domingo, 14 de agosto de 2016

Nem vira-lata nem Brasil potência

Nelson Rodrigues criou a expressão “síndrome de vira-lata” para se referir ao sentimento de inferioridade que abatia os jogadores brasileiros em confrontos internacionais, só superado depois da conquista do primeiro título mundial, em 1958, na Suécia. Com o tempo, a expressão ultrapassou as quatro linhas do gramado e passou a ser empregada para designar uma descrença atávica na possibilidade de o País realizar grandes feitos em outros campos da atividade humana.

No polo oposto da síndrome de vira-lata surgiu a mania do “Brasil potência”, resultado do cruzamento do nativismo romântico (“gigante pela própria natureza”) com o nacionalismo autoritário (“ninguém segura este país”). Ao longo dos últimos 40 anos, pelo menos, oscilamos entre um extremo e outro da autoestima nacional, numa ciclotimia que produziu um enorme desperdício de recursos produtivos, ambientais e financeiros.

É verdade que o primeiro laivo de “Brasil potência” apareceu com os “50 anos em 5” de Juscelino Kubitschek. No entanto, apesar da expansão monetária excessiva e da inflação acelerada, JK deixou sua marca de político democrata, presidente “bossa nova”, símbolo de um Brasil criativo e conectado ao mundo.

O auge do ufanismo do “Brasil potência” deu-se na ditadura militar, a partir do chamado “milagre brasileiro”, período, entre 1968 e 1973, em que o produto interno bruto (PIB) cresceu à média de 10% ao ano, mas a renda se concentrou como nunca antes, em meio à mais dura repressão política. Houve progresso material, sim, mas social e regionalmente mal dividido e ambientalmente custoso, pelo inchaço das grandes cidades e pela ocupação desordenada da Amazônia. Pior, a censura e a tortura tornaram-se políticas de Estado.

Para dar sobrevida ao “milagre”, quando as condições internas e, sobretudo, as externas não mais o permitiam, o Brasil redobrou a aposta no projeto do país potência. Diante do primeiro “choque do petróleo”, mergulhamos na ilusão de que éramos “uma ilha de prosperidade num mundo em crise”. A prosperidade viria de um grande programa de investimentos estatais financiado pelos petrodólares reciclados nos bancos internacionais. A ilusão, como sempre, terminou mal: o endividamento temerário na segunda metade dos anos 70 levou-nos à crise da dívida externa e à inflação alta, crônica e crescente nos anos 80.

Em uma década perdida do ponto de vista econômico, só não afundamos em mais uma fase aguda da “síndrome de vira-lata” porque a força de uma nova sociedade civil e a sabedoria de líderes políticos produziram o fim da ditadura militar e a transição para a democracia. Apesar de seus equívocos, a Constituição de 1988 condensou as aspirações de um País democrático e mais justo. Se as liberdades civis e políticas logo se fizeram sentir em sua plenitude, os avanços sociais e econômicos só puderam passar a ocorrer de fato depois que o Plano Real pôs fim à super-inflação e as reformas subsequentes modernizaram parcialmente o Estado e a economia.

Parecíamos inaugurar uma nova fase, assentada na ideia de que o progresso de um país depende fundamentalmente do contínuo aperfeiçoamento de suas instituições, da melhoria da eficiência e eficácia das ações do governo, notadamente na área social, da previsibilidade e transparência de suas ações, da regulação adequada do setor privado, da manutenção de uma inflação baixa e de contas públicas sob controle. Muito bem feita a transição de poder de Fernando Henrique Cardoso para Lula, o primeiro governo do líder petista nos deu a impressão de que a ciclotimia do passado era página virada.

Mas eis que os ganhos obtidos com a condução prudente da política econômica, o boom das commodities, a “descoberta” do pré-sal, os bons resultados da resposta inicial à crise financeira global em 2008, a badalação internacional de mercados e governos em torno do Brasil e do presidente Lula, o apetite do PT por permanecer no poder, tudo isso se somou para atiçar o imaginário do Brasil potência, não apenas econômica, mas agora também geopolítica, com projeção de poder militar, sob a égide de um capitalismo de Estado socialmente includente e o comando de um partido hegemônico cujo líder maior era considerado “o cara” pelos grandes do mundo.

Embalados em certo delírio de grandeza, chegamos à crise atual. Que a estejamos atravessando dentro da normalidade institucional e com avanços no combate democrático à corrupção é motivo para não recairmos em mais uma fase aguda da “síndrome de vira-lata”. Mas não basta.

Está mais do que na hora de encontrarmos um ponto de equilíbrio mais estável e de definirmos melhor o tamanho e, sobretudo, a natureza das nossas aspirações como país. Não se trata apenas de melhor adequar meios e fins ao longo do tempo, reconhecendo que os meios são finitos e a vontade política não tem o condão de expandi-los da noite para o dia, mas também de discutir os próprios fins.

Para construir uma boa sociedade, coisa bem diferente de um país potência, o que é prioritário: erguer refinarias de petróleo e dispor de submarinos a propulsão nuclear ou aumentar a cobertura do saneamento básico e melhorar a qualidade da educação? Para melhorar a educação, o que é preferível: aumentar o investimento e o subsídio na educação superior ou fortalecer a educação básica? E para melhorar a qualidade da educação básica: é mais importante edificar escolas ou investir na formação dos professores?

Na resposta a essas perguntas devemos lembrar-nos de que a potência de um país consiste na capacidade dos seus cidadãos para desenvolver, por competição e cooperação, o máximo de seu potencial individual e coletivo para a criação de riquezas em sentido amplo. Como no futebol, o Brasil deve aspirar ao jogo competitivo e eficiente, mas também ao jogo bonito, a exemplo do que fizemos pela primeira vez em 1958, na Suécia.

Sergio Fausto

Escola deve ser sem partido, mas também sem Igreja

Lula emerge como herói do povo em livros didáticos de diversos autores – e já se editam os que narram o impeachment de Dilma como um "golpe das elites". Sobram livros escolares que encontraram na Cuba castrista o paraíso terreno. Numa questão do Enem, aparece uma justificação "moral" para o terror jihadista. Textos pedagógicos pregam a censura à imprensa, na forma ritualizada do "controle social da mídia". A linguagem sectária do racialismo perpassa inúmeros materiais escolares. Livros e textos destinados a jovens estudantes apresentam a família nuclear como ferramenta de opressão da mulher. Na versão original das bases curriculares do MEC, abolia-se o ensino da história "ocidental". A marcha dos militantes políticos sobre a escola produziu, como contraponto, o movimento Escola Sem Partido. Contudo, as aparências (e os nomes) enganam: nesse caso, o antídoto é, ele também, um veneno.

O Escola Sem Partido patrocina um projeto de lei destinado a afixar nas escolas um cartaz com os "deveres do professor" que protegeria os estudantes da doutrinação ideológica e da propaganda partidária. Por si mesma, a ideia de uma intervenção estatal explícita, ameaçadora, contaminaria as relações entre alunos e professores no ambiente escolar. Dos seis itens do cartaz, quatro parecem óbvios a mentes não hipnotizadas pelo espírito doutrinário –mas, efetivamente, abrem espaço para infinitas interpretações subjetivas. Nos dois outros, revela-se um projeto tão nocivo quanto o dos militantes políticos das mil e uma causas.

O item quatro determina que, "ao tratar de questões políticas, socioculturais e econômicas", o professor exibirá, "com a mesma seriedade", as "versões concorrentes". Há, aí, sobretudo, uma incompreensão da natureza do processo de ensino e aprendizagem. Embora a polêmica sobre valores tenha seu lugar na sala de aula, a escola não existe para cotejar as contraditórias "respostas certas" a temas desse tipo. Substituir a "verdade" autoritária do doutrinador pelo "Fla-Flu ideológico" pode até funcionar na imprensa pluralista, mas nada resolve no campo da educação. De fato, a missão do professor é ensinar a formular as perguntas pertinentes –isto é, a inscrever os dilemas humanos nos contextos históricos e sociais apropriados.

Isso não é tudo. O que significa cotejar versões quando se trata de uma "questão sociocultural" como a teoria da evolução? Na esfera da ciência, nem tudo é polêmica. Será que o Escola Sem Partido almeja que se ensine, "com a mesma seriedade", a "versão concorrente" que é o criacionismo?

O véu cai quando se examina o item cinco. De acordo com ele, "o professor respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções". Como "os pais" formam um universo muito heterogêneo, a regra proporcionaria um "direito de veto" à família mais tradicionalista. Na prática (oh, surpresa!), o padre ou pastor locais exerceriam um poder censório absoluto sobre os professores, subordinando a escola aos mais rudimentares anacronismos e preconceitos.

Na democracia e na república laica, o compromisso essencial da escola não é com os chamados "valores da família", mas com o direito dos alunos à cidadania. O alicerce de princípios da escola são os direitos humanos universais, inscritos na Declaração de 1948, que inspiram as constituições democráticas. A igualdade de direitos entre homens e mulheres, o respeito a diferentes orientações sexuais, o repúdio a preconceitos raciais e a proteção de minorias religiosas não devem ser descritos como "doutrinação ideológica" –e não são artigos negociáveis no balcão das "convicções dos pais".

Previsivelmente, a fúria dos militantes políticos irriga as sementes de uma fúria simétrica. Escola Sem Partido, sim. Mas, ao mesmo tempo, Escola Sem Igreja.

O PT e a crise da esquerda

O declínio do PT aponta para uma trajetória em direção à esquerda do arco ideológico, onde espera um convívio com movimentos sociais de viés radical. Continuará a proximidade com sua tradicional base de trabalhadores, principalmente de contingentes das frentes metalúrgica e bancária. Trata-se da estratégia de sobrevivência. Na busca do traçado que marcou sua origem, procurará também o apoio de parcelas da intelectualidade, remanescentes dos tempos pré-Muro de Berlim, que continuam a acreditar na luta de classes, a condenar o neoliberalismo e a elevar aos céus da América Latina a bandeira bolivarianista. Quem desbravará essa tortuosa trilha será ele mesmo, Luis Inácio, o ícone do petismo, agora com a missão de juntar alas divididas que querelam pelo domínio do poder no partido que, há três décadas, despontava como referência ética da política. 


O primeiro obstáculo de Lula será a ocupação de espaço no arco ideológico. Na extremidade esquerda, o PT haverá de deparar com nichos ocupados por entes como PSOL e PSTU. O primeiro quer se firmar como opção da esquerda, contando com a contundência de perfis como o de Ivan Valente e a verve do carioca Chico Alencar. Que matiz o PT defenderá para se distinguir? Mais à direita dessa esquerda, esbarrará no PC do B, cujo ideario tem se diluído, eis que sua representação é difusa (e confusa), como denotam os discursos da senadora amazonense Vanessa Grazziotin e do nacionalista ex-ministro da Defesa Aldo Rebello. O que distinguiria o PT desses protagonistas?

Perdendo charme

O fato é que a esquerda tem se tornado um verbete que funciona mais como graxa para lustrar a cara de figuras que não adentraram as largas vias do século XXI. Perde charme, enquanto a direita engrossa suas fileiras. Patrocina com reservas o socialismo marxista, inspirado na análise do velho Karl Marx sobre a formação do capitalismo e a previsão de sua catastrófica evolução. A “violência como parteira da História”, dogma apregoado por Engels e que se firmou na segunda metade do século 19, até que tentou fa­zer escola entre nós nos idos de 1960. Foi repelida pela ditadura militar. A redemocratização do País abriu espaço para outros espaços no arco ideológico. Formou-se um novo território para acomodar as estacas do alquebrado socialismo revolucionário e os ti­jolos do liberalismo político e econômico.

Os novos partidos de esquerda afastaram jargões carcomidos, como exploração capitalista, Estado burguês, classe dominante, submissão a interesses do capital financeiro. Uma nova teia passou a ser costurada com a agulha de programas de distribuição de renda e uma equação que conjuga as bases de Estado mínimo e Estado máximo. O socialismo clássico alterou sua fisionomia para juntar posições até então inconciliáveis, gerando novos conceitos como “capitalismo de face humana” e “socialismo de feição liberal”. Batizou-se essa combinação de social-democracia. Que aportou no Brasil em fins dos anos 1980, ganhando do PSDB densa interpretação, como se vê no texto Os desafios do Brasil, que engloba abordagens sobre as crises da contemporaneidade, a textura da demo­cracia social na Europa, as estratégias de crescimento e as políticas para o desenvolvimento.

Emergia a receita do Estado de bem-estar social (base­ado na universalização dos direitos sociais e laborais e financiado com políticas fiscais progressistas), com o aumento da capacidade aquisitiva da população. Essa meta tinha como alavanca o aumento dos rendi­mentos do trabalho e a intervenção do Estado nas frentes de gastos e regulação de atividades-chave para a expansão econômica. A partir dos anos 70 a 80 os partidos social-democratas incorpo­raram princípios neoliberais, impregnando a ideologia dominante da União Europeia. A doutrina ganhou no­vos contornos na esteira da globalização. As siglas mudaram, trans­formando bases eleitorais (categorias trabalhadoras) em classes médias, mais conservadoras e com certo acesso ao capital financeiro.

Social-democracia

No Brasil, por tentativa e erro, nosso arremedo social-democrata adentrou no terceiro milênio, ganhou o centro do po­der, sendo acusado de se curvar ao Consenso de Washington. A crítica saiu da artilharia do próprio PT e pequenos satélites. Deu certo. De tanto bater, as “esquerdas” alcançaram a alforria e tomaram assento no Palácio do Planal­to. E o que ocorreu? As linhas gerais da tal política neoliberal foram preservadas e recriadas, agora com nova roupagem de traços nacionalistas. Luiz Inácio, mesmo jorrando um verbo duro contra a crueldade neocapitalista, acolhia a banca e os vetores do mercado. Na expressão de palanque, o appartheid social foi uma constante: nós e eles. A luta de classes emergia na expressão escandida com suor e ódio. Coisa de palanque.

Até que emergiu das sombras o fantasma do “mensalão”. A casa desmoronou. As últimas pilastras leninistas-marxistas “foram pro brejo”. Bandeiras da esquerda, do centro e da direita, todas juntas, sujaram-se no pântano. Os intelectuais que ainda brandiam a foice e o martelo tiveram de recolher suas armas. Uns poucos continuaram a berrar. Sindicalistas, atrelados ao Estado, buscaram nova modelagem para sua ação, entoando o refrão de defesa de conquistas trabalhistas. Qual a cor da esquerda no meio do la­maçal? O vermelho ficou sujo. Sobraram indistintos traços de uma ou outra sigla nanica de entonação trotskista. O velho PC do B tem dificuldade de se posicionar no olimpo da esquerda. As siglas afundaram na lama.

Ao mensalão, seguiu-se o petrolão, este com formação de tsunami. Jogado de um lado para outro por suas ondas, o PT vai tentar achar um rumo. Lula será o condutor desta empreitada. A ele, a missão de encontrar a tábua do náufrago. E, claro, sair-se bem dos dutos da Lava Jato. Dará certo?

Imagem do Dia

PT tenta aprender o ofício do oposicionismo

Com início marcado para 25 de agosto, a deposição de Dilma Rousseff tornou-se um mal necessário até para o Partido dos Trabalhadores. É crescente o número de petistas que, em privado, reconhecem que Dilma virou um fardo pesado demais para ser carregado até 2018. Paradoxalmente, constatam que há males que vêm para pior. O PT havia se equipado para desfrutar dos confortos do poder ininterrupto por pelo menos 16 anos. Agora, sofre para reaprender a fazer oposição.

Desde a sua fundação, há 36 anos, o PT é uma congregação monoteísta. Lula, o fundador, jamais admitiu o culto a outro deus. Em termos doutrinários, o PT construiu durante sua existência oposicionista uma pregação escorada na ética. Dessacralizado pela Lava Jato, Lula está prestes a ser denunciado pela força-tarefa de Curitiba. Os procuradores convenceram-se de que foi com o seu permanente beneplácito que o PT se converteu de templo da moralidade em centro de coleta de fundos ilícitos.

Assim, o PT toma o caminho de volta para a oposição diante de uma conjuntura que expõe os pés de barro de sua divindade e sonega à legenda o papel que ela melhor desempenhava quando era estilingue. O PT já não pode jogar pedras nos telhados de vidro dos outros sem parecer ridículo. Metidos em roupas de vidro, seus líderes apenas ecoam o Lula de 2005, pós-mensalão: “O que o PT fez é o que é feito no Brasil sistematicamente.”

Lula passou novamente por Brasília na semana passada. Dessa vez, seus devotos abstiveram-se trombetear a lorota segundo a qual ele voara à Capital para socorrer Dilma. Queria salvar a si próprio. Em reunião com congressistas do PT, aconselhou-os a apertar os cintos, porque o partido está pousando na sua nova realidade. Encomendou a defesa do seu legado. É como se não tivesse percebido que a ruína de Dilma aniquilou o Brasil grande do pré-sal e do pleno emprego.

O PT busca o que os devotos de Lula chamam de “narrativa” para o pós-impeachment. Algo que permita ao partido reconstruir o seu discurso. O problema é que Dilma amou tanto o caos —e foi tão correspondida— que o discurso do “golpe” perdeu a funcionalidade. Lula, Dilma e o PT já não conseguem culpar os outros pelos erros que cometeram. Seus herois estão presos em Curitiba. E o marqueteiro João Santana, mestre na composição das narrativas do PT, reivindica agora o papel de delator. Ajudará a empurrar Dilma para dentro do petrolão.

Devolvido à oposição por sua ambição desmedida, o PT terá de descer do sonho do poder hegemônico para o pesadelo da impotência minoritária. Enfrentará certa dificuldades para se opor às propostas de Michel Temer, já que o ajuste fiscal havia sido assumido por Dilma como uma prioridade retórica. Madame defendeu da reforma da Previdência à recriação da CPMF.

No mais, o petismo terá de incluir em sua narrativa um lote de explicações sobre os confortos de Lula. Os brasileiros estão curiosos para saber como um certo homem, confundido com o homem certo, apropriou-se de um cobiçado imóvel, tomando um dado sítio por um sítio dado.

Confesso

O padre disse que não era para fazer, mas não só eu fiz, como desconfiava que ele também fazia. Roubei marzipã da loja sem saber o que era, para depois descobrir que não gosto de marzipã nem levo jeito para o crime.

Não matei passarinho com estilingue – não por bondade, porque era míope feito uma porta e ruim de pontaria. A campanha dizia para não dirigir depois de beber e não lembro qual das duas coisas fiz primeiro. O suco estava vencido e eu o servi às visitas. Só respeitei o limite de velocidade perto do radar.

Fiz piada com gago e fanho e, quando não fui eu, dei a risada mais alta. O prefeito mandou economizar água e levei meia hora no banho para melhorar da ressaca. Minha filha pediu minha opinião e eu não tinha nenhuma. Comecei a gostar de Português porque a professora sorria com todos os predicados. O médico pediu para evitar queijo e comi até com banana.

Ensaiei o que dizer trinta dias e noventa noites e, quando foi preciso, fiquei mudo. As tábuas da lei mandavam não cobiçar a mulher do próximo e, sinceramente, achei exagero – só olhar, admirar, ô gente, que mal tem? Gaguejei feio na apresentação e me despediram por justa causa.

Deixei para a última hora, não contei a verdadeira história, não medi as consequências nem cedi o lugar no metrô ao idoso. Não me comovi com o malabarista no sinal, não achei Maceió essa coisa toda, não dei os 10% ao garçom (ele mereceu, ou melhor, não mereceu). Não marquei o gol feito por displicência e afundei o time.

Reconheço que umas vezes gostei de quem não podia e não devia – o verbo me é incerto, talvez tenha sobrado um pouco da tontura.

Vi o holerite do colega escondido para descobrir quanto ele ganhava e se era mais do que eu. Fiquei contando os lustres nas paredes no discurso de formatura. Peidei disfarçando no elevador e olhei indignado para o moleque ao lado, que era inocente. Uma vez fiquei na dúvida se aquilo era amizade ou coisa maior, tinha uns olhares.

Já me disse doente para escapar de prova, de encontro, de reunião. Menino, ajudei a vizinha a subir as compras com um olho nela, outro na melancia. Nunca decorei como é quinhentos em algarismos romanos, nem entendi para que serve saber isso a não ser nas palavras cruzadas. Tive vergonha da inocência de um amigo e vejo hoje que o ridículo era eu.

O síndico proibiu a gente de jogar bola e esvaziamos todos os extintores em represália. Recusei emprego por preguiça e ser par de valsa de debutante por vergonha. Chamei de canastrão o ator sem ter assistido ao filme. Criei campanha beneficente em meu único benefício. Não escondi direito o lança-perfume, a revistinha de sacanagem, essa timidez danada e acabei descoberto.

Confesso que não me confesso desde que os pecados eram inocentes.

De tudo sinto orgulho e durmo feito um bebê.

Procura-se desesperadamente a direita (ou a esquerda) na política brasileira

O exemplo clássico de que na política brasileira não existe mais esquerda ou direita (e toda a papagaiada que as acompanha) pode ser demonstrado pela politicalha de São Paulo. Pedestramente falando, como diz o comentarista Mário Assis Causanilhas, vamos fazer uma salada russa para que se consiga ver que ponto chegou a política brasileira, em que a ideologia é apenas um detalhe.

Dona Marta Suplicy fez carreira no PT, hoje navega no PMDB, atolado até o pescoço junto com o PT na Lava-Jato. O vice da Marta, Andrea Matarazzo, seu contra-parente, já foi do PSDB e está agora no partido incolor do Gilberto Kassab, o PSD.

O ex-tucano Andrea Matarazzo reclama que a Ca$a Grande tenta apoiado a candidatura do famoso milionário maçônico João Dória, que nas horas vagas faz bico de apresentador na TV dos Sayads.

Pior foi outro companheIro de PSDB, o ex-comunista-marxista-leninista Alberto Goldman, agora um guerreiro neoliberal, mas que adora meter a mão nas tetas públicas (coitado do Metrô de SP). Goldman ficou muito nervoso, chegou a bater o martelo e a foice na mesa, devido à indicação pela Ca$a Grande do milionário João Dória. E como faz parte da ala do José Serra, também declarou que vai votar na Marta por causa do seu parceiro Andrea Matarazzo.
Dona Luiza Erundina foi do PT, da ala mais radical do partido, depois foi chorar suas mágoas troktistas no PSB, neste partido que hoje abriga “esquerdas”, “direitas”, “liberais” e “ladrões do dinheiro público”, mas deu as costas, saiu e nem fechou a porta, desembarcou de mala e cuia no PSOL, hoje candidata a prefeita (de novo) pelo partido..

Fernando Haddad continua do mesmo partido, o PT, candidato a reeleição. Misturando alhos com bugalhos, como vai se defender dos ataques de seu próprio partido?… E entra na disputa com uma novidade. Lançou como vice, nada mais nada menos, um ex-tucaviar do PSDB, Gabriel Chalita, com várias mudanças de partidos (não sabe o que quer). Esteve no PSDB, PSB, PMDB e agora vai de PDT, partido do Brizola.

Celso Russomano é um caso á parte. Era defensor dos fracos e oprimidos consumidores deste país, agora está ao lado de um dos maiores estelionatários e charlatões, o autoproclamado “bispo” Edir Macedo, famoso vendedor de terrenos no céu. Será que Russomano vai defender os consumidores que compraram terrenos no céu por preço maior do que o mercado?

E o João Dória no PSDB? O que é este ser? Dizem que, se for prefeito de são Paulo, vai privatizar tudo, conforme defendem vários comentaristas aqui da Tribuna da internet.

Bem, se alguém viu alguma coisa chamada direita ou esquerda nessa confusão política e eleitoral, faça o favor de nos comunicar.

As faixas e as vaias da discórdia

Mal os brasileiros haviam enxugado lágrimas de emoção verde-amarela pela abertura olímpica que exaltava a tolerância e celebrava “nossas diferenças”, duas polêmicas mostraram que nós não somos bem assim. As faixas políticas e as vaias esportivas revelaram o que já sabemos. Nossas paixões transcendem regras, leis e padrões de conduta. Somos indisciplinados, metidos e provocadores.

Torcedores com faixas e camisetas “Fora, Temer” foram retirados dos estádios por policiais ou ameaçados de prisão por agentes com uniformes camuflados da Força Nacional de Segurança, caso não enrolassem as faixas ou mudassem de camisa. Gritos de “abaixo a ditadura” e “fora, censura” agitaram vídeos nas redes sociais. Ironicamente, a base para a repressão era uma lei sancionada por Dilma Rousseff em 2014, no ano da Copa, e referendada em maio deste ano para a Olimpíada, pouco antes de ela ser afastada.


A lei dizia: “Não utilizar bandeiras para outros fins que não o da manifestação festiva e amigável”. Mas não mencionava política. A partir daí, todas as interpretações são possíveis. “Fora, Temer” é festivo e amigável? “Tchau, querida” é festivo e amigável? Depende do time para o qual você torce. O debate não tem fim entre juristas. Até os ministros do Supremo Tribunal Federal discordam entre si. O STF apoiou a constitucionalidade da lei de 2014, por acreditar que faixas e bandeiras que possam incitar a conflitos não combinam com estádios esportivos.

Só a intolerância, ou a burrice, ou ambas explicam que alguém possa considerar ofensivo um cartaz “Fora, Temer”, ou “Tchau, Dilma”, ou “Adeus, Lula”. Bandeira racista, machista ou xenófoba é claramente um crime contra os direitos humanos e deve ser reprimida. Mas por que raios censurar a manifestação pacífica de um desejo político? Desde quando a paz é ameaçada por algum desses cartazes? Só acho estranho não ter visto nenhuma faixa “Volta, Dilma”. Onde estão os dilmistas? Cadê os que torcem pela volta de Dilma ao Poder?

Parece errado o Comitê Olímpico Internacional ir contra a Constituição de 1988, que diz ser “livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. Onde está o espírito olímpico, minha gente? O COI se explica. Diz que a regra 50 da Carta Olímpica “tem como objetivo separar esporte de política, honrar o contexto dos Jogos Olímpicos e garantir a reunião pacífica de atletas, dirigentes e espectadores de diferentes culturas, crenças e origens”. Mario Andrada, diretor de comunicação da Rio 2016, explicou o veto aos cartazes. “Queremos arenas limpas.” Mas vaias e gritos políticos estão permitidos. Senão, “metade do Maracanã teria sido esvaziado”.

Não foram só as vaias a Temer na abertura. Mas os urros contra atletas adversários. Tem gente que detesta o exorcismo explícito do torcedor brasileiro. Quem adora são os atletas empurrados pelo amor transbordante e pelos aplausos, a outra face da moeda. Eles se jogam nos braços da torcida, dizem que “nunca viram nada parecido”. A plateia às vezes adota como seu um atleta ou uma equipe de outro país. Nunca da Argentina. Estamos fazendo escola: algumas torcidas estrangeiras, mais frias e educadas, passaram a urrar também, para não ficar para trás no amor a seus atletas.

Não durou muito a repressão oficial às faixas políticas. Um juiz federal, João Augusto Carneiro Araújo, gastou 23 minutos para conceder liminar pedida por uma procuradora da República. E proibiu a proibição à “manifestação pacífica de cunho político” com uso de cartazes, camisetas “e outros meios lícitos nos locais oficiais” da Olimpíada. Quem reprimir pagará multa de R$ 10 mil. O COI prometeu recorrer. Mas melhor cair em si e esquecer o assunto.

Entendo que a finalidade da Olimpíada seja outra. Com o “liberou geral”, há o risco de poluir os estádios e incomodar quem só está a fim de torcer por atletas e medalhas. Em seu perfil no Facebook, o jornalista Rogério Simões postou um comentário que assino embaixo: “Agora vai ter faixa contra o Temer, contra a Dilma, contra o Lula, a favor do Lula, contra o Trump, a favor do Bolsonaro, contra o aquecimento global, contra o aborto, a favor de alguma PEC, contra outra PEC, a favor da pena de morte, contra o doping, a favor da Anitta, contra o Luciano Huck, a favor da bomba atômica, a favor da globalização, contra a globalização, a favor do sertanejo universitário, contra o rock, a favor do heavy metal, a favor das drogas, a favor dos jogos de azar, contra a maconha, a favor de Jesus, contra Jesus, a favor do queijo com goiabada, contra a pizza com ketchup, e todo mundo vai ficar feliz. Mas e a disputa do ouro? Já foi? Putz, perdi...”.

Receita para esquecer Fidel

Ligo o rádio e um locutor declama uma breve manchete: “Fidel Castro, o grande construtor”. O homem explica que as obras mais importantes do país saíram desta cabeça que durante décadas foi coberta por uma boina verde-oliva. Cansada de tanto culto à personalidade, decido ver televisão, mas no canal principal um advogado detalha o legado jurídico do Máximo Líder e, ao terminar o programa, anunciam um documentário sobre “o invencível guerrilheiro”.

Durante semanas, os cubanos vivemos um verdadeiro bombardeio de alusões a Fidel Castro, que foi aumentando à medida que se aproximava a data de seu aniversário de 90 anos, completados neste 13 de agosto. Não há pudor nem semitons nesta avalanche de imagens e de epítetos.


Todo este excesso de homenagens e lembretes se trata, sem dúvida, de uma tentativa desesperada de recuperar do esquecimento o ex-presidente cubano, tirá-lo desta zona de abandono midiático em que caiu desde que anunciou sua saída do poder já há uma década.

Ao homem que nasceu no povoado oriental de Birán, em 1926, fomos deixando no passado, condenando-o ao século XX, enterrando-o em vida.

As crianças que cursam o ensino fundamental nunca viram o outrora loquaz orador discursar por horas num ato público. Os agricultores respiraram aliviados de não terem que receber as constantes recomendações do “agricultor em chefe”, e até as donas de casa agradecem que ele não apareça num congresso da Federação de Mulheres Cubanas (FMC) lhes ensinando a cozinhar com uma panela de pressão.

A propaganda oficial sabe que os povos muitas vezes apelam à memória de curto prazo, como uma forma de se proteger. Para muitos jovens, Fidel Castro resulta já tão remoto como um dia foi para minha mãe o ditador Gerardo Machado, que no começo do século passado marcara tão negativamente a vida da geração de minha avó. Nenhum país pode viver com o olhar fixo num só homem... assim que o desenfoque e a distração se interpuseram entre o ex-primeiro secretário do Partido Comunista e a população da ilha.

Os seguidores de sua figura aproveitam as celebrações por suas nove décadas de vida para tratar de erigir a estátua da imortalidade no coração da nação. Endeusam-no, perdoam seus sistemáticos erros e o convertem na cabeça mais visível de um credo. A nova religião tem como premissa a teimosia, a intolerância ao diferente e um ódio visceral — quase como uma batalha pessoal — contra os Estados Unidos.

Os detratores de “Ele”, como o chamam muitos cubanos, preparam os argumentos para desmontar seu mito. Aguardam o momento em que os livros de História o deixem de comparar com José Martí e façam sobre sua trajetória uma análise crua, fria, objetiva. São esses que sonham com a era pós-Castro, com o fim do fidelismo e com a diatribe que cairá sobre sua controversa figura.

Os demais, porém, simplesmente viram a página e encolhem os ombros em sinal de cansaço quando escutam seu nome. São os que desligam a televisão por estes dias e fixam a vista num dia a dia que nega cada palavra que Fidel Castro tenha dito em seus discursos inflamados, naqueles tempos, quando planejava construir a utopia e fazer de nós homens novos.

Eles, os cansados de sua onipresença, são os que darão o ponto final ao mito. E o farão sem agitação ou atos heroicos. Simplesmente deixarão de falar sobre ele a seus filhos, não colocarão as fotos em que ele é visto com um fuzil e uma dragona nas salas de suas casas, nem nomearão seus netos com as cinco letras de seu nome.

A celebração pelo aniversário de 90 anos de Fidel Castro é na realidade sua despedida: desmesurada e angustiante como foi sua vida política.

Yoani Sánchez 

sábado, 13 de agosto de 2016

Charge O Tempo 12/08/2016

Brasil: o eterno sonho

O homem, no dizer clássico de Ortega y Gasset é ele e suas circunstâncias. Cada um de nós brasileiros, portanto, é o que é, o que é sua família, seu entorno e o que é o Brasil.

Esses elementos ficaram bem aparentes no belíssimo espetáculo de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Foi uma expressiva homenagem à fantasia brasileira, num momento em que a realidade nos oprime. Nossos mitos de igualdade e de uma história harmoniosa, integradora, ficaram aparentes. Infelizmente, porém, ainda não somos o que pensamos que somos ou gostaríamos de ser. Talvez, porque, diante de uma realidade hostil para a maioria dos brasileiros, em vez de agir, prefiramos nos refugiar em imagens construídas, cada qual fazendo o seu 14-Bis, sair voando de costas e a Europa se curvando, mais uma vez, diante do Brasil.


Impossível deixar de pensar na nossa terra com constrangimento e desânimo cada vez que se abre o jornal ou se vê o noticiário na televisão. No Rio de Janeiro, de onde venho e para onde voltei ao final da carreira diplomática, cada manhã, mesmo as de céu radioso como são as do inverno, se ensombrece pelo peso das notícias: a violência das ruas, a roubalheira generalizada, a criminalidade em geral atingiram níveis possivelmente inéditos. A lentidão da Justiça, a impunidade de muitos – especialmente dos mais poderosos política ou financeiramente - fazem com que sejamos levados a conviver com os mesmos escândalos por longuíssimo tempo. Como se fizessem parte da ordem natural das coisas.

Nossas circunstâncias são de transformação. Já vivemos outras. Mas hoje o Brasil mudou bastante. Há muito mais brasileiros buscando habitação, trabalho, educação. E há, felizmente, democracia. Foi-se a longa época em que se pensava que nossos problemas poderiam ser resolvidos por algum tipo de “despotismo esclarecido”. Creio não haver risco de um retorno a esses tempos passados.

Mas permanecem ameaças presentes de violência nas ruas, de ataques à civilidade, de “falta de vergonha na cara”, como se dizia antigamente. Hoje a falta de vergonha é tão generalizada que mal se emprega a expressão.

Felizmente, estamos chegando ao fim do processo de impeachment. Se há uma oportunidade de renovação é essa. Se tivesse que identificar a prioridade número um da renovação do país, não hesitaria em apontar o controle e o fim do processo de corrupção generalizada que vivemos. A corrupção é a mãe de todos os vícios que ameaçam a democracia e só podemos esperar que a Lava Jato conclua sua missão logo que possível e abra novos horizontes para a correta administração do país.

A corrupção vem do mais profundo de nossa história. É de Martim Affonso de Souza, responsável pela primeira expedição colonizadora do Brasil, frase que ouvi recentemente na conferência de uma grande historiadora portuguesa: “Quem diz que eu sou cobiçoso diz a maior verdade do mundo, que eu cobiço dinheiro porque não o tenho e porque não posso servir-vos, nem ser honrado sem ele.”

Esse raciocínio marca a história do Brasil até hoje, quando a lentíssima Justiça, os inúmeros recursos, as manobras protelatórias se sucedem para impedir a finalização dos processos judiciais e administrativos.

A imensa quantidade de partidos políticos, as regalias desproporcionais de que desfrutam nossos representantes em todas as esferas públicas, o cinismo e a arrogância que predominam nos agentes políticos, o toma lá dá cá. Tudo o que impede a tão adiada construção do Brasil socialmente justo e economicamente desenvolvido pode-se resumir em frase que anotei em meus cadernos, ouvida de um político tradicional em 1983, com referência à cobertura dada pela imprensa à seca que assolava o Nordeste, dias após a publicação no “Jornal do Brasil” de foto em que uma família exibia seu alimento cotidiano: ratos ou, como se diz por lá, “calangos”. Terno bem cortado, camisa sob medida, sapatos de verniz, unhas feitas e bem nutrido, o senhor, que ficará sem nome, indignava-se com a incompreensão da imprensa para com o que qualificava de fatos normais na vida do sertão: “Calango bem cozidinho é até muito gostoso!” Certamente esse senhor jamais tinha tido que provar alimento tão repugnante. Qual a rainha Marie Antoinette que dizia, com descaso e arrogância: “se o povo não tem pão, que coma croissants!” E outra que ouvi em tempos idos em Brasília de um latifundiário baiano jactando-se de haver resolvido o problema demográfico em suas terras mediante a vasectomia em massa de seus trabalhadores. ”Eles aceitaram bem direitinho. Botei todo o mundo em fila – eu sou médico! – e esterilizei o pessoal. Ninguém reclamou!”

Entre o descaramento de Martim Affonso de Souza na era colonial e a arrogância dos nossos políticos dos tempos atuais, Joaquim Manuel de Macedo, o “Macedinho” do Rio de Janeiro, escreveu dois romances (“A carteira do meu tio” e “Memórias do sobrinho do meu tio”) em que traçou um quadro hediondo das práticas políticas de então, arquétipo do “fisiologismo” dos tempos atuais. Eis aí, pois, disse Macedo, resplandecendo ufanosa a escola filosófica do Governo: o esquecimento do passado, os gozos do presente e o descuido e abandono do futuro. Já então, embora as proporções dos escândalos fossem diferentes, vivenciavam-se os problemas de hoje. Pouco mudou. Só as proporções.

Mais para o século XX, Paulo Prado, no “Retrato do Brasil”, sintetiza seu pensamento na primeira frase do livro: “Numa terra radiosa vive um povo triste”.

Manuel Bonfim condenou a “queda moral” da política republicana em que “…integralizando-se num regime de indiferença pela opinião pública, avesso à verdade e à sinceridade, alheio a métodos reais, privilegiando o constante favoritismo, cultivando intensamente a apostasia política, aceitando e manejando o servilismo, roeu as últimas fibras do caráter nacional…”

E encerro esta lista depressiva com a visão “de fora”do grande antropólogo francês Claude Lévi-Strauss que, ao visitar São Paulo nos anos 30 e 50, comenta em suas memórias do Brasil que as cidades do Novo Mundo passam da contemporaneidade à decrepitude sem se deter, como as cidades europeias, na antiguidade. Em São Paulo, disse Lévi-Strauss, o que o impressionou foi a “precocidade dos estragos do tempo”.

Tristes trópicos, de fato, que ressurgem em minhas percepções num momento da vida em que esperava poder viver num país socialmente justo e economicamente desenvolvido, capaz de me encher de espírito cívico. E o que tenho? Um mosaico de expectativas frustradas e esperanças decompostas.

Haverá uma saída? Encontraremos as lideranças capazes de purificar nossa vida política, econômica e social? Estaremos condenados a conviver com o pensamento dos Martins Affonsos de Souza da vida e sofrer eternamente em berço esplêndido? Como arrancar, como dizia Capistrano de Abreu, “das entranhas do passado o segredo angustioso do presente?”. Conseguiremos um dia decifrar o enigma e superar nossas entranhadas deficiências? Acho - e espero - que sim. Mas deve demorar....

Comecei com um pensador espanhol. Termino com um poeta, também espanhol, Rafael Alberdi:

“Sonhar um sonho foi nosso destino.
Mas quem pode agora
Sequer sonhar que está sonhando um sonho?”


Quando deixaremos de ter de recorrer à fantasia mítica que caracterizou a belíssima abertura das Olimpíadas e quando seremos capazes de lidar com um presente que nos permita voltar a sonhar com base na realidade?

Luis Felipe de Seixas Corrêa

Em todas as vezes, o fogo

É arriscado funcionar como um detector de fumaça num momento de alegria e emoção que envolve o País. Mas há fogo intenso na Amazônia, que vive uma seca brava. E houve muito fogo no Rio Grande do Norte, com ônibus e instalações sumindo nas labaredas.

No caso da Amazônia, já tivemos condições de conter o crescimento de incêndios. Depende também de um esforço coordenado do governo. E ele deveria examinar onde falhou. Já o episódio do Rio Grande do Norte, com mais de cem ataques e a presença da Força Nacional, é um sintoma de que, na crise do sistema penitenciário, continuamos sem saída, apenas empurrando com a barriga.

Já é difícil falar do sistema penitenciário em tempos normais. No auge de uma Olimpíada, os incêndios no Nordeste parecem ser num outro país. As atenções estão voltadas para a Olimpíada, a própria imprensa está concentrada nos Jogos, como todo o aparato de segurança. No entanto, os incêndios revelam um padrão inquietante. Nasceram de ordens das cadeias, tal como no Rio, em São Paulo, Santa Catarina, Maranhão.

Todos sabem que o sistema penitenciário está em crise. E agora percebem que grande parte dos líderes do crime organizado opera de dentro das cadeias. Existe uma espécie de ilusão nacional de que, uma vez condenando e prendendo as pessoas, tudo está resolvido. A sociedade não se interessa por presídios, os juízes cuidam de novas sentenças, os advogados se afastam gradativamente. E a polícia lava as mãos, satisfeita.

Claro que os presídios precisam melhorar, mas mesmo quando estiverem melhores é ingenuidade supor que os presos não continuem a cometer crimes dentro da cadeia. A Inglaterra, por exemplo, desenvolveu inúmeros trabalhos de inteligência e prevenção dentro de presídios. Estamos no estágio ainda de bloquear ou não celulares. Mas não há inteligência nem cuidados preventivos.

Num momento como este, de quebradeira, parece um luxo falar em investir em prevenção do crime dentro das cadeias. Mas os motins quase sempre terminam com destruição de equipamentos e instalações. E nos incêndios nas ruas, com prejuízos para todos. Compreendo que todos estivessem focados na Olimpíada. Mas os deputados estavam à toda. Já nem se movem mais para conflitos e presídios, talvez com medo de ficar por lá.

Se houvesse um sistema nacional de relatórios diários sobre as principais cadeias e um grupo analisando esses dados, creio que parte dos motins seria evitável. Às vezes acontecem depois de um prolongado período de reclamações sobre comida estragada. Os funcionários de presídios não precisariam escrever, apenas responder a um amplo questionário.

No caso do Rio Grande do Norte, às vésperas do bloqueio dos celulares, seria possível aconselhar a monitorá-los um pouco, traçar um quadro de suas conexões. Reconheço que falar é fácil depois que acontece. Mas com um sistema de vigilância de pé, quando acontece é possível ao menos uma referência para a crítica.

Em vários Estados o processo suplantou a polícia local, foi preciso a intervenção da Força Nacional e do Exército, isso num momento em que está tudo orientado para a segurança da Olimpíada.

Embora nunca se divulguem as cifras com clareza – mesmo porque ninguém pergunta –, esses movimentos são caros. Em termos puramente econômicos, o crime liderado por presidiários nos impõe pesadas perdas.
São coisas que, calculando na ponta do lápis, mesmo abstraindo os fatores humanos, acabam sendo muito mais custosas para o País do que enfrentamento direto do problema, ainda que investindo algum dinheiro.

Leio no belo livro Brasil, uma Biografia, de Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling, que os portugueses pouco se importavam com a situação dos escravos que transportavam. Perdiam 10% de sua carga humana, o que era considerado pelos franceses como um índice de epidemia. Pensei: se os portugueses investissem um pouco mais na alimentação dos escravos, talvez conseguissem um melhor resultado econômico. E, sobretudo, poupariam muitas vidas.

Empurrar com a barriga, recusar-se a enfrentar uma reforma, não é a melhor tática. Perdemos vidas, dinheiro.

Criar condições dignas de prisão é apenas um dos caminhos. Depende de recursos, reorganização geral. Há muita gente nas cadeias e muita gente com mandato de prisão nas ruas. Na velha lógica da gafieira, quem está dentro não sai, quem está fora não entra, dificilmente vamos encontrar o equilíbrio.

Mas é preciso ir um pouco além. O comando do crime organizado está em grande parte nas cadeias. O esforço policial, pelo menos teoricamente, está concentrado nas ruas.

O episódio do Rio Grande do Norte foi engolido pela Olimpíada. Revoltas semelhantes também foram esquecidas. No momento, não vejo o governo tentando ligar as pontas, compreender a dimensão nacional do problema. Ele espera que alguma coisa estoure nos Estados e vai socorrer quando as coisas escapam ao controle da polícia. Parece que ministros da Justiça ignoram a realidade das cadeias.

Outro dia, pesquisando sobre violência em Paraty, constatei que as facções criminosas na pequena cidade histórica foram organizadas por gente que passou por presídios do Rio e, ao voltar à liberdade, dividiu as regiões de influência e criou suas facções criminosas. Eles aprenderam na cadeia. Assim os vários presídios estão aprendendo uns com os outros e aterrorizando as ruas. Mas o que é que o governo aprendeu? É hora de compreender a violência urbana não só nas ruas, mas em suas articulações com um sistema penitenciário em crise.

A longa crise política dificultou o debate. Os ministros da Justiça eram escolhidos para defender um governo cambaleante. O atual está concentrado na Olimpíada, falando de terroristas e redes sociais. Quando tudo isso passar e ele examinar bem o que aconteceu no Rio Grande do Norte e compreender o susto que passamos, pode tomar alguma iniciativa. Será um legado indireto da Olimpíada.

'Novo Chico': outro ataque político ao Velho Chico?

Para quem nasceu e passou anos inesquecíveis nas barrancas do Rio São Francisco, entre a Bahia e Pernambuco, é irresistível constatar: a imagem que ilustra a notícia sobre o lançamento, no Palácio do Planalto, esta semana, do “Plano Novo Chico” (há sinais evidentes de marqueteiro novo no pedaço!), assusta e preocupa. Mais que as cenas das conversas e arranjos do coronel Saruê com o deputado Carlos Eduardo, em suas maquiavélicas maquinações nos capítulos mais recentes da novela “Velho Chico” (TV Globo), enquanto o rio da minha aldeia míngua a céu aberto e segue agonizando a olhos vistos.

Na fotografia sem retoques de Beto Barata, que vejo publicada pelo portal G1 , o presidente interino Michel Temer (PMDB) exibe seu sombrio e indecifrável ar de sempre. Está sentado na cadeira de comando do palco da cerimônia, ao centro de uma fileira de ministros de seu governo e de um convidado especial. Do lado direito do mandatário, o Chefe da Casa Civil, Eliseo Padilha, novo “faz tudo” da corte. À esquerda, o presidente do Senado, Renan Calheiros, parece dizer: “com impeachment ou não, e mesmo que o São Francisco não desaguasse em Alagoas, eu estaria aqui”.

Antes da canetada presidencial, os arautos da vez, no poder, trombeteiam que o plano (saído do forno palaciano às vésperas do começo da campanha para as eleições municipais deste ano), prevê que serão distribuídos R$ 1,1 bilhão, nos próximos três anos, entre 217 municípios. Do total de investimentos previstos, R$ 805 milhões devem ir para a construção de sistemas de esgotamentos sanitários em 137 cidades ribeirinhas. Outros R$ 356,9 milhões deverão ser repassados para custear obras de abastecimento de água em mais 80 municípios. A chamada bacia hidrográfica do rio é formada por 505 municípios, onde atualmente vivem 16,5 milhões de pessoas.


Muita gente, muito abandono, múltiplos interesses, incontáveis necessidades. E carradas de votos à espera do primeiro aventureiro ou “salvador da pátria” que apareça. Um "coronel Saruê" ou um "deputado Carlos Eduardo" qualquer, para ficar com o exemplo da espúria e corrupta partilha de exploração política público privada, que o folhetim da televisão apresenta, magnificamente, a cada capítulo. Ainda assim, sinto-me tentado a repetir mais uma vez o ditado irônico dos franceses: “Amaldiçoado seja aquele que pensar mal destas coisas”.

Sob os olhos atentos e o riso meio zombeteiro, no canto dos lábios, do senador Calheiros, o presidente Michel Temer discursa entre amigos e aliados, durante a cerimônia palaciana, e parece que nada mudou. Ao melhor estilo da mandatária afastada – a um passo do impeachment – Temer diz que "a revitalização do São Francisco ajudará a preservar a vida humana, a vida animal e a vida vegetal. E registro aqui uma satisfação extraordinária ao lançarmos esse programa com o título que torna o Velho Chico o Novo Chico... Um Novo Chico cheio de vida para um novo Brasil”.

É preciso reconhecer: a afastada presidente petista Dilma Rousseff; o ex, também do PT, Luís Inácio Lula da Silva, (na vida real, como diz o meu irmão Genival); o coronel Saruê e seu genro deputado, (personagens da novela das nove, na TV) não teriam feito melhor. Nem mesmo o ex-ministro Delfim Neto, quando na sua melhor forma, no começo da gestão ditatorial do general João Batista Figueiredo, lançou o programa “Plante que o governo garante”: Mandou o agricultor plantar cebola, nas margens do rio, com garantia de compra da safra a bons e justos preços. Veio uma supersafra, o Governo de João não garantiu nada, e os lavradores foram levados a lançar cargas de cebola no leito do rio, ou a tocar fogo nas plantaç&oti lde;es, liberando terrenos férteis e irrigados na área onde surgiria, no ano seguinte, um dos maiores polos de plantação de “cannabis sativa” do País, no chamado Polígono da Maconha, entre a Bahia e Pernambuco.

Ninguém me contou. Eu sou de lá. Eu estava lá. Eu vi. E narrei vários episódios em reportagens que fiz para o Jornal do Brasil, na época.

Em junho do ano passado, a propósito das manifestações do Dia Nacional em Defesa do Rio São Francisco, escrevi um texto, neste espaço, com o título “Velho Chico: Jeito PT- Lula de governar e o rio que definha”. Peço licença aos leitores para reproduzir um trecho, antes do ponto final:

“Em 2004/05, período das vacas gordas, do primeiro mandato do governo petista (e de pesquisas de aprovação popular que só faziam crescer), com dinheiro de órgãos públicos de financiamento e de estatais "dando sopa", para bancar todo tipo de megalomania aventureira, Lula decidiu bancar, de fato, a transposição.

Para encurtar esta história, que é longa e tem passagens impróprias para menores: no começo da execução do projeto, as obras foram orçadas em R$ 4,8 bilhões (2007). Atualmente pulou para R$ 8, 2 bilhões. Reajustes contratuais, em geral destinados a atender aos apetites insaciáveis de grandes empreiteiras, aumentaram em 30% o custo inicial, entre 2007 e 2012. Mas contribuiu decisivamente, no Nordeste, para o marketing eleitoral na conquista do segundo mandato de Lula e nas votações avassaladoras de Dilma no primeiro mandato e na reeleição recente.” Em favor do rio e da sua gente mais necessitada, até agora nada.

Mais não digo, nem precisa. Só peço julgamento severo, e o castigo mais duro, para todos os responsáveis e culpados, por ação ou omissão, pela morte, que parece inexorável, do Velho e do Novo Chico, o amado e generoso rio da minha aldeia.

Deus e o dr. Pangloss, dois ilustres brasileiros

Deus pode às vezes parecer ausente, mas nem os piores incréus põem em dúvida sua condição de brasileiro. É dele que provêm as abundantes infusões de otimismo de que nos servimos diariamente. Nesse encargo diário ele é coadjuvado por outro brasileiro ilustre, o dr. Pangloss, personagem de Voltaire, um inabalável adepto da teoria de que vivemos no melhor dos mundos possíveis.

No momento, pelo que me consta, eles trabalham a quatro mãos num grandioso plano para livrar o Brasil da chamada “armadilha do crescimento médio”. Em economês, essa expressão significa que nosso país concluiu galhardamente a chamada etapa fácil do processo de desenvolvimento, aquela em que a mão de obra barata era tão abundante que dava para crescer com pouco capital, pouca tecnologia e quase nenhuma educação. Ascender ao patamar mais alto e entrar no seleto grupo dos países realmente desenvolvidos são outros quinhentos mil-réis.

Em que pese sua imensa boa vontade, nossos dois benfeitores vez por outra nos recomendam sobriedade. Dizem que precisamos estar atentos aos desafios de curto e médio prazo que nos aguardam não só na economia e na política, mas também em nossa mentalidade, na qual discernem certos traços de infantilidade.

Na economia, são enfáticos: não podemos subestimar a devastação causada pelos 13 anos e meio de lulopetismo. Os números os dois já nem se preocupam em ressaltar, sabem que são de conhecimento geral. O ponto que repisam é o do ajuste fiscal. Agora, dizem, há que cortar gastos ou aumentar impostos, ou ambas as coisas – sem choro e sem vela.

Sem ajuste as engrenagens da economia não entrarão nos devidos eixos. Investidor nenhum, brasileiro ou estrangeiro, é louco de botar seu escasso dinheirinho em algum empreendimento sério, com determinação e ânimo de continuidade, num país que não faz o dever de casa. Menos ainda aquele investidor bem informado que acompanha de perto o nosso sistema político. Numa recessão do tamanho da atual, esse investidor sabe que todos os setores organizados, privados e públicos, assim como os políticos que os representam, já avisaram: farinha pouca, meu pirão primeiro. Para aumentar impostos o enredo é um pouco diferente, mas o cenário é o mesmo: uma pedreira.

A esta altura, nossos dois grandes beneméritos retornam à cena com uma mensagem mais severa. Por lúcido e competente que seja – e quanto a isso não cabe dúvida –, o novo governo corre contra o tempo. Quanto mais demorar, menor será sua capacidade e sua credibilidade para fazer o que precisa ser feito. Ninguém se arriscará a prever a duração da crise, os investimentos não voltarão e a cifra do desemprego logo ultrapassará os atuais 11,5 milhões. Suponho que meus leitores e leitoras tenham assistido ao filme Ensaio de Orquestra, de Federico Fellini. Uma metáfora política muito bonita de ver, mas dá calafrios.

Soube que o dr. Pangloss atualmente se pergunta se foi mesmo uma boa ideia nos convencer da “robustez” de nossas instituições políticas. Realmente, em sua lógica implacável ele reitera que não tivemos nenhum golpe militar desde o último. Isso é muito bom. No Judiciário há novidades extremamente positivas; por enquanto, só a ponta de um iceberg, mas antes isso. O dr. Pangloss reitera também que o Executivo cumpre normalmente sua tarefa essencial, a produção de políticas públicas, muito embora o apanhado das políticas educacionais iniciadas desde 2007 feito nesta página pelo professor João Baptista Araújo o tenha deixado com uma pulga atrás da orelha.

Mas onde o entusiasmo de nossos dois bondosos patronos se torna esfuziante é quando falam da reforma política. Parecem admirar a perseverança com que, ano após ano, nos debruçamos sobre essa questão; perseverança que lhes parece tanto mais admirável quando constatam o afinco com que nos dedicamos a tal reforma mesmo não sabendo direito o que queremos. Os reformadores de outras galáxias começam por esta singela inquirição: “Reformar o quê, como, para quê?”. Pessimistas impenitentes, já se vê.

É bem verdade que os padecimentos políticos de que eles padecem lá nós não padecemos cá. Flexíveis como somos, temos solução para tudo. Na Inglaterra, derrotado no vexatório plebiscito que houve por bem inventar, o ex-ministro David Cameron teve direito a uma última foto: de costas, na noite da derrota, junto com sua mulher, deixando seu gabinete. Nosso presidencialismo é um pouco mais complicado: a doutora Dilma Rousseff quase consumiu nossa paciência, mas – alvíssaras! – a novela parece estar chegando ao fim.

No tocante à organização partidária, nossos traços característicos são a lógica e o perfeccionismo. Atendendo à lógica, convencionamos que 1) o viço e a qualidade de uma democracia se medem pelo número de partidos; 2) para tal efeito, o conceito de partido não se reduz ao de uma mera associação civil, registrável em qualquer cartório, mas se trata de figura de direito público, registrada no TSE e custeada por recursos públicos, por meio do Fundo Partidário e do horário eleitoral supostamente gratuito, uma isenção fiscal; 3) esses supostos “privilégios” dos partidos se justificam pela missão que lhes é inerente, qual seja, a de representar correntes de opinião, aspirações programáticas ou ideologias de fato existentes no meio social. E aqui entra nosso perfeccionismo: estamos, salvo melhor juízo, com 32 partidos registrados e 35 na fila, aguardando o conveniente registro.

Onde Deus e Pangloss talvez se hajam equivocado é na infantilidade que de tempos em tempos nos atribuem. Nada há no sumário conjuntural acima apresentado que sugira isso. Mas não nos precipitemos, ainda estamos em agosto. Até o fim do ano, quem sabe?

Imagem do Dia

Maravilhas naturais alemãs
Lüneburger Heide, na Alemanha

O dia seguinte do PT

O PT já dá o impeachment como fato consumado. Planeja e discute agora, internamente, o seu day after, o rescaldo dos escombros. O desafio é sobreviver, eleitoral e judicialmente.

O presidente do TSE, Gilmar Mendes, determinou esta semana a abertura do processo que poderá cassar o registro do partido, envolvido em múltiplas falcatruas, parcialmente mapeadas pela Lava Jato. A defesa não será jurídica, até porque tem contra si os fatos e a lei, mas política. O partido não desistiu da teoria do golpe.

Dilma está perdida, mas o partido ainda crê na mística de Lula, na possibilidade de transformar sua iminente prisão num grande happening político, que mobilize a militância residual, os movimentos sociais e o transmute de prisioneiro comum em perseguido político.

Tudo, segundo os estrategistas do petismo, depende da aplicação engenhosa de uma palavra que, mais que clichê, tornou-se instrumento eficaz de propaganda política: a narrativa.

Não importam os fatos, mas a versão. Se os fatos não coincidem com a narrativa – e raramente isso se dá -, pior para os fatos, diria Nélson Rodrigues.


Essa estratégia explica a obstinada veemência, quase histérica em alguns momentos, da bancada de senadores petistas e adjacentes. Defendem Dilma não de olho em sua absolvição, em que não creem, mas no documentário cinematográfico, em preparo, sob a direção da cineasta Anna Muylaert, focado no afastamento de Dilma.

Com ele, pretendem fazer do limão da derrota a limonada da revanche. Não se deve subestimá-los: de propaganda, os petistas entendem. Forjaram-se nela e com ela chegaram ao poder, convencendo a muita gente de que promoveram a redenção social do país, não obstante terem deixado em seu rastro um vasto contingente de 12 milhões de desempregados, as contas públicas em ruínas e os cárceres de Curitiba superlotados.

Detalhes, nada que um bom roteiro não possa alterar, numa edição cuidadosa, que explore e vitimize as expressões dramáticas do ocaso de Lula e Dilma e transfigure seus oponentes em carrascos. Não faltam imagens, cenas de embates em manifestações públicas, material para forjar a narrativa que se quiser, bem longe dos fatos e de seus contextos.

Esse material, levado a festivais nacionais e internacionais de cinema – e posteriormente veiculado nas redes sociais -, será apresentado como a “prova” do golpe, da truculência da elite e da direita, inconformadas com o projeto social do PT, que (segundo essa narrativa) deu voz e vez aos pobres.

Pouco importa o fato, documentado por órgãos governamentais ainda na vigência do governo Dilma, de que os pobres continuam tão pobres quanto antes, acrescidos agora dos desempregados da classe média, que se contam aos milhões.

Se tal narrativa encontra pouco trânsito e verossimilhança quando apenas verbalizada, adquire efeito bem mais convincente quando acrescida de imagens em movimento.

A estratégia explora as inevitáveis dificuldades do governo Temer em lidar com a crise que herdou.

O PT, arquiteto da catástrofe, tentará reverter sua autoria, acusando os que o sucedem – e tentam consertar o estrago – de tê-la engendrado. Creem na onipotência e veracidade do dito de Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, segundo quem uma mentira repetida à exaustão vira verdade. O PT, aliás, é prova disso.

O teste inicial dessa estratégia será a prisão de Lula, que o partido dá como certa, na sequência, ou mesmo antes, da consumação do impeachment. Aposta-se na sobrevivência do mito, na condição que ainda teria de sacudir o povão, mobilizado pela militância treinada, oriunda da burguesia universitária e sindical.

Aposta-se, sobretudo, nas dificuldades do governo Temer de proporcionar a curto prazo resultados que sejam sentidos no bolso da população. Essa aposta, ao menos, faz sentido. A crise, nesta primeira etapa, como o próprio Temer já avisou, oferecerá remédios amargos e impopulares – e resultados lentos.

Antes de melhorar, o país pode até piorar, dado o espectro político de que dispõe, em grande parte ex-parceiros da era petista.

O PT, com sua propaganda, quer convencer o público que a culpa de tudo não é de sua passagem pelo governo, mas de sua saída. Aposta, mais uma vez, na burrice da população.

A corrupção nos municípios

Angel Boligan - El Universal, Mexico City, www.caglecartoons.com - El asesor / COLOR - Spanish - justicia, pinocho, corrupción, mentira, fraude, ciega,:
Práticas irregulares na gestão do dinheiro público disseminaram-se pelo País, como mostra o fato de que houve alguma forma de corrupção em pelo menos 15,65% das ações de responsabilidade das prefeituras bancadas com recursos da União. A constatação foi feita por uma pesquisa baseada em auditorias realizadas pela antiga Controladoria-Geral da União (CGU), hoje Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle. Dada a grande dificuldade na identificação e caracterização dos atos de corrupção, pois eles são praticados de maneira dissimulada e de modo a não deixar vestígios, não parece exagerado supor que deve ser ainda maior o índice de ilegalidades cometidas com o dinheiro que a União transfere para os municípios, por imposição legal ou por decisões político-administrativas.

A pesquisa teve como fonte as auditorias realizadas pela CGU entre 2006 e 2010 em 840 municípios. Não parece coincidência que os atos ilegais detectados tenham ocorrido no período que começa pouco depois de vir à tona o escândalo do mensalão e abrange aquele em que, como vem mostrando a Operação Lava Jato, o governo do PT coordenou um imenso esquema de assalto à Petrobrás. Os exemplos criminosos vinham de cima.

É imenso o custo social dessa prática, que se tornou endêmica no País, como mostra a pesquisa, cujas conclusões foram divulgadas pelo Broadcast, serviço de informação em tempo real da Agência Estado. Os pesquisadores Olavo Venturim Caldas, da Secretaria de Transparência e Prevenção da Corrupção da CGU; Cristiano Machado Costa, da Unisinos (RS); e Marcelo Sanches Pagliarussi, da Faculdade de Economia e Administração da USP de Ribeirão Preto, responsáveis pela pesquisa, concluíram que a corrupção nos municípios se concentra nas áreas de saúde (houve irregularidades em 19% das ordens de serviços analisadas) e educação (17,5%). Ilegalidades foram identificadas também em 1,25% das ações da área de assistência social e em 6,56% das demais.

Entre os efeitos maléficos da corrupção para a economia nacional, os autores apontam a redução do crescimento, a diminuição dos investimentos públicos e, em consequência, a gradativa deterioração da infraestrutura. Para a população, a corrupção tem efeitos que, embora não tão notáveis, podem ser mais perniciosos e duradouros, como a perda da qualidade do ensino e dos serviços de saúde oferecidos à população.

Em balanço divulgado no início do ano, a CGU mostrou que, desde 2003, irregularidades constatadas em 199 dos 2,7 mil municípios fiscalizados resultaram no desvio de R$ 2 bilhões destinados à merenda e ao transporte escolar por meio de programas federais. Há relação estreita entre a má gestão pública e o desempenho dos estudantes. Nos municípios onde a corrupção é mais intensa o desempenho é pior.

A corrupção tem outro aspecto particularmente nocivo, pois ela prejudica mais os mais carentes. “Nos municípios com maior incidência de corrupção as escolas têm infraestrutura pior, os professores recebem menos treinamento e relatam maior preocupação com a falta de recursos”, diz o estudo.

“Infelizmente há um ciclo viciado que impede que o povo seja mais educado e tenha mais poder de fiscalizar”, observa Olavo Caldas, um dos autores do trabalho. No atual ambiente institucional, diz ele, as políticas sociais não alcançam plenamente seus objetivos, “pois o dinheiro para essas áreas é desviado”.

Além do controle falho, também normas legais favorecem o desvio dos recursos que as prefeituras destinam para a área social. Uma delas é a que obriga as prefeituras a aplicarem pelo menos 25% da receita na área de educação e 15% em saúde – ou seja, 40% da receita tem destino certo. “A obrigatoriedade de alcançar o mínimo exigido pela legislação frequentemente resulta em gastos não prioritários, gerando incentivos para que os agentes se engajem em atividades consideradas corrupção”, afirmam os autores do estudo. Em outras palavras, a vinculação das receitas, como é conhecida a obrigatoriedade de aplicação do dinheiro em determinados setores, alimenta a ineficiência e a corrupção.

Perigo do descrédito

Ross Quesnell
Vivemos em sociedades onde não há mais autoridades. As pessoas não acreditam na Igreja, nas grandes empresas e nos grandes grupos de interesse. E certamente não acreditam nos políticos. O problema é que também não acreditam na imprensa tradicional. Isso é um problema para a mídia, que vem perdendo significado, atenção e financiamento para realizar boas reportagens. É um problema para a sociedade e a democracia em si
Ulrik Haagerup, diretor da Danish Broadcasting, maior provedora de rádio, TV e mídias sociais da Dinamarca

Brasil festeja como suas medalhas conquistadas por heróis que maltrata

As medalhas contabilizadas pelo Comitê Olímpico Brasileiro desde os Jogos da Antuérpia, em 1916, não foram obtidas pelo país. Foram conquistadas por atletas que conseguiram subir ao pódio apesar do país em que vieram ao mundo. Se tivessem nascido nos Estados Unidos, por exemplo, todos eles mereceriam desde a pré-adolescência o tratamento dispensado a possíveis campeões pela mais eficaz política esportiva do planeta.


Nunca houve no Brasil um programa que estimulasse consistentemente a prática de todas as modalidades olímpicas. Se algo parecido existisse nestes trêfegos trópicos, por exemplo, o extraordinário Felipe Wu ─ medalha de prata no tiro com pistola ─ não treinaria no quintal da própria casa, nem gastaria parte do salário em munição. A federação que supostamente cuida desse esporte não pôde ajudá-lo por falta de verba: não lhe coube um só centavo da dinheirama distribuída pelo COB.

O país do futebol menospreza esportes individuais e maltrata os atletas que teimam em praticá-los. Mas festeja como se fossem suas façanhas com as quais pouco ou nada teve a ver. Foram todas protagonizadas por heróis que, como Felipe Wu, seriam vitoriosos mesmo se nascidos nas Ilhas Fiji. Ou no Burundi. Ou no Brasil. 

Augusto Nunes

Xô, Dilma

Falta pouco tempo para o Brasil expurgar da política um dos personagens mais nocivos ao povo brasileiro, cúmplice da maior roubalheira da nossa história. Dilma será afastada definitivamente da presidência por ter cometido todo tipo de trapaça ao se juntar com a organização criminosa do Lula que assaltou os cofres públicos e cometeu a proeza de enterrar em cova profunda a Petrobrás, uma das empresas mais importantes do mundo. Dilma tem que botar as mãos para os céus se não sair algemada, como aconteceria em qualquer país sério do planeta depois dos crimes que ela cometeu durante os seis anos de mandato.

As falcatruas da Dilma começaram quando ela assumiu a presidência do Conselho da Petrobrás. Como disse Cerveró, em delação premiada, ela foi a responsável pela compra da refinaria Pasadena, no Texas, uma sucata que custou aos cofres da empresa mais de 1 bilhão de dólares. Isso mesmo, 1 bilhão jogados na lata do lixo! De lá pra cá, jamais ela deixou de cometer dolos tanto como ministra como presidente. Negou de pés juntos que nunca recebeu dinheiro de caixa dois para a sua campanha até ser desmascarada por João Santana, seu marqueteiro, em delação premiada.

Com cara de anjo tonto, destrambelhado, ela ainda conseguiu enganar por muito tempo. Dizia-se honesta para enganar os trouxas. E enganou milhares deles que foram às urnas para depositar seus votos e trazê-la de novo à presidência. De volta, sorrateiramente, levou o país ao abismo da irresponsabilidade fiscal com as tais pedalas que consistiam em sacar dinheiro de bancos oficiais sem lastro para cobri-los, uma espécie de cheque sem fundo. Administrou a nação à semelhança da sua loja de R$ 1,99 em Porto Alegre, sempre à beira da falência. Quando era exigida para analisar o país, rateava, perdia-se nos pensamentos vagos, alienados e trôpegos.

Não seria exagero dizer que a Dilma envergonhava os brasileiros obrigados, no exterior, a se desculpar por ela representá-los. Não conseguiu se impor como mandatária do país nem evitou que a quadrilha organizada por Zé Dirceu e Lula se expandisse e se enraizasse dentro das empresas estatais promovendo os saques e os constantes roubos com a cumplicidade de empresários bandidos. Não respeitava os milhares de votos recebidos, pois deixou que o país fosse administrado por Lula a quem pedia aconselhamentos como se fosse uma marionete no cargo de presidente sempre que se exigia do governo uma posição sobre qualquer assunto mais delicado.

Em plena crise no poder, tentou jogar para a arquibancada quando recusou um convite para jantar na Casa Branca do Obama, esquecendo-se que os Estados Unidos é o principal parceiro comercial do Brasil. Uma atitude ignóbil de uma presidente de meia tigela. Queria mostrar, com isso, que não estava satisfeita com os espiões dos EUA no Brasil, como se isso fosse uma novidade. A esquerda de botequim a aplaudiu sem perceber que por baixo dessa atitude infantilóide estava uma nação à beira da falência e uma administradora atordoada usando o marketing para esconder a real situação do país.

Ainda na política externa foi incentivada pelo aspone Marco Aurélio a manter inquebrantável os laços políticos e comerciais com a Venezuela em detrimento de outros parceiros mais democráticos e úteis economicamente. Ambos – Aurélio e Dilma – acreditavam que a revolução bolivariana poderia contaminar o resto dos países do Cone Sul e, com isso, todos nós, los hermanos revolucionários, marcharíamos em direção aos Estados Unidos para cobrar dos ianques o nosso atravancado subdesenvolvimento. O desastre na política externa, deixou o Brasil isolado do mundo e submisso a algumas nações sul-americanas. Quando a Bolívia privatizou a refinaria da Petrobrás, a petezada achou tudo normal. Lula não moveu uma palha para evitar a ação truculenta do governo alegando uma tal de soberania do país vizinho como se houvesse um acordo de bastidores entre os dois países.

A Dilma não pode sair do Palácio da Alvorada apenas pela porta dos fundos, como vai acontecer até o final deste mês. Diante das provas apresentadas pelo marqueteiro João Santana de que ela cometeu crime eleitoral usando o dinheiro roubado da Petrobrás para financiar a sua campanha, o passo seguinte à sua saída do palácio seria a prisão, onde iria responder também por vários outros crimes cometidos à frente da presidência.

Decretar luto oficial é apenas uma maneira de lavar as mãos

O presidente Michel Temer decretou luto oficial pela morte do sargento Hélio Vieira Andrade, integrante da Polícia Militar de Roraima que estava prestando serviços à Força Nacional de Segurança Pública na Olimpíada. Conforme fartamente noticiado, ele estava numa viatura policial, entrou inadvertidamente numa favela carioca e os traficantes crivaram de balas o veículo. Realmente, foi um fato trágico que emocionou o país, devido à cobertura nacional e internacional que o incidente ganhou, justamente por ter ocorrido na época dos Jogos Olímpicos, quando até os militares estão dando apoio e reforçando a segurança na cidade do Rio de Janeiro.

Da mesma forma, o governador em exercício Francisco Dornelles também decretou luto oficial. Ficou faltando apenas o prefeito Eduardo Paes tomar idêntica providência, mas certamente não o fez, porque estava ocupado, brincando com seu novo hobby, o trenzinho do VLT.

À primeira vista, esses decretos de luto oficial parecem ser medidas acertadas, em termos de solidariedade e visibilidade política, beneficiando Temer e Dornelles, mas na prática essas iniciativas foram um desastre.

Melhor faria o presidente da República se pegasse o Aerolula e viajasse imediatamente para prestar solidariedade à família do sargento Andrade. O governador deveria fazer o mesmo, mas devia ter outras prioridades. E o prefeito também se omitiu, certamente por estar mais preocupado em produzir novos factóides e se exibir como candidato ao governo estadual.


A política é uma atividade desgastante. Só deveria ser exercida por quem realmente pretende defender o interesse público, sem medir esforços para atingir esse objetivo. No entanto, é bem mais fácil o governante assinar um decreto de luto oficial do que demonstrar que realmente se preocupa com aqueles que arriscam a vida em cumprimento do dever e se sacrificam em defesa da comunidade, como o sargento Andrade, um herói desses nossos dias de trevas.

O resultado dessa insensibilidade política e administrativa dos governantes é a indignação dos policiais do Rio de Janeiro, cujas associações agora estão exigindo luto oficial permanente, em homenagem às mortes dos colegas. Somente este ano foram assassinados já foram 65 policiais militares no Estado do Rio de Janeiro, onde o exercício dessa meritória profissão passou a ser de altíssimo risco, uma sinistra loteria.

A Associação dos Delegados de Polícia, presidida por Wladimir Reale, tomou a frente nessa onda de protestos e encaminhou uma reivindicação direta ao governador em exercício, Francisco Dornelles, nos seguintes termos:

“Cumprimentando-o, a Associação dos Delegados de Polícia do Estado do Rio de Janeiro (ADEPOL/RJ) tendo em conta as justas homenagens que vêm sendo prestadas ao Sd. Hélio Vieira Andrade, da Força Nacional de Segurança Pública, vítima em serviço durante os Jogos Olímpicos, pede a Vossa Excelência que adote idêntico procedimento, declarando luto oficial toda vez em que os policiais do Estado do Rio de Janeiro sejam mortos no cumprimento do dever, em defesa da sociedade fluminense.”
É sempre bom citar exemplos. O lendário prefeito Rudy Giuliani, que criou a política de “Tolerância Zero” na década de 90 e reduziu em 57% a criminalidade em Nova York, sempre fez questão de estar ao lado da comunidade e dos policiais, nos momentos de dificuldades. Quando perguntavam por que ele ia pessoalmente, ao invés de mandar algum representante, ele sempre respondia: “Eu pedi para ser prefeito, a responsabilidade por tudo o que acontece tem de ser minha”. É um grande exemplo.

No Brasil, precisamos de uma política de “Tolerância Zero”. No somente na segurança, mas na administração pública em geral. Aqui do lado debaixo do Equador, a tenebrosa realidade é que os governantes e as autoridades primeiro cuidam de si, o resto que se dane. Mas isso tem de acabar.