domingo, 17 de abril de 2016

É o fim

Entre 130 e 135 votos declarados em um colégio de 513 deputados. Isso é o máximo que a presidente Dilma Rousseff, o ex Lula, o PT e companhia conseguiram arregimentar em meses de despudoradas barganhas para evitar o impeachment. Um fiasco que, independentemente do resultado da votação deste domingo, sepulta o governo.

Sem rodeios: um governo que aposta na omissão como única hipótese de não ser derrotado e que sem qualquer escrúpulo compra a peso de ouro a ausência de parlamentares em sessão de votação, inexiste. Acabou. E há tempos.

Objetivamente, Dilma sempre foi um desastre.


Os anos de seu primeiro mandato já não tinham sido fáceis. Talvez pela herança de casa arrombada que Lula deixou. Mas os desmandos de 2013, como a explosão do crédito e a redução populista das tarifas de energia - uma mistura venenosa de soberba e voluntarismo -, derrotaram de vez a economia. As contas públicas, mesmo pedaladas, começaram a não fechar. A roubalheira na Petrobras emergiu, a seleção brasileira tomou de 7 a 1 da Alemanha, dentro de casa, naquela que seria “a Copa das Copas”.

Dilma se reelegeu depois de, com mentiras e artimanhas, fazer o diabo. Muita mentira, reconhecida até pelo seu inventor. “Tivemos um problema político sério, porque ganhamos a eleição com um discurso e depois das eleições tivemos que mudar o nosso discurso e fazer aquilo que a gente dizia que não ia fazer”, admitiu Lula, em outubro do ano passado.

O governo que já era uma catástrofe conseguiu quase o impossível: piorar. E muito mais.

Em 2015, Dilma fingiu tentar um ajuste fiscal que, por oposição do PT e aliados, pouco saiu do papel. Ainda assim, é ao ajuste fiscal que não existiu – basta olhar o descalabro das contas governamentais -- que Dilma, Lula e o PT atribuem o insucesso do primeiro ano do segundo mandato. Ao ajuste necessário que Dilma não fez, soma-se a Operação Lava Jato, que, de acordo com a inteligência bandida de Lula, emperra o crescimento do país, como se o investigador, e não o meliante, fosse o culpado pelo crime.

E o ano de 2016 não começou. Há meses o impeachment é pauta única. Para evitá-lo, o governo tentou de tudo: comprar deputados com cargos e verbas, incentivar exércitos de movimentos sociais, judicializar até as vírgulas. E, de acordo com a colunista Dora Kramer, pode até decretar Estado de Defesa para valorizar a posição de vítima.

Papel predileto sempre que se veem encurralados, as “vítimas” Dilma, Lula e PT não devem parar por aí. Já fazem correr aos quatro cantos que, se derrotados, vão incendiar o país. Lula garantiu que não sairá das ruas e não dará trégua a Temer. “Não estaremos nessa de união nacional, não vamos colaborar”. Nada de novo, já que nunca colaborou. O PT e ele não assinaram a Constituição de 1988, ajudaram a destituir Collor e viraram as costas para Itamar Franco, demonizaram o Plano Real.

Até aqui, o governo experimentou diferentes adaptações de discursos. Primeiro, taxou a previsão constitucional de impeachment como golpe. Mudou o tom depois de o STF negar a existência de artigos golpistas na Constituição. Passou então a acrescentar a ausência de crime para subsidiar o impedimento. Agora, anuncia que um governo do vice seria ilegítimo, por não vir das urnas, brigando de novo com a Constituição que prevê o vice como substituto do titular.

Os governistas que restam ainda tentam faturar com a impopularidade do deputado Eduardo Cunha, enrolado até acima do pescoço em bandidagens de vários matizes.

Vendem a ideia de que o impeachment é vingança de Cunha, escamoteando o fato de que o rito foi ditado e referendado pela Suprema Corte. E, sem pudor, inventam o cerne do “golpe”: Cunha mancomunou-se com Michel Temer porque na linha sucessória o presidente da Câmara é vice e, portanto, pode vir a substituir Temer. Fazem de conta que não sabem que, desde que se tornou réu, Cunha não pode assumir a Presidência da República.

Põem fogo nos “nem-nem”, que, ao rejeitar Dilma, Temer e Cunha, negariam votos ao impeachment e evitariam a derrota da presidente. Podem até obter sucesso. Mas o resultado pífio da votação, com menos de um terço da Câmara, associado à incapacidade, inépcia e incompetência demonstradas nos últimos anos, inviabilizam por completo Dilma como mandatária.

Aprovado, o impeachment só oficializa algo que há tempos o país já vive: o fim de um governo que não existe.

Os protagonistas da crise

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Chegou o dia D. O dia da decisão. Há poucas dúvidas sobre a aprovação do pedido de impeachment da presidente da República Dilma Rousseff pela Câmara Federal. As projeções mostram uma votação bem acima dos 342 votos necessários para o recurso passar pelo crivo da representação popular. O fato merece uma avaliação mais acurada, a partir da questão central que se coloca: a presidente pode ou não ser afastada pelo crime de pedalada fiscal? Transferir recursos de uma rubrica para outras finalidades é ou não crime? O Tribunal de Contas da União já deu sua resposta: é, sim. Mas a Advocacia Geral da União alega que esse “crime” não foi cometido. A par da pendenga jurídica, transparece o argumento de que o afastamento da presidente do assento presidencial ganha o empuxo de outro fator: a mancha de lama que cobre a era petista no poder.

Veja-se a situação sob outro prisma: com a economia nos trilhos, mercado de trabalho em alta, inflação controlada, serviços públicos de alta qualidade, administração sem escândalos, controle absoluto dos cronogramas, espaço na administração ocupado por quadros meritórios, governo aprovado pela imensa maioria da população, haveria condições de se afastar a presidente por ilícito de pedalada fiscal? Pouco provável. Dilma está sendo empurrada para fora do Palácio do Planalto pela moldura caótica do país. Para muitos, transferências ou desvios de recursos de uma rubrica para outro não seriam, por si só, argumentos para apear Sua Excelência. Haveria condição menos traumática? Sim. A renúncia. Mas tal posicionamento não combina com sua índole.

E como têm se comportado os protagonistas principais do processo em curso? Façamos ligeira análise. A Suprema Corte age quando é acionada. Mesmo assim, emerge a hipótese de que contribui, e muito, para judicializar a política. Veja-se a decisão sobre o fluxo do voto. É de competência do Supremo passar horas debatendo como devem votar os deputados? Que coisa mais extravagante a ideia de definir o roteiro de votação pela latitude e longitude dos entes federativos em relação a Brasília. O fato é que, ao longo das últimas semanas, a Alta Corte adentrou perigosamente o território do Legislativo, sob a defesa esquisita do seu presidente Ricardo Lewandowski, para quem, nesses tempos de gravidade, apesar de não serem eleitos, os integrantes do STF têm legitimidade para “rever” atos de outros Poderes. Mesmo atos políticos como um processo de impeachment. Ele e Marco Aurélio Mello defendem o obtuso conceito de que decisão política do Parlamento pode ser derrubada pelo Supremo.

O advogado geral da União, José Eduardo Cardozo, emerge como protagonista da agonia da presidente. Mais parece um advogado tentando adiar os estertores de seu cliente. Não se omitiu. Um leão derrotado. Mas cabe ao presidente da Câmara o destaque como protagonista do impeachment. Trata-se de um equilibrista, matreiro, profundo conhecedor dos meandros da Casa parlamentar que dirige. É inacreditável como o alvo preferencial do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, tem se desviado de flechadas a ele dirigidas. Acumula denúncias junto ao STF, mas se mantém firme na condução do processo de afastamento de Dilma. Mesmo que seja obrigado a se afastar do comando da Câmara, tem, ainda, uma sobrevida, bastando anotar a recente operação de mudança na composição do Conselho de Ética, onde sofre processo para cassação de mandato.

Lula, como protagonista-comandante das tropas de defesa de Dilma, tem perdido batalhas. Nem conseguiu ser nomeado ministro e tudo indica que não o será, ante a possibilidade de afastamento da presidente por 180 dias, conforme reza o rito do processo de impeachment no Senado. Nesse ínterim, tanto ela como Lula, sem o foro privilegiado, ficam sob as luzes e a lupa da República de Curitiba. Ante a recente avalanche de delações premiadas – incluindo a delação bombástica de Marcelo Odebrecht – projetam-se nuvens plúmbeas sobre seu futuro imediato. Para eles, os tempos de borrasca continuarão.

O vice Michel Temer continuará a ser o protagonista-mor do ciclo político-administrativo que se abre. Com seu perfil de moderação, experiente político que é, tendo sido três vezes presidente da Câmara dos Deputados, Temer terá muitos desafios nos próximos meses. Entre eles, destacam-se: 1. Resgatar a confiança da sociedade – consumidores, setores produtivos e organizações sociais por meio de programas que possam gerar credibilidade; 2. Formar uma equipe de quadros de qualidade, respeitados e admirados; 3. Administrar as pressões de partidos e lideranças que lhe dão apoio, particularmente no que se refere à ocupação de espaços na administração; 4. Sinalizar com um programa de significativas mudanças, marcando avanços na frente da economia e na consolidação da infra-estrutura social; 5. Resgatar o interesse internacional pelo país, significando a volta dos investimentos; 6. Conter a onda crítica a ser deflagrada por movimentos que, na era lulodilmista, tem agido na órbita do Estado, como Centrais Sindicais; 7. Mostrar disposição de abrir os canais do Parlamento para intensa interação com a representação política; 8. Propiciar condições para a abertura de um ciclo de grandes reformas, entre as quais a reforma política, a reforma tributária, a reforma da previdência, a reforma trabalhista e a reforma do pacto federativo.

Quanto a Dilma, terá grande espaço para se recuperar do impacto causado pelo afastamento (temporário? definitivo?) e juntar forças ao lado de Lula para voltar a assentar na cadeira presidencial. Será desconfortável para ela viver no Palácio da Alvorada, porém longe do Palácio do Planalto. Estará cercada por uma equipe de reanimação e sob os conselhos pontuais de Luiz Inácio, para quem a melhor opção será a de vê-la definitivamente afastada do poder. Se isso ocorrer ganhará tempo para fazer o que sabe: correr o país em caravana, subir aos palanques estaduais e execrar “esse governo golpista”. Lula se sente bem no papel de oposicionista-mor.

E as ruas? Tendem a se acalmar ante a hipótese de um governo de salvação nacional. Tendem a continuar cheias de tensão caso a crise não dê sinais de contenção.

O futuro do Brasil em jogo

O petismo, nas últimas semanas, tentou desesperadamente frear a marcha do impeachment. No front político, colocou o governo à venda, oferecendo ministérios e cargos de escalões superiores a qualquer deputado que se comprometa a votar em favor de Dilma ou simplesmente se ausente da sessão decisiva; no front social, pôs os “movimentos sociais” para ameaçar o caos nas ruas se Dilma for derrotada (na sexta-feira, eles já interditaram diversas rodovias); e, no front da linguagem, abandonou o simplório slogan “impeachment é golpe” para refinar um pouco a argumentação, alegando que “impeachment sem crime de responsabilidade é golpe”, com a mensagem implícita de que Dilma não teria cometido tal crime. Pois este domingo é o dia em que o Brasil, por meio de seus representantes eleitos, pode dar a resposta adequada.

Em primeiro lugar, porque, como mostramos em nosso editorial desta sexta-feira, os crimes de responsabilidade cometidos por Dilma Rousseff, com suas maquiagens orçamentárias que extrapolaram qualquer limite, são evidentes. É por eles que a presidente será julgada. A manipulação das contas públicas é a demonstração cabal de descaso pelos recursos tirados do contribuinte por meio dos impostos, e não é à toa que o legislador a considerou grave o suficiente para caracterizá-la como infração merecedora do impeachment. É verdade que “impeachment sem crime de responsabilidade é golpe”, mas é igualmente verdadeiro que, no caso em questão, não há golpe nenhum em curso. Os fundamentos jurídicos do pedido assinado por Hélio Bicudo, Janaina Paschoal e Miguel Reale Jr. são irrefutáveis e a evidência é avassaladora.

Em segundo lugar, porque, ao não esboçar a mínima repreensão quando líderes como Vagner Freitas (da CUT) e Aristides Santos (da Contag) falam – em pleno Palácio do Planalto! – em “armas na mão” e em “ocupar gabinetes” de deputados, Dilma mostra que consente com o uso dos “movimentos sociais” – que são, na verdade, entidades-satélites do petismo – e com sua retórica violenta, demonstrando o desapreço do petismo pelas instituições. É isso que faz Lula afirmar que, caso Dilma perca na Câmara e seja eventualmente afastada pelo Senado, não sairá mais das ruas contra o que chama de “governo ilegítimo”. O Brasil não pode se intimidar, não pode deixar de fazer a coisa certa por causa de ameaças e bravatas de quem só dá valor às instituições quando elas estão a serviço de um partido político.

E isso nos leva ao terceiro ponto: a derrota do impeachment neste domingo será a confirmação de um modo abjeto de fazer política, em que mandatários e parlamentares enxergam cargos e órgãos públicos como propriedade particular. Se o feirão organizado por Dilma se tornar o fator decisivo para que a votação deste domingo termine em favor da presidente, a esperança de uma moralização da política sofrerá um enorme abalo. Se a impunidade prevalecer, os deputados estarão dizendo ao Brasil que o crime compensa – basta comprar as pessoas certas, ou se vender às pessoas certas, contando que a memória curta do brasileiro lhes garantirá uma “absolvição” nas urnas, seja em outubro próximo, quando vários parlamentares tentarão se tornar prefeitos, seja em 2018, quando eles tentarão a reeleição ou outros cargos.

A votação deste domingo não será a definitiva – ainda que prevaleça o impeachment, será preciso que o Senado promova o julgamento –, mas é decisiva, porque será um indicativo de nosso grau de tolerância. Sabemos que muitos votarão pelo impeachment guiados mais por conveniência que por convicção. Sabemos que o Congresso é comandado por duas figuras indignas até mesmo de exercer mandato, quanto mais de presidir casas legislativas. Mas, se temos de um lado da balança um impeachment justo conduzido por maus políticos, do outro a alternativa é aceitar o estabelecimento da corrupção sistemática dentro do governo, premiar o toma-lá-dá-cá, fechar de vez os olhos à manipulação das contas públicas, resignar-se à condição de reféns das ameaças de CUT e MST. Isso não podemos tolerar de forma alguma.

A dama de espadas e o valete de paus

Não há ouros nem copas nesse baralho viciado do poder. Se existe alguma carta fora do baralho é a população iludida, falida e desprezada pelos governantes, federais, estaduais e municipais, e seus representantes no Congresso. As outras cartas fora do baralho são a Ética e o Orçamento. O Brasil de hoje é o Brasil do caos e da irresponsabilidade – na Educação, na Saúde, na Segurança Pública, na Previdência, na Infraestrutura. Só a liberdade de expressão e a democracia nos salvam.

Estamos entre a dama de espadas Dilma Rousseff e o valete de paus Michel Temer, dois zeros à esquerda ou à direita, dois políticos sem carisma, sem planos consistentes, sem uma história política que os credencie a liderar 200 milhões de brasileiros. Uma chapa de doer essa, Dilma e Temer. Dois presidentes acidentais. A diferença entre eles é que uma já fracassou. O outro... está recebendo o beija-mão no Jaburu e gravando áudios de posse antecipada.

Dilma era e sempre foi um poste. Na falta de companheiros afastados por malfeitos, como José Dirceu e Antonio Palocci, nomes preferidos por Lula, Dilma foi eleita com os votos emprestados do líder das massas. Lula continua um dos maiores favoritos para a eleição de 2018, mesmo que, para uma multidão de brasileiros de todas as classes sociais, ele possa ser na verdade “o chefe da quadrilha”.

O “trunfo” de Dilma, para Lula, era ser mulher e gerente durona, além de “especialista em energia” e ex-presidente do Conselho de Administração da Petrobras (!). A presidente decidiu, ao assumir, que seria chamada de “presidenta” e provou ser uma “gerenta incompetenta”. Cercou-se de amigas que não sabiam gerir nada além de seu próprio patrimônio, como Erenice Guerra, acusada de usar a Casa Civil para fazer negócios escusos no Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais do Ministério da Fazenda). Negócios que podem ter causado aos cofres públicos um prejuízo de mais de R$ 19 bilhões.

A mãe do PAC deveria ter acelerado o Crescimento, mas acelerou o Caos e a Corrupção das empreiteiras. Cavou uma cratera com sua irresponsabilidade fiscal e levou com ela todos os que achavam ter virado classe média. Errou na condução tresloucada da economia, errou ao resistir a admitir seus erros. Só propôs um pacto nos últimos minutos do jogo, pouco antes do apito do juiz.

Caso a dama de espadas, Dilma Rousseff, se faça de vítima no processo de impeachment, que identifique seu algoz: ela mesma. Não conseguiu – nem tentou – conquistar o amor de ninguém. Não escutava. Não fazia contas. Era arrogante. Pedalou de capacete, sem ouvir alertas sobre nada: Pasadena, Belo Monte, Petrobras. Dilma é tão surda que liberou, na última semana, a fosfoetanolamina, a tal “pílula do câncer”, nunca testada em humanos, uma falácia condenada por toda a comunidade científica! Populista de raiz, até o fim.

E seu eventual sucessor, o decorativo Michel Temer? Temer é adulado por gregos e troianos, por notáveis e desconhecidos, mas também criticado por quem deveria ser seu aliado, o presidente do Senado, Renan Calheiros, preocupado em “não apequenar” sua biografia ou sua ficha corrida. Temer conseguirá ser tão odiado quanto Dilma se assumir este mandato de transição? Alguém enxerga em Temer o salvador nacional? Na hipótese de o impeachment vingar, se Temer tentar blindar o réu Eduardo Cunha e tentar conter a Lava Jato, se não cortar gastos públicos e se não fizer um governo austero, se não acertar na economia e no planejamento, cairá em desgraça. Além de ouvir panelaços rapidinho, servirá de trampolim para a eleição de Lula em 2018.

Temer pode se arrepender de não ter permitido a Dilma se afundar em seu próprio pântano até a próxima eleição. Os “salvadores” de agora representam sim oligarquias locais corruptas. Mas foram eles os maiores aliados do PT, os principais alicerces de Lula. Que os petistas nunca se esqueçam disso. Os governos de Lula e Dilma compraram a amizade dos Malufs e Malafaias. E agora pagam caro. Ou barato, a História dirá.

Sim, o Brasil precisa se unir. Precisa respeitar as diferenças e acabar com a histeria. Precisa de verdadeiros líderes que promovam a moralidade e o entendimento, como me disse em Brasília a ministra do Supremo Cármen Lúcia, em entrevista que começa na página 52. Parar de pagar a aposentados, como está fazendo o Estado do Rio de Janeiro, sob o argumento de que a economia vive “uma tragédia”, é crime contra o ser humano.

Este sim é o grande golpe, farsa, traição, a grande trapaça na mesa de jogo. As vítimas não são os políticos. São os desvalidos. O líder que insistir em trair o povo, com roubalheira, negociatas e incompetência, vai cair. Mais cedo ou mais tarde, vai virar carta fora do baralho.

Onde pousar a esperança?

É muito comum que jovens com interesse na política, percebendo a necessidade de participarem mais efetivamente na vida local, regional e nacional, consultem minhas barbas brancas sobre o partido ao qual deveriam filiar-se. Eu me angustio diante dessa pergunta. Como dizer o que devo sem desestimular o idealismo daquela alma juvenil? Quem ingressa na política com ideais no coração, princípios e valores impressos na consciência e ideias na cabeça levará um imediato choque de realidade. A política não poupa esses sentimentos.


Obrigo-me, então, a uma longa explicação sobre o que leva os partidos a escavarem sem cessar o fundo do poço do descrédito. Levo em conta, ao dialogar com esses jovens, que o choque de realidade gerado por algumas palavras fortes é mais positivo do que o impacto que ela, a realidade, nua e crua, possa gerar sobre almas desavisadas. Já vi isso acontecer muitas vezes para desconsiderar seu significado nos indivíduos e na própria política. Esta é um espaço onde o mal conta com facilidades para sobrepujar o bem e onde, com muita frequência, as opções se fazem entre um mal maior e um mal menor. O bem não leva uma vida fácil na política. E, mesmo assim, há que escolher; e mesmo assim ela é uma atividade essencial à vida dos povos.

Vem-me à mente, enquanto escrevo, algumas palavras do meu amado papa João Paulo II na longa exortação que dirigiu aos leigos em 1988. Transcrevo-as:
"(...) todos e cada um têm o direito e o dever de participar na política, embora em diversidade e complementaridade de formas, níveis, funções e responsabilidades. As acusações de arrivismo, idolatria de poder, egoísmo e corrupção que muitas vezes são dirigidas aos homens do governo, do parlamento, da classe dominante ou partido político, bem como a opinião muito difusa de que a política é um lugar de necessário perigo moral, não justificam minimamente o ceticismo nem o absenteísmo dos cristãos pela coisa pública. Pelo contrário, é muito significativa a palavra do Concílio Vaticano II: «A Igreja louva e aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso de tal cargo, ao serviço dos homens»".
Parece-me muito adequado esse facho de luz para esclarecer uma realidade como a brasileira nestes dias tormentosos em que a esperança voa errante sem lugar de pouso. É preciso compreender que a política continuará determinando destinos, mas o Estado será tão mais útil quanto mais empenhado em se tornar crescentemente desnecessário; que sempre haverá escolhas a fazer e que, por vezes, nada será melhor do que o mal menor; que a maior riqueza de uma nação repousa em seus jovens e que lhes proporcionar condições para uma vida produtiva pelo conhecimento e pelo trabalho é muito mais significativo a eles e à nação do que manipulá-los ideologicamente.

O saber, a cultura, o trabalho, a busca do mérito, a liberdade, o amor ao Bem (ainda que vago, mas verdadeiramente amado) não podem estar ausentes da Política e do Direito. E cabe a nós dar-lhes vida e vigência. Não teremos qualquer esperança se não formos, nós mesmos, a esperança.

Percival Puggina 

Impeachment do modelo

Uma das provas do fracasso dos “governos de esquerda” no Brasil é o baixo nível do debate político, neste grave momento da nossa história. Nunca se discutiu tanto a política sem debater políticas; tudo se resume à dicotomia “tira Dilma” ou “é golpe”.

O modelo político-econômico-social ruiu como um Muro de Berlim nacional, enterrando as “esquerdas” nos seus escombros, mas a peleja tem ficado entre Dilma até 2018 ou Temer a partir de 2016.


Não se debate qual seria um novo modelo social-econômico-político para conduzir o Brasil ao longo deste século XXI. O atual modelo não foi capaz de construir uma economia sólida, sustentável, inovadora e produtiva e ainda desorganizou as finanças públicas e provocou recessão na economia atrasada; não foi capaz de emancipar os pobres assistidos por bolsas e cotas; não deu salto na educação e promoveu dramático caos na saúde; sobretudo, incentivou um vergonhoso quadro de corrupção, conivência, oportunismo, aparelhamento do Estado e desmoralização na maneira de fazer política.

O país está ficando para trás, se “descivilizando” pela violência generalizada, ineficiência sistêmica, incapacidade de gestão e de inovação, saúde degradada, educação atrasada e desigual; transporte urbano caótico, cidades monstrópoles, persistência da pobreza, concentração de renda, política corrupta; povo dependente, tragédias ambientais e sanitárias. Todos os indicadores são de um país em decadência, com raras ilhas de excelência.

Mas o debate fica prisioneiro da alternativa entre interromper o mandato de um governo incompetente e irresponsável, eleito por estelionato político, tendo cometido possíveis crimes fiscais, ou escolher um novo presidente do mesmo grupo, eleito na mesma chapa e também sujeito a suspeitas. Não se discute qual a melhor alternativa para o Brasil sair da crise imediata a que foi levado pelos desajustes irresponsáveis e eleitoreiros do atual governo, nem qual Brasil queremos e podemos construir, com uma economia eficiente, inovadora, equilibrada, distributiva da renda e sustentável ecologicamente; com a população educada, participativa, levando à justiça social, à produtividade elevada e economia eficiente; com sistema político-eleitoral ético e democrático.

Não se debate um pacto pelo emprego com equilíbrio das contas públicas e pela eficiência da gestão estatal; não se discute como fazer, quanto custa, em quanto tempo e que setores pagarão pelas reformas que o país precisa. As discussões despolitizadas, entre torcidas a favor ou contra, como em um jogo de futebol, não debatem, por exemplo, como fazer com que a escola do filho do mais pobre brasileiro tenha a mesma elevada qualidade que as boas escolas do filho do brasileiro mais rico do país.

O debate se limita a manter a mesma estrutura social, apenas trocando uma presidente pelo vice que ela escolheu duas vezes. Não se percebe que é preciso fazer o impeachment de todo o modelo que a “esquerda” manteve e degradou.

Cristovam Buarque 

Para ficar na História


Brasília abstrata

Fosse a sede do Governo federal ainda no Rio de Janeiro, estariam as ruas a expressar diretamente suas opiniões e humores para seus representantes eleitos.

Estivessem ministros e parlamentares a andar pela Cinelândia,Lapa, pelo Centro do Rio, como acontecia antes de Brasília, ou estivessem eles hoje a usar o metrô, os ônibus, as barcas, o trem, estivessem a sentar nos cafés, bares, sentiriam o que a população pensa sobre o modo deles de conduzir a nação. Em restaurantes caros, ou festas importantes, vez ou outra alguém fica indignado e reclama. E grava no celular.

As crises, continuariam a existir, e muitas vezes seria igualmente tenso, rude até, mas raramente ficaríamos sujeitos a ano e meio de impasse como hoje, com o país a naufragar economicamente, com conquistas coletivas sendo demolidas, empregos a sumir, minando a auto-estima nacional e afastando o sonho e o desejo de desenvolver uma sociedade mais justa e com oportunidades para todos.

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Isso acontece porque o espaço público ainda não é o lugar do encontro entre os diferentes no Brasil. E porque não colocamos nossa diversidade em contato, não produzimos jurisprudência social sobre nós mesmos e nossas práticas. Não formulamos hipóteses, não testamos alternativas para uma unidade social e ficamos fadados a repetir um jogo cujas regras são utópicas, sem aplicação no tempo do cotidiano onde realizamos a vida.

Entretanto quanto mais espaços são conquistados, pelos que estavam nas bordas da cidadania, mais espaço exclusivo é institucionalmente gerado, mais lugares para poucos são inventados pela própria representação política, embalada pela utopia, e que fora eleita para democratizar acesso.

Ora chamamos esse jogo de “desenvolvimento”. Ora de “governabilidade”.

A quem coube "acelerar o crescimento", pois a infraestrutura é escassa e cria desigualdades, coube também criar uma casta de "campeões nacionais”, proporcionalmente agora mais opulenta do que eram as desigualdades anteriores.

Muitos incluídos e outros tantos viraram über-cidadãos.

É o metrô que cria helicópteros.

Acontece isso porque o espaço público é um conceito que raramente nossos representantes eleitos reconhecem ou fomentam. O espaço público reiteradamente é o grande vão da democracia brasileira.

Brasília não tem espaço público. Existe apenas um espaço territorial diáfano que contém palácios e monumentos onde uns movem-se velozmente e outros muito lentamente. No tempo e no espaço.

É assim porque foi pensada para ser símbolo. Brasília necessita ser real antes que absorva o Brasil como um buraco negro feito de mármore de Carrara.

Essa semana, confirmando seu pecado original, Brasília ganhou um muro, para o espetáculo do impeachment, no seu eixo monumental, separando brasileiros.

O deslocamento da capital, não foi do Rio para o planalto central, paraíso geográfico equidistante; foi a desterritorialização do centro do poder nacional, foi do denso e humanamente caloroso Catete para um não-lugar esteticamente neo-concreto, materialmente abstrato, eruditamente planejado, além da urbanidade, onde não há possibilidade de existência dentro da realidade rés-do-chão do Brasil.

Nossa criatura civilizatória maior, celebrada por arquitetos e urbanistas, zomba de nós, observando-nos de dentro de sua dimensão cercadinho VIP, quanticamente apartada de um suburbano lotação por um jatinho fretado.

A fratura da representação política brasileira é séria e profunda. O gradil de Brasília não separa brasileiros azuis dos vermelhos, mas é a primeira peça construída doapartheid entre cidadania e classe política.

O sonho de JK acabou.

Brasília necessita ser urgentemente invadida pelo chão das cidades, pelas capitais, pelas regiões metropolitanas, pelos centros urbanos históricos, onde os palácios possuem a pátina do sangue, das revoltas, dos ardis mas também têm a espessura da cultura, do sonho coletivo, do rubor das conquistas. É urgente que o voto distrital misto seja considerado e adotado. É urgente que candidaturas políticas independentes sejam aceitas, liberando criatividade de representação para além dos carcomidos partidos velhos e das nati-mortas siglas novas.

É necessário que surja uma nova capital nacional imaterial, para impregnar os monumentos com a vida real que procura existir nos vulneráveis espaços públicos das cidades, com brasileiros pagando com horas de vida os ônibus da ineficiência territorial sem correspondência com os trevos viários da capital.

Ou preenchemos esses mármores do planalto central com representação política que corresponda aos espaços públicos que cada centro histórico de capital brasileira - perfeitamente coeso nas suas imperfeições – ou serão eles lápides marcadas pelo risco de um muro metálico de show político de horrores.

Alvorada e Jaburu viraram casas da Mãe Joana

A corrupção em Brasília, uma cleptomania incurável, atingiu o seu ponto mais alto nas articulações a favor e contra o impeachment. Desapareceu até o recato. Os palácios da Alvorada e do Jaburu, projetados por Oscar Niemeyer como residências oficiais do presidente e do vice-presidente da República, foram transformados em casas da Mãe Joana. Sob seus tetos modernistas, pratica-se o troca-troca sem culpa, o vale-tudo sem ressalvas.

Quem não quiser perder a compreensão do que está acontecendo deve levar em conta o seguinte: Dilma Rousseff e Michel Temer negociam o futuro do país com o rebotalho do mensalão e do petrolão. Fazem isso com a mesma pose de líderes realistas obrigados pelas circunstancias a lidar com políticos viciados.

Dilma adota meios sórdidos para alcançar o nobre fim de evitar um golpe contra os valores democráticos. E Temer manda às favas qualquer perspectiva de revisão das práticas que conspurcam a política sob o pretexto de livrar o Brasil da delinquência fiscal e do atraso petista. Ambos oferecem a nódoas como PP, PR e assemelhados a oportunidade de obter prontuários limpos e novos negócios.

Num comício para militantes petistas, Lula resumiu assim a cena: “É uma guerra de sobe e desce. Parece a Bolsa de Valores. O cara está com a gente uma hora e, em outra, não está mais.” O que o morubixaba do PT declarou, com outras palavras, foi o seguinte: os homens de bens da Câmara acompanham a cotação de Dilma e Temer, para investir seus votos naquele que oferecer as melhores perspectivas de lucro. Nesse mercado, você, caro contribuinte, entre com o prejuízo.


A convivência com o vício manjado tem um lado prático. Com ou sem impeachment, não será necessário organizar sondagens sobre o apetite dos aliados. Basta que Dilma ou Temer abram as gavetas para resgatar os anseios de mensaleiros e petroleiros. Gente como o condenado Valdemar Costa Neto, o mandachuva do PR, que saltou subitamente da prisão domiciliar para a ribalta.

Valdemar, citado aqui por ser o exemplo mais notório da desfaçatez, brilha no submundo do fisiologismo há mais de duas décadas. Ele tem experiência em impeachment. Na derrubada de Collor, quando o PR ainda se chamava PL, apressou-se em obter posições sob Itamar Franco. Nessa época, tinha uma queda pela Receita Federal. Ganhou a inspetoria da alfândega do Aeroporto de Cumbica. Ali, mandava mais que FHC e Rubens Ricupero, os ministros da Fazenda de então.

Em declaração de 1995, dada à Folha, Valdemar explicou o porquê do apreço pelo fisco: “Você imagina se tem um cara de poder com problemas na Receita. Você chega e pergunta se o cara pode te arrumar uns 3.000 votos. Você livra o cara e está eleito''. Sobre a alfândega: “O pessoal chega do exterior e pede para liberar a bagagem (…). Às vezes eu mandava um fax pedindo a liberação''.

A farra das nomeações políticas na Receita acabou com a chegada do técnico Everardo Maciel. Mas Valdemar era apenas líder de um periférico PL. Hoje, controla o PR como um cartório de sua propriedade. Do modo como o tratam, vai acabar nomeando não um inspetor de alfândega, mas o secretário da Receita Federal.

De um líder político se espera que fixe padrões morais para os seus liderados. Diante das extravagantes negociações firmadas no Alvorada, no Jaburu e em anexos como o quarto de hotel que Lula converteu em bunker, não sobra no palco nenhum ator capaz de se firmar como uma liderança ética. A cruzada do impeachment descerá aos livros como um marco da falta de ética cujo epílogo será um acordo para livrar Eduardo Cunha da cassação.

Devagarinho, o fisiologismo e a imoralidade vão deixando de ser percebidos como parte do sistema. Passam a ser vistos como o próprio sistema. Tão integrados ao cenário brasiliense quanto as curvas dos palácios de Niemeyer.

A Lava Jato não termina neste domingo!

O sol nascerá pelo leste nessa segunda-feira como há bilhões de anos. Também o Brasil não sairá do lugar. A votação do impeachment, neste domingo, não é um cataclisma planetário como faz pintar o catastrofismo atávico do político brasileiro.

O país está nesse início de semana como nos últimos meses. A crise econômica galopante não freará com o resultado na Câmara. A recessão estará no mesmo patamar e a infelicidade, a mesma.

O brasileiro só terá um caminho a partir desta semana: lutar por mudanças, caia ou não caia Dilma. 


Se a presidente, por um desses milagres que só acontecem em situações desesperadoras, mantiver o cargo, continuará a fazer mais do mesmo: nada. Primeiro que não tem receita pronta para conter o problema econômico neste estágio acentuadíssimo. E continua a fazer malabarismo, gastando e tendo de cobrir suas inúteis despesas para atender à base aliada. Não será pouco o prometido, nem o gasto para barrar o impeachment.

Pior terá perdido ainda mais apoio por suas alianças com o cocô do cavalo do bandido. Se não contava com ministério razoável, agora mesmo é que ficará com a escória para se sustentar.

A pirotecnia do pacto será esquecida como nas vezes anteriores. O novo governo Dilma.3 será pilotado por Lula, à beira de viajar para Curitiba. O governo não terá mais sossego não por causa da política, mas pela Justiça. E ainda será mais pressionado pelos trabalhadores e desempregados sem contar a pressão do PT por ajustes que não poderá fazer.

O inferno espera Dilma de braços abertos. Sem esquecer que ainda terá que tolerar Temer, no Jaburu, e a dupla metralha de Renan e Cunha no Congresso. Ou seja, tudo como dantes com o Brasil descendo a ladeira.

A vitória do impeachment dará ao vice Michel Temer ingrediente que faltará no caso Dilma: esperança. Contra o mais do mesmo, rançoso há 13 anos, a esperança renova os ares cheios de miasma de uma estatização que gerou o desespero. Não será suficiente para resolver os problemas, mas nada para dar mais fôlego à luta que a mudança. 

E de quebra, ainda restará acompanhar novos e emocionantes episódios da Lava Jato. O seriedade de maior sucesso entre os brasileiros promete mais emoções na luta da Justiça contra os crápulas para deixar no chinelo "Os intocáveis" de Elliot Ness.

A última trincheira chavista

A democracia brasileira foi sequestrada há 13 anos e ficou refém de uma chantagem emocional. Qualquer abuso de poder, qualquer transgressão, qualquer crime passaram a ser indultados em tempo real por uma crença miserável: a de que o país havia chegado ao paraíso da justiça social após cinco séculos de opressão, e que não se podia tocar em Lula e no PT – sob o risco de o encanto se quebrar. Foi assim que floresceram o mensalão e o petrolão, numa boa.

Já no terceiro ano do sequestro, o homem-bomba Roberto Jefferson mostrou ao país o que os iluminados da justiça social estavam fazendo no escurinho. Aí o Brasil tomou uma providência drástica: mandou continuar o roubo. O próprio Lula ficou surpreso ao constatar que, apesar da revelação obscena do valerioduto, seus súditos caminharam alegremente para as urnas e sancionaram o esquema, dando-lhe a reeleição. Lula é inteligente, e entendeu o recado: agora eu posso tudo.


E fez de tudo. A Lava Jato veio mostrar o que parecia impensável: naquele momento em que Lula aparecia, contrito e cabisbaixo, pedindo desculpas à nação pelo mensalão, a turma do petrolão levava ao gabinete dele a negociata de Pasadena. Em plena chaga aberta do esquema de Marcos Valério, Dirceu, Delúbio e companhia, o governo do PT montava tranquilamente a compra de uma refinaria enferrujada que irrigaria de propinas a eleição de 2006. Definitivamente, inibição não é o problema desse pessoal.

Seguiu-se uma década de trampolinagens, que arrebentaram a maior empresa nacional e levaram o país à recessão profunda, mas o sequestro da democracia perdurou – o suficiente para garantir o quarto mandato consecutivo dos sequestradores. Quando Dilma foi reeleita no meio da orgia, toda lambuzada de petrolão, os meteorologistas da política decretaram: acabou a Lava Jato. As urnas calaram Sergio Moro.

Só que não. Como tem sido repetido neste espaço: Sergio Moro só é parável à bala.

E foi assim que o país chegou à beira do impeachment, apesar de sua opinião pública frouxa, de sua oposição débil e da chantagem emocional do filho do Brasil – que não sabia de nada e não tinha nada, só um par de pedalinhos personalizados. Até no Congresso Nacional, que também esteve sequestrado todo esse tempo pelo exuberante caixa do Partido dos Trabalhadores, o vento virou. E onde foi que o vento não virou?

No Supremo Tribunal Federal. A Corte máxima do país é a última cidadela dos malandros, o bastião final do parasitismo erudito, a derradeira trincheira do chavismo companheiro. Foi esse poder aparelhado que impediu até agora a abertura de investigação contra a arquissuspeita Dilma Rousseff, madrinha de Erenice, de Pasadena, de Mercadante, de Delcídio, das pedaladas, de Cerveró, de Edinho, das manobras obstrutivas à Lava Jato. A presidente que mandou o Bessias com um termo de posse ministerial para esconder o ex-presidente da polícia.

Em triangulações mágicas entre o procurador-geral, o ministro da Justiça e o ministro relator do petrolão no STF, essa presidente atolada num pântano de indícios e evidências se manteve olímpica: “Não há elementos para se investigar Dilma”.

No momento em que, apesar de todo esse eficiente circo mambembe, o impeachment amadurece, surge a bala de prata do supremo golpismo: pedir o impeachment de Michel Temer. Do mesmo jeitinho com que o STF blindou a companheira presidenta e alterou o rito do impeachment dela: metendo o pé na porta do Congresso Nacional. Se não é Teori, é Barroso, se não é Barroso, é Lewandowski – o presidente certo na hora certa –, se Toffoli recua, surge Marco Aurélio (elemento surpresa). Dois anos de literatura da Lava Jato estampam, de forma cristalina, que o esquema é Lula, a preposta é Dilma e o arcabouço é o PT. Mas, para manter o sequestro, vale atirar no vice-presidente. É a bala de prata.

Aí o país abobado se pergunta por que Temer é melhor que Dilma. Deve ser por isso que Lula, na porta da cadeia, continua acreditando que repetirá o milagre do mensalão e sairá de novo nos braços do povo. Se o povo não falar grosso agora com os embusteiros do STF, demonstrará que merece Lula. Para sempre.

Estudantes de Coimbra pedem cassação do título de Lula

Demorou um pouco, mas enfim começa a acontecer. Na Universidade de Coimbra, os estudantes estão exigindo que seja cassado o título de “Doutor Honoris Causa”, conferido ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Como argumento, eles dizem que “no Brasil, quando um pobre rouba, vai para a cadeia, mas quando um rico rouba, vira doutor”.

Eles exibem um cartaz inspirado no filme feito no Brasil sobre Lula e mudam o título para “Lula, burro que rouba vira doutor”.

Na parte inferior do cartaz, os universitários dizem que a situação é intolerável e exigem que a instituição retire o título concedido a Lula da Silva. O movimento é liderado pela Juventude Social-Democrata (JSD), que já publicou uma carta aberta ao reitor João Gabriel Silva, mas ele ainda reluta em rever a honraria concedida em 2011 ao ex-presidente brasileiro.

“Clamamos, portanto, na sequência dos acontecimentos recentes, a anulação do grau de doutor ‘honoris causa’ a Luiz Inácio Lula da Silva por cessação das causas que fundamentaram a sua atribuição: o seu “prestígio internacional”, lê-se no documento.

Para os estudantes, “é apanágio desta nossa casa (Universidade de Coimbra) a transmissão da verdade, das boas práticas administrativas, da competência, transparência, defesa dos interesses públicos e não instrumentalização do magistério público em benefício pessoal”.

sábado, 16 de abril de 2016

AUTO_nicolielo

Não vai ter golpe, querida!

Não vai ter golpe. Dilma apenas será impedida de continuar no cargo, tudo dentro da lei e das normas constitucionais. Será apeada do poder devido à incompetência de governar, às mentiras, por ter recebido dinheiro ilegal em sua campanha e por ter cometido crimes de responsabilidade. Pior ainda: por ter dado um tapa na cara dos brasileiros ao convidar para ser seu ministro um sujeito às voltas com a Justiça. Simples assim!

Cansamos de ser passivos e resolvemos assumir o importante papel de protagonistas da cena nacional. Depois do dia 13 de março, quando mais de 6 milhões de brasileiros foram às ruas em centenas de cidades em todos os estados, estamos reivindicando o fim da aventura petista e o fortalecimento do Poder Judiciário. Quer legitimidade maior? As manifestações ordeiras e pacíficas mostraram o verdadeiro espírito dos brasileiros. Demos o recado cristalino a Dilma, a Lula, a seus seguidores e a todos os corruptos: “basta!”


Da mesma forma, a maioria absoluta dos ministros do STF não só percebeu a reação das ruas como reagiu com firmeza às declarações chulas e desrespeitosas do mito do PT. Os magistrados, em número que continua crescendo, declararam seu apoio, sem qualquer direcionamento partidário, ao juiz Sergio Moro e a suas atitudes na “República de Curitiba”, como caracterizou Lula, o messias do pau oco.

O Palácio do Planalto transformou-se em um circo. Dilma fala apenas à sua claque escolhida a dedo, artistas e intelectuais, funcionários encravados na máquina pública federal, bandos ligados ou travestidos de MST, estudantes sustentados na UNE, todos dependentes da “mortadela” oficial e que bradam “em defesa da democracia”. Que democracia? A bolivariana? A cubana? A que eles defendem como sinônimo de incompetência e corrupção?

O país está dividido, prestes a uma convulsão social. Se Dilma tivesse grandeza, espírito cívico e humildade, renunciaria. Pouparia os brasileiros do desgaste emocional e psicológico, e de um embate que pode transformar-se sangrento. O Brasil parou! Não se governa mais. O que resta é um balcão sujo de compra e venda de parlamentares para votar contra o impeachment. Mas, felizmente, estamos todos de olho neles.

E, enquanto o impeachment não vem, Dilma, Lula e seus convivas insistem no seu “pacote anticrise” e “antigolpe”: ameaças à Policia Federal proclamadas pelo (agora suspenso) ministro da Justiça, Eugênio Aragão; ameaças dos movimentos sociais de que o país será incendiado com greves gerais; tentativas de lançar suspeição sobre as atitudes do juiz Sergio Moro e afirmações de que a Lava Jato é a causadora da ruína econômica do país; além da insistência na ladainha de que a “estabilidade democrática e a justiça” estão seriamente ameaçadas.

Somente agora, que a água está batendo na saia, que partidos políticos deixam a base do governo e a possibilidade de impeachment é real e imediata, a presidente vem falar em acordo nacional com base em um programa de recuperação da economia e da união de esforços. A mesma coisa dita pelo seu vice, Michel Temer, em seu discurso vazado, caso venha a assumir a Presidência.

Enquanto isso, a imagem do Brasil no exterior cai por terra. A economia brasileira está puxando para baixo o crescimento mundial. A ONU classificou o país como preocupante, e em sérias dificuldades. As publicações britânicas The Economist eThe Guardian sugerem em seus editoriais a renúncia de Dilma. O americano The New York Times destacou a indicação de Lula como “uma tentativa grosseira de impedir o curso da Justiça” e defendeu que Dilma deveria renunciar agora. É o que pensa a maioria absoluta dos cidadãos brasileiros. Tchau, querida!

Golpe ou paixão pela política?

Nestas horas cruciais para o Brasil é importante enfocar as diferentes leituras do que está ocorrendo na sociedade e nas instituições. Insistir só na ideia de golpe é perigoso, sobretudo porque, segundo as pesquisas, é a grande maioria que pede uma mudança, angustiada por uma crise econômica que já alcança a classe média e especialmente os mais pobres.

O Brasil, com os nervos à flor da pele, ressuscitou a paixão pela política de outros momentos históricos, o que gera – como todas as paixões – sentimentos antagônicos que podem produzir perplexidade e dor.

Como funciona o sistema de suspensão automática no futebol Editoria de arte/

Pior seria, contudo, um país apático e indiferente à política, já que, quando se deixam os destinos do país ao sabor dos políticos, é mais fácil que se incubem tentações autoritárias.

Os eleitores constituem a melhor defesa da democracia, conscientes de serem eles os sujeitos desta. Para isso é normal que existam pontos de vista distintos e até opostos, uma vez que, na política como na democracia, não existem dogmas de fé, mas a aceitação das diferenças capazes de conviver sem guerras.

Nestes dias criticam-se os eleitores por assediar quem foi designado para representá-los no Congresso. Pior seria se cidadãos estivessem indiferentes.

Depois de ter vivido a longa ditadura espanhola, tenho medo de quem se orgulha de não estar interessado em política, afinal, é ela que determina boa parte de nossa felicidade ou infelicidade, ou a possibilidade de viver em liberdade ou tirania.

Essa paixão que os brasileiros estão vivendo pela política, embora às vezes com tumulto e enfrentamentos, é também o melhor antídoto para as instituições que não deixam de ser sensíveis à voz das ruas que as vigiam e julgam.

Seria perigoso – e injusto –, neste momento, criar-se a imagem de um país às vésperas de um golpe autoritário. Felizmente, o Brasil não é a Venezuela. Com altos e baixos, suas instituições estão vivas e vigilantes. Aqui pulsa o desejo de punir e isolar os políticos corruptos dando, com isto, um exemplo a muitos outros países.

E é palpável a exigência dos cidadãos pela volta a uma economia saneada do cataclismo que a aflige e que não corresponde à riqueza e à vitalidade de um país-continente como o Brasil. Crise econômica na qual sofrem os menos responsáveis.

Que no domingo se veja, com qualquer dos resultados do processo de impedimento contra Dilma, uma festa da democracia digna de ser aplaudida pelo mundo. Com toda a paixão, criatividade e convicção que se queira, mas sem violência, pela qual deverão responder não só quem a desatar, mas também – e sobretudo – quem a instigar e alimentar nos bastidores.

O fiasco da esquerda

Nada, ninguém – direita, militares, burguesia, banqueiros, religiosos -, infundiu tanto dano à causa esquerdista, inaugurada no Brasil em 1922, com a fundação do Partido Comunista, como a Era PT, a cujo declínio melancólico agora se assiste.

Não se sabe como será, daqui para a frente, a reconstrução de um discurso que a prática desmoralizou. Há planos B – como a Rede de Sustentabilidade, de Marina Silva, e o Psol -, mas terão que arcar com a herança maldita do partido-mãe que os gerou, sustentou e abrigou. Não será fácil.

Tudo o que o PT pregou, ao longo dos 22 anos em que foi oposição, negou nos mais de 13 anos em que governa - do combate à corrupção à transparência e eficácia gerencial. Não bastasse, além de quebrar a economia, desmoralizou a própria atividade política, que hoje padece de sua maior crise de credibilidade.

Os argumentos que agora evoca em defesa do mandato de Dilma contrariam os que sustentou quando pediu o impeachment de todos os presidentes da República desde o fim do regime militar. Todos. O único momento em que seu pedido teve o endosso da sociedade foi no governo Collor. Nos demais, falou sozinho.

É interessante e pedagógico conferir na internet – graças à qual a amnésia nacional está sendo curada – o que diziam os líderes do PT ao tempo em que intentaram derrubar outros presidentes da República. Há vídeos para todo gosto, com falas de Lula, José Dirceu, José Genoíno, Jandira Feghali (hoje, no PCdoB), entre outros. Impeachment, que ontem, nas palavras de Lula, era um gesto popular de libertação, virou golpe.

Há um vídeo em que Lula diz que pede a Deus “que o povo brasileiro nunca mais esqueça” que, assim como elegeu, pode depor seus governantes. Deus, ao que parece, o está atendendo.

A esquerda, em 1964, saiu como vítima de um golpe; hoje, graças ao PT, sai por tentá-lo, sem êxito. A frase do falecido Joelmir Beting, de que o PT começou como um partido de presos políticos e acaba como um partido de políticos presos, resume a ópera.

Ser apeada do governo por pedaladas fiscais – crime de responsabilidade, de natureza administrativa – está saindo barato para Dilma, cujo governo e ela própria possuem prontuário bem mais denso e abjeto. Basta conferir o que já expôs a Lava Jato.

Lá, está claramente relatada parte do que se passou (os investigadores dizem que o que se divulgou é apenas um terço do que já têm): o perfil de uma organização criminosa, que se apossou do Estado, para não mais largá-lo.

Onde havia um cofre, houve rapina, com cadáveres pelo caminho, como o demonstram as investigações em torno do assassinato do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel.

Além dele próprio, nada menos que sete testemunhas foram silenciadas pela quadrilha, na véspera da chegada ao Palácio do Planalto, em 2002. Lula, diz a Lava Jato, pagou R$ 6 milhões pelo silêncio de um chantagista, Ronan Maria Pinto, hoje preso. Por quê?

Não há, pois, como dissociar, por mais que o tenha tentado o advogado-geral da União, José Eduardo Cardoso, as pedaladas do conjunto da obra. São os mesmos personagens.

Pouco importa que o pedido de impeachment em exame trate “apenas” das pedaladas – e ainda que o STF, cada vez mais envolvido na política partidária, queira impor tal limite -, a população, responsável por levar o governo ao cadafalso, sabe com quem está falando. Sabe que fala com a turma de Santo André – a turma do Mensalão, do Petrolão, do Eletrolão, do BNDESão, dos fundos de pensão. Tudo muito “ão”.

Daí o insucesso de tentar focar apenas no que está no pedido em exame. Há mais 36 pedidos na Câmara, que, em seu conjunto, contam a história completa. Um deles, da OAB, dá a roupagem jurídica e empresta ao processo sua grife histórica.

Dá o conteúdo penal ao processo. Estão na cadeia ex-dirigentes do PT, junto com empresários que pontificaram nos seus governos. As delações recentes evidenciam que as campanhas de 2006, 2010 e 2014 foram financiadas com dinheiro roubado da Petrobras, que serviu até para financiar pesquisas falsas de opinião.

A presidente Dilma, beneficiária de duas dessas campanhas, não pode alegar que não sabia. Ainda que isso fosse verdade, não reduziria, nos termos da lei, a responsabilidade que lhe cabe – e que já provocou a responsabilização penal de outros candidatos, o mais recente deles o ex-senador tucano Eduardo Azeredo, de Minas Gerais, condenado a 20 anos de prisão.

Os parlamentares que votam amanhã sabem disso; sabem que é o todo – não apenas a parte em exame - que move a população, aos milhões, Brasil afora. Sabem o custo de decepcioná-la. A esquerda é herdeira desse legado. Teve sua oportunidade no poder e mostrou que seu projeto de um Brasil melhor esgotou-se no discurso, movido não a compromissos, mas a propaganda.

Estima-se que o impeachment será aprovado, o que abre perspectiva a um novo ciclo para o país, com muitas dificuldades e desafios. Se não for, as dificuldades e os desafios serão ainda maiores, já que privados do ingrediente mais importante em ocasiões como esta: a esperança.

Dilma, em 2014: 'Sem apoio é impossível assegurar governo estável'

“Sem apoio no Congresso Nacional não é possível assegurar um governo estável, um governo sem crises institucionais.” Pronunciada por Dilma Rousseff em setembro de 2014, essa frase compôs a artilharia da então candidata à reeleição contra a oponente Marina Silva.

Num debate eleitoral, Dilma insinuou que a “nova política” de que falava Marina conduziria o país ao desastre. O comentário foi reproduzido na propaganda da campanha petista (veja no vídeo). Nela, um locutor declarou: “Duas vezes na nossa história o Brasil elegeu salvadores da pátria, chefes do governo do eu sozinho. E a gente sabe como isso acabou.”

Ao fundo, aparecem notícias de jornal sobre a renúncia de Jânio Quadros e o impeachment de Fernando Collor. Quando comparou Marina a tais personagens, Dilma era apoiada por um conglomerado composto de 14 partidos. Uma superestrutura em que cabia de tudo —de Paulo Maluf ao próprio Collor. O tempo passou. E o feitiço virou-se contra a feiticeira.

Charge do dia 16/04/2016
Dilma experimenta agora uma modalidade de solidão, que é a companhia do PT e do PCdoB. Abandonaram-na: PMDB, PP, PR, PSD, PTB… Neste domingo, a presidente irá à sorte dos votos no plenário da Câmara com receio de não dispor das 172 presenças, ausências ou abstenções de que necessita para evitar que seus antagonistas alcancem o número mínimo de votos para abrir o processo de impeachment: 342.

Eis o que dizia a campanha de Dilma em 2014. “A base de apoio de Marina Silva tem, hoje, 33 deputados. Sabe de quantos ela precisaria para aprovar um simples projeto de lei? No mínimo 129. E uma emenda constitucional? 308. Como é que você acha que ela vai conseguir esse apoio sem fazer acordos? E será que ela quer? Será que ela tem jeito para negociar?”

Dilma era apresentada como personagem jeitosíssima: “…Reúne tudo o que um governante precisa: tem conhecimento dos problemas, sabe como construir as soluções, e tem força política para realizar os seus projetos porque numa democracia ninguém governa sem partidos, ninguém governo sozinho.”

Considerando-se tais critérios, Dilma seria hoje uma presidente inviável. Mesmo que sobrevivesse ao impeachment por um placar mixuruca, não disporia de uma base congressual para “assegurar um governo estável, um governo sem crises institucionais.'' E a Lava Jato impediria o PT de providenciar um novo mensalão ou um novo petrolão para comprar apoiadores.

A lenda e a obra

Com a velha lorota de implantar um “Projeto Social” que na realidade jamais existiu, o método do trio Lula-Dilma-PT, depois de treze anos em Brasília, só conseguiu apresentar ao país um governo que incomoda a todos, mas é especialmente esmagador para os mais pobres. O Brasil está vivendo hoje uma de suas fábulas mais fabulosas, ou, para quem prefere uma linguagem com menos cerimônia, a maior mentira de todas as que já foram contadas por aqui nos últimos 500 anos. O grande conto do vigário de hoje não é a história de chamar o processo de impeachment de “golpe”. É uma falsificação tão miserável dos fatos que nem o próprio governo, o ex-presidente Lula ou o PT acreditam nisso; se acreditassem, já teriam tomado há muito tempo as providências legais para impedir o golpe, acionando as autoridades responsáveis pela segurança pública. Também não é a gritaria oficial contra a “violência” de quem está a favor do impeachment; que “violência” é essa, quando 3,5 milhões de pessoas, ou mais, vão às ruas de todo o país para pedir a saída de Dilma e não se registra um único episódio de desordem? Esqueça-se, ainda, a aflição das classes intelectuais com a “legalidade”, ou os esforços para transformar o juiz Sergio Moro numa espécie de capitão do mato das “elites” ─ Moro, para resumir a ópera, é o homem mais popular do Brasil no momento. Não se trata nem nunca se tratou de nada disso, nem das outras contrafações multiúso em circulação atualmente na praça. A mentira campeã é a tentativa de dizer que há uma disputa entre “dois projetos de país”. Um deles é o “Projeto Social” Lula-PT para melhorar a vida do povo brasileiro. O outro não se sabe direito o que é, e nem interessa ─ basta saber que é o “projeto” de quem discorda de Lula e, portanto, é coisa do mal. Não pode ser debatido. É “deles”.


Trata-se de uma farsa, e por uma razão bem simples: Lula não tem projeto social nenhum. Sempre disse que tem, claro ─ é mentira velha. O que muda é a embalagem. Vem em garrafa, em lata, em plástico, mas a mentira é sempre a mesma. O ex-presidente, desde o começo de sua caminhada rumo ao topo, nunca se interessou por fatos. O que realmente vale, em sua maneira de ver o Brasil, é a imagem que consegue criar; acha mais eficaz substituir a ação pela comunicação. Política é coisa que se faz com um bom gerente de marketing, alguém capaz de entender a sua indiferença quanto aos teores de lógica, realismo ou verdade naquilo que diz; só lhe importa a quantidade de gente disposta a acreditar nele. O projeto de Lula é cuidar de Lula ─ e convencer a maioria do público de que ele é mesmo o homem que diz ser. Quer que acreditem, por exemplo, que está sendo questionado na Justiça por causa de um pedalinho no sítio de Atibaia, ou porque tem uma adega com sabe-se lá quantas garrafas de bebida. Ou, então, que o juiz Moro é o culpado pelo desemprego (“Vão procurar os seus empregos com o Sergio Moro”, já disse), porque os processos de corrupção de Curitiba estão causando problemas para as empresas e daí elas demitem. Alguém engoliu? Então valeu. Tem dado certo; Lula já foi eleito presidente duas vezes e, mais que isso, conseguiu eleger Dilma Rousseff outras duas. No exterior, onde as lendas brasileiras mais esquisitas são tantas vezes levadas a sério, constava até há pouco tempo que ele era um grande reformador da sociedade no Terceiro Mundo. E o “Projeto Social” ─ resultou no quê? Não vem ao caso. Ficar fazendo perguntas sobre isso é “preconceito”.

A comprovação prática de que o avanço dos interesses populares, tal como é pregado por Lula, faz parte de um país imaginário está no fato de que o Brasil de hoje vai horrivelmente mal. Ou existe alguém achando que não vai? Após treze anos e tanto de governo pelo método Lula-Dilma-PT, temos acima de 10 milhões de desempregados na praça, mais do que em qualquer outra época ─ e com viés de alta. Para a maioria deles, perder o emprego não é um fenômeno da economia; significa ser jogado de repente à fronteira da miséria, ou algo tão parecido com isso que não dá para perceber a diferença. O Brasil está a caminho de três anos seguidos de recessão após um ano de crescimento zero, uma desgraça 100% assinada pelo trio citado acima ─ e, como se sabe, é impossível produzir menos e aumentar renda. Na verdade, o que está aumentando são as classes D e E, que só de 2015 até o fim de 2016 vão ganhar cerca de 8 milhões de brasileiros com renda familiar de 2 000 reais para baixo. Caso a economia não volte a crescer já, e muito, haverá mais pobres no Brasil em 2018, ao fim do mandato oficial de Dilma, do que havia em 2005. Não existe nenhuma defesa para eles. Os serviços públicos que deveriam atendê-los estão quebrados pela falência múltipla do governo. Governo ruim é isso ─ incomoda a todos, mas esmaga o pobre.

A grande lenda viva no Brasil conta que Lula comandou “reformas sociais” de alto alcance. Que reformas? Desde que ele chegou à presidência, e até hoje, não houve nenhuma reforma social de verdade neste país ─ não as reformas que realmente mudam alguma coisa decisiva. Onde está a reforma da lei de propriedade imobiliária, que permitiria aos pobres tirar escritura dos espaços que ocupam ─ e a partir daí obter patrimônio, crédito e respeito? Está exatamente onde esteve antes de Lula e PT: no zero. Não foi feito nada de sério na reforma da Previdência Social, uma aberração talvez sem paralelo no resto do mundo ─ 1 milhão de aposentados do setor público consomem mais dinheiro do governo, na hora em que o Erário paga os déficits perpétuos do sistema, do que 28 milhões de aposentados da área privada. Ao contrário: os reformadores sociais não admitem que seja feita a mínima mudança para reduzir a injustiça, turbinada pelo fato de que a Previdência, sozinha, gasta mais do que saúde, educação e programas sociais somados.

Jamais se fez uma reforma decente na saúde pública, que Lula já disse ser uma das “melhores do mundo” e na vida real é um dos piores insultos feitos pelo governo aos brasileiros que não têm dinheiro para pagar planos médicos privados. Estão entregues a hospitais sem anestesia para fazer operações, sem horário para consultas, sem vacinas para se defender das epidemias que nunca castigaram tanto a população como neste 14º ano de governos petistas. No momento, por sinal, o Ministério da Saúde foi posto à venda como um saco de batatas por Lula e Dilma, em sua guerra ao impeachment. Só falam no atrativo de sua verba de “90 bilhões” em 2016. Quando dizem “Ministério da Saúde”, não pensam em saúde ─ pensam em dinheiro. Que raio de reforma social estão fazendo aí ─ ou em qualquer outra área do governo que afeta diretamente a vida de quem nasceu no degrau errado da escala de renda? Não há força humana capaz de pôr no “Projeto” de Lula uma melhoria real da educação no Brasil, a única maneira conhecida de fazer com que os pobres saiam da pobreza e não voltem a ela. Nada é tão potente para diminuir as desigualdades quanto o acesso à instrução de qualidade; ninguém consegue ganhar mais sabendo menos. Mas o “Projeto” ignora esse fato. Em vez de cumprirem sua obrigação de fornecer uma educação pública menos miserável a todos, os donos do governo criaram “cotas” ─ o que não ajuda em nada as dezenas de milhões de jovens brasileiros que nunca vão receber cota alguma.

Sobram, para ir ficando por aqui, os aumentos do salário mínimo, as estatísticas sobre um aumento de 130% acima da inflação, de 2003 a 2014, na renda dos 10% mais pobres da população, e o Bolsa Família. Os aumentos reais do mínimo foram criação do governo Fernando Henrique. Os 130% foram, como citado, para os 10% mais pobres, e a renda desses 10% continua sendo uma das mais baixas do mundo ─ fizeram uma viagem da miséria à miséria. O Bolsa Família é um programa de preservação da pobreza nacional; como um cidadão deixará um dia de ser pobre com 150 reais por mês? É isso, no fim das contas, a soma total do que o governo tem a mostrar como “conquistas sociais”. É, também, tudo o que Lula, Dilma e PT prometem daqui para a frente. Estão vivendo o momento decisivo para escapar do impeachment e continuar mandando no Brasil ─ querem garantir que o país não correrá nenhum risco de mudança, nem hoje nem nunca.

A 'nova' Construção

Estrela cadente se despede

Mentira foi tudo mentira / Você não me amou / Mentira foi tanta mentira / Que você contou
(Tito Madi)

O PT está para se despedir do governo e do estrelato. Melancolicamente o partido da ética na política brasileira sai de cena mentindo, ameaçando os próprios brasileiros com seus "exércitos" mercenários, comprando votos favoráveis, com ministro aspone (e investigado pela Polícia Federal) instalado em hotel para comandar o fisiologismo, e apelando para chicanas na Justiça. Um prontuário criminal nada digno para quem bate no peito dizendo estar defendendo a democracia. Enfim, mostra a cara verdadeira de seus companheiros.

Quem defende democracia, adotando manobras criminosas, é grupo autoritário. Por mais que os tempos sejam de incerteza na próxima semana, o PT desde já declara guerra ao país se não aceitar suas condições de "pacto" ou "novo modo de governar". À beira da guilhotina, reza a Belzebu e faz promessas que de antemão sabe-se não serão cumpridas como todas as que cansou de anunciar em todos estes anos. Prenuncia até o caos, como profeta do apocalipse.

O partido que foi contra a Constituição de 1988, porque tinha uma constituição própria, não merece o respeito que exige. É demais aceitar que em uma semana se tornou santo depois de pactuar com o diabo e empreiteiras para vencer eleições e infernizar a vida de milhões de brasileiros com uma governança de mentira.

As barbaridades perpetradas durante 13 anos, que entristecem ex-petistas e revoltam tanto seguidores de velhos tempos, se avolumam nestes dias.

A cartilha da mediocridade é seguida à risca. Os aliados de ontem, que tanto lhes serviram em suas maracutaias extra-governamentais ou políticas, hoje são taxados de bandidos, menosprezados, vilipendiados.

O vice-presidente de dois mandatos é acusado de não ter sido eleito pelo voto, quando formou chapa com a presidente, e querer ganhar o cargo num "golpe". Desvirtuam, como de costume, a verdade segundo seus interesses, pois sem o vice e seu partido não conseguiriam manter-se no governo, como acontece agora.

Usufrutuários do país, não querem largar a boquinha que tanto enriqueceu empresários e principalmente políticos e seus familiares, sem contar a bandidagem comissionada.

Nem um gesto destes dias é prego sem estopa. Todos têm o único intuito de manter o status dos benefícios com o dinheiro público em troca de migalhas jogadas à sociedade brasileira como hóstias abençoadas pelo diabo. Jogam o vale-tudo, antes de escoarem pelo ralo como aposta política de um país melhor que imperou com apoio do crime institucionalizado.

Independente do resultado da votação do impeachment, a estrela é cadente. Surgiu como esperança de mudança, se esvai como exemplo de criminalização política. A ética que cobrou dos outros nunca exigiu nos próprios atos. Isso ninguém mais esquecerá.

Crimes e castigos

Sejam nobres ou torpes os motivos, sempre que um governo compra parlamentares em massa com cargos e verbas para aprovar projetos que afetam as instituições democráticas, o preço dos interesses de um grupo de poder é a degradação do Congresso, o descrédito da política e, como o tempo mostrou, acaba castigando os beneficiários dos crimes.

Foi assim quando Sarney e seus aliados, em uma administração catastrófica, lutaram no Congresso com todos os seus recursos e argumentos… rsrs… pelos cinco anos de mandato. Depois de ser apedrejado num ônibus e sair de cena completamente desmoralizado, com inflação de 50% ao mês, até Sarney deve ter se arrependido. Poderia ter economizado, a si e ao país, um ano de vergonhas e humilhações.

Com o sucesso do Plano Real, a estabilidade econômica, as privatizações, o Brasil crescendo em ambiente democrático, o governo FHC ia tão bem que os tucanos concluíram que precisavam de pelo menos mais quatro anos para fazer a modernização do país. Com seu prestígio e popularidade, FHC poderia eleger quem quisesse para a tarefa, José Serra, Luiz Eduardo Magalhães, mas…

A emenda da reeleição custou muito mais do que esperavam, não só em dinheiro vivo e cargos no governo, mas na degradação do Congresso. Na euforia da reeleição, ninguém notou nada. O procurador-geral que não procurava nada, nada achou. E o segundo mandato, que tanto quis, foi um castigo para FHC.

A reeleição foi uma herança bendita para Lula, que pôde fazer um bom primeiro governo e tentar assegurar de todas as formas, com o mensalão, o petrolão e a compra de apoios, mais quatro anos no poder. E foi justamente em seu segundo mandato, no vale-tudo para eleger Dilma, que começaram a gastança, as fraudes e os erros de gestão que hoje devastam o país e o PT.

Com Dilma a situação chegou ao paroxismo na compra desesperada de parlamentares com cargos e verbas para tentar evitar o impeachment. A fisiologia da digestão sempre termina em …. vocês sabem.

O vendido sorri e agradece, mas odeia quem o compra, porque é testemunha de sua vileza e inferioridade. Jamais será um aliado fiel.

O futuro para reescrever

O futuro nada mais é do que um vazio indiferente que não interessa a ninguém, mas o passado é cheio de vida e seu rosto irrita, revolta, fere, a ponto de querermos destruí-lo ou pintá-lo de novo. Só queremos ser mestres do futuro para podermos mudar o passado. Lutamos para ter acesso aos laboratório onde se pode retocar as fotos e reescrever as biografias e a História
Milan Kundera

O que será o amanhã no país, depois do desfecho de domingo?

O titulo, claro, está reproduzindo um samba bastante popular, mas seu conteúdo reflete o enigma que somente será decifrado depois da votação de domingo sobre o impeachment ou não da presidente Dilma Rousseff. A divisão das correntes em choque está flagrante e perceptível na atmosfera política que antecede as grandes decisões. Falei em divisão, porém isso não quer dizer que em partes iguais. A maioria maciça dos eleitores e eleitoras está desejando o afastamento da presidente da República. Isso é indiscutível e se reflete nos levantamentos do Globo, Folha de São Paulo e de O Estado de São Paulo sobre a tendência dos parlamentares.

Entretanto, a incógnita é se será alcançado o quórum de 342 deputados, 2/3 da Câmara para encaminhar o afastamento à aceitação pelo Senado Federal. A maioria existente é muito ampla, porem no momento em que escrevo, na quinta-feira, faltavam 40 votos para aprovar o processo de impeachment.


A maioria da sociedade brasileira está representada na indicação apontada pelas pesquisas. E inegável que o governo da presidente Dilma Rousseff encontra-se em minoria. Porém, a diferença existente pode não se tornar capaz de assegurar seu afastamento do Planalto.

Mas como disse no titulo, nesta altura dos acontecimentos o aspecto mais importante reside no que será depois do vendaval de domingo. E como vão se comportar as correntes contra e a favor do governo nas praças e ruas brasileiras. Podem suceder confrontos intensos e, por isso, as forças de segurança pública terão que estar preparadas para impedir os choques, observando também limites para sua própria atuação.

O objetivo essencial e impedir acontecimentos que coloquem em risco a segurança das pessoas e dos estabelecimentos comerciais e meios de transporte, como sempre alvo de exacerbações. Este é um lado da questão.

O outro lado, mais profundo, é como o Brasil vai acordar na alvorada de segunda-feira. O que será absorvido da crise e como vão se refletir as reações na formação de qualquer um dos governos que emergir dos votos da Câmará Federal. Sim, porque haverá mudanças inevitáveis no Ministério. Tanto se Dilma sair vitoriosa, quanto se Michel Temer for o vencedor da etapa em confronto.

A própria Dilma Rousseff admitiu na quarta-feira, em declaração pública no Palácio do Planalto, que vai reformular sua equipe. Michel Temer, o opositor da presidente, seguramente nomeara sua própria equipe. Portanto, seja como for, a partir da próxima semana o país não será o mesmo.

Muito mais do que as chamadas pedaladas fiscais, o abalo principal que atingiu o atual governo decorreu da gigantesca corrupção praticada na Petrobras por um triângulo de ladrões, envolvendo empreiteiras , políticos e administradores públicos. A presidente Dilma Rousseff não percebeu que as pessoas mais próximas a ela e a seu governo eram seus principais inimigos. Este o maior fator para seu desgaste. Michel Temer não tocou neste tema, alias como chamou atenção Elio Gaspari no seu artigo de quarta-feira, publicado simultaneamente no Globo e na Folha de São Paulo. A omissão do vice refletiu mal junto a todos aqueles que não apoiam Dilma, mas que apoiam intensamente os resultados da operação Lava-Jato.

Diante deste quadro vamos esperar o desfecho deste domingo e seu reflexo no amanhecer de segunda-feira.

O velho golpe da publicidade e o novo jeitinho brasileiro

Golpe? Que golpe vocifera a ocupante do Alvorada? E a claque repete num coro de estridentes que não vai ter golpe. Só se for o da publicidade, diria eu. O que os americanos chamam de publicity stunt, uma jogada de marketing, ou os franceses chamam de coup de publicité, coup de pub, cascade publicitaire. Ou em bom português: cascata. Sobretudo no cenário da política brasileira, ou ao que ficou reduzida a subcultura política brasileira, de toda sorte de trapaças, mentiras, traições, indecências, escárnios, ataque à propriedade do próximo e até mesmo à sua integridade física. Pela corrupção do valor da democracia numa prática política de pura demagogia, cleptocracia ou oclocracia, desde que o esquerdismo (uma degeneração da esquerda) se infiltrou nos quadros hegemônicos da socialdemocracia e socialismo nacionais, ao invés de sermos representados pelos melhores entre os cidadãos de bem, como já se disse, somos representados pelos piores dos cidadãos de bens. E tenho reiterado aqui: não adianta lúcidas análises de nossos grandes problemas políticos, econômicos, sociais e morais. É urgente o consenso entre segmentos da academia que não esteja comprometida com o Estado dominado pelo anarco-petismo; de profissionais de mídia cansados da cobertura do blá blá blá dos políticos profissionais; de parte de um estamento burocrático de carreira de estado que busca autonomia dos políticos fisiológicos; e de lideranças de empreendedores sociais e privados que não compactuam com o cinismo generalizado. Este consenso em torno de uma agenda reformista do estado brasileiro, de suas instituições e políticas públicas, com suas propostas agrupadas e veiculadas nas redes sociais e na grande mídia, com certeza promoverá uma revolução de costumes políticos, turbinando as mudanças já em curso no âmbito de setores tradicionais da produção cultural como educação, justiça e igrejas.


Por que o lulopetismo, depois de treze anos no poder, simplesmente nos traiu com a promessa de uma nova política baseada na ética republicana que expulsaria a velha prática fisiológica dos governos. Vide a cena dantesca da corrupção a luz do dia e de uma retórica mentirosa que quer enganar todos a todo tempo. O que já se provou impossível no mundo contemporâneo por que a marquetagem tem perna curta. Aliás, marqueteiros políticos são uma jabuticaba que só existe no Brasil. Quando não, um ato falho que revela a pobreza de espírito de reduzir a nobre arte da política a mero marketing comercial. Em qualquer campanha eleitoral do mundo, estrategistas são cientistas políticos formuladores de estratégias de argumentação e não propagandistas de efeitos especiais, de trucagens e trocadilhos de superproduções televisivas. E o petismo, aqui entre nós, abusou da crença de que somos todos crédulos idiotas durante todo o tempo. Menosprezando que os cidadãos brasileiros fossem acordar um dia por não quererem mais viver submetidos a uma falsa esperança delirante de que “um outro Brasil é possível”, mesmo que às custas do Brasil real. Pois acordamos decididos a não mais querer um Brasil de promessas vãs, de propaganda eleitoral compulsória, falsos testemunhais de artistas pagos, militantes recrutados a diárias e sanduíches de mortadela, cenotécnicos palanques de showmícios e manipuladas pesquisas de opinião. Preferimos o país real, mesmo que injusto e com uma imensidão de desafios a cumprir. Mas com nossa liberdade garantida. Liberdades civis de nos manifestar, associar, empreender e assumir nossas livres escolhas. Sem a tutela de governantes e seus comissários arrogantes que querem saber mais do que nós mesmos sobre o rumo que tomamos na vida. Repudiamos palavras-de-ordem de asseclas governistas, doutrinações nas escolas de professores facciosos, má gestão de empresas públicas por executivos e conselheiros esquerdistas, cínicos relativistas morais, realistas mais excessivos do que a própria realidade, intelectuais orgânicos chatos de retrógrados chavões doutrinários já desmoralizados em todo mundo. O estelionato eleitoral de 2014 é que foi o verdadeiro golpe! Não as manifestações de 13 de março que pediram justamente o fim dos golpistas eleitorais. Os verdadeiros cidadãos que não compactuam com a imoralidade pública e a corrupção política como fatalidade nacional! A maioria da população brasileira que foi enganada pelo golpe da marquetagem levada a cabo pelos presidiários João Santana e Monica Moura, o Feira e a Xepa da Lava Jato, a mando e soldo de propina desviada de empresas públicas pela cúpula petista! Este, sim, o verdadeiro golpe de publicidade contra a democracia!

Cabe à mídia cívica brasileira reagir e começar a dar a mesma visibilidade a estes agentes de cidadania das ruas que geralmente dá ao cenário apodrecido dos lobbies dos palácios e das casas legislativas. Pois a velha classe política brasileira trata o cidadão como se fosse delinquente igual a ela ou simples débil mental que cai credulamente nas suas esparrelas. Vejam que eloquente exemplo de que a cultura de cidadania no Brasil começa a vencer a cultura de impunidade. Se o leitor pesquisar no Google as dez menções de corrupção no estado do Paraná, por exemplo, verá que a primeira menção é uma notícia do G1 sobre um caso de corrupção na UTFPR – Universidade Tecnológica Federal do Paraná - e logo abaixo seguem oito menções de combate à corrupção, entre as quais uma reportagem de Wilson Kirsche da RPC – Rede Paranaense de Comunicação filiada da Rede Globo, mostrando um teste de corrupção com um freezer cheio de picolés de iniciativa do professor André Luis Shiguemoto da mesma Universidade. Um cartaz convida os estudantes a retirarem livremente seus picolés contra um depósito de dois reais por picolé numa caixa ao lado do freezer. Pois numa campanha de 400 picolés retirados, apenas 6 unidades não tiveram seus valores depositados, ou menos de 2% do total. O resultado do teste de confiança passou a instruir um debate entre os estudantes sobre a responsabilidade moral individual pela conduta pública como forma de mudança de nossa prevalente cultura política de impunidade. Você pode acessar também a página da campanha Por um novo jeitinho Brasileiro de cinco jovens estudantes paulistas egressos do Colégio Bandeirantes, Amanda, Cristobal, Gabriel, Pedro e Thomas.Inconformados com a balela do velho jeitinho brasileiro, começaram a colecionar exemplos de cidadãos comuns, a quem chamam de “ídolos éticos”, pois todos têm capacidade de auxiliar na mudança dos costumes sociais com condutas cívicas e moralmente responsáveis no cotidiano da sociedade brasileira. A própria reportagem do teste do freezer de picolés consta como um dos exemplos a serem seguidos pelos jovens do coletivo. E compartilhado nas redes sociais, o vídeo da reportagem do Paraná acabou por ser replicado em âmbito nacional como fecho de ouro do Jornal Nacional do dia 11 de abril. O que nos anima de esperança, mesmo que em meio a esta enxurrada incessante de delinquências do noticiário político nacional, de que seis milhões de cidadãos manifestantes de 13 de março, por mais que os governistas se façam de desentendidos com seus infindáveis golpes de publicidade rasteira, não se deixarão enganar todos e a todo tempo. Pelo menos uma parte considerável dos mesmos que tomam iniciativas cívicas como estas repercutidas nas redes sociais e na mídia profissional. Esta é minha aposta. Oxalá!

O inferno de ser Dilma Rousseff

Se um sujeito comum já se cansa de ser si próprio a vida toda; se já considera um peso ter de enfrentar todo dia o mesmo passado, a rotina, as mesmas limitações determinadas pela personalidade; se já se delicia com a imagem de encarnar um John Malkovich por pelo menos alguns minutos, então imagine uma presidente rejeitada. Deve ser um fardo insuportável ser Dilma todos os dias. Ter de levantar da cama de manhã, olhar no espelho e pensar “ah, não, que droga, acordei de novo como Dilma Rousseff”.


Pessoas comuns desfrutam o luxo de errar em segredo – só algum parente, um amigo ou talvez só elas próprias sabem de suas tolices; aos poucos o tempo se incumbe de editar os trechos vergonhosos da biografia. Já Dilma passará o resto da vida em julgamento, evitando festas ou passeios para que os outros não a lembrem de sua culpa, lendo em cada rosto a mensagem “Dilma, Dilma, não se esqueça, você é a Dilma, a Dilma que errou e teimou em errar, a Dilma arrogante que esculhambou o país”.

Eu não aguentaria. Tentaria uma vida anônima na Tasmânia, faria uma cirurgia para mudar de rosto. Ou – uma saída mais simples – tentaria convencer os outros de que virei outra pessoa. Como os criminosos que viram evangélicos na cadeia, admitiria os erros, renegaria o passado, diria a todos que vivia iludido mas agora encontrei a verdade.

É isto que resta a Dilma: criar uma narrativa para livrar-se de si própria
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