiro Lobato ao Brasil de seu tempo, de maioria analfabeta. Por via de consequência, podemos afirmar que a construção de um país passa, também, por professores e livros didáticos. Estas verdades acacianas foram entendidas pelos totalitarismos, que sempre usaram o sistema de ensino para a indigna tarefa de moldar gerações segundo os devaneios de seus dirigentes políticos. E a missão prossegue, mesmo em regimes de feição democrática, mediante infiltração, para idêntico fim, de modo militante, nas mentes dos homens e na alma dos livros.

Não é só a escola, portanto, que deve ser sem partido. Também ao material didático impõe-se essa condição. Contam-se às dezenas de milhões os livros que os governos de esquerda e centro-esquerda enviaram às escolas para transmitir aos estudantes brasileiros visões distorcidas da política, da economia, da história, da vida social, do cristianismo e da Igreja Católica. Tivessem maior credibilidade os militantes da causa, não fossem tão escandalosamente sectários, não abusassem tanto do poder de ensinar que lhes foi outorgado, não fossem tão desautorizados pelos fatos, e o estrago teria sido muito maior.

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A mais recente edição do Fórum da Liberdade - "O futuro da democracia" - foi uma evidência de que nem tudo está perdido. Milhares de estudantes lotaram espontaneamente o auditório da PUC/RS, durante dois dias, para assistir e aplaudir, com entusiasmo, conferencistas nacionais e internacionais que discorreram sobre liberdades políticas e econômicas, autonomia do indivíduo, papel subsidiário do Estado, empreendedorismo e causas estruturais da pobreza e da riqueza. Chega a ser surpreendente que aqueles jovens procedessem de salas de aula nas quais apenas 20% dos professores se consideram politicamente neutros; onde 86% deles, na opinião dos alunos, transmitem um conceito positivo de Che Guevara, e 78% creem que seu principal papel seja o de "formar cidadãos" já se sabe para quê (aqui).

Mas não é só por livros didáticos e professores militantes que o veneno da mentira e da ocultação da verdade a serviço da causa se infiltra no meio estudantil. Tal prática parece correr solta, também, em sites com conteúdos escolares. É o de que me adverte um leitor, diante de matéria no portal "Brasil Escola". No meio de um texto que descreve a situação da Alemanha no período entre as duas grandes guerras e o surgimento do nazismo, o autor do conteúdo permitiu-se instalar este "jaboti":

"Em 1917, a Rússia, comandada pelo socialista Lênin, derrubou o governo do Czar Nicolau II e instaurou uma nova forma de governo democrático: o comunismo. Os países que baseavam suas economias no capitalismo e na exploração do trabalhador se viram ameaçados. Uma onda de movimentos antidemocráticos surgiu no cenário mundial, com o intuito de conter o crescimento do comunismo."

Se você enxerta uma opinião pessoal em meio a um relato histórico neutro, você amplia a credibilidade da propaganda que faz. Mutretas como essa saltam de livros didáticos, sites de educação, polígrafos, provas escolares, exames do ENEM, mostrando que Escola sem Partido é uma imposição da realidade. Para dizer como os "companheiros": é preciso problematizar essa falta de escrúpulos e de limites. O país não pode ficar refém do atraso e da perfídia de deseducadores.

Percival Puggina

Paisagem brasileira

Capela de São José, marco inicial de Cordisburgo (MG), Fábio Calvetti

Verdades e mentiras

Mago do cinema, Orson Welles nos mostrou que uma mentira pode parecer uma verdade forjada e materializada a ponto de o espectador ser incapaz de distingui-la. Não é à toa que paradigmas do cinema — a recriação do real, a reimaginação, o drama, o épico, mistério, o suspense, a investigação, a contemplação, o real e o imaginário — foram cada vez mais usados nas campanhas eleitorais. No filme Verdades e mentiras (Vérités et mensonges, 1973), um clássico do cinema, Welles utiliza a linguagem do documentário para questionar a verdade e mostrar como a mentira pode se parecer com a realidade.

O perseguido falsificador de quadros Elmir de Horry é retratado como um artista tão talentoso quanto aqueles que reproduz. O biógrafo Clifford Irving inventa uma biografia do excêntrico magnata norte-americano Howard Hughes. O próprio Welles é o cicerone das histórias, como uma espécie de arquétipo de ilusionista. O que é a verdade? Quais os limites entre a verdade e a mentira? O que é a realidade?

Na verdade, a fotografia e o cinema revolucionaram a arte e a percepção da humanidade. Vivemos a era do virtual, que contaminou irremediavelmente a política, primeiro com os programas de televisão no horário eleitoral; agora, com as redes sociais. A veracidade expressiva dos indivíduos é mais importante do que a veracidade dos fatos, principalmente nas campanhas eleitorais. Mas mentiras serão sempre mentiras.

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Ontem, Mônica Moura, a mulher e sócia do marqueteiro João Santana, responsável pelas campanhas de Lula (2006) e Dilma (2010 e 2014), confirmou o uso de caixa dois pelo PT para pagar os serviços do casal. Em 2010, uma parte foi paga pelo partido e outra pela Odebrecht. Em 2014, todo o caixa dois foi pago pela Odebrecht. O ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, segundo o depoimento de Mônica Moura, responsável pelas finanças do casal, acertou os pagamentos das campanhas do PT.

Era Palocci que a mandava pegar o dinheiro na Odebrecht. A empresa também teria financiado as campanhas do ex-presidente Lula (2006), Fernando Haddad (2012) e de Dilma (2010 e 2014). No exterior, Mônica Moura disse que a empreiteira também pagou por campanhas no Panamá, na Venezuela, em Angola e em El Salvador, mas isso nada teve a ver com Palocci e o PT. Somente em El Salvador foi a pedido de Lula, com pagamento acertado com Palocci.

João Santana, que também prestou depoimento, foi o grande artífice da espetacular vitória de Lula em 2006, depois de um mandato abalado pelo “mensalão”. Havia assumido o lugar de Duda Mendonça, responsável pela campanha de 2002, quando o petista derrotou José Serra. Depois da vitória, foi o grande gestor da imagem de Lula no segundo mandato e o responsável por dar asas ao “poste” Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil, que virou mãe do PAC. No mandato da “presidenta”, mandou e desmandou no marketing do Palácio do Planalto e conseguiu reeleger Dilma Rousseff, cujo primeiro governo fora um desastre.

O marqueteiro também surfou o prestígio de Lula para conquistar contratos no exterior, pois as vitórias do PT eram seu cartão de visita e o ex-presidente, seu padrinho nas relações com líderes políticos aliados do petista. Por ironia, agora é um dos responsáveis pela desconstrução da imagem de Lula e, principalmente, de Dilma Rousseff, que circula pelo mundo afora como “presidenta constitucional” e se apresenta como honesta e competente. Diz que foi apeada do poder pelas forças que temiam a Operação Lava-Jato. Essa narrativa também cai por terra.
Santana também fez um mea-culpa ao depor: “Eu acho que nossas contradições constroem as nossas armadilhas. (…) Eu, mesmo sendo uma pessoa organicamente a favor das coisas bem-feitas, legais e honestas, criei um escudo em minha cabeça, um duplo escudo. Um, social externo, que era essa doutrina de censo comum do caixa dois, que não se faz campanha. E outro que era pelo trabalho honesto que estou fazendo”, afirmou. E concluiu: “Eu construí esse equívoco para mim mesmo, sem perceber que, ao fazer isso, eu estava sendo cúmplice de um sistema eleitoral corrupto e negativo. Não estou aqui dizendo que eu não tinha culpa, que fui vítima disso. Não, eu fui agente disso. Mas quero alertar”, afirmou.

O que Santana não fala é que a “qualidade” do seu trabalho profissional estava diretamente associada às mentiras que ajudou a construir no imaginário popular, utilizando o poder de expressão de Lula como candidato e levando para a televisão um país imaginário, no qual muitos ainda acreditam, desde o sujeito isolado nos grotões ao professor universitário engajado no “nós contra eles”. Pode-se dizer que isso é uma exclusividade de João Santana e das campanhas do PT? Não, as fronteiras entre as verdades e as mentiras na política brasileira só agora estão sendo novamente demarcadas.

Túnel do Tempo

Vantagens devidas e indevidas?

Virou moda para esse monte de políticos de alto coturno, flagrados pelas delações da Odebrecht, defenderem-se jurando não ter recebido “vantagens indevidas” da empreiteira. Quer dizer que também há vantagens devidas?

Está classificada a roubalheira, verdadeira confissão de culpa de ministros, governadores, deputados e senadores. Uma evidência irrefutável do envolvimento de tantos ladrões.

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Indaga-se o que acontecerá com eles, se reconhecem haver recebido propinas oriundas de superfaturamento de obras, desvio de verbas e similares. Com ou sem foro especial, estão arcabuzados. Se alguns foram considerados candidatos presidenciais, hoje não são mais. Mesmo demorando, seu julgamento será irreversível.

Não é preciso expô-los a citações nominais. A maioria dos delatores tem apresentado provas até documentais da corrupção. Provavelmente venham a tornar-se inelegíveis por decisão dos tribunais, mas o principal é que lhes faltarão votos. Talvez até coragem para mostrar-se. Vestais de ontem, transformam-se em ratos de hoje e, certamente, condenados de amanhã.

Réus confessos cuja defesa torna-se impossível diante do próprio reconhecimento da prática deletéria da corrupção por anos a fio.

Pertencem a todos os partidos e roubaram em todos os Estados. Estarão em todos os ministérios, também. São aqueles considerados desconfortáveis pelo próprio presidente da República. Aliás, a propósito, estaria Michel Temer confortável em companhia de … (Cala-te boca!)

Corrupção desenfreada se tornou ameaça concreta à democracia

A divulgação dos vídeos das delações da Odebrecht realça de maneira peremptória a promiscuidade entre empresários e membros do Legislativo e do Executivo, que foram desmascarados na farra do Caixa 2. Homens e mulheres acima de qualquer suspeita, negociando propinas a pretexto de utilizarem recursos da mãe das empreiteiras no Caixa 2, subvertendo o processo eleitoral e viciando-o em detrimento dos candidatos que não disputaram as eleições em igualdade de condições. É incrível como a empreiteira-mor “doava” dinheiro a torto e a direito, oriundos do superfaturamento de obras públicas, vencidas em licitações e dirigidas pelos recebedores de propinas.
Um deputado exigiu propina pelo simples fato de ter operado no início do processo básico da obra, ainda no escopo inicial. Quando finalmente a obra já em andamento, em outro governo, pleiteou seu quinhão, da ordem de 1% do sacramentado na licitação. Na mesma obra, outro deputado exigiu 0, 5%, pelo singelo fato de não ter atrapalhado o prosseguimento da obra, quando poderia tê-la obstado. E um ministro exigiu 1% sobre o valor da obra, pois alegou que operou para incluí-la no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

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Agora, em suas defesas pífias, todos esses políticos alegam que receberam doações legítimas e aprovadas pela Justiça Eleitoral, portanto, dentro da legalidade institucional que rege as campanhas eleitorais.

Os executivos da megaempreiteira, com a maior simplicidade do mundo, alegam que pagavam as propinas sem pestanejar, porque o lucro era muito grande nas obras superfaturadas. Só recebia “doações” da empreiteira quem pudesse, de alguma forma, ajudar a organização, com alguma emenda, algum jabuti em medidas provisórias, um aditivo aqui outro ali, um financiamento no BNDES de pai para filho e longos anos para pagar, depois de ultrapassada a fase da carência.

E pasmem, senhores. Muitas empresas receberam isenções fiscais, não precisavam mais pagar determinados impostos. Justamente por isso, caiu a arrecadação, pois os governantes, ávidos por propinas, liberaram geral, concedendo o benefício aos doadores generosos, em troca de propinas substanciais.

A Odebrecht criou até um Setor de Operações Estruturadas, mais conhecido como “Departamento da Propina”, para controlar os repasses de recursos ordenados em dinheiro vivo ou em contas no exterior para os corruptos, evitando-se depósitos bancários no país, para não deixa rastros. Alguns repasses, da ordem dos milhões, eram entregues em mochilas, nas residências e escritórios dos corruptos e até em gabinetes públicos.

E ainda estamos apenas nos vídeos de uma das empreiteiras, a Odebrecht. Quando também vierem a público os relatos de executivos da OAS, da Andrade Gutierrez, da Camargo Correia, da Queiroz Galvão, Carioca Engenharia, Engevix, entre outras, o mundo virá abaixo.
Quantos hospitais públicos caindo aos pedaços, sem remédios e médicos suficientes para o atendimento digno da população, poderiam ser equipados com o dinheiro público desviado pela corrupção desenfreada?

A dilapidação da coisa pública era tão escancarada que os relatos dos delatores impressionam pela cafajestice, a ironia, o riso sarcástico, como se fosse a coisa mais normal do mundo. A fraude em licitações, o superfaturamento, o desvio de dinheiro público, a corrupção ativa e passiva, a promiscuidade com que se relacionavam empreiteiros e autoridades, tudo isso choca os que ainda acreditam no futuro dessa nação.

Depois da podridão que veio a público, não há mais que se falar em perdão pelo uso abusivo do Caixa 2, como sendo um crime de menor potencial e, portanto, passível de anistia pelas falcatruas efetuadas no passado, sendo então criminalizado daqui para frente, como pretendem deputados e senadores envolvidos no escândalo. Isso é um escárnio, um tapa na cara dos cidadãos de bem deste país. Estão brincando de fogo no paiol, que pode explodir a qualquer momento. Basta uma faísca e tudo vai pelos ares, se tentarem anistiar essa quantidade numerosa de corruptos e doadores canalhas.

É preciso manter a proibição de doações eleitorais das empresas, que de doação não tem nada, trata-se de dar com uma mão e receber com as duas, porque o contribuinte é quem sustenta essa hipocrisia das classes dominantes, incrustada nos três Poderes da República. De cada um milhão doado, quatro milhões entram na conta do empresário, por isso doavam tanto, com enorme facilidade e normalidade

Suplicamos, enfim, pela extinção do foro privilegiado e pelo cumprimento imediato do princípio jurídico de que a lei vale mesmo para todos os brasileiros, que estão nessa nau dos insensatos, para que não afunde e leve todos nós de roldão, num buraco sem fim. A pátria está em perigo, precisamos salvá-la do naufrágio.