segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

'Sabe a vergonha que sentimos por nos considerarem ladrões só por sermos brasileiros?'

Sandra, vizinha e amiga da família, me contava ao voltar de uma recente viagem aos Estados Unidos, onde tinha ido visitar os netos, que estava triste por constatar a imagem que os brasileiros têm em algumas cidades daquele país.

Ela me dizia que, ao entrar em um supermercado, colocaram discretamente uma funcionária ao seu lado quando perceberam que era brasileira, para ver se “roubava alguma coisa”.

Disse-me, com um sentimento de indignação: “Sabe a vergonha que sentimos por nos considerarem ladrões só por sermos brasileiros?”

De fato, existe o perigo de que o mundo pense que todos os brasileiros são corruptos como boa parte de seus políticos. E os corruptos se interessam em consolidar a ideia de que a corrupção está no DNA dessa sociedade.

Ninguém nega que também haja, como em todas as partes do mundo, cidadãos comuns que cometem pequenas corrupções. Nada, no entanto, é comparável com o que está surgindo nos porões escuros da corrupção política.

Resultado de imagem para vergonha brasileira

Seria uma ofensa e um desrespeito a esses cidadãos honrados que passam a vida trabalhando, ou que sofrem com o ferrão do desemprego e nem por isso se corrompem.

E que hoje são as vítimas econômicas da grande corrupção político-empresarial.

O perigo de que a imagem do Brasil acabe deturpada pelas notícias que chegam ao exterior sobre os escândalos de corrupção política, considerada uma das maiores do mundo, é real e injusto.

Esse baile de milhões de reais subtraídos do Estado; a quantidade de figuras públicas denunciadas, julgadas, presas e condenadas: deputados, senadores, ministros e ex-ministros, prefeitos e vereadores, e junto com eles os maiores empresários do país, vai criando um caleidoscópio que acaba oferecendo uma figura deformada do que é de como vive a sociedade como um todo.

É injusto, porque o Brasil real, o que trabalha e se endivida, o que não rouba e se conforma com o que ganha, representa 98% dos mais de 200 milhões de habitantes.

Basta um dado fornecido pela ONG Transparência Brasil para constatar o abismo ético que existe entre as pessoas comuns e os políticos: 59% dos deputados (303 em 513) têm algum problema na Justiça e até já tiveram condenações em primeira instância. Por outro lado, só 2% da sociedade tem algum processo judicial pendente, segundo o presidente da OAB Subseção de Santos, Rodrigo Julião.

Entre os ex-ministros dos governos progressistas de Lula e Dilma, 18 são investigados. E nos poucos meses de vida do atual governo de Temer, seis ministros já saíram.

Mais de 40 políticos com foro privilegiado esperam ser julgados pelo Supremo, alguns com até 12 processos em curso, sem contar os que poderão ser envolvidos no escândalo da Odebrecht, apelidado de “Delação do Fim do Mundo”. Calcula-se que mais de 100 políticos sejam acusados de corrupção.

Nos últimos 24 anos, dois presidentes da República, quatro presidentes da Câmara e três presidentes do Senado renunciaram ou tiveram de deixar seus cargos.

É uma lúgubre caravana de políticos importantes envolvidos em corrupção, que a sociedade observa incrédula e enfurecida. Essa sociedade que, sobretudo nas grandes cidades, utiliza todos os dias o transporte público para realizar seu trabalho, tantas vezes alienante, e para quem o aumento de alguns centavos na passagem do ônibus ou do metrô é motivo de angústia.

É o que dizia uma mulher trabalhadora, já idosa, que caminhava no Rio mancando e com o olhar triste e perdido.

Queixava-se a um repórter que a entrevistava que, para ela, “dois reais significavam muito dinheiro e dor”.

Ao contrário de tantos dos seus políticos que nadam no luxo com o dinheiro roubado do erário público, os brasileiros buscam seus momentos de felicidade no que de melhor e mais simples lhes oferece a vida, sabendo contentar-se com o fruto do seu trabalho.

O antigo ditado “pobre, mas honrado” não é algo fora de moda no Brasil. Continua sendo verdade para a massa de milhões de trabalhadores anônimos que tentam transmiti-lo aos seus filhos.

São eles que têm mais direito de se escandalizar com a corrupção de seus políticos e de exigir que prestem contas.

Podemos criticá-los quando aplaudem, ao ver os políticos, pela primeira vez neste país, entrando na prisão, cabisbaixos ou arrogantes?

Paisagem brasileira

Sabará, Davi Jupira

Os líderes do futuro?

O ano de 2016 não foi o de nossos sonhos. Cobramos muito dos políticos, dos juízes e dos empreiteiros. Cobramos ética, honestidade, austeridade, caráter, cidadania. O Brasil atravessa crise de valores. Pode ser positiva no final. Se temos instrução e dinheiro – raro privilégio no Brasil –, precisamos fazer nossa parte como pais e mães.

Não estamos fazendo.

Um exemplo são as festas nababescas e regadas a coma alcoólico, organizadas no Rio de Janeiro pela empresa FormaIdeal Obah para a formatura, no ensino médio, de jovens e adolescentes. Publiquei em ÉPOCA, em 2014, “Uma elite perdida”, sobre a festa de R$ 800 mil do Santo Inácio. A elite citada se descabelou, me xingou. Pais e rebentos do Santo Inácio se reuniram, o reitor soltou uma nota.

Interessante é que, agora, houve uma cisão dos alunos do Santo Inácio – uma ala consciente celebrou a formatura com festa bem mais modesta. A Forma ignorou o ano da crise: 180 pais do Santo Inácio pagaram R$ 2.700 para participar. E foram vendidos 2 mil convites avulsos de R$ 300. Ou seja, R$ 1.086.000, por baixo, foram arrecadados pela Forma com os convites. A Forma não tem nada de “Ideal”. Só de “Obah”.

Resultado de imagem para líderes do futuro

A festa do PH, colégio cujo slogan é “Escreva seu futuro com PH”, foi descrita pela jornalista Kika Gama Lobo em seu perfil no Facebook. Eis trechos de seu depoimento de mãe de meninas com juízo. Mãe trabalhadora e “quase solteira”, agora casada pela segunda vez, Kika nunca foi careta, mas se chocou com o clima de Sodoma e Gomorra.

“Foi uma superprodução tipo Hollywood. Paguei caríssimo, em 12 vezes. Linda decoração, comida a rodo, rodízio de japonês, som de prima, vestidos de Oscar, rapazes de tuxedo, mas me pergunto: pra que tanta bebida? Vi quatro ilhas de vodkas, cervejas, espumantes, drinks, energéticos – tipo festa de Bacco. A certa hora eram zumbis sacolejantes, com olhares perdidos dando PT (na gíria deles, ‘perda total’, nada a ver com partido, se bem que podia ser). Uma excitação forçada, uma alegria de gôndola, garotos e garotas vulgarmente em transe... (...) Vi meninas dançando em cima de pufes, vestidos curtíssimos, saltos altíssimos, decotes profundos – balinhas rolando, maconha no ar, mistura de etílicos, o som de proibidões que bradavam a cultura da bunda, do sexo, da droga, das armas, e as patricinhas se igualando a meninas da periferia em gingado e atitudes. No banheiro, a imagem da decadência, com vômitos e sujeira. (...) Eles já não tinham mais sapato, gravatas, enfeites do cabelo, bolsas... eram apenas corpos entregues... Os meninos pareciam lobos, caçando... As presas estavam ali. (...) Na volta, na fila do táxi, meninas sozinhas ou em duplas – seminuas e alteradas pela bebida – entrando nos ubers da vida... (...) Ainda acho que temos de educar melhor nossos filhos. Me incluo nisso. Passei tempo demais fora de casa, trabalhando, me desculpando por isso...” A festa do PH se intitulou “Reborn of the Sphinx”. Existe tema mais cafona – e num inglês totalmente errado, porque o certo seria “Rebirth of the Sphinx”? Vamos checar algumas regras da Forma para curtir saudavelmente essas festas cheias de menores.

■ Não jurarás amor, mas jurarás pinga.

■ Valorizarás cada GOTA de bebida.

■ O juízo perderás.

■ Se manterás impuro.

■ Não se preocuparás com o que a sociedade pensará.

■ Sarrarás.

■ Rebolarás o bumbum.

■ Com a língua, matarás.

■ Jamais se intimidarás com grandes copos e grandes doses, pois dessas demonstrações de coragem (sic) virão os grandes porres e a noite mais épica da sua vida.

Depois de publicar “Uma elite perdida”, recebi mensagem de um médico, Manuel Alexandre da Silva, que trabalhava no Hospital Municipal da Mulher Fernando Magalhães, referência em atendimento a vítimas de violência sexual:

“Atendemos no fim de 2013 uma adolescente de 15 anos, uma americana, filha de pai brasileiro que tinha vindo passar as festas de fim de ano com os parentes no Rio. Levada por sua prima à festa de formatura do colégio Santo Inácio, após embriagar-se, foi levada da festa por um desconhecido que a estuprou no interior de um táxi. Desnecessário comentar as condições psicológicas desta menor e de seus pais, diante de tamanha brutalidade. Parabéns pelo artigo, que espero repercutir nas consciências dos pais que patrocinam tal descalabro”.

Os pais que ousam criticar custos e formato das festas da FormaIdeal são expulsos da organização. Mas pagam a festa. Capitulam, por medo de desgostar os filhos e por achar a festa importante para “o futuro profissional dos filhos”. Não, nós não estamos fazendo nosso papel – e não adianta exigir da escola ou dos governos o que somos incapazes de fazer em casa. Vamos mudar para poder protestar.

No futuro de Temer cabu tudo, menos realidade

Esboçado num discurso de final de ano, levado ao ar na noite de Natal, o futuro do Brasil de Michel Temer está ali, na esquina, radioso, pronto para ser desfrutado. Nele, “2017 será o ano em que derrotaremos a crise.” Os empresários, prenhes de confiança, “voltarão a investir e vamos recuperar os empregos perdidos.” (Leia no rodapé a íntegra do pronunciamento de Temer)

Como qualquer outro futuro, o futuro do país de Temer é um espaço impreciso e impalpável. O presidente pode vender para si mesmo e para os brasileiros crédulos qualquer coisa, pois o futuro não pode ser cobrado nem conferido. Mas Temer poderia pelo menos ajustar o seu futuro à realidade do Banco Central, que reduziu de 1,3% para 0,8% sua expectativa de crescimento (pode me chamar de estagnação) do PIB para 2017.

Resultado de imagem para temer e o futuro charge

De resto, Temer esqueceu de mencionar —ou lembrou de omitir— duas palavras em seu discurso: Lava Jato. Em maio, quando assumiu provisoriamente a presidência da República, o mesmo orador dissera o seguinte: “A Lava Jato tornou-se referência. E como tal deve ter prosseguimento e proteção contra qualquer tentativa de enfraquecê-la.”

Pois bem, decorridos sete meses e várias tentativas frustradas de ''estancar a sangria'', os aliados de Temer estão presos ou sitiados por inquéritos. A cúpula do “novo” governo caiu ou está pendurada nos lábios dos delatores da Lava Jato. O nome do próprio presidente soou nas delações da Odebrecht. Seu pescoço encontra-se na guilhotina do Tribunal Superior Eleitoral, que decidirá no primeiro semestre de 2017 se baixa a lâmina.

Num cenário assim, tão conturbado, o máximo que Temer poderia dizer seria algo como “o futuro a Deus Pertence.” E ainda correria o risco de ouvir uma pergunta incômoda: “E quanto ao passado, quem responderá por ele?” Mas o ambiente é de festa. E o brasileiro, que costuma ser otimista entre o Natal e o Carnaval, deve estar ávido por viver neste país maravilhoso que Temer esboçou na tevê, seja ele onde for.

Sombras no ambiente

Não são boas as notícias ambientais. O desmatamento aumentou fortemente nos últimos dois anos e nada sugere que isso vá mudar porque o governo Temer acaba de dar um péssimo sinal ao reduzir o tamanho de uma área de proteção, a Floresta de Jamanxin, no Pará. O governo cancelou um leilão de energia alternativa, mesmo com 100 interessados na disputa que poderiam investir R$ 8 bilhões.

As diversas crises andam sugando a atenção do Brasil, a tal ponto que tem havido pouco espaço para se noticiar, debater e refletir os riscos ambientais e climáticos que estão surgindo. Só nas últimas semanas houve esses dois. Pela primeira vez desde 2009 não haverá um leilão em que produtores e eventuais compradores de energia limpa se encontram.

— O governo deu uma justificativa velha para desmarcar o leilão. Disse que a recessão diminuiu o consumo de energia. A questão é que era um leilão de reserva, feito para substituir energia termelétrica, mais suja e mais cara — disse Élbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica.

Sem o investimento nessa reserva limpa, o país usará, quando precisar, a energia fóssil. Élbia diz que o governo desrespeitou o setor:

— O governo publicou a portaria e o setor se preparou para o leilão. Estávamos com mais de 100 investidores estrangeiros no país para o leilão e três dias antes o governo cancelou. A demanda poderia chegar a 1 GW de potência instalada. Isso renderia R$ 8 bilhões de investimento e cerca de 15 mil empregos em toda a cadeia produtiva. A economia em emissões seria de 2 milhões de toneladas de CO2.

galileu_zansky_desmatamento:
Galileu Zansky
Outra má notícia foi que no último dia 19 o governo reduziu a área de uma floresta nacional, exposta e vulnerável à grilagem, beneficiando grileiros que invadiram terra protegida. Quando o Estado cede nesse tipo de embate, é um péssimo sinal porque incentiva outras invasões na mesma área.

O desmatamento se alimenta de sinais de fraqueza ou de cumplicidade do Estado. Quando o governo reduz os recursos para fiscalização e controle, como fez o governo Dilma, e dá sinais em seguida de que vai anistiar quem grila, confirma a ideia de que o crime compensa. A mesma Jamanxin já havia sofrido perda de tamanho na administração passada, mas nada se compara ao que o governo Temer fez: reduziu por medida provisória em 43% o território da Floresta Nacional, aceitando a presença de produtores que mantêm na área 110 mil cabeças de gado. Alegam que já estavam lá quando a Floresta Nacional foi criada, mas quem acompanha o desmatamento na Amazônia sabe que não é verdade. Eles ocuparam porque o governo Dilma vinha dando sinais de fraqueza. Agora o governo Temer confirmou a impressão. Em junho, um policial foi morto durante uma operação do Ibama no local. A resposta, em vez de ser mais fiscalização e controle, foi a redução da área protegida.

\O Pará foi o estado onde houve mais aumento do desmatamento em 2015, quando na Amazônia como um todo a destruição da floresta subiu 24%. Em 2016, os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ainda provisórios, mostram uma elevação de 29%. Em 2012, o desmatamento ilegal foi de 4,6 mil km2. Este ano, o dado provisório é de quase 8 mil km2. E o mais espantoso é isso ocorrer em plena recessão, quando normalmente tudo reflui, inclusive a derrubada ilegal de madeira, como aconteceu em 2009. Os sinais que o governo Dilma deu e Temer tem dado são tão eloquentes que mesmo num ambiente em que todas as taxas econômicas são de queda, as de destruição da floresta são cada vez mais altas.

A solitária boa notícia foi a mudança da política do BNDES, anunciada pela nova administração, de não financiar usina a carvão e a óleo combustível e subsidiar a produção de energia solar. Sobre as usinas do Rio Tapajós, o governo dá sinais de que vai recuar da decisão de suspendê-las. O presidente Temer falou que uma das conquistas do seu governo, na área ambiental, foi oficializar na ONU os compromissos do Acordo de Paris. Alguém precisa dizer a ele que para cumprir o que prometeu o Brasil tem que reduzir as emissões e isso se faz com combate ao desmatamento e estímulo à energia limpa. Seu governo está caminhando no sentido oposto. O nome disso é retrocesso.

Míriam Leitão

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Se Papai Noel descansa, sigamos o exemplo

Bom Natal
Com o espírito não empanzinado pela ceia, mas livre como a paz

Feliz Natal? Como se o mundo piorou?

Mafalda, a simpática, espevitada e contestadora menininha argentina que desde seu nascimento, em 1964, se preocupa com o estado de saúde do Mundo, com certeza deve andar desconsolada. Ela, que nunca se conformou em aceitar, tal como são, as coisas quando lhe parecem erradas, que passou noites em vigília ao lado do globo terrestre que ardia em febre, que recusava a sopa insípida do dia a dia por saber que há pratos muito mais saborosos, com certeza não pensava que mais de 50 anos depois, o Mundo ainda estaria doente.

Resultado de imagem para mafalda e o natal

Não me esqueço de seu comentário mais ácido para o Mundo que tanto ama: Se você tivesse fígado, que hepatite, hein? Fígado ele não tem, Mafalda, mas está cada vez pior.

Das Américas, da Europa, da Ásia, da África, de toda parte só nos chegam notícias de como o Homem, dono do Mundo, consegue ser cada vez mais cruel com seus semelhantes e com o ambiente no qual vivemos.

A Guerra na Síria e tudo que isso representa de bárbaro e hediondo, com seus milhões de mortos e milhares de crianças com suas vidas arrebentadas, é tão inclemente e desgraçada que acho difícil festejar seja lá o que for quando só temos é vontade de gritar, tal qual a Mafalda em sua tirinhas ‘Basta!’.

O Mare Nostrum, que foi o berço de nossa civilização, virou o túmulo dos que tentam escapar de guerras e de ditadores e de fome e de doenças. Atravessá-lo e ir viver na outrora linda Europa é o sonho de tantos que fogem de seus países, na esperança de poder dar a seus filhos a vida que em suas amadas terras lhes é negada.

Esquecem todos, ou quase todos, que os europeus muito lutaram e sofreram para chegar ao estado que hoje invejam. Cenário principal de duas guerras brutais há cem anos, será que a Europa merece ser novamente destruída? Mas, ao mesmo tempo, será que os refugiados que ali buscam um lar, não merecem ser acolhidos?

Na Inglaterra, terra de João Sem Terra, venceu uma estranha Brexit que pretende afastar as Ilhas Britânicas do Continente muito mais que os 240 km da parte mais larga do braço do Atlântico que os separa. Acho estranha a vitória do Brexit e como aprecio muito aquelas ilhas, torço para estar errada e para que o Brexit tenha sido a solução ideal. Mas... será?

Na riquíssima África, talvez o continente mais rico de todos, imperam a miséria e a fome e os ditadores arquibilionários que enchem as burras com o dinheiro que o Ocidente lhes envia para pagar pelos bens que a África torra, nunca em proveito dos africanos, sempre em proveito de seus chefes tribais transformados em chefes de governos brutais.

Na Ásia, dois gigantes, cada um de um lado da roda da vida. A China, sempre mais desenvolvida e rica, a Índia, cada vez mais atrasada e problemática. E uma Coreia do Norte nas mãos de uma dinastia ensandecida, que não sabemos ao certo se possui ou não armas nucleares. O que será do mundo se por acaso um chefete resolver apertar o botão errado?

Nas Américas, ah! meu Deus, nas Américas... Só em pensar em todo o estrago que uma figura como Donald Trump pode fazer ao nosso continente, e ao mundo, meu coração perde uns compassos e a arritmia se instala.

Quando leio um twitter do Trump só me vem à mente o seguinte: Saramago tinha razão. Do twitter de 140 toques ao grunhido, é um suspiro... E esse presidente, que os americanos inadvertidamente elegeram, ao que parece pretende governar por twitters.

E aquele urso branco que já não tem onde caminhar, que fica imóvel sobre um pequeno pedaço de gelo porque a vastidão onde nasceu vem desaparecendo aos poucos? Será que não dá para alguém levar o Trump para sobrevoar o Polo Norte?

E aqui, em nosso quintal? Daqui não falo. Porque não sei o que dizer. Só sei perguntar: quando é que os réus vão ser julgados? Se demorar muito mais, nunca terminaremos nossa saga, porque a cada volta do parafuso, mais réus aparecem.

Como, então, desejar Feliz Natal ao mundo? Fica difícil, não é?

No entanto, como deixar passar em branco essa data? Quem sabe se todos gritarmos juntos o Mundo não saia de seu torpor?

Vamos lá, respire fundo e grite: Feliz Natal!
Nenhum texto alternativo automático disponível.

A tara do adesismo na política brasileira

Sendo a política predominantemente concebida no Brasil como “o que ocorre em torno do Estado”, não há vacina poderosa o suficiente para imunizar os políticos da forte atração centrípeta do Estado e que se manifesta sob a forma de um adesismo generalizado a quem o ocupa que tende à unanimidade. Essa é uma das “taras” mais peculiares da cultura política brasileira que caracteriza o comportamento das elites políticas com relação aos governos, sejam eles quais forem.

Só não tem base política no Legislativo aquele governante que não a quiser. Na realidade, qualquer novo governo no Brasil, se não fechar as portas do poder, será invadido. Não há barreira programático/ideológica, partidária ou ética que seja capaz de conter o vício tentador da adesão ao poder, aos cargos, mordomias e o acesso às facilidades para a corrupção.

A expressão mais acabada dessa característica da cultura política brasileira se manifesta nas ondas de unanimidade nacional que varrem os cenários políticos, uma vez definido o vencedor. Foi assim com os governos da Arena durante o regime militar; com a campanha das Diretas Já, transferindo-se logo após para o processo de constituição da Aliança Democrática e ao governo Tancredo/Sarney; com o Plano Cruzado, episódio emblemático do adesismo, quando o PMDB elegeu todos os governadores estaduais, com apenas uma exceção!

Resultado de imagem para adesismo político charge
O mesmo processo repetiu-se com o impeachment de Collor e, logo em seguida, na formação do governo Itamar. Fernando Henrique, com o Plano Real, obteve vitória em primeiro turno e, navegando mais uma onda de quase unanimidade, não teve problemas para conquistar maioria no Congresso, sempre que se empenhou.

A comprovar que a tara do adesismo não conhecia limites partidários, o governo Lula, não obstante o escândalo do mensalão, levou o adesismo ao paroxismo, chegando à quase unanimidade decorrente da corrupção, como ficou visível e conhecido por meio da Operação Lava Jato.

O adesismo do governo Lula, bem lubrificado pela sua popularidade e pelo seu peculiar carisma, não se limitou à sua pessoa. Passou para Dilma, a sucessora que elegera e que, embora destituída de todos os atributos de imagem que Lula possuía, não teve problemas em contar com ampla maioria no Legislativo.

Por fim, com o impeachment de Dilma, o adesismo, como uma “ameba gigante”, não teve maior dificuldade de se reagrupar, com inegável disposição no governo Temer.

Como se vê, o adesismo não é uma peculiaridade de um determinado grupo de partidos, pertencentes ao setor de centro-direita do espectro político; tampouco não dependia da prática democrática, já que soube se acomodar sem dificuldade na Arena do período autoritário; conseguiu também se alojar na nova República do governo Sarney; sobreviveu à ampla modificação do sistema político, com a Constituição de 1988; depois ajustou-se ao Plano Real, à rigorosa Lei de Responsabilidade Fiscal e ao governo FHC; chegando ao “paraíso” no governo Lula e Dilma, com o estímulo extra do pagamento mensal por serviços prestados e, para espanto do mundo, com o petrolão ainda em investigação, um escândalo numa escala de país altamente desenvolvido e multinacional.

O fato é que o adesismo não pertence ao mundo da conjuntura, já que foi capaz de saltar sobre todos os obstáculos e mudanças que se sucederam na política brasileira desde Getúlio, passando pelo regime de 64, pela Nova República, pela Constituinte, pelo governo Itamar, pelo governo FHC, por Lula e Dilma, até chegar aos nossos dias com Temer.

Curiosamente, só o breve governo Collor não se beneficiou deste adesismo, até onde se sabe em grande medida por que não o quis, e, segundo muitos, foi essa recusa a razão principal para o impeachment.

Ao contrário dos países de cultura política de democracias estáveis, no Brasil, ser da oposição é ser amaldiçoado; o trágico é “perder a boquinha” no governo. Nossa cultura política está muito mais para um processo tendente à unanimidade do que para o conflito.

Em consequência, não temos oposição como uma estrutura política independente, que se mantém como alternativa ao governo. Somente um raciocínio político desligado da realidade, portanto, pode conceber como “solução” política para o País, por exemplo, o parlamentarismo, regime político que depende de modo absoluto da existência de uma oposição para sua dinâmica de funcionamento.

O eufemismo mais recente para revestir de dignidade o oportunismo adesista é o conceito de governabilidade: a pretensa necessidade de formar maioria parlamentar permanente para governar. Depois que esta “justificativa nobre” foi encontrada, o processo atingiu as raias do indecoroso, atenuado por um conceito com pretensões acadêmicas – presidencialismo de coalizão – que logo passou a ser utilizado de forma deturpada pela linguagem política como uma justificativa elegante para o adesismo.

O adesismo é, pois, um traço estrutural do sistema político. Diante de sua força, chega a ser irônica a tentativa de modernizar nosso sistema político por mais uma soi disant reforma da legislação política.

Tais reformas não passam de aperitivo para a fome incontrolável da tara adesista, a mesma que não hesitou em engolir todos os artigos, parágrafos e incisos da nova Constituição.

Como traço estrutural, o adesismo ainda vai viver conosco por um bom tempo, corroendo e corrompendo nossas práticas políticas, no estado de instabilidade política crônica em que vivemos e que ainda vamos ter de viver por muito tempo, como detalhadamente analisei no meu livro Brasil: a cultura política de uma democracia mal resolvida.

Esta “tara adesista” de boa parte da classe política e empresarial, tão característica de nossa cultura e prática política, compromete – e pelo visto continuará comprometendo – severamente a independência dos poderes, a eficiência do governo e, em consequência, a qualidade de nossa democracia.

Organiza o Natal

Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

A Árvore de Natal de Stephen Mackey Stephen Mackey´s Christmas Tree:
Stephen Mackey 
Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.
Carlos Drummond de Andrade

Inventando esperanças

De 1998 a 2010 votei em Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis como meus representantes na Câmara dos Deputados. Na última eleição, em Miro Teixeira. E eles não me decepcionaram no comportamento pessoal e na atuação política, nas vitórias e nas derrotas representaram fielmente o que nos identificava nas eleições.

Com certeza os eleitores de parlamentares de diversos partidos, como os senadores Cristovam Buarque, Simone Tebet, Ricardo Ferraço, Antonio Anastasia, Randolfe Rodrigues, Aloysio Nunes, Ana Amélia ou Magno Malta, ou de deputados como Chico Alencar, Alessandro Molon, Antonio Imbassahy, Jarbas Vasconcellos, Marcelo Freixo, Mara Gabrilli, Raul Jungmann ou Jean Wyllys, se sentem representados e confiam em seus representantes. Estima-se que eles sejam um para cada cinco da atual legislatura: os 300 picaretas de Lula passaram para 400, como mostraram as últimas votações.


Não, os políticos não são todos iguais, ainda não. Mas não basta ser honesto, é preciso parecer honesto, boas intenções e nobres ideais não são suficientes, é preciso ser combativo e competente na defesa dos interesses de seus eleitores e do país. Em cálculos otimistas, no atual Congresso são quatro bandalhos para cada parlamentar decente, eficiente e acima de suspeitas. Somos uma minoria multipartidária, de diversas posições políticas, e brigando entre si. Mas é o que nos resta, fora da instituição não há salvação.

É difícil, no atual cenário, mas é preciso manter a confiança e esperança nos nossos representantes. Ainda temos essa minoria ativa que resiste e pode impedir a aprovação da anistia ao caixa 2 e denunciar sabotagens contra medidas anticorrupção. Se não contarmos com eles, com quem então?

Por falar em caixa 2: se a empreiteira prova que pagou uma quantia não contabilizada a um político, e ele não consegue comprovar que a gastou em despesas de campanha, é propina, compra de votos ou lavagem de dinheiro? E embolsar o caixa 2, é o quê?

A esperança do Ano Novo é que esse lixo seja varrido do Congresso pela Lava-Jato e pelos parlamentares decentes, limpando a área para novas lideranças.
Nelson Motta 

Cabral mudou de grife

Até pouco tempo, deputados e senadores recebiam o chamado auxílio-paletó. O agrado era depositado todo fim do ano, como se fosse um presente de Natal. Alegava-se que suas excelências precisavam de ajuda para comprar ternos, traje obrigatório na vida parlamentar.

Sérgio Cabral, o ex-governador do Rio, parece ter criado sua própria versão do benefício. Ela poderia ser chamada de Bolsa Ermenegildo Zegna. Enquanto o Estado caminhava para a falência, o peemedebista torrou R$ 258 mil para se vestir com roupas da grife italiana.

As compras foram pagas em dinheiro vivo, segundo documentos reunidos pela Lava Jato. Os investigadores afirmam que Cabral usou “produto do crime” para renovar o guarda-roupa. Ele é acusado de cobrar propina nas obras do Complexo Petroquímico do Rio, um dos projetos mais ambiciosos da Petrobras.

Resultado de imagem para cabral na prisão charge

O ex-governador começou a investir nos ternos italianos em 2011. Em julho do ano seguinte, fez sua maior aquisição: R$ 89.950, quitados “por meio de 11 (onze) operações bancárias de depósito em dinheiro, fracionadas em valores inferiores a R$ 10.000,00 (dez mil reais)”.

O objetivo do parcelamento, segundo os procuradores, era “ocultar a origem e a natureza criminosa dos valores oriundos dos crimes”. Toda compra acima de R$ 9.999,99 precisa ser informada ao Coaf, órgão do Ministério da Fazenda que fiscaliza movimentações suspeitas.

A grife preferida de Cabral é citada 83 vezes na denúncia que o acusa de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no petrolão. No mês passado, os policiais que visitaram seu apartamento encontraram uma vasta coleção de ternos da marca. As etiquetas eram personalizadas com o nome do político e a inscrição “su misura” (sob medida, em italiano).

Desde que se mudou do Leblon para Bangu 8, o peemedebista foi obrigado a adotar um novo estilo. Agora só é visto em trajes na cor verde, com a assinatura da grife Seap.

Puer natus est nobis

Coro dos monges da abadia de Nossa Senhora
da Assunção, no mosteiro de São Bento (São Paulo)

Como trabalhar pela igualdade

Fim de ano, sucedem-se os cálculos: quantos nasceram no mundo, quantos morreram, quantos seremos, em que espaço de tempo? E a partir daí, muitas equações. Quantos médicos? Quantas mulheres não se casarão? Quanto ganharão, comparando com os homens? Etc., etc.

O capítulo mais difícil certamente estará nas cifras nacionais, que nos falam muito de perto das desigualdades. As mulheres continuam trabalhando em média cinco horas por dia mais que os homens e ganham apenas 76% do salário médio masculino. Elas têm menos oportunidades de assumir cargos de chefia ou direção, até mesmo porque são discriminadas em razão da dupla jornada (horas no emprego e em casa), que reduz em algumas horas diárias a sua disponibilidade – sua jornada semanal de trabalho fora é inferior em cinco horas e meia à dos homens (50 horas ante 55,5). Além disso, as mulheres dedicam duas vezes mais tempo do que os homens às atividades domésticas (Instituto Humanistas Unisinos, 6/12) – eles dedicam às atividades em casa apenas dez horas por semana.

A Powerful Picture:
É um panorama que não mudou em uma década, embora 70% das mulheres estejam fora do mercado de trabalho. Mesmo que exerçam funções de chefia e direção muito semelhantes às dos homens, mulheres recebem (pelo nível de chefia, além do salário) cerca de 25% menos do que eles.

E continua a aumentar o número de mulheres que são chefes de família: elas têm essa responsabilidade em 40% das casas; homens na mesma situação são poucos, quase exceção. Mulheres que não trabalham, dos 15 aos 29 anos, são 21,1%; na mesma idade e na mesma situação, só 4,7% dos homens.

De 2005 a 2015 cresceu de 11,4% para 17,8% a proporção de negros entre os brasileiros ricos. Entre os mais abonados, oito em cada dez são brancos; entre os mais pobres, três em quatro pessoas são negras, diz o IBGE. Mais de metade da nosso população (54%) é de pretos ou pardos. A cada dez pessoas, três são mulheres negras.

Embora tenha melhorado em dez anos – de 36,9% para 26,4%, entre 2005 e 2015, na faixa etária de 15 a 17 anos –, o atraso escolar no Brasil ainda é alto, segundo a Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE publicada no início do mês (Estado, 3/12). Entre os 20% de famílias mais pobres, o índice chega a 40,7%, “quase cinco vezes maior que o indicado nos 20% mais ricos (8,2%)”. Explicou o IBGE que “a distorção idade/série”, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), “se refere à proporção de estudantes com idade pelo menos dois anos acima da esperada para a série em que estão matriculados”. A defasagem chega a 36,4% no Nordeste; é “mais dramática entre os jovens que moram em áreas rurais e também entre pretos e pardos”. Mais de um terço dos jovens acima de 15 anos já repetiu de ano mais de uma vez. “Na rede pública o atraso é 3,6 vezes maior.” Um em cada quatro jovens não estuda nem trabalha – são os chamados “nem-nem”, aos quais se referem, em tom zombeteiro, os seus contemporâneos.

A diferença entre áreas urbana e rural no País também é grande, na faixa de estudantes de 15 a 17 anos com até dois anos de atraso na escola, assim como entre estudantes pretos e pardos (31,4%), de um lado, e brancos (18,9%), do outro (em 2015). Para além da defasagem entre brancos e pretos, nas universidades públicas, em 2005, apenas 0,9% dos estudantes figuravam entre os 20% mais pobres; em 2015 já eram 8,3%.

É penoso tentar trabalhar com indicadores sociais no Brasil. Por exemplo, a questão do aborto, que ainda há poucos dias ocupou muitos espaços na comunidade, quando o Supremo Tribunal Federal decidiu não ser crime a interrupção voluntária da gravidez praticada nos três primeiros meses de gestação. Os favoráveis e os contrários serão dezenas de milhões; de ambos os lados, pessoas capazes de chegar às vias de fato em defesa de seus argumentos. Mas houve também, nos jornais, quem defendesse uma política nacional que abranja uma “cultura de cautela sexual”, uma discussão civilizada que faça avançar as práticas nessa área – e não apenas a defesa do uso regular de preservativos.

E é possível avançar. Todos os dias se ouvem debates acalorados a respeito da falta ou penúria de recursos para campanhas e ações a respeito de tudo. Por que governos e instituições não se dedicam a discussões públicas e civilizadas em que um lado possa ouvir o outro lado manifestar-se sobre o que for importante para a sociedade, do aborto à prioridade de políticas e obras governamentais?

Não se pode mais ouvir a cantilena demagógica dos julgadores indiferentes – fantasiados de sisudos defensores dos interesses coletivos, que ocupam posições importantes para a sociedade, mas fecham os olhos a problemas vitais em tantas áreas, como, por exemplo, a da defesa sanitária.

Ainda há poucos dias Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura advertiu: mais de 2 bilhões de pessoas no mundo sofrem de deficiências nutricionais e cerca de 450 milhões de crianças com menos de 5 anos de idade têm o crescimento atrofiado por dietas pobres; ao mesmo tempo, 1,9 bilhão de indivíduos estão acima do peso ideal; a alimentação inadequada custa US$ 3,5 trilhões por ano ao desenvolvimento econômico e aos investimentos em saúde dos países.

Não há tempo a perder. Os fatos no mundo das atividades econômicas desenvolvem-se no ritmo acelerado do cotidiano: quem perder tempo será ultrapassado. Então, é preciso adaptar sem perda de tempo os currículos educacionais, principalmente universitários, às necessidades da vida fora dos campus. Mas sem esquecer estas últimas – para que se tenha uma educação que possa ser mais abrangente, mais próxima da vida concreta de todos os segmentos sociais. A igualdade, aí, começa pela justiça, em todos o segmentos, da formulação de todos os currículos. Pelo ensino e pela prática da igualdade.

'O lugar mais perigoso deste planeta é um hospital'

 Resultado de imagem para hospital no brasil charge
Uma das coisas que sabemos é que temos de mudar a forma em que distribuímos a saúde. Temos de levá-la às pessoas nas suas casas. Em suas comunidades, fora dos hospitais, em lugares especializados. E só usar o hospital como último recurso
William A. Haseltine

Brasil corre perigo

O Brasil corre riscos sérios. Estou longe, mas acompanho sempre que posso o que está acontecendo aí — e com preocupação cada vez maior. A situação mundial, marcada por aguda polarização, oferece grandes perigos para nações fragilizadas por conflitos internos. Existem certamente casos mais graves que o brasileiro, países destroçados por intervenções externas e/ou crises domésticas: Síria, Iraque, Líbia, Grécia — para citar casos mais notórios.

Não chegamos a esses extremos, mas não há como negar que o nosso país está em perigo. Dos Brics, o Brasil é no momento o mais vulnerável. E repare, leitor, que a situação da Rússia e da África do Sul é bem complicada. A China também enfrenta desafios econômicos, institucionais e políticos. A Índia acaba de lançar uma reforma monetária radical, com efeito desestabilizador. Em todos os quatro países, a corrupção é problema grave.

Mas, entre os Brics, o Brasil é “hors concours”. Não necessariamente em corrupção, mas na fragilidade do quadro econômico, social e político. As razões parecem claras. Primeiro, a intensa polarização interna. O que antes era patrimônio dos nossos vizinhos ao Sul — a incapacidade crônica dos argentinos de conciliar e chegar a entendimentos — parece ter sido importado maciçamente pelos brasileiros. A intolerância, o colapso do diálogo, a perda de legitimidade de instituições fundamentais, o enfraquecimento da democracia — tudo isso representa um imenso perigo para a nação brasileira. E mais o seguinte: o triunfo da mais profunda e radical ignorância em diversos campos da vida nacional.

Resultado de imagem para brasil em perigo charge

A essa degradação política e social se acrescenta uma das piores crises econômica da nossa história. Recessão forte e prolongada, desemprego crescente, redução dos salários reais — “em casa onde falta pão...” A crise econômica alimenta a crise política, e vice-versa. Nesse ambiente, os governos brasileiros perderam apoio e legitimidade, a classe política atingiu o seu nadir, a Justiça perdeu o Norte.

Criou-se, leitor, um terreno fértil para a intervenção estrangeira — e era neste ponto que queria chegar. A intervenção externa não precisa ser ostensiva — e muito menos militar. Ela toma formas mais sutis. Com o enfraquecimento dos governos e a crise econômica, fica mais fácil para investidores de outros países, não raro com apoio estratégico de seus governos, aterrissar no Brasil e comprar empresas, terras e outros ativos brasileiros sem controle ou restrições — e na bacia das almas. O Brasil está à venda, em liquidação? Quem protege os nossos interesses? Quem nos representa no plano internacional?

Leitor, não se iluda, para determinados fins estratégicos não há substituto para o Estado nacional. Os setores privados, as organizações da sociedade civil, as universidades, os intelectuais, os artistas — todos eles carregam de alguma forma, bem ou mal, o estandarte nacional, por onde quer que andem e circulem. Mas não existem instâncias supranacionais a quem um país possa confiar a defesa dos seus interesses nacionais e dos seus objetivos vitais. Ou existem? Peço ao leitor que me aponte uma, pelo menos uma.

As entidades multilaterais mais relevantes são internacionais, vale dizer são associações entre nações, entre Estados — e delas só se beneficiam aqueles países que têm um mínimo de coesão interna e um Estado razoavelmente estruturado.

O Brasil precisa encontrar um meio legítimo de superar o quadro de polarização destrutiva e frear o processo de desintegração em curso.

Paulo Nogueira Batista Jr.

Imagem do Dia

Sunset And Mist:

Falta um número

Dias atrás a Odebrecht pediu homéricas desculpas ao público por haver distribuído propinas a políticos, partidos, governos e administradores do Brasil e de mais onze países das Américas e da África. Foi preciso que esta semana o Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgasse o total do dinheiro podre destinado pela empreiteira a um monte de clientes nacionais e internacionais. Por enquanto, um bilhão de dólares reconhecidos.

Fica faltando o número-chave correspondente a esse que foi, segundo os americanos “o maior caso de pagamento de suborno da História”: quanto a Odebrecht lucrou com a distribuição do suborno?

Resultado de imagem para odebrecht arrasou país charge
Porque nem é preciso argumentar: toda empresa que investe, em especial ilicitamente, tem um único objetivo, o lucro. Se gastou um bilhão de dólares subornando todo tipo de agentes públicos, quanto terá faturado em contrapartida? Dois bilhões? Três ou quatro?

A essa trama agora revelada por completo falta o principal: a empreiteira, e outras também envolvidas na mesma prática, lucraram horrores. Onde estão esses recursos? Não terão saído pelo ralo aberto com as investigações e delações, pelo menos na sua totalidade. Em parte estarão aplicados, depositados ou rendendo juros e sucedâneos. Enriqueceram o patrimônio de seus dirigentes e responsáveis e não se tem notícia de devoluções.

As empreiteiras valeram-se de leis, medidas provisórias e toda sorte de instrumentos votados pelos beneficiários das propinas, parlamentares e políticos. Daí a origem de seus lucros ainda não contabilizados. Portanto, falta um número na relação criminosa.

Pacote de serviços?

A Assembleia Legislativa gaúcha está votando um conjunto de vinte e tantos projetos voltados para a redução do gasto público, com ênfase à supressão de diversas atividades periféricas do Estado. Assistindo aos debates pela TV, presenciei o momento em que um parlamentar petista anunciou da tribuna que o governo Sartori, com essas providências, entraria para a história como o pior da vida administrativa do Estado. Impossível, excelência! Nem Nero, nem Calígula, se governadores do Rio Grande, conseguiriam ser mais destrutivos do que Tarso Genro. Em plena crise determinada pela infeliz conjugação de quatro sucessivos mandatos petistas no governo da União, Tarso Genro seguiu a cartilha dos piores economistas do PT e meteu o pé no acelerador da despesa. Recebeu o Estado gaúcho com as contas equilibradas e entregou um orçamento deficitário em R$ 5 bilhões. Não satisfeito, ao encerrar seu mandato em 2014, legou a seus sucessores aumentos salariais de servidores para serem cumpridos ao longo de cinco exercícios vindouros.

Vejo empresas fechando as portas, empresários vendendo bens para manter ativos os negócios, jovens abandonando os estudos, brasileiros deixando o país. Só o estatal continua como se não houvesse recessão, elevando seu peso sobre a sociedade. Se o poder público no Brasil, nas suas três esferas administrativas e nas correspondentes instituições, fosse um pacote de serviços, você o compraria, leitor? Claro que não! Esse pacote, se de consumo obrigatório e fornecido por uma única instituição, a tornaria campeã de queixas e denúncias ao Procon, por péssima qualidade e preço abusivo. Ele custa a cada "consumidor" de 30% a 50% de seus ganhos, sendo que a maior proporção corresponde às faixas de renda mais baixas.

Resultado de imagem para resultado do imposto pago charge

Pagamos tudo isso para, bem resumidamente:

• termos educação pública de péssima qualidade;
• morrermos nas filas de espera do "quase perfeito" SUS;
• vivermos numa selva urbana que está a exigir um par de anjos da guarda adicionais, preferivelmente brasileiros, treinados para os sobressaltos do cotidiano nacional;
• termos uma justiça lenta e uma execução criminal que não consegue prender e manter presa a bandidagem que infelicita nossa vida;
• sabermos que os processos referentes aos grandes corruptos da nação, mundialmente notórios ladrões do nosso dinheiro, estão sob proteção da última trincheira da impunidade - o moroso e rumoroso STF;
• dispormos de uma infraestrutura precária e deficitária em saneamento, energia e transportes.

Nas eleições municipais de outubro, a sociedade deu uma lição aos partidos de esquerda que na prática de gestão operam como usinas de desastres. Os eleitores desse último pleito derrubaram o até então todo-poderoso PT para a minguada 6ª posição entre os partidos nacionais. E esse resultado expressa, essencialmente, rejeição ao estatismo, ao aparelhamento partidário do Estado e à irresponsabilidade fiscal que o PT transformou em grife.

Pois mesmo assim, a Assembleia gaúcha vem presenciando, nestes dias, um verdadeiro carrilhão, com os deputados oposicionistas, em rodízio, reproduzindo da tribuna um discurso segundo o qual só sairemos da atual crise deixando tudo como está. No entanto, nenhuma organização que busque a própria sustentabilidade pode dar-se ao luxo, por exemplo, de manter toda uma rede de centros de custo periféricos dela dependente, na ausência dos quais a vida segue exatamente tal e qual.

Após tantos anos assistindo nada ser feito em razão de que "só isso não resolve", finalmente estão sendo tomadas providências para, no tempo, em somatório de sacrifícios, com vistas ao bem comum, transformar o pacote de serviços em mercadoria comprável, por preço compatível.

Percival Puggina

Entre bilionários

O jornal para o qual escrevo sobre o Brasil publica de vez em quando um especial sobre golfe. Para eles, não importa se você é especializado em jornalismo político, econômico ou social: de tempos em tempos, é obrigado a escrever sobre gramados, bolas e tacos. Assim fui parar nos clubes de golfe do Rio de Janeiro e tenho que admitir: que mundo interessante! Cheguei a me oferecer como voluntário, e hoje sou o autor de três artigos sobre golfe.

Na Europa e nos EUA, o golfe é um esporte popular, apesar de monótono. Mas, no Rio, é um evento exclusivo para o 1% mais rico de seus habitantes. Só há dois clubes que podem ser levados a sério – Gávea e Itanhangá – e cada um deles tem menos de 500 sócios. "Aqui na sede do clube se encontram as pessoas responsáveis por um terço do PIB brasileiro", sussurraram em meu ouvido na primeira visita à Gávea, meio que me incentivando a virar sócio.

Resultado de imagem para golfe charge
Fui apresentado a uma princesa, usando uma camisa pólo na cor rosa-princesa. Era uma descendente de longe do imperador Dom Pedro. Apostamos corrida com nossos carrinhos de golfe pelas colinas pitorescas e, depois, nos desculpamos diante dos demais sócios, incomodados pelo barulho. Recebi ofertas de vinhos tintos selecionados e a "sobremesa para desportistas" à la Itanhangá: crepe com Nutella.

Em seguida, uma viúva próspera me convidou para um expresso forte. Explicou quem realmente faz parte do círculo social dos clubes e quem não faz. "Recomendações da sociedade, um comportamento impecável e altos padrões morais em questões financeiras" seriam os critérios. Quis saber por que, então, tantos industriais e executivos são sócios. Não estão todos envolvidos em escândalos de corrupção? "Haha, não diria que você não tem razão", respondeu a velha dama, e riu com malícia.

Algumas das mil pessoas mais ricas do Rio fazem parte de uma espécie de grupo de trabalho social com carrinho e taco. Elas distribuem nas escolas equipamentos para iniciantes: kits de plástico, que não fazem muito sentido, já que a maioria das crianças nunca vai ter acesso aos campos de golfe. Em um município da periferia do Rio, Japeri, mecenas do golfe instalaram um percurso para crianças de origem muito pobre. Nele, futuros jogadores de golfe jogam entre si. "Golfe como meio de integração social", diz uma placa na sede do clube. Sinceramente, posso imaginar programas sociais melhores.

Mas eu não estava com a menor vontade de escrever um artigo sobre a luta de classes para a revista ZEIT Golf. Para mim, esse só se tornou um tema relevante mais tarde, à noite, quando observava o "pós-golfe". Saí com uma herdeira rica – designer de moda, socialite, modelo ocasional e celebridade de TV. Sentados diante de muitos cocktails premiados em um bar de Ipanema, pedimos carambola com vodca e gengibre, chili, tamarindo, tequila e pimenta e muito mais. Sob a mesa, eu mandava mensagens de texto para o meu editor dizendo que a conta do bar iria ultrapassar o orçamento do mês. Golfe? Minha entrevistada não achava a menor graça. Simplesmente "faz parte" ser sócio de um clube de golfe. "Gosto da piscina", disse, "e gosto do restaurante. Para mim, a Gávea é o melhor country-club da cidade".

Assim não conversamos nada sobre golfe, mas sobre a vida. Falamos de restaurantes caros, balneários idílicos, helicópteros, vilas, trips por cidades de todo o mundo. Só no final me atrevi a perguntar qual era a opinião da herdeira sobre o recém inaugurado campo de golfe olímpico, que fica entre o Recreio e a Barra da Tijuca. Mas talvez tenha sido uma pergunta estúpida.

"A Barra é uma outra cidade", recebi como resposta. Há uma "distância cultural". Entendi. Barra e Recreio são o Eldorado da classe média emergente, ou seja, não é para os ricos dos clubes de golfe. "Gosto de poder alcançar todos os lugares de bicicleta", esclareceu minha entrevistada. Ela vivia, como os de seu meio, nos bairros nobres da zona sul, em Ipanema e no Leblon. Lá se está sempre perto da praia, dá para correr e jogar vôlei. Uma vida próxima da natureza, conforme o seu ideal. E aí a herdeira levantou-se e se foi: tinha um outro compromisso, uma festa nas redondezas esperava por ela.

Thomas Fischermann

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

A imagem pode conter: texto

Desse jeito acaba em sangue

Os acontecimentos de terça-feira na Câmara dos Deputados e a cobertura que lhes deu a imprensa são a ilustração exata do esquema denunciado no último artigo.

O PT, cujos filiados e militantes são essencialmente os funcionários públicos de quem o partido morde 30% do salário, liderou a “rebelião” à qual se deixaram docemente constranger aquelas figuras gordas e luzidias metidas nos seus ternos e gravatas italianos de dentro e de fora da chamada “base aliada”, contra a proibição de reajustes para servidores, a criação de novos cargos, a realização de concursos públicos, a criação de despesa obrigatória de caráter continuado e o gasto com publicidade oficial em troca do refinanciamento das dividas estaduais pela União.


Isso significa autorizar a transferência do rombo dos estados para a União, o ente de governo com poder de emitir moeda, o que equivale a decretar que, por cima da carga esmagadora de impostos que já nos remeteu a estas profundezas em que estamos, a conta será paga com inflação, a pá de cal sobre os miseráveis do Brasil, sem que os fabricantes dessa miséria fiquem sequer sugestionados a deter qualquer dos expedientes que usam para fabricá-la, muito ao contrário.

E a imprensa em peso, onde todo mundo é pai, filho, irmão ou cônjuge de alguém que é funcionário público, trata isso não como uma derrota do povo brasileiro mas sim como “uma derrota do governo” que todos têm trabalhado furiosamente para solapar por “desonestidade” e “conluio com a corrupção”.

Não tem jeito mesmo. Essa putaria vai acabar em sangue…

O Brasil está precisando de bombeiros, não de incendiários

Quando escrevo meus artigos, torço bastante para que (eu) seja entendido pelo leitor. Quando os envio ao jornal, nem sempre seguro do que escrevi, falo para mim mesmo: “Por que tanto sofrimento? O leitor saberá, com certeza, destrinchar o que escrevi nas entrelinhas”.

Infelizmente, porém, nem sempre acontece assim. Há leitores que me cobram mais clareza. Ou, com energia, um mínimo de coerência. Nunca tenho o que reclamar deles. Sinceramente. A culpa é somente minha. Fui eu quem não soube transmitir, corretamente, o que desejava. Afinal, ninguém me obrigou a tornar público o que penso sobre a política do meu país em tempos bicudos. Sou o único culpado daquilo que me incomoda mais do que ao verdadeiro destinatário destas linhas.

Quando afirmei, por exemplo, que o mais importante para nossa incipiente democracia é que os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário vivam em paz, quis dizer que é desejável que sejam harmônicos e independentes, além de obedientes a nossa Constituição Federal. Isso não significa que ela não possa jamais ser emendada. Pode, sim, mas pelo Poder que a promulgou. É essencial que a Constituição seja o nosso norte. Como afirmei e aqui novamente reitero, ela dará conta do recado.

É verdade que o país nunca passou, simultaneamente, por inúmeras crises graves e profundas. O momento, todavia, requer bombeiros, e não incendiários. Não foi a operação Lava Jato que tornou público esse quadro cruel. Amedrontador. O ambiente político já vinha se deteriorando desde o mensalão, no governo do ex-presidente Lula. E a ex-presidente Dilma Rousseff conseguiu piorar a política e a economia. O presidente Temer poderia tê-lo administrado se outros fossem os atores políticos de seu governo. Nomeou equipe econômica competente na certeza de que, com ela, resolveria todos os problemas. Esqueceu-se de que não se governa mantendo ao lado apenas amigos e correligionários.

O Ministério Público acha que só ele será capaz de salvar o país da corrupção. Um enorme equívoco. Ministros do Supremo Tribunal Federal botam lenha na fogueira e se desentendem entre eles. Esquecem-se de que têm missão política e, por isso, devem funcionar, em certas circunstâncias, como Poder moderador. Como já aconteceu.

Equivocadas foram, leitor, tanto a decisão monocrática do ministro Marco Aurélio Mello – que quis afastar o senador Renan Calheiros (atenção: o que está em jogo é a instituição, não o senador; este está com os dias contados…) não só da linha de substituição do presidente da República, mas, igualmente, da presidência do Senado – quanto a monocrática decisão do ministro Luiz Fux – que considera que “cumpriu seu dever de ofício” ao mandar anular a tramitação do projeto das dez medidas contra a corrupção, que nem sequer se tornara lei. Projeto, aliás, diga-se de passagem, que continha desvairados absurdos!

Penso que pior do que o fato tem sido sua versão. Um cidadão informado sabe que, neste cipoal de investigações, acusações, colaborações e condenações, há distinções que precisam ser feitas. Está certo o jornalista Ricardo Noblat: “Caixa 2 é crime ou infração eleitoral. Uma coisa ou outra merece ser castigada. Mas não é justo que se puna quem se valeu de caixa 2 só para se eleger como se punirá quem se enriqueceu à custa dele, ou quem retribuiu o caixa 2 com contratos públicos superfaturados ou não, ou quem recebeu propina”.

Só isso já daria conta de baixar a bola de muita gente.

Feliz Natal, leitor!

Imagem do Dia

Anton Pieck:
Anton Pieck (1895-1987) 

2017 será diferente, mas 2018?



Talvez o ano não termine antes do vazamento de mais algumas trapalhadas, com a indicação de seus autores, pinçados das delações premiadas de 77 diretores e ex-diretores da Odebrecht. Não há sala blindada e trancada no Supremo Tribunal Federal que consiga guardar todos os segredos das acusações.

Resultado de imagem para cleptocracia charges
Conhecidos agora ou em janeiro mais alguns personagens da roubalheira, a conclusão é de que perto de 200 parlamentares andam sem dormir ou dormindo mal, neste fim de ano. Nem todos que são objeto das delações premiadas perderão o pescoço, mas o percentual incomoda. O dinheiro podre da empreiteira movimentou o bolso de muita gente e a menos contundente das punições será devolver o dinheiro roubado. Pior acontecerá com os que tiverem seu futuro interrompido, proibidos de candidatar-se em 2018. Uns que pretendiam subir de patamar, candidatando-se a governador e até a presidente da República, outros à reeleição.

De um total de 513 deputados e 81 senadores, quantos serão processados e perderão seus direitos políticos? Mais importante, quantos serão rejeitados pelo eleitorado, mesmo conseguindo escapar da guilhotina?

Prenuncia-se uma renovação forçada de parte do atual Congresso, sem a garantia de que os eleitos cederão à tentação de enveredar pelo mesmo caminho do atingidos. A ninguém será dado concluir que o país vai mudar completamente, que a longa temporada de corrupção estará encerrada. O ano em vias de começar não se livrará de malfeitos peculiares ao tempo que passou. Mesmo assim, passos fundamentais terão sido dados, em matéria de mudanças. 2017 será diferente de 2016. Mas 2018?

Um clássico natalino

Cartãozinho de Natal

Até que eu não sou de reclamar, puxa! Taí, se há alguém que não é de reclamar, sou eu. Pago sempre e não bufo. Claro que procuro me defender da melhor maneira possível, isto é, chateando o patrão, cobrando cada vez mais, buscando o impossível — como diz Tia Zulmira —, ou seja, equilíbrio orçamentário. Se o Banco do Brasil não tem equilíbrio orçamentário, eu é que vou ter, é ou não é?

Mas a gente luta. Eu ganho cada vez mais e nem por isso deixo de terminar sempre o mês que nem time de Zezé Moreira: 0 x 0. Segundo cálculos da tia acima citada, que é bárbara para assuntos econômicos, eu sou um dos homens mais ricos do Brasil, pois consigo chegar ao fim do mês sem dever. Esta afirmativa não me agrada nada, mas dá uma pequena amostra de como vai mal a organização administrativa do nosso querido Brasil.

Aliás, minto…o cronista pede desculpas, mas estava mentindo. Eu vou no empate até dezembro, porque, quando chega o Natal, é fogo. Aí embaralha tudo. Não há tatu que resista aos compromissos natalinos. São as Festas — dizem.
7777c8d06609c28b37821c4efc44925c

O presente das crianças, a ganância do comerciante, as gentilezas obrigatórias, os orçamentos inglórios, a luta do consumidor, a malandragem do fornecedor e olhe nós todos envolvidos nesse bumba-meu-boi dos presentinhos.

E que fossem só os presentinhos. A gente selecionava, largava uma lembrancinha nas mãos dos amigos com o clássico letreiro: “Você não repare, que é presente de pobre” e ia maneirando. Mas tem as listas, tem os cartõezinhos.

O que me chateia são as listas e os cartõezinhos. A gente passa o mês todo comprando coisas pros outros sem a menor esperança de que os outros estejam comprando coisas pra gente. De repente, quando o retrato do falecido Almirante Pedro Álvares Cabral, que, no caminho para as Índias, ao evitar as calmarias, etc., etc. já é um raro no bolso dos coitados do que deputado em Brasília, vem um de lista.

O de lista é sempre meio encabulado. Empurra a lista assim na nossa frente e diz: — O pessoal todo assinou. Fica chato se você não assinar. Então a gente dá uma olhada. A lista abre com uma quantia polpuda — quase sempre fictícia — que é pra animar o sangrado. E tem a lista dos contínuos, tem a lista dos porteiros, tem a lista dos faxineiros, tem a lista das telefonistas, tem a lista do raio que te parta.

A gente assina a lista meio humilhado, porque, no máximo, pode contribuir com duzentas pratas, onde está estampada a figura de Pedro I, que às margens do Ipiranga, desembainhando a espada, etc., etc. e pensa que está livre, embora outras listas estejam de tocaia, esperando a gente.
Stanislaw Ponte Preta

A propinocracia tem muitos reis


Hoje, os brasileiros estão atônitos, foram pegos de calça curta neste final de ano com um terremoto maior do que se esperava. Mas é a mesma população que já se mostrou incansável para reclamar nas ruas quando a ficha cai.  
 
Neste momento, a sociedade está dividida e nocauteada. Mas basta apenas uma fagulha para brigar de novo. Pode demorar meses para reagir, mas reage. Do jeito que está, decididamente, não pode ficar
Carla Jiménez

Perdidos no tempo

O tempo não é uma afecção das coisas, mas apenas um modo de pensar 
Baruch Espinoza

Ao final de 2016, é hora de separar os mortos dos sobreviventes (que parecem mais mortos ainda). Foi-se embora uma presidente da República, que expirou antes que lhe expirasse o mandato. Do outro lado da praça, um presidente da Câmara dos Deputados, de olhar muito vivo, teve de trocar sua cadeira por uma cela de cadeia, assim como um ex-governador do Estado do Rio de Janeiro, vivíssimo, que fixou residência atrás das grades. Os três estão politicamente mortos, embora seus substitutos zumbis não estejam propriamente vivos.

Não que a Justiça tenha sido feita, não nos precipitemos. A harmonia entre os poderes deu um “até logo” abrupto, deixando em seu lugar um pêndulo que balança discórdia malcriada ao conchavo surdo. Quanto ao emprego dos brasileiros, foi comprar cigarro na esquina e não voltou mais. A saúde pública, que sempre foi meio delinquente, vira de uma vez por todas um insolúvel caso de polícia. O Natal vai ter um gosto de chão derretendo sob os pés de multidões desorientadas, que se sabem perdidas – e nisso, somente nisso, têm toda a razão.

Imagem relacionada

Mesmo assim, há cânticos de otimismo no ar. Eis que, dos auto-falantes e das telas eletrônicas, brotam campanhas publicitárias que prometem reconciliar o povo com sua história descarrilada. É algo espantoso. As tais festas natalinas, que se intercalam como tréguas os padecimentos cíclicos daqueles que guerreiam em tempos de paz, agora chegam embaladas por mensagens que vêm devolver nada menos que o tempo para os que sentem a vida ir embora sem deixar o endereço. O mais espantoso ainda é que quem manda essas mensagens não é outro que não o dinheiro, ou o Papai Noel do dinheiro. Os bancos, ninguém menos que os bancos, são os anjos que anunciam a felicidade.

Ligue a TV e ouça: “O que faz um ano inesquecível são aqueles segundos que se tornam eternos dentro da gente”. No comercial, um pai passeia com a filha, ao som de uma canção conhecida (“isso me acalma, me acolhe a alma...”). Tudo está bem, tudo está certo, tudo nos conformes. “Feliz 2017. E conte com o Banco do Brasil em cada segundo.”

Um concorrente privado do Banco do Brasil concorda. Também para o Itaú o tempo que conta, que tilinta, é aquele que, digamos, “se torna eterno dentro da gente”. Mas o Itaú deu um jeito de dizer isso com palavras menos modestas.

“Eu sou o tempo”, diz a voz atemporal. “Eu gostaria de te dar um conselho. Pense menos em mim, e mais em você. É perdendo tempo que se ganha a vida. O segredo do tempo não está nas horas que passam, está nos momentos que ficam. Porque são eles que vão contar a sua história. Eu sei disso. Eu sou o tempo.” Ao fim da mensagem, lá está a assinatura do anunciante: “Itaú. Digital, para você ter mais tempo para ser pessoal”.

Sejamos, pois, pessoais, bem pessoais, mesmo sem tomar a coisa no plano “pessoal”. O capital só se acumula quando ganha sua corrida contra o relógio. Mesmo que diga para você relaxar e “perder tempo para ganhar a vida”, o dinheiro não cochila por um segundo sequer. Aliás, foi uma campanha do Citibank, há poucos anos, que cuidou de nos lembrar disso: “The Citi never sleeps”. Bem antes, em 1987, num filme americano chamado Wall Street (dirigido por Oliver Stone), o especulador Gordon Gekko (Michael Douglas) – que termina na cadeia, ele também – alertava o seu aprendiz Bud Fox (Charlie Sheen): “Money never sleeps, pal”.

O dinheiro não dorme, o dinheiro não perde tempo e, principalmente, o dinheiro não perde do tempo. Se ele pede a você que perca tempo para ganhar a vida, existe aí uma conta que não fecha: ou o dinheiro mente sobre si mesmo, ou mente sobre você, porque, numa engrenagem de acumulação que só se faz possível pelo incremento da velocidade (e, na era digital, o dinheiro viaja na velocidade da luz), ou o seu ócio é financiado pelo cochilo dos outros, ou quem cochila é você. Tente se localizar nessa equação e você entenderá um pouco, bem pouco, do discurso que promete reconciliar sujeitos perdidos no tempo com uma história perdida no ano “inesquecível” que, esperemos, vai se encerrar.

Além do que, o tempo não é bem isso que os bancos anunciam. O tempo, lamento dizer, não é um dado da natureza, uma “afecção das coisas”, por mais que seja o tecido de que somos feitos, tecido do qual vivemos e morremos. O tempo é um “ente da Razão” (Espinoza), ou uma construção da cultura – da cultura publicitária, inclusive. É bem verdade que Newton acreditava que o tempo fluía “uniformemente sem relação com nada que lhe seja externo” e, com base nisso, construiu uma Física que deu conta de mandar o homem à Lua. Desde Newton, porém, ficou mais perceptível que “o tempo, tal como o concebemos, é uma consequência da história” (Gerald James Whitrow). Segundo os nossos sentidos, a gente ocupa um lugar no espaço e percorre um segmento minúsculo na extensa e imutável linha do tempo, mas o tempo, “tal como o concebemos”, nós é que o construímos, com os nossos tempos verbais e os sistemas tecnológicos que medem os intervalos entre um evento e outro.

Dizem que feliz é aquele que tem tempo. Menos enganoso seria dizer que feliz é aquele cujos dias de vida não foram roubados por outro – ou pelo dinheiro.

Não obstante, vai chegando o Natal. Parece que, como tem sido desde a travessia do Mar Vermelho, Roberto Carlos vai ter um programa especial só para ele na televisão. Não há marcador de tempo como Roberto Carlos. Talvez ele cante aquela “o importante é que emoções eu vivi”, ressoando a receita de felicidade que o dinheiro, vivíssimo, o dinheiro que não dorme nunca, prescreve para os seres humanos. Embalado nas canções de Roberto, quem é vivo tenta desaparecer (e não consegue), enquanto a penitenciária espreita o réveillon dos que até mandaram, mas não podem dizer que são o tempo.

Paisagem brasileira

AAF de Artes, de Arquitetura, de Fotografia. E mais ideias...: OS SABORES E AS…:
Paraty (RJ)

Odebrecht devolve menos do que desviou comprando MPs no Congresso

O acordo firmado pela Odebrecht e pela Brasken, braço petroquímico da construtora, para devolver o equivalente a R$ 6,9 bilhões aos governos dos Estados Unidos, da Suíça e do Brasil foi comemorado pelos procuradores da Lava Jato como um feito histórico —o maior acordo do gênero já celebrado no mundo.

O fato realmente merece celebração. Sobretudo porque o Brasil vai ficar com a maior parte da grana: R$ 5,3 bilhões. Mas é preciso levar em conta o seguinte: a corrupção rendeu à construtora muito mais do que isso. A Folha noticiou dias atrás que apenas com duas medidas provisórias que um de seus ex-diretores confessou ter comprado no Congresso o grupo Odebrecht obteve benefícios de R$ 8,4 bilhões entre 2006 e 2015.


De todo modo não se deve diminuir a importância do que está acontecendo. Uma empresa corrupta devolvendo dinheiro roubado no Brasil é sempre motivo de festa. Mesmo que esse dinheiro vá retornar em suaves prestações. Pelo acordo, a Odebrecht resssarcirá o erário em 23 anos.

A verba assaltada retornará aos pouquinhos, ao longo de mais de duas décadas. Mas a Odebrecht passa a usufruir imediatamente do direito de voltar a firmar contratos com o Estado. O que é motivo de festa também para a empresa. Na prática, esse tipo de acordo funciona como um negócio convencional. Quando as duas partes concordam cada uma acha que levou vantagem sobre a outra.

O custo do improviso

Quanto mais bem planejada é uma obra, mais barata ela fica, mais rapidamente é executada e melhor a sua qualidade. Esta máxima serve tanto para a reforma de uma cozinha como para a construção de uma ponte ou usina hidrelétrica. No caso das obras públicas, porém, o planejamento adequado não é apenas uma prática salutar: deve ser uma obrigação dos governos com a sociedade.

Boa parte dos problemas e desperdícios ocorridos nas grandes obras de infraestrutura realizadas no país resulta de licitações feitas com base em projetos incompletos — de forma intencional ou não. Isso porque, quanto menos detalhado é o planejamento, maior o espaço para erros, improvisos e para a ingerência de interesses não necessariamente alinhados com os da sociedade.

Resultado de imagem para ponte de lugar nenhum charge

A exigência de projetos completos, portanto, deveria ser um dos pilares da nova Lei Geral de Licitações, que está sendo discutida pelo Congresso e irá substituir a 8.666/1993, em vigor. Dessa forma, tornaria os erros do passado mais raros e as brechas, menores. Mas é exatamente o oposto que ocorre neste momento.

O Senado acaba de aprovar em segunda discussão um texto substitutivo ao PLS 559/2013, que incorpora a “contratação integrada” na legislação licitatória do país. Isso significa que obras públicas poderão ser licitadas com base apenas em anteprojetos. O texto prevê essa possibilidade para as obras com valor acima de R$ 20 milhões, o que transforma as atuais brechas em verdadeiros rombos nas futuras licitações feitas no país. Seria um enorme retrocesso.

A crítica não se baseia apenas na teoria, mas nos efeitos práticos nefastos deste tipo de flexibilização, que já foram comprovados com o uso do Regime Diferenciado de Contratação/Contratação Integrada nas obras do chamado legado da Copa, das Olimpíadas, da área de transporte, entre outros. Não por acaso, diversas entidades têm se posicionado contrárias à “contratação integrada”, como, por exemplo, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU-BR), o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e o Sinaenco (Sindicato da Arquitetura e Engenharia Consultiva).

Em vez de dar um passo atrás, é preciso que a legislação avance, e garanta maior controle e transparência. Que as licitações sejam feitas exclusivamente com projeto completo, contratado de preferência por concurso público. Pois esse é um elemento fundamental para garantir mais segurança e qualidade da obra e a confiança no planejamento dos custos e prazos.

Aprovado no Senado, o projeto de lei agora segue para a Câmara, onde já funciona desde o primeiro semestre de 2015 uma comissão especial para discutir o tema. Neste momento, portanto, é preciso que não só os arquitetos e urbanistas brasileiros tomem parte no debate. Mas toda a sociedade. Afinal, esse é um tema crucial para a ética da gestão pública e a qualidade de vida de toda a população brasileira.

Jerônimo de Moraes

Exemplos d'além-mar

Há 70 anos, seis séculos depois das grandes navegações, surgiu o LNEC- Laboratório Nacional de Engenharia Civil de Lisboa, que vem participando ativamente dos programas de melhoria da infraestrutura em Portugal (barragens, hidráulica fluvial e marítima e grandes estruturas, entre outras), da realização de inúmeros estudos e pareceres para cerca de 50 países, como o estudo do alargamento da praia de Copacabana e do Aterro do Flamengo, da construção de inúmeras barragens de grande porte, e ainda da análise dos efeitos dos sismos em muitas localidades.

Portugal vem dando um grande exemplo de como uma pequena nação pode contribuir para os avanços da tecnologia e de sua aplicação.

Resultado de imagem para escola de sagres ilustração
Escola de Sagres
No renascimento, Portugal utilizou as inovações desenvolvidas para, por exemplo, viabilizar as expedições dos descobrimentos. As mais conhecidas dessas inovações lusitanas são o astrolábio, a balestilha e a caravela, todos indispensáveis na empreitada de atravessar os oceanos, na busca do caminho para as Índias, ou na tentativa de expansão do império Português.

A balestilha é um instrumento mede a posição dos navios em relação às estrelas.

A caravela, a mais importante das inovações dos portugueses, era uma embarcação ágil e que, pelo seu peso, permitia, em situação adversa, ser movida a remos. Tinha 25 metros de comprimento e velas triangulares, que possibilitavam navegar em ziguezague contra o vento. Esta propriedade foi determinante para o sucesso dos portugueses.

Outra brilhante ideia foi o nó, medida de velocidade, calculada por meio de um cabo com nós espaçados de 14,40 m. Cada nó lançado corresponde a 1851,66 m/h.

Tudo isso foi acompanhado por estudos e pela disseminação da cultura náutica, por meio da Escola de Sagres, e que na verdade, traduzia mais uma corrente de pensamento do que uma instalação física.

O LNEC, fundado por Manuel Rocha, ícone da engenharia no século XX, vem buscando soluções inovadoras para os inúmeros desafios que enfrenta. Ele é um instituto de pesquisas, também voltado para a transferência de tecnologias. Sua participação foi determinante para a utilização de computadores em engenharia civil e para o avanço da Mecânica das Rochas, e ultrapassou largamente as fronteiras de Portugal, alcançando, pelo trabalho de seus pesquisadores, projeção internacional.

No plano das relações com o Brasil, além da duplicação das praias já mencionadas, o Laboratório realizou inúmeros estudos de observação de estruturas, ensaios em modelos reduzidos de barragens, e liderou a realização das Jornadas Luso-Brasileiras de Engenharia Civil, abrindo as portas para a geração de uma cultura de produção científica, notadamente na área de engenharia civil.

Além disso, formou centenas de jovens engenheiros, que lá estiveram para realizar um estágio de tirocínio, uma tese de especialista ou de investigador.

Aliás, este é um modelo interessante, pois o Laboratório oferece graus equivalentes ao de doutor, permitindo que engenheiros de todas as áreas se engajem no processo de desenvolvimento de inovações.

Um dos obstáculos ao nosso desenvolvimento científico e tecnológico reside na incapacidade de assegurar financiamentos contínuos e em montante suficiente para a sustentabilidade dos projetos de pesquisa.

Na era dos descobrimentos, a Escola de Sagres decorreu da vontade política do Infante D. Henrique, traduzida pelo expressivo quantitativo de renomados estudiosos de outros países, e pelo apoio material às expedições. O mesmo ocorreu com o LNEC que, ao longo dos anos, constituiu-se numa prioridade para o governo português.

No Brasil,a adequada articulação universidade-empresa poderá ampliar a capacidade de formação de mestres e doutores, promovendo a elaboração de dissertações e teses capazes de contribuir para o incremento da competitividade da indústria. Embora a FINEP já tenha caminhado nessa direção, há ainda um longo percurso a cumprir.

Apesar da crise, é mandatório garantir ciência, tecnologia e inovação como prioridades para o desenvolvimento.