segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Podridão e esperança

A política brasileira está podre. Ela é movida a dinheiro e poder. “Dinheiro compra poder, e poder é uma ferramenta poderosa para se obter dinheiro. É disso que se trata as eleições: o poder arrecada o dinheiro que vai alçar os candidatos ao poder. Saiba que você não faz diferença alguma quando aperta o botão verde da urna eletrônica para apoiar aquele candidato oposicionista que, quem sabe, possa virar o jogo. No Brasil, não importa o Estado, a única coisa que vira o jogo é uma avalanche de dinheiro. O jogo é comprado, vence quem paga mais”. Assustador o dignóstico que o juiz Márlon Reis faz da política brasileira. Conhecido por ter sido um dos mais vibrantes articuladores da coleta de assinaturas para o projeto popular que resultou na Lei da Ficha Limpa, foi o primeiro magistrado a impor aos candidatos a prefeito e a verador revelar os nomes dos financiadores de suas campanhas antes da data da eleição. Seu livro Nobre deputado: Relato chocante (e Verdadeiro) de Como Nasce, Cresce e se Perpetua um Corrupto na Política Brasileira, editora LeYa, 2014, merece uma reflexão.

A radiografia do juiz, infelizmente, vai sendo poderosamente confirmada pelas revelações feitas pela Operação Lava Jato. Em resumo, amigo leitor, durante os governos petistas, ancorados num ambicioso projeto de perpetuação no poder, os contratos da maior empresa brasileira com grandes empreiteiras eram usados como fonte de propina para partidos e políticos. Dá para entender as razões da vergonhosa crise da Petrobrás -pilhagem, saque, banditismo, estratégia hegemômica-, que atinge em cheio os governos de Dilma Rousseff e Lula.


O escândalo da Petrobrás, pequena amostragem do que ainda pode aparecer, é a ponta do iceberg de algo mais profundo: o sistema eleitoral brasileiro está bichado e só será reformado se a sociedade pressionar para valer. Hoje, teoricamente, as eleições são livres, embora o resultado seja bastante previsível. Não se elegem os melhores, mas os que têm mais dinheiro para financiar campanhas sofisticadas e milionárias. Empresas investem nos candidatos sem qualquer idealismo. É negócio. Espera-se retorno do investimento. A máquina de fazer dinheiro para perpetuar o poder tem engrenagens bem conhecidas no mundo político: emendas parlamentares, convênios fajutos e licitações com cartas marcadas.

Recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) reduzindo a indecorosa promiscuidade entre empresas e candidatos foi um passo importante. Mas a criatividade da bandidagem não tem limites. Impõe-se permanente vigilância das instituições.

O Brasil depende - e muito - da qualidade da sua imprensa e da coerência ética de todos nós. Podemos virar o jogo. Acreditemos no Brasil e na democracia.

Mañana


O dia em que o primeiro senador da República foi preso é um momento da História que me colheu em pleno trabalho. Soube da notícia no carro, viajando de Linhares para Regência, na foz do Rio Doce. Conexões precárias. Ainda assim, percebi que a maneira de manter o foco no trabalho era interrompê-lo de hora em hora e perguntar: e aí? Delcídio foi preso com um advogado, um banqueiro e um chefe de gabinete. Nunca se foi tão bem equipado para a cadeia.

E aí? Senadores vão confirmar ou negar a prisão de Delcídio. Com a experiência vivida, pensei: voto aberto, cadeia, voto fechado, liberdade. O voto aberto é uma espécie de bafo na nuca. Desencadeia uma reação química que, por sua vez, aciona o instinto de sobrevivência. Dependendo da dose, funciona como o vinho quando se pega o microfone.

No impeachment de Collor era um tal de voto em nome do Brasil, voto pela família, pelo futuro. Sabem que é o bafo na nuca, mas as câmeras estão ligadas, é preciso escolher uma frase como se escolhe um terno para o casamento da filha.

E aí? Planejavam uma fuga de Nestor Cerveró pelo Paraguai. Pareceu-me no Rio Doce, diante dos peixes pulando desesperados com a lama entupindo suas guelras, um plano brancaleônico. Pega o Cerveró, bota no avião, tira o Cerveró de um avião, coloca em outro, escondem o Cerveró no fundo de um veleiro e partem para a Espanha. Cristóvão Colombo às avessas, o mar devolveria Cerveró.

E aí? O plano previa conversas com ministros. Isso preocupa, pensei. Todos sabiam que iriam centrar no STF para destruir a Lava-Jato. O próprio fatiamento dos inquéritos, que os ministros devem ter aprovado, suponho, por uma questão técnica, era para a quadrilha uma parte do plano de melar a Lava-Jato. Mas ficou claro que a Lava-Jato não vai morrer no Supremo. No STF, vai soprar um pouco mais que bafo na nuca: um forte sudoeste, sei lá, um tufão.

Depois do trabalho na foz do Doce, voltei às conexões regulares: Delcídio vai ou não entregar todo o esquema criminoso? Não me preocupo tanto. É um problema mais dele e da família. Mofar na cadeia ou dizer o que sabe. Quase todos os segredos que se atribuem a Delcídio referem-se a episódios conhecidos que, com ou sem ele, acabarão sendo desvendados. Na verdade, todo o material já levantado e as delações que estão por vir bastariam para derrubar 20 governos. É só investigar. Um indício de que há dinamite de sobra foi a notícia de que a Andrade Gutierrez vai pagar R$ 1 bilhão de multa e confessou suborno, entre outras, nos estádios da Copa. Apareceu e sumiu como se fosse o relato de uma árvore caída, um automóvel que bateu no poste. A famosa corrupção, que quase todos esperávamos na Copa do Mundo, tornou-se uma nota de pé de página na sucessão de escândalos nacionais.

Fica cada vez mais claro: o sistema político brasileiro está desmoronando. Vivemos uma crise econômica, política, ética e ambiental. Vivemos também uma crise sanitária, com a tríplice epidemia que se abate sobre o país: dengue, chicungunha e zika. O cerco policial ao governo bandido e seus asseclas é muito fascinante. A sociedade tem um papel, obrigando ministros e parlamentares a um recuo na cumplicidade com o capitalismo mafioso que associa o PT e o PMDB a empreiteiras e banqueiros de rapina. Contemplar esse espetáculo é limitado. As coisas estão desabando também no mundo real, do trabalho, da vida cotidiana.

Por isso que os federais têm de andar rápido. É hora de prender alguns dos nomes centrais da política brasileira. Alguns, como Eduardo Cunha, já deveriam até ter cumprido parte da pena. Apesar de, finalmente, ter aceito o pedido de impeachment.

O que se suporta no Brasil não seria tolerado facilmente em nenhum outro país do mundo: crise econômica, desemprego, crise ética, mar de lama sufocando rios, mosquitos devorando o cérebro de futuras gerações e uma quadrilha cínica no poder.

As circunstâncias pedem um governo. Não é possível atravessar o deserto sem nenhum rumo. O que fazer com as barragens perigosas, como conter a crise sanitária, como recuperar a economia, abrir novas chances no mercado de trabalho?

Há quem ache que faremos isso tudo com Dilma, alma penada vagando pelo planalto central. E que Cunha prosseguirá no seu cargo, em nome da estabilidade, roubando tudo o que restar pelo caminho. A obra dantesca seria concluída com a candidatura de Lula em 2018. Para eles, candidato à presidência, para nós, a xerife de cela.

Mañana. Um dos traços de nossa cultura é empurrar com o barriga, deixar que a Dilma prossiga, Cunha presida, Lula fuja da polícia fingindo que está em campanha. Muito brasileiramente, fomos caindo mais no abismo por falta de energia para derrubar o governo, prender o braço político da corrupção, quebrar a espinha de brilhantes empresários que escolhem o crime como plataforma.

É tarde mas ainda é hora. Os desencontros de Cunha e do PT acabaram abrindo uma nova fase.

Resta saber qual o seu ritmo.

Fernando Gabeira

Democracia de verdade

Eu acho que é preciso continuar a acreditar na democracia, mas numa democracia que o seja de verdade. Quando eu digo que a democracia em que vivem as actuais sociedades deste mundo é uma falácia, não é para atacar a democracia, longe disso. É para dizer que isto a que chamamos democracia não o é. E que, quando o for, aperceber-nos-emos da diferença. Nós não podemos continuar a falar de democracia no plano puramente formal. Isto é, que existam eleições, um parlamento, leis, etc. Pode haver um funcionamento democrático das instituições de um país, mas eu falo de um problema muito mais importante, que é o problema do poder. E o poder, mesmo que seja uma trivialidade dizê-lo, não está nas instituições que elegemos. O poder está noutro lugar
José Saramago

Já foi longe demais

Uma das fotos estampadas em ZH na última quinta-feira mostrava numeroso grupo de parlamentares da base do governo irradiando indizível felicidade. Melhoraram os números da economia? O PIB cresceu? O desemprego diminuiu? Nada disso. Festejava-se a elevação do déficit fiscal para R$ 120 bilhões. Sirvam-se os drinques! O barco afunda, mas o poder é uma festa. Afinal, ele é tudo que importa. Minutos depois, a notícia da abertura do processo de impeachment caía como uma pedra no enorme aparelho digestivo do governo. Não havia sal de fruta suficiente para tamanho mal-estar.

A mentira é o primeiro degrau da corrupção. O sofisma é o segundo. Ambos corrompem a verdade e o resto vem com o tempo e com as ocasiões. Diferentemente do que o governo passou a dizer, a relação de Cunha com o impeachment é funcional e a divergência entre ele e o governo é coisa de família, desentendimento na firma. Não há princípios, nem valores, nem qualquer verdade em jogo. Seus negócios foram descobertos pela mesma Lava-Jato que o PT dizia ser golpista.

Cunha é muito menos dono do impeachment do que eu. Jamais disse palavra a favor. Contra minha vontade (e de dezenas de milhões de brasileiros), sentou-se ele, por meses, sobre trinta e tantos requerimentos. Ou não? Também nisto obsequiou ao PT tanto quanto serviu-lhe, durante anos, na base do governo. Sua prolongada indecisão arrefeceu as mobilizações de rua. Bem como o governo queria. É totalmente fraudulenta, portanto, a tentativa de colocá-lo no papel de dono do impeachment, como se fosse coisa dele e de gente como ele.

Insustentável, também, o xingatório que qualifica como coxinhas, lacerdistas, golpistas e gente da pior espécie os que querem ver o governo pelas costas. Se assim fosse, a Constituição seria "golpista", pois prescreve esse tipo de processo. E mais, Dilma Rousseff, com menos de 10% de apoio um ano após fazer 52% dos votos válidos, teria sido eleita por "gente da pior espécie". Nem o xingamento fica em pé.

O governo já foi longe demais, em tudo. Levou a inépcia aos requintes. Forneceu provas abundantes de que o STF errou ao desconhecer, na ação penal do mensalão, o crime de formação de quadrilha. À vista de seu governo, a gestão do companheiro Collor foi exemplo de austeridade. E de nada vale a presidente dizer que não roubou e não escondeu dinheiro no Exterior porque não é disso que a acusam. Seus crimes foram de responsabilidade fiscal. Ponto e basta. Voltemos às ruas, nós, os donos do impeachment!

É Natal


Ninguém ganha sempre. Por mais que se acerte, haverá um momento no qual o jogo vai mudar. Disso não está livre o presidente da Câmara, o todo-poderoso deputado Eduardo Cunha, no seu interminável processo de criar dificuldades para vender facilidades.

Com uma vida assim construída, com todos os defeitos que tem, ninguém põe em dúvida que Eduardo Cunha é um craque na arte de fazer um certo tipo de política, de exercer um certo tipo de liderança, especialmente de um certo tipo de pessoas e de deputados, de defender certos tipos de ideias, de opções, de caminhos.

É um craque, um gigante na cara de pau capaz de deixar Paulo Maluf como uma criança em tempos de primeira comunhão. Cunha traz nas mãos um baralho próprio que ele domina como ninguém. Só curingas. Ele fez todas as pressões que poderiam motivar o governo a usar seu ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para que esse colocasse cunhas (cunhas boas) na Operação Lava Jato e fizesse as atenções se desviarem de seu nome. Falhou.

Delcídio foi preso, veio aquela história do bilhete onde estavam relatados a origem e destino da generosa bolada dos R$ 45 milhões, que acabaram envolvendo o nome de Cunha, o do próprio Delcídio, o de Renan Calheiros e a citação do vice Michel Temer. Esse insucesso Cunha põe na conta do Palácio do Planalto. Em parte pode ser, mas ele já foi longe demais. Demorou a surgir o que ele está passando, e poderia ser muito mais, se o Regimento da Câmara fosse menos corporativo.

Cunha abriu a tramitação do processo de impeachment. Vai-se agora formar a comissão de 65 membros para se analisar o pedido, na qual o PMDB terá oito nomes. Dez sessões dessa comissão serão consumidas para a apresentação da defesa de Dilma. Transcorridas as dez primeiras sessões, virão outras cinco para que os deputados analisem as peças da defesa. Essa comissão poderá recomendar arquivamento do pedido sob sua análise ou remetê-lo ao plenário da Câmara, para votação.

Estão envolvidos interesses dos partidos que compõem a comissão especial, de deputados que já estão fazendo novenas e promessas para nela sentarem, isso tudo com Eduardo Cunha na presidência da Câmara, Dilma presidente da República, Michel Temer, o vice de terno novo para uma eventual posse (com a sua linda candidata a primeira dama) e Renan Calheiros, na presidência do Senado. Todos com canetas bem abastecidas de tinta. Parido o relatório da comissão, o processo vai a plenário.

Estão, nas ruas, as mais diversas movimentações. Prós e contra. Uma delas, a de “Um Natal sem Dilma”, certamente ficará para outro ano. Para este, Papai Noel já levou as cartinhas, e “esse presente” não estava dado como certo. Vai ser bicicleta para todos, daquelas com rodinhas na roda detrás, para ninguém cair.

Impeachment!

Evidentemente a “vingancinha” do Eduardo Cunha, acolhendo o pedido de impeachment de Dilma por não ter sido bem-sucedido na tentativa de chantagear o PT (e os três votantes do partido na comissão de ética da câmara) gerou mal-estar. A motivação pessoal e desonesta de Cunha – tentar conter a onda de indignação com as evidências de corrupção maciça que o cercam – é a pior possível.

Ou seja, tem gente acreditando que a iniciativa nada isenta de Cunha vai recobrir o pedido de ilegitimidade. Mas, como diz o Collor (que tem uma certa experiência nessas coisas), o impeachment é um bonde perigoso de se botar andando. É de uma certa ingenuidade confundir a ilegitimidade de Cunha e a pertinência do processo de impeachment em si mesmo.

Alguns pontos. Primeiro: o país vai parar? Econômica e politicamente, Brasil já está parado. Os investidores e produtores não estão necessariamente descapitalizados ainda, mas simplesmente sentados em cima do dinheiro, à espera de condições mais seguras. Todos os indicadores econômicos, com ou sem impeachment, já eram suficientemente ruins.

Ou seja, se o pedido de impeachment não vai piorar muito a situação econômica, eventualmente pode ser visto até como um viés de escape. Dilma demonstrou que não tem a capacidade de estabelecer uma mínima pauta comum entre o capital e os trabalhadores, como Lula fez (misturando um tanto de sorte com a conjuntura econômica internacional, e um bom tanto de intuição e carisma). Substituir Dilma o mais rapidamente possível passa a ser uma tentação.


Por que numa democracia mais estável os presidentes não são derrubados, por mais que a situação econômica piore? Porque têm uma legitimidade institucional. Dilma tem essa legitimidade? Em termos. Ela se elegeu com um apelo (isso em termos amenos; ou, em termos menos amenos, uma chantagem e um engodo) às pautas dos trabalhadores e outros desfavorecidos. Imediatamente montou um ministério e assumiu a política econômica com toda a agressividade “neoliberal” que atribuía ao adversário Aécio. Não é uma política irracional, de um ponto de vista econômico ortodoxo – o único problema é que se a política correta era essa, a presidente a aplicá-la não seria Dilma.

Há materialidade no pedido de impeachment? Há, ou não há, dependendo das interpretações. É razoável defender tanto que Dilma cometeu crime de irresponsabilidade quanto defender que não. O que turbina o pedido de impeachment que foi acolhido é que foi elaborado por dois juristas de saber e histórico inquestionáveis, Hélio Bicudo e Miguel Reale Júnior. Bicudo é um importante fundador do PT, um homem corajoso e de moral ilibada, e deixou o partido acusando a corrupção; Reale foi ministro de Fernando Henrique Cardoso – que tem sido alçado de volta à posição (justa ou injustamente) de reserva política e moral da nação. Assina também o pedido a jovem, simpática e ascendente jurista Janaina Paschoal. Ou seja, o pedido tem sim consistência. Seu sucesso depende das contingências políticas.

A saber, principalmente: quem substituiria Dilma. O vice-presidente Michel Temer está entusiasmado. Fez o PMDB produzir um documento de política econômica, que cumpriu suas duas tarefas: a) transmitir confiança ao capital; b) estabelecer diferenças claras com a inépcia econômica que o PT, particularmente na gestão Dilma, revelou. Temer é um operador político seguro, discreto, habilidoso e influente. Pode somar o aval da área política ao do capital, para fazer com alguma segurança a travessia até 2018.

O outro componente do tripé é o social. E, nessa frente, Dilma está em pleno processo de desgaste. Por que? Porque se descolou de Lula no que interessava não descolar – junto à esquerda e aos movimentos sociais, seu carisma e confiabilidade são baixos. E não se descolou de Lula no que interessava descolar – junto à direita e à população que tem uma certa demanda de “honestidade”, ela se parece com uma continuidade nas práticas de corrupção.

Essa impressão é exata? Não, não é. Todos os sinais são de que, até certo ponto, Dilma buscou moralizar áreas onde havia corrupção sistêmica. Um exemplo é a Petrobrás, onde Dilma e sua preposta Graça Foster atuaram para desmontar os esquemas de desvio, o que é reconhecido em mails internos da Odebrecht por exemplo. Mas isso acaba de pouco servindo para Dilma. Apesar de estar convencida de que não deve pagar por, digamos, certas “flexibilidades” de Lula no trato com a coisa pública (o que indicou em algumas falas), a imagem de Dilma, de Lula e do PT estão coladas o suficiente para que acusações a uns contaminem todos.

Essa exigência de moralidade do PT não se aplica ao PSDB e, menos ainda, ao PMDB. Por exemplo, se o PSBD conseguir se desligar um pouco do pré-candidato Aécio, e se o PMDB conseguir se livrar de Eduardo Cunha, com expulsão e prisão, se beneficiarão de um efeito de “limpeza” que ao PT não se aplica.

É justo? Não necessariamente – mas é um custo que o PT paga por ter se construído como polo moralizador das práticas políticas (promessa solene que frustrou tristemente). E não como uma frente com alguma consistência ideológica mas fragmentada entre várias personalidades, como o PSDB. Ou um grêmio totalmente disparatado de interesses, como o PMDB.

Ou seja, Dilma é dramaticamente mais inábil do que Lula – e o fato de também ser provavelmente menos picareta acaba por não beneficiá-la. Mais do que isso, Dilma parece colada ao arquétipo do “bode” – esse roteiro psíquico judaico-cristão que faz a expiação da culpa despencar sobre um inocente. Além disso, na prática Dilma herdou algumas situações sob Lula das quais não tinha autoridade ainda para se livrar, e que podem vir a assombrá-la, como a compra da refinaria de Pasadena (em que teve posição duvidosa, quando estava à frente do conselho da Petrobrás).

Dependendo do andamento das investigações que atinjam seu mentor Lula, atinjam Dilma diretamente, ou a outros petistas, a tendência é a presidente ficar sempre e irremediavelmente contaminada. Some-se a isso o fato é que, sob processo de impeachment, estará ainda mais fragilizada, e menos disposta a (ou mesmo menos capaz de) blindar Lula. A fissão pessoal, moral e política entre os dois, e seus respectivos grupos, tende a se agravar.

Pior, há um terceiro componente explosivo, que tem sido a (politicamente quase inexplicável) postura do presidente do PT, Rui Falcão. Quando era mais de se esperar que ele atuasse como bombeiro, ele se apresentou como incendiário. No episódio de Delcídio do Amaral, foi a nota de Falcão repudiando o senador petista que torpedeou a manobra em que o senado decidiria em votação secreta sobre a manutenção da prisão (e a votação seria favorável a Delcídio). Essa nota poderia passar por produto de desafeto pessoal, ou mesmo uma justa inconformidade com o fato de Delcídio estar atuando à margem do partido (mas é preciso sempre lembrar que o senador estava monitorando o candidato a delator Cerveró não só para si mesmo, mas também para Lula).

Só que ontem, na terça feira, Falcão manifestou-se contundentemente nas redes, dizendo que esperava que os três representantes do PT na comissão de ética votassem pela abertura do processo contra Cunha. Foi o empurrão fundamental para a decisão da bancada (contra a instrução do governo e de Lula) de se posicionar formalmente contra Cunha, e disparar o vingativo acolhimento, por ele, do pedido de impeachment.

Falcão obviamente não está “errado” nem em um caso nem em outro; tanto Delcídio quanto Cunha merecem o repúdio dos cidadãos sinceros. Mas o que o levou a radicalizar? Como eu disse, o governo já não vinha blindando muito o ex-presidente nas investigações, e agora a situação só piorará. Que conta Falcão está fazendo? Ele pode ter entendido que esse resgate da dignidade petista é a única alternativa para o partido sair vivo – ainda que minúsculo – lá adiante. Mas sem Dilma? E, pior, sem Lula? O PT deveria ter feito a opção pela dignidade lá atrás; agora foi meio tarde demais.

O próximo passo possivelmente será um recurso do PT ao Supremo, contestando o acolhimento do pedido de impeachment. Mas esse pode ser um banho frio para a moral petista. Certamente há no STF algumas posições colaboracionistas com o governo – mas, coletivamente, a corte não deve chamar para si a responsabilidade de remendar um bote tão esburacado quanto o de Dilma.

Afinal de contas, mesmo o andamento do processo (após ser examinado por uma comissão a ser oficializada nos próximos dias) não significa a derrubada de Dilma, mas a abertura de uma série de protocolos e rituais, ao longo dos quais a presidente pode e deve se defender. Não me parece que o STF faria uma intromissão para impedir esse andamento, mas sim deixar a batata quente com o próprio congresso. Tudo isso posto, e dado o múltiplo desgaste (econômico, político e social) que a gestão Dilma já sofria antes do impeachment, as possibilidades de deterioração das condições de sobrevivência política da presidente parecem bastante grandes.

A picaretagem e antipatia de Cunha não devem ser suficientes para barrá-las. Essa não é uma questão moral linear, por mais que assim o quisessem as simpatias petistas. Até porque é iminente a substituição dele na presidência da câmara – e também as investigações mais intensas contra o presidente do senado, Renan. Essa arrumada no tabuleiro político já se dará com Dilma (ainda mais) fragilizada, e com Lula quase inoperante.

Ou seja, desta vez a coisa está realmente feia para o petismo, por continências jurídicas, casuísticas e poéticas. Não é só Cunha seu inimigo de ocasião (na verdade a relação PT-Cunha é muito mais de complementaridade do que de oposição), mas a convergência de vários tipos de erros e percalços que podem produzir o naufrágio
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O futuro do Brasil


O Brasil é um país abençoado. Chega a ser difícil imaginar uma riqueza que não tenhamos em abundância. E elas nos foram dadas sobre um solo praticamente livre dos desastres naturais que infernizam a vida de outros países.

Mas nossa riqueza não é apenas material - é também humana. Temos um dos bons povos do planeta, reconhecidamente criativo, esforçado, afável e solidário.

Foi graças à combinação de todos estes fatores que nossos ancestrais conseguiram contornar ameaças as mais sérias, no mais das vezes fruto da cobiça de povos estrangeiros, entregando às gerações contemporâneas um país digno de orgulho, com uma capacidade inimaginável de crescimento.

Foi quando, em nossa era, iniciamos um processo de degradação lento, quase que imperceptível, mas progressivo e constante, do potencial de crescimento da tão bela Pátria que recebemos.

Nossos contemporâneos iniciaram este processo quando, ao longo de diversos governos, optaram pelo transporte rodoviário em um país de dimensões continentais - a propósito, desconheço no mundo país com extensão similar à nossa que tenha optado por rodovias em detrimento de ferrovias ou portos. Para piorar, esta matriz é fornecida por empresas estrangeiras.

Mas a bondade das gerações atuais para com o capitalismo estrangeiro não parou aí. Seguiu firme, promovendo uma segunda "abertura dos portos" - esta última, entretanto, de resultados calamitosos para um país que pretende se desenvolver.

Em verdade, o processo de desnacionalização da economia que se promoveu no nosso país, até onde pesquisei, não encontra paralelo no planeta!

Citarei um pequeno exemplo: há coisa de um ou dois anos planejou-se vender uma das maiores empresas privadas da França a um grupo norte-americano - um negócio absolutamente lícito. Mas eis que os Poderes constituídos daquele país, de forma aberta e frontal, anunciaram ser aquela empresa uma jóia do país, que não poderia ser vendida, e que tudo fariam para impedir o avanço das negociações. O resultado: a empresa continua francesa, e agora revitalizada.

Em nosso país o processo histórico contemporâneo foi diferente: nas últimas décadas incríveis 60% das empresas brasileiras negociadas foram parar nas mãos de estrangeiros.

Da indústria alimentícia à mineração, da comunicação à siderurgia, dos transportes à energia, o que o Brasil possuía de melhor foi vendido a grupos estrangeiros. Um país não pode se desenvolver verdadeiramente sob tais condições.

Em verdade, vejo sustentando nossa aparente pujança o remeter para fora, a preços aviltantes, riquezas as mais preciosas que temos, a maioria delas de natureza não-renovável. A conta desta cegueira já começará a ser paga pela próxima geração - no ritmo atual de extrativismo, que só aumenta a cada dia, daqui a 82 anos não teremos mais minério de ferro para exportar. Nosso níquel só durará mais 116 anos, o chumbo 96, o nióbio apenas mais 35 anos, o estanho 80, os diamantes 123 e o ouro míseros 43. Sim, o Brasil da Serra Pelada será importador de ouro daqui a mínimos 43 anos!

Dizem alguns que o Brasil cresceu nas últimas décadas. Fico a me perguntar, e vai aí uma grande pergunta, quem tem crescido verdadeiramente - se o Brasil, exportador cada vez maior de riquezas em sua maioria não-renováveis, ou se empresas aqui instaladas, com alguns poucos e evidentes reflexos positivos no nosso dia-a-dia e nas contas nacionais. Confesso não ter encontrado, ainda, resposta a esta pergunta...

Pedro Valls Feu Rosa

Brasil é um bêbado que bate na esposa na frente das visitas


Que o Brasil vai mal deve ser óbvio para qualquer pessoa que ousou sair de casa para comprar cigarro na esquina. Está aí mais uma crise, a pior das últimas décadas, que deverá se arrastar durante anos. Estamos caindo, rápida e progressivamente, num buraco sem fundo.

Agora que nos vemos no meio da queda, com o desempenho da economia que só não é pior do que países em guerra, sem dinheiro nem dignidade, talvez seja a hora de voltarmos para aquelas antigas promessas - entre elas a mais repetida de todas “O Brasil é o país do futuro”.

Todas as promessas - e agora isso fica bastante evidente - eram falsas. Não chegaram a durar nada dentro de nós. Quem caiu nessa acabou com a mandíbula deslocada e sem os incisivos. Mas românticos que somos, nunca conseguimos nos livrar de todo dessas ilusões tão brasileiras e trigueiras, e vivemos repetindo para nós mesmos mentalmente “agora vai!”.

Acreditamos naquilo que nunca foi motivo para merecer crédito nenhum. Deixamo-nos seduzir por bestalhões desonestos, por ideais sórdidos. E não há a menor razão para acreditarmos em qualquer outra alternativa proposta pelos mágicos em voga. Não estou me lembrado de nenhum outro povo, neste vasto continente, que tenha dado tanto crédito àquilo que era intrinsecamente abominável como nós fizemos no passado e faremos para sempre.

A quem queremos enganar?

O Brasil é um homem bêbado e descamisado que bate na esposa na frente das visitas. O homem não consegue se manter no emprego. Ele é violento, pega dinheiro emprestado e nunca devolve. E acumula aquela barriga inchada de obstrução intestinal. Não temos motivo algum para acreditar nesse homem bêbado e descamisado que bate na gente. E, no entanto, sempre damos um novo voto de confiança a ele.

O que me intriga é como podemos acreditar, depois de tudo, nesse homem que nos deixou hematomas pelo corpo inteiro, e como chegamos a nos compadecer quando ele apareceu com flores e um pedido de desculpa, dizendo que dessa vez seria tudo diferente?

O brasileiro médio, coitado, tem a devoção de uma mãe de presidiário que visita o filho em cidade distante, a cada quinze dias, levando revistinhas Coquetel e bolo de laranja. Por que nos sujeitamos a uma vocação tão baldada e cansativa? De onde vem essa devoção do brasileiro pelo país?

Confesso que sempre sinto uma espécie de horror quando chego em casa e encontro esse homem descamisado sentado no meu sofá, tirando sujeira do umbigo enquanto derruba cerveja no estofado. No fundo eu sei - todos nós sabemos que não demorará muito até ele encher a cara e apanharmos outra vez. E sabemos que não prestaremos queixa na delegacia no dia em que isso acontecer. Pior, nos sentiremos ofendidíssimos quando entreouvirmos alguém falando mal dele.

Vazio

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.
Augusto Frederico Schmidt

Em clima de desespero, Lula, Dilma e o PT não sabem o que fazer

O Natal e o Ano Novo não parecem promissores para o Planalto, o Instituto Lula e o PT. O clima é de desespero, porque não costumam planejar nada, preferem empurrar os problemas com a barriga, o que explica a despreocupação com a crise econômico-financeira, que a cada dia se agrava, levando o país à ruína. E não aparecem um assessor inteligente para lhes advertir? “É a economia, estúpidos!”. O fato é que ninguém sabe o que fazer, estão atônitos, inertes, abúlicos.

No Planalto, desorientação absoluta. Sem saber como se portar, a presidente Dilma Rousseff fica a se comparar com o deputado Eduardo Cunha, jactando-se de não ter contas na Suíça nem ter escondido patrimônio ao fazer declaração de renda. Esquece que a fila andou, o assunto não é mais o presidente da Câmara, agora ela é que está no centro dos acontecimentos e precisa provar inocência, não adianta alardear ser honesta, isso é obrigação de toda pessoa de bem.

Os ministros mais próximos, do chamado núcleo duro, estão em pânico. Todos eles possuem uma característica em comum — não disputaram eleição em 2010 e não têm mandato, se Dilma sofrer impeachment, estarão desempregados. É o caso de Jaques Wagner, Aloizio Mercadante, Edinho Silva, Ricardo Berzoini, Miguel Rossetto, José Eduardo Cardozo e Aldo Rebelo, que jamais pensaram que o espetáculo chegasse a um final tenebroso. Agora, não sabem o que dizer para defender o mandato da presidente, ninguém lhes dá instruções.

Todos podem ficar desempregados. Quem está melhor de vida é Wagner, depois de oito anos de governador na Bahia. Antes de sair, a Assembleia o homenageou com uma pensão vitalícia, ele já havia arranjado um belíssimo emprego no Tribunal de Justiça para a mulher, Fátima Mendonça, o que não lhes falta é dinheiro.

Mercadante também não tem problema. É amigo íntimo de Henrique Meirelles, com quem trabalhou no Banco de Boston. Aliás, foi Mercadante que apresentou Meirelles a Lula em 2002. Assim, se Dilma desmoronar, o ministro pode ser acolhido por Meirelles no grupo Friboi. Os outros ministros, porém, certamente terão problemas.

Quanto a Lula, está mais perdido do que cego em tiroteio. Sonha em liderar uma frente de governadores e já conseguiu o apoio de oito deles. Na quinta-feira, foi ao Rio pedir a Pezão que lidere este movimento, mas acontece que o governador do Estado do Rio não tem condições de liderar nem ele mesmo. É uma espécie de passageiro da agonia, que herdou de Sérgio Cabral um caos em movimento.

Além disso, a desorganização do Planalto é tamanha que nem havia recursos preparados para apresentar ao Supremo. Os três que foram apresentados foram iniciativas isoladas do PCdoB, de um jovem deputado deste partido, que se elegeu nas abas do governador Flávio Dino, e de três deputados petistas, que anunciaram que iam defender a tese de que Cunha estava impedido de aceitar pedido de impeachment, mas na hora H mudaram a argumentação e alegaram que o pedido não podia prosperar porque tinha sido uma vingança de Cunha, vejam que argumento jurídico mal-ajambrado, como se dizia antigamente.

Os três recursos são muito fracos, dois já foram detonados, só falta o do PCdoB, questionando a validade da Lei 1.079/50, que regulamentou as normas de processo e julgamento do impeachment. Para não dizer que o Planalto não planejou nada, a exceção é justamente este mandado de segurança de 70 páginas que o PT apresentou. Foi adredemente preparado, já estava pronto quando Eduardo Cunha detonou no processo.

A argumentação pode ser longa, mas é ridícula, porque a lei 1.079/50 está em vigor e já foi usada três vezes — no impeachment de Collor, logo depois na malograda tentativa que o então deputado Jaques Wagner (PT-BA) fez para afastar o presidente Itamar Franco, e também quando o deputado José Dirceu (PT-SP) pediu o impeachment do presidente FHC.

Parece que agora o objetivo verdadeiro é tumultuar o processo do impeachment, e isso logo se saberá.

Resumindo: todo este imbroglio demonstra que a desorientação realmente se tornou marca registrada da presidente Dilma e agora pode levá-la à derrocada final.

A rua e o mandato de Dilma

Numa conta de hoje, é provável que a doutora Dilma tenha os 172 votos de deputados necessários para bloquear sua deposição. Com gente na rua pedindo que ela vá embora, a conta será outra. O sonho de Eduardo Cunha é que milhões de pessoas ocupem as avenidas e se esqueçam dele. Essa hipótese é improvável. Se é para sair de casa, tirar Dilma pode ser pouco. Deveriam ir embora ela, ele, e uma lista interminável de maganos arrolados na Lava-Jato. Tirá-la para colocar Michel Temer no lugar pode ser um imperativo constitucional, mas está longe de ser uma vontade popular.


A doutora fez uma campanha mentirosa, seu primeiro ano de governo mostrou-se ruinoso, e ela se comporta como os dirigentes da crise geriátrica do regime soviético. Sua neutralidade antipática à Lava-Jato (“não respeito delator”) mostra que não entendeu o país que governa. A economia br piorar.

Ao contrário do que sucedeu com Fernando Collor em 1992, Dilma tem gente disposta a ir para a rua em sua defesa. Essa diferença pode levar uma questão constitucional para choques de rua. Má ideia.

Como na peça de Oduvaldo Vianna Filho, o brasileiro está numa situação em que “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Em março de 1985, o país ficou numa posição semelhante. Foi dormir esperando a posse de Tancredo Neves e acordou com José Sarney na Presidência. Seu governo, marcado pela sombra da ilegitimidade, foi politicamente tolerante e economicamente ruinoso.

Naqueles dias surgiu uma ideia excêntrica: a convocação imediata pelo Congresso de eleições diretas para a Presidência. Deu em nada e foi considerada golpista. Passaram-se 30 anos, e, pelo retrovisor, pode ser reavaliada como peça arqueológica.

Talvez seja o caso de se pensar numa nova excentricidade: Dilma e Temer saem da frente, e, de acordo com a Constituição, realizam-se novas eleições no ano que vem. Se eles quiserem, podem se candidatar.

Elio Gaspari 

Quem não se comunica, se...

Se ferra. Se trumbica. Se estrumbica. Dá com a cara na parede. Tem de sair por aí depois apagando a lousa, revogando as ordens, desistindo de suas próprias decisões antes irrevogáveis. Nossos políticos, os próprios exemplos de trumbicados, comprovam com louvor a teoria do Velho Guerreiro. Alopram. Quem quer um abacaxi? Roda, roda, roda e avisa: um minuto pros comerciais!
Há algum tempo quero falar um pouco sobre a área na qual trabalho, de comunicação, de imprensa. Expor e questionar o que está acontecendo no mercado, a forma como a informação está sendo filtrada para os seus olhos e ouvidos, contar até de como está raro achar um personagem que esteja se defendendo porque teria uma reputação a zelar, um mínimo de vergonha na cara.

Repara. De uns tempos para cá virou moda: quem responde à imprensa é quase sempre o advogado do acusado, na vitrine, e que passa a ter visibilidade; afinal, muitos falam na porta das cadeias onde estão trancados os seu defendidos. Só que advogados advogam, não são obrigatoriamente bons comunicadores, por mais competentes que sejam em suas áreas, por melhores que sejam suas defesas diante de juízes, desembargadores e júris. Sua linguagem é outra, esse é o problema quando as ouvimos. A linguagem que usam é técnica, específica da profissão, estão sempre numa atitude meio defensiva, protegendo a linha da cintura de seus clientes. Nós estamos aqui fora, esperando não a redução de penas, mas explicações sobre o que aconteceu.
Não é questão de certo ou errado. Mas é o que torna possível perceber – e é horrível isso -que querem que a opinião pública se esgoele; fatalmente se cansará da questão, substituída por outra gritaria, por outro assunto. A opinião pública é utilizada para fazer pressão, quando interessa – autorizam até entrevista dos clientes ao Fantástico. Quando essa pressão é contra, aí não há por que satisfazer ao seu apetite – e servem ao público as falas de suas defesas, repetitivas, monocórdicas (pois o texto já foi encaminhado aos magistrados, não pode variar), às vezes até desconectadas da realidade mínima dos fatos.

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Mas o que acelerou mesmo o tema foi esse caso de São Paulo com os garotos que ocuparam as ruas para protestar contra o que eles nem bem sabiam bem o que é, mas não gostaram. Não gostaram e pronto. Porque o que chegou é que fato x ia mexer muito com a rotina. Não houve da parte do governo Alckmin e nem do secretário com cara rude o cuidado de antes preparar o terreno para plantar a ideia. Aí ficou até engraçado porque a ideia de que ele desistiu antes que aparecesse um garoto morto ou machucado parece que era boa, defensável – todo mundo que tem filhos e que eu perguntei, achou legal, falou bem, gostou. Só que saber ou ver que a polícia estava dando umas bifas nos jovens não foi legal. Eu também não ia gostar de imaginar meus filhos sendo educados a cassetetes e bombas de gás. Assim, passou-se quase um mês só de bate-boca, prejuízos, invasão de escolas, quebra-quebra, ruas ocupadas e bloqueadas. Os meninos estavam tendo ali a sua primeira incursão no maléfico mundo da política, no caso representada pelos sindicatos instigando a rebeldia juvenil. Deixa. Assim aprendem, como alguns de nós que estivemos em outros lados, e que também um dia já acreditamos até num certo líder metalúrgico.

A presidente Dilma é outro exemplo de quem despreza a comunicação ou está cercada por não entendedores. Ou, ainda, é uma que só de birra não quer escutar, faz o que quer, contraria conselhos – como aquele que diz que em boca fechada não entra mosquito, ou outro, que quanto mais fala, mais se enrola, ou um terceiro: quem fala demais dá bom-dia a cavalo.

Só que o mosquito do momento, que prolifera junto com o abandono cívico, não entra na boca. Pica. E suas patinhas-agulha estão transmitindo males que não esqueceremos tão cedo, porque essas crianças de cérebro pequeno vão sobreviver e a imagem delas irá nos atormentar ainda mais lembrando dessa época agora, com esse grito parado no ar, momento que não anda nem desanda, nem sai de cima. E as explicações, quem irá dá-las? Quem vai contar por que aquele mosquito que Oswaldo Cruz eliminou do Brasil há um século hoje zomba de nossos Governos?

Se a boca é feita para falar como se diz, não há porque ficarmos quietos com o silêncio deles em suas manobras.

Boca de siri! Não os deixe perceber que o povo já os viu sendo pegos com a boca na botija. Enquanto isso, tempo que esperamos explicações, a gente vai continuar botando a boca no trombone. Quem não fala, consente.

domingo, 6 de dezembro de 2015

E no teatro mambembe...

Se quiserem saber minha torcida íntima (e não política), tomara que a própria presidente ainda encontre forças para reconstruir seu papel na História. Mas esta é impiedosa quando os atores ficam aquém do que o momento exige
Fernando Henrique Cardoso, em SOS Brasil

Os donos da crise


Salve-se quem puder e como puder. Desde que a Operação Lava-Jato se aproximou de forma incontestável do Planalto e do Congresso Nacional, essa tem sido a regra.

Com a lama já batendo no queixo, aqueles que deveriam ser exemplares na defesa e respeito aos poderes constituídos agem para desestabilizar as instituições. E, com a já conhecida desfaçatez, o fazem em nome da normalidade democrática.

Ninguém escapa: a presidente Dilma Rousseff, o vice Michel Temer, os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha - um showman especializado em pirotecnias -, o ex Lula e dirigentes do PT.

Na tentativa desesperada de se safarem, tentam fazer crer que são as instituições, e não eles, o cerne da crise.

Cada um despeja culpas em outros e todos culpam o Ministério Público, a Procuradoria Geral da República e a Polícia Federal por fazerem exatamente o que tem de ser feito: investigar e denunciar.

A categoria dos que se acham intocáveis parece nada ter apreendido com o Mensalão. Reincide nos delitos e na conduta pós-crime.

Espanta-se com as ações das diferentes instâncias da Justiça. Considera ingratidão a recusa do ministro do Supremo, Teori Zavascki, em abrandar prisões. Esperneia nas aprovações de delações premiadas, quebras de sigilo e de mandados de busca e apreensão em casas de políticos, como o que desbaratou a frota não declarada de carros de luxo do ex-presidente deposto e senador da base aliada, Fernando Collor de Mello (PTB-AL).

A saída, com menor ou maior estardalhaço - caso típico do presidente da Câmara, acusado de ter recebido uma bolada de US$ 5 milhões -, é fazer confusão, ameaçar, subir o tom, criar clima de ruptura institucional.

A tese de instituições e democracia em risco, levada ao extremo por Renan e Cunha na semana passada, já vinha povoando discursos de Dilma e de seu vice, de Lula e do PT. Acuados, todos reclamam de vazamentos seletivos de depoimentos à Justiça, denunciam interesses escusos genéricos e golpismo.

Os petistas, com uma imaginação fertilíssima, materializam maquiavélicas fileiras da direita, orquestradas para barrar o projeto do PT – sabe-se lá qual – e a volta de Lula, o grande, à Presidência da República.

O país já está mergulhado em crises política e econômica gravíssimas, com crescimento negativo, desemprego e inflação em alta, uma presidente da República frágil, impopular, sem crédito algum depois de se reeleger sob um manto de mentiras. Tudo o que não precisa é de uma crise institucional forjada ora por Lula e o PT, ora pelo Planalto, ora por Renan ou Cunha.

Todos, sem exceção, miram na destruição da credibilidade da Justiça para salvar suas peles.

Mas, por maior que seja a tentação do presidente do STF, Ricardo Lewandowski, que, em inexplicável segredo, se reuniu com Dilma em Portugal -, as instituições de Estado provaram e continuam a demonstrar que não caem em armadilhas. A expectativa é de que nem ao menos tropecem.

Do contrário, aí sim, a crise institucional se tornaria real. Uma temeridade
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O prêmio Lula de melhor Lula do ano vai para ... Lula

O título não é (totalmente) gozação: o Instituto Lula avisa que o prêmio Luiz Inácio Lula da Silva para aqueles que contribuíram para o desenvolvimento rural foi atribuído… ao Lula. Seria ridículo, se não fosse ridículo. Mas converge com um dos hábitos mais bizarros da esquerda governista do século passado: o do culto à personalidade.

Tudo começou com as homenagens recorrentes ao finado Lenin, morto em 1924 (homenagens cuja progressiva solenidade era precisamente uma cortina de fumaça para a extrema distorção da revolução russa promovida por Stalin). Dessa época é o início do, digamos assim, surto simbólico que levou, entre outras coisas, ao apagamento de Trotsky das fotos históricas – com se mudar uma foto mudasse a própria história.

Não estou dizendo que se Trotsky tivesse podido vencer Stalin a revolução socialista teria sido levada a bom termo (o próprio Trotsky negava a possibilidade da revolução em um só país). Mas o fato é que Trotsky tinha uma percepção cultural bem mais sofisticada, vide as conversas de bom nível com gente como o surrealista André Breton, ou com o casal Diego Rivera e Frida Kahlo (com quem teve um affair ao se refugiar no México, onde acabaria morto).

O culto a Lenin produziria, além da estatuária, itens involuntariamente paspalhos como o broche do Lenin-bebê (foto), que é uma espécie de apropriação de esquerda do milagreiro Menino Jesus. Junto com a virgindade de sua mãe (fecundada por um pai incorpóreo), e a própria vitória de Jesus coincidindo com sua aniquilação física, não é estranho que uma mitologia monoteísta como a cristã se empenhe em situar a fonte da virtude moral fora do corpo. Também não é estranho que a mulher, dotada de útero (ou seja, de um equipamento reprodutor de matéria), seja considerada fonte da tentação viciosa.

O que é esquisitão é que a esquerda supostamente marxista (ou seja, em tese fundada no materialismo dialético, que trata da interrelação dos sistemas sociais com as contingências físicas da produção econômica) viaje nessa maionese simbólica. Como hoje em dia, quando esse é o caso de Nicolás Maduro, que vê o comandante Chavez no c* do cachorro (brincadeira, viu no barro, e piando em um passarinho).

Ou de outro maluco, o nortecoreano Kim Jong-Un, que herdou de seu pai a infalibilidade (isso nem o Papa alega mais) e títulos oficiais que mais parecem nomes de fantasias categoria luxo de Clóvis Bornay, como “Grande Homem Que desceu do Céu” (천출위인), “Suprema Encarnação do Amor Revolucionário Entre Camaradas” (혁명적 동지애의 최고화신) e “Grande Homem, Que É Um Homem de Ações” (실천가형의 위인). Eu maldosamente traduziria como “O Grande Homem Que Caiu na Terra”, “Suprema Encarnação do Amor O Que É Isso, Camarada” e “Grande Homem, Que É Gente Que Faz”.

Brincadeiras à parte, há enorme perigo em envolver um movimento popular com essas simbologias delirantes. Vimos na Rússia uma revolução que, em seu início, mobilizou uma enorme potência criativa – o que pode ser aferido no desenvolvimento explosivo das artes locais, como no cinema (Einsentein, Vertov) e nas poéticas visuais e literárias (Rodchenko, Maiakovski). Stalin se encarregaria de domar e canalizar essa inventividade para a institucionalidade merreca do realismo socialista.

A potência simbólica soviética viria a inspirar, por um lado, a épica nazista, e depois a maoista; e por outro a própria indústria cultural pop. Sim, cineastas russos da década de 1920 como Vertov, Eisenstein e Kulechov são os pais do videoclipe (e as drogas psicodélicas são as mães). Por sorte, chegamos ao século 21 mais equipados para arrastar impiedosamente gente como Maduro e Kim Jong-Un – e Lula – no seu próprio ridículo. Fora um ou outro surto simbólico descontrolado mas rapidamente debelado, como o da Dilma “Coração Valente”, temos (pelo menos uma parte de nós) mostrado resistência a esse tipo de credulidade. Aqui, fizemos flopar um projeto insidioso como o do filme Lula, o Filho do Brasil, peça-chave do lulismo, que passava do bolivariano ao nortecoreano.

Mas onde está, então, na disputa simbólica atual, o resquício de “verdade”, do que interessa? A minha resposta, a sério, é: na zoeira. A grande inteligência coletiva revelada na horizontalidade da internet tem a ver com a disposição (quase incontrolável) de desconstruir o que se apresenta como solene e/ou sagrado, ou seja, vertical. Assim, a rede não é um campo a mais onde o marketing possa lançar suas narrativas sem ter uma recepção crítica. O atraso do PT (ou sua condição patriarcal de “fim de uma era”, e não “o início de outra”) se comprova pela tacanheza narrativa dos chamados blogs progressistas (petistas).

Um novo discurso feminista, por outro lado, começa a marcar posição nas redes. Neste texto, A carapuça do amigo secreto, eu tento estabelecer a importância de uma nova hashtag que somou, à denúncia da #primeiroassédio, um componente de desconstrução e deslocamento. Evidentemente não se trata de negar a seriedade de ocorrências graves mas, ao contrário, impedir que elas sejam sequestradas e abduzidas pelas “grandes narrativas” verticais – inclusive as do “esquerdomacho”.

Por isso eu até entendo a impaciência com que a solidariedade aos parisienses vitimados por ataques terroristas tenha sido tratada por quem “preferia” a solidariedade à tragédia ambiental de Mariana, no Brasil. Por um lado, como especulei neste texto, Meu mártir é mais mártir do que o seu (não), há um componente (cristão e marxista) na busca de narrativas de culpa e punição nas tragédias. Mas, neste caso, houve também o elemento saudável de desconstruir a grande narrativa institucional que tentou se vender em torno de Mariana (acidente, heroísmo, a empresa como co-vítima, a pretensa resposta do estado). Se finalmente está se colocando um dedo na cara da Samarco, da Vale (cujo papel tentou se ocultar), dos governos municipal, estadual e federal, foi (num aparente paradoxo) por conta da pressão das redes virtuais.

Na verdade, a “lama tóxica” não existe no corpo natural da terra. Ela é a resultante de um estupro, o da mineração, e de suas tecnologias mais irresponsáveis. Assim como o abuso de um corpo feminino extrai de uma mulher o seu pior, o abuso da natureza, produto de uma alucinação coletiva patriarcal, conduz a terra ao desequilíbrio e à destruição. Com a chamada esquerda totalmente intoxicada pela ilusão desenvolvimentista, como nota o professor Moysés Pinto Neto, “essa divisão entre direita e esquerda (…) não será a mais relevante para os próximos tempos. A batalha não está mais no campo antitético entre Estado e Mercado, mas entre o crescimento e seus inimigos – os rexistentes ou, usando o termo de Latour, os terranos”.

De certa forma, é a inteligência “terrana” (horizontal) que chega à internet, para desautorizar uma suposta esquerda cuja impertinência narrativa é em tudo similar à da direita. A cara de um peixe morto se parece cada vez mais com uma tragédia – e a cara de um líder autorreferente, autocongratulatório e autocredibilizável como Lula se parece cada vez mais com a de um peixe morto.

Governo Gênesis

Estimamos a recuperação em dez anos com base em duas perspectivas. Um lado é a restauração dos processos ecológicos do rio e de suas áreas marginais. Vai demorar até que as áreas impactadas sejam reflorestadas e haja uma multiplicidade de espécies. Até que o rio possa ter condições de receber as matrizes que foram capturadas e que estão agora em centros para reprodução é preciso um prazo. Além disso, na área estuarina e costeira, o desastre ainda está em andamento. Ainda não temos uma ideia completa do nível do impacto que será atingido ali. O segundo aspecto é que, apesar de a chuva levar parte desse material e a empresa fazer a drenagem e retirada dos rejeitos que estão depositados, sabemos que é tecnologicamente impossível retirar tudo e promover uma verdadeira filtragem do rio
Marilene Ramos, presidente do Ibama

Tijolos para Babel

Não comprar a “roubada” dessa guerra, entende-se. Seria inteligente negar-lhes o que eles mais querem desde que ficasse claro que era disso que se tratava. Mas Geraldo Alkmin, o candidato-custe-o-que-custar que não conduz, é conduzido, fez muito mais que isso: atirou pedras no deus da educação pública que os fariseus arrastavam pelo calvário; renegou um plano de indiscutível melhoria da qualidade da educação e da gestão do dinheiro público para ajoelhar-se diante do me-engana-que-eu-gosto dos estudantes de araque do soviete da Apeoesp; reconfirmou a idéia de que neste país quem mete o pé na lei vence ao enche-los de rapapés e salamaleques…

Herman Voorwald, diante desse ato oficial que veio estabelecer que não só o interesse público como também a educação deixaram de fazer parte do escopo da Secretaria de Educação, pediu, digno, as contas, educador e servidor sem aspas que é. Seja quem for o cabo eleitoral que sua excelência encontre para por no lugar dele é certo que não lhe renderá os votos pela adulação dos quais está humilhando São Paulo. Aquela turminha de gatos pingados que foi animada a cuspir nos direitos dos 12 milhões de paulistanos nas últimas semanas ficou desolada com a perspectiva do fim da farra e promete continuá-la indefinidamente para que fique mais uma vez bem claro que nada disso tem qualquer coisa a ver com educação, com reorganização escolar ou, muito menos ainda, com “diálogo“, é só mais um ensaio do que vem por aí quando o Brasil pedir que o estado petista dê um passinho atras para que a economia nacional consiga por o nariz um dedo acima do mar de lama.

Já aquela imprensa aliada dos opressores dos seus leitores que “turbina” cada ato do “Movimento dos Sem Crise” para vender traque por furacão e intimidar quem venha querer tocar nos seus privilégios, esta colocou mais um tijolo no tumulo no qual se vai emparedando. E os “publishers” desnorteados, incapazes de desviar o olho de qualquer coisa mais que o próprio bolso na sua incúria omissa, descem mais um degrau em direção ao Nono Círculo do Inferno, aquele mais baixo de todos que Dante reserva aos traidores da pátria aos quais nega até o fogo; condena ao gelo do opróbio eterno.

Mosquitos, tragédias e desleixo

O mosquito da dengue continua sugando corpos e deixando um rastro de sofrimento pelo país. A conclusão é patente: o Brasil tem fracassado no combate a esse bichinho, o Aedes Aegypti, eis que, a cada ano, um surto explode em algumas regiões. Mas a crônica das doenças é mais densa: esse mesmo mosquito, responsável pelo surto de febre chikungunya no ano passado, transmite também o zika vírus, um séria ameaça e um tormento para as gestantes desde meados deste ano.

Os cientistas o chamam de arbovírus, que aportou por estas plagas tropicais vindo das florestas africanas e espalha terror, com o mal assemelhado à dengue. Seus efeitos aparecem na má formação congênita do cérebro, cujo perímetro cefálico é menor que o normal, habitualmente superior as 33 cm. O pavor da epidemia de microcefalia se espalha entre famílias, sinalizando que as férias de final do ano no Nordeste, principal região afetada, serão acompanhadas pelo medo do vírus africano.

Em Minas Gerais, a tragédia que se abateu sobre a região, a partir de Mariana, devastando 15 km2, é o retrato da irresponsabilidade de governos e empresas em relação ao meio ambiente. Nessa frente, o discurso é de mais e as ações preventivas são de menos. De tragédia em tragédia, o Brasil vai apagando das páginas de sua História o mito de paraíso terrestre que aqui se cultiva desde os tem­pos em que Pero Vaz de Caminha, embevecido com a exuberância das matas, as águas cristalinas dos rios, a beleza das praias, o jardim paradisíaco habitado por homens pacatos e mulheres nuas, descreveu a el-rei a condição ímpar de uma terra em que “se plantando, tudo dá”.
Lévi-Strauss, após uma excursão por Goiás, Mato Grosso e Paraná, em seu livro Tristes Trópicos (1955) foi cruel: “é o ambiente mais hostil ao homem sobre a superfície da Terra”. Descrevia o antropólogo o reino horripilante de insetos e artrópodes, picadas de mosquitos, mutucas e miruins, piuns e carrapatos, aranhas, lacraias e escorpiões, o espec­tro das moléstias e do calor, sob o qual padeceu nos grotões de Mato Grosso. Dos idos de 1935 a 38 para cá, as entranhas nacionais foram ocupadas de modo acelerado, ganhando as tintas da devastação. E assim o território passou a conviver com as curvas que entrelaçam a estética de uma maravilha do planeta com paisagens aterradoras, geradas pela força da na­tureza e pela incúria humana.


A tragédia que devastou as terras banhadas pelo Rio Doce é a inequívoca demonstração de que o nosso pa­raíso vira, às vezes, um inferno. As catástrofes, de tão previsíveis, começam a fazer parte do calendário entre o Natal e a folia carnavalesca. Em 1984, um incêndio na Vila Socó, em Cubatão, por falha em um duto subterrâneo da Petrobras, ocasionou 93 mortos; em 1987, a contaminação por Césio 137, em Goiânia, contaminou pessoas, água, solo e ar; em 2000, um vazamento de 1,3 milhão de litros de óleo na Baía de Guanabara causou a morte da fauna local, poluindo o solo de vários municípios; em 2002, na Região Serrana do Rio de Janeiro morreram 42 pessoas. No final de 2009, houve o deslizamento de terra na Ilha Grande, em Angra dos Reis, que chegou a matar 30 pes­soas; em 2003, o rompimento de uma barragem em Cataguases, em MG, atingiu os rios Pomba e Paraíba do Sul.

Em 2007, mais um rompimento de barragem em Minas, desta feita em Miraí, com vazamento de 3 milhões de m3 de água e argila; em 2008, as águas devastaram Santa Catarina, afetando mais de 1,5 milhão de pessoas e 25 comunidades e registrando mais de 100 mortos; em 2011, outra tragédia na região serrana do Rio resultou em cerca de 800 mortos; nesses mesmo ano, um novo vazamento na bacia de Campos deixou um rastro de destruição numa área de 162 km2. E, por último, assistimos ao rompimento da barragem de Mariana, que provocou a liberação de 62 milhões de m3 de rejeitos.

Esse painel de desastres aponta para o desleixo. Há cerca de 7 milhões de pessoas que vivem em áreas de risco no Brasil. A qualquer hora podem ser aterradas. Onde estão os planos para administrar os acidentes que podem acontecer? Não existem. O que há é muita polêmica, a partir da questão: qual a autoridade com responsabilidades para cuidar de tragédias? Há muitos órgãos nas três instâncias federativas, porém sem nenhuma integração entre eles. União, Estados e municípios deveriam adotar uma linguagem homogênea em matéria de Defesa Civil, até porque essa frente faz parte das estruturas das municipalidades. Se não há ar­ticulação entre os entes federativos, inexistem planos integrados de prevenção.

Não são necessárias mais leis. Importa, isso sim, fazer que os códigos existentes sejam aplicados. Lembremos a lição de Montesquieu: “Quando vou a um País não examino se há boas leis, mas se são executadas as que há, pois há boas leis por toda parte”. Urge que o Minis­tério Público ponha a mão na cumbuca, identificando os atores responsáveis pelo desleixo nas instâncias municipal, estadual e federal. No dia em que governantes forem flagrados e punidos por não cumprirem a lei que coíbe construções precárias e irregulares em solo urbano, o Brasil estará dando um passo à frente no terreno da ordem pública.

Na esteira do descontrole, há outro fundo do poço na área da saúde. Todos os anos, as mesmas epidemias, as mesmas endemias, a mesma lengalenga. O Nordeste e o Rio de Janeiro emergem com seus surtos de dengue. Recursos para combate às urgências são escassos. Esta semana, o Congresso teve de alterar a meta de superávit de 2015 para um déficit de R$ 119,9 bilhões. A máquina pública está praticamente estancada. O cúmulo da situação é ler que pode faltar dinheiro para água, luz e até papel higiênico na administração federal. Ou saber que, em outubro de 2016, poderemos nos deparar com a volta da velha cédula eleitoral por falta de recursos para bancar a eleição eletrônica. O Brasil do Século XVIII está à vista.

Socialismo, corrupção e bondade

Todos nós exercemos a bondade como estratégia de qualificação social. Ser reconhecido como uma pessoa boa nos ajuda a conseguir amigos, amantes, empregos e clientes. Como já disse Joseph P. Kennedy, “não importa o que somos, mas o que as pessoas pensam que somos”. Não há pecado nisso. Os problemas surgem quando a bondade é invocada como ferramenta de manipulação social.

Hitler apresentava-se como uma pessoa boa, que amava e queria o bem dos alemães. Seu grande ato de bondade foi levá-los à guerra, exterminar judeus e destruir os países vizinhos.

Stalin apresentava-se como uma pessoa boa, que amava e queria o bem dos russos. Seu grande ato de bondade foi tirar a liberdade de todos eles, assassinar ou deixar morrer de fome dezenas de milhões de pessoas que não estavam contribuindo com a sua bondade.

Papa Doc era um médico cheio de bondade. Era tão bondoso que foi eleito presidente do Haiti. Era tão bondoso que perseguiu e matou quase todos os opositores ao seu governo, já que eles tentavam impedir o exercício de sua bondade.

Pol Pot era outra pessoa cheia de bondade no coração. Estudou Lenin, Fundou o Partido Comunista Khmer e exterminou uma parte da população do Camboja para oferecer amor e dignidade à outra parte.

Cuba é governada há mais de cinco décadas por pessoas extremamente boas. Fidel Castro, com a ajuda de pessoas tão bondosas quanto ele, tomou o poder para eliminar a ganância e o egoísmo da sociedade cubana. Perseguiu, torturou e matou dezenas de milhares de cidadãos porque toda bondade tem seu preço. Hoje os cubanos vivem exclusivamente da bondade de seus líderes.

A bondade também reina na Coreia do Norte. Kim Jong-um adora crianças e persegue implacavelmente todos que se opõem à sua bondade.

Terroristas são pessoas boas. Explodem bombas invocando o Islã, que é a religião do amor, da tolerância e da bondade.

Na semana passada, em depoimento à Polícia Federal, o senador petista Delcídio do Amaral justificou sua tentativa de corromper um dos condenados pela Operação Lava Jato e de organizar sua fuga do país como sendo uma ação humanitária. Delcídio é uma pessoa boa.

Quando um político confessa sua corrupção, o faz apenas para conseguir algum benefício jurídico, mas o comum é que todos se digam pessoas boas que recorreram a meios “informais” para ajudar outras pessoas.

Qual é a pessoa mais bondosa da história do Brasil? Lula. Ele próprio afirmou isso diversas vezes. Quem ousa contestá-lo? Só quem tem ódio no coração.

Lula liderou o maior exercício de bondade que esse país já viu. Através de seu governo e de seu partido, roubou bilhões de reais de maus brasileiros para distribuir centenas de milhões de reais aos bons brasileiros, os mais pobres, aqueles que são excluídos pelo capitalismo. A moral socialista diz que a diferença entre o que foi tirado de uns e dado a outros é uma compensação pela bondade que foi empenhada.

A política é um exercício de bondade. Políticos são pessoas abnegadas, sem qualquer interesse pessoal, dedicadas a fazer justiça social. Brasília é a maior concentração de pessoas boas do país. O estado é a grande ponte da bondade.

Socialismo é bondade. Todos os movimentos socialistas são liderados por pessoas extremamente boas. A prova está em seus discursos. Nunca conseguiram sequer fazer uma granja funcionar, mas são pessoas boas e é isso o que importa.

A moral socialista diz que existem dois tipos de corrupção, a má e a boa. A primeira visa interesses privados. Eduardo Cunha. A segunda tem função social e por causa isso deixa de ser corrupção e se torna apenas solidariedade. O PT é um partido extremamente solidário.

Os políticos do PMDB e do PSDB têm bondade em seus corações. No coração dos petistas têm mais bondade, mas ninguém questiona que o PSOL é o partido que mais concentra bondade, afinal, entre seus militantes estão muitos artistas, e como sabemos, artistas são pessoas boas. A Rede também representa a bondade, já que sua principal líder veio da floresta. Pessoas das florestas são pessoas boas.

A bondade socialista também se dedica a apontar onde está a maldade. A maldade está nas pessoas que visam obter lucro depois de pagar salários, impostos e fornecedores. A bondade socialista indica que a maldade está em quem ousa decidir o destino de seu próprio lucro. A bondade socialista indica que a maldade está nas pessoas que ousam pensar em si mesmas e em suas famílias, que ousam acumular capital para tornar mais fácil a vida dos filhos, que ousam querer se defender da violência urbana, que ousam rejeitar um governo incompetente, mentiroso e ladrão.

A verdade é que o salto de qualidade de vida da humanidade registrado no último século não se deve a uma única manifestação de bondade. Todos os avanços científicos e tecnológicos que tornaram nossa vida imensuravelmente melhor do que a vida dos nossos antepassados foram produzidos por indivíduos que, em vez de fazer discursos lindinhos, dedicaram-se a transformar ideias em benefícios reais, práticos e acessíveis ao maior número de pessoas.

A sociedade precisa enxergar o mal por trás dos discursos de bondade. Precisa enxergar que os ladrões são aqueles que se apresentam como os promotores da “justiça social”. Precisa enxergar que por trás de todo discurso lindinho há um cretino ou um canalha ou a soma das duas coisas.

Caia quem caia

A aceitação do pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff veio um dia depois de conhecermos a brutal recessão que o país atravessa. Recessão com inflação de 10% ao ano. Dilma se mantinha há meses em situação de impasse político no Congresso, refém de um presidente da Câmara inadequado para o cargo e também ameaçado. A situação e o jogo jogado no Congresso eram deprimentes e ajudaram a acabar com que sobrava da reputação da presidente e do PT. Dos parlamentares, já se esperava o pior.

Fora as chantagens políticas, nada de relevante foi aprovado no Congresso neste ano. E a falta de medidas para reequilibrar as contas públicas foi arruinando o país rapidamente.

A presidente agora sob ameaça é considerada razão para muitos empresários e consumidores pisarem no freio. Derrubando o PIB de forma inédita.


Mas esse é só um pedaço da história, dos que têm onde cortar. Entre os mais pobres, o governo Dilma 2 se revelou um verdadeiro pesadelo cujo fim pode chegar apenas em 2018 ou além.

Quase 40% dos brasileiros vivem com menos de R$ 15,60 ao dia, segundo estratificação do Datafolha. Numa pobreza tão grande a ponto de mais de 50 milhões estarem em famílias que recebem o Bolsa Família.

O peso da atual recessão com forte inflação sobre eles é gigantesco, afeta o prato e é onde o desemprego mais faz vítimas.

O IBGE mostrou que a queda no consumo das famílias vem se aprofundando em ritmo chocante. Do trimestre findo em dez. 2014 ao que terminou em set. 2015, elas consumiram 5,7% menos, o maior tombo desde 1996.

O processo de impeachment não resolve nada disso, ao menos no curto e médio prazos.

Mas, levando ou não à destituição de Dilma, funcionará como uma espécie de “reset”. Com um arranjo posterior diferente deste que nos envenenou em 2015.
Fernando Canzian

Enterrar o 13 no dia 13

Credo de um guerreiro

Não tenho país: Fiz do céu e da terra o meu país.
Não tenho lar: Fiz da percepção o meu lar.
Não tenho vida ou morte: Fiz do fluir e refluir da respiração a minha vida e a minha morte.
Não tenho poder divino: Fiz da honestidade o meu poder divino.
Não tenho recursos: Fiz da compreensão os meus recursos.
Não tenho segredos mágicos: Fiz do carácter o meu segredo mágico.
Não tenho corpo: Fiz da resistência o meu corpo.
Não tenho olhos: Fiz do relâmpago os meus olhos.
Não tenho ouvidos: Fiz da sensibilidade os meus ouvidos.
Não tenho membros: Fiz da diligência os meus membros.
Não tenho estratégia: Fiz da mente aberta a minha estratégia.
Não tenho perspectivas: Fiz de “agarrar a oportunidade por um fio” as minhas perspectivas.
Não tenho milagres: Fiz da acção correta os meus milagres.
Não tenho princípios: Fiz da adaptabilidade a todas as circunstâncias os meus princípios.
Não tenho tácticas: Fiz do pouco e do muito as minhas tácticas.
Não tenho talentos: Fiz da agilidade mental os meus talentos.
Não tenho amigos: Fiz da minha mente o meu amigo.
Não tenho inimigos: Fiz do descuido o meu inimigo.
Não tenho armadura: Fiz da benevolência e da imparcialidade a minha armadura.
Não tenho castelo: Fiz da mente imutável o meu castelo.
Não tenho espada: Fiz da ausência do ego a minha espada.

Samurai anônino do século XIV

De barganhas e mentiras

Estou entre os 67% que consideram o governo Dilma ruim ou péssimo, mas não estou entre os 63% que aprovam o seu impeachment. Muito menos me encontro no meio daqueles que acham que “somos milhões de Cunha”. Deus me livre. Será que ter de decidir entre os dois é o que nos reservam esses tempos de lama?

Pelo menos é o dilema que se coloca nessa troca de acusações para saber quem de fato está mentindo — se ela, quando disse que seu governo “nunca fez e não autorizou barganha” para se livrar do impeachment, ou se ele, quando afirmou que “a barganha veio, sim, veio proposta pelo governo e eu recusei”. Ou se o ministro Jaques Wagner, que revidou devolvendo a agressão: “Quem mentiu foi o Cunha”. E se todos estiverem dizendo a verdade sobre quem mentiu?

Afinal, o país, como eu, está careca de saber que tanto Dilma quanto Cunha já cometeram ostensivamente esse pecado — ela, na campanha eleitoral, e ele, ao negar sempre, inclusive na CPI da Petrobras, que tinha contas na Suíça. É deprimente ver altos representantes do Executivo e do Legislativo chegarem a esse nível de ofensas mútuas. Poucas vezes a palavra “mentira” foi tão usada num debate como esse.

Durante meses, governo e oposição ficaram reféns de Eduardo Cunha, por medo ou por interesse, oscilando entre a troca de favores e a troca de desconfianças. De um lado, estava quem fazia o que podia para evitar o impeachment; do outro, quem o queria a todo custo. E, nessa “regra do jogo”, ninguém, ou quase ninguém, foi inocente.

A presidente, porém, pode ter sido ingênua. Diante das tentativas de chantagem praticadas por Cunha, ela não respeitou as recomendações básicas que a polícia faz às vítimas dessa pressão criminosa: não negociar, não ceder e não demonstrar fraqueza. Está claro que o governo cedeu e foi fraco ao tentar barganhar. O resultado é que foi chantageado e, depois, retaliado por quem tinha condição técnica, mas não moral de fazê-lo.

Hoje, segundo levantamento do GLOBO, o impeachment não seria aprovado. A presidente teria 86 votos a mais para se manter no poder. Enquanto isso, se como quer a oposição, o processo for postergado, resta saber o que acontecerá com a política e a economia. É importante que o país saia da paralisia. Tudo bem.

Mas, e se passar da paralisia para o excesso de movimento, ou seja, a turbulência, o conflito nas ruas? Desprestigiada e impopular, Dilma ainda corre o risco de fazer de seu desafeto o herói dessa farsa. Aí, teremos que cantar com Tom Jobim: “É o fundo do poço, é a lama, é a lama”.

Tomara que não. Como se sabe, a esperteza, quando é demais, engole o esperto, que no caso já pode estar com os dias contados.
Zuenir Ventura

Nova fase do autoritarismo

Não é de hoje que o Estado brasileiro tenta estropiar o ensino da História no país. No regime militar, a principal tentativa veio com a obrigatoriedade do ensino de Estudos Sociais, fundindo a História e a Geografia em uma mesma disciplina, em detrimento de ambas. Foi uma decisão do governo Médici, em 1971, no auge da ditadura, restrita ao atual ensino fundamental, antigo primeiro grau. O modelo era o do Social Studies dos EUA, que concebia o estudo da História a partir de círculos concêntricos: família, escola, bairro, cidade, país. Um modelo limitado, ao mesmo tempo individualista e nacionalista. O combate à História como disciplina se alastrou para o antigo secundário, atual ensino médio, com a imposição das disciplinas Organização Social e Política do Brasil (OSPB) e Educação Moral e Cívica. Tais reformas foram executadas nas gestões dos ministros Jarbas Passarinho e Ney Braga no MEC, ambos militares reformados engajados no golpe de 1964.

A sociedade brasileira reagiu, e a História foi restaurada como disciplina específica, entre 1984 e 1993, em meio ao processo de redemocratização do país. Atualmente, ela integra o currículo mínimo do ensino fundamental e do ensino médio. Os diversos Parâmetros Curriculares Nacionais garantiram a interdisciplinaridade, sem rejeitar a especificidade do conhecimento histórico: a diacronia, as particularidades.


Eis que agora vem à baila a discussão da Base Curricular Comum, urdida pelo Estado desde o primeiro governo lulopetista. Nunca se soube como foram escolhidos os membros da comissão encarregada do trabalho, cujos nomes só agora vêm a público, muito menos as instruções que receberam deste governo cara de pau. O fato é que os trabalhos da comissão foram consolidados em 2014, ano eleitoral, e publicizadas em 2015. O conceito de Base Curricular Comum é, por si mesmo, discutível, ao presumir uma uniformidade de conhecimentos desejáveis, sobretudo em História, para um país gigantesco e diverso.

O mais grave, porém, é a retomada da postura autoritária, ainda que invertendo a chave da ditadura militar. A disciplina História prevista pelo regime lulopetista estabelece para o fundamental I o ensino de sujeitos, grupos sociais, comunidades, lugares de vivências e, por fim, o dos “mundos brasileiros”. Conceitos abstratos e anódinos, impossíveis de serem ensinados a crianças, salvo como doutrina. Os primeiros dois anos do fundamental II prosseguem nesta linha abstrata de “processos e sujeitos”.

Imagine-se o aluno que ingressar no ensino médio com tais “conhecimentos” incertos. E logo no primeiro ano, terá aulas sobre os “os mundos ameríndios, africanos e afro-brasileiros”, matéria aprofundada no ano seguinte, com o estudo dos “mundos americanos”, para culminar com os “mundos europeus e asiáticos” no terceiro ano. Nunca houve, na história deste país, parafraseando o “grande líder”, um ataque deste jaez ao ensino da História.

O ensino da História do Brasil sempre foi problemático entre nós, brasileiros, sendo ora admitida como disciplina específica, ora inserida na História Geral. Reaparece, na versão lulopetista, de maneira desastrosa. A comissão encarregada de formular o currículo comum não se avexa de escrever que “enfatiza-se a História do Brasil como o alicerce a partir do qual tais conhecimentos serão construídos ao longo da educação básica”.

Nem mesmo a reforma do ministro Francisco Campos, em 1931, ou a de Gustavo Capanema, em 1942, ministros de Getúlio Vargas, ousaram perpetrar tal decreto, entronizando o Brasil como o centro do mundo. E o tempo era revolucionário, golpista, ditatorial — depende da interpretação.

A proposta da comissão do MEC para o ensino da História em 2015 é, portanto, uma aberração. Mutila os processos históricos globais, aposta na sincronia contra a diacronia, é fanática pelo presentismo. Incentiva ódios raciais e valores terceiro-mundistas superados. Estimula a ignorância, ao colocar a História ocidental como periférica, na realidade como vilã. Combate o eurocentrismo com um brasilcentrismo inconsistente. É uma aposta no obscurantisamo, inspirada por um modelo chavista de política internacional. Que Deus salve o Brasil desta praga — só apelando a Deus, et pour cause.
Ronaldo Vainfas

Reconstrução

Um amigo me diz que o país está acabando. Respondo que não, está recomeçando. Não vou morar em Portugal, como ameaçam fazer tantos desiludidos. Vou ficar no Brasil e espero ver o soerguimento deste país.

O pior já passou, o tempo da impostura, dos falsos heróis, quando o senador petista Delcídio Amaral, que já está preso, presidia a CPI do Mensalão. Quando o deputado petista André Vargas, que já cumpre pena de prisão por roubo, cerrava o punho “revolucionário”, afrontando o ministro Joaquim Barbosa, expropriando, em flagrante desrespeito à memória do país, o gesto de resistência dos que lutaram contra a ditadura.

Uma quadrilha que ocupou o Estado está sendo desbaratada, e esse fato, em si mesmo, já é um recomeço. Os tempos duros que estamos vivendo, com a economia destruída, a Petrobras à beira do abismo, as empresas corroídas pela promiscuidade corrupta com o governo, o desemprego e a violência crescendo nas cidades, são o preço que pagamos por ter, uma maioria de brasileiros, acreditado durante anos que o Partido dos Trabalhadores, nascido de nobres ideais, não poderia abrigar uma quadrilha. Caiu a máscara, já não é possível negar essa evidência. O partido que defendia os interesses dos trabalhadores acabou por objetivamente voltar-se contra eles, destruindo a economia e fazendo milhões de desempregados, como resultado da corrupção em que mergulhou e da gestão irresponsável da política econômica. O PT deixa uma legião de órfãos entre pessoas decentes que confiaram nele e foram ludibriadas.

Não podemos continuar sentindo como se a lama que se espalhou pelo país nos corresse nas veias. Para se reconstruir como nação, o Brasil precisa fazer o inventário de seus ativos que sobreviveram à debacle econômica e moral, voltar a acreditar em si mesmo, em sua sociedade, acreditar em suas instituições. Esses ativos existem e são valiosos.

Uma Justiça que funciona e pune lideranças do mundo político e empresarial é um ativo excepcional de que poucos países podem se orgulhar. Um tentacular sistema de corrupção que o PT, desde a era Lula, instalou como método de governo está sendo desmontado e deslegitimado pela Operação Lava-Jato. O Supremo Tribunal Federal tem confirmado, pela sequência de decisões contrárias às manobras de obstrução da Justiça, o respeito e a confiabilidade que já conquistara no julgamento do mensalão. O STF representa uma segurança contra o arbítrio do poder e do dinheiro.

Temos uma imprensa livre, competente e investigativa, que sempre se insurgiu contra as tentativas de implantação de um “controle social da mídia”, nefasto desígnio de calar os jornalistas. A sociedade brasileira sabe muito bem se informar, debate exaustivamente as notícias que recebe e ainda as põe à prova de outras versões que as redes sociais, com a autonomia e diversidade que lhes são próprias, produzem e difundem.

O Brasil tem uma população honesta, esmagadoramente majoritária, que ganha o seu sustento com trabalho e busca um bem merecido horizonte de melhoria de vida. É ela que aponta a corrupção como o maior problema do país, antes da saúde, da educação e da violência, como revela a pesquisa Datafolha. Acerta em cheio, porque é a corrupção que rouba os recursos da saúde e da educação e que alimenta a violência.

Temos uma opinião pública alerta, que está cobrando o fim do escândalo que é um Eduardo Cunha estertorando na presidência da Câmara de Deputados. Que se mobilizou exigindo que o Senado autorizasse a prisão do líder do governo na Casa. Sem a corrente de opinião que se formou nas redes sociais e interpelou o Senado, talvez os senadores não tivessem, quanto mais não seja por autoproteção, ousado autorizar a prisão de um colega, quiçá de um cúmplice. A vitalidade da opinião pública não está deixando o Congresso fazer o que bem entende. A posição da sociedade será decisiva nos desdobramentos do pedido de impeachment da presidente Dilma.

No momento dramático que estamos atravessando, o mais determinante ativo do Brasil, presente em todas as pesquisas de opinião, é imaterial, é a vontade de virar essa página da nossa história. É a indignação, a revolta, um querer coletivo, que cresce a cada dia e que não vai parar. Nesse querer coletivo vai amadurecer e dele emergir uma nova geração de lideranças, cujo denominador comum é a consciência aguda do drama social brasileiro, o amor à liberdade e o respeito inegociável à democracia. Esse é o perfil dos que, apoiando-se em nossos ativos, empreenderão, na política e na sociedade, a reconstrução do país.

Rosiska Darcy de Oliveira