terça-feira, 9 de agosto de 2016

Na irrelevância, PT volta às vacas magras de 1996

Vocês certamente já leram a notícia de que levantamento preliminar feito pela Direção Nacional do PT evidencia que a legenda terá 1.135 candidatos a prefeito nas eleições municipais de outubro. O número representa uma redução de 35,5% em relação aos 1.759 candidatos do partido que disputaram prefeituras em 2012.

É a menor número dos últimos 20 anos. Em 1996, eram 1.077. A cúpula petista aponta três motivos para essa diminuição: o sentimento antipetista amplificado pelas revelações da Operação Lava Jato; a proibição das doações empresariais e o processo de impeachment de Dilma Rousseff, que distanciou o PT de aliados tradicionais e restringiu as alianças.

Pois é…
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Sobre o peso que têm o petrolão e o impeachment de Dilma, há pouco a dizer, não é? Alguns aliados do PT preferiram guardar distância do partido. Andar ao lado de petista queima o filme.

Agora, engraçado mesmo é ver a legenda apontar como um dos fatores da diminuição o fim da doação de empresas a campanhas eleitorais. A tese é do PT. Na prática, a legenda a patrocinou.

De todo modo, essa justificativa é cascata. Afinal, a proibição de doações vale para todo mundo.

Talvez seja o caso de colocar isso de outro modo: o PT, mais do que qualquer outra legenda, mergulhou no caixa dois. As empresas, não é segredo pra ninguém, estão assustadas. Ainda que as doações fossem permitidas, boa parte iria querer guardar distância das eleições.

Ódio ideológico contra um homem honrado

É triste constatar como a visão ideologicamente viciada e torpe da realidade política conduz determinadas pessoas, mesmo as mais respeitáveis, a falar e cometer desatinos. O escritor Fernando Morais, numa demonstração de falta de educação, má-fé política e infantilidade alardeou que irá devolver ao ex-governador Cristovam Buarque o prêmio “Manoel Bomfim” que recebeu anos atrás pela obra “Chatô – O Rei do Brasil”.


Fernando Morais incorre em erro básico ao fazer tal declaração. O prêmio não lhe foi concedido pelo ex-governador Cristovam Buarque, mas pelo Governo do Distrito Federal, a partir da indicação de um júri formado por vinte intelectuais brasileiros, entre os quais Nelson Werneck Sodré, Hélgio Trindade e Joel Rufino dos Santos. Além de descortês, Fernando Morais evidenciou não distinguir a diferença entre partido, governo e estado. É compreensível, pois todos que confundem política e ódio, inteligência e bloqueio ideológico, razão e irracionalismo, tende a cometer erros dessa ordem e defender, em nome de valores universais, como a democracia, o aparelhamento do Estado, a corrupção e a inépcia administrativa, traços dos governos petistas que o escritor apoiou e quer de volta.

Não vou defender o ex-governador Cristovam Buarque, a quem tive a honra de, como secretário de Ciência e Tecnologia, propor a criação do prêmio “Manoel Bomfim”, que outorgou a figuras como Darcy Ribeiro, Jorge Caldeira e Fernando Novais, a honraria, que, hoje, Fernando Morais despreza e ameaça devolver.

O orgulho que sinto de ter Cristovam Buarque como um amigo talvez seja o mesmo que Fernando Morais tenha pelo falecido governador paulista Luiz Antonio Fleury, que ordenou o massacre do Carandiru, justo na época que o autor de “Olga” era seu secretário da Educação. Outros tempos, sem dúvida, pois Fernando Morais tão indignado e vexado com o impeachment de Dilma, a ponto de ofender um homem decente e correto como Cristovam Buarque, não demonstrou o mesmo durante o episódio do Carandiru, pois permaneceu no cargo por mais de um ano, como se a matança 111 detentos fosse algo tolerável e trivial.

Tudo bem. Caso Fernando Morais queira, de fato, dar dimensão ao seu gesto, que devolva ao Governo do DF (não ao ex-governador Cristovam Buarque) não apenas a placa de prata como os dez mil reais que recebeu do prêmio “Manoel Bomfim”, na época equivalente a dez mil dólares.

Gesto pomposo pela metade sugere apenas inconsequência ou picaretagem.

Humanidade esgota recursos da Terra em 2016

Surreal illustration by Igor Morski more: http://webneel.com/webneel/blog/25-stunning-surreal-illustrations-creative-photo-manipulation-igor-morski:
Igor Morski

A cada ano, a Global Footprint Network, um think tank internacional que trabalha em parceria com mais de 90 organizações, calcula o chamado "Dia da Sobrecarga da Terra", uma data que marca quando já usamos mais recursos da natureza do que a Terra é capaz de repôr no ano inteiro. Pense em algo como uma conta bancária que indica recursos disponíveis e o total de saques. Neste 8 de agosto de 2016, a humanidade entrou no vermelho - mais cedo do que nunca.

Hoje a humanidade consome os recursos de 1,6 planeta Terra. Desnecessário dizer que existem grandes diferenças regionais: se toda a humanidade vivesse e fizesse negócios como os alemães, seriam necessários 3,1 planetas; já o "American Way of Life" requereria 4,8.

A queima de combustíveis fósseis e de lenha é responsável por 60% da nossa "pegada ecológica" (a quantidade de recursos naturais necessários para manter nosso estilo de vida). Em números absolutos, China, EUA, União Europeia e Índia são os maiores emissores mundiais de CO2. O consumo per capita, no entanto, coloca essa estatística em perspectiva. Em termos puramente matemáticos, cada um de nós tem duas toneladas de CO2 em sua conta se quisermos manter o aquecimento global abaixo de 2 graus celsius.

Florestas fornecem CO2, madeira e matéria-prima para papel. Elas previnem a erosão do solo, retêm água e são indispensáveis para o funcionamento do ciclo ecológico como reservatórios de CO2. Ainda assim, 3,3 milhões de hectares de florestas são perdidos por ano. Na Alemanha, as áreas com floresta cobrem meros 15% da emissão anual de CO2.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Charge do dia 08/08/2016

A hora da mudança

Os estados brasileiros, salvo raras exceções, comprometeram-se com o que se poderia chamar de irresponsabilidade fiscal. Viveram, nos últimos anos, sob a égide de despesas crescentes, como se os recursos públicos fossem infinitos. Reajustes salariais, penduricalhos dos mais diferentes tipos, cálculos contábeis duvidosos de forma a aparentar uma espécie de conformidade à lei, empréstimos que eram consumidos por fora dos objetivos contratuais, dispêndios feitos com receitas extraordinárias e assim por diante.

Ressalte-se que não se tratava de uma política levada a cabo apenas pelo Poder Executivo, mas compartilhada pelo Legislativo, pelo Judiciário e pelo Ministério Público. Cada um procurava tirar o seu quinhão, como se os recursos dos contribuintes estivessem simplesmente à sua disposição. Cada um desses poderes poderá eventualmente produzir suas próprias justificativas, algumas legais, outras no limite, sem que isto altere minimante o quadro geral.


Os anos lulopetistas que agora chegam ao fim estimularam tal irresponsabilidade, sempre concedendo aos estados verbas adicionais, como se o Tesouro público não estivesse comprometido. Os longos anos da presidente afastada Dilma conduziram tal postura ao paroxismo, criando contabilidades fictícias que agora pagam o seu preço. Ou melhor, todos nós estamos pagando esse preço. Os privilegiados deixaram de se preocupar com o bem público, isto que constitui propriamente uma república.

O governo Fernando Henrique deixou, entre outras heranças positivas, um legado de responsabilidade, consubstanciado na Lei de Responsabilidade Fiscal e na renegociação das dívidas dos estados que estavam quebrados. Entre outras contrapartidas, alguns estados deixaram de ter bancos próprios, que somente serviam a objetivos eleitoreiros.

Ora, se o primeiro mandato do presidente Lula foi particularmente bem-sucedido, isto se deve à preservação deste legado, apesar de seu discurso esquizofrênico da “herança maldita”. Os incautos e desavisados acreditaram em tal mensagem. O torpor tomou conta da nação, que ainda o reelegeu, apesar dos efeitos da corrupção já se fazerem presentes no que se convencionou chamar de mensalão.

A responsabilidade fiscal, porém, começou a ser progressivamente corroída a partir da segunda parte do seu segundo mandato e nos governos Dilma que, então, adotou a política da mais completa irresponsabilidade. É fato, contudo, que tentaram eles produzir uma narrativa, a das causas externas, que não resiste a qualquer análise mais minuciosa.

Neste meio tempo, o mensalão reapareceu sob a forma do petrolão, aí minando definitivamente qualquer credibilidade lulopetista, levando, inclusive, a presidente Dilma ao seu afastamento e ao seu impeachment iminente.

O novo governo Temer está começando a tomar atitudes corajosas de reversão de tal quadro, em uma situação que não deixa, contudo, de ser ainda paradoxal, por não ser ainda definitivo. O presidente interino deve tomar atitudes que mudem estruturalmente o país.

Uma delas, da maior importância, é a do controle das despesas estaduais. A maior parte dos governantes está à míngua, atrasando salários, não honrando suas dívidas, causando prejuízo aos seus fornecedores e não conseguindo atender os seus cidadãos adequadamente em assuntos da maior relevância como segurança, educação e saúde públicas.

Mal acostumados sob o lulopetismo, sempre fizeram o jogo perverso de transferência de suas responsabilidades para a União. Apostavam, de uma ou outra maneira, no jeitinho, na “negociação”, empurrando com a barriga um problema para não explodir agora, porém mais adiante. Uma bomba de efeito retardado.

Acontece que as finanças da União estão também quebradas. Não há mais remendo possível. O governo Temer está tomando as medidas necessárias, mas nem sempre está sendo correspondido pelos parlamentares e por várias corporações, como o Legislativo, o Judiciário, o Ministério Público e setores do Executivo. Cada um desses setores clama para si um “direito”, o direito à exceção.

O bem público fica, então, esquartejado entre os diferentes interesses corporativos. Como tem sido assim nos governos petistas, permanece arraigado o sentimento de que tudo deve permanecer igual, apesar da aparência da mudança.

As condicionantes do governo Temer são as mais sensatas na renegociação das dívidas estaduais. Limitação dos gastos públicos e sua correção anual pela inflação do ano anterior, além da igual limitação dos reajustes salariais nas mais diferentes esferas do funcionalismo público.

Não é possível que um país com mais de 11 milhões e meio de desempregados vivencie aumentos salariais em setores que gozam de estabilidade do emprego, quando famílias estão lutando por sua sobrevivência. Não é possível um discurso de sacrifício da nação, com tais disparidades. Medidas devem valer igualmente para todos, sob pena de termos, aí sim, injustiça.

Não se venha com a catilinária de oposição entre direita e esquerda, como se a esquerda petista e de seus congêneres fossem “sociais”, em defesa dos direitos, contra os neoliberais e conservadores que tomaram conta do novo governo.

A distinção básica é entre os que sabem fazer contas, como qualquer responsável de família, e dos que não conhecem as regras elementares da aritmética, vivendo dos recursos alheiros. Ou seja, essa esquerda é ignorante dessas regras, vivendo no mundo da “contabilidade criativa”.

O país necessita mudar, não pode mais continuar vivendo neste mundo imaginário de uma ideologia ultrapassada. Os deputados são, então, chamados à responsabilidade, a de apostarem em um novo Brasil, tomando decisões que permitam ao nosso país enveredar para o caminho da mudança, do crescimento econômico e da equidade social.

Nada poderá ser feito se houver, de modo geral, qualquer tergiversação sobre uma nova responsabilidade fiscal, agora consubstanciada nesta nova Lei de Renegociação das dívidas estaduais, com suas imprescindíveis contrapartidas.

Denis Lerrer Rosenfield

Do sucesso e da ausência de desastre

Sucesso é, claro, subjetivo. É individual. Dada um adota a definição que lhe parece melhor. Pessoas, grupos, famílias, países, definem sucesso da maneira que bem entendam. Afinal, definir sucesso depende de muita coisa. De quem avalia.
Do ponto de vista. Do interesse. E até mesmo da realidade.

Em tese, o sucesso requer ter êxito em alguma coisa. Ou obter resultado feliz em algo. Ou mesmo conseguir chegar ao fim de uma empreitada. Portanto, comemorar sucesso deveria partir da compreensão do que se pretendia quando iniciou a empreitada. E comparar intenções e fatos.

Diferentes pessoas e povos lidam com os resultados das diferenças entre intenção e fato de maneira diversa. Alguns exigem superação de suas metas. Perseguem-nas obstinadamente, sem trégua e, ao fim da empreitada, comemoram (ou não) seu atingimento. Sucesso, para estes povos, é fazer melhor do que o planejado.

Agir assim tente a ser produtivo. Impulsiona a evolução. Recompensa o mérito. E, no longo prazo, deixa legados e contribuições que vão se acumulando, geração após geração, criando realidades e sociedades que se beneficiam dos resultados conquistados em todos estes sucessos.

Por outro lado, agir assim é também convidar a frustração a fazer parte constante da vida. Nem tudo são flores. E adotar este comportamento requer lidar também com os fracassos, as limitações, imperfeições, as derrotas. Com sabedoria, serenidade, e espirito critico. Aprender, enfim, com os tropeços. Talvez por mais fácil, outros povos adotam outras estratégias.

Existem aqueles que reescrevem o passado. Esquecem as metas originais. Os delírios de grandezas. As promessas. As intenções. Os objetivos originais. O canto da sereia dos legados. Enfim, exercitam o autoengano na busca do balsamo que alivia a dor dos fracassos.

Assim, baixando a exigência ao nível da incapacidade em atingir os objetivos da empreitada, fica mais fácil declarar sucesso. Superação, planejamento, dedicação, trabalho, esforço, ficam menos importantes.

Desaparecem as razões para a exigência de superações e esforços. Basta o jeitinho, a gambiarra, a improvisação. E, claro, um pouquinho de autocomiseração não atrapalha. Ao contrário, justifica tudo. É esperar pouco e viver agradavelmente surpreso. E, sempre, comemorar o sucesso, sempre atingido através do rebaixamento das metas até o ponto em que elas encontrem a linha da incompetência.

Ninguém deseja sofrimento. Muito menos passar vergonha (própria ou alheia). Mas ausência de desastre é não é sucesso. E muito menos razão para comemoração. Apenas alivio que o pior não veio. Apesar de tudo.

É próprio de governo populista convencer de que oposição odeia pobres

Ao contrário dos outros partidos, que buscam convencer o eleitorado de que nasceram para governar em benefício de toda a sociedade, o Partido dos Trabalhadores afirma que veio para governar em benefício dos que são explorados e oprimidos pelos ricos.

A realidade mostrou que a coisa não é bem assim. De fato, os governos petistas, tanto o de Lula quanto o de Dilma, implementaram programas em benefício da parte mais carente da população. Ao mesmo tempo, aliaram-se a grande empresários com o propósito de usar recursos públicos para permanecer no poder.

Esse é um projeto fadado, cedo ou tarde, ao fracasso, uma vez que não investe nos setores fundamentais da economia e, sim, num projeto demagógico que termina por levar à carência do crescimento e à crise econômica, como ocorreu aqui no Brasil. É próprio desse tipo de governo populista convencer, sobretudo os setores carentes do eleitorado, de que toda a crítica que lhe fazem advém daqueles que odeiam os pobres e querem manter a desigualdade social.

Seria essa a razão das críticas aos governos petistas. Lula chegou ao ponto de afirmar que o mensalão nunca houve, foi uma invenção as imprensa. Disse isso muito embora José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares –altos dirigentes do PT– tenham sido julgados e condenados pelo Supremo Tribunal Federal.

Não por acaso o PT tornou-se conhecido como o partido da mentira, mesmo porque não encontra outro modo de escafeder-se das sucessivas acusações que lhe são feitas –não pela imprensa, que apenas as divulga–, mas pelos órgãos do Estado brasileiro, encarregados de apurar a corrupção e punir os corruptos.


Pode alguém, em sã consciência, acreditar que, da Polícia Federal à Procuradoria Geral da República, o Ministério Público e até mesmo o Supremo Tribunal Federal, enfim, todos os órgãos policiais e judiciais, todos, sem exceção, participem de um conluio para perseguir a Lula, Dilma e os petistas em geral? Pode alguém acreditar nisso?

Claro que não. Sucede que não é isso o que preocupa Lula e sua turma. Eles não pretendem convencer o povo brasileiro em geral: tudo o que dizem e fazem tem por objetivo o seu eleitorado, os aliciados pelo PT, pois sabem muito bem que, com suas mentiras, não convencem o povo em geral, mas convencem os que rezam por sua cartilha.

Por isso, não importa se você ou eu não acreditamos que o impeachment seja ou não um golpe: importa, isso sim, que seu eleitorado acredite no que dizem e continue votando no PT. Sim, porque, se ele muda de ideia e acredita na verdade, será o fim de Lula e seu partido.

E é com esse mesmo propósito que, para surpresa geral, Lula recorreu à Organização das Nações Unidas, alegando ser vítima de abuso de poder da parte do juiz Sérgio Moro. A rigor, o que significa semelhante recurso a um órgão internacional da importância da ONU?

Significa, implicitamente, afirmar que os órgãos responsáveis pela aplicação da Justiça, no Brasil, não têm isenção para aplicá-la. Consequentemente, para que Lula tenha seus direitos de cidadão respeitados, torna-se necessária a intervenção daquela entidade internacional. Ou seja, como no caso do mensalão e do petrolão, ele continua sendo acusado injustamente.

Trata-se, na verdade, de um disparate, mesmo porque a ONU só intervém em tais casos depois que são esgotados todos os recursos judiciais do país onde o problema ocorre. O que não é o caso de Lula, que nem réu ainda era quando impetrou o tal recurso.

A conclusão a que inevitavelmente temos de chegar é que Lula, sabendo da improcedência de tal recurso, usou-o para se fazer de vítima em vez de culpado, o que o obrigaria a explicar-se diante de seus eleitores. Em suma, não importa se é tudo uma farsa e que você e eu saibamos disso: importa é que os petistas acreditem nele e continuem a tê-lo como o defensor dos explorados. E do Marcelo Odebrecht também?

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

Ferreira Gullar 

A longa marcha da crise e o caos

No dia 4 de agosto, uma paralisação dos servidores públicos no Rio Grande do Sul, de onde escrevo, produziu certa alteração nas rotinas. Na véspera, ouviam-se advertências, contestadas pelas autoridades, no sentido de que as pessoas evitassem sair de casa. A situação, porém, não ficou tão anormal assim, exceto para a atividades dos restaurantes, à noite. Contudo, é inegável: o excesso dos gastos públicos frente à receita possível, levando ao fatiamento dos contracheques dos servidores ao longo do mês, nos conduziu ao estágio final da longa marcha da crise contra os bastiões de um Estado visto como inesgotável em sua capacidade de atender demandas. Nada diferente do resto do país, ao que se sabe.

A crise é um exército invasor formado por problemas que não chegam metendo o pé na porta. De longe, bem de longe, ela vem tocando trombeta - "Cuidado! Olha que estou chegando!". Os técnicos responsáveis advertem. Jornalistas zelosos repercutem. Indicadores piscam luzes vermelhas nos painéis. No entanto, para grande parte daqueles a quem está atribuída competência para decidir sobre o gasto público, e para a maioria da população, responsabilidade fiscal é tema tão indigesto quanto conversa sobre cinto apertado na mesa do almoço familiar.

Tenho bem presente as chacotas que a oposição ao governo Yeda Crusius lançava sobre o Déficit Zero que ela pretendeu, com imenso sacrifício político, emplacar como marca de seu governo. O que era meritório foi levado ao purgatório. O que era simplesmente responsabilidade foi retoricamente exorcizado como perversão neoliberal, patologia da consciência social, maldade pura. Quanto é sensível a opinião pública às fanfarronadas dos maus políticos! Quanta credibilidade é atribuída aos garganteios da tal "vontade política", presumível toque de Midas capaz de transformar conversa fiada em recurso público!

Não há como desconhecer: em 2010, o Rio Grande do Sul elegeu Tarso Genro malgrado seu discurso a favor da irresponsabilidade fiscal, que ele levou às últimas consequências, legando a seu sucessor um rombo de R$ 5,4 bilhões. E note-se, o somatório dos aumentos de vencimentos por ele concedidos para viger depois de seu governo, entre 2015 e 2018 representa um impacto adicional de R$ 7,5 bilhões ao gasto público.


É longo o parto do caos. A crise chega devagar. Vem avisando e leva bom tempo batendo à porta. Até que mete o pé e se exibe com toda a feiúra. Os servidores públicos que padecem o parcelamento de vencimentos pagos em dia à época do Déficit Zero, ali adiante verão as parcelas referentes a um mês se sobrepondo às do mês subsequente. Sim, a vida parece risonha e franca quando um Estado falido eleva seu gasto fixo, mas, parafraseando Marx, o que parecia sólido se desmancha no ar e o sagrado é profanado. O desfazimento e a profanação aconteceram ao longo dos anos, quando foram sendo negligenciados os problemas estruturais do setor público.

Clamam aos céus por justiça os desníveis remuneratórios existentes nos quadros de pessoal do Estado. Necessárias garantias funcionais resguardam desnecessários privilégios. É agressivamente desarmônico o tratamento entre a situação do Executivo e a dos poderes independentes (cujo pessoal ganha muito mais, em dia e recebe aumento). Mas a causa da crise vai muito além disso. Muito além!

Ela enfiou o pé na porta e o caos se instala. Seria desesperador imaginar que isso sirva, mais uma vez, para mobilizar esperanças na direção dos discursos demagógicos, da tal "vontade política", ou de algum pote de ouro no fim do arco íris.

Percival Puggina

Imagem do Dia

O mito da meritocracia

Meritocracia. Essa se tornou uma das palavras preferidas dos conservadores. Se o multibilionário se deu bem na vida, é porque tem talento e trabalhou duro. É verdade, mas apenas parte dela. É difícil que alguém construa um império, se não tiver nenhuma aptidão, mas daí não decorre que todo mundo que seja competente dará certo. O sucesso tem muito mais a ver com sorte do que gostamos de crer. A meritocracia, em sua acepção forte, não passa de um mito. Aqui, são os liberais que estão certos.

Essa é basicamente a mensagem do livro "Success and Luck" ("Sucesso e Sorte"), de Robert Frank (Cornell). E, para nos convencer dela, ele usa um amplo e saboroso leque de histórias, estatísticas e estudos que mostram que o acaso não apenas define o que conquistamos como também está ficando cada vez mais influente, à medida que mais setores da economia passam a operar em modelos do tipo o vencedor leva tudo.

Os caprichos do destino começam a atuar antes mesmo do nascimento, já que características decisivas para o sucesso, como inteligência e disposição para o trabalho, das quais nos sentimos "donos", em nada diferem de outras que corretamente percebemos como fruto da loteria genética, como a cor dos olhos ou tipo de nariz.

Nascer no país certo também faz enorme diferença. Só viver nos EUA já determina que o indivíduo tenha renda média 93 vezes maior do que quem nasce no Congo (ex-Zaire). E, evidentemente, não há mais mérito em ser americano do que congolês.

De resto, mesmo entre os muito talentosos, pequenas mudanças nas condições iniciais podem ter consequências dramáticas. Al Pacino é um grande ator, mas há muitos grandes atores. Ele se deu bem, entre outras razões, porque teve a sorte de ser escalado para fazer o papel de Michael Corleone em "O Poderoso Chefão", o que o lançou ao estrelato. Frank encerra montando um bom caso em favor de uma taxação mais progressiva

Os descaminhos de Dilma

No exercício interino da Presidência e prestes a se tornar sucessor da presidente afastada – e a despeito das dificuldades decorrentes das circunstâncias excepcionais que o colocaram na função –, Michel Temer tem ensinado a Dilma Rousseff e ao PT uma lição elementar, que Lula não conseguiu transmitir a sua pupila. A de que governar um país, numa democracia, é um enorme desafio de natureza essencialmente política que não comporta soberba, autoritarismo, desapreço pelo contraditório. Egocêntrica, Dilma fez questão sempre de exibir seu poder, em vez de fazê-lo prevalecer pelo caminho democrático da adequação de meios a fins. Tentou levar a extremos o princípio inverso, autoritário, de que os fins justificam os meios. O resultado está aí.

É inacreditável a postura olímpica de Dilma Vana Rousseff, às vésperas de ter seu impeachment decretado, em relação à sua própria responsabilidade na grave crise da qual o País luta para se desvencilhar. Está prevista para o dia 10 a divulgação de uma Carta aos Brasileiros na qual ela exporá argumentos que julga capazes de atingir o principal objetivo da iniciativa: reverter a seu favor o julgamento final do impeachment previsto para se realizar no Senado no fim deste mês. A julgar pelo comportamento que Dilma tem adotado desde sempre, é fácil imaginar o teor da tal Carta: a proposta de soluções que ela própria não teve a capacidade de adotar enquanto governava e, principalmente, o indigitamento dos culpados pelos problemas do País – da direita inimiga do povo ao PT, passando pela “mídia monopolizada”. Um amplo elenco do qual ela nunca teve o menor escrúpulo de se excluir, embora tenha sido chefe do governo por mais de cinco anos.

É tão desmedida sua soberba que Dilma baniu a primeira pessoa de qualquer consideração negativa da gestão pública pela qual ela foi a responsável constitucional até semanas atrás. Ela jamais admitiu ter alguma culpa pelo descontrole das contas públicas, pela recessão da economia e, consequentemente, pelo brutal aumento do desemprego e pela diminuição dos recursos disponíveis para programas sociais que são considerados a maior realização dos 13 anos de lulopetismo. Tudo é culpa de terceiros. Quando não é da conjuntura internacional adversa, é da oposição desalmada que sabotou seu governo com pautas-bomba no Congresso ou da mídia a serviço das elites que não consegue enxergar os méritos de um “governo popular”.

Mas, se não consegue ser minimamente fiel à realidade – o que implica dizer que quem está errada é a maioria absoluta dos brasileiros que hoje a repudiam –, Dilma não consegue tampouco dedicar um mínimo de fidelidade ao partido político que a inventou e a carregou nas costas em duas eleições presidenciais. Na terça-feira passada, Dilma foi implacável com o PT: “Eu acredito que o PT tem de passar por uma grande transformação. Primeiro, uma grande transformação em que se reconheçam todos os erros que cometeu, do ponto de vista das práticas, da questão ética, da condução de todos os processos de uso de verbas públicas”.

Dilma aconselhou o partido a fazer aquilo a que ela própria se recusa: “A instituição, que é o PT, tem de ser preservada, tem de ser melhorada, tem de ser redemocratizada. (…) As pessoas é que têm de fazer as suas autocríticas”.

É fácil entender, diante disso, por que a direção do PT, embora ainda procure manter as aparências, está cada vez mais distante daquela a quem só aceitou como candidata à Presidência por imposição de seu então todo-poderoso chefão, Lula da Silva. E com a qual, ao longo de cinco anos de mandato presidencial, teve frequentes desencontros, como por ocasião da “faxina” ministerial que ela tentou promover logo no início do primeiro mandato ou quando, no início do segundo, o Ministério da Fazenda foi entregue ao “liberal” Joaquim Levy, que tentou em vão impor um mínimo daquilo que o populismo lulopetista jamais praticou: austeridade no trato dos recursos públicos. Bem a seu estilo, Dilma renega hoje o PT com o qual jamais se entendeu. Um enorme erro político pelo qual está pagando caro.

Quem é que ainda acredita que o FGTS existe em defesa do trabalhador?

É impressionante que ainda exista quem possa acreditar que o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) tenha sido criado na ditadura pelo então ministro Roberto Campos em defesa do trabalhador. Na verdade, trata-se de um roubo sobre a poupança do trabalhador, já que rende juros que equivalem à metade do que paga a poupança, que também não chega nem a repor o que a inflação consome. Portanto, o FGTS serve mesmo é como fonte de recursos administrados pela Caixa Econômica Federal para os políticos corruptos meterem a mão.

É isso mesmo. Na verdade, o FGTS só é bom para esses políticos corruptos e para os pelegos sindicais, pois não serve aos empresários, que não podem nem pensar em atrasar os recolhimentos, já que é complicado conseguir parcelamento dos débitos, e muito menos serve aos trabalhadores, as maiores vítimas.

Em suma, o sistema do FGTS tem que ser totalmente repensado, assim como muitos dos supostos direitos dos trabalhadores, que de nada servem para quase 12 11 milhões de desempregados.

Está na hora de discutir o que realmente existe de errado no Brasil, problemas que não podemos continuar atribuir à CIA nem aos americanos, em denúncias de uma pobreza intelectual de fazer dó, coisa típica de vagabundos intelectuais.


Para falar a verdade, tenho muito mais medo dos supostos defensores dos direitos sociais do que dos assumidamente pró-mercados. Como exemplo disso, estamos assistindo à história dos empréstimos consignados, generosamente concedidos a aposentados, pensionistas e funcionários públicos.

Primeiro, se faz um arrocho nos salários e nas aposentadorias, depois abre-se crédito farto para que cidadãos endividados se enforquem cada vez mais e tenham descontados no contracheque as prestações obrigatórias. E tudo isso para ajudar a manter um projeto criminoso de poder, de um governo supostamente dos trabalhadores.
Basta então dessa conversinha, desse papinho furado dos esquerdopatas, que alegam lutar pelos direitos sociais. Na realidade, eles só pensam no projeto (criminoso) de poder e em se locupletarem.O pouco que se descobriu até agora mostra o ex-ministro Paulo Bernardo ter enriquecido mais de 7 milhões de reais só com os pixulecos das maracutaias do consignado.

Trata-se de fatos concretos e irrefutáveis. A libertação de Paulo Bernardo foi uma ofensa aos cidadãos de bem que ainda existem neste paí
s.

Histórias

Tarsila do Amaral, "Segunda Classe"
O professor de História, no seu primeiro dia de aula, entra e os alunos nem percebem, conversando, falando ou jogando no celular. Ele escreve na velha lousa um imenso H, e depois vai desenhando cabeças com bigodes e barbas, enxada, foice. A turma foi prestando atenção, trocando risinhos, e agora espera curiosa. Finalmente ele fala:

– Não vamos estudar aquela História com H, só com heróis e grandes eventos! Vamos estudar a partir da nossa história, daonde e como viemos. Por exemplo, como é seu sobrenome?

– Oliveira.

– Pois é, muitos Oliveiras têm esse nome porque eram imigrantes europeus, fugidos de perseguições religiosas, então adotavam nomes de árvores ou plantas, Oliveira, Pereira, Trigueiro e tantos outros. E o seu sobrenome?

- Santos.

– Foi o nome adotado por muitos ex-escravos ou filhos mestiços de fazendeiros com escravas. Você é, como diz o IBGE, pardo, o que não é vergonha nem demérito algum, ao contrário, a maioria do povo brasileiro é pardo. E o seu sobrenome?

– Vicentini.

– Origem italiana. Os italianos, como os espanhóis, alemães, japoneses, vieram para cá para bater enxada, trabalhar nos cafezais quando os escravos foram libertados.

O engraçadinho da turma levanta o braço:

– Meu sobrenome é Silva, professor. Tem mais Silva na lista telefônica que formiga em formigueiro. Daonde eu vim?– Da selva. Silva é selva, em latim. Foi o nome dado pelos romanos antigos aos que vinham das florestas para morar na cidade, eram os “da selva”. Se a gente pensar que a maioria das pessoas morava no campo há meio século, e depois se mudou em massa para as cidades, a origem do nome até se justifica.

A turma espera em silêncio: aonde ele quer chegar?

– Proponho o seguinte. Vocês conversem com seus pais, avós, tios, para saber dos antepassados. Daonde vieram, por que, trabalharam e viveram onde e como. Cada um contará então a história de sua família, e daí vamos situar essa história familiar na história social. Vamos falar da cafeicultura, por exemplo, depois que alguém falar que seu avô trabalhou com café.

Uma mocinha levanta a mão:

– Não só meu avô, professor, minha avó conta que também trabalhava. Levantava às cinco, fazia café, dava de mamar ao nenê, porque ela diz que sempre tinha um nenê no ombro, outro na barriga e uma criança na barra da saia. Depois de fazer o café e tratar das galinhas, recolher os ovos, tirar leite das vacas e cuidar da horta, ela ia levar marmita pro meu avô e os filhos maiores no cafezal, e ficava lá também batendo enxada até o meio da tarde, quando voltava pra preparar e janta e…– Bem, só com isso que você contou podemos estudar a cafeicultura e o feminismo, comparando as famílias daquele tempo e de hoje, tantas mudanças. Cada um de vocês, com sua história, vai acender o fogo do conhecimento em cada aula. Eu só vou botar lenha, dar as informações, vocês vão dar vida à História, que aí, sim, vai merecer H maiúsculo! Combinado?

Os alunos aplaudem, entusiasmados, comentam: nossa, massa, uau, professor maneiro!… Saem, e depois ele, saindo, dá com o diretor nervoso:

– Eu ouvi sua aula, professor, aqui ao lado da porta, como faço com todo novato! O senhor tire essas ideias da cabeça, viu? Vai ensinar conforme o programa, começando pelo descobrimento, as três caravelas, a calmaria etc. Entendido? Ora, onde já se viu, História viva… Só por cima do meu cadáver!

O professor novato vai pelo corredor, sentindo-se morrer por dentro. Na sala dos professores, nas paredes estão Tiradentes e o crucifixo de Jesus, dois mártires. Ele chora, perguntam por que, apenas consegue dizer “não é nada, é uma longa História”.

domingo, 7 de agosto de 2016

'A la Brasil'

Quando o presidente do COI, Thomas Bach, disse que a Olimpíada seria realizada “à la Brasil”, deixou uma pergunta no ar. Isso é bom ou ruim? Os próprios jornalistas, quando repetiam a expressão “à la Brasil”, com um sorriso, acrescentavam: no bom sentido. O próprio Thomas Bach declarou que usou o termo pensando na alegria e emoção dos brasileiros. Dizem que os estrangeiros na Cidade Olímpica têm uma expressão mais simples para explicar a sucessão de pequenos problemas: TIB, This is Brazil.

Historicamente, ambiguidade tem um lugar importante na definição de Brasil. No século XVI, Américo Vespúcio classificava o país como um misto de éden e barbárie. Quase todas as tentativas de definir o Brasil esbarram na ambiguidade, mesmo quando são feitas por brasileiros.

A expressão “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda, tanto pode ser vista como uma tendência à bondade quanto como uma recusa em aceitar o jogo impessoal do poder compartilhado, uma resistência aos ideais republicanos.

Se as tentativas de definir o Brasil são tão ambíguas, pode ser até que ambiguidade seja um traço insuperável de nossa História. Talvez tenha sido esta a intenção de Tom Jobim quando disse que o Brasil não era para principiantes.

Mesmo aqui dentro, quando nós tentamos encontrar certezas, somos confrontados com contradições insuperáveis. Muitos analistas consideram que os brasileiros têm um traço bovariano, expressão inspirada em Emma Bovary, personagem do escritor Gustave Flaubert. Nesse sentido, eles teriam a tendência a se considerar melhores do que são na realidade, esperando sempre que algo de bom e extraordinário venha resgatá-los. Outros, baseados em Nelson Rodrigues, afirmam que os brasileiros têm um complexo de vira-lata e sentem-se inferiores aos outros povos.

Thomas Bach disse que o momento era especial por causa da crise. Ele mesmo pediu às delegações que compreendessem essa realidade e limitassem seu nível de exigência. O Brasil, disse ele, é um país dividido. Faltou dizer que é dividido também quanto à Olimpíada: a maioria teme que o país perca mais do que ganhe com os Jogos.

Mas a alegria e a emoção estão garantidas. Alegria, emoção e choradeira. Na TV, as reportagens sobre atletas brasileiros sempre têm chororô. Às vezes, do computador, pergunto: já choraram? Dependendo da resposta, vou assistir ao final na tela grande, ver as imagens, conhecer as famílias. São muitas histórias de superação. O “New York Times” destacou um traço talvez singular no Brasil: o destaque às pessoas que superam dificuldades, mesmo que não tenham chance de vitórias. Nos EUA, a chance de vitória talvez seja um critério mais decisivo. Aqui é a superação.

Tenho uma certa dificuldade em dividir não só pessoas como países em espaços racionais e emocionais. Hoje em dia, sabemos que as emoções contêm elementos racionais, e a chamada racionalidade não está despojada de emoções. Quando a Embraer produz um avião, realiza uma tarefa de alta complexidade e é julgada unicamente pela qualidade, segurança e preço de seus produtos. Milhares de outros produtores brasileiros buscam incessantemente a excelência e sabem que apenas ela pode ajudá-los a competir.

Emoção e alegria são qualidades invejáveis. No entanto, em muitas áreas não são decisivas. Mesmo que não tenha intenções, Thomas Bach acabou nos fazendo encontrar de novo com a ambiguidade que nos persegue desde 1500. Reduzam suas exigências, valorizem a emoção e a alegria pois assim se fazem as coisas “à la Brasil”. Soa um pouco paternal, mas essa é a canção que ouvimos muito antes de Bach, o compositor, nascer, em 1650. Pode ser que a alegria seja um fator importante. Não quero complicar, mas a ambiguidade se estende também até ela.

Há quem ache os brasileiros tristes. Em 1928, Paulo Prado publicou um famoso ensaio sobre a tristeza brasileira, afirmando que a sensualidade tropical levou ao esgotamento da energia, uma constante fadiga. Índios que perdiam suas terras, africanos escravizados e portugueses expatriados, todos tinham razão para se entristecer.

São muitas as armadilhas para se compreender de estalo o sentido de “à la Brasil”. É preciso ver os olhos do outro, os lábios do outro, o tom de sua voz. A expressão é uma espécie de certeza individual diante de uma ambiguidade secular. “À la Brasil” pode ser um método de depilação íntima, um atraso no horário de entrega, um choro ao receber a medalha, enfim, uma permanente tentativa de definir o quase indefinível.

Fernando Gabeira

A conta dos sonhos ficará no Brasil

Daqui até o fim dos jogos, centenas de jovens subirão nos pódios, baixarão a cabeça e receberão as medalhas de ouro das Olimpíadas do Rio. Serão momentos de sonho, felicidade e alegria. Da alegria dos jovens que sorriam para o mundo durante o desfile dos atletas na festa da abertura.

Nada reduzirá a beleza dessas cenas. Para os brasileiros, ficarão os momentos de sonho e a conta. Alguém ainda fará o cálculo da fatura dos custos diretos e indiretos transferidos à Viúva. Chutando para cima, poderá chegar a R$ 500 milhões.

O Maracanã, joia da privataria do governo do Rio e da Odebrecht, tornou-se um magnífico elefante branco, incomparável em noites de festa. A manutenção das instalações olímpicas custará R$ 59 milhões anuais num estado cuja rede de saúde pública entrou em colapso.


A máquina de marquetagem que prometeu Olimpíadas sem dinheiro público voava nas asas dos jatinhos de Eike Batista, o homem mais rico do Brasil, candidato ao pódio mundial. Era o tempo em que os governantes torravam o dinheiro achando que o pré-sal cobriria qualquer projeto.

Nos dias em que os problemas da vila olímpica dominaram o noticiário foi frequente o argumento de que os críticos da festa carregavam o eterno “complexo de vira-lata”. Criação de Nelson Rodrigues, ele refletia “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Bola dentro, mas às vezes a questão é mais complicada. Há cães de raça, mas há também adoráveis vira-latas.

A sorte, essa trapaceira, fez com que o repórter José Maria Tomazela mostrasse uma nova dimensão da problemática canina. Ele expôs a ação de uma quadrilha de Sorocaba (SP) que mutilava e pintava filhotes de vira-latas, transformando-os em chihuahuas, e pinschers. Vendiam chihuahuas por R$ 300.

Viu-se assim outro ângulo da questão: há gente que vende chihauhuas e entrega vira-latas maquiados a pessoas que resolveram acreditar neles.

Imagem do Dia

Os Óleos Sobre Tela de Jermy Mann:
Jeremy Mann

A mão invisível

Um bom livro não precisa, necessariamente, ser extenso. Nem precisa ser contemporâneo. Eis um exemplo de livro antigo que merece ser lido. Aliás, é um clássico que nenhum graduado em ciências econômicas pode ter deixado de ler. Trata-se de “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith. Publicado em 1776, é tido como um grande suporte teórico do liberalismo econômico ou do capitalismo.

Para quem defende o liberalismo e o capitalismo ou para quem os odeia, Adam Smith e sua mão invisível do mercado, isto é, a mão invisível do interesse e do egoísmo, são indispensáveis para compreender o funcionamento da economia.

No entanto, há uma outra maneira de ler a obra: é descobrindo como o autor escocês cria sua tese e a defende, investindo o talento nos argumentos e na persuasão. Assim se entende como essa mão invisível do Iluminismo ainda seduz tanta gente em pleno século 21.

Pertence à Riqueza das Nações a célebre frase, citada em quase todos os compêndios de economia: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que nós podemos desfrutar nosso jantar, mas do empenho deles em defender seus próprios interesses”.

Adam Smith, pai do capitalismo e do laissez-faire, defendia que a competição é o motor de uma sociedade produtiva, uma lição que nós, brasileiros, tardamos a aprender, iludidos por atalhos que não deram certo. Se nossos economistas tivessem de fato lido “A Riqueza das Nações”, talvez não amargássemos hoje uma terrível posição na competitividade no mundo. Isso apesar do livro estar disponível há 240 anos. Pior ainda para nós: muita gente em outros países o leram e puseram em prática suas conclusões.

Luís Giffoni

Cretinização das telinhas

O uso indiscriminado da tecnologia e da substituição do cérebro por celulares, tablets e aplicativos é a uma das causas principais para o derretimento do conhecimento. A primeira fuga da realidade começa com “este é um assunto muito chato”. Quando ouço alguém dizer isto, imediatamente replico: “Não é mais fácil dizeres que não sabes nada?”.
 
Somando-se incapazes mentais, omissos e idiotas, está formado o mar da sociedade.
Antonio Carlos Fallavena

Cabeça dura tem conserto?

Sempre negamos a realidade, mesmo quando ela vem de pau para cima de nós. Com tal mentalidade, não há país que se desenvolva

Na primeira metade do século 20, o ofício predileto da elite intelectual e política brasileira era especular sobre nosso atraso como país. Instigados pelo vertiginoso avanço dos Estados Unidos, dedicavam-se a tal tarefa com um afinco admirável.

Alguns diziam que o problema era nossa origem portuguesa: fomos colonizados pelo menor e mais atrasado país da Europa. Outros jogavam a culpa na abolição da escravatura: que esperar de um país que passara a depender do trabalho de negros livres? Alguns, mais sinceros, diziam que o problema estava em todos nós: éramos um país de preguiçosos.


Depois da Segunda Guerra, tivemos uma ideia genial. As causas do nosso atraso estavam no exterior. Eram os estrangeiros: primeiro os ingleses, depois os americanos, as “sete irmãs” petrolíferas, o FMI etc. Essa é que era a verdadeira raiz do mal.

Mas a verdade é que nunca chegamos ao âmago do problema. O problema é que sempre fomos uns tremendos cabeças-duras. A teimosia, eis o elemento que antes nos escapava. Sempre negamos a realidade, mesmo quando ela vem de pau para cima de nós. Com tal mentalidade, não há país que se desenvolva. Dou dois exemplos.

Hoje a economia brasileira está em escombros, numa crise tremenda, que se explica principalmente por nossa mania estatizante. Sempre vimos a empresa estatal como o suprassumo da sabedoria econômica, símbolo de eficiência e imunidade à corrupção. Tanto assim que odiamos o verbo “liberalizar”; o máximo que topamos é “flexibilizar” algumas coisas. Sempre costeando o alambrado. Pois aposto que vamos continuar assim.

Segundo, o sistema presidencialista de governo. Nos convencemos de que se tratava de outra maravilha, o único modelo capaz de assegurar a estabilidade, a eficiência, a unidade de comando etc. E o único congruente com nossas tradições culturais, quero dizer, com nosso velho gosto por líderes “machos”. É verdade que ele às vezes obriga o País a esperar uma eternidade para defenestrar um “presidento” ou uma “presidenta” que prá começo de conversa nunca deveria ter sido eleito(a). Aqui também, aposto que vamos deixar tudo do mesmo jeito. Cabeça dura não tem conserto.

O que significa a vaia a Michel Temer

O grande Nelson Rodrigues afirmou certa vez que brasileiro vaia até minuto de silêncio. Nunca vi, mas não me surpreenderia. O estádio de futebol não é muito diferente de um coliseu romano. Quem ali se exibe expõe-se a que os dedos indicadores se virem para baixo. Em 2013 coube a Dilma coletar pesada, prolongada e reiterada soma aritmética de vaias e insultos na abertura da Copa das Confederações. Ao seu lado, Joseph Blatter exclamou incomodado: "Onde está a educação?". Na recente cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, a mais prolongada vaia coube a Carlos Nuzman, presidente do COB, no exato momento em que referiu de modo elogioso as gestões das três esferas de administração ali atuantes: município, Estado e União. Conseguiu reunir um pacote cheio de desagrados. Por fim, sobrou para Temer, quando, em meia dúzia de palavras, literalmente agarrou-se ao microfone para proclamar que os jogos estavam abertos.

Não havia como ser diferente. Temer só encantaria o público se fizesse um gol de bicicleta do meio do campo. Como chefe de Estado, nem pensar. E é sobre isso que eu creio ter algo a dizer quanto à vaia de ontem. Fatos assim, diante de um público internacional, produzem manifestações de surpresa. A conduta é tomada como falta de educação, de respeito. Não que tenhamos muito respeito e educação por aqui, mas esses casos merecem considerações mais amplas. O problema é bem mais grave do que bons ou maus modos.

Países cujas instituições são concebidas com maior racionalidade separam as funções de chefe de Estado das funções de chefe de governo e as delegam a pessoas diferentes. O chefe de governo representa a maioria do momento e conduz suas políticas. Como tal, agrada e desagrada, vai para a chuva e para sol. Leva vaia e aplauso. Tem maioria, assume. Perde a maioria, cai. É a figura mais notória na arena do Coliseu político, objeto dos veredictos da turba. Isso é assim, independente do nível cultural e de educação das pessoas. O chefe de Estado, ao contrário, exerce a representação formal da nação. Eram chefes de Estado, no exercício de função típica, os que vieram à cerimônia de ontem acompanhando suas delegações. São símbolos acima das divergências partidárias, são Poder Moderador, podem dissolver parlamentos e convocar novas eleições. Mundo afora, nos países onde essa função existe, o titular que assim se conduz é recebido com reverência e aplauso. Daí a visível surpresa dos estrangeiros em relação a essas vaias próprias do presidencialismo que compartilhamos com as repúblicas ibero-americanas, em suas instabilidades, frustrações e incapacidades de aprender mesmo quando os fatos nos esmurram a face.

Se o que expus parece uma minúcia, uma questão sutil, saiba que nela está quase toda a diferença entre estabilidade política e convulsão. Cento e vinte e seis anos de rupturas e instabilidades institucionais clamam por um basta a esse sistema! Aquela vaia a Michel Temer significa que este país tem um problema institucional.

Percival Puggina

O salto de Nadia e o choro de Misha

Demorei 40 segundos para convencer uma menina de cinco anos de que a Olimpíada era algo para não se perder — mesmo que você tenha quase um século de escolhas pela frente. Estávamos em um restaurante, e ela estava reticente quanto à viagem para o Rio de Janeiro: não queria passar os dias longe das casas da mãe e do pai.

As quatro dezenas de segundos vieram da tela do meu celular. Era preciso antes de tudo convencê-la com a melhor das imagens. Cabia o bom senso: ela não ficaria fascinada pelas passadas de Emil Zatopek em Helsinque, em 1952, nem por Abebe Bikila vencendo descalço a maratona de Roma, oito anos depois. O negro Jesse Owens desafiando a doutrina ariana de Hitler com seus quatro ouros em Berlim, em 1936, e os panteras negras de punhos cerrados do México, em 1968, convenceriam um adolescente idealista, mas não aquela garotinha. Era preciso despertar o desejo.

O meu havia sido tocado pela imagem do urso Misha chorando no encerramento dos Jogos de 1980, em Moscou. Tinha apenas quatro anos. Nesses 36 anos que seguiram, já me questionei se aquela Olimpíada, cujo boicote pelos Estados Unidos foi sustentado como retaliação pela invasão soviética ao Afeganistão um ano antes, não havia sido salva por aquele bicho cujas lágrimas caindo tortas pelo rosto (uma imagem que soa como um jogo de Atari diante das definições quase reais de qualquer franquia de game hoje em dia) marcaram minha geração. Nem mesmo o feito dos iatistas brasileiros, que voltaram a conquistar para o país uma medalha de ouro depois de um hiato de 26 anos, superou aquela imagem.

Meu celular então buscou para a menina “Nadia Comaneci 1976”. O vídeo com a série completa que rendeu a primeira nota 10 da ginástica dura 3min11s. No entanto, bastaram os 40 segundos iniciais para que a garotinha ficasse inclinada, com o rosto paralisado e a boca aberta. Apenas perguntou: “Ela é uma criança?”

Sim, Nadia tinha apenas 14 anos quando obteve o feito. Havia pensado e mostrado o que de fato acreditava ser um momento mágico da Olimpíada. E me surpreendi que aquilo, 40 anos depois, ainda fascina garotinhas. Três meses atrás, quando procurava ingressos para a Rio 2016, não tive dúvida que a prova de ginástica seria o mais próximo que chegaria em conseguir agradá-la. Os quarenta segundos do vídeo me trouxeram a certeza. A reação seguinte já não continha resistência: ela queria ver como eram os outros esportes. Pediu um jogo de basquete, outro de vôlei. Ela já estava empolgada.


É a imagem que fortalece os jogos. Não a de quem sedia. Montreal, no Canadá, salvou sua Olimpíada porque havia nela uma Nadia Comaneci. A história guarda em seus arquivos uma competição tensa, que sucedeu o massacre de Munique, em 1972, e suas 17 mortes, e ao auge da Guerra Fria— a escolha da sede preteriu Moscou e Los Angeles, que receberiam os Jogos Olímpicos nas duas edições seguintes.

A Olimpíada do Rio não acontece em um momento particularmente bom para o país. Há mais tensão na cidade do que propriamente felicidade por sediar os Jogos. Talvez o clima da abertura chacoalhe o carioca como aconteceu há quatro anos em Londres.

Mas existe uma competição em andamento. No meio dela, haverá exibições como aquela de 40 anos atrás. Será a primeira oportunidade de a garotinha guardar suas memórias olímpicas. São três semanas para que imagens equivalentes ao choro de um urso e à exibição perfeita de uma pequena e jovem romena não sumam desse filme que ela começa a rodar. Se o Rio obtiver esse feito, não será pouca coisa.

Marcos Sergio Silva

sábado, 6 de agosto de 2016


Depois da festa

Começaram ontem os primeiros Jogos Olímpicos realizados em solo brasileiro. É uma grande honra para o País receber esse evento extraordinário, que mobiliza bilhões de espectadores e lança sobre a sede as atenções do mundo inteiro. Para os atletas e os turistas que participarem dessa que é a maior festa do esporte, certamente a experiência será inesquecível e, provavelmente, sem grandes incidentes, porque a organização das competições, a cargo de experientes entidades privadas, costuma ser impecável. Contudo, para os brasileiros, que daqui não sairão ao final da Olimpíada e terão de conviver com os problemas de sempre, o chamado “legado” dos Jogos é obviamente muito mais importante do que as pouco mais de duas semanas de disputa e confraternização. E a realidade é que, como de hábito, se prometeu muito mais do que o País será capaz de entregar.

Já no discurso em que defendeu a candidatura do Rio de Janeiro para sediar a Olimpíada, em outubro de 2009, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva mencionou esse “legado” e bradou: “Chegou a nossa hora. Chegou!”. Como sempre, o petista não perdeu a chance de explorar a ocasião para fazer propaganda de seu governo e acabou por vincular uma coisa à outra: se o Rio fosse escolhido para receber os Jogos, tanto a realização da competição como as obras de infraestrutura e de mobilidade seriam, antes de tudo, conquistas pessoais de Lula.


Desde o nascedouro desse projeto ambicioso, portanto, os petistas e seus associados tentaram criar um vínculo da Olimpíada do Rio de Janeiro com Lula, como se a escolha da cidade brasileira fosse o reconhecimento mundial da revolução social e econômica que o ex-sindicalista pensava estar liderando no País. E, claro, seria a chance desse “novo” Brasil de provar que, sob a liderança do petista, poderia desafiar os incrédulos: “Os que pensam que o Brasil não tem condições de receber os Jogos vão se surpreender”, discursou Lula após a escolha do Rio. “Finalmente o mundo reconheceu a hora e a vez do Brasil.”

Como hoje os brasileiros começam a perceber, da maneira mais traumática possível, a revolução prometida por Lula estava assentada em grossa corrupção e em incompetência cavalar. As promessas revelaram-se embustes. A arrogância deu lugar à vergonha. Assim, a alegria proporcionada pela escolha do Rio como sede olímpica converteu-se rapidamente em receio de ver o País ser motivo de vergonha planetária.

Razões não faltaram, a começar pela poluição da Baía de Guanabara e pela epidemia de zika, para citar apenas dois dos maiores focos da imprensa estrangeira na cobertura da preparação do Rio para a Olimpíada. As obras destinadas às competições ficaram prontas a tempo, mas isso só aconteceu porque o Comitê Olímpico Internacional, quando percebeu que era real o risco de atraso, mandou para o Rio um interventor, responsável por coordenar os projetos. Ademais, os grandes investimentos prometidos por Lula e companhia para transformar o Brasil em potência olímpica não passaram de lorota.

Tudo isso, somado à imensa crise econômica, política e moral que o País atravessa, acabou por fazer da Olimpíada não um sonho, mas um estorvo. Não foram poucos os correspondentes estrangeiros que se surpreenderam com o clima de pessimismo e desalento dos brasileiros às vésperas dos Jogos, algo nunca visto em outras edições da competição.

Mas eis que, enfim, chegou a hora da Olimpíada e muito provavelmente o clima de prostração dos brasileiros dará lugar, ao menos momentaneamente, a um genuíno interesse pelo evento em si e pela festa proporcionada pela vinda dos maiores atletas do mundo ao Brasil. Passado esse momento, porém, teremos de voltar de imediato ao doloroso exame de nossas mazelas, e muito provavelmente concluiremos que a Olimpíada pode ter feito algum bem para o Rio de Janeiro, mas pouco significado teve para o Brasil. A menos que se considere positiva a comprovação de que algumas autoridades cultivam como qualidades a demagogia e o improviso.

Imagem do Dia

15 dibujos discordantes que muestran lo absurdo de la vida de todos
Marc Kostabi

Propinas e melancias

Primeiro convidado a participar das audiências da comissão especial da Câmara que trata das medidas de combate à corrupção, o juiz Sérgio Moro abriu sua fala, anteontem, com uma constatação: até o momento, o Poder Judiciário “era uma voz sozinha no deserto” no enfrentamento a esse tipo de crime.

Com a instalação do colegiado que vai sistematizar as propostas entregues ao Congresso pelo Ministério Público, com o apoio de 2,2 milhões de pessoas, o Legislativo também começa a ser envolver, completou o juiz que conduz a Lava Jato.

“Nos perguntávamos: onde está o Congresso? Onde está o Executivo?”, continuou Moro.

Congresso e Executivo estavam onde sempre estiveram. Receosos de que a Lava Jato chegasse aonde chegou, começaram a urdir planos para impedi-la de avançar. Talvez nenhuma operação da Justiça, Ministério Público e Polícia Federal tenha ido tão longe quanto foi a Lava Jato. E talvez nenhuma operação tenha sofrido tamanho combate político quanto a Lava Jato.

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Mesmo com todos os problemas, a Lava Jato chegou aonde chegou. O resultado é o que todo o Brasil e o mundo conhecem: boa parte dos grandes empresários, dirigentes partidários, ex-presidentes da República, senadores, deputados e governadores foi apanhada por envolvimento no maior esquema de corrupção e desvio de dinheiro de uma estatal já descoberto no País.

Moro declarou na audiência que o que mais o “perturbou” na condução da Lava Jato foi a “naturalidade” com que os envolvidos admitiam receber ou pagar propina. Tal naturalidade, acrescentou Moro, levou os condenados na operação a admitir que participavam do esquema de desvio de verbas porque fazia parte da “regra do jogo”.

Essa regra do jogo é difícil de mudar. Durante sua participação na audiência da comissão que trata dos projetos anticorrupção, Moro foi atacado pelo deputado Wadih Damous (PT-RJ), um dos mais ferozes críticos da Lava Jato. Para ele, o juiz defende projetos que cheiram a fascismo. A direção do PT acha que Sérgio Moro, juntamente com parte do Ministério Público, da Polícia Federal e dos meios de comunicação participam de um conluio para destruir o estado democrático de direito, desmoralizar o partido e criminalizar de tal forma o ex-presidente Lula que o impeça de ser candidato a presidente da República em 2018.

Do ponto de vista da luta política, trata-se de um argumento com força para animar a militância. Principalmente quando o PT está em vias de ver afundar seu projeto de poder com o impeachment de Dilma Rousseff.

Mas, no partido, há os que acham, sinceramente, que o juiz Sérgio Moro é um agente da CIA, a agência de inteligência norte-americana, e sua missão, depois de ajudar a destruir o PT, é entregar o petróleo do pré-sal aos Estados Unidos. Mesmo na mais aguda teoria da conspiração, impossível crer em tal bobagem.

Moro falou que a naturalidade com que os envolvidos admitiam receber ou pagar propina foi o que mais o assustou na Operação Lava Jato. Essa naturalidade às vezes assusta de fato quando revelada. Na Lava Jato, a naturalidade era a propina. Na política, é o patrimonialismo descarado.

Mesmo quem convive com o dia a dia da política não pode deixar de se surpreender com o que confessou o senador Hélio José (PMDB-DF), que se declarou “dono” da Secretaria do Patrimônio da União (SPU), um órgão do Ministério do Planejamento, conforme gravação que circula na internet e se tornou notícia: “Isso aqui é nosso. Isso aqui eu ponho quem eu quiser, a melancia que eu quiser aqui, eu vou colocar”. Outro trecho: “A partir de hoje, a SPU é responsabilidade minha, do senador Hélio José, gabinete 19 da (Ala) Teotônio Vilela”.

Do presidente em exercício Michel Temer, que, tudo indica, se tornará efetivo, espera-se que apoie as ações de combate à corrupção. E que demita a melancia.

Agora imagina !!!

Fico a imaginar a reação do PT, da CUT, da escumalha “cultural” do Brasil e dos acólitos do petismo se a pilhagem do Ex-Ministro e Sr. Gleisi Hoffmann, Paulo Bernardo fosse num governo não-petista. As turbas enfurecidas estariam nas ruas rasgando-se em berros, gritando fora isto, fora aquilo, 24 horas por dia. Paulo Bernardo, marido de Gleisi Hoffmann, é tido como chefe de um esquema que lesou tomadores de empréstimos consignados (principalmente aposentados) em mais de 100 milhões de reais. Já pensou como seria se o roubo tivesse sido praticado num governo qualquer que não o deles?

O que aconteceria se os escândalos do Mensalão e do Petrolão tivessem ocorrido em uma gestão que não a petista? Alguém consegue imaginar Letícia Sabatella, Duvivier, Caetano, Chico Buarque e outros “artistas de oportunidade” diante de tal fenômeno? Canções teriam sido compostas, festivais de protesto teriam acontecido, protestos iriam acontecer até na frente de hospitais com direito a Olodum. Mas os fenômenos mencionados aconteceram nos governos do PT, de um governo que, estivesse Cazuza vivo, o chamaria do governo onde “os meus amigos estão no poder”.

Falando em Petrolão, meu Jesus Cristinho, alguém consegue imaginar o que teria acontecido no Brasil caso um governo não-petista tivesse liquidado com a maior empresa brasileira, uma das maiores petroleiras do mundo? Imagine a “piorra” que teria virado este país se as pessoas soubessem que a Petrobras se tornou quase uma massa falida por causa da roubalheira de gestores ligados ao partido XYZ, se as pessoas e a imprensa descobrissem que a 10ª maior empresa do mundo hoje está quase na 500ª posição e que ela teria uma dívida de quase meio trilhão de reais? E o que diriam as pessoas, não fosse num governo petista, se soubessem que o ex-presidente e seu partido se beneficiaram amplamente de dinheiro sujo oriundo de um sistema de propinas hoje considerado como o maior desvio de dinheiro público da história da humanidade?

Pois é. Nós temos enorme paciência com o PT. Paciência e tolerância em excesso. Permitimos que o partido de Toninho e de Celso Daniel avançasse muito nos alforjes nacionais. Fomos lenientes, covardes, medrosos e o PT quase que nos toma o país inteiro.

Agora, por fim, imaginem se fossem pegos numa ligação telefônica um ex-presidente e a então atual presidente em plena conspiração para se livrarem de uma enorme investigação policial. O que faria o povo vermelho se estivesse sido flagrado, numa ligação telefônica, FHC, por exemplo, tentando livrar Aécio da cadeia através de uma nomeação ministerial fraudulenta? Conseguem imaginar? Pois eu também.

Eis um exercício muito bom de ser feito, todo o santo dia. Ele deixa a gente furibundo, irritado, mas é importante que a gente faça. Temos de nos livrar urgentemente desta miséria econômica, moral e ética que nos tornamos. A ordem é sair desta e para ela não voltar mais. A dica é simples: pegue o noticiário e leia a notícia como se o ocorrido fosse num governo não petista. Inverta nomes e partidos e o resultado será impressionante. Daí vai ser fácil entender que o discurso não é de ódio. É de raiva mesmo. Ah, se é!!