quarta-feira, 4 de maio de 2016

O fim da história: governo nenhum resiste a tamanha soma de erros

Naquela noite amena de domingo, quando a Câmara dos Deputados aprovou a admissibilidade do processo de impeachment de Dilma Rousseff, tanto o ex-presidente Lula quanto o vice-presidente Michel Temer tinham certeza de que o resultado era mais do que previsível. Era certíssimo. Lula, por saber que cometera o maior erro político de sua longa vida pública ao escolher Dilma para sucedê-lo. Temer, por saber que governo nenhum resiste a tamanha soma de erros. Não houve um irmão, como no caso de Fernando Collor, que, de repente, por acaso, saiu contando as peripécias presidenciais nas páginas da revista “Veja”. O acaso foi a própria Dilma. Ela jamais deveria ter sido escolhida.

Com impressionante regularidade, Dilma Rousseff solapou todas as suas possibilidades de ter sucesso como presidente da República. E, com seu retumbante fracasso, enterrou o sonho das esquerdas brasileiras. Vai desalojar milhares que vivem de verbas públicas por meio de convênios. Causará maciço desemprego entre os ocupantes de cargos de confiança. Abalará a receita das centenas de pessoas que trabalham em conselhos de estatais. Muitas delas, nem eu, nem o leitor sabemos que existem.

A ironia das ironias é que Dilma conseguiu fazer o que a oposição jamais teve ou teria competência para fazer: destruiu o lulopetismo. Arrasou a competitividade do PT e, provavelmente, acabará com qualquer possibilidade de Lula voltar a ser presidente da República. É evidente que ela não tem culpa sozinha. Outros fatos contribuíram para a derrocada. O julgamento do mensalão e a instalação da operação Lava Jato, que desvendaram as entranhas do capitalismo tupiniquim, foram decisivos. E revelaram, também, os equívocos cometidos nas relações com o mundo privado.

Porém, quando Lula se encantou com aquela ministra séria, assertiva, ríspida e compenetrada, que sabia de tudo e era ótima nas apresentações, foi o começo do fim. A possibilidade de ser colocada na Presidência adoçou a dura Dilma. A doença que teve de enfrentar e, até mesmo, a solidariedade em torno do fato pareciam que amoleceriam a alma de ferro da candidata.

Foi por pouco tempo. O poder, literalmente, subiu a sua cabeça. Não apenas à dela, mas à de alguns outros também, que demoliram o lulopetismo com doses cavalares de inconsciência. O número 1, sem dúvida, foi Arno Augustin, magistral artífice das mágicas contábeis. Uma espécie de Mister M das contas públicas.

Lula bem que tentou, mas, fragilizado pela própria doença e pela retumbante popularidade de Dilma, nada pôde fazer. O “volta, Lula” veio tarde. Ele tentou emplacar Henrique Meirelles no Ministério da Economia em 2013. Avisou que o Conselhão tinha de funcionar e que as reuniões do conselho político com líderes e presidentes de partidos deveriam ocorrer semanalmente. Avisou que as emendas dos parlamentares ao Orçamento, mesmo da oposição, deveriam ser em grande parte executadas. Avisou tudo. Não serviu para nada.

Dilma será afastada do governo e a ele não deverá voltar. Foi inacreditavelmente incompetente para pilotar a mais poderosa Presidência da República do mundo ocidental. Afinal, o presidente do Brasil é dono de 50% do sistema financeiro nacional, emprega discricionariamente mais de 30 mil pessoas, usa e abusa de medidas provisórias e executa o Orçamento da União a seu bel-prazer. Enfim, o presidente da República do Brasil, por nossas omissões e ignorâncias, tem todos os instrumentos para ser um ditador benevolente. Nem assim ela conseguiu se manter.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Charge (Foto: Moisés)

Contra a democracia

Dilma Rousseff se refere agora à Presidência da República como “minha cadeira” – quando aquela “cadeira” é pública, a ninguém pertence. Mas não é disso que vou me ocupar aqui. O sociólogo Gustavo Falcón, autor do excelente “Reformismo e Luta Armada no Brasil”, me leva a detalhar o artiguete onde afirmei que, durante a ditadura militar, Dilma jamais defendeu a democracia no Brasil.

Falcón sabe que Dilma, expert em falsificar fatos, mente sem pudor quando se apresenta como alguém que, entre o AI-5 e os tempos de Médici, foi uma brava militante democrata. Conhecemos a história política de Dilma. Ela criou uma fantasia deliriosa para consumo próprio, bem distante da realidade da esquerda militarista em que se enrascou.


Dilma veio jovem para a esfera de influência da organização “marxista-leninista” Política Operária (onde ficou um semestre na célula da Faculdade de Economia) – a Polop, que considerava imbecilidade essa conversa de “democracia”. Livro-de-cabeceira dos polopianos era “Estado e Revolução”, de Lênin, pregação acesa a favor da destruição do Estado representativo-parlamentar.

Para o Brasil, o programa era unívoco: derrubar a ditadura dos patrões para, em seu lugar, implantar a célebre ditadura do proletariado. A democracia era olhada como manipulação alienada, desprezível. E deveria ser combatida em nome da revolução socialista. Dilma, embora militante sem qualquer relevo (na verdade, naquele arremedo de luta armada, ela nunca foi além da “intendência”), rezava por essa cartilha.

Chegou na Polop no momento do racha da organização, optando então pela facção militarista, que se confinou no Colina – Comando de Libertação Nacional. Adiante, duas vertentes da esquerda armada, o Colina e a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), se fundiram na VAR (Vanguarda Armada Revolucionária)-Palmares. E em todos esses momentos e organizações, “democracia” era palavrão. Mistificação execrável para sustentar a dominação da classe burguesa. O projeto continuava o mesmo: substituir a ditadura militar da burguesia pela ditadura militar do proletariado.

Agora, por que Dilma esconde esses fatos e se dispõe a mentir tão safadamente para o conjunto da sociedade brasileira? Simples: porque hoje fica muito bem na foto quem diz que enfrentou heroicamente a ditadura em nome do princípio maior da democracia. Mas fica mal quem admite que, como os militares, também achava que a solução estava numa ditadura. E Dilma prefere a morte do que ficar mal na foto.

Liberdade de imprensa ameaçada

Nesta terça se comemora o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, um dia que as organizações não governamentais aproveitam para chamar a atenção para as ameaças sobre o direito a uma informação independente, plural e transparente. Em muitos países, os jornalistas sofrem perseguições e assédio, são fustigados, torturados e presos. No ano passado, 67 pagaram com a vida o exercício de sua profissão, segundo a organização Repórteres sem Fronteiras, uma organização que coloca o foco em quatro países –Egito, Turquia, Rússia e México– para denunciar a violação dos direitos dos jornalistas no exercício de sua profissão.

Os Estados totalitários nos quais a democracia brilha pela ausência têm a imprensa comprometida com a defesa dos direitos fundamentais como um dos seus principais inimigos. Os jornalistas tornaram-se o alvo de todo tipo de regime corrupto e estão sendo assediados pelo crime organizado em áreas cada vez maiores da América Latina, às vezes com a dilacerante conivência da polícia e das autoridades locais. Intimidar a imprensa é também objetivo do terrorismo jihadista, que atentou contra meios de comunicação e assassinou brutalmente repórteres ocidentais sequestrados na Síria.

As leis antiterrorismo e as políticas de segurança –em todos os países– podem se tornar um grave perigo para a informação. Nessas circunstâncias, é necessário que tanto as organizações profissionais como os próprios meios de comunicação lutem contra as tentativas de cercear a liberdade de expressão e obstaculizar o controle dos governantes. Uma imprensa livre é a pedra angular da democracia e as medidas de combate ao terrorismo não podem ser uma desculpa para silenciá-la. E certamente seria uma má notícia que os jornalistas se lançassem nos braços da autocensura.

É difícil explicar o Brasil


As TVs locais mostraram um pronunciamento da Dilma em que ela fala de um “golpe especial” para retirá-la do poder. Os patrícios não entenderam muito bem e insistiram para que eu explicasse que modalidade é essa de “golpe especial”, já que por aqui não existem variações de golpes. Foi difícil explicar, mas procurei o atalho mais simples: a presidente do Brasil é assim mesmo: uma pessoa destrambelhada, confusa, mente turva, não consegue juntar bem as palavras. Disse que ela vai continuar batendo na mesma tecla do golpe porque não consegue justificativa para o caos que provocou na economia e para o maior escândalo de corrupção da história do país em que ela e o seu partido se envolveram.

Disse também para alguns amigos por aqui que o governo petista atrasou o Brasil em mais de vinte anos, depois de pegar o país com as finanças equilibradas, inflação baixa e pleno crescimento. Agora, na saída da Dilma, eles tentam, como aves de rapina, limpar mais ainda os cofres. Se não fosse a intervenção do ministro Gilmar Mendes, do STF, a Dilma iria torrar 85 milhões de reais em propaganda institucional da presidência como se o país estivesse nadando em dinheiro. O pedido extraordinário desses recursos foi feito ao Senado e, em bom tempo, o ministro barrou a farra ao apagar das luzes.

Os patrícios por aqui, como a gente aí, já se convenceram de que o Brasil só sairá do buraco com a saída da Dilma e da quadrilha petista que continua assaltando os cofres públicos. Eles não entendem, contudo, como o Eduardo Cunha, outro corrupto de carteirinha, continua presidindo a Câmara dos Deputados. Explico que a assepsia também chegará a ele que responde a dezenas de processos no Supremo Tribunal Federal por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Eles acham, contudo, que com a posse de Michel Temer dificilmente Cunha será punido porque, a exemplo de Lula protegido por Dilma, a tendência de Temer é livrar a cara de Cunha com a conivência do STF. Irrespondível.

Atualizados com as notícias sobre o Brasil, segundo eles, uma das maiores potências econômicas do mundo, os patrícios discutem sobre o destino político da nação e ficam surpresos e, até perplexos, com as notícias que chegam daí. Por exemplo, eles não entendem como um ex-governador faz um discurso nas suas bases chamando um ministro do STF de “corno” e o Procurador-geral da República de “ladrão” e nada acontece. Tento explicar que os irmãos Gomes, lá do Ceará, são desbocados, afetados por um profundo complexo de inferioridade. Estão acostumados a dizer impropérios contra as instituições e as autoridades e nada acontece pela passividade da nossa justiça.

Eles acham que o Brasil está passando por uma crise moral e ética (irrespondível). Os poderes, segundo eles, estão decadentes e, por isso, pessoas como o ex-governador Cid e o irmão dele, o Ciro, destratam as pessoas dessa forma sem que haja punição exemplar. É verdade, não se entende essa falta de respeito contra o ministro Teori Zavascki, do STF, e o procurador Rodrigo Janot, responsáveis pela apuração da operação Lava Jato. Entramos no fundo do poço, numa anarquia geral.

Outros patrícios que conheço por aqui, homens de negócios, escritores e jornalistas também estão assustados com a demência do país, o vazio e o abandono das instituições. Eles são unânimes em afirmar que o governo não só acabou como fechou os ministérios. Explico-lhes que existem vários ministérios sem os titulares porque as pessoas se negam a ocupar as pastas. Temem ter seus nomes ligados ao governo corrupto do PT. Preferem se preservar a se envolverem nas maracutaias que já levaram muitos à cadeia.

Não faz muito tempo, eu fazia perguntas semelhantes a esses mesmos patrícios de como Portugal tinha chegado ao fundo do poço, com a sua economia destroçada. Existia por aqui, à época, um clima de pessimismo e de derrota quando José Sócrates, ex-Primeiro Ministro, e a sua turma, estavam no poder. Agora, Sócrates e seus amigos, estão na cadeia e a economia do país em franco desenvolvimento. Somos irmãos siameses.

Agora vai!

Os que já viveram muito - meio século, ao menos - são familiarizados com os Agora vai aqui vividos. São os orgasmos da nossa história. Momentos em que o povo vai à rua para protestar ou reclamar por mudanças e – parece – o pretendido ocorre. Ufa. Agora vai. Foi-se embora o mal, virá o bem.

Voltamos para o nosso cotidiano das pequenas e caseiras reclamações e deixamos o país para os que são do ramo tocar o barco. E eles tocam. Aos costumes.

E os costumes são velhos. Há quantos anos eu, você e a torcida do Corinthians, convivemos com a violência – a geral e a policial? Desde quando convivemos com a precariedade na saúde e na educação? Com as péssimas estradas? Com o trânsito caótico nas grandes cidades, com os horrorosos serviços das empresas (ditas) de serviços?

Desde sempre, qualquer Mané sabe, comenta e debocha sobre relações promíscuas de agentes públicos e da política com empresas. Vez por outra vira escândalo – inho ou ão, como os de agora. E é um Deus nos acuda. Ai, ui, que horror! Nunca imaginei que era tanto!

Pois devia imaginar. Pistas não faltam desde sempre.

A propina deve ser o mote mais antigo de comédias e comediantes nacionais. (E vá fazer política, por exemplo, sem dinheiro pra ver se consegue! No mínimo, cabos eleitorais e até eleitores ficariam muito putos de não levar o seu. É ou não é?)

Qualquer brasileiro sabe que existe Caixa 2, dinheirinho "não contabilizado”. Quem não sabe que a sonegação fiscal dos grandes é quase regra geral e que, podendo, dá-se sempre um jeitinho de escapar do fisco? “Esse dinheiro vai ser roubado mesmo”, argumenta-se. E a consciência fica limpinha da silva.

Essas coisinhas todas sabidas e vividas são apenas nossa lista básica do que não há Agora vai que tenha conseguido mudar.

Por que será que não muda e, às vezes, até piora?

Porque, de verdade, de verdade mesmo, a gente vai levando com a nosso histórico conformismo, nossa também famosa síndrome de vira-lata. Tudo lá fora é melhor. Aqui não tem jeito mesmo.

O povo, essa entidade concreta e difusa que é o conjunto de nós todos, vez por outra, precisa arranjar alguém/algo para amar muito e algo/alguém para odiar mais ainda. O amado da vez é o bem em forma de gente, aquilo ou aquele que representa ideal de perfeição, modelo a ser seguido. O herói, enfim. Joaquim Barbosa, Moro.
O que seria da gente sem achar um deles de vez em quando?

O mal é para ser odiado. E concentrar o ódio nacional nuns desses maus é tudo de bom, desopila nosso fígado daqueles pequenos ódios todos que temos acumulado. Ai cabendo o vizinho barulhento, a inveja do filho do amigo que tem mais sucesso do que o nosso e outras pequenezas mais.

Por elas não vamos às ruas. Só ficamos entalados até a próxima chance de gritar um basta coletivo, por um Brasil Melhor, que vem acoplado à crença de que Agora Vai!

Se não for, vamos tocando. Nos costumes. De novo. Quem tem mais dinheiro instala alarme, bota grade, cerca, contrata segurança, põe filho em escola particular. E se conseguir um pouco mais de grana, manda os garotos estudarem em escola americana. (Aqui, esse sistema de cotas, baixou muito o nível da universidade, né não?)

A saúde não tem conserto? Fecha com um bom convênio e vai pagando preço de Sírio Libanês por serviços privados no padrão público – ruim, claro. Esses desacertos antigos do dia a dia não nos levam às ruas. Não têm jeito mesmo, não é?

A gente só vai pra rua quando o mal fica muito mauzão. Daí a gente impicha e bota fé: Agora vai!

segunda-feira, 2 de maio de 2016


A reconstrução como fogo

Neste momento em que palavras se liquidificam e argumentos tornam-se cusparadas, até por dever de ofício sempre me pergunto o que é importante e como não perder o foco. O processo de impeachment segue seu rumo no Congresso, é hora de apressar o processo de reconstrução econômica, buscar atrair investimentos mais rapidamente, atenuar a crise no mercado de trabalho.

Os diagnósticos já conhecidos parecem convergir para um objetivo de retomada do crescimento com proteção dos mais vulneráveis. Uma das críticas ao Bolsa Família era a ausência de foco nos mais vulneráveis, precisamente para alcançar o melhor efeito com o dinheiro. A dispersão do modelo petista traz mais votos, mas tem menos eficácia. Vamos esperar a dança dos nomes e a chegada do momento em que possamos reagir, saindo logo desse pesadelo nacional. Uma capa de revista com cartaz “help” na estátua de Cristo expressa esse sentimento.

A energia de reconstrução talvez seja mais leve do que dos embates políticos do momento. Um segundo e importante front é a transparência sobre o que se passou no governo. Só a Lava-Jato colheu 65 delações premiadas. Num único fim de semana, três importantes depoimentos apareceram. Um deles, da publicitária Danielle Fonteles, revela como o esquema de propina sustentou a propaganda do PT e a folha dos blogueiros chapa-branca. Em outro, Mônica Moura, mulher de João Santana, revela que recebeu dinheiro por interferência do ex-ministro Guido Mantega. Finalmente, o dono da Engevix, José Gomes Sobrinho, revelou seu esquema de propinas pagas ao PT e ao PMDB, citando Renan e Temer. Todo esse conjunto de dados vai estar à disposição para que todos se interessem, leiam e saibam como operou o governo, como se venceram as eleições. Depois de tudo isso digerido, será mais fácil conversar. De vez em quando chegam críticas pesadas. No mesmo tom raivoso das ruas. Para alguns deles, sou velho e amargurado. Minhas ideias são medidas pelos anos e não pela sua consistência.

Bobagem. Quando todas as cartas estiverem na mesa, será mais fácil mostrar como se enganam os que veem em 2016 uma repetição de 1964. Talvez pressintam isso, mas são prisioneiros da tese de que Dilma sofreu um golpe e não um impeachment. O próprio Lula parece não compreender a diferença entre um golpe militar e um impeachment. Afirma que não entende pessoas perseguidas e exiladas pela ditadura apoiarem o impeachment. Como se estivéssemos apoiando censura, prisões, exílios e banimentos. A tese de que isto é uma repetição de 64 iguala o pensamento da esquerda ao de Jair Bolsonaro, que, no seu discurso, disse “vencemos em 64, vencemos de novo”, como se os tanques do General Mourão marchassem contra o Planalto.

O Brasil mudou, vivemos um momento diferente. A própria Guerra Fria, a atmosfera envolvente da época, foi embora com a queda do Muro de Berlim. No entanto, existe um dado na experiência pós-64 que ainda me intriga. Depois da derrota do populismo de esquerda, os jovens fizeram uma pesada crítica aos líderes, uma grande renovação, a partir do movimento estudantil que buscou um outro caminho, equivocado, mas um outro caminho. Hoje, os populistas levam o país para o buraco e ainda convencem seus seguidores que a derrota é fruto da maldade do adversário. Um dos artifícios é fragmentar a realidade, fixar-se numa era de bonança internacional, escamoteando uma longa gestão perdulária que acabou resultando nisto: retrocesso econômico, desemprego. Assisti no século passado ao fim do socialismo real. Agora assisto aos últimos suspiros do chamado socialismo do século XXI, com as mesmas filas para comprar produtos essenciais. Minha rápida incursão na Venezuela, já na fronteira, indicava o fracasso boliavariano. Ainda no lado brasileiro, em Pacaraima, via pessoas com imensos maços de notas em busca de reais ou dólares. Os caminhões de carne brasileiros voltavam cheios porque já não conseguiam pagá-los.

Aceitar a realidade não significa amargura. Talvez por isso tanta gente se refugie na ilusão e persiga tantos moinhos. Aceitar a realidade abre caminho para novas ideias, reinvenções. No século passado, foi possível abrir novos caminhos para uma esquerda limitada pela luta de classes. Ao cooptar as lutas emergentes e colocá-la sob sua asa financeira no Estado, a esquerda conseguiu levar algumas dessas lutas à caricatura. De todos os princípios que tentei preservar do desastre do século passado, ao lado da preocupação com o meio ambiente, os direitos humanos, a redução da desigualdade social, um deles é básico: a democracia como objetivo. Por mais que fale em democracia, o governo do PT a utilizou para seus próprios fins, esgrimiu seu nome sempre que isto era bom para ele.

Quando passar toda essa emoção, pode estar aí um bom roteiro para descobrir o ovo da serpente. Não adianta brigar ou cuspir, mas tentar entender a ruína do próprio projeto político. O governo vai dizer que caiu por suas qualidades. O marketing exige assim. Uma sociedade malvada rejeitou seus salvadores. É uma canção de ninar. Sofremos na terra, mas será nosso o reino dos céus. Perdemos mais uma batalha, mas será nossa a vitória final. Se conseguir interessá-los por esse paradoxo, talvez tenha valido a pena ouvir os seus insultos.

A ruína da redenção

Estamos no epílogo de um longo período de obscurantismo, que começou com uma promessa de esclarecimento.

Desde o começo, o esclarecimento, porém, tinha um forte componente religioso, baseado na ideia de uma espécie de redenção nacional. A história estaria recomeçando a partir de um ponto zero, divisor de águas entre o antes e o depois. É como se os séculos do país devessem, doravante, ser contados de uma outra maneira.

Expressões típicas desta vocação religiosa são a “herança maldita” e “nunca dantes neste país”.

Resultado de imagem para Dilma como santa charge

A primeira pôs especial relevo em que tudo o que existia anteriormente estaria marcado por um tipo de maldição indelével, fruto de pecados sucessivos, que eram, na verdade, crimes irremissíveis.

Do ponto de vista do discurso político, era o resultado de uma visão de esquerda, segundo a qual o capitalismo, o lucro, a propriedade privada e o mercado deveriam ser conjurados e controlados severamente. Um Deus político de novo tipo deveria ser honrado, manifestando-se sob a forma de um Estado intervencionista.

O lucro era o pecado, o Estado a redenção. O passado era condenável, o futuro promissor. O seu instrumento o PT e um líder carismático com pretensões messiânicas. Um toque seu podia ungir uma candidata a presidente ou um candidato a prefeito.

A segunda marcava, com fervor, o anúncio do amanhecer de um novo dia. As trevas fariam parte do passado, os tucanos seriam a sua caricatura e um recomeço estaria por vir. A certeza religiosa seria uma prova de sua revelação. Os “pobres” seriam resgatados, apresentando-se como os símbolos desta nova época.

Note-se, particularmente, que esse discurso não cessou de ser repetido, mesmo tratando-se, sob uma forma prosaica, da continuação, em maior escala, de programas sociais de governos anteriores. Não havia recomeço, porém tão somente a retomada de algo dado.

Mais precisamente ainda, a dita ascensão da nova classe média foi o resultado de uma política voltada para o mercado, consubstanciada no Plano Real, que emancipou milhões de indivíduos em uma economia estabilizada. Neste sentido, foi o mercado, e não o Estado, o verdadeiro redentor, salvo na acepção de que coube a este livrar o país da inflação e introduzir uma verdadeira responsabilidade fiscal.

Havia, porém, nesta política de cunho religioso/esquerdizante, um componente de suposto esclarecimento, tendo como eixo central a ideia da ética na política, de limpeza da esfera pública, em nome de uma outra moralidade. Trava-se, na verdade, de uma exigência da sociedade por uma nova política.

A promessa messiânica, no entanto, não tinha nenhum fundamento. Esvaiu-se em seus interesses escusos e, em um primeiro momento, ocultos. A sociedade tomou tempo em esclarecer o engodo no qual tinha acreditado. Foram penosos 13 anos que, agora, encontram o seu término.

Interessante observar que a miopia ideológica que tomou conta dos cidadãos deste país foi de tal grau que até o mensalão, germe do petrolão e da ruína atual, não foi, naquele então, compreendido em sua verdadeira dimensão. Já naquele momento havia elementos suficientes para um impeachment, porém as condições políticas estavam ausentes.

Mesmo os tucanos tiveram um problema ideológico em dar início a um processo deste tipo contra quem era considerado um “trabalhador”, na verdade um sindicalista de profissão. Era a concepção de esquerda que, blindada, se debatia com seus próprios fundamentos. A ética e a política foram sacrificadas em nome de uma crença de esquerda então ainda vigente.

Curioso também notar que, na votação do impeachment na Câmara dos Deputados, os petistas e seus “intelectuais” de plantão se insurgiram contra um suposto baixo nível dos deputados, que votaram em nome da família e de Deus.

Por que a indignação se até pouco tempo atrás os mesmos deputados eram afagados e tratados com respeito? Porque teriam mudado de posição e não mais obedeciam às ordens dos salvacionistas? Os religiosos petistas pretendem posar como “esclarecidos”. É, no mínimo, hipocrisia!

Como em um barco afundando, a visão salvacionista começou a botar água por todos os lados. Os cidadãos começaram a acordar de um longo pesadelo. Chegaram a lotar as ruas e caminhar por seus próprios passos.

A Lava-Jato foi uma espécie de culminação deste despertar, lançando as bases de um novo relacionamento dos cidadãos com a coisa pública. Não sem razão, tornou-se um patrimônio nacional.

O seu próprio nome já sinaliza a lavagem que pretendia da corrupção e da malversação dos recursos públicos, em uma triangulação entre empreiteiros inescrupulosos, governo sem caráter e funcionários/militantes a serviço partidário. Lavou a máscara petista da suposta defesa da ética na política. A fachada do governo Dilma exibiu um porão podre, fétido, cujo odor foi sentido pela sociedade em seu conjunto.

A mensagem salvacionista ruiu. O Estado intervencionista expôs toda a sua incompetência e falta de critérios e moralidade. O PIB afundou em níveis inacreditáveis. Ninguém teria acreditado há alguns anos atrás em tal competência para a destruição. Os pilares da estabilidade econômica e social foram simplesmente abolidos. O demais foi progressivamente desmoronando.

Ressalte-se, contudo, que, neste seu estertor, a presidente Dilma, o ex-presidente Lula e o PT ainda procuram manter o discurso salvacionista, voltado para os pobres e oprimidos, como se não fossem eles os responsáveis de um desemprego acima de dez milhões de pessoas, alcançando, em termos familiares, entre 40 e 50 milhões de indivíduos. Uma verdadeira catástrofe.

O Estado intervencionista/salvacionista não precisa prestar contas a ninguém, senão a si mesmo. A irresponsabilidade é a sua marca. A sua consequência, o descalabro fiscal. Não deveria, pois, surpreender a instauração de uma “contabilidade criativa” e a prática das “pedaladas fiscais”. Os seus autores sofrem, apenas, os efeitos de sua própria irresponsabilidade.

Detalhe: os mensageiros da ruína se autointitulam progressistas!

Denis Lerrer Rosenfield

Só abre a boca pra dizer besteira

Charge (Foto: Miguel)
O mais grave de tudo o que fizeram é não permitir que o Brasil combatesse o aumento do desemprego e a crise econômica
Dilma no comício de 1° de maio

'Mamãe, me acode!'

Sou um leitor interessado no que escrevem colunistas, articulistas e editorialistas. Interessa-me menos o que as pessoas falam do que aquilo que escrevem. Verba volant, scripta manent, diziam os latinos. As palavras voam, o que se escreve fica. Por experiência sei, também, que quem escreve, pensa cada palavra, pesa seu efeito, verifica sua adequação ao conteúdo e à forma do texto.

Tenho lido muito sobre os meses por vir. Há autores aparentemente convencidos de que o Brasil deve resolver seus problemas mantendo o que está em curso, sem retificar estratégias. Sair da crise, contanto que nada mude. Mudar o destino mantendo a rota. Mais, se Temer alterar políticas sociais, desabarão sobre ele não apenas as setes pragas do Egito. Também seus dentes cairão, a artrite o deformará e se fará merecedor da malquerença divina no Juízo Final. Estará ferrado aqui e na eternidade. 

Escrevo este artigo no Dia do Trabalho. De alguns textos que li se deduz que se Temer promover flexibilizações na legislação trabalhista, em vez de facilidades, estará criando dificuldades para os 11 milhões oficialmente desempregados do país! Até parece que essa multidão não está amargando a fila do SINE, mas olhando as páginas de economia dos jornais, selecionando seu futuro emprego segundo o desempenho, no mercado acionário, das empresas que oferecem vagas. Afinal, aquelas cujas ações estão bem cotadas provavelmente proporcionam bons planos de saúde, aposentadoria complementar e participação nos resultados. "Mamãe me acode!", como diria o senador Magno Malta.

Na Constituição de 1988, o Brasil decidiu constituir um Estado de Bem Estar Social onde, "passar desta para uma melhor" significa, principalmente, elevar o padrão de vida por conta do Erário, com o mínimo ou nenhum esforço pessoal. É claro que há um custo, mas como é um custo do Estado, supõe-se que ele não tenha um pagador efetivo, ao menos nesta vida. É o que se chama "pedalar a conta de uma geração para a próxima", com reembolso a juros simples, claro, que sai mais barato, segundo os entendidos.

Por incrível que pareça, o que acontece na vida real dos desempregados não entra nas cogitações de sindicatos e centrais sindicais, partidos de esquerda e, tudo indica, Justiça do Trabalho. Ninguém é mais realista do que quem está na pior. Ninguém é mais idealista do que quem se sente seguro. Aquele que bate calçada no olho da rua atrás de vaga, com família para sustentar, está mais interessado no trabalho do que nas férias, no salário do que no horário, no prato do que no sindicato, na hortaliça e no pirão do que na justiça e na convenção. Pode doer, mas é verdade. E foi o governo que criou essa situação.

A pantomima fica ainda maior quando se compreende que o Estado de Bem Estar Social - se isso existir e se sustentar - só pode ocorrer onde riqueza, investimento e poupança sejam gerados de modo permanente. Antes disso produz endividamento, inflação e desemprego. Em horas de crise, insistir em formalidades relativas às relações de trabalho muito dificulta a vida de quem está sob a regra da urgência, atrás de uma ocupação em que possa ganhar sustento.

Percival Puggina

Contra a democracia

Dilma Rousseff se refere agora à Presidência da República como “minha cadeira” – quando aquela “cadeira” é pública, a ninguém pertence. Mas não é disso que vou me ocupar aqui. O sociólogo Gustavo Falcón, autor do excelente “Reformismo e Luta Armada no Brasil”, me leva a detalhar o artiguete onde afirmei que, durante a ditadura militar, Dilma jamais defendeu a democracia no Brasil.

Falcón sabe que Dilma, expert em falsificar fatos, mente sem pudor quando se apresenta como alguém que, entre o AI-5 e os tempos de Médici, foi uma brava militante democrata. Conhecemos a história política de Dilma. Ela criou uma fantasia deliriosa para consumo próprio, bem distante da realidade da esquerda militarista em que se enrascou.

Dilma veio jovem para a esfera de influência da organização “marxista-leninista” Política Operária (onde ficou um semestre na célula da Faculdade de Economia) – a Polop, que considerava imbecilidade essa conversa de “democracia”. Livro-de-cabeceira dos polopianos era “Estado e Revolução”, de Lênin, pregação acesa a favor da destruição do Estado representativo-parlamentar.

Para o Brasil, o programa era unívoco: derrubar a ditadura dos patrões para, em seu lugar, implantar a célebre ditadura do proletariado. A democracia era olhada como manipulação alienada, desprezível. E deveria ser combatida em nome da revolução socialista. Dilma, embora militante sem qualquer relevo (na verdade, naquele arremedo de luta armada, ela nunca foi além da “intendência”), rezava por essa cartilha.

Chegou na Polop no momento do racha da organização, optando então pela facção militarista, que se confinou no Colina – Comando de Libertação Nacional. Adiante, duas vertentes da esquerda armada, o Colina e a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), se fundiram na VAR (Vanguarda Armada Revolucionária)-Palmares. E em todos esses momentos e organizações, “democracia” era palavrão. Mistificação execrável para sustentar a dominação da classe burguesa. O projeto continuava o mesmo: substituir a ditadura militar da burguesia pela ditadura militar do proletariado.

Agora, por que Dilma esconde esses fatos e se dispõe a mentir tão safadamente para o conjunto da sociedade brasileira? Simples: porque hoje fica muito bem na foto quem diz que enfrentou heroicamente a ditadura em nome do princípio maior da democracia. Mas fica mal quem admite que, como os militares, também achava que a solução estava numa ditadura. E Dilma prefere a morte do que ficar mal na foto.

Ponte para o passado

Quanto mais se aproxima do precipício, mais velocidade o PT imprime à caminhada em direção à queda. Queima caravelas e parece querer construir uma ponte para o passado, comportando-se como o partido que perdeu três eleições presidenciais antes de vencer quatro vezes consecutivas a partir de uma reformulação de imagem.

Os movimentos do partido, do governo e respectivas áreas de influência nas últimas semanas indicam a preparação de uma retirada absolutamente em desacordo com as práticas mais corriqueiras nem se diga do manual republicano, mas da civilidade, do bom senso e, sobretudo da lógica na perspectiva de quem não pretende abdicar da atividade política.



Nada do que dizem ou fazem a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva e seus correligionários guarda relação com a sensatez. Ao contrário, mais parecem personagens dos episódios da História Mundial relatados pela escritora americana Bárbara Tuchman sobre atos insensatos que levaram seus autores a construírem a trajetória das próprias derrocadas.

Vejamos alguns dos mais recentes exemplos da marcha da insensatez petista. Os discursos cada vez mais agressivos da presidente da República a levaram a contratar desafetos quando necessitava de todo apoio que pudesse reunir.

O incentivo à guerra de militantes, cuja culminância (por enquanto) deu-se na quinta-feira quando apoiadores do governo armaram barricadas em várias cidades, interditando avenidas, agredindo o direito de ir e vir da população a título de atrair “visibilidade” aos protestos contra o impeachment. Certamente não conquistaram adeptos à causa entre os “engarrafados”.

A fim de aproveitar seus últimos momentos, a presidente estava decidida a aproveitar a passagem hoje do Dia do Trabalhador para anunciar o chamado pacote de bondades como aumento nos benefícios de programas sociais e correção na tabela do Imposto de Renda. Por que não fez antes? Porque não há dinheiro. Mas, como a conta tudo indica será transferida para o sucessor, às favas com o ajuste de despesas.

A ideia de não fazer a transição para a futura administração denota o quê? Completa irresponsabilidade para com o País, nota dez em ressentimento e grau abaixo de zero no quesito espírito público. Há ainda o plano de reeditar campanha de eleições já, inexequível pela falta de previsão constitucional e de apoio no Congresso para aprovar a realização de um pleito extraordinário.

Para concluir, nem falemos sobre um pretenso périplo internacional para denunciar “o golpe”, porque deste já cuidou o Itamaraty ao se recusar, com senso do ridículo e conduta de Estado, a aderir a uma cruzada brancaleone.

Baião de dois. É fato que os 54 milhões de eleitores que reelegeram a presidente Dilma Rousseff o fizeram majoritariamente em apoio à campanha do PT. Não é verdade, porém, que o candidato a vice não os tenha recebido também. Assim como podemos raciocinar que alguns desses eleitores não tenham votado em Dilma por discordarem da aliança com o PMDB.

Todos sabiam que elegiam uma dupla. Quem votou em Aécio Neves o fez consciente de que escolhia o senador Aloysio Nunes Ferreira como o primeiro na linha de sucessão. Tal informação foi dada ao eleitor, inclusive na urna eletrônica. Um dos motivos pelos quais não faz sentido a alegação de que Michel Temer não teria a legitimidade do voto para governar.

A outra razão está no empenho do próprio PT em reeditar a parceria oficial com o PMDB firmada em 2010. E qual a motivação dos petistas? Valer-se da influência, do peso no Congresso, da presença e organização do partido com maior capilaridade no País.

Os gafanhotos do PT

Para onde vão os 22 mil servidores comissionados depois que Dilma Rousseff deixar o governo?...

Para os governos petistas estaduais e municipais, ora.

É um bando de gafanhotos do dinheiro público.

O Antagonista

Mucunaímas, vambora vambora

Sabe aqueles filmes antigos tipo O Gordo e O Magro, ou os do Chaplin, em alguma cena em que alguém aparece e põe eles para correr de algum lugar, chuchando os seus traseiros? A típica cena de uma dupla de palhaços se apresentando no circo, em que invariavelmente um ameaça chutar o outro com aqueles sapatos enormes e pontudos? O que mais a gente pode fazer para eles se mexerem e o país voltar a andar? Já ouviu falar em pó-de-mico? Os Mucunaímas seriam os novos heróis.

Todo dia eles fazem tudo igual, discutem, dão entrevistas, denunciam, são denunciados, escolhem uma gravata e que terno azul marinho ou cinza vão usar para sentar-se à frente das câmeras de tevê que registram seus sonolentos discursos, apartes, cantilenas e escamoteios. São os políticos. Os juízes da Corte Máxima fazem quebra de braço, ora entre si, ora entre os Poderes. O Executivo não executa mais há algum bom tempo - o Dilma 2.0 não chegou nem a começar porque o carro lotado de mentiras já chegou na pista bem avariado e vem sendo trazido aos soluços até aqui, empurrado arrastado, mais de um ano e oito meses depois. 

Parece que estamos vivendo uma ficção, mas o problema é que é bem real. Não é Macondo, mesmo com tantas cenas surrealistas se repetindo diante de nossos olhos, entre elas esses dias ver a criação de um governo fictício para ser como o macaco quando fura o pneu do carro. Muito louco. Saem os supostos suspeitos. Entram os supostos governantes no pretérito do Futuro, num pretérito perfeito. Não tem poesia. O que se vê é muita gente criando novelas, acreditando em suas próprias mentiras, e se enrolando e tentando enrolar mais gente. São vistos por aí falando a palavra golpe, o que os torna fáceis de serem identificados, muitos do bem, que não gostam muito de mudanças bruscas e querem sempre ficar do lado mais combativo, onde ficam fazendo "aspas" no ar com os dedos; tudo é golpe; golpe daqui - golpe dali.

Esses aí são combatidos, de outro lado, por outros que parecem saídos de contos do terror, zumbis também. Passam dia e noite falando que tudo é comunismo, esquerdopatia, petralhice e divulgando textos raivosos com informações questionáveis.

Virou guerra boba, de criança. Com bonequinhos infláveis e balões e patinhos. Um cospe no outro. O outro e a outra vão para o meio da avenida cuspir e fazer xixi e cocô na fotografia. Juntam dez para fazer fumaça e parar estradas, ameaçam rebolar e pôr para quebrar. Assim, inflamam mais ainda os que acham que vacina de HPV incentiva as meninas ao sexo, são capazes de acreditar que homossexualismo pode ser ensinado nas escolas, embutido nas cabeças, transportado em cartilhas, e desenterram o que de mais torpe esse país já teve, uma ditadura, tortura, mortes e seus agentes. Saíram da cozinha onde estavam a pueril coxinha e a popular mortadela. Agora estão todos no banheiro.

Tudo isso é o que dá mais combustível para os extremos. De um lado e de outro.

E nós? Os que seguram essas pontas? Os que estão tentando andar num país parado, vender algo no país que não tem dinheiro, comprar comida ao menos? Os que não tem nada a ver com isso e que, engolfados, são os maiores prejudicados? Os já onze milhões de desempregados, milhares de doentes sem remédios nem eira, nem beira, nem maca, as crianças microcefálicas atingidas por mosquitos e toda uma série que forma a que será, seja para quem for, como for, a herança maldita.

Tenho repetido o que me parece muito claro. O atual governo está sendo derrubado.

Não caiu ainda; está caindo. Tanto não é golpe que tem essa demora toda, porque está todo mundo - ou pelo menos a maioria que quer o seu fim- pisando em ovos, buscando fazer tudo certinho, ler até as letras pequenininhas. No momento se julgam as tais pedaladas, os fatos específicos que para a grande população pouco importam, se é isso ou se é por causa do cabelo dela. Não somos um país com tradição e conhecimento político, e teremos essa certeza quando o voto não for obrigatório. O que digo é que a maioria já está ficando de saco cheio da demora, de ouvir a mesma coisa, de todo dia conhecer um bandido novo e a situação ficar sempre mais alarmante. Querem, como disse no começo, dar um chute em alguns traseiros, jogar pó-de-mico onde esses caras passam para ver eles se coçarem.

Querem que se cocem, no sentido figurado, ou seja, que saiam andando do poder o mais rápido, enquanto ainda podemos agir e voltar para um bom caminho.

Momento informação: o pó de mico vem de uma planta chamada Mucuna ou mucunã com pelos que soltam uma enzima urticante chamada, vejam só, mucunaíma, e que dizem também ser excelente contra vermes.

Seríamos então um novo vetor popular nacional: seríamos todos temidos Mucunaímas.

Os porcos de Shangai

Dia desses, lendo um jornal da distante China, encontrei uma notícia curiosa: em um rio próximo a Shanghai descobriram algumas carcaças de porcos boiando - umas duas dezenas, para ser mais exato.

Não dei, naquele dia, a devida importância a este fato. Mas eis que o desfile de suínos falecidos, além de não parar, não parou de aumentar! Em poucos dias eles já eram quinhentos. Em uma semana, cinco mil. Imaginem cinco mil porcos mortos boiando pelo rio afora...

Continuei a acompanhar os acontecimentos. Pois bem: no dia em que escrevi estas linhas eles já eram 16.000! Enquanto isso, por incrível que pareça, as autoridades chinesas ainda não tinham conseguido localizar a origem precisa de todos aqueles suínos - repito, 16.000 boiando pelo rio abaixo...


Enquanto isso, lá em Gana, 40 milhões de toneladas de lixo tóxico aparecem todos os anos. Recentemente decidiram fazer alguns testes em uma escola localizada perto de um “lixão” e constataram que as crianças apresentavam índices de contaminação por chumbo e cádmio 50 vezes superior ao máximo tolerável. Só para que se tenha uma ideia, o solo ao lado continha chumbo em índices doze vezes superiores ao máximo admitido.

Dizem alguns que tal “montanha” de lixo tóxico, em sua maioria eletrônico, lançada todos os anos sobre aquele pobre país africano, vem da Europa ou dos Estados Unidos. Mas a verdade é que, assim como os porcos lá de Shanghai, não se sabe ao certo de onde aparece.

A Albânia também tem sido “contemplada” com lixo desta natureza - de eletrônicos a medicamentos vencidos, passando por resíduos de óleo. Um único carregamento, interceptado em 2009, continha 1.500 toneladas de óleo usado, meia tonelada de baterias e duas toneladas de componentes químicos comprovadamente cancerígenos.

Discute-se sobre a origem deste lixo. Alguns acusam a Europa, e há até quem aponte organizações mafiosas como culpadas. Porém, exauridos os ânimos investigatórios, o fato é que, assim como ocorre com os porcos de Shanghai, ainda não se entendeu muito bem o que está acontecendo.

No não tão distante ano de 2006, só a California (EUA) despachou para a “lixeira” (alguns países do resto do mundo) mais de nove mil toneladas de lixo eletrônico, rico em resíduos perigosos como o chumbo e o mercúrio. Deste total, cerca de 1.190 toneladas vieram parar aqui no Brasil.

Uma vez mais, assim como acontece com os porcos lá de Shanghai, ninguém consegue saber ao certo o que está havendo.

Após algumas pesquisas, descobri uma sinistra denúncia do Greenpeace: “a cada ano milhares de toneladas de lixo tóxico dos Estados Unidos da América são lançados em fazendas, praias e desertos no Bangladesh, Haiti, Somália, Brasil e dezenas de outros países”. Consta que até poluentes capturados por filtros de chaminés entrariam neste “coquetel”, quase sempre rotulado como “fertilizante” para iludir a fiscalização - aliás, já descobrimos no porto de Santos um desses carregamentos.

Assim como os chineses em relação aos porcos de Shanghai, os ocidentais ainda não conseguiram descobrir quem exatamente está espalhando tanto lixo tóxico pelo planeta afora, em contraste com tantas políticas de defesa da natureza - sobre as quais ninguém, absolutamente ninguém, discorda.

Enquanto isso lá se vão, rio abaixo, as carcaças dos 16.000 suínos chineses. Anônimas, silenciosas, carregam em seus lombos a advertência eterna de Ernest Hemingway: “por quem os sinos dobram? Eles dobram por nós”.

Pedro Valls Feu Rosa

domingo, 1 de maio de 2016

Charge do dia 01/05/2016

Por um debate fecundo

Faltam metáforas. É mais que um atoleiro. Não se trata apenas de constatar que o país está paralisado ou congelado, rolando morro abaixo. A situação de emergência obriga a estabelecer prioridades.

Não se pode ficar esperando que o céu nos caia sobre a cabeça, que o país quebre de uma vez, enquanto não se faz nada e os aposentados continuam sem receber, os hospitais sem atender, os alunos sem aulas, a segurança pública se deteriorando mais do que nunca, as obras interrompidas, e um cortejo de horrores se sucedendo. Já que a realidade não tem nada a ver com o mundo de mentirinha que a propaganda governamental insistia em mostrar, era óbvio que a conta dos desmandos ia chegar.

Chegou.

Com ou sem impeachment, é urgente ter clareza sobre o que é inadiável e prioritário.

Não dá para desviar o foco o tempo todo ou embromar e postergar indefinidamente. As discussões precisam deixar de lado a raiva espumando, a saliva e as cusparadas e tentar enxergar as prioridades.

Vai ser preciso negociar, buscar consenso.

Seria bom se cada um de nós, ao menos para si mesmo, se preparasse para esse debate e encarasse certas questões. Por exemplo, quais os pontos fundamentais a enfrentar com urgência?

Na primeira pessoa, e sem pretender impor nada a ninguém, de minha parte creio que há um tripé, no qual duas pernas são emergenciais: a economia e o respeito à Justiça.

Há que tomar medidas econômicas urgentes para restabelecer confiança no Brasil, mostrando que somos capazes de ver e dizer a verdade nessa área, merecemos credibilidade, reconhecemos nossos erros e nos dispomos a consertá-los. Mais que isso, é preciso um projeto para o país, formulado com nitidez e competência, reafirmando que a responsabilidade é um valor respeitado e a política econômica não será uma rolha na água, ao sabor de ondas e ventos, mas uma navegação segura e consciente rumo a um porto determinado, mesmo que o mar esteja grosso.

Ao mesmo tempo, tenhamos clareza sobre as conquistas de que não estamos dispostos a abrir mão, sobre quanta solidariedade queremos ter com os mais sacrificados em nossa sociedade, a quantos e quais privilégios podemos renunciar, que valor damos à equidade. Já que o dinheiro público não é infinito, a sociedade precisa definir onde ele deve ser gasto.

Que cada um veja o que pensa, para arejar a discussão sem seguir a manada. Por exemplo, universidade pública ou ensino fundamental e médio de melhor qualidade? Subsídios para empresas? Estabilidade para funcionário público que não produza? Pensões eternas para filhas e viúvas de militares? Aposentadorias prematuras? Isenção fiscal para igrejas? Para partidos políticos? Aumento dos recursos do fundo partidário? E precisa ter tanto partido assim? Tanto burocrata pago com dinheiro público? Tanto ministério? Tanto deputado? Tanto município? Onde se pode cortar?

São muitos ralos por onde escorre a riqueza da nação, vamos ter de fechar alguns. Quais? Até que ponto vamos deixar que privilégios se confundam com direitos adquiridos?

Vale lembrar que em nossa história, para retardar a Abolição, já tivemos o vergonhoso argumento de que donos de escravos, ao comprarem sua mercadoria humana, adquiriam direitos que precisavam ser mantidos ou indenizados.

Outra coluna prioritária é a garantia de que a Justiça vai ser para todos, sem se tolerar qualquer tentativa de obstruí-la. Para isso, as investigações devem continuar, a Lava-Jato não pode ser cerceada, o Ministério Público e o STF devem cumprir seu papel constitucional, o sigilo deve ser mantido enquanto necessário e ceder a vez à transparência e à publicidade quando não o for mais. Como a lei manda.

Garantidos esses dois pilares básicos, vai ser preciso enfrentar o terceiro: mudar a estrutura eleitoral e partidária que distorce nossos votos na ponto de sentirmos que os chamados representantes do povo não nos representam.

Essa reforma política ampla é também fundamental, para buscarmos regras que aperfeiçoem o processo e evitarmos a repetição dessas tristes realidades a que temos assistido — das campanhas mentirosas vencedoras, à eleição de candidatos menos votados que os derrotados.

Será necessário criar antídotos para a compra de votos e punir a corrupção “esperta” disfarçada de legal. Limitar o foro privilegiado ou acabar com ele. Discutir o fim da reeleição, voto distrital misto, mecanismos de recall. Mas esse conjunto de reformas, igualmente essencial, exige um debate multifacetado e constitui um processo mais lento e menos emergencial.

Se conseguirmos prioritariamente aumentar a confiança na economia com medidas responsáveis e eficientes, e se garantirmos a continuidade das investigações na Justiça, estaremos dando os primeiros passos. De gigante, mas possíveis.

O país tem instituições fortes, quadros capazes e potencial para isso. Porém, cada um deve ter consciência de quanto se dispõe a colaborar para um debate mais isento e realista. Mais útil e fecundo. E caminhar nesse sentido.

Ana Maria Machado 

Nada a comemorar

Com 11 milhões de desempregados, 22% a mais do que em dezembro e quase 40% (39,85%) acima dos 7,9 milhões que procuravam ocupação no primeiro trimestre de 2015, o Brasil nada tem a comemorar neste 1º de Maio. Ainda assim, São Paulo – a capital do trabalho e hoje do desemprego – vai cair na folia sob o patrocínio das milionárias centrais sindicais e do governo Dilma Rousseff, que, mesmo findo, quer se aproveitar da data para distribuir bondades que o país não pode pagar.

Incluem-se aí os reajustes dos valores pagos ao Bolsa-Família e da tabela do imposto de renda. Bombas que Dilma pretende lançar para explodir no colo do vice Michel Temer, que ela e o PT insistem em dizer que não tem legitimidade para assumir a Presidência por não ter voto popular. Por absoluta má-fé, não contam ao distinto público que ao vice são contabilizados os mesmos votos do titular. E que a figura do vice só existe para assumir em caso de vacância do presidente, seja por viagem, doença, impeachment ou morte.


Entre idas e vindas, vou e não vou, Dilma deverá anunciar os presentinhos de última hora ao lado do ex Lula no palanque montado pela CUT no Anhangabaú, área central de São Paulo. Fará de conta que nada tem a ver com a crise e os milhares de desempregados. Ali o “não ao golpe” e “a defesa da democracia” se confundirão com os shows de Chico César, Luana Hansen e Detonautas. E aos sambas de Martinho da Vila e Beth Carvalho.

Na Zona Norte da cidade, a Força Sindical promete shows de Michel Teló, Paula Fernandes e outros ícones da música sertaneja, além de sorteios de 19 carros zero. Para tal, conseguiu patrocinadores-patrões, como a Hyundai, e o apoio oficial do governo do estado de São Paulo. Como contabilizou vaias em anos anteriores, o governador Geraldo Alckmin deve passar longe do palco do Campo de Bagatelle.

Menos dispendiosa, mas impactante, a UGT inaugura uma exposição fotográfica ao ar livre --“Os trabalhadores e os 100 anos de samba”--, com painéis gigantes instalados na Avenida Paulista. Por lá devem passar o ex-prefeito, ex-ministro de Dilma e dono do PSD, Gilberto Kassab, e o candidato a prefeito Andrea Matarazzo.

Assim como Dilma, que há tempos acionou o mecanismo de defesa que a mantém desconectada da realidade, as centrais sindicais não têm mais qualquer sintonia com os seus representados.

A maior parte dos trabalhadores quer se ver livre delas. Ligam-se aos sindicatos – e, consequentemente, às centrais -- não por vontade, mas por imposição da lei. Discordam do imposto compulsório que enchem as burras de quase 11 mil associações sindicais, federações, confederações e centrais.

Em 2015, mais de R$ 59 milhões chegaram à CUT, outros R$ 47 milhões à Força, e R$ 44 milhões à UGT. Números que caem com o desemprego, mas que, ainda não contabilizadas as contribuições obrigatórias dos empregados, só feitas no final de abril, já respondem por mais de R$ 5 milhões só nos dois primeiros meses do ano.

Uma fortuna que sai do patrão e do salário do trabalhador e que, por decisão do governo no período em que Lula presidia o país, está livre de qualquer auditoria. Corre livre, leve e solta.

Mais: mesmo entregando ao imposto sindical um dia de labuta, trabalhador algum opina quanto à posição política de sua representação sindical. Nem a UGT, nem a Força, nem a CUT perguntam aos seus filiados quantos apoiam ou não o afastamento da presidente Dilma. E se eles topam o alinhamento automático.

Ainda assim, a CUT empunha seus balões vermelhos contra o “golpe”, é linha auxiliar do PT. Custeia com dinheiro dos trabalhadores que não foram consultados as manifestações pró-Dilma, como se tivesse aval de seus associados para fazê-lo. Torra o imposto compulsório do trabalhador a seu bel prazer, em uma causa que só interessa aos seus dirigentes.

E isso é só um pedaço da república sindical que nestes 13 anos de petismo viu multiplicar sua força, seu poder e sua grana. Já o trabalhador...

A hora é de fazer contas


Por trás do barulho em torno do impeachment ha um movel muito mais prosaico e objetivo que as “razões ideológicas” alegadas nos discursos oficiais cuja elisão torna impossível compreender os papéis assumidos por cada ator do nosso patético dramalhão.

Ele se chama dinheiro.

Produzir contas devastadoras sem dar satisfação a ninguém é prerrogativa exclusiva daquele “nós” do “nós contra eles” de que vivem falando o ex-presidente Lula e a ainda presidente Dilma. Pagá-las é sempre a cova com palmos medida desses latifundios que cabe exclusivamente ao “eles”. Este nosso doloroso transe gira essencialmente em torno de definir quem vai pagar a última, recorde absoluto de todos os tempos. Como está claro que desta vez não vai ser possivel jogar tudo nas costas dos “eles” de sempre e os “nós” terão de devolver uma parte significativa do que tomaram à Nação se quisermos que a economia volte a respirar, os ânimos estão pra lá de exaltados, com “o exército” adrede convocado todo ele nas ruas, viajando em ônibus pagos por nós, os “eles”, do Oiapoque ao Chuí, carregando sempre aquele mesmo elegante conglomerado de barracas brancas e pontiagudas de onde partem as “manifestações espontâneas” desses “movimentos sociais” para rugir, seja de dentro dos salões do Palácio do Planalto, seja nas avenidas paulistas do Brasil, que no que é daqueles tantos poucos ninguém há de tocar.
A partir da catastrófica Constituição de 88, quando a carga fiscal estava em 24% do PIB, em linha com a de países do mesmo nível de desenvolvimento, começa o “ciclo de expansão fiscal” que a trouxe até os 36% do PIB nominais de hoje aos quais a orgia petista acresceu outros 10% do PIB de deficit basicamente distribuindo e incentivando a distribuição de cargos e salários na União, nos estados e nos municípios enquanto subsidiava o consumo do povão com dinheiro dos impostos compartilhados com esses entes da falecida federação. Não obstante a excelente opinião sobre si mesma que tem Dilma Rousseff, foi esse redobrar dos gastos junto com o minguar da arrecadação para comprar poder dentro do Estado e votos fora dele que acabou de quebrar o Brasil e enterrar na miséria os eleitores de 2014 que ela tapeou com as nada inocentes “pedaladas” com que tratou de esconder sua falcatrua.

A situação resultante é de uma clareza meridiana: nada menos de 46% de tudo que o Brasil inteiro produz é apropriado pelos 11 milhões e 100 mil indivíduos humanissimamente humanos (5,4% da população) em que se corporifica a entidade mítica reverencialmente chamada de Estado. São R$ 2.714.000.000.000,00 (dois trilhões setecentos e quatorze bilhões de reais) sobre um PIB de 5,9 trilhões em 2015 mas, cada vez mais, só isso não chega. Tudo se esvai na “sustentação da máquina” com benefício menor que zero para o contribuinte em matéria de educação, saude, saneamento, infraestrutura e segurança publica. O governo investe hoje menos (2,4% do PIB) do que investia em 1988 (3% do PIB), antes da proporção do PIB que abocanha quase dobrar.

Por cima dos funcionários que têm qualificação, trabalham e em geral são miseravelmente pagos, boia a nata cada vez mais grossa dos não concursados filhos do comércio de “governabilidade” e dos detentores da dita “autonomia administrativa” que se outorgam supersalários recheados de “auxílios” isentos de imposto de renda. E acima de todos exibem a sua impunidade os donos dos “cargos de confiança”, eufemismo para os parentes e amigos mais queridos e para os agentes explícitos dos ladrões, seus padrinhos, que sugam o sistema naquela medida que fez do país o campeão mundial da corrupção.

O numero de funcionários não chega a ser exagerado comparado ao resto do mundo. Mas a consagração do privilégio oficial e explicitamente como prêmio pela cumplicidade com esquemas criminosos de perpetuação no poder baniu do serviço público os últimos traços de meritocracia e sentido republicano. Cada órgão público, na razão inversa da sua real necessidade para qualquer coisa que interesse ao contribuinte, incorpora hoje um sistema completo de hotelaria de luxo onde motoristas e garçons, apenas por terem as costas de quem manda sempre ao alcance dos seus “tapinhas” de áulicos, ganham mais que professores e médicos concursados e titulados com mestrado e doutorado; automóveis, passagens, médicos e dentistas particulares e outras mordomias obscenas criadas e desfrutadas frequentemente por gente fichada na polícia consomem muito mais verba que hospitais, escolas e obras de saneamento básico.

O que tais crimes fizeram com o país é a razão última da queda iminente deste governo. Mas o discurso oficial quer dar a tudo ares de “disputa ideológica”. Dá espaço para mais esta fraude a passividade com que a imprensa privilegia as palavras sobre os fatos. A hora é de fazer contas pois, ainda que vá o governo para onde merece sua obra deletéria continuará pesando nas costas dos brasileiros em nome da intocabilidade dos “direitos adquiridos”, mãe de todos os privilégios adquiridos.

Quantas CPMF’s poderiam ser poupadas se apenas os tais “auxílios” passassem a pagar imposto como salários que são? Quantas se o princípio basilar de igualdade perante a lei fosse aplicado às aposentadorias públicas 33 vezes maiores em média que as privadas? Se apenas os abusos da chamada “autonomia administrativa” revertidos em decretos em causa própria (salários e auxílios) fossem anulados em nome do princípio do “desvio de finalidade”? Se as nomeações (e futuras aposentadorias e pensões) “de confiança” fossem revertidas?

Sim, os tres poderes, de tão podres, funcionam neste momento sob o jugo da necessidade. Mas ao 4º cabe sair da hipnose com a disputa pelo poder em que vive, medir os dois Brasis e tratar de dar a uma sociedade explorada os argumentos de que vai necessitar para evitar que mais uma vez, os “nós” safem-se de tudo às custas dos “eles” e o país permaneça, como sempre, um milímetro acima do limite da sobrevivência.

PT nunca liderou a esquerda no Brasil

Numa entrevista a Mônica Bergamo, Folha de São Paulo, edição de segunda-feira, o prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad, afirmou que o PT vai sobreviver à tempestade que atinge o governo Dilma Rousseff, mas pode deixar de ser o partido hegemônico da esquerda brasileira. Haddad cometeu, a meu ver, um duplo equívoco: o Partido dos Trabalhadores era uma legenda de oposição, mas nunca, a rigor, foi de esquerda. Principalmente porque a esquerda deixou de existir no campo ideológico fundamental.

A esquerda, na Europa, era um marco divisor entre capital e trabalho. No Brasil, não. Os partidos podiam se considerar esquerdistas. Mas no fundo não se empenhavam para mudar a dualidade. Queriam, isso sim, os fatos comprovam, substituir os capitalistas, chegando a seu universo de prazeres e posicionamentos. Não se propunham, aliás jamais se propuseram, a melhorar efetivamente a distribuição de renda. Lutavam para obter a renda para si, o que é muito diferente.

Quadros partidários do PT, a Operação Lava Jato comprova, formaram uma aliança com as grandes empreiteiras, como a Odebrecht e a Andrade Gutierrez. Sob a sombra de tal coligação, concretamente assaltaram a Petrobrás e abalaram, não só o governo conquistado nas ruas e nas urnas, mas a própria economia nacional.

Com a lista de propinas atribuída à Odebrecht, por exemplo, a empresa transformou-se numa legenda suprapartidária. Onde está a esquerda? Em lugar algum.

Ao invés de se esforçar para suavizar, pelo menos isso, a diminuição do Produto Interno Bruto, o PT compactuou, esta sua maior contradição, com uma ainda maior concentração de renda. Tanto assim que o trabalho perdeu sua capacidade de consumo – portanto, sua presença na distribuição dos pedaços do bolo.

O PT passou a se basear no antigo princípio sinuoso: o capitalismo para si, o socialismo para os outros. No Brasil, o que na realidade traduz a ideia socialista? O desejo de reforma, não a manutenção do panorama. Trata-se no fundo, de fazer simplesmente com que os salários não percam para a inflação, pois neste caso estarão sendo reduzidos.

Nada mais do que isso é necessário para sustentar os níveis de consumo e assegurar o crescimento da produção e, por conseguinte, a comercialização.

Sem salário digno, não pode haver saneamento, moradia, saúde e educação, uma vez separadas as obrigações inerentes ao poder público, em todas as suas escalas, e os legítimos interesses particulares. Ao contrário de tudo isso, o que ocorreu ao longo dos governos Lula e Dilma Rousseff foi a expansão de um conservadorismo ultrapassado, que não admite transferir um centésimo de seus ganhos à valorização do trabalho, em nosso país representado por 100 milhões de homens e mulheres que formam a mão de obra ativa.

O salário médio brasileiro, de acordo como IBGE, flutua em torno de 2 mil e 400 reais, mês. 1/3 dos trabalhadores ganham apenas o salário mínimo. Cinquenta por cento percebem de 1 a 3 mínimos. Onde está a tão falada redistribuição de renda? Uma fantasia eleitoral destinada somente a renovar esperanças perdidas nas nuvens do tempo.

Ser de esquerda no Brasil é tão somente sonhar com uma política reformista que, sem sensibilizar o lucro do capital, evite o empobrecimento progressivo de 204 milhões de brasileiros. O PT, alguma vez, lutou concretamente por isso? Jamais. De sua ideia original, acabou unindo-se às forças, nem sempre honestas, do capitalismo.

O PT nunca foi de esquerda. Iludiu com a posição ao governo FHC com o impulso reformista de fato. Seu fracasso de agora expõe sua farsa de ontem.

Quem está pagando as contas de Lula?

Até o momento, R$ 800 mil em hotel

Nas últimas semanas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem se dedicado a uma atividade pouco republicana: evitar a queda da presidente Dilma Rousseff, aprovada pela Câmara dos Deputados e amparada em preceitos constitucionais. Em sua sanha desesperada, Lula reúne-se com velhos camaradas, conspira ao lado de integrantes relutantes do governo, urde tramas mirabolantes para conter o naufrágio do projeto petista. Na esperança de que as tramoias surtam algum efeito, Lula se aboletou no Royal Tulip, hotel localizado a menos de 1 km do Palácio do Alvorada, a residência oficial de Dilma. Por si só, a proximidade com o Alvorada é uma afronta ao processo de impeachment. Afinal, apenas alguns poucos metros separam o comando da nação de um QG que tem o objetivo de buscar apoio, de forma nem sempre republicana. Mas há outro motivo que causa ainda mais indignação. Lula e seus asseclas têm gastado uma pequena fortuna para manter o aparato. Quem paga essa conta?

Em busca do poder perdido, Dilma e Lula querem semear o caos no país

Não há mais a menor dúvida. Orientada pelo ex-presidente Lula da Silva, que há um mês instalou seu escritório político no hotel Royal Tulip, bem próximo ao Palácio da Alvorada, a presidente Dilma Rousseff está colocando em prática a nociva política da terra arrasada, para dificultar ao máximo a gestão de Michel Temer. As ações estão divididas. Sob comando de Lula ficaram os “exércitos” de João Pedro Stédile (sem terra) e de Guilherme Boulos (sem teto), ao lado das tropas da CUT, dos sindicatos e movimentos populares que se misturam aos militantes do PT nos violentos protestos em cidades e rodovias. Enquanto isso, no Planalto, a presidente Dilma coloca em prática o boicote total à nova administração, tomando decisões que acarretem aumentos de despesa ou provoquem problemas de difícil solução, como a demarcação em massa de áreas indígenas.

Há informações de que também estariam sendo destruídas as informações administrativas, mas isso não é concebível, pois existem funcionários de carreira que nada têm a ver com o PT, trabalham para o país, não são servidores do partido. Essas notícias devem ser exageradas, vamos aguardar confirmação.

Ao mesmo tempo, surgem versões de que essa radicalização culminaria com Dilma Rousseff se recusando a receber a intimação que o primeiro-secretário do Senado é obrigado a lhe entregar, na forma da Lei 1079, para determinar que se afaste do governo por 180 dias.

Em Brasília não se fala em outra coisa. A intenção do núcleo duro petista é fazer com que Dilma Rousseff ocupe o Palácio do Planalto, ao invés de se recolher ao palácio residencial, para impedir que Michel Temer assuma concretamente o governo.

Ou seja, o objetivo é que a presidente seja obrigada a deixar o Planalto de forma coercitiva, detida pela Polícia Federal e levada à força para o Alvorada, diante das câmaras das TVs. Com esse projeto fantasioso, a cúpula petista acredita que seria possível criar a imagem de um golpe de Estado não somente para divulgação no exterior, mas também para incitar os “exércitos” do lulopetismo na radicalização dos atos públicos.

É difícil acreditar que a reação chegue a esse ponto. O mais inacreditável ainda é que Lula e o núcleo duro do governo estejam usando Dilma Rousseff como massa de manobra, sem levar em consideração o delicado estado de saúde dela, submetida a tratamento para esquizofrenia e ingerindo medicamentos de tarja preta. O que o PT faz com ela é uma perversidade, que fere deliberadamente os direitos humanos de uma mulher fragilizada.

Para se ter uma ideia da situação, Dilma Rousseff só consegue dormir tomando Midazolam, uma substância que as pessoas ingerem antes de se submeter à anestesia geral. É um medicamento muito forte e perigoso, causa dependência, tem graves contraindicações e não pode ser ministrado indefinidamente, sobretudo a pessoas idosas.

Em seus delírios, Dilma deve se sentir como a guerrilheira de outrora, que tentava derrubar um regime militar. Mas na verdade ela está enfrentando hoje apenas um moinho estocador de vento, acompanhada por um Sancho Pança bêbado e trôpego, que a incentiva a se autodestruir.

É uma história muito triste, que parece ficção e não deveria estar transcorrendo na vida real. Esperamos que tenha um final feliz, mas as perspectivas são sombrias.

Até tu, Mujica!

As queixas estão aumentando e partem de empresários e do próprio governo. Mujica prometeu muitos projetos de infraestrutura que nunca aconteceram, vendeu uma fantasia que não se tornou realidade. Nenhuma de suas ideias mudou a vida dos uruguaios.
Daniel Chasquetti, professor da Universidade da República

Obcecada pelo 'golpe', Dilma não gere o Estado

Desde que iniciou o seu segundo mandato, Dilma Rousseff persegue dois objetivos estratégicos: não cair e manter acesa a ilusão de que preside. Fracassou. Sua queda está programada para daqui a dez dias. E a simbologia do poder escorre na direção do gabinete do vice-presidente Michel Temer. Acéfalo, o governo do PT virou uma espécie de latifúndio improdutivo que o PMDB ocupa.

A caminho do cadafalso montado no plenário do Senado, Dilma anda tão ocupada em compor o enredo do “golpe” que já não lhe sobra tempo para presidir o Estado. Sua agenda está 100% dedicada ao esforço para grudar nos partidários do impeachment a pecha de “golpistas”. Ironicamente, a maioria dos usurpadores é composta de silvérios que Dilma chamava de “aliados” até ontem.

De acordo com os registros disponíveis no site da Presidência, Dilma concedeu nas últimas três semanas 28 audiências individuais. Em 25 delas, ou 89,3% do total, Dilma conversou com ministros e políticos sobre sua estratégia anti-impeachment. Nas outras três (10,7%), recebeu personagens que foram prestar-he solidariedade: o Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, o presidente da Contag Alberto Ercílio Broch, e o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ).

Dentro ou fora do Planalto, as solenidades ornamentadas com a presença de Dilma tornaram-se meros pretextos para que uma presidente em fase de derretimento repise a tecla do “golpe''. Há dois dias, num evento sobre o programa Mais Médicos, ela chamou de “ridícula” a acusação de que cometeu crime de responsabilidade.

Convertido em advogado de Dilma em tempo integral, o ministro José Eduardo Cardozo (Advogacia-Geral da União) ecoou o discurso de sua chefe na comissão de impeachment do Senado. Irônico, o senador Cristovam Buarque (PPS-DF) disse que Cardozo não deveria falar em “golpe”. Sob pena de passar por ridículo, já que os golpistas estavam ali, de cara limpa, para testemunhar o exercício do direito de defesa da presidente, num processo regulado pelo STF. Tudo transmitido ao vivo pela tevê.

Dois dias antes, Dilma discursara numa conferência sobre direitos humanos. Dissera que o impeachment, aprovado na Câmara em 17 de abril, está maculado por um “pecado original” chamado Eduardo Cunha. “O senhor presidente da Câmara queria fazer um jogo escuso com o governo. Votem para impedir que eu seja julgado no Conselho de Ética, tirem os votos que o governo tem no Conselho de Ética. Eram três votos. E aí eu não entro com o processo de impeachment.”

.Se o governo aceitasse a negociação, disse Dilma, entraria “em processo de apodrecimento. Por isso, nós recusamos essa negociação.'' A oradora esqueceu de mencionar que havia recebido o “pecado original” no Planalto. Negociara com ele um plano de proteção mútua do tipo uma mão suja a outra. Mas o PT, na última hora, recusara-se a entregar seus três no Conselho de Ética. Sem a mercadoria, Cunha colocou para andar o processo de impeachment que transformou Dilma numa presidente cujo poder é invisível a olho nu.

Na última sexta-feira, ao explicar as razões que levaram o governo a antecipar o repasse do orçamento da Polícia Federal para o resto do ano, o ministro Eugênio Aragão (Justiça) cometeu um ato falho que resumiu o estágio em que se encontram os funerais da gestão Dilma:

“…É possível que nós tenhamos uma presidenta suspensa de suas funções [pelo Senado, em 11 de maio]. E nós estamos querendo garantir que, durante esse período excepcional de até 180 dias, a Polícia Federal funcione independentemente da crise política.” Simultaneamente, Michel Temer discutia em São Paulo, numa reunião com o futuro ministro Henrique Meirelles (Fazenda), as primeiras medidas econômicas do governo “golpista”.

Neste domingo, em pleno Dia do Trabalhador, Dilma distribuirá “bondades'' com uma generosidade que combina com sua inusitada condição de ex-presidente ainda no exercício da Presidência.

Escola pública: comunidade zumbi

Quem dera se fosse dos Palmares... Pelo menos faríamos história, deixaríamos marcas culturais, lutaríamos por ideais. Mas falo de mortos-vivos. Dos que assombram construções em ruínas, dos que vagam por pátios, sem rumo nem interesse por nada. Dos que vão trabalhar como se fossem a um matadouro. Dos que preferem morrer a estudar. É disso que falo: do cemitério terrível que a comunidade escolar se transformou na sua grande maioria, mesmo que aqui e ali ilhas de excelência nos emocionem em reportagens especiais. Especiais, pois no geral é o caos.

Querem a receita para criar um país de mortos-vivos? Sangrem a escola, suguem as almas dos professores, tirem a autoridade deles de forma lenta e gradual, de preferência torturando-os com salários aviltantes, impondo períodos de trabalho forçado, desumano e com requintes de sadismo, atrase seus proventos. E, melhor, tirem deles instrumentais mínimos, como ambiente decente, tecnologia mínima, tempo para reciclagem, reconhecimento do trabalho domiciliar para preparar aulas e corrigir tarefas e provas, deixando de remunerá-los para tanto. 


Acrescente turmas cada vez maiores, na mesma proporção em que são desinteressadas e hostis. Coloque-os no paredão de fuzilamento de conflitos com os pais e os imprense às exigências de ter ranking nos testes tipo Pisa, Ideb, Enem, e por aí vai. O que sobrar, esprema e envie por Sedex ao primeiro sanatório que ainda existir.

Pobres (literalmente) professores, para-choques de todos os males que a sociedade cria. Testemunhas de violência doméstica, abusos, devastação das drogas, degradação sócio-econômica, desfazimento dos tecidos familiar e social. E vítimas de tudo isso, angustiados e impotentes. Ameaçados e sequestrados pela falência da moral, da ética, dos princípios elementares.

E os pais? Desmoralizados e atropelados pela inabilidade tecnológica, desprezados por seus filhos egoístas e indiferentes, exigentes e autistas, movem em meio à chantagem emocional, às culpas, à falta de tempo e de dinheiro, sonhando com um futuro para seus filhos que no fundo nunca será como esperado. Reclamam da escola, com e sem razão, mas mal conseguem trocar meia dúzia de palavras ou impor regras, disciplina e limites. Aguardam que na escola isso ocorra. Santa ingenuidade!

Alunos? Quem? Considerando que recentes pesquisas mostram que quase dois em cada três “odeiam” estudar, acham desinteressante, preferem ficar conectados ao seu smart, não percebem valor no conteúdo escolar em sua vida prática ou simplesmente não entendem o que o professor fala ou não prestam atenção. Em média, se dispersam após 5 minutos de aula. Têm distúrbio de sono de forma média a severa mais de 60% dos estudantes entre 12 e 18 anos, o que compromete memória, atenção, promove irritabilidade, nervosismo e agressividade. Uma noite sem dormir para crianças e adolescentes (em baladas ou viciados em telas) é altamente lesiva ao cérebro, duas noites numa semana são avassaladoras. Será a futura geração do Alzheimer precoce.

Faltou alguém? Sim, os funcionários de escolas. Esses fundamentais e pouco lembrados porteiros, pessoal das secretarias e da administração, o pessoal da merenda, os supervisores de pátios, serviços gerais. Heróis anônimos, que mantêm um mínimo de ordem e sanidade nesse espaço caótico. Meu Deus! Que esse filme seja uma ficção. Que algo pulse no coração da sociedade para que possamos retomar a consciência cívica. Que a lucidez ilumine a mente dos que detêm o poder para que um mínimo de bom senso brote de uma verdadeira liderança. Que a alma que habita cada um de nós entre no espírito coletivo e faça uma revelação tão gritante quanto imperceptível: que traga, para a sobrevivência da comunidade escolar, a esperança de novos tempos!

Em 'último suspiro', Dilma mira 2018 e legado pessoal

Para o brasilianista Matthew Taylor, professor da American University e membro dothink tank Council on Foreign Relations, baseado em Washington, as iniciativas chegam “tarde demais” para surtirem efeito imediato, e miram muito mais uma potencial candidatura do PT em 2018 e o legado pessoal da presidente.

Em entrevista à BBC Brasil, Taylor indicou que as ações de Dilma chegam após amplas concessões dos governos do PT ao que classifica como a bancada “BBB” (Bíblia, Bala e Boi) - que a abandonou e votou em massa a favor do impeachment - e visam reparar, a longo prazo, a imagem de Dilma e do Partido dos Trabalhadores.

No entanto, o especialista acredita ser muito difícil que a presidente consiga “apagar sua história como a ‘gerentona do PAC’ e a pessoa que pressionou para a construção da hidrelétrica de Belo Monte com muita força e a contragosto de muitos grupos da esquerda tradicional no Brasil”.

Como o senhor avalia o estágio atual da crise política no Brasil?


Matthew Taylor - Há uma grande possibilidade de o Senado remover Dilma do poder até a metade de maio, levando a sua suspensão por até 180 dias. Se isso acontecer, creio que as chances de ela ser permanentemente afastada do cargo sejam muito altas. Mas uma vez que ela esteja temporariamente afastada, o vice-presidente Michel Temer já terá o poder de gerenciar as verbas da União, o que é um fator importante. Diante desse cenário, o que temos visto é que a presidente tem feito tudo que está ao seu alcance para tentar ganhar vantagem nesta reta final e deslegitimar tanto o processo de impeachment quanto a figura de Temer.

Uma frente para atingir estes objetivos é tentar dividir o Senado, buscando a criação de uma divisão dentro do PMDB. Outra iniciativa é falar mais com a mídia internacional e atores internacionais. Embora isso possa ter efeitos limitados, é algo importante porque faz com que Dilma apareça com líderes mundiais, e em ocasiões como o discurso na ONU, que apesar de ter sido contido, trouxe vantagens para ela. Uma terceira via foi tentar criar a percepção de que Temer cancelaria os programas sociais, que foi eficientemente rebatida pelo vice-presidente.

Nos últimos dias a presidente Dilma Rousseff tem acenado com medidas em áreas como a educação, a pequenos agricultores, indígenas, além de anunciar mais financiamento para habitação e ações para expandir o programa Mais Médicos. Como o senhor avalia tais iniciativas? São ações que podem surtir efeito positivo para o governo e a presidente a curto prazo?


Taylor - Eu acrescentaria à esta lista a tentativa de reajustar o Bolsa Família. São ações que chegam tarde demais para surtirem qualquer efeito positivo nos próximos seis meses, e eu imagino que a presidente esteja ciente disso. Eu interpreto esses pacotes de medidas como uma tentativa de pensar mais à frente, para 2018, para uma potencial candidatura do PT, e também a longo prazo, pensando no legado e na imagem pessoal da presidente. Mas eu acho que é muito difícil para ela tentar apagar sua história como a “gerentona do PAC” e a pessoa que pressionou para a construção da hidrelétrica de Belo Monte com muita força e a contragosto de muitos grupos da esquerda tradicional no Brasil.


São medidas que também visam melhorar a imagem do PT, que governou tentando agradar e manter o apoio das bancadas “BBB” (Bíblia, Bala e Boi), e ao satisfazer esses grupos deixou de lado a esquerda tradicional que sempre esteve ao lado do partido. Governar para manter o apoio dessas bancadas significou ser menos progressista em áreas como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em temas de raça, drogas, crime, direitos indígenas e no setor agrícola.

Eles fizeram muitas coisas boas, obviamente, mas a lógica de manter o apoio dessas bancadas os manteve atrelados a não progredir em vários assuntos. A curto prazo, agora que essas bancadas abandonaram a presidente e votaram em massa a favor do impeachment, não há mais nada que a prenda, e por isso algumas dessas medidas podem ser colocadas em prática mesmo que ela tenha potencialmente apenas mais duas semanas no cargo.