segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Trabalhar pela democracia

A maioria das pessoas acredita que a democracia é a melhor forma de se escolher um governante. A maioria está errada, posto que alguns facínoras, como Hitler, foram eleitos democraticamente. A democracia não se justifica como um processo de escolha, mas sim como uma forma pacífica de se promover alternâncias no poder.

Como observou o filósofo Karl Popper, onde não há democracia os maus governantes ficam no trono até serem afastados de forma violenta, a um enorme custo social. Assim, a democracia é fundamental.

Além disso, a democracia incorpora a metodologia da ciência à atividade política. Nos países com partidos de ideologias claras, a população pode avaliar os resultados práticos das políticas públicas e votar ou não pela permanência desta ou daquela ideologia no poder. A repetição desse processo tende a selecionar a forma de governo mais adequada para determinada sociedade.

Em suma, a democracia confere vantagens competitivas significativas para quem sabe aplicá-la, e não é à toa que as sociedades mais desenvolvidas têm aparatos legais destinados a preservar seu bom funcionamento. Monopólios, oligopólios e leis inadequadas para o financiamento de campanhas desvirtuam o processo democrático. Concentração de mídia e riqueza promove distorções nas campanhas eleitorais.

A corrupção é especialmente danosa. Nos países em que grupos políticos hegemônicos a praticam de forma sistêmica, cria-se um círculo vicioso. O sucesso eleitoral garante o vilipêndio dos recursos públicos e o vilipêndio dos recursos públicos garante o sucesso eleitoral.

Nesses países ocorrem dois fenômenos. Em primeiro lugar, há pouca alternância de poder. Em segundo, as alternâncias acontecem depois de crises econômicas agudas, quando o estrago da corrupção chega a tal ponto que nem as vantagens conferidas por ela garantem mais as próximas eleições.

O custo social e institucional desse processo é elevado. Político que rouba para financiar campanha comete crime ainda mais grave do que o político que embolsa "pixuleco". Fraude à democracia não é atenuante, é agravante.

Existem ainda formas indiretas de fraudar a democracia. Um governante que frauda a Lei de Responsabilidade Fiscal de um país, seja pela emissão descontrolada de moeda ou por artifícios contábeis, para ganhar eleições imputa o custo de sua campanha a toda a população.

Além de viciar o processo eleitoral e de gerar crises econômicas agudas, a impede que a democracia promova a correta avaliação das políticas públicas.

Por exemplo: ao votar no PT, os brasileiros escolheram manter a estatização da exploração do petróleo. Hoje, apesar de monopolista, a Petrobras tem uma dívida de R$ 500 bilhões e suas ações se desvalorizaram incrivelmente. Isso significa que o petróleo não pode ser estatizado? Não necessariamente, posto que o PT promoveu um tal nível de corrupção na Petrobras que é difícil separar os efeitos da estatização dos efeitos negativos da corrupção.

Quando uma democracia se torna extremamente corrupta, como aconteceu no Brasil, o melhor que os agentes sociais podem fazer é colocar suas divergências ideológicas temporariamente de lado e unir forças para punir exemplarmente quem corrompeu o país e o processo eleitoral.

Defender políticos sabidamente corruptos por questões ideológicas, – ou para não dar o braço a torcer – é trabalhar contra a democracia. Aqueles que não têm a grandeza de espírito para colocar a lisura do jogo democrático à frente das preferências ideológicas lutam pela escravidão pensando estar lutando pela liberdade.

José Padilha

Os filhos do futuro


Como serão os seres humanos do século 21 ? Nas maternidades globalizadas de hoje, não há ultra-som ou pesquisa que nos ofereça resposta exata. Apesar disso, podemos concluir que os filhos do futuro terão traços de desencanto e pragmatismo. Recusarão, sem dúvida, o leite das ideologias, serão amamentados pelas mães, nunca pelos Estados. Exigirão comida saudável - de preferência, natural. Ainda assim, não serão capazes de resistir a uma Coca-Cola ou a um Big Mac.

Os habitantes do século 21 terão um discurso mais próximo da televisão do que do livro. Substituirão algumas formas de raciocínio e alguns sistemas de associação de idéias. Receberão da tecnologia presentes irrecusáveis. Não serão saudosistas nem preconceituosos, porque já não pensarão como as gerações atuais. Isso não será bom, nem mau. Será inevitável.

Os filhos do amanhã abandonarão de vez o maniqueísmo da finada Guerra Fria, a divisão do mundo entre anjos e demônios. Saberão que as ditaduras têm sua própria história e sua própria geografia. Não serão pessoas inocentes, porque a miséria e a informação instantânea terão acabado com a inocência. Mas talvez não percam a sensibilidade e a vontade de reagir diante da banalização da violência e da morte.

Na relação entre as nações, os habitantes do século que se inicia compreenderão que a destruição do meio ambiente não é fruto da riqueza, nem é resultado da pobreza. Ela nasce essencialmente da ignorância e da desinformação. Os filhos do futuro saberão, portanto, que o único caminho para a sobrevivência será substituir a retórica da confrontação pela busca da parceria, da cooperação e do entendimento entre os povos. 
Rodolfo Konder (1938-2014)

domingo, 8 de novembro de 2015

Dima Cunha parabola dos burros Impeachment x cassacao brasileiro pendurado

Segue o jogo (infelizmente)

Um país refém de si mesmo, começando a entender a enrascada em que se meteu, enquanto, atônito, observa o descortinar do maior e mais viciado esquema de corrupção já engendrado em sua história. De resto, impeachment, alternativas no cenário político, ritos e pedaladas encerram melancolicamente a agenda do brasileiro em 2015.

É verdade, pelo menos emergiu um cenário até então desconhecido, dando origem a um senso crítico que certamente ecoará até 2018. Entretanto, ao passarmos para o âmbito político propriamente dito, constatamos que ficou ainda mais explícito o instinto de sobrevivência típico da nossa classe política.

Peguemos, por exemplo, a ópera-bufa envolvendo Cunha, PT, PSDB e STF, em que se transformou o cada vez mais etéreo pedido de impedimento da presidente. A rigor, o que pode ser depreendido?

Nada de muito relevante, apenas que foi, está, e ainda continuará, por algum tempo, a ser instrumentalizado como argumento de barganha para manter o atual estado de coisas, jamais para modificá-las. E que o desejo de Cunha, Lula, Dilma, mesmo o dos tucanos, até ensaiou variar, mas acabou pendendo mesmo para a continuação do carteado, e não para um terremoto que reembaralhe as cartas.

No fundo, diga-se, pelo menos até este momento, a ideia do impeachment não chegou a pegar na esfera política, e mesmo a opinião pública não fez a pressão que deveria para ver Dilma pelas costas. Sobre este aspecto, aliás, peço encarecidamente, não me venham com fotos de passeatas épicas, nem falar sobre os milhares que em todo o Brasil tomaram as avenidas para vociferar contra nossa paquidérmica mandatária.

Digo, claro que as inúmeras manifestações organizadas via internet, com carros de som, bonecos, e toda uma estrutura capaz de atrair multidões de brasileiros, não podem ser subestimadas. Ainda assim, o “Fora Dilma” não ganhou o País como, por exemplo, aconteceu com o “Fora Collor”. Conseguiu institucionalizar um clima de Fla-Flu político, o que já foi um enorme passo e produzirá dividendos para a oposição nos próximos pleitos, mas não extrapolou o antipetismo.

De resto, não seria mesmo fácil tirar Dilma do poder. Infelizmente, o discurso de esquerda ainda é capaz de seduzir jovens e estudantes via retórica ideológica, e de atrair o povão já acostumado a ser domesticado pelo populismo barato. Isto, sem falar no histórico apoio de grande parte da mídia e também da classe artística.

Muito embora, após as reprovações das contas no TCU, eu tenha passado a defender que o impedimento é justo e mesmo desejável, opinião esta que não mudou, jamais encarei a queda da presidente como uma questão de vida ou morte, e portanto não entro em desespero ao constatar que ainda restam três longos anos com uma mentecapta no papel de Chefe de Estado.

Difícil, duro mesmo, é constatar que continuamos e continuaremos sendo cozinhados por um sistema desgraçadamente invencível.

No atual ritmo da caravana, mesmo que o voto deixe de ser obrigatório, a maneira de fazer política por aqui, o sistema partidário, toda a engrenagem, enfim, não permitirão muitas esperanças.

Se pode piorar? Em se tratando de Brasil, sempre pode, mas, com o presente do jeito que está, só sendo muito otimista para temer pelo futuro.

Simpatia pelo diabo

A 6ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas Contra a Corrupção, encerrada sexta-feira, na Rússia, aprovou uma resolução proposta pelo Brasil que prevê a troca de provas e informações entre os países nos âmbitos civil e administrativo. Acordo essencial para o combate à corrupção. O que a ONU e os outros 176 países signatários talvez não saibam é que por aqui se anda no caminho inverso.

Por maiores que sejam os esforços da Justiça, de setores do Ministério Público e da polícia, em vez de facilitar os procedimentos para investigar e punir corruptos, o governo Dilma Rousseff e aliados no Congresso Nacional dificultam ao máximo.

Em setembro, Dilma propôs, e o Congresso está prestes a aprovar, a repatriação de recursos não declarados depositados por brasileiros no exterior, algo que oficializa a lavagem de dinheiro. O projeto que já era ruim foi piorado pelo Parlamento, que introduziu anistia ampla, geral e irrestrita para todo tipo de trambiqueiro ao descartar a confissão da origem dos recursos a quem quiser trazer o dimdim – ainda que roubado - de volta.

Com interpretações menos rigorosas dos acordos de leniência, o governo pretende ainda abrandar a lei anticorrupção, sancionada pela presidente há menos de um ano. A ideia é sustar a punição das empresas que participaram de transações ilícitas. Um entendimento torto, pelo qual a culpa recai sobre pessoas e não sobre as empresas, como se elas não auferissem qualquer benefício com a roubalheira.

Dilma, que iniciou seu primeiro mandato fantasiada de faxineira, adora dizer que é uma combatente incansável contra a corrupção. Mas não perde a chance de criticar a delação premiada – instrumento precioso para descobrir a ladroagem e os caminhos dela. Na mesma linha, seu padrinho Lula chama os depoimentos, que agora constrangem a ele e seus familiares, de “mentira premiada”.

O mesmo país aplaudido na ONU pela resolução anticorrupção continua a ostentar números pornográficos de roubalheira.

Não existe um cálculo exato quanto aos prejuízos causados pela ação dos larápios públicos. Em 2011, o deputado Mendes Thame (PSDB-SP) divulgou um estudo apontando que a corrupção custava ao ano nada menos do que R$ 82 bilhões. Um ano antes, a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) estimara perdas de R$ 69 bilhões, cifra que, na atualização do estudo, saltou para R$ 102 bilhões em 2012. Absurdos 2,25% do PIB daquele ano.

Os números da época não incluíam o Mensalão, cujo desvio comprovado de R$ 55 milhões virou troco perto dos R$ 7,2 bilhões apurados pela Operação Lava-Jato, R$ 2,4 bilhões já recuperados para os cofres públicos.

Protagonistas no combate à corrupção, PF, MP e Justiça são achincalhados por Lula, PT e aliados. Lula exige a PF sob controle, reclama da ingratidão de ministros do Supremo nomeados por ele e por Dilma. Vai a público denunciar perseguição das elites contra ele e, entre quatro paredes, negocia no Congresso proteção para o filho encrencado com serviços prestados a lobistas que nada têm a ver com esportes, atividade fim declarada pelo rebento. Muito menos explica ao distinto público como amealhou tantos milhões em tão pouco tempo.

O Brasil aplaudido na ONU é roubado todos os dias. Pior: é complacente e permissivo. Trata a corrupção e a roubalheira desenfreada como crimes banais. Frequenta o inferno.

Convive com presidentes da República que chamam de aloprados gente flagrada em delito, que dão nome de malfeito ao roubo deslavado dos cofres. Engole Caixa 2 como recursos não contabilizados e chama os ladrões que compraram votos de mensaleiros. Dá o simpático apelido de pedaladas aos graves crimes de responsabilidade fiscal cometidos por Dilma.

Está longe de fazer jus aos aplausos.

Atraso ideológico

A maneira mais fácil e também mais desonesta de contestar opiniões que divergem das nossas é tentar desacreditá-las. Tal procedimento, além de torpe, é prejudicial à elucidação de questões que muitas vezes envolvem interesses fundamentais. Isso ocorre frequentemente quando estão em jogo problemas políticos e ideológicos, o que dificulta o entendimento de problemas vitais para o país.

Faço essas considerações porque acredito que uma das funções do jornalismo é informar e contribuir para o esclarecimento das questões de interesse público.

Eu, que militei no Partido Comunista Brasileiro, convencido de que o marxismo era o caminho para a construção de uma sociedade fraterna e justa, deixei de acreditar nisso em consequência das experiências que vivi e do próprio fracasso daquele projeto revolucionário em nível nacional e internacional.


Já tive oportunidade de manifestar minha opinião sobre esse fato, mas, qualquer que seja o diagnóstico, a verdade é que o grande sonho da sociedade proletária se desfez definitivamente. Há, porém, os que não desistem de suas convicções e há também os que se aproveitam da boa-fé das pessoas para substituir o sonho socialista pelo que intitulo de "populismo de esquerda", que se constata hoje em alguns países da América Latina, como Venezuela, Bolívia, Argentina, Equador e Brasil.

Em cada um desses países, o tal populismo assume uma forma específica, mas em todos eles o discurso ideológico substitui a luta da classe operária contra a burguesia pela luta dos pobres contra os ricos, que Lula apelidou de "elite branca".

Esse populismo se caracteriza, de um lado, por programas assistencialistas e, de outro, por um discurso anticapitalista que, como no caso do Brasil, é só para inglês ver, uma vez que seus principais sócios são grandes empresas. A operação Lava Jato revelou à opinião pública brasileira a extensão do "conluio" montado pelo governo populista, em aliança com empresários, para saquear a Petrobras e outras empresas estatais.

A ação desse populismo de esquerda no governo do país é a causa principal da situação caótica a que o Brasil foi arrastado nestes quase 13 anos de gestão petista. O Programa Bolsa Família, montado com objetivo eleitoral, se atenuou a carência de famílias miseráveis, em vez de resolver o problema da pobreza, estimula uma grande massa de trabalhadores a não mais trabalhar.

Por outro lado, o programa Minha Casa, Minha Vida constrói conjuntos residenciais muitas vezes em lugares inacessíveis e de péssima qualidade (muitos deles já estão caindo aos pedaços). Também, neste caso, a troca de interesses deixa as construtoras à vontade para usarem o material mais barato e construírem de qualquer forma, já que o governo não as fiscaliza, pois são todos amigos.

O aumento das famílias atendidas pelo Bolsa Família –calculado em mais de 30 milhões– e os gastos com o programa Minha Casa, Minha Vida podem ser a razão que levou Dilma a violar a lei de responsabilidade fiscal, tomando empréstimo de bancos públicos sem condições de ressarci-los.

Quando Aécio Neves, na campanha eleitoral, denunciou o estado crítico das finanças do país, ela o chamou de mentiroso e garantiu que a situação das contas era ótima. Ganhou as eleições e logo começou a fazer o contrário do que afirmara. Mas o desastre dos governos petistas não se limita aos gastos demagógicos e à corrupção. Atinge a estrutura econômica do país, anulando-lhe o crescimento e provocando desemprego e inflação.

Aliando demagogia e incompetência, os petistas deram pouca atenção aos Estados Unidos e à Europa – parceiros comerciais importantes do Brasil– e voltaram-se para o mercado sul-americano –o Mercosul. Para agravar nossa situação econômica daqui para diante, os Estados Unidos e o Japão montaram uma aliança comercial que representa 40% do comércio mundial e da qual estamos fora. E fora também estaremos de outra aliança, que incluirá os norte-americanos e os europeus.

Nisso é que dá atraso ideológico somado a incompetência.

Enfaixado como múmia

O debate mais acalorado, neste momento, se dá sobre as formas de se reativar a economia nacional. Seria desnecessário escrever, mas, com os despropósitos que circulam, precisa-se lembrar que são as atividades “primárias” e de “transformação” que movimentam a roda.

Parcela preponderante da elite nacional não é vocacionada ao produtivismo, continua convencida do patrimonialismo, e as coisas assim desandam.

A brusca freada das atividades produtivas vêm deixando para trás empregos, oportunidades de progresso, competitividade e até arrecadação pública. Somem por muita gente as formas de enfrentar decorosamente a vida. Os mais fracos são os tais que mais caro pagam as consequências.

A produção desencadeia relações econômicas em todas as direções, vertical e transversalmente.

Para quem tem dificuldade de visualizar um fenômeno a que me refiro, basta imaginar um mercadinho cheio de bancas e sem produtos para vender. O comerciante, se é que vive da venda de algo que foi produzido, não ganhará com nada a vender. A multiplicação de valores, a distribuição de renda, se dá pelos salários e pelos reinvestimentos.

Desculpo-me com a maioria dos leitores por tratar do elementar. Infelizmente, muitos se esqueceram da dinâmica da roda e acreditam em Papai Noel. Deliram com aumento de impostos sobre uma produção menor, e não pelo aumento dessa produção. Com maior renda diminui a fila do SUS, que migra para os planos de saúde, encurta-se da fila dos planos assistenciais, e aumenta-se nos supermercados.

Sobrecarregar o que já não suporta (mundo que produz), a carga vigente apenas faz com que os fracos morram, e quem tem pernas pra andar migre para longe procurando um país de economia estável, inteligente e estruturada. Exatamente o que falta aqui.

Tudo aquilo que a sociedade organizada pode fazer bem tem que ser deixado a esta fazer. Até o social-comunismo chinês mostrou que, para distribuir progresso e prosperidade, precisa crescer em tamanho econômico. Por isso o Estado chinês protege e fomenta atividades. A China ficou como segunda potência econômica, se contentando com apenas 23% de carga tributária. Saiu assim do gueto, deixando as empresas reinvestirem e aplicarem em crescimento. Nos últimos 20 anos deu uma arrancada portentosa. Já o Brasil, aumentando gradativamente o confisco, que chegou a 35%, cairá neste ano 3%, e o próximo, nas previsões, não será diferente.

Pegando os últimos cinco anos, o Brasil não avançou, a China cresceu seu PIB em 50%.
Uma viaja na velocidade de um avião, e outro se arrastando pelas trilhas mais absurdas.

Se a carga tributária é a maior vilã, o Estado poderia passar a se abster de atrapalhar, modernizar-se ou ao menos desburocratizar. Ficar quieto já seria já uma excelente ação. Precisa voltar a ser Estado, e não empecilho anacrônico e perverso gargalo das atividades econômicas, mantendo o potencial de desenvolvimento engavetado e esperando nas mesas de quem não entendeu seu papel cívico e social; depende ainda de quem não dispõe de preparo.

Apenas em Minas, cerca de 15 mil empreendimentos aguardam autorização para se transformarem em atividade produtivas. Mais de três anos é o prazo que aguardam pela inadequação de leis. Muitos projetos se “desanimam”, a velocidade do Estado é inadequada à modernidade.

O Brasil é o país mais complicado do mundo, ilhado no seu anacronismo, convencido de ser grande apesar da pequenez das ideias que o atrofiam.

O Estado se transformou em monstro, esqueceu-se até de que ele é o maior perdedor de sua lerdeza e complicação. Não sabe mais que sobre tudo que se produz cobra 35%, com ou sem lucro do empreendimento. O ganho é dele, e o risco é do empreendedor, que, se tudo der certo, fica nos 5% líquidos (média nacional).

A burocracia não simplifica, esgota a capacidade, perde de vista a função principal de fomento das atividades que lhe geram, a ele, Estado, o sustento.

Aquilo que falta para crescer neste momento é resolver essa absurda equação, que chegou a inviabilizar por inteiro a economia e seu crescimento.

Os 15 mil projetos que precisam de carimbos, certidões, relatórios “arqueológicos”, entre outras firulas, dariam a Minas 450 mil empregos e uma arrecadação anual de alguns bilhões. Equivale a cerca de seis empresas automobilísticas do tamanho da Fiat de Betim.

O mais grave é que não existe a consciência da justa via para solucionar a lerdeza da “máquina pantagruélica”. Existe o lamentável desnorteamento, e o país está sendo enfaixado como múmia (pela sua “burocracia”).

Reflexões sobre o estado psíquico de Lula


Embora não seja uma prática usual um psiquiatra apresentar uma prática diagnóstica de um sujeito que não examinou pessoalmente nem a ele pediu exame, vou apresentar aqui o que penso ser a personalidade de Lula por se tratar de figura pública e que tem afetado os brasileiros por suas vigarices.

A antiga denominação do que tem o ex-presidente era Personalidade Psicopática. A classificação diagnóstica mudou. Hoje, na ONU, a CID-10 é chamado de Transtorno da Personalidade Anti-Social. A Associação Psiquiátrica Americana qualifica a DSM-IV-TR de Transtorno da Personalidade Dissocial.

O quadro clínico para esse tipo de psicopata é assim descrito:

“Os pacientes podem mostrar-se altivos e dignos de credibilidade ao entrevistador. Entretanto, sob a aparência (máscara de sanidade) existe tensão, hostilidade, irritabilidade e cólera. Entrevistas provocadoras de estresse, nas quais os pacientes são vigorosamente confrontados com inconsistências em suas histórias, podem ser necessárias para a revelação da patologia. Até mesmo os profissionais mais experientes já foram enganados por tais pacientes”.

Uma investigação diagnóstica completa deve incluir um exame neurológico minucioso, uma vez que esses pacientes costumam exibir eletroencefalogramas anormais e leves sinais neurológicos sugestivos de um dano cerebral mínimo na infância.

Os portadores da disfunção frequentemente apresentam um exterior normal e até mesmo agradável e cativante. Suas histórias, entretanto, revelam muitas áreas de funcionamento vital desordenado. Mentiras, faltas à escola, fugas de casa, furtos, brigas, promiscuidade com amantes e atividades ilegais são experiências típicas que, conforme relatos dos pacientes, começaram durante a infância. As personalidades anti-sociais frequentemente impressionam o clínico do sexo oposto com suas características exuberantes e sedutoras, mas os clínicos do mesmo sexo podem considerá-las manipuladoras e exigentes.

Os indivíduos com personalidade anti-social demonstram uma ausência de ansiedade ou depressão, o que pode aparecer incongruente com suas situações, e suas próprias explicações do comportamento anti-social fazem-no parecer algo impensado. Ameaças de suicídio e preocupações somáticas podem ser comuns. Ainda assim, o conteúdo mental do paciente revela uma completa ausência de delírios e outros sinais de comportamento irracional. De fato, eles frequentemente demonstram um senso de teste de realidade aumentado e impressionam os observadores por terem uma boa inteligência verbal.

Os pacientes com personalidade anti-social são altamente representados pelos chamados “vigaristas”. São exímios manipuladores e frequentemente capazes de convencer outros indivíduos a participar de esquemas que envolvam modos fáceis de obter dinheiro ou de adquirir fama e notoriedade, o que eventualmente pode levar os incautos à ruína financeira, embaraço social ou ambos.

Não falam a verdade e não se pode confiar neles para levar adiante qualquer projeto, ou aderir a qualquer padrão convencional de moralidade. Promiscuidade, abuso do cônjuge, abuso infantil e condução de veículos sob os efeitos do álcool são eventos comuns. Há ausência de remorso por tais ações, ou seja, tais pacientes parecem desprovidos de consciência.

As perspectivas de tratamento são sombrias. Os portadores desse transtorno são praticamente intratáveis. E a ressocialização penitenciária, quando presos, é nula.

Toffoli vai lavar as mãos e deixar Dilma se arrebentar no TSE

Diz o velho ditado que as aparências enganam. Na política, com facilidade pode-se confirmar que muitas coisas parecem ser, mas não são. Por isso, é preciso passar sempre um filtro nas informações, se não dá tudo errado. Veja-se o caso do ministro Dias Toffoli, que atualmente preside o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Sabe-se que ele jamais teve notório saber jurídico nem reputação ilibada. Pelo contrário, responde a dois processos no Amapá, já condenado em primeira instância, e foi reprovado duas vezes em concurso para juiz.


Assim, pode-se dizer, sem medo de errar, que nunca antes na história deste país um advogado chegou ao Supremo Tribunal Federal tão desqualificado. Amigo de Lula e de José Dirceu, Toffoli foi representante do PT nas campanhas de 1998 e 2002. Com a eleição de Lula, foi nomeado Subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, então comandada por José Dirceu. No segundo mandato, voltou ao governo como chefe da Advocacia-Geral da União. Em 2009, foi indicado por Lula para o Supremo e facilmente aceito pelo Senado, com sabatina e tudo o mais.

Portanto, Toffoli deve sua vitoriosa carreira exclusivamente a Dirceu e a Lula, nesta ordem.

Na canalhice que caracteriza os três Poderes da República, poder-se-ia até esperar que ele agisse no Supremo e na Justiça Eleitoral como um serviçal do governo do PT, e isso realmente aconteceu em seus primeiros anos, com votos esquisitos e suspeitos (logo de início, foi o único ministro a favor do habeas corpus pedido pelo entaõ governador Jose Roberto Arruda). No mensalão também se comportou de modo reprovável, chegou a ser ironizado pelo ministro Luiz Fux, considerado um dos maiores conhecedores de Processo Civil.

Toffoli assumiu a presidência do TSE antes da eleição de 2014 e tomou decisões altamente suspeitas, como a apuração secreta, numa sala fechada onde nem mesmo os outros ministros do TSE podiam entrar, e a manutenção em sigilo da apuração em Minas Gerais, cujo resultado foi fundamental para eleger Dilma Rousseff.

Tudo indicava que ele continuaria se comportando como um serviçal do PT, porque foi nomeado exatamente com este objetivo, da mesma forma como aconteceu no primeiro governo Dilma com as nomeações das inexpressivas e desconhecidas advogadas Maria Thereza de Assis Moura, para o Superior Tribunal de Justiça, e Luciana Lóssio, para o Tribunal Superior Eleitoral.

Tofolli é muito jovem. Ainda nem chegou aos 50 anos. Sabe que Dirceu, Lula e o PT não têm mais futuro e não quer deixar sua carreira ser destruída por eles. Por isso, seus votos mais recentes já revelam uma independência que ele jamais demonstrara, ficando o trabalho sujo no TSE a cargo apenas das ministras Maria Thereza e Luciana.

O fato é que a presidente Dilma, Lula e o PT têm perdido todas as votações e Toffoli inclusive votou a favor da continuidade dos processos que podem cassar a chapa de Dilma Rousseff e Michel Temer.

Na última sexta-feira, Toffoli decidiu que a ministra Maria Thereza vai continuar como relatora da ação de investigação eleitoral movida pelo PSDB. Fica parecendo que o ministro está prestando mais um serviço ao PT e ao governo. Mas as aparências enganam.

Maria Thereza pediu para ser substituída por ter ficado vencida na decisão do TSE que reabriu a ação contra Dilma, em que foi até humilhada pelo ministro Gilmar Mendes. Mas a mudança de relator, conforme solicitado pela ministra, não está prevista nas normas do TSE. Toffoli consultou as partes interessadas, não houve consenso, ele então confirmou a ministra Maria Thereza.

Com essa decisão, Toffoli deixa a babata quente nas mãos das petistas Maria Thereza e Luciana Lóssio, que são absolutamente inexperientes e não terão como inocentar Dilma.

No processo, o PT sustenta que todas as doações que o partido recebeu foram feitas legalmente e declaradas à Justiça Eleitoral. Acontece que na Lava Jato já surgiram diversos testemunhos indicando o contrário, e só precisam ser reforçados por provas materiais, que também já existem. Assim, o PT, Dilma e Lula vão se arrebentar, é só uma questão de tempo. Mas o esperto Toffoli vai escapar de fininho, como se dizia antigamente.

Vai demorar para avaliarmos os danos da má gestão no Brasil

Há um prejuízo não contabilizado até agora na falência econômica múltipla produzida no Brasil pelo conjunto da obra Dilma-Lula-PT; é difícil fazer as contas dessa perda no momento, e continuará sendo difícil mesmo depois que o país, em algum dia do futuro, sair da recuperação extrajudicial onde está atolado após cinco anos de desgoverno contínuo, com a assinatura da atual presidente, somados a mais oito de “esquenta”, com a assinatura do seu “ex“ no cargo. O prejuízo em questão é o atraso que o Brasil está contratando hoje para o seu desenvolvimento de amanhã.

A dificuldade em identificar um número capaz de medir com precisão quanto isso vai custar está no nevoeiro que necessariamente envolve cálculos a respeito do que poderia ter acontecido e não aconteceu ─ no caso, aliás, tudo o que não aconteceu de bom e o muitíssimo que aconteceu de ruim em quase treze anos corridos de aposta do governo no lado que perde. Mas todo mundo já pode contar que a recuperação da economia, quando vier, sofrerá com uma quantidade de espinhos muito maior do que seria razoável. É a proverbial “bomba de efeito retardado”.

O nome do problema, em termos simples, é: perda de tempo. Ela vai se traduzir, na prática, em perda de oportunidades, de energia, de mercados, de musculatura para competir, de competência tecnológica, de lugar na fila. O Brasil voltará a funcionar, mais cedo ou mais tarde ─ mas verá, com frustração, que seu motor não estará rendendo o suficiente para girar na velocidade necessária. Verá na sua frente competidores que ainda há pouco tempo estavam lá para trás e, pior que isso, descobrirá que ficou difícil emparelhar com eles.

Vai constatar que outros estarão ocupando os espaços que vem perdendo agora, e aqueles em que precisaria entrar. Vai verificar que perdeu escala, carrega custos excessivos em tudo o que faz, trabalha com produtividade baixa. Vai se surpreender com a descoberta de que é um país pura e simplesmente atrasado, que produz pouco, mal e caro. O Brasil não faz hoje o seu dever; não vai entregar amanhã o resultado. Num mundo que avança cada vez mais rápido, se arrasta como um carro de boi.

O México acaba de superar o Brasil como o maior produtor de carros da América Latina. A Africa dos sonhos da politica externa de Dilma, de Lula e do PT, em cima da qual o Itamaraty imagina construir a supremacia mundial do Brasil, é cada vez mais um competidor agressivo no mercado de matérias primas e na produção agrícola, a única área em que as coisas vão bem por aqui; o seu grande parceiro e aliado na vida real de hoje é a China. Enquanto dezenas de países pelo mundo afora assinam tratados de livre comércio entre si, e com isso aumentam de imediato suas exportações, empregos, renda, arrecadação pública e a produção geral de suas economias, o Brasil fica olhando sem fazer nada; acha que procurar este tipo de acordo é executar uma diplomacia de direita, e precisamos de uma diplomacia de esquerda.

Nossas prioridades externas são os maiores perdedores econômicos existentes hoje na face da Terra – Venezuela, Argentina, o Babaquistão do Oeste e por aí afora. Não existe, nesta corrida internacional, uma questão de “espírito olímpico”, onde o importante não é ganhar vantagens meramente comerciais, e sim pregar o evangelho dos povos desfavorecidos. Ao contrário, a única coisa que importa é ganhar, pois quem ganha é o bem estar, a prosperidade e o futuro dos cidadãos beneficiados pelo aumento do comércio e da produção. Na mesma estrada, em sentido inverso, quem perde não é o “país” – são os brasileiros, que em 2015, até o dia 30 de setembro, já perderam mais de 650.000 empregos (mais de 1,2 milhão, nos últimos doze meses) e que precisam desesperadamente do trabalho que estariam tendo se o governo entendesse que o comércio externo é uma das chaves do progresso interno – e um motor do avanço social.

Na hora de correr atrás do que foi perdido vai se ver como ficou cara essa conta. 

A tropa vencedora


O prêmio CBRE - "Urban Photographer Of The Year" (Fotógrafo Urbano do Ano) deste ano contou com mais de 21 mil inscritos de 113 países. Entre os vencedores está Pedro Guimarães Lins Machado, na categoria Cities at work, com a foto da tropa de choque da PM contra manifestantes no Rio.

A nau dos insensatos em planeta exaurido

Sebastian Brant publicou, em 1494, “A Nau dos Insensatos”, uma história de 112 loucos que iam para Narragônia, um reino da loucura. Muitas outras obras receberam depois esse título. Um filme de Stanley Kramer, por exemplo, mostrou, em 1965, um grupo com atitudes insanas durante uma viagem entre o México e a Alemanha antes do nazismo. É possível usar agora o mesmo rótulo para analisar a relação entre economia capitalista, grande população compelida ao consumo desenfreado e os recursos naturais do planeta, porque essa equação não será sustentável por muito tempo se não houver revisão do tratamento conferido ao ambiente.

A acumulação patrimonial integra a Revolução Agrícola, que ocorreu entre 10 mil e 12 mil anos atrás, determinando sedentarismo e criando o conceito de propriedade privada. Ela mobilizou homens vigorosos para a estocagem de víveres e delimitação de territórios, oprimindo outros homens e povos. Isso atingiu um ponto extraordinário, no século XVIII, com a Revolução Industrial, que implicava a produção em grande escala de muitos itens para a população que se fixou nas cidades. Todos foram compelidos à adoção de novos padrões culturais, fomentando o novo sistema produtivo, enquanto trabalhadores e consumidores de bens além de suas necessidades básicas.

Criou-se, assim, o binômio mercado insaciável x produção em grande escala, sem considerar a finitude dos recursos naturais. Ou seja, não se questionou, até o fim do século XX, a sustentabilidade desse procedimento no planeta. Buscou-se, pelo contrário, explorar todas as fontes de matéria-prima com drástica intervenção em inúmeros ecossistemas.

Surgiram novos conceitos sobre conforto, beleza e felicidade mediante adoção de automóveis, asfalto, plástico e outros produtos alheios à simples subsistência, com intensa substituição de objetos obsoletos por outros mais modernos. Não importavam a geração de lixo e a inutilidade do produto, principalmente quando ele se tornava símbolo de poder, riqueza e prestígio.

A conscientização de que a devastação ambiental pode comprometer nossa sobrevivência ocorreu há poucos anos e ficou restrita a algumas pessoas; poucas ações foram implementadas, justamente para não bloquear o dinamismo econômico nem rever os conceitos sobre desenvolvimento e modernidade. Ficamos, pelo contrário, dependentes da comunicação em tempo real e aplaudimos o uso egoísta de qualquer instrumento.

Os desastres climáticos, a redução de água potável, a contaminação do solo, a extinção de muitas espécies vegetais e animais e as novas enfermidades indicam que haverá brevemente esgotamento da natureza. Estamos, portanto, pavimentando o caminho para a tragédia, pois não haverá uma tecnologia que possa deter essa fúria contra a exploração desenfreada. A Terra não terá complacência por quem acredita que o banquete nunca terá fim, e seremos todos engolidos pelo mesmo processo destruidor decorrente dessa orgia.

Deus e a sarjeta

Depois de ter feito o Sol e a Lua, os mares, os céus, as aves e o homem, o Senhor achou que tinha obrado muito, e obrado bem. Daí se deu (quem mais poderia dar a Ele?) um dia de repouso.

Não estou em concorrência com ninguém, muito menos com Deus, mas, levando em conta minhas potencialidades, sinto que trabalhei mais do que ele. Bem verdade que não cometi a façanha e o exagero de criar Sol e estrelas. E jamais teria criado o homem. Dentro das minhas limitações, o duro que venho dando pela vida afora é desproporcional a minhas forças.

Para não morrer de fome nas sarjetas (profecia de uma cigana que me anunciou péssimo destino), tenho feito o diabo para sobreviver. A profissão é mais complexa do que a do Criador. Sempre pinta algum trabalho. Deus pode descansar realmente. Pensando bem, não havia mais nada a fazer, a não ser deixar que o mundo e suas leis (feitas também por Ele) trabalhassem sozinhos e para nossa desgraça.

No caso do jornalismo, a tarefa nunca está cumprida. No tempo da criação, Deus fez o que quis. Não havia pesquisas de opinião, o que o senhor acha do Sol, dos mares, dos pássaros? Já o jornalista está sempre na corda bamba: qualquer comentário pode dar bode. E sua tarefa nunca acaba. Quando morreu John Kennedy, fiz uma edição extra no jornal em que trabalhava. Foram horas de faina rude.

Quando saíram os primeiros exemplares, ouvi no rádio que tudo estava superado. O assassino fora preso, isso exigiria uma nova edição, e por que mais uma apenas? A notícia quando é verdadeiramente notícia parece que nunca acaba.

Dólar alto, inflação, economia estagnada, Dilma, Eduardo Cunha. Não importam. Assumo nossas desgraças sem ser, eu próprio, um desgraçado: afinal, ainda não morri de fome na sarjeta
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O bom samaritano é ateu


Se alguma vez – Deus queira que não – apanhar de assaltantes enquanto vai de Jerusalém a Jericó, é melhor que depois passe por ali um samaritano pouco religioso. Porque ser religioso ou ateu não deixa as pessoas melhores, mas parece condicionar a forma de entender a generosidade e o altruísmo com desconhecidos. E as pessoas menos religiosas têm uma tendência mais espontânea a ajudar o próximo, segundo os últimos estudos.

O último trabalho surpreendeu ao mostrar que as crianças criadas em ambientes religiosos são menos propensas a ser generosas, que existe uma correlação inversa entre o altruísmo e a educação em valores identificados com a fé. Por meio de um experimento realizado com menores de 5 a 12 anos em seis países culturalmente muito diferentes (Canadá, EUA, Jordânia, Turquia, África do Sul e China), os pesquisadores descobriram que os estudantes que não recebem valores religiosos em suas famílias são notavelmente mais generosos quando se trata de compartilhar seus tesouros com outras crianças anônimas.

“É importante destacar que as crianças mais altruístas vêm de famílias ateias e não religiosas”, destaca o chefe do estudo, Jean Decety, neurocientista e psicólogo da Universidade de Chicago. “Espero que as pessoas comecem a entender que a religião não é uma garantia para a moralidade, e que religião e moralidade são duas coisas diferentes”, acrescenta ao ser questionado da importância desse estudo.

Além disso, na pesquisa perguntava-se aos pais se seus filhos eram mais ou menos generosos e, curiosamente, os pais e mães mais religiosos acreditam que estão criando uma prole mais solidária: os religiosos dão como certo que seus filhos são mais altruístas, mesmo que na hora da verdade compartilhem menos. Outra descoberta importante é que a religiosidade faz com que as crianças sejam mais severas na hora de condenar danos interpessoais, como por exemplo os empurrões. “Essa última descoberta encaixa bem com pesquisas anteriores com adultos: a religiosidade está diretamente relacionada com o aumento da intolerância e das atitudes punitivas contra delitos interpessoais, incluindo a probabilidade de apoiar penas mais duras”. Em resumo, os menores criados em ambientes religiosos seriam um pouco menos generosos, mas mais propensos a castigar quem se comporta mal.

sábado, 7 de novembro de 2015

Unipensemos enquanto é tempo

Com a crise das commodities desencadeada pela sucessão de mordidas e assopros da China ha uma nova onda de fusões e aquisições entre os gigantes globais do agronegócio. Logo logo haverá ainda menos vendedores dos insumos necessários à produção do que o mundo come e menos compradores do que suas vítimas conseguirem produzir suando de sol a sol nas lavouras do mundo do que os já muito poucos que chegaram vivos até aqui.

São esses “campeões internacionais” que decidirão doravante a que profundidade você terá de mergulhar em seu bolso para evitar a única outra “escolha” que restará a sua antiga majestade, o consumidor, que será pechinchar com seu próprio estômago…

Na área de saúde aqui mesmo neste “país de todos” houve 29 operações de fusões e aquisições desde a abertura do setor aos estrangeiros animadas pelas últimas desvalorizações do real.

Se você está entre os famigerados 99% é provável que o SUS acabe sendo a parte que te cabe nesse latifúndio…

Para onde quer que se olhe é a mesma coisa: sinucas. Estas são só duas “chamadas” catadas a esmo nas primeiras páginas dos jornais de hoje. Todos os dias ha diversas desse genero tratando rigorosamente de todos os setores da economia em todo o mundo. Ha 30 anos ininterruptos, desde que a internet conectou os mercados de consumo e de trabalho de todos os “estados unidos” aos de todas as “chinas” da vida, têm havido recordes sucessivos de “fusões e aquisições” como aquelas que, ainda no longínquo século 19, fizeram os sempre execrados “capitalistas ianques” se levantarem contra os “robber barons” e instituir a unica legislação antitruste efetiva que o mundo já viu e que, por algumas décadas, de fato pos a classe operária mais perto do paraíso.


Agora tudo isso, cada vez mais, é passado. E o que embalou esse retrocesso foi o “duplipensar” dos reacionários ditos “progressistas” de sempre. George Orwell, que cunhou a expressão na sua anti-utopia “1984“, explicava assim o seu significado:

“Saber e não saber, estar consciente de sua completa sinceridade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões que se cancelam mutuamente, sabendo que se contradizem, e ainda assim acreditar em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade e apropriar-se dela, crer na impossibilidade da Democracia e que o Partido era o guardião da Democracia; esquecer o quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza máxima: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra ‘duplipensar’ era necessário usar o duplipensar“.


Cabe, portanto, com os fatos frescos como estão ainda, unipensar enquanto é tempo e registrar os devidos direitos autorais:

Ninguem conseguiu por para rolar uma onda de desnacionalização mais completa e devastadora da economia brasileira que o nosso mais radical partido nacionalista no poder; ou orgia mais desenfreada para bancos e “rentistas” que os nossos mais renhidos “anticapitalistas“; ou ainda, tsunamis de privatizações compulsórias a preço de banana mais vis que os nossos mais ferrenhos defensores de uma economia estatizada.

Ninguem jamais promoveu processo mais amplo, geral e irrestrito de proletarização da classe operária planetária que a “vanguarda internacional do proletariado” esparramando universo afora a miséria dos “paraísos da classe operária“.

Assim é que de fato está sendo.

Como se vê


Nosso Judiciário é caro e não se reverte em serviços prestados. Ele não se vê como prestador de serviço público
Luciana Gross Cunha, coordenadora do Centro de Pesquisa Jurídica Aplicada da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo

Mar de lama: literal e figuradamente


O rompimento de duas barragens de rejeitos tóxicos de uma mineradora nos arredores de Mariana, em Minas Gerais, produziu uma catástrofe de dimensões apocalípticas. Ou bíblicas, já que as Escrituras são ao mesmo tempo cosmorrelato e meganarrativa onde tudo é superlativo, extremado, incomensurável e transcendental.

Cunhada há cerca de 60 anos – em 1954, antes, durante e depois da tentativa de assassinato do jornalista-deputado Carlos Lacerda – e injustamente imputada ao presidente Getúlio Vargas, a expressão “mar de lama” saiu das manchetes dos vespertinos para o vocabulário político, acolhida pela historiografia e pela retórica forense. Resgatada pelas revelações do escândalo do mensalão (2005), voltou a ser usada na cobertura do petrolão (2014) e também agora, na palhaçada parlamentar protagonizada por Eduardo Cunha, a incrível história de um finório que já conseguiu abalar a República e daqui para a frente só poderá produzir algo muito pior.

Eduardo Cunha possui um extraordinário efeito tóxico e maculador – espalha sujeira e emanações por onde passa: poluiu as figuras-chave do seu partido, o PMDB; manchou indelevelmente o PT, com quem tentou se entender para proteger a presidente Dilma Rousseff; sujou e rebaixou o empertigado PSDB, que tenta animá-lo a apressar o pedido de impeachment; contaminou perigosamente a imagem do Congresso; e, com suas diabólicas maquinações, conspurca não apenas os correligionários evangélicos, mas a própria mensagem espiritual da religião, convertendo-a em sinônimo de crueldade e perfídia.
Comparadas com as confessadas roubalheiras praticadas pelos meliantes enroscados na Operação Lava Jato, as denúncias contra Eduardo Cunha poderiam ser avaliadas como irrisórias não fosse a malignidade inerente ao acusado. A presidente da República teme a sua imprevisibilidade, mas o perturbador perfil psicológico, as patologias atenuadas pela fala mansa das aparições televisivas e o tremendo poder de uma autoridade como presidente da Câmara Federal criaram no cenário político brasileiro um personagem único – o homem-bomba.

Pior que um suicida, Cunha é um paranoico capaz de acionar o seu colete com explosivos certo de que sairá incólume da explosão. O problema não é dele, de sua família ou dos amigos. O problema é nosso, porque este é o arquétipo do fanático incapaz de voltar atrás, empurrado pela insana obsessão de seguir em frente.

O mar de lama que enlutou Mariana e o Brasil poderá ser removido, reparado, saneado e servir como advertência aos negligentes e omissos que cuidam da segurança e bem-estar do povo brasileiro. O mar de lama que produziu Eduardo Cunha e ainda o sustenta, embora figurado, metafórico, pode nos empurrar para o abismo.

Apelar para quem?

Em tempo de crise, é natural que pessoas e instituições mudem de postura. Uns cortando gastos, outros trabalhando mais. E vice-versa. Não há empresa ou trabalhador que deixe de aplicar essa lição. Registra-se, porém, a maior das exceções: o Congresso.


Há anos que em tempos de suposta normalidade deputados e senadores optaram por esticar os fins de semana, deixando Brasília às sextas e retornando nas segundas-feiras. Sessões, desde cedo e até de noite, só das terças às quintas. Como a moda pegou e ninguém reclamou, logo ampliaram a folga, fixando as sessões efetivamente produtivas entre as terças de noite e as quintas até meio-dia.

É o que vinha prevalecendo até pouco. Plenários lotados e projetos discutidos e votados, só no período referido. Fora dele, o quorum transfere-se para os aeroportos, as aeronaves e os Estados onde Suas Excelências pousam para gozar do ócio misturado ao contato com suas bases. Pois não é que já estão rifando as terças-feiras? Logo as manhãs das quintas também ganharão a estratosfera, sobrando apenas um dia entre sete, as quartas-feiras, para dedicação às tarefas fundamentais.

São lembranças fornecidas pelos livros de História os tempos em que o Congresso trabalhava de segunda a sábado ou, mesmo,de terça a sexta.

O problema é que vivemos uma crise dos diabos. Seria obrigação de Câmara e Senado estar buscando soluções para os impasses e os retrocessos econômicos em ritmo bem mais acelerado do que durante a rotina. Não é o que se verifica. Esta semana, por exemplo, quantos projetos foram deixados para a próxima? Até mesmo com a desfaçatez de marcarem não para a terça, mas para a quarta-feira que vem, decisões que precisariam ter sido tomadas faz tempo, como a da repatriação de dinheiro sujo dos paraísos fiscais para o tesouro nacional.

Dão a impressão, os parlamentares, de que nada demais vai acontecendo num país onde o desemprego avoluma-se em massa, os impostos, taxas, tarifas e contribuições sobem sob a inação legislativa, o cuto de vida eleva-se enquanto as greves se multiplicam e a indignação popular parece prestes a tornar-se reação incontrolada. Era para o Congresso estar buscando soluções até nos fins de semana, ainda que o ajuste fiscal proposto pelo governo permaneça dormindo nas prateleiras e que nem o PMDB consegue transformar em projetos de lei as propostas contidas num documento voltado para o futuro.

Houve tempo em que se aventou a hipótese de o então senador Pedro Simon ser lançado para presidir a casa. Ele declinou, afirmando que nem sua mulher, se fosse senadora, votaria nele. Porque sua primeira proposta seria estabelecer sessões deliberativas todos os dias da semana, inclusive sábado e, se necessário, aos domingos.

Em suma, o Congresso comporta-se como se o Brasil não estivesse no pior dos mundos, sempre adiando para mais tarde a adoção de fórmulas essenciais capazes de afastar a crise. Como o governo também prefere a solução de andar devagar, quase parando, sobra a pergunta: apelar para quem?


O lucro dos bancos continua crescendo enquanto o país despenca. O braço do governo não é tão longo nem bastante rígido para abrir os cofres-fortes

Até quando?

Se a crise política em curso assume, com frequência, a mutabilidade de um caleidoscópio – uma hora o impeachment parece iminente; a seguir, afastado -, o mesmo não se pode dizer das outras duas: a econômica, em marcha contínua e implacável; e a policial, centrada na Lava Jato, em que, como numa caixa de lenços de papel, uma denúncia puxa a outra, e mais outra, sucessivamente.

A lógica é que essas crises acabem se fundindo, num big bang institucional, não obstante o empenho do governo em mantê-las separadas. Para tanto, joga as fichas que possui – e não há dúvidas de que ainda as possui – no controle do Judiciário, do Congresso e do Ministério Público. Mas os escândalos superam a capacidade de se ocultá-los. Há mais lixo que tapete para encobri-los.

A semana que se encerra representou um recuo em relação à anterior. O único dado concreto foi a instalação da comissão de ética da Câmara que julgará o deputado Eduardo Cunha. Este continua sentado sobre o pedido de impeachment, sem sinalizar o que fará.

O governo, de um lado, manobra para salvar Cunha; de outro, estimula o PT e seus aliados a atacá-lo. Os petistas “escandalizam-se” com Cunha e suas contas secretas e, simultaneamente, prometem mais uma moção de desagravo ao seu ex-tesoureiro João Vaccari, preso em Curitiba, por participação no escândalo da Petrobras. Comparado a Vaccari, Cunha é um escoteiro-mirim.

No TSE, que definirá as contas da campanha de Dilma - abastecida, segundo denúncias de alguns de seus financiadores, com dinheiro roubado da Petrobras -, seu presidente, ministro Dias Toffoli, decidiu, enfim, a quem entregar a relatoria: à ministra-companheira Maria Theresa, que, alinhada com o Planalto e derrotada por Gilmar Mendes em plenário, se opunha à investigação.

O normal é que Toffoli a entregasse ao ministro Gilmar Mendes, responsável pelo vitorioso pedido ao Ministério Público de abertura de investigações. Mas normalidade tem sido matéria escassa nestes dias. Dilma não queria Gilmar – e Toffoli (e Maria Theresa) não tem o hábito de contrariá-la.

Numa operação policial que corre paralela à Lava Jato, a operação Zelotes, que investiga casos de mega sonegação fiscal na Receita Federal – e que põe sob suspeita um dos filhos de Lula, Luis Cláudio, e alguns personagens do Petrolão -, deu-se outro recuo.

A juíza que cuidava do caso, Célia Regina Bernardes, da 10ª Vara Federal – e que teve a audácia de mandar apreender material no escritório do filho de Lula -, foi afastada do caso. Ao juiz Vallisney Souza Oliveira, que estava no STJ, foi entregue a missão. Vallisney tem em seu currículo o arquivamento de processo contra a ex-ministra Erenice Guerra.

A sensação de blindagem geral estabeleceu-se. E o que se constata é que, se o governo fracassa na economia e não domina a Lava Jato, ao menos se sai bem no manejo com os outros dois poderes, Legislativo e Judiciário.

Onde tudo isso vai dar? Um governo sem opinião pública – ou por outra, com uma opinião pública maciçamente contra si -, desmoralizado pela corrupção e sem qualquer projeto para deter a crise econômica, é bem sucedido em cuidar da própria sobrevivência. Para quê? - é o que se pergunta.

O ano está próximo do fim e não há sinais de qualquer desfecho para a crise política – e isso a estica e agrava. A oposição parece acomodada ao processo. Mais uma vez, aposta na decomposição espontânea do governo, como o fez, sem êxito, ao tempo do Mensalão.

Diante do imenso arco de evidências de que o governo cometeu variados crimes de responsabilidade – além das pedaladas fiscais, há o financiamento espúrio da campanha, a roubalheira na Petrobras, os escândalos investigados pela Zelotes, os fundos de pensão espoliados -, há ainda quem pondere que não há motivos para o impeachment.

E, não obstante a responsabilidade direta que a presidente Dilma tem em relação a cada um desses crimes – afinal, é a presidente -, há quem, como Fernando Henrique, faça questão de ressaltar sua probidade pessoal. Baseado em quê?

O nó institucional está dado – e ninguém parece disposto a desatá-lo. É improvável que haja precedente semelhante: povo de um lado, governo de outro. E a ausência de lideranças, dispostas a vocalizar o inconformismo das ruas, cava abismo cada vez mais fundo entre ambos.

A crise econômica, com seu cortejo de mazelas sociais, no fim das contas, dará o desfecho. Mas quando?

Floração no deserto do Atacama

Atacama

O afeto que se encerra

Nas periferias das cidades, a ‘nova classe média’ adquiriu materiais de construção e eletrodomésticos, mas não experimentou mudanças em saúde pública ou mobilidade urbana

O PIB de 2015 apresentará retração em torno de 3%. Há consenso, entre os analistas, de que 2016 conhecerá nova redução do PIB, mas as apostas variam largamente no intervalo de 1% a 3,5%. Na história registrada, só uma vez o Brasil experimentou recessão durante dois anos sucessivos: foi no alvorecer da década de 1930, sob o impacto do crash da Bolsa de Nova York, quando o mundo descia a ladeira da Grande Depressão. Um produto da queda cataclísmica será o cancelamento quase completo das chamadas “conquistas sociais” do lulopetismo.

Os números estão num estudo da Tendências Consultoria Integrada. Entre 2006 e 2012, cerca de 3,3 milhões de famílias ascenderam das classes de renda D e E à classe C, que ganhou o rótulo ilusório de “nova classe média”. No horizonte de 2017, a reversão do ciclo, ritmada pela inflação e pelo desemprego, empurrará 3,1 milhões dessas famílias de volta ao ponto de partida. Segundo Adriano Pitoli, coordenador da pesquisa, “a mobilidade que houve em sete anos deve ser praticamente anulada em três”. Tudo indica que, nas palavras dele, “estamos vivendo, infelizmente, o advento da ex-nova classe C”.

Maria José. Foto: Jair Amaral / EM / D.A. Press
Lula lançou o Fome Zero, em janeiro de 2003, na cidade mineira de Itinga, no Vale do Jequitinhonha. Dez anos antes, na sua segunda campanha presidencial, conhecera Teresa Fernandes Pessoa, que partilhava um cubículo com oito filhos. O candidato pediu-lhe que “rezasse porque, se fosse eleito, iria me dar uma casinha”. Teresa rezou e votou, três vezes, até reencontrá-lo como presidente. Nunca ganhou a casinha, mas obteve o cadastro do Bolsa Família, pelo qual ainda agradece. Agora, contudo, uma reportagem do “Diário de Pernambuco” flagrou-a reclamando das despesas de luz e água, que consomem metade dos R$ 140 transferidos mensalmente pelo programa. Ela não tem outra renda e voltou à antiga prática, quase esquecida, de pedir arroz, farinha e feijão aos vizinhos.

O fenômeno do retorno à miséria lança um jato de luz sobre aquilo que deveria ser descrito como a economia política do lulopetismo. Na tradição do pensamento de esquerda, conquistas sociais decorrem de mudanças econômicas estruturais. Mas, por meio de programas de transferência de renda e políticas de estímulo ao consumo, Lula e Dilma conferiram à expressão uma estreita tradução monetária. Sobre o pano de fundo do ciclo internacional favorável, os aumentos reais do salário-mínimo e das aposentadorias, junto com a expansão do crédito e o Bolsa Família, proporcionaram a dezenas de milhares de famílias uma ascensão social tão rápida quanto precária. Nessa trajetória, encantados pelas luzes do poder, os intelectuais de esquerda rasgaram seus próprios textos teóricos para cantar as virtudes de um modelo orientado exclusivamente por imperativos eleitorais. A Teresa icônica, que volta a se equilibrar na corda bamba da solidariedade dos vizinhos, é uma personificação do fracasso político do lulopetismo e da falência intelectual de seus cortesãos nas universidades.

Nos três mandatos da “era de ouro” do lulopetismo, os serviços públicos permaneceram à margem das prioridades de governo. As “mães do Bolsa Família” ganharam um passaporte para o supermercado, mas as “filhas do Bolsa Família” continuaram excluídas do acesso a escolas de qualidade. Nas periferias das cidades, a “nova classe média” adquiriu materiais de construção e eletrodomésticos, mas não experimentou mudanças nos campos da saúde pública ou da mobilidade urbana. “É bom ver quantos brasileiros sabem enxergar também a metade cheia do copo, e não só a parte vazia!”, tuitou a seus fãs Luiza Trajano, a proprietária do Magazine Luiza, que tem centenas de milhões de bons e sonantes motivos para ignorar “a parte vazia”. Mas é nessa “metade” do “copo” que está fixada a imagem de uma fraude política de dimensões históricas.

No início de 2014, quando a Luiza do magazine difundiu sua mensagem otimista, o IBGE constatou que o peso da indústria na formação da riqueza nacional recuara para o menor nível, desde 2000. A desindustrialização brasileira não provocou, porém, redução significativa do emprego industrial. Atrás da aparente contradição, oculta-se a forte retração relativa da produtividade industrial, que decorre da carência de investimentos em capital fixo e inovação tecnológica. O fenômeno reflete a persistência dos elevados custos logísticos, tributários e financeiros que se agravaram pela política de fechamento comercial. Na base subterrânea da reversão das “conquistas sociais” está uma dramática perda de competitividade da indústria brasileira, que será temporariamente camuflada pela desvalorização cambial. O ajuste fiscal de Dilma e Levy não toca nas raízes da crise, assentadas sobre o lodo ideológico do lulopetismo.

No poder, o lulopetismo deslocou-se sociologicamente dos trabalhadores e das classes médias urbanas para o “povo pobre”, ou seja, na direção das classes D e E em ascensão rumo à “nova classe média”. A reeleição de Lula e os dois triunfos eleitorais de Dilma derivaram da sedução hipnótica exercida pelas políticas de renda, crédito e consumo. Os votos do Nordeste, das regiões deprimidas do Centro-Sul e dos anéis periféricos das metrópoles soldaram a hegemonia lulista. A “era Vargas” durou longos 15 anos, entre 1930 e 1945. Se Dilma sobreviver à borrasca em curso, a “era Lula” completará 16 anos. Contudo, no outono do patriarca, os pobres desertam em massa de sua trincheira.

Na economia, voltamos ao ponto de partida. Na política, porém, o porto original não mais existe. Maurício de Almeida Prado, de uma consultoria com foco na renda baixa, explica que a “ex-nova classe C” adquiriu nos anos gordos, junto com os celulares, uma experiência indelével: “É um novo tipo de classe baixa: mais conectada, escolarizada e, de certa forma, até mais preparada”. Há futuro, Lula, apesar de você.

Demétrio Magnoli 

O mal que insiste em nos habitar


A sociedade brasileira tem assistido nos últimos anos à desconstrução sistemática dos valores políticos que foram propostos para amoldar o novo regime político e jurídico a partir da redemocratização do país. O que está em xeque é a condição de nossa sociedade de se governar e cumprir os fins colimados com as bases do Estado de Direito, pois a corrupção parece espalhada endemicamente em toda a máquina pública, impondo corrosão ao sistema político e administrativo do Estado.

O destino de um povo é delineado a partir de suas experiências, do amadurecimento de sua participação política e, assim, de suas instituições. Mas o retrocesso moral que se está vivendo é alarmante, colocando o Estado brasileiro diante de uma encruzilhada, numa crise profunda de valores e legitimidade institucional.

As últimas gestões do PT, seguindo seu “plano perfeito” de concentração de poder, contribuíram para intensificação de tal processo. Seja pela adoção de aparelhamento do Estado — lançando seus tentáculos hegemônicos sobre o Legislativo e o Judiciário, cooptando-os, corrompendo, adotando políticas populistas direcionadas aos setores humildes da população e interpretando o direito de acordo com seus interesses —, bem como pela negligência moral estampada em denúncias de corrupção, com negativas e minimização declarada de fatos graves. A oposição, por sua vez, segue acuada, intimidada por suas próprias ações passadas e presentes, ligadas igualmente à impunidade e corrupção em seus mandatos, estando simbioticamente vinculadas à participação de políticos destacados no petrolão, no mensalão e em outras negociatas que deveriam combater. Ainda, quando se espera uma posição sensata, diante de situações sociais complexas, assiste-se a notícias de insensibilidade administrativa juvenil, como o fechamento de escolas e viagens paradisíacas com dinheiro público. O mal uso da coisa pública coloca todos numa fétida vala comum.

O Legislativo virou feira livre do chamado baixo clero, desmoralizou-se por aceitar um papel de subserviência ao mensalão, barganhar claramente, aos olhos da sociedade, cargos e ministérios em troca de apoio partidário. Tornou-se um balcão de negócios, emendas e contratos públicos, distanciando-se da população.

O Judiciário, por sua vez, embora seja a única instituição que dá sinais de resistência, entrou nesse jogo sórdido: decide-se em muitas esferas à conveniência do autor e da demanda, descartam-se as normas em razão de valores tortos e justificativas não jurídicas. Alguns membros do Judiciário, para obter promoção, curvam-se à troca de favores e, ainda, como se estivem num Olimpo, tribunais seguem construindo palacetes num país cujas escolas são mal estruturadas; seguem praticando nepotismo cruzado, defendendo privilégios injustificáveis à luz da sociedade, como a aposentadoria por corrupção patenteada pelo CNJ, enquanto o cidadão comum é massacrado quando deixa de cumprir um contrato; compram potentes frotas de carros oficiais e reivindicam auxílio-moradia cujo valor supera o salário da maioria dos brasileiros, num país com grave problema de distribuição de renda e déficit habitacional.


O brasileiro perdeu o pudor, o tipo do “malandro esperto” deu lugar ao “malandro mau caráter”. Seus representantes são o modelo real do descaramento, do “eu não vi”, “eu não sabia”, “fiz, mas tive meus motivos”. Seu sistema judicial foi construído para processualistas habilidosos, com regras flexíveis e extremamente tolerante com malfeitos e mecanismos antipunitivos e protelatórios.

Não se vislumbra, no cenário, nenhuma esperança: todos os setores representativos da República estão enlameados pela corrupção, e a crise de valores parece ser estrutural, como expressão cultural arraigada no corpo da nossa sociedade, desde as relações sociais mais simples — nas escolas, no trabalho, nas empresas — às mais complexas. Os políticos são expressão inequívoca da sociedade que os elege, mas esta sociedade, reflexivamente, age de acordo com o modelo desenhado por aqueles que são seus representantes nos mais altos escalões. E a corrupção parece estar continuamente adensada à cultura brasileira. Não existe espaço para idealismo ou ideologias, bem comum, mas apenas para o interesse próprio e sem freio moral.

É de se acreditar que esse conjunto de denúncias e exposição de crimes seja de fato ponto positivo, uma oportunidade para nosso amadurecimento como sociedade. Mas é inegável que precisamos de uma mudança profunda em nossas bases estruturais e de uma tomada de postura daqueles que se propõem a liderar nosso país. Agora, mais do que nunca, é a hora das pessoas de bem, mas onde elas estão?
Wagner Menezes

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Lula ainda goza com o Brasil

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A grande lição de Justin Trudeau para o Brasil

Aqui e ali a presidente Dilma deixa entrever que não apresentou em campanha o mesmo programa que, supostamente por motivos supervenientes, tem agora de aplicar ao país. E ainda ousa dizer que foi legitimamente eleita, como se a legitimidade de uma eleição derivasse, pura e simplesmente, do número de votos obtidos. A legitimação é obra diuturna e consiste em dar a todos a certeza do que o governante vem fazendo.


Na semana passada, perante o PT e com todas as letras – embora atravessado pelo apelo de apoiá-la de qualquer jeito, para dar a ele a chance de voltar em 2018 –, Lula reconheceu que ela disse uma coisa e que agora pratica outra. Essa seria a origem da crise política, que não se restringe apenas a isso, mas também compõe-se de elementos vários, como a disparidade de pensamentos e atos entre os que supostamente comporiam a “base de apoio”.

Já me referi aqui algumas vezes ao susto que tomei certa vez no meu antigo partido quando alguém, vitorioso em campanha, me declarou: “Não ganha eleição quem não vende ilusão”.

Naquela altura dos acontecimentos, já grassava em nosso país a mania de botar marqueteiros de plantão nas campanhas. De forma que, de um salto, saímos das amarras da Lei Falcão – aquela que só permitia propaganda eleitoral com o retratinho do candidato e umas poucas palavras sobre sua vida – para os agora usuais programas de TV, nos quais minutos preciosos se transformam em moeda de troca para partidos de aluguel se amontoarem à volta de quem quer mesmo entrar para ganhar. Tudo o mais, comícios, debates em colégios ou universidades, visitas a locais de grande concentração popular, o corpo a corpo de antigamente, passou a ser substituído pelos programas gravados de antemão, com cenas geralmente montadas para dar a entender apoio de gente famosa ou de populares, prontos a darem testemunho das maravilhas já feitas pelo candidato. Ademais, o teatro maior fica por conta dos chamados “debates”, em que quase nada se debate, pois, ora o tempo é pequeno demais para o tamanho da pergunta, ora entra em cena o descaramento com que alguns falam sobre o que não conhecem ou fingem saber o que nunca souberam. Quem pode dizer algo que preste em dois minutos, com réplica de um minuto?! Claro que, quanto mais cara de pau é o postulante, mais ele consegue fazer daquele tempo um momento para dizer o que quer, e não o que lhe foi questionado. Paulo Maluf que o diga.

Mas, se aqui as coisas degringolam, no Canadá, o candidato Justin Trudeau teve a coragem de afirmar e reafirmar, antes de os eleitores irem às urnas, que o país terá três anos seguidos de déficit fiscal diante do programa que pretende executar. E seu partido, o Liberal, de centro-esquerda, colheu magnífica vitória, que o levou ao cargo de primeiro-ministro. Que tal começarmos a exigir dos mandatários e dos candidatos dizer “a verdade e tão somente a verdade”?!

Talvez começássemos assim a construir uma cidadania ativa e um governo mais previsível do que o furacão que rodopia hoje sobre todos nós.

O assaltante assaltado

Na América Latina, os regimes militares mandavam queimar os livros subversivos. Nas democracias de agora, queimam-se os livros de contabilidade. As ditaduras militares faziam desaparecer pessoas. As ditaduras financeiras fazem desaparecer dinheiro.

Um certo dia, os bancos da Argentina recusaram-se a restituir o dinheiro aos seus clientes.

Norberto Roglich depositara no banco todas as suas economias para evitar que os ratos as roessem ou que os ladrões as roubassem. Quando foi assaltado pelo banco, o senhor Norberto estava muito doente, porque os anos nunca vêm sozinhos e a sua reforma não bastava para pagar os medicamentos.

Não tinha outra opção: desesperado, entrou na fortaleza financeira e, sem pedir autorização a ninguém, abriu caminho até ao gabinete do gerente. Fechada na mão, empunhava uma granada:

– Ou me devolve o meu dinheiro, ou vamos todos pelos ares!

A granada era de plástico, mas realizou o milagre: o banco restituiu-lhe o seu dinheiro.

Depois, prenderam-no. O procurador sentenciou dezesseis anos de cadeia. Para o senhor Norberto, não para o banco.
Eduardo Galeano

O desgoverno a dois

Dilma e Lula

A solução mais provável da crise brasileira pode ser inesperada

Aqui e no exterior perguntam ao jornalista qual pode ser a solução mais provável da crise, cada dia mais emaranhada e complexa.

E o jornalista encaminhou a pergunta para alguém que está na política há várias décadas, que já foi presidente da República e que dessa vez preferiu o anonimato.

Sua resposta, por escrito, foi: “Estamos no meio de uma crise nacional que ninguém sabe como vai acabar”, e acrescentou, enigmático: “A solução mais provável é o inesperado”.

Afirmou ainda: “De qualquer forma, este não é o Brasil que nós sonhamos”.


Confesso que a palavra que me impressionou na boca de um político com tanta experiência de voo foi “inesperado”.

Como o Brasil é uma democracia, com uma Constituição sólida da qual ninguém pode escapar sem romper as instituições do Estado, essa possível solução inesperada deveria acontecer dentro desses limites constitucionais: o Governo, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). Qualquer solução imprevista deveria vir de um deles para que não possa ser condenada como um golpe.

Tal como a crise está configurada hoje, a solução imprevista para a crise por parte do Governo poderia ser apenas a renúncia da presidenta Dilma Rousseff, já que hoje ninguém acredita nela por mais que já tenha sido alvo da oposição.

E o Congresso? Difícil imaginar uma solução por parte do legislativo que não seja a aprovação do impeachment de Dilma, que deveria ser apresentado por um presidente como Eduardo Cunha, execrado pela opinião pública e por todos os democratas do país. Além disso, essa solução está prevista, não seria inesperada.

Sobraria apenas a possibilidade de que o Supremo Tribunal Federal acabasse surpreendendo com uma solução — essa sim, inesperada —, como ocorreu com o caso Collor, e que aponta com sagacidade neste jornal o meu colega Rodolfo Borges — à época, o STF adequou a lei do impeachment, de 1950, à Constituição de 1988, alterando a forma do julgamento no Congresso.

Seria constitucional porque o STF tem poderes especiais para isso, e seria ao mesmo tempo inesperada e não golpista porque hoje, apesar de todos os problemas e críticas, a mais alta corte do país ainda possui o último halo de credibilidade por parte da opinião pública — 75% dela não confia nos partidos políticos nem no Congresso, e dá à presidenta da República e ao Governo as migalhas de uma das mais baixas aprovações da história da democracia.

Qualquer outra solução passaria, inevitavelmente, pela humilhação de um golpe, seja qual fosse sua cor política. O golpe militar está completamente descartado.

Restaria, e talvez fosse o que preocupava o ex-presidente ao afirmar que a solução para a crise poderia ser inesperada, que na próxima eleição presidencial, seja agora ou em 2018, a sociedade, cansada dos políticos profissionais, apoiasse algum candidato “inesperado” com a incógnita de que pudesse se tratar de algum “aventureiro”, como aconteceu e está acontecendo em alguns países, que em vez de resolver acabasse complicado e agravando a crise política.

De acordo com a maioria dos analistas, a crise começou sendo econômica e estrutural, porque o que está esgotado é o modelo, e acabou se complicando politicamente.

Nessa situação, e já que a crise econômica — seja ela mais grave ou não que a política — não se resolveria sem antes resolver a crise política, o mais provável é que essa tarefa hoje realmente imprevisível e inesperada possa acabar caindo nas mãos do STF, que já foi capaz neste país de resolver positivamente outras crises iguais ou mais difíceis em que a opinião pública era mais exigente e aberta que o Congresso, como em relação ao aborto, as células-tronco, ocasamento entre pessoas do mesmo sexo e agora sobre a liberação das drogas, todos estes temas tabu para o Congresso e o Executivo.

Não é impossível, portanto, que a crise possa realmente acabar tendo um fim imprevisível e cuja solução esteja em grande medida na pressão exercida pela sociedade como um todo sobre os três poderes da Nação.

Tudo isso porque o Brasil dessa crise não é o mesmo país das crises anteriores. É um Brasil mais dividido e exasperado com os poderes públicos, porque o país e a sociedade estão numa luta para sair da apatia e da fictícia unanimidade do passado e começaram a enfrentar os desafios da modernidade. Estamos diante de uma sociedade que não apenas quer ser ouvida, mas também participar na solução da crise cujas consequências econômicas e sociais já começam a penalizar fortemente as famílias.

A política funil de afinidades

É um dos muitos ângulos da questão. Pensa aí. Sozinho ninguém faz verão, muito menos uma revolução. Tem de ter pelo menos alguma da tal afinidade, que pode até ser tênue, mas precisa existir de verdade, e aí a gente vai, se junta, atraído, e atraindo-se entre si. Isso vale para o amor. Isso vale melhor ainda para a política. Só que nela precisamos arregimentar mais gente.

Suponha que você amanhã de manhã acorde e, antes de levantar-se, se espreguiça e pensa: “Hoje, é hoje! Vou me juntar com quem mais quer melhorar o país”. Para que lado você vai? Pois é. Estou com esse problema. Tem muitas coisas que, penso, são indispensáveis para que o Brasil saia dessa faixa de caretice e esbórnia que nos assola. Mas tem um monte de gente que conheço que vai ficando na estrada cada vez que um item – digamos, mais sensível – desses, se apresenta.

Estamos fadados a nos juntarmos só em montinhos tal está o esfacelamento cultural, ético e social dessa terra que tem palmeiras e onde canta o sabiá. Daí ter constatado por que estamos parecendo caranguejos bêbados na orla da praia esperando a próxima onda. Ou avalanche.

Percebeu onde quero chegar? Igual a mim você também não está acreditando que já passaram mais de quinze dias de um prazo razoável para que o Eduardo Cunha se pinicasse, mas ele está ainda ali, com sua empáfia, e pior: com apoio de umas pessoas que pela lógica deveriam estar longe quilômetros dele? Pessoas que deveriam estar ao nosso lado. Vê só o número de pretensos oposicionistas que a gente vai riscando da lista. Agora soma os que a gente risca porque tropeçam diante das discussões sobre relações homoafetivas, descriminalização, aborto, família, para citar algumas barreiras ou o que pensam – se é que pensam – sobre clima, globalização, paredes pintadas com cor, minissaia, o bacon, ou flores do campo.

Vamos lá, você acordou e insiste que vai se juntar com quem quer melhorar o país. Melhor: já sabe que há quase um milhão de pessoas protestando nas ruas do seu país. Vai para sua avenida e quando chega lá tem de escolher ao lado de quem vai agitar sua bandeira: tem maluco de farda clamando por militares (mas você passou por isso e sabe a treva que é), imberbes garotos buscando projeção (você já viu um desses caçando marajás e não deu certo), contra Cunha, a favor, gritando bobagens desconexas como “a nossa bandeira nunca será vermelha”, que nunca entendi de onde veio a mixórdia dessa ideia.

Conselho: sai daí meio à francesa sacudindo sua bandeirinha, assobiando com o seu cartaz.

Tem uma turma que só xinga e usa termos chulos pesados contra os inimigos, mas que em si – justamente porque os usam neste momento – já definem seus pensamentos e posição: vaca, puta, sapatão se é mulher o alvo; veado, corno, quando é homem. Você é educado, se manda daí!

O melhor mesmo é procurar e achar algum aglomerado mais feliz que esteja sambando, cantando o hino a capela, mostrando a vida para o filho bebê ou para o cachorrinho que também foi no passeio vestido com a camiseta da seleção.

Não adianta a gente ficar esperando o grupo ideal, porque – sinto muito informar – ele não existe. Um grupo de afinidade total. Está cada um para um lado e Deus por todos; já que lhe deram cidadania, agora também Ele se envolveu.

Parece porta de metrô, o pessoal querendo entrar e outro sair ao mesmo tempo pelo mesmo buraco. Vamos aos poucos buscando nossas afinidades para nos afinar, emparelhar, seja o que for. Compartilhar, porque agora nem se divide mais nada, só se compartilha. Êita.

“Eles”, os outros, esses que para tudo ou não sabiam ou não viram, ou parecem matracas repetindo discursos que nossos olhos desmentem, que nos atrasam em pelo menos uma década, estão sendo localizados e desmascarados. Ainda temos amigos lá entre eles, mas como os consideramos pessoas inteligentes creio mesmo que chegará a hora que verão que não podem mais sustentar esse apoio que surpreendentemente ainda demonstram. A demora piora tudo.

Vamos começar do começo. Para ver se engrena. Vamos passear nas ruas a fim de quem sabe encontrar mais nossos afins. Em química a afinidade aproxima os corpos.

Olha só que interessante. Revolucionar é bom e eu gosto.