sábado, 7 de maio de 2016

O Brasil real X A rota da tocha olímpica


Desde a manhã de terça-feira, a tocha olímpica está em território brasileiro para visitar 327 cidades e anunciar a proximidade dos Jogos Olímpicos. Segundo o calendário do comitê organizador, daqui a três meses, em 4 de agosto, a chama chegará ao Rio de Janeiro para participar da cerimônia oficial de abertura dos Jogos, marcada para acontecer no dia seguinte. A ideia por trás dessa peregrinação é envolver “todo o país no clima” olímpico.

Interessada em checar o que a tocha – e o mundo, a partir dela – verá do Brasil nesse percurso de três meses, a Lupa se debruçou sobre o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM).

E a principal conclusão obtida ao comparar o IDHM das 5.565 cidades brasileiras analisadas na última edição do estudo, publicada em 2013, e o IDHM dos 327 municípios que serão visitados pela tocha é que a chama olímpica verá um país mais “humanamente desenvolvido” do que o real, em termos proporcionais.

O indicador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) leva em consideração a esperança de vida ao nascer, a escolaridade da população adulta, o fluxo escolar entre os jovens e a renda per capita de cada cidade para, em seguida, atribuir ao município uma nota de zero a 1 (sendo esta a mais alta), numa escala que pode ter até três casas decimais.


1) Entre as 327 cidades que integram o percurso da tocha, 182 (55%) têm IDHM acima da média nacional, que é de 0,727. Nacionalmente, das 5.565 cidades analisadas no último estudo disponível, 1.135 (20%, proporção bem mais baixa) têm essa característica.

2) O Brasil tem 32 cidades com desenvolvimento humano “muito baixo”, ou seja, com IDHM entre 0 e 0,499. Elas representam 0,6% das 5.565 cidades analisadas pelo Pnud. Em sua trajetória pelo país, a tocha não verá nenhum dos municípios com IDHM “muito baixo”. Reveja aqui o levantamento na íntegra.

3) Um total de 1.367 cidades tem IDHM “baixo”, com índice entre 0,500 e 0,599. Isso representa 24,6% do total de municípios. Mas a representação desse grupo entre as cidades que receberão a tocha é bem inferior. Apenas 20 localidades com IDHM “baixo” verão a chama, 6,1% do total do percurso estabelecido.

4) O Brasil tem 2.333 municípios com IDHM “médio”, entre 0,600 e 0,699. Isso quer dizer que 40,1% de suas cidades se incluem neste grupo, fazendo dele o maior. No caminho da tocha, há 78 delas, num conjunto que representa apenas 23,8% da lista das cidades que serão visitadas.

5) Nacionalmente, 1.889 municípios (33,9%) têm IDHM “alto”, com indicador entre 0,700 e 0,799. Das 327 cidades no caminho da chama olímpica, a maioria (196, ou 59,9%) estão nesse grupo, que é o maior em percentual.

6) Por fim, o Brasil tem 44 cidades com IDHM “muito alto” (0,8% do total dos municípios). A chama passará por 33, ou seja, 3/4 delas. Numa proporção (10%) bastante superior à observada no país como um todo.

7) A cidade menos desenvolvida (IDHM mais baixo) a receber a tocha é Murici, em Alagoas. O município de 26 mil habitantes está em 5.416º lugar entre as 5.565 cidades do país. A expectativa de vida ao nascer por lá é de 66,1 anos, e 39,5% de sua população é analfabeta. Cerca de um quarto de seus habitantes vivem em situação de extrema pobreza.

8) São Caetano do Sul (SP) está no extremo oposto. Aparece em primeiro lugar no IDHM e também receberá a tocha. A cidade paulista tem cerca de 150 mil habitantes, seis vezes a mais que Murici, e a esperança de vida ao nascer por lá é de 78,2 anos, 12 a mais do que na cidade alagoana. O percentual de analfabetos é de apenas 1,8%, e o percentual de pessoas em extrema pobreza, de 0,09%.

*A Agência Lupa, especializada na checagem de dados e discursos públicos,começa a fazer no Twitter o acompanhamento do caminho da tocha, informando IDHM de cada cidade visitada, a esperança de vida ao nascer nela, seu índice de analfabetismo e seu percentual de pessoas em extrema pobreza.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Cinquenta tons de marrom

Com a sua experiência e inteligência política, o deputado Ulysses Guimarães cunhou o “Axioma de Ulysses”: “Um novo Congresso será sempre pior do que o anterior”, que vem sendo comprovado empiricamente, a cada nova legislatura. Mas por que nosso Congresso sempre piora?

Se um país está evoluindo, se educando e se desenvolvendo, seria lógico supor a progressiva melhora do nível dos candidatos — e dos eleitores. Não no Brasil, onde a política virou meio de vida e se tornou a forma mais fácil de ascensão social. Bastam dinheiro, legal ou não, um bom marqueteiro e boas conexões com os caciques partidários. E comprar alianças e lotes de votos. Ou ter um programa de rádio. Uma igreja. Um time de futebol.


São todos ladrões, corruptos e venais? Claro que não, há sempre uma minoria mínima de homens e mulheres honestos, preparados e qualificados, que acabam impondo alguma presença moral, e algum constrangimento, à banda podre, provocando pressões da opinião pública e impedindo maiores desastres.

Imaginemos um jovem deputado, de origem humilde, honesto e bem intencionado, eleito por um estado pequeno, chegando à Câmara dos Deputados. Depois do deslumbramento inicial, ele acaba se adaptando ao jogo, e gostando. Com verbas para tudo, carro com motorista, 20 funcionários no gabinete, viagens, mulheres, colegas sugerindo vantagens e privilégios nas brechas da lei, ele passa a se sentir superior ao cidadão comum.

E surgem as primeiras oportunidades de negócio. Pedidos de ajuda, naturalmente remunerados. Favores a colegas, que logo serão retribuídos. É duro resistir às tentações, mas é preciso pensar na reeleição. O salário de R$ 33 mil já parece pouco, diante dos números que passa a ouvir no dia a dia. Até morder a primeira isca, dar o primeiro gole, que vai levá-lo aos alcoólicos públicos, de onde só sairá com a Polícia Federal.

O “Axioma de Ulysses” é provado pelo “Teorema de Cunha”:

Sendo certo que entre os novos deputados alguns vão se corromper, e que nenhum dos corruptos já estabelecidos vai se regenerar, matematicamente, a cada legislatura o Congresso vai piorar.

Como queríamos demonstrar.

Nelson Motta

É possível entender por que não se pode acreditar nos políticos brasileiros

De fato o Brasil é um país “sui generis”, pois grande parte do povo brasileiro não acredita nas instituições e muito menos nos chamados “homens públicos”. E o que é mais estarrecedor é que a urna serve como máquina de lavar reputações, eu diria que serve para alcançar a excrescência do tão almejado foro privilegiado, senão homens como Fernando Collor de Mello, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Eduardo Cunha e tantos outros que já foram condenados ou são alvos de inquéritos que tramitam na mais alta Corte de Justiça do país, usam e abusam dos subterfúgios para não serem alcançados pela justiça, induvidosamente não deveriam estar mais em cena, mas infelizmente estão.

Quem sabe uma solução não seria exterminar com o voto obrigatório, passando o voto a ser facultativo, pois assim só aqueles que têm o total interesse em ver a nação prosperar em todos os níveis do conhecimento humano, certamente, teriam o interesse em ver o mais habilitado ser sufragado nas urnas para administrar os seus interesses, as suas aspirações.


Pergunta-se: “O que leva um cidadão de bem a votar num ladrão?”. Talvez, salvo melhor juízo, deva-se essa situação à sua ignorância política, conjugada à obrigatoriedade do voto, pois, sem ter votado, o cidadão que lograr êxito em um concurso público de títulos e provas não poderá ser investido do cargo.

A propósito, o dramaturgo Berthold Brecht já nos ensinou que o pior ignorante é o ignorante político, porque o ignorante político não entende que os preços do arroz, do feijão, da carne e de tudo o mais dependem das decisões dos políticos.

Lembro também do ex-chanceler alemão Helmut Kohl. Flagrado numa transação nebulosa que favorecia seu partido, teve que renunciar e nunca mais ousou se candidatar a nada na Alemanha. O eleitor lhe deu as costas. Entretanto, não esqueça o nobre leitor que se trata do povo alemão, que promoveu duas guerras mundiais, sofreu com as suas consequências e parece ter aprendido as lições.

Induvidosamente, como ainda não possuímos a cultura do povo alemão, temos políticos que estiveram e estão em situação bem pior do que o chanceler Helmut Kholl e nem por isso perdem a pose ou o poder que têm.

Supremo já conseguiu criar três presidentes-zumbis - Dilma, Temer e Cunha

É realmente impressionante a criatividade do Supremo Tribunal Federal aqui no Brasil. Não há nada igual em nenhum país que tenha um mínimo de avanço civilizatório. Como dizia o grande historiador Kenneth Clark, que era lorde e diretor do Museu Britânico: “Civilização? Não sei o que é isso. Mais sei que, se alguma encontrar alguma, saberei reconhecê-la”. O fato concreto, em pelo Século XXI, é que, em matéria de criatividade, nenhuma outra Suprema Corte se compara à brasileira, que foi criada por Ruy Barbosa à imagem e semelhança do modelo norte-americano, mas funciona de forma totalmente diversa.

De dezembro para cá, tem sido um verdadeiro espetáculo. Os digníssimos ministros nos surpreendem a cada momento. Primeiro, houve o julgamento do rito do impeachment, onde pontificou Luís Roberto Barroso, que manipulou as informações sobre a Lei do Impeachment e o Regimento da Câmara, depois inventou que o Senado tinha poderes para rejeitar (liminarmente e por maioria simples) a decisão da Câmara. e sete ministros acompanharam seu inusitado voto, totalmente à margem da lei.

Para lembrar a frase do pensador Lula da Silva, pode-se dizer que foi um vexame nunca visto antes na História da Suprema Corte brasileira. Depois, para se justificar, o ministro Barroso afirmou que seu voto tinha sido adulterado numa edição pirata, mas logo ficou provado que era mentira. Mesmo assim, prevaleceu o corporativismo, que alguns chamam de”espírito de corpo”, outros preferem classificar de “espírito de porco”.

Um mês depois, os ministros tiveram oportunidade de rever a decisão equivocada, mas preferiram apoiar o colega infrator e o julgamento acabou em 9 a 2. O ministro Edson Fachin mudou o voto anterior, apenas Gilmar Mendes e Dias Toffoli tiveram coragem de contestar Barroso e dizer que as leis existem para serem cumpridas.

Devido à criatividade indevida do Supremo, que conseguiu evitar o afastamento da presidente da República logo após a decisão da Câmara, conforme está expressamente previsto na Lei do Impeachment (Lei 1.079), surgiram dois presidentes-zumbis para assustar o povo brasileiro – Dilma Rousseff, aquela que foi, mas já era, e Michel Temer, aquele que não é, mais será.

Ainda não satisfeitos, os inventivos ministros do Supremo agora nos brindam como nova criação, ao afastarem o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, sem que seu mandato seja cassado. Com isso, criaram mais um presidente-zumbi, que vai passar algum tempo assombrando os longos corredores da Câmara, pois Cunha já era, mas estranhamente ainda é. Continua a ser deputado, pode frequentar seu gabinete na Câmara, o suplente não assume e la nave va, sempre fellinianamente.

Por tudo isso, é pena que a próxima Olimpíada ainda não tenha a disputa da suprema criatividade, porque certamente o Brasil poderia ganhar ouro, prata e bronze, tudo ao mesmo tempo.

PS – Já ia esquecendo: o Supremo conseguiu criar um quarto presidente-zumbi. Chama-se Waldir Maranhão, não se sabe quem é, ele julga que está comandando a Câmara, senta-se na cadeira do presidente, dá ordens, mas ninguém obedece. A situação é cada vez mais patética.

Um dia para ficar na história

O STF suspendeu ontem o mandato de Eduardo Cunha como presidente da Câmara dos Deputados. Antes tarde do que nunca, foi o que disse dona Dilma lá em Belo Monte, no Pará.

É o mesmo que diremos no dia em que ela for afastada do Planalto.

Os petistas ficaram animados, coitados. Tomaram a decisão do STF como um raio de sol em seu partido. Acham que isso dificultará o impeachment de dona Dilma. Ainda não se convenceram que não tem nada uma coisa a ver com a outra.

A não ser que haja um fato novo muito, mas muito sério, dona Dilma será afastada da presidência e dentro de até 180 dias, julgada pelo Congresso como impossibilitada de presidir o Brasil.

Tenho a impressão que o maior beneficiado pela decisão de ontem foi Michel Temer. Pelo menos é o que sentiria se soubesse que, presidente da República, poderia ter um forte resfriado que não seria substituída por alguém como Cunha.

Mas fica uma pergunta que requer uma resposta que tranquilize a sociedade: quem será o vice do atual vice? Renan Calheiros? Para que? Para que o país passe novamente pelo que passou ontem e muito em breve?

Temos um hábito enraizado em nossa personalidade: gostamos de deixar tudo para amanhã. O improviso nos atrai. Não seria do maior bom senso entregar logo o Congresso ao presidente do STF?

Um novo governo oxigenará o Brasil. Disso não tenho dúvida. Mas isso não basta. Era preciso que Michel Temer fosse menos pusilânime diante dos partidos que inundam nosso cenário político. Os nomes citados como futuros membros de seu governo são todos oriundos dos dois governos lulopetistas que tanto mal fizeram ao Brasil. Uns dois ou três merecem nossa confiança, mas a maioria, Deus que nos ajude, será apenas mais do mesmo.

E o ex-presidente Lula? Seu silêncio, desde 1º de maio, grita mais alto que todas as sirenes dos bombeiros. Diz a Folha de S. Paulo que ele está deprimido. Acredito, não deve ser fácil passar pelo que ele está passando.

Lula saiu do Governo com sua aprovação nos píncaros da Lua. Está agora sofrendo o desamor da sociedade. Isso deve doer. Melhor mesmo para ele que a ideia de eleições antecipadas não possa vingar: uma derrota eleitoral seria a pá de cal em sua história de vida.

Mas quem é o culpado, a não ser ele mesmo? Sua pobre avaliação sobre a herdeira que elegeu para substituí-lo será para sempre um espinho em sua alma.

Tenho a impressão que dona Dilma detesta o PT. Só pode ser essa a conclusão. Ela está fazendo tudo que pode para deixar o buraco em que meteu seu governo cada vez mais fundo, cada vez mais largo, cada vez mais assustador para nós, cidadãos que tivemos a má sorte de ver Lula, por ambição desmedida, deixar essa senhora no Planalto.

Ao fazer mais essa escavação, ela tritura o PT no pó mais fino possível. Não há partido que resista ao horror que ela fez e está fazendo.

Ando pensando muito no destino do Brasil. Por que será que não temos mais políticos fortes e capazes como já tivemos? Será que merecemos essa praga que já dura mais que os sete anos das pragas do Egito?

Lula foi o fenômeno que poderia, se não tivesse se deixado abater por uma ganância estúpida, o homem que faria do Brasil uma potência. Tinha força para isso, mas não o fez...

Eduardo Cunha é um homem forte e inteligente, fala bem, sabe se expressar, sabe explicar o que pensa, sabe comandar. Pena que seu caráter seja tão raso...

De dona Dilma melhor não falar mais nada. Sua mediocridade é um espanto.

Gostaria de estar comemorando com fé e esperança a ida de Michel Temer para o Planalto. Mas, para ser sincera, ando com muito receio de vir a ter uma nova decepção.

Ele terá força para recolocar o Brasil no rumo certo? No rumo de um futuro que nos leve para além do arco-íris?

Quando todos os europeus eram negros

O estudo genético de restos mortais de europeus que morreram há milhares de anos, abriu uma janela única para a pré-história do continente. O trabalho abrange grande parte do Paleolítico Superior, de 45.000 até 7.000 anos atrás, e revela vários episódios até agora desconhecidos.

“O que vemos é uma história das populações tão complexa quanto a dos últimos 7.000 anos, com muitos momentos em que populações substituem outras, imigração em uma escala dramática e em um momento no qual o clima estava mudando radicalmente”, resumiu David Reich, geneticista da Universidade de Harvard e principal autor do estudo, publicado na revista Nature.

O estudo analisou o DNA de 51 euroasiáticos, uma amostra 10 vezes maior que qualquer estudo anterior. Abarca desde os humanos modernos mais antigos registrados aos caçadores-coletores que viveram pouco antes da revolução neolítica que trouxe consigo a agricultura ao continente.

Crânios encontrados na República Checa associados com o período gravetiano
A primeira conclusão do estudo é que, embora os neandertais e os humanos modernos (os Homo sapiens) se cruzaram e tiveram filhos férteis, a percentagem de DNA dessa outra espécie que carregamos diminuiu rapidamente, passando de 6 % para os 2% de hoje. Isto implica certa incompatibilidade evolutiva que já tinha sido destacada por outros estudos recentes.

Embora os primeiros sapiens tenham chegado à Europa há cerca de 45.000 anos, sua marca genética desapareceu completamente nas populações atuais. As primeiras populações que possuem algum parentesco com os europeus de hoje remontam a uns 37.000 anos atrás. Os autores do trabalho identificam essa população com o período aurignaciano.

“Estão associados a esta cultura os primeiros exemplos de arte e música, assim como as pinturas da caverna de Chauvet na França ou as flautas de ossos”, diz Manuel González Morales, pesquisador da Universidade da Cantábria e coautor do trabalho.

Naquela época, a Europa vivia a última idade do gelo, com geleiras avançando do norte da Europa e empurrando povos inteiros à migração ou ao extermínio. Segundo dados do trabalho, há 33.000 anos outro grupo substitui quase totalmente o anterior e é associado com o período gravetiano, caracterizado por pinturas com as mãos em negativo e as redondas estatuetas das Vênus paleolíticas esculpidas em osso, explica González.

Inesperadamente, há cerca de 19.000 anos, reaparecem os descendentes do período aurignaciano. Os restos humanos encontrados na Cantábria mostram agora que os habitantes desta região estavam diretamente relacionados com eles.

Uma das possíveis explicações é que aquele povo migrou para refúgios quentes do sul da Europa, em particular a Península Ibérica. Depois do momento mais frio da última idade do gelo esta população volta a se expandir para o norte da Europa, recuperando o território perdido e substituindo seus habitantes.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Dilma telefone jornal se inscreve empresa vai ressucitar pessoas

A espada de Dâmocles que aterroriza a classe política do Brasil

Nos últimos dias importantes políticos brasileiros foram vistos fazendo ligações de telefones públicos em aeroportos. Eles temem que seus telefones celulares estejam grampeados.

Os políticos vivem uma espécie de crise de pânico desde que a operação anticorrupção Lava Jato começou a revolver suas vidas e teve início o desfile de prisões e condenações.

Isso me fez lembrar a lenda da espada de Dâmocles, nascida na história da Grécia há 2400 anos. É uma metáfora do perigo que se corre na busca do poder, que foi recolhida pelo escritor Ovidio.

Dâmocles era membro da corte do rei Dionisio, um tirano sanguinário de Siracusa, na Sicília. Era um adulador e invejoso do rei, tanto que este quis se vingar.

Ofereceu-lhe ser rei por uma noite, com os luxos e prazeres e orgias que ele desfrutava em sua corte. Ébrio, aceitou. Quando estava no meio da glória que havia sonhado, seu sangue gelou ao ver pendendo sobre sua cabeça uma espada afiada, suspensa apenas por um fino fio de crina de cavalo. Assustado, fugiu, enquanto o rei lembrou-lhe: “Essa espada também pende todos os dias sobre a minha cabeça”.

É o perigo ao qual está exposto o poder, e o tributo pago por sua busca a qualquer preço.

No Brasil, muitos chegam à política não com o desejo sincero de servir o país, da entrega vocacional para o bem comum, mas com a esperança de poder desfrutar da orgia de privilégios e enriquecimento dos imperadores da antiguidade.

Como a Justiça está descobrindo, tudo era permitido, o fim justificava os meios. O poder e a riqueza tornaram-se os melhores afrodisíacos.

Isto até ontem, até surgir operação Lava Jato que colocou, sem distinção, sobre a cabeça de todos, a mítica Espada de Dâmocles.

Essa espada pende, causando pânico, sobre a grande maioria dos políticos.

Hoje se diz com total naturalidade que o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, está prestes a propor a acusação da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula, assim como do líder do maior partido da oposição, Aécio Neves, e dos líderes do maior partido, o PMDB, do provável novo presidente Michel Temer.

Essa espada aparece ameaçadora sobre as cabeças dos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros. E não uma, mas até uma dúzia de espadas acusatórias. Meio Congresso vive sob o medo da justiça.

A classe política brasileira poderá continuar sob o trágico temor dessa espada de Dâmocles? E por quanto tempo sem que isso suponha finalmente um perigo para a democracia?

Há quem deseje passar uma borracha na Lava Jato para afastar das cabeças dos políticos a afiada espada de Dâmocles. Já não é possível. A luta contra a corrupção foi adotada pela sociedade civil. Fora do Brasil, a operação levada a cabo pelo juiz Sérgio Moro e sua equipe é vista como uma das esperanças de renovação da classe política brasileira.

Ao mesmo tempo, essa incerteza, que torna cada vez mais difícil escolher novos governos com políticos que no dia seguinte não apareçam sob as garras dos juízes, vai ter de acabar.

O Supremo Tribunal Federal, uma das instituições mais bem avaliadas hoje pela opinião pública, tem o dever de julgar, condenar ou absolver, sem perda de tempo, os políticos atualmente sob suspeita ou já objeto de acusações. Não são desculpáveis parcimônias nestas horas decisivas para o país. O Brasil tem pressa.

A sociedade precisa saber quais políticos estão manchados pela corrupção, para eliminá-los da vida pública, e em que pode continuar confiando, se é que ainda existe um punhado de justos como no texto bíblico de Sodoma e Gomorra.

Nada pior, neste momento de reconstrução do país em crise, que a incerteza sobre a ética daqueles que devem nos governar.

Essa moderna espada de Dâmocles não pode continuar indefinidamente sobre a cabeça dos políticos, transformando todos em suspeitos.

A justiça precisa, urgentemente, separar o joio do trigo se queremos um Brasil novo e mais limpo.

Janot torpedeia Dilma, Lula e o PT

As decisões da Procuradoria-Geral da República divulgadas na última terça-feira criam sérios obstáculos ao futuro político do ex-presidente Lula – além de reforçar a tese do impeachment contra a presidente Dilma Rousseff e colocar figuras proeminentes do “lulopetismo” em maus lençóis, com potenciais riscos de se tornarem inelegíveis para a disputa de 2018.

O mais grave dos movimentos da PGR foi o pedido de abertura de inquérito contra Dilma, Lula, José Eduardo Cardozo, atual advogado-geral da União, e Aloízio Mercadante, ministro da Educação, por tentativa de obstrução da Justiça. O processo já está com o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), e deve resultar em condenação, tendo em vista que tanto o ambiente no Supremo – bastante hostil a Lula – quanto a abundância de provas comprometem os investigados.


A acusação contra Dilma – ter tentado obstruir o andamento da Operação Lava-Jato – reforça, sem nenhuma dúvida, a tendência de aprovação do impeachment no Senado e deve levar à adesão de mais alguns senadores à tese. Hoje, mais de 54 apoiam a saída da presidente do governo.

Outra consequência é o enfraquecimento da imagem de Dilma no STF, reduzindo dramaticamente as suas chances de obter alguma decisão interlocutória na Corte sobre o andamento do impeachment no Senado. À espera de fato novo, Dilma poderia recorrer ao STF. Mas como fazê-lo se seu advogado está sendo acusado de promover obstrução da Justiça?

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu ainda a inclusão de Lula, Ricardo Berzoini, ministro da Secretaria de Governo, Jaques Wagner, entre outros, no inquérito da Operação Lava-Jato que já tramita no STF. Cabe ao ministro Teori Zavascki, relator da Lava-Jato no Supremo, autorizar a inclusão ou não dos novos suspeitos no inquérito, que já abrange 39 pessoas. No pedido, Janotsugere que Lula era o “chefe da organização criminosa”que explorou a Petrobras.

Para piorar o que já estava muito ruim, o empresário Ronan Maria Pinto, envolvido nas investigações do assassinato, em 2002, do petista Celso Daniel, ex-prefeito de Santo André, foi indiciado pelo juiz Sergio Moro no âmbito da Lava-Jato. A prisão de Ronan pode ter impacto no andamento do caso, sob exame no STF há mais de dez anos!

Os fatos da última terça-feira apontam para o comprometimento definitivo de Lula, que provavelmente gastará o resto de sua vida política se defendendo no STF de acusações variadas. Inclusive aquelas que poderão afetar casos antigos, como o mensalão e o já mencionado assassinato.

A acusação a Lula, caso confirmada, pode resultar em sua inelegibilidade para 2018, bem como a de próceres do PT como Wagner, Mercadante, Berzoini e Cardozo. Enfim, trata-se de um verdadeiro Titanic partidário que pode ceifar lideranças importantes que poderiam sustentar a bandeira do PT com alguma chance eleitoral.

Ânimo! Só faltam mais sete dias...

Ao contrário do que se imagina e muito se cita em discursos e textos clássicos ou comuns, a matriz do pensamento da esquerda ocidental contemporânea não é mais o comunismo de Marx e Engels nem a teoria da revolução proletária de Lenin. Mas se inspira numa frase do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre: “O inferno são os outros”. Ante a angústia de ter de decidir como viver a própria vida, o ser humano, como fica explícito em sua peça Huis Clos (Entre Quatro Paredes), habitua-se a delegar ao “outro” a responsabilidade pela própria existência. A militância esquerdista, desde a adesão do pai do existencialismo à tirania pós-stalinista do chinês Mao Tsé-tung, assumiu a fraqueza humana como justificativa para as próprias vilezas.

Mesmo não sendo o autor de O Ser e o Nada o melhor exemplo de caráter ilibado, seria injusto conceber que ele possa ser o maior responsável pelo comportamento do lulodilmopetismo na exacerbação amoral e imoral desse raciocínio. Como Lula se orgulha de detestar ler e Dilma tem dificuldade de entender o que ouve, lê e repete, é mais sensato constatar que esse paradigma da apropriação do bem que o outro faz e da responsabilidade deste sobre os próprios delitos é um acréscimo prático às lições de Nicolau Maquiavel aos cruéis príncipes da Florença renascentista. Durante a bonança da primeira gestão Lula, os benéficos resultados da revolução social planejada, gerada, produzida e gerida nas administrações de Itamar Franco e Fernando Henrique foram tratados como “herança maldita”. E os bens causados pelo equilíbrio fiscal e monetário, incluídos no legado “bendito” do padim dos oprimidos.


Apresentada a conta dos frutos podres desse pomar, onde foram queimados em fogo-fátuo o suor e as lágrimas dos desvalidos, especialmente dos 10,9% de desempregados, hoje eles passam a usar mentiras maledicentes contra quem ouse denunciar seus crimes. E a tratar suas vítimas como cúmplices no que as prejudicaram, forçando-as a perdoá-los.

Acolitada por Lula e repetindo o discurso à Goebbels do marqueteiro João Patinhas Santana, Dilma vendeu o paraíso na terra na campanha pela reeleição, em 2014. Mas desde o primeiro dia do segundo governo iniciou a transferência para os derrotados da própria culpa pelo inferno da maior crise econômica da História. O PT e seus aliados formaram, em 13 anos e quatro meses de desgoverno, uma organização criminosa que esvaziou os cofres da República, feito um Robin Hood às avessas. Assim, a crise moral que assolou as máquinas burocráticas federal e estaduais, roendo as conquistas do Plano Real, a maior revolução social da História, produziu a maior crise econômica de todos os tempos.

Flagrado tapando, de forma ilícita, rombos do Tesouro com saques em aberto em bancos públicos, o bando no poder, sob o comando de madama, cometeu crimes de responsabilidade e tornou o impeachment dela uma urgência para a salvação nacional. Ao longo dos quatro anos do primeiro mandato, ela moeu a maioria no Congresso, herdada do antecessor e padroeiro, com sua inusitada incapacidade de conviver com membros de outros Poderes, gerada no ventre da serpente de seu trato truculento e intolerável com outrem.

Demonstrando enorme desapreço pela Constituição, revelado quando só a assinaram a contragosto, seus correligionários petistas tentaram, em vão, espalhar pelo mundo a hipótese estapafúrdia de que “impeachment sem crime é golpe”. Esse slogan parte de duas mentiras grosseiras: a de que ela é inocente e a da possibilidade de êxito de uma conspiração tramada nos porões (como os da tortura na ditadura militar) por 61% da população, representada por milhões nas ruas, 69% dos deputados federais, 61% dos senadores (conforme revela o placar do Estadão) e pela maioria do Supremo Tribunal Federal (STF).

O absurdo, que chacoalha o esqueleto de Aristóteles, não resiste a fatos. Os brasileiros que querem apeá-la do poder são em maior número do que o total dos que nela votaram. A oposição, que ela acusa de culpa pela crise por ter aprovado pautas-bombas que tornaram inviável seu insustentável ajuste (?) fiscal, é minoria insignificante no Congresso. E dos 11 juízes do Supremo, oito foram nomeados por Lula e por ela.

A insistência com que sua defesa mente tira a harmonia do samba de uma nota só do “golpe”. José Eduardo Cardozo, advogado-geral da União, de fato seu causídico pessoal, já arengou tanto no Congresso, no STF e na “mídia” que merece uma citação no Guinness como o mais loquaz camicase na história dos “golpes”.

Não só de acusações à oposição sobrevive sem governar o atual desgoverno. Quem não apoia tal desvario tem sido açoitado no pelourinho petralha. A professora da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) Janaína Paschoal teve de explicar à “bancada do chororô” na comissão de impeachment no Senado por que defendeu um procurador que bateu na mulher. Seus detratores, que ainda a acusaram de ser “tucana”, não replicaram com um só argumento válido à acusação por ela lida. Nem se lembraram da sentença romana de que acusados devem gozar da presunção de inocência, tão citada pelo PT para defender cúmplices na roubalheira.

Na dita sessão, a ministra da Agricultura, Kátia Abreu, chamou os brasileiros de caloteiros, ao perguntar quem nunca deixou de pagar uma conta, ousando comparar a irresponsabilidade da chefona com o estado de extrema necessidade do desempregado que não consegue manter o crédito na praça porque perdeu o salário. Ocupada em contar reses, não sabe que ninguém entende mais de crédito do que o pobre, incapaz de sobreviver sem ele.

Contra tantas ignomínias, com as quais Sartre nada tem que ver, há uma salvação: o emprego de Dilma e o protagonismo de seu partido estão a sete dias do fim anunciado. Amém!

STF precisa dizer o que Dilma pode fazer fora do poder

A Dilma anda espalhando que vai sair por aí fazendo campanha contra o “golpe” a bordo dos aviões da FAB se realmente for afastada da presidência. Isso mesmo, a presidente, destituída temporariamente, quer gastar mais dinheiro, agora insuflando os brasileiros contra as medidas legais do Congresso Nacional que devem afastá-la do poder. Como não bastasse o desastre promovido por ela na economia e o seu envolvimento nos maiores escândalos de corrupção da história do país, a presidente acha-se no direito de manter todas as regalias do cargo mesmo sendo afastada das suas funções.


Ora, se a legislação é omissa em relação aos direitos de um presidente afastado, cabe ao STF, desde já, determinar quais são as atribuições da Dilma longe do poder. Por exemplo: deve usar o avião presidencial? Manter o séquito de servidores ao seu lado? A frota de veículos e a segurança com todo o aparato? Permanecer no Palácio da Alvorada, residência oficial da presidência? Usar verba de gabinete e dispor do cartão corporativo para fazer compras em nomes da segurança nacional, nunca revelados? Fazer supermercado com o dinheiro do contribuinte? Receber autoridades internacionais usando as prerrogativas presidenciais? Viajar no avião oficial? Falar em nome do governo brasileiro em assuntos internos e externos?

Pois bem, essas interrogações devem ser esclarecidas aos brasileiros antes que a Dilma meta os pés pelas mãos e sinta-se no direito de gastar o dinheiro do contribuinte sem fiscalização dos órgãos competentes como fez irresponsavelmente com os bancos oficiais no caso das pedaladas, crimes pelos quais está sendo processada e apeada do poder. Na condição de presidente afastada temporariamente, a Dilma deve ser vigiada de perto para não abusar das suas prerrogativas, caso ainda tenha algumas depois de sair da presidência.

Cabe ao STF – e não mais ao Congresso Nacional – regulamentar as atividades da ex-presidente, já que essa situação, como é atípica, não está regida pela Carta Magna. O afastamento da presidente é uma punição pelos crimes que ela cometeu à frente do governo, portanto, a lógica é de que ela não teria direito a nenhum tipo de benefício fora das suas funções, se o STF assim o entender. Se voltar ao poder, aí sim, teria seus direitos restabelecidos como determina a Constituição.

Espera-se, portanto, que o STF não se sensibilize com a destituição da presidente e, como prêmio de consolação, mantenha regalias que ela não teria por omissão das leis vigentes. Pelo menos é assim que o Supremo Tribunal Federal vem agindo nos últimos tempos. Quem não se lembra, por exemplo, do mensalão quando a Corte se utilizou de uma brecha casuística para reduzir a pena de vários criminosos petistas que depois seriam soltos beneficiados por esses artifícios?

É preciso desde já ditar as regras do jogo. Se o STF for benevolente em relação aos direitos da presidente que sai, não esclarecendo o que ela pode ou não pode fazer, cabe então ao presidente que entra vigiar os gastos e as mordomias da ex e de seus auxiliares para que o contribuinte não arque com o ônus de sustentar dois presidentes.

A intenção da Dilma, quando perder o cargo, é juntar-se aos movimentos sociais, que vivem às custas do dinheiro público, para promover badernas no país, como bem já disseram o ex-presidente Lula e o fundamentalista Rui Falcão. Querem provocar arruaças e promover uma convulsão social espalhando o medo e o terror sob o pretexto de que foram injustiçados e vítimas de um golpe, ignorando todo o trâmite legal que depôs a presidente a sua turma.

A notícia de que o STF freou um gasto de 80 milhões de reais que a presidente pedira ao Senado Federal em regime extraordinário é um bom sinal de que as instituições estão atentas às artimanhas do PT que iriam permitir, de última hora, encher os cofres do governo para promover a campanha contra o golpe.

A primeira mosca

Uma sequência do fotógrafo Bruno Santos na primeira página da Folha de segunda-feira mostra a presidente Dilma Rousseff perturbada por uma mosca em seu rosto durante promovido em São Paulo pela CUT (Central Única dos Trabalhadores), no Dia do Trabalho. Nas primeiras fotos, Dilma parece apenas contrariada pelo inseto impertinente que insiste em passear sem audiência marcada por nariz e boca presidenciais. Na última foto, Dilma aparece com a mão espalmada, pronta a aplicar um safanão na mosca e mandá-la, literalmente, para o espaço.


A mosca não sabia com quem estava se metendo. Foi atazanar a vida de uma mulher que nunca precisou de motivo para desferir safanões verbais em quem estivesse à sua volta e, agora, tem motivos reais para isto. Em poucos dias, descerá do posto a que foi levada por 54 milhões de eleitores — dos quais, a julgar pelas últimas manifestações a seu favor, não lhe restam nem 4 milhões — para submeter-se a 180 dias de férias forçadas, com grandes possibilidades de que estas se prolonguem pelos próximos oito anos.

Por outro lado, a dita mosca podia apenas fazer parte de uma equipe exploratória — uma batedora avançada do batalhão de moscas que deverá fazer companhia à futura ex-presidente no palácio da Alvorada, onde cumprirá um doce exílio entre seus próprios lençóis e fronhas. As perspectivas são as de que não terá muitas visitas enquanto estiver afastada — ninguém de fato a estima, nem entre os seus colaboradores mais íntimos, e os correligionários que ainda a defendem o fazem apenas em nome de uma estratégia política.

Limitada nos próximos tempos a presidir um sofá ou uma cômoda e impossibilitada de continuar quebrando o país, Dilma será grata a qualquer um que se interesse em ir vê-la.

Um bom presente a levar-lhe: um mata-moscas.

Senta, o leão é manso

O PT é bom de grito, todo mundo sabe, é inegável essa competência. O ex-presidente Luiz Inácio da Silva, então, esbraveja como ninguém. Quesito no qual a presidente Dilma Rousseff tem se mostrado digna de graduação.

Mestre em ameaçar fazer e acontecer quando acuado pelas evidências, o grupo não tem tido o mesmo êxito - louve-se aos céus - no tocante à eficácia de suas (más) intenções. Muito provavelmente porque elas se chocam com a lei e contradizem a realidade. No mundo das palavras tudo é possível, já no mundo das ações há regras a serem obedecidas e circunstâncias a serem observadas.


Quando os habitantes de um universo tentam atuar no outro sem mudar instrumentos nem critérios, o resultado é o fracasso. Isso quando não incorrem na perda do senso de ridículo.

O PT iniciou essa travessia já na época do mensalão, quando tentou imprimir a seus correligionários condenados por crimes comuns pelo Supremo Tribunal Federal a aura de presos políticos e se dispôs a recorrer a cortes internacionais para rever a decisão e fazer crer a estrangeiros incautos que o STF era um tribunal de exceção. Nada aconteceu.

Anos antes de cumprir sentença por corrupção, José Dirceu havia deixado a Casa Civil anunciando que retomaria o mandato de deputado para “comandar”, do Congresso, o governo. Não conseguiu sequer terminar o discurso que fez da tribuna no dia da volta, tal a sorte de apartes contestadores por parte do plenário, que pouco tempo depois aprovaria sua cassação.

Transitado em julgado o processo, Lula anunciou que como ex-presidente dedicaria seu tempo e energia para provar que o mensalão não existiu. O desmonte da “farsa”, como se viu, era a farsa em si. Lula não provou nem tentou. Por impossibilidade fática, a tal da “narrativa” caiu no vazio.

Foi retomada com força total e acrescida de novas alegorias agora que o fim do ciclo do PT no poder se aproxima e se dá em cenário de triste espetáculo. A presidente da República prestando-se ao papel de revolucionária sem causa, transformando o Palácio do Planalto em trincheira de resistência imaginária, improvisando um governo de esquerda “fast-food”, com medidas destinadas a reunir as tropas militantes ao arrepio das contas públicas, cuja implosão já se encarregara de comandar.

O ex-presidente Lula, o habilidoso articulador político, desprovido do proverbial tirocínio, deixa São Bernardo para entrar no Palácio do Planalto como dono de uma jogada de excelência para sair dele prisioneiro da arapuca em que se transformou sua nomeação para ministro-chefe da Casa Civil.

De lá, seguiu para um quarto de hotel em Brasília, de onde comandaria a “virada” de votos na Câmara, evitando a admissibilidade do impeachment. Não levou uma nem duas, mas várias rasteiras dos “picaretas” que acreditava serem ainda seus súditos.

Nesse meio tempo, houve o anúncio de fogosa resistência. A militância iria para as ruas e nelas montariam barricadas pelas quais o impeachment não passaria. Passou e continua seu caminho, indiferente à denúncia internacional do “golpe” à qual nem o Itamaraty aderiu.

A solução quase final de recorrer à proposta de eleição direta já não conseguiu a concordância sequer dos aliados. Alguns deles por uma questão de bom senso, outros pela convicção de que isso daria a impressão de que a presidente estaria considerando seu afastamento inevitável. Como se houvesse a possibilidade de outro desfecho.

Mas, claro, é preciso resistir. Como? Com a mobilização das entidades que não terão mais verbas públicas para se mobilizar e a montagem de um bunker no Palácio da Alvorada, onde darão expediente Dilma, 15 assessores e os funcionários domésticos que atendem à residência oficial.

De onde, sentemo-nos que o leão é manso.

No fim, um mau negócio

Não sobrou ninguém. O trator de Rodrigo Janot passou em cima do Lula, porque uma organização criminosa como a Lava Jato não funcionaria sem ele. Dilma é denunciada por obstruir o Judiciário ao indicar um ministro do Superior Tribunal de Justiça e, mais, por nomear o Lula para a chefia da Casa Civil. José Eduardo Cardozo, ex-ministro da Justiça e atual Advogado Geral da União, por tentar obter a liberdade de empreiteiros presos na Operação Lava Jato. Incluem-se na quadrilha Eduardo Cunha, presidente da Câmara, ao receber propinas variadas; Renan Calheiros, presidente do Senado, pelos mesmos motivos.


E mais Aloizio Mercadante, ministro da Educação, Edinho Silva, ministro da Comunicação Social, Jader Barbalho, Romero Jucá e Waldir Raupp, senadores, além de Jacques Wagner e Ricardo Berzoini, ministros, Giles Azevedo, Antonio Palocci, Erenice Guerra, Paulo Okamoto e José Sérgio Gabrielli, ex-ministros. Sem esquecer Delcidio Amaral

Ao todo o Procurador Geral da República denunciou 29 personagens dos governos Lula e Dilma, todos às voltas com processos conduzidos pelo ministro Teori Savaski, do Supremo Tribunal Federal. Somados aos antigos dirigentes e líderes do PT, una já presos, outro quase, eles compõem uma quadrilha para ninguém botar defeito. Recomenda-se a quem quiser saber o nome de todos, recorrer aos arquivos da Judiciário e da Procuradoria, bem como à memoria e às coleções de jornais.

Se alguém buscava razões para o país estar em fragalhos, eis a principal: o número de bandidos, vigaristas e ladrões incrustados nos dois governos dos companheiros.

Anulam-se os efeitos dos benefícios que puderam ser prestados por eles em favor dos menos favorecidos. Aliás, boa parte está desfeita. Evaporou.

Fora os que já se encontram na cadeia, por obra de investigações e sentenças anteriores, essa nova relação conduz a iguais previsões.

Fazer o quê? Pelo menos imaginar que o exemplo frutifique e que cabe se tornando um mau negócio botar a mão nos dinheiros públicos...

Poema da purificação

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.
As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.
Carlos Drummond de Andrade


Atalhos da cretinice

Depois que Lula conseguiu com Dilma uma habeas-corpus para fugir do juiz Sérgio Moro, os políticos descobriram uma nova saída para continuarem santos e de certa forma protegidos. Outro investigado como o governador Fernando Pimentel, com foro privilegiado, acabou de conceder à própria mulher o mesmo privilégio. Anunciam agora a vez de Jacques Wagner com o fim do governo Dilma, conseguir junto ao governo baiano do apadrinhado Rui Costa cargo no secretariado para também fugir à Justiça.

É o PT procurando protelar o quanto puder a ida de outra leva ainda maior de seus corruptos para a cadeia. A dança das cadeiras, mesmo como no caso de Pimentel ser crime de nepotismo, é aceita como normalidade no país. Mas é criminalidade descarada e escarrada.

O país aceita passivamente, contra toda a ética, até mesmo se rasgar a lei. Não é o caminho de quem se diz democracia. 

A descoberta de novos atalhos pelos petistas - sempre eles - entre o emaranhado político para correr da prisão mostra o que são capazes esses corruptos com máscara de santos. São os mesmos que vociferam contra o que apelidaram de golpe, criticam o réu Eduardo Cunha e fazem festas a Renan Calheiras, velho conhecido da Justiça, com nove processos nas costas. Tacham de bandidos todos os ex-aliados desde que isso lhes sirva.

Há algo de podre na canalha política, e não são apenas os adversários. Fedem mais os aliados, que sorrateiramente tramam suas escapulidas. Dilma "pedalou" e continua a rasgar a Lei de Responsabilidade. É de uma irresponsabilidade federal para com o país. Os aumentos prometidos nos últimos dias, as "bondades", são mais um agrado - ilegal - aos mais pobres para que continuem a defender o mandato de uma tresloucada de olho em manter a chama dos diabos para 2018. Também vai exigir regalias em seu afastamento, que custarão mais dinheiro aos cofres públicos já tão minguados por sua incompetência e arrogância.

Dilma está entrando para a história como a presidente que mais causou danos ao país, na entra e na saída. Acha o país como propriedade particular com a mesma sanha dos escravagistas. Entre um senhor de engenho e Dilma não há qualquer diferença. Ambos desprezam o trabalho e se conferem donos do mundo.

Essa mediocridade de políticos corruptos e governantes destrambelhados está corroendo o dinheiro do cidadão que ainda mantém uma aristocracia política do submundo como s ministros indicados neste fim de mandato, que ficarão abastecidos de altos salários por mais quatro meses.

O momento exige precisão e parcimônia no uso das palavras

Para quem lida com palavras, mesmo para os que não têm a escrita como hábito ou profissão, todo cuidado é pouco. O escritor Otto Lara Resende advertia que “as palavras sangram, elas são sangrentas”.

Busco sempre a clareza para transformar em letras, jamais em sangue, o que penso. Ontem, ao me assentar à mesa da máquina de escrever, de saudosa memória, ou, hoje, ao me aventurar diante do computador, acendo logo uma luz amarela: devo ser verdadeiro, mas também elegante. O leitor, parceiro e, claro, crítico de quem arrisca opinião sobre assunto tão difícil (como é a política), qualquer que seja o veículo, não é nem desaguadouro de mágoas, nem muito menos lixeira.

Quando digo, leitor, por exemplo, que o governo Dilma acabou, não estou exagerando nem muito menos sendo grosseiro. Isso ressalta-se aos olhos de quem quer enxergar. A reação a essa afirmação, da presidente e de alguns de seus defensores, preocupados com o que de ruim o futuro lhes reserva, só reforça a tese de que o desespero tomou conta de todos. Dissentir é da natureza humana, mas a presidente e seus defensores ultrapassaram os limites. Tornaram-se patéticos. E, no caso do advogado José Eduardo Cardozo, estou convicto de que ele se arrependerá do triste papel que vem fazendo em defesa do indefensável.

Quando aceito o impedimento da presidente Dilma como recurso legal e legítimo, previsto na Constituição, não estou sendo golpista nem estou dizendo que ela é uma criminosa. O crime de responsabilidade não tem nada a ver com os crimes comuns, tratados no Código Penal. Seu impedimento não a levará para a cadeia, pois, na verdade, trata-se de uma infração político-administrativa. E seu julgamento, depois de aceito por dois terços dos votos na Câmara Federal, será feito pelo Senado Federal e não exige prova de atos de corrupção.

À maneira do poeta Ferreira Gullar, que escreve semanalmente (aos domingos) na “Folha de S.Paulo”, “surpreendo-me com a reação de pessoas reconhecidamente inteligentes e bem-informadas, em face da crise pela qual passa o país neste governo. Não é que não tolere – longe de mim tal propósito! – suas opiniões contrárias à minha, e sim os tipos de argumentos que adotam, contrários aos fatos e aos princípios constitucionais que regem nossa vida política e social”.

A mim intriga, enfim, sobremaneira, a manifestação de alguns intelectuais, juristas ou não, sobre o impedimento. Repetem o mantra “não vai ter golpe” e negam o crime de responsabilidade. Fico imaginando uma situação inversa, isto é, Dilma vice e Temer na Presidência. Já imaginou, leitor, o que fariam o PT e seus aliados? Transformar-se-iam em feras e usariam quaisquer armas. Ou não foi assim que agiram em favor do afastamento do ex-presidente Fernando Collor, com quem, depois, fizeram as pazes? E olhe que, como disse o jornalista Ricardo Noblat em sua última coluna em “O Globo”, se comparado à operação Lava Jato, “Collor não passou de um trombadinha, desses que atacam mulheres indefesas no meio das ruas”.

Se a situação fosse inversa, qual seria a reação do PT diante de uma proposta de eleições diretas, por meio da apresentação de uma PEC inconstitucional, como a que estaria para ser apresentada pela presidente logo depois da admissibilidade do impedimento no Senado?

Obediência severa à Constituição é o caminho para se estancar a crise. Impedida a presidente, assume o vice. Cabe a este uma missão histórica. Em pouco tempo, saberemos se estará à altura dela.

Quem viver, verá.

Acílio Lara Resende

PT, uma antipatia nacional

As notícias desconcertantes que Dilma, Lula e o PT ouvem todo dia recebeu do povo, em sua maioria, ruidosa condenação, somada a uma antipatia que o PT acumulou em seus longos anos de agitação.

Os fundadores e os ideólogos do Partido dos Trabalhadores devem preocupar-se com este fenômeno de repulsa da maioria dos eleitores pela sigla e pelas vozes sempre altas, um tanto intimidativas, de sua militância.

Quem leu sobre aquele período triste da história da França revolucionária, quando o sangue de nobres e de suspeitos corria indistintamente pelas pedras daquela hoje eloquente cidade de Paris, associa seus capítulos de panfletagem e execuções sumárias às lideranças surgidas da precipitação, da solércia e da valentia circunstancial. Dentre os manifestantes virulentos estavam os jacobinos (os petralhas, na versão atual), designação atribuída aos pregoeiros do caos e dos enfrentamentos, os que apostavam no terror da revolução (José Dirceu foi aluno da guerrilha, em Cuba, em sua juventude). Todos se lembram de que o PT, entre outras façanhas, se colocou contrário ao plano real, o mesmo PT que, no poder, transmudou-se completamente, adotando práticas político-econômicas antes apedrejadas.

As bandeiras que hoje empunhamos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, tanto quanto a Declaração dos Direitos do Homem, que os revolucionários tiveram oportunidade de desfraldar, não decorreram aqueles princípios e aquele documento de ações de bravura pessoal dos panfletários da desordem. Não. São, aliás, muito antecedentes, a primeira atribuída a Étienne de la Boétie em conjunto com Montaigne (meados do séc. XVI). Já a Declaração de Direitos é obra soprada pelo iluminismo francês, período áureo que deu ao mundo, por sábios e intelectuais, enunciados que hoje nos governam.

Comentários infelizes já insinuaram que o Partido dos Trabalhadores possui folha de serviços comparável aos prestados pela Revolução Francesa. Ridícula a afirmativa. A primeira antipatia granjeada pelo PT é o fato de que sua fundação adotou linha programática socialista ultrapassada, e, como Partido dos Trabalhadores, é definição excludente. Só se filiam a ele os trabalhadores ? E as donas de casa ? E os intelectuais ? E os assistentes administrativos ? E os jovens ? E os militares ? E os aposentados ? O fato é que o PT, em resposta agressiva ao movimento de 64, quis enfrentá-lo com uma ideia que aproximasse o povo dos operários (principalmente os de São Paulo) e de suas desordens para uma conjugação de interesses e votos, de adesão enfim, a propósitos pouco transparentes, que serviriam à expansão da liderança do sindicalista Lula. 

Outra fosse a inspiração dos fundadores do partido, de amor à causa operária, teriam prosseguido na doutrina construída pelo trabalhismo, aquele sim, Getúlio, o verdadeiro timoneiro da bandeira trabalhista, o único sinceramente empenhado e solidário com o escravagismo do operariado, e que verdadeiramente encarnava o ideário trabalhista. Porque não seguiram os petistas o catecismo legado por Getúlio, onde reuniriam forças para conjugar o capital e o trabalho ? É porque já havia lugares ocupados no trabalhismo.

Como indutora da antipatia ao PT, coroa a insolência da corrupção que alcança grande número de membros do governo e da família de Lula. Com o episódio do mensalão, de triste memória, que indignou os brasileiros, junto com a negativa de que nada sabia, o ex-presidente enterrou as chances que pudessem reerguer a ética no PT.

A opinião pública não esqueceu esta afronta, e o judiciário agora a investiga e a investigará até as raízes.

José Maria Couto Moreira 

quarta-feira, 4 de maio de 2016


Lula perdeu, o Brasil ganhou

Não há qualquer dúvida de que Michel Temer é o novo presidente da República. O Senado vai receber o processo e aprovar o impeachment de Dilma Rousseff. A interinidade deve ser breve — inferior aos 180 dias constitucionais. O projeto criminoso de poder e seus asseclas foram derrotados.

A história — e não é a primeira vez — traçou um caminho surpreendente. Apesar do desastre do primeiro governo, Dilma conseguiu ser reeleita na eleição mais suja da República. Imaginava-se que faria um governo cinzento. E que Lula deveria ter um papel mais ativo, preparando o caminho para retornar à Presidência em 2018, ser reeleito em 2022 e eleger um poste em 2026. A pouca combatividade da oposição, a inércia das entidades empresariais, as benesses obtidas pelo grande capital e o estabelecimento de relações nada republicanas com o Congresso Nacional e as Cortes superiores de Brasília davam ao petismo um protagonismo e uma força desproporcional à realidade.


Quando o pedido de impeachment deu entrada na Câmara — em outubro de 2015 —, poucos acreditavam que seria apreciado. Outros já tinham sido rejeitados. Pouco depois, o STF decidiu, equivocadamente, que caberia monocraticamente ao presidente da Câmara a decisão de receber o pedido. Falou-se que seria rejeitado por Eduardo Cunha. Porém, a 2 de dezembro, acabou sendo recebido. Seis dias depois, foi eleita a Comissão Especial por 272 votos a 199, com uma composição independente do Palácio do Planalto. Mais uma vez, o STF interferiu inconstitucionalmente, obrigando a Câmara a anular a votação e criar uma comissão “eleita” pelos líderes. Considerou-se uma vitória, pois os partidos da base governamental eram maioria.

O recesso parlamentar deu ao governo uma aparente sobrevida. Ficou na aparência. O agravamento da crise econômica — o ano fechou com a queda do PIB em -3,8% —, as investigações da Lava-Jato e a participação da sociedade civil com as manifestações de rua — quatro em 2015 — e a fantástica mobilização das redes sociais foram paulatinamente deslocando a balança para os adversários do petismo, mesmo quando os partidos oposicionistas ainda patinavam no enfrentamento do projeto criminoso de poder.

O ano legislativo de 2016 começou sem que estivesse claro qual o rito que deveria ser seguido na Câmara, pois o STF tinha tomado uma decisão pouco clara e, pior, invadindo a esfera do Legislativo. Após os esclarecimentos, o caminho ficou aberto. Mas o fato determinante do processo foram as grandes manifestações de 13 de março, especialmente a de São Paulo, a maior da história do Brasil. Nesse momento, as ruas, pela primeira vez, empurraram o Parlamento, deixando de ser coadjuvantes para serem protagonistas.

O PMDB foi se afastando do governo — a 12 de março declarou-se independente. A resposta do Planalto foi um suicídio político: a nomeação de Lula para chefia da Casa Civil. Uma demonstração de fraqueza travestida de uma grande jogada política. Um golpe de Estado, dando a Presidência, de fato, a um procurado da Justiça. A suspensão da nomeação e a divulgação dos áudios foram fatais. Desnudaram as razões da nomeação e as conversas de ministros e dirigentes petistas. Apresentaram um governo de cafajestes e celerados. Ficaram ainda mais isolados. E novamente as ruas deram resposta enérgica à manobra golpista.

A 17 de março foi constituída a Comissão Processante. Para evitar questionamentos jurídicos, foi seguido estritamente o rito determinado pelo STF. Diferentemente de 1992, desta vez houve amplo direito de defesa. A solidão do Planalto ficou maior quando o PMDB rompeu com o governo. De nada adiantou a presença constante de Lula em Brasília e a transformação de um quarto de hotel em gabinete presidencial — triste momento que aproximou o Brasil de uma república bananeira.

A Comissão Processante teve seus trabalhos conduzidos com muita propriedade e equilíbrio pelo presidente Rogério Rosso, e o parecer do relator Jovair Arantes não deixou pedra sobre pedra — e a 11 de abril foi aprovado por ampla maioria. As respostas do governo na comissão, na Câmara e na sociedade foram desastrosas. Chamar de golpe o que está previsto na Constituição foi um desastre. A defesa feita pela AGU foi patética. Os atos no Planalto com os “movimentos sociais” afastaram ainda mais o governo de parlamentares que estavam indecisos. E, para piorar, Dilma pediu a intervenção de organismos internacionais, caso de crime de lesa-pátria.

A votação de 17 de abril foi histórica. De nada adiantaram as transações criminosas de Lula tentando comprar parlamentares. O quorum constitucional foi suplantado. E a admissibilidade do processo, aprovada. O PT — que funciona mais como uma organização criminosa do que como partido político, basta recordar as inúmeras condenações judiciais — tentou — e ainda tenta — desqualificar a decisão. Criticou o “nível” dos deputados — como se a média dos parlamentares, desde 1826, quando o Parlamento foi aberto, fosse muito distinta; além do que teve sustentação congressual durante 13 anos —, ameaçou o país com guerra civil, incentivou a desmoralização das instituições e colocou em risco a paz pública.

Temer não deve esquecer que chegou à Presidência graças à mobilização das ruas. Vai ter de organizar um ministério competente, enfrentar os graves problemas econômicos, melhorar a qualidade do gasto público, não compactuar com a corrupção, despetizar o Estado e levar o país às eleições de 2018. Não será fácil. Mas muito mais difícil foi o povo derrotar a quadrilha petista e seu chefe, Lula.

Marco Antonio Villa 

Denúncia contra Lula tem o peso de uma lápide

O cronista Nelson Rodrigues ensinou que a morte é anterior a si mesma. Começa antes, muito antes. É todo um lento, suave, maravilhoso processo. O sujeito já começou a morrer e não sabe. Tome-se o caso de Lula. Fenece politicamente desde 2005, quando explodiu o mensalão. Mas demorou dez anos para que a Procuradoria-Geral da República providenciasse a lápide.

Veio na forma de uma denúncia e de uma petição ao STF. Na denúncia, o procurador-geral pede a conversão de Lula em réu por ter tentado comprar o silêncio do delator Nestor Cerveró. Na petição, requisita a inclusão de Lula e outras 29 pessoas no “quadrilhão”, como é conhecido o principal inquérito da Lava Jato. Nesse texto, Janot esculpiu um epitáfio com cara de óbvio:

“Essa organização criminosa jamais poderia ter funcionado por tantos anos e de uma forma tão ampla e agressiva no âmbito do governo federal sem que o ex-presidente Lula dela participasse.''


A conclusão do procurador-geral elimina uma excentricidade dos governos do PT. Está chegando ao fim a era da corrupção acéfala. Janot fez, finalmente, justiça a Lula, protegendo-o de si mesmo. A pose de Lula diante da roubalheira não fazia jus à sua fama.

O mal dos partidos políticos, como se sabe, é que eles têm excesso de cabeças e carência de miolos. O PT sofre da mesma carência, mas com uma cabeça só. Desde que empinou a tese do “não sabia”, Lula vinha renegando sua condição de cérebro solitário do PT. Reivindicava o papel de cego atoleimado.

Se aceitar a denúncia da Procuradoria, o STF não irá apenas transformar Lula em réu. Restabelecerá a lógica, acomodando o personagem no topo da hierarquia da quadrilha.

Mirando para baixo, Janot disparou várias balas que muitos davam como perdidas. Requereu a inclusão no inquérito do “quadrilhão” de vários nomões do PT, do PMDB e da vizinhança de Dilma.

Gente como os ministros palacianos Jaques Wagner, Ricardo Berzoini e Edinho Silva; os ex-ministros Erenice Guerra, Antonio Palocci e Henrique Alves; os senadores Jader Barbalho e Delcídio Amaral; o deputado Eduardo Cunha… De quebra, foi alvejado o principal assessor de Dilma, Giles Azevedo.

Como se fosse pouco, Janot requereu a abertura de inquérito contra a própria Dilma, o advogado-geral do impeachment, José Eduardo Cardozo e, de novo, Lula. Acusa-os de tentar obstruir as investigações.

No início de março, quando foi conduzido coercitivamente para prestar depoimento à Polícia Federal por ordem do juiz Sérgio Moro, Lula reagiu com uma entrevista de timbre viperino. “Se quiseram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo, porque a jararaca está viva.'' Pois bem. Janot acertou a cabeça da víbora.

Lula estava zonzo desde o dia em que o doutor Moro atrapalhou sua nomeação para a Casa Civil jogando no ventilador os diálogos vadios captados em grampos legais. Numa conversa com Dilma, a jararaca destilara todo o seu veneno:

“Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada, nós temos um Superior Tribunal de Justiça totalmente acovardado, um Parlamento totalmente acovardado. […] Nós temos um presidente da Câmara fodido, um presidente do Senado fodido. Não sei quantos parlamentares ameaçados. E fica todo mundo no compasso de que vai acontecer um milagre e vai todo mundo se salvar…”

Depois disso, a Suprema Corte avalizou o rito do impeachment, o presidente da Câmara coordenou a goleada de 376 X 137, o presidente do Senado passou a flertar com o vice-presidente “conspirador”, os parlamentares traem madame gostosamente e Lula revela-se uma cobra sem veneno. Tornando-se réu, talvez chegue a 2018 mai perto da cadeia do que das urnas.

Quanto a Dilma, ninguém estranharia se o noticiário sobre sua Presidência migrasse da editoria de política para o espaço que os jornais reservam aos avisos fúnebres. Os curiosos lêem compulsivamente, à espera de uma surpresa agradável. Jurada de morte, madame tenta se convencer de que ainda está cheia de vida. Mas todos sabem, inclusive seus aliados, que, mais dia menos dia, acaba o seu dia a dia. Tudo passa, exceto o PMDB, que é imortal.

'A última trincheira da cidadania'

Quando o ministro Marco Aurélio Mello, entrevistado no programa Roda Viva, fortemente pressionado por José Nêumanne, indagou-lhe se não confiava no STF, desde minha poltrona respondi com o jornalista: “Não, não confio!”

E por que não? Porque muito mais vezes do que minha tolerância se dispõe a aceitar, assisti o STF legislar contra a Constituição e invadir competência do Congresso Nacional. Sempre que isso aconteceu, a maioria que se formou despendeu boa parte de seu tempo afirmando não estar fazendo o que à vista de todos fazia. Ademais, como conceder a confiança que o ministro esperava colher depois de o STF, na ação penal referente ao mensalão, haver decidido que nele não ocorreu crime de formação de quadrilha? Vinte e cinco condenações envolvendo três núcleos interconectados não compunham uma quadrilha? Como cortejar um ponto tão fora da curva?

Como esquecer o ministro Joaquim Barbosa, com seu linguajar ríspido, reprovando o que via acontecer nas sessões finais daquele julgamento? Recordo sua advertência sobre a “maioria de circunstância” e “sanha reformadora”.

Pergunto: não ficam nítidos, em certas entrevistas concedidas por alguns senhores ministros, os desapreços internos? Nêumanne não está só.

Ao estabelecer que o provimento das cadeiras da Suprema Corte se dê por nomeação da presidência da República após aprovação da escolha pelo Senado, nossos constituintes confiaram em que o natural rodízio das tendências nas eleições presidenciais permitiria um equilíbrio das orientações jurídicas e sensibilidades políticas dentro do STF.

Tal presunção foi rompida com a sequência de quatro governos petistas, que indicaram oito dos 11 ministros. Numa democracia, seria muito saudável que o Supremo, em sua composição, exprimisse equilibradamente o espectro dessas sensibilidades presentes e atuantes na vida social. Não parece razoável que na prática, a posição conservadora ou liberal ali só se manifeste no microfone de onde, suplicantes, falam advogados e amigos da corte. Nunca no plenário. Nunca com direito a voto.

Não bastasse isso, nos últimos meses, relevantes figuras da República têm manifestado dispor de uma intimidade, que vai além de todo limite, com membros do poder situado no outro lado da praça. O governo contabiliza votos na corte como se fossem seus. Ministros opinam sobre assuntos em deliberação no Congresso Nacional. Divergem publicamente sobre questões cruciais do momento político. Onde buscar razões para a ambicionada confiança?

Há mais. A nação tem imensa dificuldade de entender como podem tantos processos dormir, tirar férias, entrar em remanso e envelhecer nas prateleiras do STF. Num país com tão angustiante necessidade de combater a corrupção não é aceitável que políticos corruptos sejam agraciados com o sigilo sobre seus crimes, a dormição de seus processos e, não raro, a prescrição dos crimes praticados. De que vale a lei da ficha limpa quando a ficha suja encontra abrigo numa gaveta do tribunal e criminosos seguem influenciando a vida do país?

Por fim, uma questão institucional. O ministro Marco Aurélio tem afirmado que o STF se encaminha para ser o Poder Moderador da República…

Vai que dá certo?

Não se ignora a dramaticidade do quadro social, econômico e político no qual Michel Temer terá de operar como futuro presidente da República. Os desafios são imensos. Mas não está escrito nas estrelas que o próximo governo, apropriadamente caracterizado de “emergência nacional”, dará com os burros n’água, como preconizam algumas pitonisas de plantão. Vai que dá certo, como ficam as premonições catastrofistas?

É cedo para avaliações. O novo governo sequer assumiu e encontra-se na fase de costura. Mas seria muita má vontade não enxergar que os primeiros movimentos do atual vice-presidente vão, no essencial, na direção correta. Seu sucesso ou insucesso será medido, principalmente, pelo enfrentamento da crise econômica. E é aqui que Temer dá os primeiros passos de forma acertada.

Há consciência de que é preciso restabelecer a credibilidade da política macroeconômica e a confiança na solvência do Estado, ambas detonadas nos anos de desgoverno do lulopetismo. Fundamentos econômicos sólidos, previsibilidade e credibilidade são pré-requisitos para a atração dos investimentos necessários à retomada do crescimento.

A sintonia fina a ser feita no ajuste fiscal deverá ter exatamente este objetivo e será por aí que a taxa básica de juros pode ser puxada para níveis mais civilizados e entrar em curva declinante, ainda em 2016. Diferentemente do período Joaquim Levy, o provável futuro ministro não está propondo o “ajuste pelo ajuste”, mas sim uma ponte para o resgate da boa política macroeconômica.

Trata-se, portanto, de criar um ambiente favorável à retomada do crescimento, condição essencial para se enfrentar o enorme drama do desemprego, que hoje atinge 11 milhões de brasileiros.
E por onde o crescimento pode ser retomado?

As pistas estão dadas. O foco é um amplo programa de concessões, livre das amarras criadas pelo dirigismo tão presente nos anos Dilma. Em qualquer lugar do planeta, os investidores empregam seu capital onde estejam asseguradas duas condições: regras claras e possibilidade de retorno do investimento.

Um dos graves erros do governo Dilma foi querer definir por decreto taxas de retorno nas concessões, além de impor, em muitos casos, um sócio compulsório aos investidores: o Estado. Vide o caso das privatizações dos aeroportos onde a Infraero se transformou em sócio incômodo dos investidores. Nesses quase seis anos, as privatizações não andaram porque, entre outras coisas, o governo mudava as regras do jogo a toda hora.

A equipe de Temer acena com o fim dessa camisa de força. Isto é positivo. As privatizações podem deslanchar e atrair fortes investimentos.

Outra trilha para crescer é o incremento das exportações, com a adoção de uma política agressiva no comércio exterior visando conquistar novos mercados. Por questões puramente ideológicas, o Brasil nos últimos 13 anos priorizou as relações Sul-Sul, deu as costas aos mercados dos EUA e da União Europeia. Mais grave: ficou imobilizado pela camisa de força do Mercosul, impedido de assinar acordos bilaterais sem o consentimento dos outros países do bloco.

Hoje levamos um banho do Chile, do Peru e do México.

A economia não é tudo e nem mesmo aqui se está perto de vencer a guerra. Aliás, será uma batalha dificílima, a crise econômica não será superada da noite para o dia. E não há espaço para ilusões quanto às resistências a serem enfrentadas na hora de se avançar nas reformas estruturantes e na desindexação da economia e do Orçamento da União.

Tampouco será fácil construir um governo de ampla coalizão sem fazer concessões ao patrimonialismo, ao clientelismo e ao corporativismo, ervas daninhas que tanto prejuízo causam ao país. Talvez esta seja a batalha mais árdua. Tais forças criarão enormes obstáculos a qualquer mudança que ameace seu espaço e privilégios no aparato estatal.

São muitos desafios a serem vencidos em pouco espaço de tempo. Não se espera que a administração Temer consiga resolvê-los de uma só vez. Mas, se avançar nos primeiros passos para a reorganização do país, seu governo já terá dado certo.

Nossa terra em transe

Minha avó sempre dizia: “Toda desgraça tem seu lado bom”. Ou então, “Deus escreve certo por linhas tortas”. Será que Deus, brasileiro, está nos levando a um Bem, através dessa chuva ácida que nos arrasa?”

Temos de encontrar um lado bom nessa crise que atravessamos. O Brasil virou um espelho, refletindo nossa imagem. Isso porque o Brasil não está nas cachoeiras e florestas; o Brasil é uma região interior dentro de nossas cabeças. E, sem dúvida, nossas cabeças estão mudando nesta crise. Hoje, somos atores e espectadores. Não nos interessa nada, nem cinema, nem teatro, nada – só o filme de suspense de nossa vida. Nunca aprendemos tanto quanto nessa novela sem fim. O País está viciado em si mesmo. Nossa crise tem personagens principais, coadjuvantes, vilões, peripécias e a expectativa de se atingir um clímax, que nos seja leve. Estamos viciados até na sujeira que presenciamos. Queremos o excremento, que nos ocultaram por tanto tempo, queremos nos deliciar com esta salada tropical de crimes, sangue, miséria, mentiras.


O verdadeiro golpista foi esse partido que nos desmanchou. O PT deu um golpe que arrebentou o discurso lógico sobre o País. Um golpe de que eles, hoje, acusam os adversários. A mentira virou a verdade oficial dessa gangue que vai deixar o Planalto, graças a Deus. Deixarão um legado de disquetes apagados, de sabotagem de todos os dados, que possam servir ao governo que vai entrar. Eles são o Bem; nós somos o Mal.

Suas ações foram tão incoerentes, tão irracionais, que os fatos superam as interpretações. Explicações políticas ou econômicas não bastam. Para entender a cabeça desses elementos, temos de recorrer à psiquiatria. Movidos por estupidez ideológica (para eles, nem o Muro de Berlim caiu), arrasaram a República. Dizendo-se revolucionários, eles refizeram todos os problemas do Brasil arcaico. Por isso, o Brasil Colônia finalmente ressurgiu, depois das maquilagens da República patrimonialista e das repressões da ditadura. Por isso, muita gente diz que o Brasil é o inferno dos cientistas políticos e o paraíso de jornalistas. Será que sairemos deste trem fantasma para a calma administrativa de uma política normal ou a política anômala vai ficar intacta, como sempre foi, depois do vendaval?

Qual será o “lado bom” desse transe que atravessamos?

Bem, a paralisia terminou, por ora. Haverá cirurgia? A crise cria um suspense, a vida fica mais excitante. Algo está se movendo. A crise foi boa para despertar a sociedade civil, já que ninguém sabia onde estava a sociedade civil. Agora, ela está viva e influindo, dando medo nos congressistas e vagabundos aparelhados.

Do ponto de vista histórico, a crise é boa por ser intempestiva, para ensinar que não há “sentido dialético”, nem “contradições negativas”, nem lógica alguma; o mundo se move em pingue-pongue eterno e injusto. Fica claro que nada tem fim. Nem começo. Nunca teremos harmonia.

A crise também é boa para acabar com grandes euforias, pois ela prova que a Lei de Murphy, ao menos no Brasil, é infalível, mais que as leis do mercado: “Se alguma coisa pode dar errado, ela dará”. A crise desnuda nossa tragédia ibérica. A crise nos lembra que não há solução, que a ideia de solução já é um problema.

A crise é boa para que os intelectuais percam a ilusão do Sentido, a perda da ilusão do controle, que sempre tiveram. A dificuldade de tolerar o impalpável é muito grande. Contudo, talvez isso não seja ruim. A fé excessiva na finalidade avariaram muito nosso pensamento. Os intelectuais (muitos) no Brasil têm uma espécie de saudade de um mundo que já “foi bom”. Mas quando? Durante as guerras, no nazismo, no stalinismo?

Hoje em dia, quando a esperança é mais remota, talvez surja uma reflexão mais finita. A crise desqualifica o futuro e valoriza o presente. A crise exige providências urgentes. Estamos descobrindo o óbvio: que os meios são mais importantes que os fins. Só que não temos meios.

Ou melhor, temos; mas só os descobriremos na prática concreta dos fatos. Sem ideias gerais, sem narrativas dedutivas; temos de pensar indutivamente o concreto, uma prática política de erro e tentativa, pelo aumento da qualidade de vida, sem recompensas metafísicas, um “iluminismo de resultados”, uma luta possível. Mas, para intelectuais orgânicos, partidários, a prática é chata. Eles detestam contas, safras de grãos, estatísticas, tudo que interessa à direita, que ganha sempre.

Por isso, é bom que esteja acabando o romantismo revolucionário dos anos 1960, quando havia uma utopia que substituía o “possível” pelo imaginário. Nós só pensávamos em “universais”, mas, no mundo atual, só existe o singular e o mundial.

Ou seja, as coisas são mais complexas que as ideias. A matéria é mais do que o “espírito”; assim, nossos meios possíveis poderão, então, delinear um fim.

Estamos dentro de um momento histórico importante. Dentro e fora de nossas cabeças.

“Nunca antes”, um partido tomou o poder no Brasil e montou um esquema secreto de “desapropriação” do Estado, para fundar um “outro Estado”. Nunca antes, se roubou em nome de um projeto político alastrante em todos os escaninhos do Estado, aparelhado por mais de 30 mil militantes. Estão, agora, deixando todas as gavetas pilhadas para o Temer se ferrar. Creio que teremos no mínimo um período (cem dias?) de conforto ético. Pode ser que um governo de emergência dê conta do drama.

O perigo atual é que, aos poucos, o rabo do lagarto do atraso possa se recompor.

Com um leve sabor de sacrilégio, acho que só um choque de capitalismo e de participação da sociedade poderão destruir o ‘bunker’ do estamento patrimonialista, que nos anestesia. Não adianta anunciar catástrofes; é preciso ensinar a população a se defender do Estado vampírico. O resto é papo morto.

A crise pode ser uma renascença.

Em nome de Brahma

Essa organização criminosa jamais poderia ter funcionado por tantos anos e de uma forma tão ampla e agressiva no âmbito do governo federal sem que o ex-presidente Lula dela participasse
Rodrigo Janot, em indiciamento na Procuradoria Geral da República

Babel política

Babel, palavra de origem hebraica, significa confundir ou confusão, penso eu. Pois bem, num tempo estranho, mais ou menos como este que estamos vivendo, os homens resolveram construir uma torre alta o bastante para chegarem ao céu, e Deus, então, decidiu intervir, criando diferentes linguagens, de modo que ninguém mais se entendesse. Foi o que aprendi nas aulinhas de catecismo quando, aos nove anos, saí de Salinas para o Internato do Instituto Padre Machado.

Será que não estaríamos revivendo a confusão de Babel, em que ninguém entende ninguém? Dona Dilma, aquela da boca porca, está arrumando as malas para uma viagem de seis meses, crente que vai regressar e encontrar a casa arrumada e o almoço na mesa ao meio-dia.

Não me venham com essa cantilena de golpe. Deviam esquecer isso e acordar para a realidade. Diga-me o leitor, com pureza d´alma, se acredita nisso. Sim, o cansaço pode produzir miríades de absurdos. E mesmo visões, como a que enxerga o também boca porca ex-Luiz, ao se imaginar no Governo em 2018... Mas cansaço de quê? Dessa coisa de “não roubei nada, não há prova de nada, eu não bebo...” Que coisa mais chata! Então essa mulher e esse metido a messiânico do Lula nunca ouviram falar em Lei de Responsabilidade Fiscal, no rombo de mais de 200 bilhões que estão deixando? Quem gasta sem ter o recurso correspondente é, no mínimo, irresponsável. Ah... mas todos fizeram assim... Mentira, alguns procederam assim antes da referida lei, que entrou em vigor no governo FHC dia 04/05/2000. Mas chega de falar de quem não merece sequer consideração. Desejo à presidente que está sendo defenestrada do palácio o mesmo que ela deseja para todos os seus subordinados: o ostracismo. Tchau!

Ao presidente que vai entrar, votos de saúde e discernimento para desatar os nós e rombos que propositalmente foram feitos e estão sendo deixados por um governo incompetente e sempre mal intencionado. Se puder, que o novo presidente facilite as coisas para quem o suceder em 2018, diminuindo os ministérios para 20, no máximo, e propondo emenda constitucional para reduzir o número de deputados para 150, no máximo, e acabar com o senado.

Nós somos hoje um país pobre – que o novo presidente se lembre disso e reduza pela metade as embaixadas no exterior, cuide da educação, melhore como puder a vida dos pobres, aumente os auxílios moradia e saúde, obrigue todos os que trabalham pelo e para o país a tratar os mais humildes com urbanidade. E que diminua os juros para um patamar de gente civilizada: este ano, vamos pagar aos ricos da Europa e dos Estados Unidos mais de 600 bilhões de reais de juros. Isso não é coisa de gente certa, isto aqui não pode continuar como um manicômio...

Dilma já monta o seu 'bunker', mas para quê?

Na minha infância, ouvia muito falar nesta palavra alemã “bunker”, como eram chamados os abrigos subterrâneos, onde minha mãe se refugiava com a família, durante os bombardeios na Segunda Guerra Mundial. Eram lembranças muito tristes, que me marcaram para o resto da vida.

Setenta e um anos após o final da última grande guerra, esta palavra volta ao noticiário, agora no Brasil. Já certa da derrota na batalha do impeachment, Dilma começou a preparar o desembarque do Planalto e a montar um “bunker da resistência” no Alvorada, segundo relato dos repórteres Marina Dias e Valdo Cruz, na Folha desta terça-feira.

Pergunto: vai resistir para quê, resistir contra quem, quais são os seus planos?

Até onde sei, nenhuma força inimiga está preparando um bombardeio sobre o Palácio do Planalto. A guerra política é travada no parlamento e nos tribunais, com acusação e defesa citando a Constituição Federal. Não há no horizonte, até onde minha vista alcança, aviões militares, canhões ou navios de guerra.


São ambiciosos os planos de Dilma para o período em que ficará afastada do poder central. Em nada lembram a retirada discreta de Fernando Collor, quando caiu em 1992, esperando em silêncio e resignação, isolado na Casa da Dinda, pelo julgamento final. A quase ex-presidente quer montar uma estrutura de 15 assessores, mais seguranças, carros oficiais e um avião da FAB, além de manter todas as mordomias do Palácio da Alvorada.

Ao contrário de Collor, que deixou o Planalto pela porta dos fundos acompanhado apenas pela mulher, Dilma está pensando num final grandioso para a despedida, programada para o próximo dia 12, segundo o cronograma do Senado. Quer descer a rampa solenemente ao lado do que restou do ministério de seu desastrado governo que quebrou o País.

Em seus atos de desespero nos últimos dias, a ainda presidente deixou claro que pretende cair atirando, para infernizar a vida do seu sucessor constitucional (e, por tabela, a de todos nós, que pagamos a conta), como fez no 1º de Maio, ao anunciar um “pacote de bondades” que aumenta as despesas e diminui a arrecadação, no apagar das luzes, deixando um rombo perto de R$ 100 bilhões nas contas públicas.

Mesmo que o possível governo Michel Temer fracasse em sua tentativa de ressuscitar a economia brasileira, é consenso no meio político, até no PT, que não há a menor chance de Dilma voltar ao cargo no final dos 180 dias de afastamento. Então, eu só gostaria de entender: para quê tudo isso? Para continuar repetindo ao Brasil e ao mundo que ela está sendo vítima de um “golpe”, colocando em risco a estabilidade institucional?

Jânio e Jango também ficaram esperando que as multidões saíssem às ruas para pedir a volta deles. Morreram esperando.