sexta-feira, 29 de julho de 2016

Como uma cidade de 2 mil habitantes conquistou o maior IDH de educação

Se a interiorana Águas de São Pedro recebesse a Maratona Internacional de São Paulo, os atletas teriam de percorrer o município inteiro seis vezes para completar a prova. A cidade, um balneário turístico de águas medicinais, é a segunda menor em extensão territorial do país, com 3,6 quilômetros quadrados, atrás apenas de Santa Cruz de Minas, em Minas Gerais. Com cerca de 3.000 habitantes, grande parte de aposentados, Águas de São Pedro figura um outro dado, no mínimo, curioso. É o município com o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) na área da educação do país, indicador apurado pela Organização das Nações Unidas (ONU): 0,825 (em uma escala de zero a um). O IDH de educação mede a quantidade de anos de estudo dos adultos e a expectativa de anos de escolaridade das crianças. Não é apenas nesse quesito que a cidade se destaca, contudo. No ranking geral da ONU, a cidade tem o segundo maior IDH do país (incluindo índices de saúde, educação e renda). Águas de São Pedro perde somente para São Caetano do Sul (SP) em IDH municipal.


Na cidade, que no passado era só um bairro do vizinho São Pedro, é possível encontrar mais ônibus escolar do que municipal. Aliás, literalmente só existe um ônibus circular para os água-pedrenses. E ele é gratuito. Todos se conhecem, e é esta é uma das maiores vantagens de gerenciar a única escola da cidade, a Emef Maria Luiza Fornasier Franzin, segundo João Paulo Pontes, coordenador pedagógico. “Se o aluno falta, vamos buscá-lo em casa, vamos onde os pais trabalham, vamos em qualquer lugar que a criança possa estar - e geralmente já sabemos onde seria”, conta. Ele garante que, graças a isso, o índice de evasão escolar é nulo.

Claro que a estratégia não é aplicável nas grandes cidades, mas muitas das outras ações que a escola pratica, e que lhe garantem destaque no ranking educacional, podem servir de exemplo para realidades geográficas diferentes. A escola, por exemplo, trabalha com aulas em período integral, um sistema que é bastante difundido em colégios de primeiro mundo e amplamente defendido por movimentos ligados à educação no Brasil. De manhã, aulas do currículo padrão. À tarde, aulas de línguas, artes marciais, dança, pilates, futebol, robótica e até culinária - a favorita dos alunos, conforme destaca Pontes.

A escola que possui o maior IDH de educação do país está longe de parecer uma instituição do futuro. Pelos corredores, não voam drones feitos pelos alunos, nem robôs. Acima de tudo, parece com uma escola pública tradicional, com carteiras enfileiradas e lousa. Mas o cenário engana. uma das apostas para se manter na liderança do ranking é o uso da tecnologia como ferramenta de ensino.

Os 767 alunos possuem um netbook para realizar as tarefas. “A tecnologia nos permite integrar conteúdos de disciplinas diferentes, de trabalhar aulas mais multidisciplinares, e a tornar o aprendizado um pouco mais interessante para os alunos, pois a forma como o conteúdo é apresentado conversa melhor com a realidade deles”, acredita Pontes.

Um exemplo está na aula de matemática do professor Victor Pereira, de 26 anos. Os alunos do quinto ano do fundamental, sentados em grupos, resolvem juntos no computador exercícios de fração e dízima periódica. Na plataforma gratuita do MIT, a Khan Academy, montam pizzas, trabalho que vai ficando mais difícil conforme forem resolvendo os desafios. “Cada grupo trabalha no seu ritmo e até ajuda os colegas que não conseguem passar de fase. Me chamam raramente para ajudar. Ainda que estejam no computador, estão concentrados, se divertindo. E ninguém para para ver o Facebook”, afirma. Para o professor, a vantagem da tecnologia está em deixar um conteúdo abstrato mais visível para o aluno. Também é possível trabalhar com crianças em estágios diferentes de conhecimento numa mesma sala. “A aprendizagem acaba se adaptando à necessidade do aluno, sem atropelá-lo”, complementa.

O computador - ou o smartphone, dispositivo que a escola também utiliza como material de pesquisa em aula - pode ser levado para além dos muros do colégio. “Toda semana levo os alunos para o mini-horto da cidade, que fica ao lado da escola, para atividades ao ar livre. Na última atividade que fizeram, eles tinham que caçar QR Codes que eu espalhei pelas árvores para resolver equações”, complementa o professor.

Para o ano que vem, a escola pretende implementar um modelo de aprendizado por projeto, inspirada na Escola da Ponte, de Portugal, que, desde os anos 1970, tornou-se referência em educação com uma filosofia mais construtivista de ensino. “Hoje, falta muito as escolas perguntarem para os alunos o que eles querem aprender”, defende o coordenador pedagógico. Segundo ele, o ensino no Brasil ainda se pauta no tradicional modelo de explicar um conteúdo e, só depois, assimilá-lo à realidade. No aprendizado por projeto, inverte-se a lógica. “Partimos de um projeto prático para ensinar conceitos do currículo básico, o que faz com que o aluno entenda o porquê de estar aprendendo determinados assuntos”, destaca João Paulo Ponte.

Mas ser a única escola da cidade também tem o seu lado negativo. “Não há outra opção de escola para os filhos, então toda a estratégia pedagógica precisa ser muito mais cautelosa. As inovações precisam ser implantadas aos poucos”, afirma Ponte. O coordenador não informou números, mas garantiu que desde que passou a liderar o ranking de IDH educacional, em 2010, a escola está recebendo pedidos de matrículas de cidades ao redor, como São Pedro.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Iotti: terrorismo brasileiro Iotti/Agencia RBS

A falta que nos faz o patriotismo

Depois de alguma resistência, o governo Temer capitulou e resolveu mandar ao Congresso Nacional projeto de lei que reajusta os vencimentos dos auditores da Receita e agentes da Polícia Federal. Oficialmente, ministros disseram que os acordos já haviam sido negociados com o governo anterior, que se trata apenas de uma reposição da inflação etc.

Tudo desculpa — e que não pegou, aliás. Todo mundo sabe que o governo ficou com medo de uma greve ou do corpo mole ou da tal operação padrão daquelas duas categorias. Um medo compreensível. Auditores e policiais federais podem paralisar os aeroportos ou, mesmo sem greve, impor uma confusão embaraçosa no momento em que começam a chegar atletas e turistas da Olimpíada.

Em termos diretos: aquelas categorias simplesmente aproveitaram o momento para colocar a faca no pescoço do governo.

É verdade que todo trabalhador tem o direito de lutar pelo seu salário, indo até a greve. Mas há muita desigualdade entre os trabalhadores do setor público e do privado. O que indica que deveria haver diferenças nos direitos e deveres de cada grupo.


Em números: o salário médio do trabalhador brasileiro foi de R$ 1.982 em maio último, uma perda de R$ 55 em relação ao mesmo mês do ano passado. Tudo em termos reais, já descontada a inflação. No mesmo período, o desemprego subiu de 8,1% para 11,2% — ou 11,4 milhões de brasileiros que querem trabalhar e não encontram vaga.

Não há desemprego no setor público. Funcionários têm estabilidade. E todas as categorias que receberam reajustes recentes, ou estão para receber, têm salários maiores do que aqueles R$ 1.982 do trabalhador médio.

Na Polícia Federal, o salario inicial mais baixo, de agente administrativo, sem curso superior, é de R$ 4.000 — o dobro do rendimento médio no país. Já o policial, com diploma superior, começa com R$ 9.132. Para delegados, com exigência de diploma de Direito, a carreira começa com R$ 17.288 — o equivalente a nove meses de salário do trabalhador médio.

E isso antes dos aumentos agora propostos. Aliás, com o novo reajuste, o vencimento básico do auditor da Receita, sem os benefícios pessoais, saltará de R$ 15 mil para R$ 19 mil — ou dez vezes o salário real médio pago em maio último.

Não há qualquer dúvida sobre a importância da Polícia Federal e da Receita. Se não fosse pelo conjunto da obra, o que os funcionários dessas duas instituições fizeram na Lava-Jato já garantiria um diploma de competência.

Mas, francamente, faz sentido elevar os salários dos funcionários mais bem pagos do país neste momento de crise econômica, em que o setor público está literalmente quebrado? O maior problema do país é o déficit nas contas públicas. De novo, está correto alargar esse déficit com salários de um funcionalismo que ganha muito, mas muito mais que os demais?

Está correto, dizem lideranças sindicais dos auditores fiscais. Seu argumento: o trabalho de fiscalizar receitas e arrecadar impostos é o mais importante de todos, simplesmente porque o governo não funcionaria sem dinheiro.

Parece razoável, mas não tem cabimento. Pensem pelo avesso: se o SUS tivesse muito dinheiro mas não contasse com os médicos nos seus hospitais, o governo também não estaria funcionando — e num setor crucial.

Então, qual a função mais importante, a do auditor que recolhe o dinheiro ou do médico que salva vidas?

O absurdo da pergunta mostra que essa questão não tem sentido. Há no Estado atividades fim e atividades meio, isso compondo o conjunto do serviço público.

Claro que deve haver diferenças salariais, conforme a função, a carga de trabalho, formação, mérito e produtividade. Mas não é isso que acontece no Brasil.

Os salários maiores vão para as categorias que estão mais perto do centro do poder — como funcionários do Congresso — e que têm maior capacidade de pressão. Os salários caem quanto mais o funcionário está perto do público-cliente, como o médico no pronto-socorro.

E por falar nisso: a carreira de funcionário público exige ou deveria exigir um sentido de serviço público. Seria demais pedir algum patriotismo?

Algo assim: bom pessoal, vamos fazer uma Olimpíada de primeira, trabalhar mais que o exigido, dar o sangue para mostrar um país com um serviço público de qualidade — e depois vamos discutir salários.

É verdade que, diante da lambança feita pelos dirigentes políticos, fica difícil pedir patriotismo e sentimento de dever. Mas o que queremos? Um vale-tudo, cada um por si?

Convém lembrar: o povo brasileiro, aquele trabalhador médio, que rala todo dia, o sujeito que financia o governo pagando impostos e é o cliente final do serviço público, essa gente não é igual aos ladrões da Lava-Jato.

E querem saber? Há servidores de verdade, tanto funcionários de carreira quanto profissionais do setor privado que vão para o governo cumprir uma missão. Que apareçam mais.

Carlos Alberto Sardenberg 

Corruptos brasileiros imitam italianos e usam Renan ´para esvaziar Lava Jato

Na grande mídia brasileira e nos principais sites e blogs de opinião, fala-se muito em “fracasso” da Operação Mãos Limpas (Mani Pulite) na Itália, o que é um absurdo total. Essa célebre iniciativa teve êxito absoluto nos anos 90, pois marcou o fim da chamada Primeira República Italiana, na qual a Democracia Cristã (DC) e o Partido Socialista Italiano (PSI) eram as principais forças políticas. Na Itália, a operação do Ministério Público e da Justiça de primeira instância investigou seis ex-primeiros-ministros, mais de 500 parlamentares e milhares de políticos, autoridades, empresários e operadores da corrupção. Ao final, o resultado foi altamente positivo, porque cerca de 25% dos investigados foram punidos.

Portanto, quando falam em suposto “fracasso” da Mãos Limpas, esses analistas deveriam ressalvar que se referem apenas ao fato de a operação não ter conseguido acabar definitivamente com a corrupção na política italiana.

Segundo um dos maiores estudiosos da Mani Pulite, o professor Alberto Vannucci, da Universidade de Pisa, não se consegue evitar a corrupção em um país quando ela é sistêmica. “Inquéritos judiciais, mesmo bem-sucedidos, podem colocar na cadeia alguns políticos, burocratas e empresários corruptos, mas não conseguem acabar com as causas enraizadas da corrupção”, disse Vannucci em recente entrevista a Luiza Bandeira, da BBC Brasil.

No caso do Brasil, ocorre exatamente a mesma situação vivida pela Itália – a corrupção também é sistêmica, está arraigada, é praticamente impossível erradicá-la inteiramente. No entanto, ainda é possível evitar que se repitam aqui os erros cometidos na concretização final da Mãos Limpas.

Na Itália, a classe política acabou permitindo o surgimento de mecanismos mais sofisticados de corrupção no país. Além disso, a operação Mani Pulite teve como resultado a ascensão de políticos “novos” que também eram especialistas em corrupção, como o empresário Silvio Berlusconi, que chegou a ser primeiro-ministro quatro vezes, mas se envolveu em diversos escândalos e acabou tendo de renunciar.

A corrupção sistêmica na Itália não foi vencida, é fato. De toda forma, porém, houve um importante avanço democrático no país, porque a esculhambação institucional não continuou no mesmo patamar que se registrava antes da operação Mãos Limpas, não há nem comparação.

Para a força-tarefa da Lava Jato, o importante hoje é não repetir os erros cometidos na Itália, cujo Parlamento não alterou as normas de financiamento das campanhas políticas, enquanto no Brasil o Congresso imediatamente tomou essa iniciativa. O Parlamento italiano também não ampliou a transparência dos atos do poder público, obrigatoriedade que já existia no Brasil, antes da Lava Jato. Mas o pior é que, equivocadamente, a Itália aprovou uma legislação que restringe a atuação dos policiais, promotores e juízes, a pretexto de coibir abuso de autoridade.

É por aí que mora o perigo no Brasil, onde ainda há lideranças políticas que querem imitar os italianos na aprovação dessas restrições policiais e judiciárias. Como se sabe, é justamente este o objetivo do projeto 280/2016, do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), apresentado para alterar a Lei de Abuso de Autoridade e dificultar operações de combate à corrupção, como a Lava Jato e a Zelotes.

Em boa hora, porém, as associações que congregam juízes federais e estaduais, procuradores da república, promotores públicos, procuradores de justiça e delegados federais e estaduais decidiram realizar nesta quinta-feira um importante ato público na chamada República de Curitiba, para repudiar a indecorosa proposta do presidente do Senado.

O certo é que, 24 anos depois da Mãos Limpas, não haverá fracasso da Operação Lava Jato. Além de rejeitar o projeto de Renan Calheiros, o Congresso vai aprovar o pacote das 10 Medidas contra a Corrupção, preparado pela força-tarefa de Curitiba em forma de Ação Popular, que recebeu mais de 2 milhões de assinaturas de eleitores, e vai aprimorar as disposições legais.

Na próxima quinta-feira, dia 4, os trabalhos da Comissão Especial da Câmara que discutirá as medidas contra a corrupção serão abertos com o depoimento do juiz Sérgio Moro, e no dia 9 os deputados ouvirão o procurador Deltan Dallagnol e outros membros da força-tarefa que conduz a Lava Jato.

Portanto, se os governantes, políticos, autoridades, empresários e operadores da corrupção no Brasil julgam que serão cometidos os mesmos erros da Operação Mãos Limpas na Itália, estão realmente enganados. Por aqui, não teremos nenhum Berlusconi, podem apostar.

Imagem do Dia

O novo exílio das esquerdas

Em compasso paralelo à presente guinada ocidental à direita, vivemos no Brasil o fenômeno histórico de repúdio da vigência de uma esquerda, com a chegada do PT ao governo. Fazendo frente ao nosso enraizado status quo, quebrou-se, por aí, o desfrute do poder pelo perene regime dos desequilíbrios sociais, de par com a concentração de seus benefícios.

O posterior desencanto com o petismo, por sua vez, independeu dos resultados da redistribuição de renda e do aparelhamento do governo para uma política de desenvolvimento. As nossas esquerdas são, hoje, atingidas por um moralismo superveniente, acompanhado pela falta de uma geração substitutiva, como que anestesiada pela força do carisma de Lula, a que não deu sequência o anticlímax de Dilma. E, ao mesmo tempo, não temos similar contemporâneo dessa quase hegemonia do petismo na nossa representação parlamentar, a que se junta a sucessão de minipartidos presos a minudências ideológicas na representação parlamentar.

Toda a presente cena política, por outro lado, fica sob a dependência da Operação Lava-Jato, que está longe de exaurir as suas condenações e numa significativa equidistância de suspeitas entre o situacionismo e a oposição.

Estamos ainda à espera do novo tsunami cívico, que representa a delação de Marcelo Odebrecht. É de se prever como a eficiência da superempresa, na meticulosidade dos seus arrolamentos, vai acarretar o desmonte da “República das Propinas”. Só cresce, também, o “prende e solta”, em que o Supremo manda para casa os detidos pelo procurador-geral. Doutra parte, ainda, só se acirra a contraposição entre o PSDB e o PMDB no comando do novo governo, tendo em vista a composição emergente para as eleições municipais.

O status quo retorna agora, por inteiro, com o governo Temer, sob o disfarce de um liberalismo que acoberta todo o desatamento de uma riqueza instalada e agora livre das ameaças de aumento de tributos ou do confronto estatal nas dinâmicas do mercado, em bem de uma verdadeira economia de desenvolvimento.

O que veem, hoje, as esquerdas à sua frente não é só a alternativa, mas a própria proposição de um programa para a mudança, com a defesa e a garantia de que venhamos ainda a ter políticas públicas diante do “vale-tudo” do status quo instalado.

Candido Mendes

Só restará escrever as memórias

Com prazo de entrega dilatado até hoje, a presidente afastada Dilma Rousseff entrega sua defesa final no processo de impeachment. Rejeita a acusação de haver cometido crime de responsabilidade, quando no exercício do cargo.

Sua condenação definitiva pelo Senado é tida como certa, ainda que dependa de seis senadores mudarem de posição, passando a absolvê-la. Caso essa hipótese inviável aconteça, retornará ao palácio do Planalto. Se os demais integrantes das bancadas mantiverem o voto anterior, nada feito.

Os cálculos da votação chegam a 61 senadores favoráveis à cassação de Madame, e são necessários apenas 54.

Prevista para o final de agosto, a decisão tornará Michel Temer presidente definitivo, pronto para apresentar ao país seu plano de governo e dar início de fato ao mandato que se estenderá até 31 de dezembro de 2018.
A pergunta que se faz é se, dessa vez, o Brasil conseguirá equilibrar-se, afastar a sombra da estagnação e retomar o crescimento econômico.

Quanto a Dilma, se instalará às margens do rio Guaíba, sem perder a impressão de haver sido injustiçada por manobra política de adversários e até de seus partidários. Ao contrário de presidentes da República alijados do poder, como Getúlio Vargas, Carlos Luz, Café Filho, Jânio Quadros, João Goulart e Fernando Collor, a presidenta não revela intenções de continuar na política. No máximo, escreverá suas memórias. A degola, muito mais política do que jurídica, deixará lição invulgar para seus sucessores. Mandatos e governos misturam-se ao sabor da competência e das conveniências. Só o cronista de futuro conseguirá definir os erros e a sorte de Dilma.

MÁ VONTADE TEM LIMITES – Os tempos são de exagero. Políticos e jornalistas exorbitaram, ontem, ao criticar o presidente Michel Temer por ter ido buscar o filho no colégio. Por estar na presidência, deixou de ser pai?

As pragas do Egito e do Brasil

A sabedoria popular tem nos falado das pragas do Egito que estariam assolando o Brasil. Partindo dessa intuição popular, podemos encontrar no próprio império egípcio, um dos mais longos da civilização, reflexão para nosso tempo.

No Antigo Império (3.200 a.C.-2.100 a.C.), os faraós começaram a construir pirâmides para servirem de monumentos fúnebres para eles mesmos. O império estava rico e unido nesse período, apesar de manter a imensa maioria da população em situação lastimável e apenas os sacerdotes e escribas com enormes privilégios. Como a construção da Pirâmide de Quéops, a maior delas, acabou gerando revoltas, os faraós começaram a reduzi-las de tamanho, mas enriquecendo o interior das mesmas, o que ocorreu com a de Miquerinos, a menor delas no conjunto de Gizé, por temor das reações populares.

Da mesma forma, séculos depois, a monarquia francesa, incomodada com as pressões da plebe ignara no Palácio do Louvre, onde residia, resolveu construir Versalhes, a quilômetros da capital Paris. Alguém convenceu os nobres de que, afastados, eles não ficariam expostos àquela pressão permanente da capital. E que, afastados, a população não veria os signos de ostentação, riqueza e preguiça da nobreza. Deu certo com Luís XIV, Luís XV até Luís XVI, que acabou guilhotinado na Place de La Concorde. Afastada da pressão, a monarquia se distanciou ainda mais do povo e só acordou quando a Revolução já era irreversível.


A História pode nos ser útil se soubermos examiná-la com certa irreverência e pudermos extrair as lições que elas nos oferece gratuitamente com um pouco de dedicação intelectual. Brasília, de certa forma, é uma Versalhes permanente da vida brasileira. Não há como recuar no tempo, mas, se pudéssemos, veríamos que mesmo o grande Juscelino Kubitschek talvez tivesse incentivado o crescimento do país para o centro, despregando-o do litoral por onde por séculos o desenvolvimento se realizou; sem necessariamente mudar a capital. Entretanto, esse raciocínio é hoje uma hipótese sem sentido prático, logo inútil. Temos que nos ater ao campo do possível, trabalhar para fazer Brasília tornar a ter sensibilidade para o que ocorre no restante do país.

A população brasileira está possuída de total descrença na vida política e de uma grande revolta com os privilégios da classe política que age como uma casta com regras, foros e privilégios próprios. Sabemos que nossa crise é mais política do que econômica. Do ponto de vista econômico, o presidente Temer montou uma equipe da maior qualidade, chefiada por Henrique Meirelles, que traçou um roteiro claro e possível para o equilíbrio das contas públicas e a retomada do crescimento. O futuro parece incerto e nebuloso no cenário político, que normalmente já é povoado por nuvens e que nesse momento são especialmente carregadas. Sabemos que, por isso mesmo, não adianta demonizar a classe política, nem o Congresso Nacional, porque apenas com ambos poderemos sair do imbróglio que nos encontramos de forma legítima.

O povo está cansado das obras faraônicas como as da Copa do Mundo, da Olimpíada e da transposição do São Francisco. Cansado de projetos inconsistentes, como o do pré-sal. Vamos lembrar também da Rodovia Transamazônica (1968-1974), para não sermos injustos em identificar equívocos apenas nos dias atuais. A população precisa e quer coisas simples: saúde, educação, transporte e segurança. Governos que se concentrarem nessas tarefas e governantes que exerçam suas funções com a consciência de que ocupam uma função pública e que têm que servir ao público e não a si próprios terão enorme êxito.

Prometeram a todos nós um grande legado olímpico. Ele não é claro nesse momento; ao contrário, os prejuízos dessa empreitada parecem mais nítidos que os benefícios apregoados. Vamos, entretanto, torcer que estejamos errados e que ele se materialize. Talvez o grande legado seja exatamente esse: retirar da pauta política brasileira sua tentação para o gigantismo egípcio, voltando a dirigir os investimentos públicos para a consecução dos seus objetivos fundamentais.

Luiz Roberto Nascimento Silva

Poder é poder


A política foi primeiro a arte de impedir as pessoas de se intrometerem naquilo que lhes diz respeito. Em época posterior, acrescentaram-lhe a arte de forçar as pessoas a decidir sobre o que não entendem
Paul Valéry

Política rameira que afugenta as novas gerações e turva o futuro

No início de 1918, foi assinado em Brest-Litovsk um tratado que formalizou a retirada da Rússia da 1ª Guerra Mundial. O país havia passado pela primeira revolução operário-camponesa da História, estava prestes a enfrentar uma sangrenta guerra civil e a invasão de 21 países, o exército vermelho ainda era uma realidade distante, a população sofria da fome originada na guerra e no regime deposto. Nestas circunstâncias, foi praticamente forçado a assinar o que Lenin chamou de “paz vergonhosa”, única alternativa política a um provável colapso da jovem república dos sovietes.

Enormes áreas do território russo foram engolidas pelas potências imperialistas, incluídas as mais ricas em recursos naturais. Foi o duro preço a pagar para permitir a continuidade do projeto socialista. Política é, também, um balanço estratégico da correlação de forças a cada momento. Sem ilusões e com objetivos claros.

Dado o devido, e monumental, desconto, comparo a atuação impecável das lideranças bolcheviques em 1918 com três situações eleitorais em curso.

Começo com as eleições norte-americanas. Nas primárias do Partido Democrata, Bernie Sanders, impropriamente chamado de socialista, empurrou parte da agenda para a esquerda. Criticou severamente os interesses rentistas de Wall Street, as desigualdades sociais crescentes nos Estados Unidos, o elitismo do ensino superior no país. Empolgando gente afastada da política, acusou sua rival, Hillary Clinton, de condescendente com Wall Street. Agora, na convenção do partido, virou a casaca. Discursou apoiando Hillary e garantindo que ela será uma excelente (“tremendous”) presidente.

Certo, há um Trump no retrovisor, o que não é pouco. No entanto, o que estarão pensando os que apoiaram Sanders nas primárias, apostando na plataforma mansamente progressista do senador? De nada valeram as críticas à empáfia e ao conservadorismo engessado e intervencionista da senhora Clinton?

Não acho que Sanders agiu errado. Ao menos em tese. Tanto ele como Hillary, e certamente Trump, não teriam liberdade para fazer transformações na base do império. Nem querem isso. Ninguém mexerá nos privilégios do complexo industrial-militar, os interesses da burguesia continuarão hegemônicos. O buraco é muito mais embaixo.

Se Bernie quiser mostrar serviço de verdade e não frustrar seus apoiadores, deve pensar para além das eleições. Liderar, por exemplo, um processo de transformação profunda em seu partido, o que, no cenário norte-americano, poderia significar um modesto avanço. Com todas as limitações de qualquer democracia burguesa, mas avanço seria. Se ficar restrito a esse jogo eleitoral, nebuloso para o povo, será engolido e esquecido pela História.

Por aqui, a coisa é mais rasteira. Em São Paulo, Andrea Matarazzo aceitou ser vice na chapa de Marta Suplicy, depois de, em vários momentos, desqualificá-la como administradora e política. Chegou a dizer que seria mais fácil uma vaca voar do que ele aceitar ser vice. Pois, embora a Mimosa permaneça no pasto, lá está ele, todo pimpão, ao lado da ex-coringa do PT.

No Rio, a deputada Cidinha Campos aceitou compor-se com o PMDB e concorrer à vice-prefeitura na chapa de Pedro Paulo, a quem o atual prefeito, Eduardo Paes, com total conhecimento de causa, chamou de supermarido. Pedro Paulo está sendo processado por espancar sua ex-mulher. Quer dizer, o PMDB espanca e arruína o estado e seu candidato, mais modesto, se contenta com uma surra doméstica.

Cidinha, brizolista histórica, deve ter feito o gauchão urrar na cova com os argumentos cafajestes que usou para justificar sua decisão. Insinuou, por exemplo, que só se interessa por violência praticada contra mulheres “desvalidas”, isto é, pobres. As outras que se danem.

À diferença da velha guarda bolchevique, cujos objetivos eram notórios, as razões verdadeiras pelas quais Andrea Matarazzo e Cidinha Campos aceitaram as candidaturas estão albergadas numa nuvem opaca. Esse tipo de negociação jamais vem a público.

Num lapso de sinceridade, Carlos Lupi, presidente do PDT, confessou que fez um “apelo patético” para Cidinha e que ela “vai me cobrar uma fatura cara”. Tal como o jamais esclarecido “a gente se lambuzou”, do Jaques Wagner, dificilmente saberemos qual é o tamanho, e as ramificações, dessa fatura. Só sabemos quem paga a conta. É a política rameira, que afugenta as novas gerações e turva o futuro.

O cansaço provocado pelas notícias da Lava Jato

É visível, pelo menos em minha seara – a imprensa, de modo geral, que conheço (ou penso que conheço) há mais de meio século –, o cansaço provocado pelas notícias da Lava Jato. Sinto isso em vários analistas políticos, nas entrelinhas de seus comentários, sejam eles jornalistas ou cientistas políticos. Alguns, enfastiados, pessimistas ou descrentes de nosso futuro, apenas cumprem um dever profissional. É visível, também, a preocupação que a operação trouxe à classe política como um todo, além do medo do que lhe poderá acontecer.

As notícias dos crimes praticados por empresários e políticos são diárias e, quase sempre, impactantes, mas os resultados, provenientes do Poder Judiciário, estão longe de satisfazer a opinião pública, que quer mais velocidade nas investigações e nas condenações.

Entre os políticos, todavia, há sinais claros de que, se puderem, acabarão com muitas das ações postas em prática pela Polícia Federal ou pelo Ministério Público Federal, evitando, assim, o terrível constrangimento da prisão. Uma delas – a primeira, talvez, que tentariam eliminar tão logo pudessem – é a “colaboração premiada”, prevista hoje em lei, mas que ganhou entre nós o pejorativo de “delação premiada”.

Há dias, o presidente do Senado, Renan Calheiros, sem nenhuma preocupação pessoal ou de qualquer espécie, protocolou projeto de lei que trata do “abuso de autoridade”. A proposta está parada na Comissão de Consolidação da Legislação Federal e Regulamentação da Constituição, presidida pelo senador Romero Jucá, que, aliás, a considerou inoportuna. O projeto é a repetição do que foi apresentado, em 2009, pelo atual ministro da Defesa, Raul Jungmann. Ele define os crimes de autoridade cometidos por servidores da União, dos Estados, dos municípios, dos Poderes Legislativo e Judiciário e do Ministério Público. A pena seria o pagamento de indenização e a perda do cargo.

Pretende-se, por meio desse projeto, proibir o uso de algemas, ou de qualquer outro objeto que tolha a locomoção, quando não houver resistência à prisão. Além disso, considera crimes de abuso de autoridade: “Constranger alguém, sob ameaça de prisão, a depor sobre fatos que possam incriminá-lo” e “ofender a intimidade, a vida privada, a honra ou a imagem de pessoa indiciada em inquérito policial”.
O projeto, que trata ainda de outros assuntos, como os grampos sem autorização judicial, tem, com certeza, suas virtudes, pois não há ditadura pior do que a do Poder Judiciário. Mas, com razão, o senador Cristovam Buarque o combateu. Proposto neste instante, e por iniciativa de um senador que está sendo investigado na operação Lava Jato e que, além disso, é campeão de ações, mesmo após ter dito que “ninguém vai interferir na Lava Jato” (como se o poder fosse dele…), agravaria o ânimo demonstrado em todo o país.

O juiz Sergio Moro teria definido, para o fim deste ano, o encerramento dos trabalhos da Lava Jato sob sua responsabilidade. Isso não será fácil, apesar da celeridade com que tem conduzido os processos. Mesmo que isso não aconteça, o certo é que, em sua área, muitas novidades ocorrerão, sobretudo depois da aprovação, pelo Senado Federal, do impedimento da presidente Dilma Rousseff. Que só não se concretizará se houver algo de muito grave contra o presidente interino.

Permanecendo na Presidência, Michel Temer terá que mostrar muito mais para ganhar a aprovação do povo brasileiro. Pois cairá por terra a desculpa da interinidade.

O pau de vassoura

Para esquecer o Brexit, fui conhecer o novo edifício da Tate Modern em Londres e, como esperava, encontrei a apoteose da civilização do espetáculo. Fazia muito sucesso, pois, apesar de ser um dia normal, estava cheia de gente; muitos turistas, mas, me parece, a maioria dos visitantes era de ingleses e, principalmente, jovens.

No terceiro andar, numa das grandes e luminosas salas de exposição, havia um cabo cilíndrico, provavelmente de vassoura, que o artista tinha despojado dos fios ou da palha que devem tê-lo tornado funcional no passado – um objeto das tarefas domésticas –, e o havia pintado minuciosamente de tons verdes, azuis, amarelos, vermelhos e pretos, séries que nessa ordem – mais ou menos – o cobriam do princípio ao fim. Uma corda formava em torno dele um retângulo que impedia os espectadores de se aproximarem demais e tocá-lo. Estava contemplando o objeto quando me vi cercado por um grupo de escola, meninos e meninas em uniformes azuis, certamente riquinhos de boas famílias e escola particular que uma jovem professora tinha levado até ali para familiarizá-los com a arte moderna.

Ela fazia isso com entusiasmo, inteligência e convicção. Era magra, de olhos muito vivos, e falava um inglês muito claro, de professora. Fiquei ali no meio da roda, fingindo estar absorto na contemplação do cabo de vassoura, mas, na verdade, ouvindo-a. Ela consultava anotações que, evidentemente, tinha preparado cuidadosamente. Disse aos alunos que essa escultura, ou objeto estético, deveria ser situado, para poder ser devidamente apreciado, dentro da chamada arte conceitual. O que era isso? Uma arte feita de conceitos, de ideias, ou seja, de obras que devem estimular a inteligência e a imaginação do espectador antes que sua sensibilidade possa gozar realmente daquela pintura, escultura ou instalação que tinha diante dos olhos. Em outras palavras, o que eles viam ali, encostado na parede, não era um cabo de vassoura pintado de várias cores, mas um ponto de partida, um trampolim para alcançar algo que, agora, eles mesmos deviam ir construindo – ou, talvez, melhor dizer esquadrinhando, desenterrando, revelando – graças à sua fantasia e invenção. Vejamos, a qual deles o objeto sugeria algo?

Eduardo Estrada
Meninos e meninas, que ouviam com atenção, trocaram olhares e risinhos. O silêncio, prolongado, foi rompido por um ruivinho sardento com cara de pícaro: “As cores do arco-íris, talvez, Miss?”. “Bem, por que não?”, respondeu a Miss com prudência. “Outras sugestões ou observações?” Novo silêncio, risinhos e cotoveladas. “Harry Potter voava numa vassoura parecida com essa”, sussurrou uma menininha, corando como um camarão. Houve gargalhadas, mas a professora, amável e pertinaz, os repreendeu: “Tudo é possível, não riam. O artista talvez tenha se inspirado nos livros de Harry Potter, quem sabe? Não inventem por inventar, concentrem-se no objeto estético que têm à sua frente e perguntem-se o que se esconde no interior dele, que ideias ou sugestões há nele que vocês podem associar com coisas de que se recordem, que venham à memória graças a ele”.

Pouco a pouco a garotada foi se animando a improvisar e, enquanto alguns pareciam seguir as instruções da Miss e propunham interpretações que tinham alguma relação com o cabo de vassoura pintado, outros brincavam ou queriam divertir seus colegas dizendo coisas absurdas e insólitas. Um gordinho muito sério disse que o cabo de vassoura o fazia lembrar da avó, uma idosa que, em seus últimos anos, se arrastava sempre com a ajuda de uma bengala para não tropeçar e cair. À medida que os minutos passavam, minha admiração pela professora aumentava. Ela nunca fraquejou, nunca zombou nem se enfureceu ao ouvir as bobagens que lhe diziam. Ela percebia muito bem que, se não todos, a maioria de seus alunos já tinha esquecido o cabo de vassoura e a arte conceitual e estava se distraindo do tédio com uma brincadeira para a qual ela mesma, sem querer, dera a chave. Repetidamente, com uma tenacidade heroica, mostrando interesse por tudo o que ouvia, por mais zombeteiro e aberrante que fosse, voltava a trazê-los ao objeto estético que tinham à frente, explicando-lhes que agora sim, por tudo o que estava acontecendo, compreendiam sem dúvida como aquele cilindro de madeira decorado com aquelas cores intensas tinha aberto em todos eles uma comporta mental, da qual saíam ideias, conceitos, que os levavam de volta ao passado e os traziam de volta ao presente, que ativavam sua criatividade e os tornavam mais permeáveis e sensíveis à arte dos nossos dias. Essa arte que é diametralmente diferente do que era belo e feio para os artistas que pintaram os quadros dos clássicos que tinham visto alguns meses antes, na visita que fizeram à National Gallery.

Quando a perseverante e simpática Miss levou seus alunos para explorar, nessa mesma sala do novo edifício da Tate Modern, um labirinto de esteiras de Cristina Iglesias, eu ainda fiquei um tempo diante desse “objeto estético”, o cabo de vassoura pintado por um artista cujo nome decidi não averiguar; tampouco quis saber o título com o qual batizou sua “escultura conceitual”. Pensava na difícil empreitada dessa professora: convencer essas crianças de que aquilo representava a arte do nosso tempo, que havia naquele pau pintado toda essa soma que faz uma obra de arte genuína: artesanato, destreza, invenção, originalidade, audácia, ideias, intuições, beleza. Ela estava convencida de que era assim, porque, caso contrário, teria sido impossível que assumisse com tanto empenho o que fazia, com essa alegria e segurança com que falava aos seus alunos e ouvia suas reações. Não teria sido uma crueldade avisá-la que o que ela estava fazendo, no fundo, com tanta dedicação, entusiasmo e inocência, não era senão contribuir para um embuste monumental, para um sutilíssimo complô pouco menos do que planetário em que galerias, museus, críticos ilustríssimos, revistas especializadas, colecionadores, professores, mecenas e negociantes caraduras tinham feito para se enganar, enganar meio mundo e, de passagem, permitir que alguns poucos enchessem os bolsos graças a semelhante impostura? Uma conspiração extraordinária da qual ninguém fala e que, no entanto, tem absoluto sucesso, a ponto de ser irreversível: na arte do nosso tempo, o verdadeiro talento e a picardia mais cínica coexistem e se misturam de tal maneira que já não é possível separar ou diferenciar um do outro. Essas coisas sempre aconteceram, sem dúvida, mas, então, além delas, havia algumas cidades, algumas instituições, alguns artistas e alguns críticos que resistiam, que enfrentavam a picardia e a mentira, as denunciavam e venciam. Integravam essa demonizada elite que o politicamente correto do nosso tempo mandou para o pelotão de fuzilamento. O que ganhamos? Isso que tenho à minha frente: um cabo de vassoura com as cores do arco-íris, parecido com aquele com o qual Harry Potter voa entre as nuvens.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Terror não tem glamour

Passado o primeiro choque da tragédia do atentado no balneário de Nice, na França, o mundo continua atônito.

Hoje sabe-se que a qualquer momento pode surgir um lobo solitário capaz de dar a própria vida para massacrar dezenas de inocentes. Todo o planeta ainda tenta entender o que aconteceu em Nice, Orlando, Paris e em tantos outros locais onde um conjunto de pessoas ou apenas um único indivíduo promoveram tragédias sob a inspiração de organizações como o Estado Islâmico, a Al-Qaeda ou outros grupos terroristas que atuam no Oriente Médio. E o mundo procura encontrar formas para enfrentar o enorme desafio de evitar estes acontecimentos.

No Brasil é de se espantar a enorme dificuldade de parte da nossa intelectualidade e da maioria dos partidos ditos de “esquerda” de assumir uma postura de condenação veemente aos atos que culminaram na morte de tantas pessoas.

Ao contrário, no lugar de condenar chegam a ridicularizar quem se preocupa com a possibilidade deste tipo de evento ocorrer por aqui. Veja o caso da decisão do governo brasileiro de cumprir 12 mandados de prisão temporária de defensores do Estado Islâmico e que se tornou motivo de desconfiança, chacota e crítica por parte de quem considera ilegítimo ou falso tudo o que venha do governo interino.

Até membros da comunidade acadêmica fazem enorme esforço para justificar teoricamente os acontecimentos promovidos por fanáticos violentos que lutam contra a democracia e a liberdade no mundo.

leandro

Alguns glamorizam a barbárie. Interpretam a ação de terroristas como uma heróica ação anticapitalista. Não é à toa que petistas de diversos escalões se colocaram contra a Lei Antiterrorismo; estavam interessados em proteger companheiros mais radicais, como os sem-terra.

Dentro desta ótica, os grupos extremistas teriam um conteúdo revolucionário e contestador ao pregar a luta contra diversos valores da sociedade brasileira.

Não há muito ineditismo nesta interpretação. Estes mesmos pensadores de esquerda já interpretaram a violência e o banditismo como um produto direto da pobreza. O que é um absurdo. A esmagadora maioria dos pobres não é composta de bandidos, assim como a maioria da juventude da periferia quer distância de selvageria.

A essência de atos terroristas também não pode ser interpretada e amparada por explicações psicológicas ou sociais. Aliás, os terroristas são normalmente de classe média, o que contraria qualquer explicação social desse tipo.

A “ideologia do ressentimento”, inerente aos segmentos que adotam a barbárie como forma de luta, tampouco leva à transformação da sociedade. Não constrói nada. Ao contrário, destrói.

A bandeira do anticapitalismo, por si só, não quer dizer grande coisa. E na história foi argamassa de regimes racistas e genocidas. Nunca é demais lembrar que o nazismo se definia como “anticapitalista”...

Estas violências são absolutamente incompatíveis com o Estado de Direito Democrático.

Do início do século vinte até os dias de hoje, tivemos diversos embates: a revolução russa, o surgimento do fascismo e do nazismo, o stalinismo, duas guerras mundiais, Hiroshima, a guerra fria... Os únicos valores que sobreviveram a tantos confrontos, e se fortaleceram, foram a democracia e a liberdade.

São eles que estão sendo novamente atacados em todo o planeta, de forma sistemática, daí seu caráter deletério.

Aqui os defensores do Estado Islâmico foram amadores e primários segundo demonstram as mensagens trocadas entre eles e monitoradas pela Agência Brasileira de Inteligência. Nossos vândalos não parecem ter grande sofisticação intelectual. Não têm nem mesmo objetivos estratégicos claros. Eles pareciam querer promover apenas uma bravata. Nada disso é menos grave ou menos preocupante. Trata-se de uma espécie de banditismo.

Algo que deveria ser condenado claramente pela intelectualidade, movimentos sociais e forças políticas.

Viver de ilusões

Já era tempo de os políticos aprenderem que jogadas de marketing gratuitas são contraproducentes, pelo menos num momento como o país vive, com alta taxa de desemprego, que não deve decrescer tão cedo, e um índice resiliente de inflação. Pois não é que o presidente interino, Michel Temer, resolveu usar a família para um golpe publicitário, e foi buscar o filho na escola, cercado de assessores e seguranças, e avisou a imprensa?

O resultado foi um tumulto na frente da escola em Brasília, e um frustrado movimento para “humanizar” a imagem do presidente interino, que serviu apenas para mostrá-lo como político do velho estilo, que não recusa um papel desses para parecer bom pai.

Um exemplo de político moderno, que não teve nenhum acidente desses nos quase oito anos de mandato, é o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Não se ouve falar de um escândalo familiar dos ocupantes da Casa Branca, as filhas e a mulher Michelle estão sempre na mídia, mas de maneira bastante discreta e natural.

O ponto crucial está aí, na naturalidade dos atos e dos gestos cotidianos. Se, como ele mesmo admitiu aos jornalistas, somente ontem iria à escola buscar Michelzinho, para que então quis chamar a atenção para um ato completamente fora de sua rotina diária?

Qual o significado de ir buscar o filho diante das câmeras, se esse não é um ato cotidiano seu? É igual a chamar a imprensa para acompanhá-lo andando de ônibus, ou de trem, para ir a algum lugar. Se não pode repetir o gesto naturalmente no dia a dia, como fazem os ministros suecos, por que chamar a atenção para um fato anormal como se ele representasse um hábito de circular entre os populares, ou mesmo entre os pais dos coleguinhas de seu filho?

Será que a prisão do marqueteiro João Santana não quer dizer nada para os políticos brasileiros? Ninguém entendeu ainda que criar mundos fantasiosos que escondem as mazelas nacionais já não é aceitável num país que está mudando muito, apesar dos pesares?

O caso da Olimpíada é exemplar, a começar pela tentativa de autoridades locais de naturalizar os problemas, como se eles não pudessem ser evitados. Eles são a explicitação da má gestão do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), mas ninguém quer admitir as falhas.


Da mesma maneira, nenhum dos ex-presidentes brasileiros está disposto a aparecer na tribuna de honra do Maracanã na cerimônia de abertura. Deixaram a vaia, quase certa, para Michel Temer.

A presidente afastada, Dilma Rousseff, arranjou uma boa desculpa: diz que não quer aparecer em lugar secundário num evento que ela e o ex-presidente Lula ajudaram a trazer para o Brasil. Também o ex-governador Sérgio Cabral, outro responsável pelo evento, não deve aparecer por lá.

Somente Temer e o prefeito Eduardo Paes, por dever de ofício, vão se expor às vaias, que sem dúvida são apartidárias nesta polarização política que domina o país. Esses são sinais de nossa decadência política, que gera decisões populistas como trazer a Copa do Mundo e a Olimpíada para o país, sem que tivéssemos condições de promover esses eventos internacionais.

Construir o básico do país em todos os setores deveria ser nossa prioridade, e não viver de criar ilusões, que um dia se esfacelam diante da realidade. Pode até ser que, assim como aconteceu na Copa, os dias de competição corram sem problemas. Mas, até agora, os percalços foram muitos para receber as delegações estrangeiras com um mínimo de condições.

O que importa mesmo para o país é o depois desses megaeventos, mais que o seu decorrer, que pode transcorrer isento de transtornos (se Deus quiser). Os elefantes brancos que ficam pelo caminho, como os estádios de futebol vazios e o campo de golfe “popular”, é que são elas.

A Dipirona e as Olimpíadas

Fábula desmoralizante e corruptora

(Para se ler nu, ou nua, em jubiloso êxtase patriótico, desfraldada a bandeira nacional.)

Rio, 5.10.2009 – Na última sexta-feira, dia 2 de outubro, o Rio de Janeiro carnavalizou-se. Ansiedade e catarse, alegria e samba, travestismo e delírio. A dinamarquesa Kopenhagen anunciava: o Brasil hospedaria os jogos olímpicos e paraolímpicos de 2016. A festa inundou zonas sul, norte, oeste, subúrbios, arrabaldes rurais remanescentes.

Foguetes, cerveja, shows na Praia de Copacabana. Parecia que tínhamos governos honestos, de mínima e natural corrupção, em todos os níveis, que cumpriam compromissos ideológicos e programáticos dos seus respectivos partidos políticos.

Podia-se até imaginar que estávamos numa democracia e vivíamos num país onde os indivíduos eram respeitados nos seus fundamentais direitos e comiam relativamente bem; se vestiam e tinham saúde, eram humanamente atendidos nas unidades de saúde e hospitais; estudavam em escolas decentes, iam e vinham no seu cotidiano sem assaltos, a salvo das balas perdidas e estupros; o esporte e o lazer eram generalizados; os direitos culturais estavam garantidos e eram amplamente exercidos; havia transportes públicos seguros e eficazes; trabalhavam dignamente; enfim, as pessoas viviam e conviviam em paz, felizes. Sonhavam, criavam, produziam. Os serviços públicos eram públicos, atendiam à população.

Naquela manhã, as edições dos jornais e revistas, os telejornais e a Internet não recuperavam as pautas dos últimos meses: as irregularidades de toda ordem, a lama pútrida que lambuzou todas as instituições públicas que planejaram, organizaram e realizaram os Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro em 2007. Corrupção ativa, peculato, licitações fraudadas, projetos não executados ou mal realizados, desvio de dinheiro público, incúria, prevaricação, furtos, formação de quadrilha, falsidade ideológica, superfaturamento de obras e serviços, que, quando prestados eram insuficientes ou criminosos. Desadministração delituosa, total e epidêmica, malversação do dinheiro público em todos os níveis e esferas, em todas as etapas, em todos os ginásios, estádios, parques e arenas.

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E vamos de providências, sindicâncias, auditorias, investigações, apurações, denúncias, inquéritos, indenizações, CPIs, ações públicas, processos administrativos, cíveis e criminais – tudo sem conclusões, sem responsabilidades, sem réus, sem culpados, sem condenações, sem detenções, sem cárceres ou encarcerados.

“Ninguém foi preso” – a frase mais publicada e anunciada no País, desde que somos “República”. Ou: “O processo concluiu que houve falhas, houve erros na aplicação das verbas, mas não se pode apontar culpados ou condenar pessoas responsáveis”.

Horas mais tarde ao anúncio, na madrugada de sábado, Marlene, uma empregada doméstica, dormitava e soluçava com o filho de um ano no colo, ardendo em febre, convulsivo, numa parada de ônibus sem ônibus, na zona sul, a mais rica, da cidade.

Voltava para casa para ver se algum vizinho, alguma alma generosa da favela onde vivia, salvaria a vida do menino. Isto porque, no hospital público, o melhor da cidade, situado na Gávea, onde havia sido atendida, após espera de três horas, “nada podia ser feito, pois além de não haver médico especialista de plantão, não havia Dipirona, que estava em falta há quinze dias”. Fazer o que? Clamar a quem? Ao bispo? – indignava-se Marlene. Mas não sei onde ele dorme, pensou. “Ao Papa? Roma está longe, nem sei como lá se chega. E o prefeito? Que fim levou? E o governador? Tá viajando. E o vereador? O deputado? O senador? Sei lá… Será que polícia resolve? Uma dipirona já aliviava o sofrimento… Dava pra amanhecer o dia. Porra! Não é fácil. Todo dia a gente escuta no rádio e vê na televisão: corrupção, roubo do dinheiro do povo… e o hospital não tem um frasco de dipirona!?…”

Marlene matutou e amaldiçoou. Um motorista de táxi, piedoso, conhecido, levou-os, ela e o filho, até a entrada da comunidade. Eram quatro horas da manhã. Não se sabe o que aconteceu com Pedro, o menino em chamas e encharcado em vômito, nos braços da empregada doméstica.

Mas, alvíssaras! As notícias são boas, são as melhores. Com as Olimpíadas de 2016, além da auto-estima carioca dar um salto, o orgulho de ser brasileiro vai bater um recorde. Para a cidade do Rio de Janeiro, maravilhosa por natureza, será a redenção. Será a oportunidade, depois das olímpicas, de asneiras como aquela de se lhe tirar a condição de capital federal e de se lhe impor a fusão entre o fictício e falecido Estado da Guanabara e o eterno e injustiçado Estado do Rio de Janeiro – finalmente, o povo carioca, o povo fluminense vão melhorar para sempre a sua qualidade de vida.

Os jogos vão viabilizar vultosos investimentos públicos na infraestrutura da cidade, nos equipamentos e serviços públicos. Receberão, vultosos recursos, a saúde, a educação, a segurança, os transportes, a habitação popular.

Vão cessar esses projetos burros de maquiagem da cidade, de urbanização e cimentação de favelas, colorir barracos. Surgirão autênticos, eficazes projetos habitacionais, bairros de verdade. Nada de Projetos como o Minha Casa Minha Vida, também conhecido Me Engana que eu Gosto ou Meu Destino Minha Morte. Estão previstas obras e obras, recuperações e modernizações, reformas e ampliações, reestruturações e sistematizações, cometimentos que irão melhorar muito a vida dos cariocas e daqueles que nos visitam. E, claro, o esporte nacional, profissional, amador, olímpico, paraolímpico, oficial e marginal, todos vão se desenvolver. Até a purrinha e o jogo do bicho. Os jogos vão atrair formidáveis investimentos privados em todas as áreas. Empregos e salários irão se multiplicar. Renda e vida para todos. Seremos campeões em tudo.

Tudo irá melhorar. Não será mais como das outras vezes, das milhares de outras vezes. Agora é diferente. É pra valer. Para o povo será uma beleza! Nos lares, nas ruas, nas praças, nos hospitais, nas escolas, no trabalho, no metrô, nos trens, nos ônibus, nos presídios, na praia, no mar, no ar, no céu e na terra.

Florescerão a paz, o amor, a harmonia e a fraternidade em nossos corações. Até o nosso humor carioca será mais carioca. Receberemos todos de braços abertos, desarmados. Ninguém será assaltado e torturado, prometemos.

Não irá faltar mais Dipirona nos hospitais públicos. Nem esparadrapo, nem antibiótico. Nem médicos, que terão jornadas de trabalho possíveis e salários dignos. O raio X, o ultrassom e a ressonância magnética existirão, funcionarão regularmente. E não estarão mais, por meses e anos, quebrados, como o elevador e como sempre. Nada mais justo, necessário, urgente e edificante que uma Olimpíada.

Moral da história: Infeliz a cidade, desgraçado o país que para ter Dipirona nos seus hospitais públicos implora a Deus e ao Mundo a realização de uma Olimpíada.

E pior – cá entre nós – as Olimpíadas irão se realizar. E os hospitais vão continuar sem Dipirona.

O mistério de quem governa

Une sélection de créations du talentueux illustrateur brésilien Matheus Lopes Castro, qui nous transporte dans un univers coloré, poétique, mais également bourré de références décalées à la pop culture. Un portfolio aussi riche qu’hétéroclite !:
Não são os políticos os que governam o mundo. Os lugares de poder, além de serem supranacionais, multinacionais, são invisíveis
José Saramago

Campanhas vão passar a pão e água

A eleição para prefeituras e câmaras municipais deste ano será atípica. Deveremos ter campanhas bem mais modestas que as verificadas em pleitos anteriores.

São dois os motivos para o redimensionamento. O primeiro é a decisão do STF que baniu doações de empresas. Em condições normais, esse tipo de medida teria eficácia parcial. Proibições raramente resultam no fim da atividade que se deseja banir. No mais das vezes, elas fazem com que a prática procure outros caminhos. No caso, seriam as doações de pessoas físicas, que continuam legais, ou o caixa dois. Não é do meu feitio comprar pelo valor de face declarações de marqueteiros, mas acredito em João Santana quando diz que 98% das campanhas no Brasil usam caixa dois.


Este ano, porém, as coisas tendem a ser diferentes. A Lava Jato, nosso segundo motivo, não apenas faz com que autoridades fiquem muito mais atentas às doações como também colocou em sérias dificuldades financeiras várias das empresas que tinham o hábito de despejar grandes somas em candidaturas.

Há razões, portanto, para acreditar que, desta vez, as campanhas terão mesmo de adequar-se a orçamentos franciscanos. E eu penso que isso é bom. É verdade que candidatos enfrentarão maior dificuldade para fazer-se conhecer pelo eleitor e para apresentar suas ideias. Os programas do horário gratuito também tenderão a ficar menos interessantes, o que talvez faça com que o cidadão vote com menos informação.

Apesar disso, acho que vale a pena tentar impor campanhas substancialmente mais baratas. Fazê-lo tende a diminuir a influência do poder econômico sobre políticos, o que me parece mais importante do que promover o tal de voto consciente, que não passa de uma quimera mesmo.

A má notícia é que em 2018 a conjunção de fatores que leva à seca de doações já deverá ter enfraquecido e as coisas estarão voltando ao normal.

Imagem do Dia

Tang Yau Hoong: Ilustras com Forma e Contra-Forma
Tang Yau Hoong

A vítima do golpe fugiu da festa de abertura da Olimpíada


Ao fugir da cerimônia de abertura da Olimpíada do Rio, Dilma Rousseff perdeu a mais imperdível das chances de mostrar a dezenas de governantes estrangeiros que foi mesmo vítima de um golpe tramado por cruéis inimigos do povo, dispostos a tudo para derrubar a presidente que só pensava nos pobres ─ e, por isso, não tinha tempo nem cabeça para pensar na assombrosa roubalheira que aumentou em alguns bilhões a fortuna dos corruptos de estimação.

Se acreditasse nessa lengalenga vigarista, bastaria dar as caras no Maracanã e pedir ao locutor oficial que revelasse à multidão quem acabara de chegar. E então começaria o espetáculo da redenção. Depois de saborear a estrepitosa e unânime salva de palmas, Dilma entraria sem pedir licença na tribuna de honra para anunciar o início dos Jogos Olímpicos e o encerramento do governo do traidor Michel Temer.

Por que preferiu ficar em casa? Pelos mesmos motivos que levaram o padrinho Lula a refugar o convite do comitê organizador da Olimpíada e continuar homiziado no bunker disfarçado de “instituto”. Caso se atrevesse a enfrentar esse infalível teste de popularidade, a dupla seria recebida com a vaia mais demorada e desmoralizante da história do Maracanã. Ou do mundo.

A intolerância mora ao lado

A capacidade humana de se inventar é admirável. Em cada lugar habitado, pouco importa em que tempo, nós nos atribuímos uma origem diferente. Na América do Sul, alguns povos acreditavam que surgimos do milho. Outros preferiram a batata ou a mandioca. Na Noruega, viemos de árvores. Na Índia, da manteiga. O barro foi uma opção no Oriente Médio, na Grécia, na China, nas Américas do Norte e Central. No Tibete, surgimos da união de um ET com um macaco. Na Coreia, substituíram o macaco pelo urso.

No Quênia, ora descemos do céu, ora saímos de dentro de um joelho. Na Oceania, brotamos de vermes. Sim, a capacidade de nos inventarmos não tem fim.

Também não tem fim nossa capacidade de acreditar. Vi, no México, mulheres se arrastando de joelhos nus no adro da Basílica de Guadalupe, largando trilhas de sangue. Uma atmosfera de beatitude as seguia, como se estivessem fora deste mundo. No Brasil, testemunhei um pajé, em transe, entrando em contato com os deuses da tribo. Em Mianmar, num templo que comemorava 2 500 anos de existência, centenas de pessoas rezavam para encontrar o caminho ensinado por Buda. Enquanto balançavam a cabeça, queimavam incenso, e o ar adquiria cheiro de nirvana.

Meaningful Editorial Illustrations by John Holcroft:
Na Mesquita Azul, na Turquia, logo após o chamado do muezim, que me remeteu aos contos das Mil e Uma Noites, os muçulmanos curvavam-se em direção a Meca, em rogos compenetrados. Alá parecia estar entre eles. No templo Tanah Lot, na Indonésia, as orações, durante o incêndio de cores trazido pelo mergulho do sol no oceano, criaram clima de transcendência mesmo para quem não participava da cerimônia. Em Katmandu, no Nepal, uma garota, transformada em deusa viva, fazia cegos enxergar e paralíticos jogar fora cadeiras de roda e muletas. O mesmo aconteceu no norte da Índia, onde uma aguinha a escorrer do lingam de Shiva, pedra cinzenta com meio metro de altura, transformava a força vital do deus em milagres. Na Alemanha, na época do Natal, conheci celebrações pré-cristãs para o solstício de inverno, mantidas por uma tradição multimilenar. Na Tailândia, fiéis cobriam as imagens sagradas com folhas de ouro ao fazer pedidos ou agradecer as graças alcançadas. Sim, nossa capacidade de acreditar não tem fim.

Diante de tanta diversidade, nossa capacidade de respeitar a crença alheia teria fim? Sempre apostei na tolerância dos brasileiros. Afinal, somos o país do sincretismo religioso.

Já não estou tão seguro. Ao entrar, em Belo Horizonte, em dois templos onde se prometem milagres em troca de dinheiro, testemunhei radicalismo contra os demais credos: segundo os pregadores, quem não pertencia à seita era indigno de viver, um condenado, um intocável. Fiquei duplamente assustado. Com o discurso e com a cara de pau dos manipuladores. Em determinado momento, um deles disse que os seguidores da seita deveriam evitar até conversar com os não membros para não ser contaminados. Também precisavam, em casa, se livrar de qualquer escultura ou pintura com figuras humanas.

​O mundo conhece o efeito dos excessos. A história está cheia de exemplos. A humanidade, em sua múltipla capacidade de se inventar e de acreditar, é maior que qualquer culto. Cultos passam, a humanidade fica. A intolerância não é o caminho, nem a verdade, muito menos a vida. É apenas o casamento da presunção com a sede de poder.

Adeus às ilusões

Dilma, quem diria, logo dará adeus às ilusões. Nas campanhas eleitorais em que se elegeu e reelegeu graças aos préstimos de João Santana, inventor de patranhas, foi vendida por ele como a “gerentona” mais habilitada a pôr o País nos eixos e guiar a classe operária ao paraíso. Acusada de ter cometido crimes funcionais, o que está para interromper seu mandato, responde pela irresponsabilidade de, por culpa da roubalheira do partido que a adotou, o PT, ter gerado a quebradeira e o desemprego generalizados que condenaram a Nação às piores crises ética, econômica e política da História. E ela ainda se agarra à imagem de ser “pessoalmente honesta”, que começa a desabar.

Por ironia da História, uma grave acusação foi feita por esse gênio da lorota de fancaria, cujo depoimento ao juiz Sergio Moro, da Operação Lava Jato, deu mais uma pista concreta de que, de fato, a campanha dela, que ele criou, produziu e dirigiu, foi financiada por dinheiro roubado, de propina de fornecedores da Petrobrás. A iminente homologação da delação premiada do mágico do marketing, de sua mulher, contadora e sócia, Mônica Moura, e de muitos executivos da empreiteira Odebrecht, entre os quais o presidente, Marcelo, prenuncia o fim do refrão com que Dilma enfrenta o impeachment: não levou vantagem financeira em nada nem tem conta em banco no exterior.


Para convencer policiais, procuradores e juiz, o marqueteiro, chamado de Patinhas na juventude pela fértil originalidade de letrista de música popular, na passagem de sucesso pelo jornalismo e na maturidade de publicitário milionário, decidiu abrir o bico como um “canário” da Máfia da Sicília em Chicago. E o faz de maneira cínica, idêntica à usada para inventar a torpe falsidade de um Brasil irreal de pleno emprego, redução da pobreza crônica e competente e honesta gestão dos recursos públicos. Tudo isso foi pago com o fruto do maior assalto desarmado aos cofres públicos da História, que levou à beira da falência a maior estatal do País.

Joãozinho Patinhas teve o desplante de confessar ao juiz que mentiu em depoimento anterior, após se entregar desembarcando do Caribe, “para não destruir a Presidência”, uma aparente expressão de lealdade. Mas que, na verdade, continha, de um lado, o compromisso com a força-tarefa de comprometê-la. E, de outro, a ameaça de que se dispunha a “cantar”, como um vil delator mafioso, que Dilma disse desprezar. “Eu, que ajudei de certa maneira a eleição dela, não seria a pessoa que iria destruir a Presidência, trazer um problema. Nessa época já iniciava o processo de impeachment, mas ainda não havia nada aberto, e sabia que isso poderia gerar um grave problema até para o próprio Brasil”, depôs.

A primeira versão de “Tucano” (nome da cidade baiana onde ele nasceu, adotado como codinome nas planilhas do banco de propinas da Odebrecht) não se sustentava nas próprias pernas: segundo a narrativa, o dinheiro depositado em suas contas teria sido ganho em campanhas no exterior e o pago pelo PT foi sempre legal.

A história atual, endossada por Mônica Moura, é mais lógica: em 21 de julho, o casal admitiu ter recebido no caixa 2 US$ 4,5 milhões para quitar uma dívida da campanha de Dilma em 2010. Naquela mesma quinta-feira, o engenheiro Zwi Skornicki, tido pela força-tarefa da Lava Jato como operador de propina do esquema da Petrobrás (dito petrolão), contou ao juiz Sergio Moro ter depositado, de 2013 a 2014, em conta do casal no exterior US$ 4,5 milhões para saldar parte de uma dívida que o PT lhe ficou devendo durante a campanha.

O valor coincide, mas não o recurso ao “caixa 2”, conversa mole de estelionatário confesso, que sempre doura a pílula, tentando desviar a acusação para alguma infração menor. Assim fazem quaisquer flagrados em crime mais grave. Deixo ao atento leitor a decisão sobre a quem dar fé: quem pagou ou quem recebeu a bolada?

Em matéria de cinismo, marqueteiro e “presidenta” se equivalem. O “Feira” dos registros da propina da Odebrecht se arvorou a dar lições de contabilidade fora da lei ao maior especialista em lavagem de dinheiro da Justiça brasileira. Ele disse que milhares, quiçá milhões, de políticos não prestam contas de campanhas corretamente à Justiça Eleitoral. Recorreu a metáforas dignas de sua imaginação: fariam uma fila de Brasília a Manaus, equivalente à Muralha da China, ficando aptos a ser fotografados por satélite. Seria mais persuasivo se delatasse pelo menos uma centena dentre os “98%” dos candidatos, que ele considera trapaceiros como ele.

Os exageros de João do milhão o qualificam como mestre da patroa em desfaçatez. Terá sido de sua lavra a explicação que Dilma deu para o fato de, como presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, ter autorizado a compra da refinaria de Pasadena à Astra Oil? Por que não ocorreu a ela, a conselho de sua protegida Graça Forster, exigir do ex-diretor internacional, Nestor Cerveró, relatório mais detalhado tecnicamente do que o que ela definiu como incompleto, antes de autorizar negócio lesivo ao patrimônio nacional?

Agora recorreu ao estilo de Lula, ao assegurar no Twitter: “Não autorizei pagamento de caixa 2 a ninguém. Se houve pagamento, não foi com meu conhecimento”. Esse argumento é fátuo. O professor José Eduardo Martins Cardozo devia ter-lhe ensinado que, no caso, ela será acusada de ter-se beneficiado do dinheiro ilegal na campanha. À Rádio França Internacional Dilma disse que, feito dois anos após o pleito, o repasse não a atinge, omitindo que a propina pagou dívida contraída para a própria eleição.

A confissão de Santana, Mônica e Skornicki revela que o mantra profano dos partidos acusados – o de terem recebido doações legais e aprovadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – é mentiroso. Parte dessas doações se originou de propinas e as tidas como legais podem ter usado o TSE como lavanderia de dinheiro do furto.

José Nêumanne

terça-feira, 26 de julho de 2016

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Dois olhares sobre o Brasil

Li numa mesma semana o “Autoimperialismo”, de Benjamin Moser, e “Trópicos utópicos”, de Eduardo Giannetti. São textos convergentes e, ao mesmo tempo, quase antagônicos. Convergentes porque se debruçam sobre o Brasil dos nossos dias; quase antagônicos porque o fazem a partir de perspectivas diferentes e chegam a conclusões muitas vezes opostas. O primeiro é um olhar estrangeiro, de um pessimismo elegante e provocador; o segundo, um olhar brasileiro, disperso, apaixonado e esperançoso — talvez porque nem seja possível a um olhar brasileiro não ser sempre um tanto apaixonado e outro tanto esperançoso.


O olhar de um visitante tem virtudes e limitações. É um olhar semelhante ao das crianças — vai inaugurando o mundo — de tal forma que consegue frequentemente enxergar aquilo que, de tão evidente, os nativos não veem mais. Em contrapartida, o estrangeiro corre o risco de se tomar como descobridor, quando o que descobre apenas constitui motivo de espanto para ele mesmo. No livro de Moser há momentos brilhantes, em que pensamos, “caramba, é isto mesmo!” ainda que nos custe a concordar. Moser, por exemplo, olha com sincero horror para Brasília. Estudando a sua arquitetura monumental, que ele considera uma imitação menor e deslocada, conclui que o Brasil é um país imperialista, ou melhor, autoimperialista, pois a si mesmo invade e coloniza.

Moser está certo, claro. Não me pareça é que exista novidade em tal conclusão. Aquilo a que ele chama autoimperialismo já outros, há muito tempo, chamaram endocolonialismo. Nem há diferença alguma, neste aspecto, entre os Estados Unidos e o Brasil. Os EUA também se colonizaram a si mesmos, e com enorme violência. E se há, como insiste Moser, quem, naquele bizarro país sem nome próprio, se horrorize com tal História, também há outros tantos que se vangloriam dela. Perguntem a Trump.

A diferença é que ao longo de todo esse complexo processo de autocolonização o Brasil conseguiu criar uma cultura própria, composta a partir das expressões culturais dos povos colonizados — a população indígena e africana. Eduardo Giannetti lembra isto mesmo no seu livro, quase como se estivesse respondendo a Moser: “As técnicas modernas de mapeamento genético permitiram quantificar o que está à vista de todos. Enquanto nos Estados Unidos apenas 1% da população branca possui alguma ascendência africana, no Brasil a maioria dos brancos — cerca de 60% — pertence a linhagens africanas ou ameríndias” — escreve Giannetti.

Em vez de “população branca” seria mais acertado escrever “população que se vê a si mesma como branca”. A maioria dos “brancos” brasileiros não são percebidos como “brancos” nos Estados Unidos. Acontece o mesmo, aliás, com os portugueses. A minha irmã foi casada com um português de ascendência goesa. Tiveram uma filha nos Estados Unidos. Quando o pai foi registrar a menina entregaram-lhe um documento no qual ele deveria selecionar a “raça” da filha, de entre um vasto conjunto de possibilidades. O meu cunhado não hesitou: branca. Os burocratas americanos entreolharam-se, entre chocados e divertidos: “Branca?!” Finalmente, lá o convenceram a registrar a menina como latina ou hispânica. O rico espólio genético da minha sobrinha não cabia naquele papel.

“O entrelaço genético”, ainda citando Giannetti, “se reflete no modo como os brasileiros se autoclassificam quando instados a declarar a cor de sua pele: de galega a sarará e de meio preta a cor de canela e puxa para branca”. Para o economista mineiro “há uma forma de vida embutida em nossa língua falada — a língua fala. Daí que enquanto a presença de termos e expressões afro-indígenas no inglês norte-americano é rarefeita, ela transparece de forma ubíqua no português do Brasil.”

Se há uma diferença entre o endocolonialismo brasileiro e o norte-americano está aqui. Ao colonizar-se a si mesmo o Brasil foi-se descolonizando. Não há nada, ou quase nada, de índio ou de africano na larga maioria dos descendentes de colonos europeus norte-americanos. Os brasileiros, porém, podem repetir o que de si mesmos dizem os cabo-verdianos: “aqui, do branco puro ao negro retinto somos todos mulatos.” Se tirarmos o foco da “raça” e o colocarmos na cultura, como deveria ser sempre, a afirmação é ainda mais precisa. Em termos culturais, nenhum brasileiro é “branco”. Todos são mestiços. Todos são, aliás, mais africanos do que europeus. Talvez por isso o Brasil — ao contrário dos EUA — se tenha conseguido afirmar no mundo sem violência alguma. Apenas recorrendo à extraordinária força da sua cultura mestiça.

De onde sairá o dinheiro?

Aqui e em qualquer outro lugar, campanha eleitoral é algo caro. E a maioria dos candidatos não dispõe de fortuna pessoal para arcar com os custos.

O Brasil está entre os cinco países onde as eleições custam mais caro. Por conta disso, adotou-se uma lei que, se respeitada, reduzirá dramaticamente os gastos das eleições deste ano.

A lei proíbe as doações de empresas aos políticos. Apenas pessoas físicas, e mesmo assim obedecidos determinados limites, podem fazer doações. Logo num país sem tradição disso.

O que esperar? Que diminua o número de candidatos? Que só os candidatos ricos se elejam? Ou que só se elejam aqueles que exercem cargos ou que já são bastante conhecidos?

O tráfico de drogas deixará de financiar seus candidatos? E as milícias? E as igrejas evangélicas que recebem doações e que não são fiscalizadas?

Deve-se esperar a revogação da lei para futuras eleições. A cada nova eleição, por sinal, o país conhece uma nova lei que tenta discipliná-la. A deste ano será um experimento malsucedido.

Gramática está perdendo de goleada no atual momento político

"O deputado que faltar sessões da Câmara durante a Olimpíada será descontado", diz o locutor matinal do rádio. Quem errou? O redator do programa, que não sabe ou se esqueceu de que o correto é "o deputado que faltar às sessões" ou o locutor que, mal saído da cama, leu distraído o texto? Tanto faz. O desprestígio ou mau uso da preposição "a" já é tal que temo pelo seu futuro na língua.


Os fatos novos com que estamos lidando no país têm levado a gramática a perder de goleada para as construções mais estapafúrdias. Jornalistas, políticos e economistas se revezam na arte de cometer batatadas. Uma das mais frequentes é escrever ou dizer que fulano "faz apologia a" alguma coisa. Até há pouco, e conforme os melhores autores, fazia-se a apologia "de" alguma coisa.

E as pessoas que se concentram na Cinelândia ou na avenida Paulista "em protesto a" isso ou aquilo? Sempre pensei que se protestava "contra", não "a" o que quer que fosse. São as mesmas que se acham no "direito a protestar", e não "de protestar" —não admira que os protestos atraiam cada vez menos gente. O mesmo quanto às que se mobilizam "em celebração a" alguém, e não "de alguém". De onde saem esses estrupícios?

Repórteres se referem ao político xis como "aliado ao" deputado fulano. Como se pode ser aliado "a alguém", e não "de alguém"? E não se pode acusar o ex-presidente Lula e seus sócios de "obstrução à Justiça" —mas de "obstrução da Justiça". E os interrogatórios e prisões de cachorros grandes, "inéditos ao" sistema judicial brasileiro? Inéditos "no sistema", diriam os mais atentos.

Sim, eu sei, não passam de filigranas. Como estamos em plena temporada de "questionar a" qualquer coisa —e não apenas "questionar" essa mesma coisa–, talvez o alvo da vez seja a pobre e abandonada língua portuguesa.

Ruy Castro

Lei do farol aceso é a idiotice do ano

O excesso de zelo do governo para salvar nossas vidas é, no mínimo, duvidoso ou exagerado. Nos últimos anos, contam-se nos dedos as trapalhadas dos burocratas do Denatran. Primeiro foi o kit farmácia. Se descobriu que a gaze permitiria o enforcamento do próprio motorista refém dos ladrões. Depois, inventaram a troca do extintor de incêndio que de tão moderno não funcionava quando acionado. Decidiram também que as escolas de motoristas teriam que se adaptar a um simulador em vez da prática nas ruas. Inventaram que as cadeiras dos bebês nos carros eram ineficientes e obrigaram a troca. Tudo isso é feito no achômetro, nada aparentemente adotado depois de pesquisas e estudos científicos que provem a eficácia dessas mudanças.

Todas essas operações, evidentemente, oneram o contribuinte. E certamente engorda os bolsos dos criadores dessas ideias que dizem querer zelar pela nossa segurança, porque no Brasil, como se sabe, existe sempre um espertinho por trás de uma “boa” ação. Como o brasileiro é um povo passivo, acomodado e até meio abestado, aceita tudo que um burocrata determina de cima pra baixo, sem consultar ninguém. E por isso paga um preço caro, como acontece nesse momento com os faróis dos carros acesos durante o dia.


Dessa vez, a lei passou pelo Congresso Nacional. Tomou o número 13.290/2006 e virou infração média para quem andar nas ruas (Brasília) e nas estradas com os faróis apagados. Hoje, o infrator paga R$ 85,13 e é punido com 4 pontos na careira. A partir de novembro, as multas vão subir para R$ 130,16. Os “gênios” do trânsito conseguiram convencer os parlamentares de que os faróis acesos evitam acidentes nas rodovias. Deram como exemplo as estradas na Europa e nos Estados Unidos e sacaram desses países números aleatórios de redução de acidentes que justificariam a medida pelo Congresso Nacional.

Esse é o tipo da lei doida, desvairada e desnecessária que o brasileiro deveria não acatar e fazer, em massa, uma desobediência civil. Em um país ensolarado como o nosso, o farol aceso é mais uma luz para encandecer a vista dos motoristas tanto na estrada como na cidade, porque o sol incide sobre o reflexo dos faróis de dia. Essa medida de luz acesa nos carros de dia é necessária nas cidades europeias e em muitas outras nos Estados Unidos que vivem sob neblina na maior parte do ano, o que não é o nosso caso.

Impor o mesmo método no Brasil é no mínimo uma decisão autoritária e, por que não dizer, prepotente. A ideia surgiu de um ex-inspetor federal de rodovia que virou deputado. E prosperou diante da imbecilidade de alguns congressistas que aprovam leis que só servem para onerar o bolso dos brasileiros, como essa do farol aceso. Depois que aprovam é que se tocam que a medida é esdrúxula. Não só penaliza com infração o motorista como enriquece alguns empresários que vão vender mais baterias, mais luzes para os faróis e adaptar os carros antigos com dispositivos para que fiquem com a luz acesa quando acionar a ignição. A melhor das soluções seria uma campanha educativa em rodovias com nevoeiro intenso, não punitiva.

Ora, ora, os acidentes no Brasil não serão evitados porque os carros circularão de faróis acesos de dia. Eles acontecem porque as rodovias são péssimas, cheias de buracos, sem acostamentos, sem sinalização e sem fiscalização adequada. Não existe vigilância permanente para impedir a alta velocidade nas estradas e os postos de fiscalização normalmente estão vazios à noite. Criar leis para remediar a situação é simplesmente ignorar que a infraestrutura do Brasil está paralisada há mais de dez anos.

Enquanto em outros países, as regras são adotadas para não mexer no bolso do contribuinte, aqui tudo é feito para penalizar a população como se ela fosse responsável pelos desvios públicos, a corrupção e os desmandos do governo e que, portanto, deve ser punida. Nunca, em nenhum momento, o brasileiro teve a satisfação de ouvir que um governo derrubou um tributo para melhorar a sua vida.

Por isso, acho que o brasileiro deveria se rebelar contra mais essa lei equivocada do farol aceso, cuja eficácia é duvidosa. Vamos protestar todas as vezes que um governo impor mais uma infração ou um imposto novo à população.

Santa indiferença, o afeto da nossa era

Gira a roleta-russa que dispara em nossa mente as estranhas características que poderiam descrever qual o afeto que mais demarca nossa era. E, insistentemente, tal qual um letreiro de neon que pisca intermitentemente, a palavra é: indiferença!

A dor do avô, a perda do vizinho, o luto do primo, a bala perdida que ceifou mais uma vida, o acidente estúpido no fim da balada regada a vodca que capotou para sempre o futuro de cinco jovens. Indiferentes, mudamos de fase no game, frenéticos, disparamos um WhatsApp ou, bocejando, trocamos o canal.

Dran...street art:
Anestesiados, ouvimos as tragédias ao nosso redor enquanto um bocejo escapa, numa preguiça pós-prandial. O desinteresse por tudo e por todos vai se espalhando tal qual a peste negra na Idade Média. Com uma diferença, naquela época ainda havia uma esperança chamada fé, que nos tempos atuais anda em baixa entre os mais jovens. Depois da vida, o nada. O problema é que a própria existência tem sido muito próxima de um nada. Então, azar de nós.

Será que a emoção está tão em desuso, por estarmos cada vez mais racionais, frios, tecnológicos, rápidos, desimportantes ou descartáveis? Ou tímidos, individualistas e autossuficientes? Só espero que não seja efeito da artificialização dos sentimentos pela bebida, pelas drogas e pelas medicações. Sim, no fundo sei que uma das vertentes da evolução humana é uma hipertrofia cerebral na área cortical, que nos tornará lógicos, matemáticos, insensíveis, em detrimento da área hipotalâmica, sede do estresse e das emoções.

Seremos mais máquina e menos animais. Mais equações, menos paixões. Vivemos os estertores do romantismo e do sentimentalismo. Sentimentos levam a guerras, impulsos, discórdias, assim como inspiram poesias, canções e encantamentos. Assim sempre foi, mas antes dos próximos séculos desta robotização, uma maquinização de nossas existências, testemunhamos essa estranha fase da indiferença, entrecortada por ódios e radicalismos pré-históricos em contraste com uma tecnologia impensável há 20 anos. Estranho divórcio cerebral onde parte do nosso cérebro vive num filme de ficção científica, e do outro lado, parte vive de emoções regredidas e trogloditas. Olho para o lado e não vejo ninguém na praça lotada de alimentação. Nem sou visto. Tudo é neutro, igual a ontem ou mês passado, sem tempero como o sanduíche de fast food ou o suco artificial de alguma fruta. Observo a vida, amo ser curioso e besta. Agradeço por tantas emoções, sem plagiar o Roberto Carlos. Poder recordá-las e, para quem quiser, um dia me tornar um contador de histórias: “Era uma vez a paixão, uma coisa estranha que sufocava, acelerava o coração, me tirava do sério toda vez que minha musa...”.

Como a Dinamarca virou referência no combate ao desperdício alimentar

Copenhague está assumindo papel pioneiro num movimento que combina duas grandes preferências nacionais: fazer bem ao meio ambiente e poupar dinheiro. Em setembro próximo, o "reino verde" criará um fundo de incentivo a projetos contra o desperdício de alimentos, com uma verba de 5 milhões de coroas dinamarquesas (670 mil euros).

"Comida é amor. Quando jogamos comida fora, estamos jogando fora amor", afirma a ativista Selina Juul, de 36 anos. O trabalho da ONG Stop Wasting Food (Chega de desperdiçar comida), fundada por ela, contribuiu para que a Dinamarca alcançasse um marco histórico: reduzir seu desperdício de alimentos em um terço em relação a 2010.

Cada vez mais supermercados do país mantêm "stop food waste areas", onde são vendidos, a preços módicos, gêneros alimentícios cujo prazo de validade está prestes a se esgotar. Ou batatas "feias", mas que ainda servem perfeitamente para fazer uma salada.

E essa é apenas uma entre muitas abordagens eficazes. Com um app, a startup Too Good To Go mostra a gente faminta o caminho até refeições que antes não poderiam mais ser vendidas. A partir de uma lista de restaurantes e padarias que estão prestes a fechar, os usuários têm a chance de passar pelos locais e, com sorte, sair com um recipiente cheio de alimentos a preços reduzidos.

Mas o combate ao lixo supérfluo começa na própria geladeira. Assim, Juul apela aos cidadãos que evitem os "UFOs" (unidentifiable frozen object: objeto congelado não identificável).

"Um de cada dois dinamarqueses tem um 'UFO' no congelador. Por isso iniciamos uma campanha incentivando os consumidores a, uma vez por mês, comerem os seus 'UFOs'", afirma.

O fato de o país de 5,7 milhões de habitantes ter mais iniciativas contra o desperdício de gêneros alimentícios do que qualquer outro país europeu se deve, em grande parte, à organização Stop Wasting Food.


Sua fundadora, Selina Juul, já se tornou uma espécie de ícone nacional: em 2016 ela recebeu o Womenomics Influencer Award, dedicado a dinamarquesas cuja atividade no mundo dos negócios é considerada modelo. E foi incluída no Who's Who da Dinamarca e nomeada Dinamarquesa do Ano em 2014.

Armada de avental verde e de uma paixão irresistível por alimentos, Juul conseguiu entusiasmar milhões de dinamarqueses. "Trata-se de uma iniciativa bottom-up – de baixo para cima", comenta à DW. "Nós mobilizamos as pessoas, e elas mobilizam a indústria e os supermercados, cantinas e restaurantes."

"É como uma espiral: a coisa cresce, cresce e cresce", descreve a ativista. Ela e seu grupo querem agora começar a atuar em outros países. Seu sonho é que o cuidado com os alimentos venha a se transformar num instrumento para a paz mundial.

"Quando o assunto é desperdício de alimentos, todos estão de acordo, sejam ricos ou pobres, de esquerda ou de direita, não importando a cor da pele, nação ou religião. Comida é realmente algo que une os seres humanos." E Juul reforça: "Comida é amor."