sexta-feira, 19 de junho de 2015

Uma pátria educadora é feita de cidades educadoras

Faz quase seis meses que a presidente Dilma lançou o lema, mas até hoje não definiu como seria a pátria educadora nem o que seu governo fará para construí-la.

Por falta de definição da presidente ou dos marqueteiros que criaram o lema, devemos imaginar como seria a pátria educadora e o que fazer para construí-la.

A condição fundamental, óbvia, é ter todas as crianças em escolas com a máxima qualidade, o que exige: professores muito bem-preparados, escolhidos entre os melhores jovens da sociedade; para isso, eles precisam estar entre os profissionais muito bem-remunerados, todos bem selecionados e avaliados permanentemente; os prédios das escolas entre os mais bonitos, limpos e confortáveis, com os mais modernos equipamentos de tecnologia da informação, bibliotecas, ginásios poliesportivos e facilidades culturais; todas as crianças em horário integral, durante os 220 dias de aulas por ano, sem paralisações. Quando todas as cidades forem assim, a pátria educadora não terá analfabetismo de adultos, e todos os seus jovens concluirão, na idade certa, o ensino médio, com a qualidade ofertada nos países mais educados do mundo. Para isso, a pátria educadora precisará ter todas as suas cidades educadoras.

A pátria educadora só pode ser construída escola por escola, cidade por cidade, mas cada uma necessita de esforço nacional para apoiá-la. Para fazer suas cidades educadoras, o Brasil precisa adotar a educação de suas crianças, independentemente da cidade onde vivem e estudam.

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Isso não será possível cortando recursos do Ministério da Educação nem prometendo os simbólicos 10% do PIB ou os royalties de um pretenso pré-sal de tamanho insuficiente para as necessidades da educação brasileira. Muito menos deixando a tarefa de construir a pátria educadora para as pobres e desiguais prefeituras do Brasil. Deixar a educação nas mãos das cidades é manter as escolas sem os recursos humanos, financeiros e técnicos necessários e também continuar com nossas crianças em escolas desiguais, conforme a renda dos pais e o orçamento da cidade onde vivem.

A simples evolução do atual e degradado sistema escolar municipal não vai permitir construir a pátria educadora; o Brasil precisa implantar um novo sistema educacional, substituindo as atuais escolas num processo ao longo de anos. Uma cidade educadora custa R$ 10 mil por aluno por ano; para atender 51,7 milhões de alunos em 2035, seriam necessários R$ 517 bilhões. Se o PIB e a receita do setor público crescerem a uma taxa de apenas 2% ao ano, em 2035 o Brasil vai precisar de 6,2% do PIB para transformar o atual sistema da pátria deseducadora no novo sistema federal da pátria educadora; ou seja, 0,5 ponto percentual acima dos 5,7% do PIB gastos atualmente, metade dos 10% determinados pela lei do PNE.

Isso só será possível com a união de todos os brasileiros assumindo a responsabilidade pela educação de todas as crianças do Brasil, não importa a receita fiscal nem a vontade do prefeito da cidade onde elas vivam.

Política de interesse


Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações. 

A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse. 

A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva. 

À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade.
Eça de Queirós (1845 - 1900) 

Primeiro andar do PT ensina como jogar sujo


Lula e o PT são craques em se vitimar. Na semana passada, em Salvador, por exemplo, Lula se apresentou como vítima de uma campanha mediática jamais vista interessada em destruí-lo.

No ano passado, durante comício de Dilma em Belo Horizonte, Lula ouviu a leitura de uma carta por uma petista que acusava Aécio Neves, então candidato do PSDB a presidente, de gostar de agredir mulheres. E também de se envolver com drogas.

Dez dias depois, em Porto Alegre, foi a vez de Dilma ouvir acusações semelhantes.

Nem Lula desautorizou os ataques sórdidos, nem Dilma. No caso de Lula, ele chegou mesmo a sugerir que Aécio gostava, sim, de agredir mulheres.

Com tais exemplos vindos do andar superior do PT, como a militância se comportaria?

A repórter Daniela Lima informa que um diretor do Ministério do Desenvolvimento Social “é dono de um perfil em redes sociais que, segundo a Justiça de São Paulo, disseminou mensagens na internet vinculando o senador Aécio Neves (PSDB-MG) a apreensão de drogas”.

Nome do diretor: Luiz Müller, militante do PT do Rio Grande do Sul. Sua área de atuação no ministério é vinculada à Secretaria Extraordinária de Superação da Extrema Pobreza (SESEP).

Müller é um dos alvos da ação que Aécio move na Justiça desde o ano passado para ter acesso aos dados de internautas que publicaram mensagens em redes sociais vinculando o nome dele ao consumo ou tráfico de drogas.

É o segundo caso de um servidor federal que atuou nas redes durante a campanha presidencial de 2014 e comprovadamente caluniou e difamou Aécio. O primeiro caso foi de Márcio de Araújo Benedito.

Para difamar Aécio, ele se valeu das redes do Ministério da Fazenda e do Serpro, estatal responsável pelo sistema de tecnologia da informação de todo o governo federal.

Benedito é chefe da divisão de "projetos e tecnologias educacionais" do Serpro em Belo Horizonte.

De volta a Müller. O que ele alegou em sua defesa? Escreveu em seu blog:

- Reproduzo no perfil do Twitter textos deste e de outros blogs, com conteúdo e argumentos. Nunca fiz nenhuma 'acusação' a ninguém e a nenhum candidato. Publico neste blog e repercuto no Twitter ideias e propostas e contesto com argumentos, ideias e propostas das quais eu discordo.

E escreveu mais:

- Os representantes do neoliberalismo têm medo dos que professam ideias. Por isto acusam a mim e a outros tuiteiros. Querem calar os que contestam o entreguismo do patrimônio nacional, explícito em seus programas. Não me calarão. Ajudei a construir o PT. E junto com tantos milhões de Brasileiros ajudamos a eleger um operário e uma mulher para a Presidência da República..

Sapos a la gauche


Eu, você e mais 200 milhões de brasileiros somos parte daquela experiência do sapo na panela no fogão aceso. A historinha – que não sei se é verdadeira, mas que parece ser – conta que, se jogado na água fervente, um sapo daria um pulo heroico para fora da panela, não antes de ser “selado” pelo líquido a 100 graus. O salto para fora da água, entretanto, a despeito de algumas queimaduras, manteria o sapo vivo e bem mais esperto. Se, ao contrário, o sapo fosse jogado na água fria e esta fosse aquecida lentamente, o sapo não se aperceberia do aumento gradual da temperatura e morreria cozido em fogo lento. Nós somos esses últimos sapos aí.

O fogo lento é o que o PT faz com o Brasil - queda do PIB, da produção industrial, o aumento envergonhado do desemprego e outros indicadores em desatino. O calor que aquece o “caldo” onde nós, sapos, estamos embebidos, é a falta de respeito, de competência, de honestidade e de credibilidade do governo petista. Já estamos a cerca de 60, 70 graus. Está quente aqui dentro do Brasil, mas será que vai refrescar? Essa é a esperança tola e ingênua que ainda, por incrível que pareça, demonstram lideranças empresariais, políticas e formadores de opinião. Pois não vai refrescar. Vai esquentar ainda mais e não podemos mais pular pra fora da água.

imageSó resta uma possibilidade, para dar fim a esta historinha do sapo na panela: Desligar o fogo!
Para isso, temos que sonhar com a saída do PT do governo federal e de todo e qualquer ente federativo. Está mais do que provado que a esquerda brasileira não sabe governar, não têm noções gerenciais mínimas, não tem responsabilidade fiscal, não respeita regras e faz pouco caso de contratos. A esquerda brasileira, responsável pelo fogaréu inclemente que cozinha a todos nós, sapos covardes e medrosos de todas as matizes políticas, mente e mente sem parar, engana e não tem mais noção alguma de certo e errado, de bem e mal, de lícito e ilícito, de moral e de ética.


O estado de direito é a mão que ainda não chegou ao fogão para desliga-lo. As instituições brasileiras são fiascos históricos: O judiciário é, na verdade, o Doutor Sérgio Moro, com a fiel ajuda da Polícia Federal. Nada mais. A oposição é a dupla Aécio e Caiado, sem esquecer de bravos Lorenzonis e mais três ou quatro homens com H maiúsculo. Mulheres? Nenhuma. Marina Silva? Piada. Dilma faz balãozinho com ela. Não há mulheres com M maiúsculo na política brasileira. Há dezenas de mulheres “honestas” como Dilma na política. Mulheres honestas sem aspas há poucas e silenciosíssimas. A imprensa é também apenas uma dupla: Veja e Rede Jovem Pan. O resto possui a mesma “valentia” da turma do sopão de sapos nacional.

Há que se desligar o fogo. Ele está quase matando a saparia.


O TCU denunciou as pedaladas e deu ele mesmo um tapa na mão. Será que o país aguenta mais 30, 60 dias? O Petrolão está virando fofoca e nada é capaz de fazer diminuir a caloria que aumenta. As instituições estão caladas. Será que já morreram em banho-maria? Os sindicatos estão silentes, escondidos. As pessoas que saíram às ruas em março e abril parecem não estar mais com vontade de protestar. As lideranças empresariais ainda brincam de acreditar que as coisas podem melhorar e nós brincamos de concordar com elas. A piscina onde os sapos fervem logo nos matará a todos.

E Lula? Esse aí é o grande fornecedor do gás que, quando não provê a chama que arde, mata por asfixia. Lula é o grande mal do Brasil. Lula é o mal do Brasil. Lula é mau. E o tempo passa, o tempo voa e só Lula e Dilma continuam numa boa. Alguém por favor, desligue o fogão! Lula e Dilma têm de ser detidos.

No mato sem cachorro


Executado inteiro o “ajuste” já não nos levaria longe. Consiste, como sempre, em aumentar tarifas e impostos, reduzir a renda privada e cortar investimentos para sustentar os gastos do estado no novo patamar a que chegaram. É mais um arranjo para evitar que se manifestem inteiras as consequências da nossa incapacidade de repactuar a distribuição de haveres e deveres entre o Brasil que paga os impostos e o que os arrecada para habilitar-nos a passar a disputar vitórias em vez de seguir postergando derrotas certas, sempre no limiar da sobrevivência.

O próprio “tripé” que rendeu nosso melhor momento em um século era um arranjo precário; uma espécie de “cortisona” tomada em doses diárias para permitir ao paciente conviver em relativo equilíbrio com a doença crônica que não se dispõe a enfrentar, e não uma cura.

Nós nunca revogamos nada do que nos vem comendo pelos pés. O estado brasileiro só tem porta de entrada. A norma fundadora do sistema que aqui aportou com d. João VI é que cada ungido pelo toque de midas dos “de dentro” torne-se um deles para todo o sempre. É em torno da compra e venda dessa “salvação eterna” ainda em vida que se estrutura o anel de ferro que o sustenta.

Ao fim de 300 anos dessa ordenha, tudo que o Brasil dos miseráveis não tem é o que obscenamente sobra no Brasil oficial. Os direitos gerais só passarão a caber na conta quando os “direitos especiais” deixarem de pesar nela. O drama brasileiro — as crianças sem futuro, os doentes no chão dos “hospitais“, os 56 mil assassinados por ano, a corrupção epidêmica — tudo é mera consequência dessa premissa.

Não ha brasileiro vivo que não saiba disso, mas até as verdades mais evidentes precisam ser repetidas todos os dias em voz alta para se impor.

Neste momento, a ancestral mentira brasileira estrebucha pela enésima vez no seu próprio paroxismo. A conta é proporcional ao tamanho da trapaça e nunca antes ela foi tão grande na história deste país. O desastre lulopetista, que está apenas começando, é daqueles capazes de levar espécies inteiras à extinção. Vai-se abrir uma dessas raras janelas de oportunidade que só o sofrimento extremo proporcionam, com o potencial de alterar a própria ecologia do sistema.

O século 20, quae sera tamen, está chegando ao fim também no Brasil. Ninguém que o represente representa, já, a plateia que vaga pelas ruas. E no entanto ainda é ele e a linguagem dele que dominam reacionariamente o palco.

Não se reconhecem mais, esses dois brasis e é aí que moram a esperança … e o perigo!

A destruição do aparato nacional de educação é a obra mais bem acabada do partido que pavimentou o caminho do primeiro presidente-operário a chegar ao poder nas américas, apenas para provar mais uma vez que a humanidade é uma só, de cabo a rabo, só que com a força dos seus piores vícios multiplicada pela ausência dos matizes críticos com que a educação formal, bem ou mal, acaba por diluí-los. A “educação” que sobrou não é o antídoto, é o veneno. O que resultou dessa desconstrução é um discurso político reduzido a um maniqueísmo primário, da ante sala da conflagração, incessantemente derramado sobre um país sem repertório para definir um projeto nacional.

Sendo característico dos sistemas de servidão que quem provoca as crises não as sofre, os ventos que neste momento arejam o Brasil não sopram em Brasília. Lá, onde a maré é eternamente montante, ninguém nunca é demitido e os salários nunca param de subir é à conquista do poder como ele sempre foi que tudo se refere. Os contendores posicionam-se exclusivamente uns em relação aos outros. O Brasil real não conta. “Se ele é contra eu sou a favor“, e vice-versa. A “primeira divisão” disputa poder político e dinheiro. A segunda só dinheiro e o poder que com ele se compra. Mas preservar o úbere onde todos mamam é o valor maior que, nas emergências, se alevanta.

O terceiro elemento, intocável no seu pedestal, divide-se entre a minoria heróica que resiste reduzida a um papel de polícia, tolerada pelos demais por falta de remédio melhor, e a linha de frente corporativa pela qual a maioria dos acomodados omissos deixa-se docemente constranger cuja função é sangrar repetidamente a nacionalidade e o Tesouro mediante a articulação do “auxílio” ou do “reajuste retroativo” de cada temporada.

Fecha o quadro o “quarto poder” que — embora não dispute o mesmo queijo dos demais — vive hipnotizado pela mixórdia que eles protagonizam. Não olha para fora, não apresenta as alternativas do presente, não pesquisa as que redimiram outros povos no passado. Limita-se a reproduzir a cena doméstica segundo a linguagem e a pauta dos outros três — quem “ganhou“?; quem “foi derrotado” no último crime de lesa pátria? — o que mantem o limite do possível no imaginário nacional exatamente onde o Brasil oficial quer que ele permaneça.

“O país não avança porque não sabe onde é necessário chegar. Para sabê-lo com certeza, era preciso ir ao fundo das coisas, e ao fundo das coisas só se chega com a crítica“, é a citação do mexicano Daniel Cosio Villegas que Carlos Guilherme Mota e Adriana Lopez usam como mote do último capítulo da sua História do Brasil que um qualificado leitor define como “um extraordinário estudo sobre a resiliência do continuísmo“, a marca renitente da nossa trajetória histórica ao longo da qual, “todas as raras oportunidades de rompimento com o passado que aparecem acabam por ser reprimidas“.

A repressão da próxima, cujos protagonistas já se apresentaram com seus “generais” e “exércitos“, passa pela anulação, ainda que “em vida“, dos dois poderes cuja credibilidade o terceiro vem trabalhando abertamente para corromper.

Falta quem, pelo outro lado, levante uma bandeira digna de ser seguida para limpar o sistema “por dentro“, porque se ha uma coisa que o Brasil aprendeu de 1964 a 85 e nossos vizinhos comprovam todos os dias é que, se vamos mal com eles, pior iremos sem eles.

Fernão Lara Mesquita

Financiamento do consumo e investimento social

Mais de metade das famílias brasileiras está endividada, um numero recorde da última década, e o modelo errático consagrou o financiamento do consumo, mas bem melhor seria se expandisse a todos a possibilidade da inclusão social.

Em linhas gerais, como a grande parte da população é assalariada o sistema de consignado, empréstimos e principalmente financiamento de veículo, não logrou pleno êxito. E isso sem falar na casa própria hoje com financiamentos que levam trinta anos e colocam os mutuários debaixo das agruras de um emprego fixo e capacidade econômico financeira para liquidar o financiamento.


A concentração de renda é um problema jamais combatido. Não nos parece que tributar o andar de cima resolva, mas encontrar nas grandes fortunas uma oportunidade e chance de aquinhoar os menos favorecidos. Depois de alguns anos vivendo esse circulo vicioso o governo se deu conta que além do endividamento estaria levando a risco muitas entidades financeiras em razão do calote.

Os juros subiram e os gargalos aumentaram, uma vez que o governo retirou os subsídios e a redução dos impostos foi gradualmente revista. A estratégia falhou e isso é fato notório, não houve uma correção da curva e nem tampouco de rumo.

Hoje o consumidor se sente preocupado e não vai as compras com tanto impulso ou entusiasmo. Aqueles capazes economicamente saem do País. Não se praticam preços de mercado, mas exacerbados, além do que o Estado deveria ter como norte ampliar e melhorar a rede pública de transporte, saúde, e porque não dizer fundamentalmente educação.

No entanto, não foi o que observamos. Pioraram o nível das escolas públicas, do atendimento à camada da população necessitada e o transporte igualmente. Assim tudo ficou mais caro e de pior qualidade.

O mercantilismo prepondera,mais ainda diante da tibieza do Estado e do fortalecimento de fundos que se cercam da crise e se tornam operantes para comprar e investir a pleno fôlego em razão de iliquidez do crédito.


A reversão do sistema é fulcral. Não adianta financiar o consumo se o consumidor não tem renda ou emprego garantido. Mais cedo ou mais tarde se tornará um inadimplente, e nunca antes se viu tanto registro de cadastro da impontualidade.

O caminho natural seria que se ocupasse o Estado do social, com investimentos pesados no transporte, na saúde, e na educação, com qualidade e aumento dos salários dos servidores, mas apostou no individual e errou gritantemente.

Outro aspecto relevante, no Brasil se pratica um preço muito salgado, e nem se quiser pagar à vista há desconto. O comerciante, lojista, olha com desconfiança e se vale da financeira para receber, não se importando se o consumidor vá pagar em dinheiro ou no cartão. O que lhe interessa é receber.

Errático na implementação de um programa que não mostrou musculatura para ir à frente, agora praticamos o ajuste fiscal. Tantos impostos foram retirados da indústria, com desoneração, e a conta final será do contribuinte.

Não nos iludamos, o financiamento do consumo por agentes capitalistas é uma bola de neve, que mais cedo ou mais tarde aparece, e a quebradeira demonstrará a desilusão de se investir no pessoal e não no coletivo, que poderia ter sido uma grande alavanca de criação de empregos, aumento de renda, crescimento e desenvolvimento.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Três novidades e um velho labirinto


O Papa vai investigar padres acusados de pedofilia e os bispos que os acobertaram. O abuso da inocência pelos representantes da pureza de Cristo é mais do que um crime: é um pecado revoltante. Uma abominação.

O Parlamento Europeu exige a saída imediata de Blatter. Aproveitar-se da nossa inocência de amantes do futebol — essa máquina de beleza e transparência — para ganhar milhões em propinas é uma outra abominação. Com tintas de legitimidade e um certo conforto porque, para muitos, não haveria moral no mercado e no capitalismo. Aguardamos os resultados com esperança. Aproveito o ensejo para retirar minha candidatura à presidência da Fifa. Estou com o Zico e não abro.

A terceira boa nova e, para o estilo brasileiro de ser, a mais importante, é o golpe desferido contra a nossa boa cultura da má-fé pela ministra Cármen Lúcia e seus colegas do STF. Os 9 a 0 contra o bloco dos que fizeram uma liga pró-censura renovam expectativas.

Mas o nosso velho labirinto permanece.

O labirinto, dizia um filosofo, é o paradoxo em forma de corredores. Na vida social temos labirintos exemplares. O delator premiado delata o outro delator; e um terceiro delator faz o mesmo com os dois primeiros. Outro exemplo: um sujeito falsifica uma obra de arte com tal perfeição que nem os peritos distinguem o falso do verdadeiro.

Existiria um governo que roube o país que governa de modo programado, levando-o à ruína? Não seria legítimo assaltar como governo, sendo o governo eleito pelo povo e irremovível porque o voto popular é sagrado? Mas democracia não seria poder também ter o direito de retirar pelo mesmo voto quem foi lá colocado e não honrou o papel público recebido e trabalhou mais para o partido, para os seus associados do que para a coletividade? Afinal, um governo que rouba sistematica e escandalosamente o seu país não é o mesmo que uma pessoa roubar a si mesma? Um viciado rouba de si mesmo o seu bem-estar. Devemos deixá-lo entregue à sua miséria moral ou chamá-lo às falas? Haveria governos e partidos vítimas de seus programas? Admitimos uma ladroagem oficial, institucional, legal e populista?

Se casamentos e negócios, tal como as amizades, podem ser desfeitos, por que não os ocupantes de cargos públicos? Quando o PT fez uma contundente campanha contra um Fernando Henrique Cardoso recém-eleito presidente, dando-lhe um simbólico “não”, foi um direito. Quando, entretanto, se faz o mesmo com a Dilma, é traição ilegitima? Do meu ponto de vista, recolher ocupantes de cargos eletivos por incompetência ou mendacidade é uma prerrogativa básica da vida igualitária e democrática. Se um jogador, eis um labirinto, trai o seu time, não é obrigação e dever tirá-lo de campo?

Alfred Kroeber, um dos primeiros antropologistas formados por Franz Boas, dizia que nós somos folhas de papel em branco nas quais a cultura (o nosso sistema cosmológico) se escreve. De tal maneira que até mesmo as nossas reações se fazem dentro dos limites estabelecidos pela nossa cultura. Numa aula, um aluno contestou invocando a liberdade individual. Eu, humilde, respondi que a própria ideia de liberdade é uma programação cultural e, como tal, ela tem que ser explicitada, construída e aprendida.

Existe a palavra liberdade em todas as línguas? Eu fiquei chocado quando descobri que, entre os apinayé, não havia palavra para o nosso zeloso: “muito obrigado”. Quem escreve quem? Somos todos textos ruins? Ou atores correndo atrás de personagens cuja densidade e nobreza nos escapa? Ou somos autores de nossas sociedades que, escritas por cada um nós, se transformam de acordo com nossos projetos?

Um labirinto óbvio é a recusa a tentar separar o falso do verdadeiro, o dissimulado do autêntico. A decisão do STF foi admirável porque ela resolveu uma questão. Biografias de quem tem fama e, eventualmente, talento — dentro das conhecidas incomensurabilidades existenciais e guardado o bom-senso e a má-fé — pertencem à sociedade. Todas as vidas têm a inscrição de um sistema. E todo sistema se exprime por meio de vidas. Não há como separar pessoas e grupos, a não ser por meio de um enorme (ou despótico e desonesto) esforço. Todos estamos no mesmo barco. Muitas vezes o abandonamos e esse abandono torna-se uma variante do sistema porque, cedo ou tarde, o sistema o recupera. Primeiro pela admoestação ou preconceito (o que o torna ainda mais forte) depois pela admissão (o que leva a sua diluição e normatização). Até, é claro, que aparece outra heresia ou desvio.

Outro labirinto.

Túnel do tempo




Quando um político mente destrói a base da democracia
José Saramago

Nasa: mundo está ficando sem suas principais fontes de água

Informações de satélite mostram que 21 dos 37 maiores aquíferos apresentam redução alarmante
Alter do Chão, maior aquífero do mundo em extensão de água,
 está localizado  na região que compreende Amazonas, Pará e Amapá
Dados fornecidos pelo satélite Grace, da Nasa, revelam que os principais aquíferos no mundo estão se esgotando dramaticamente. De acordo com a agência espacial americana, 21 entre 37 das maiores fontes de água subterrânea que abastecem centenas de milhões de pessoas no planeta apresentam redução alarmante, sendo que 13 delas estão em situação "calamitosa".

“A situação é muito crítica. Os aquíferos estão caindo em todo o mundo, não há reserva infinita de água” afirmou Jay Famiglietti, cientista da Nasa.
No Brasil, o satélite mostra três reservatórios: do Maranhão e da Amazônia, em boa situação, e, em posição um pouco menos confortável, o aquífero Guarani, o maior manancial de água doce subterrânea transfronteiriço do mundo, localizado entre Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina. 


Segundo os dados do Grace, os aquíferos em pior situação estão nas regiões mais pobres e populosas do globo, como o Noroeste da Índia, Paquistão, e o Norte da África. O satélite analisou ainda territórios como Estados Unidos, China e França.

A degradação dos reservatórios está relacionada ao crescimento da população mundial, assim como às atividades da agricultura, da indústria e da mineração. Estima-se que aproximadamente 35% de toda água utilizada no mundo seja proveniente dos lençóis freáticos.

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Pilatos revivido


Se não tínhamos até então um registro sonoro e de imagem de Pôncio Pilatos durante o lava-mão no caso de Cristo, conseguiu-se séculos e séculos depois o registro fiel do acontecimento histórico, encenado pelo ministro José Eduardo Cardoso. Diante de uma platéia no Congresso reviveu Pilatos: o governo de 13 anos do PT reconhece que as prisões brasileiras são escolas do crime e nada fez, faz ou fará para reverter a situação. Em resumo, dane-se a população, conviva com a criminalidade como puder. Lavamos as mãos e crucifixe-se o Cristo da vez!

Cardoso protagonizou a maior cretinice nunca antes vista no país de um ministro da Justiça se eximir da responsabilidade de melhorar o sistema prisional por mero descaso. E não é a primeira vez! Insiste em criticar um sistema que está sob sua própria gestão e isso na maior cara de pau sem nunca demonstrar qualquer iniciativa para revertar a situação. Muitas vezes, como nas seguidas revoltas em Pedrinhas, No Maranhão, não deu um pio como se não fosse um ministro da pasta, mas um mero títere petista que realmente é.
O debate da maioridade penal tem exposto esse desinteresse do governo, com mais de uma década, em realmente impor justiça no país. O próprio Cardoso já protagonizou inúmeras bravatas em defesa da Presidência ou de seus comparsas. Também foi protagonista de ações nada éticas. Portanto, não se pode esperar de seu petismo que enfim aja como ministro da Justiça.

A questão foi mais uma vez desviada para que ninguém reclame do governo e Dilma e sua companheirada fiquem impunes de outros crimes deslavados: menosprezar a Justiça e se lixar para dotar o sistema carcerário de condições humanas. E para essa função foi escalado o pitbull Cardoso, que late muito, arreganha os dentes, mas nunca tomou as providências que deveria tomar para defender a população dos marginais e garantir os direitos humanos dos presidiários.

A "lógica" de Cardoso, vesga e marginal, só serve para proteger o desastre petista na administração judicial, nunca a Justiça que deveria ser para todos os brasileiros inclusive os presidiários e os jovens internos para a "salvadora" reeducação. 


São as vítimas, estúpido!


Ao fazer, mais uma vez, uma minuciosa confissão do seu próprio fracasso como responsável último por ele que é, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, fez mais um emocionado apelo esta tarde ao Congresso Nacional para que “não se coloquem jovens brasileiros dentro das hedionadas prisões do sistema prisional brasileiro, verdadeiras escolas do crime” por meio da redução da maioridade penal, e blá, e blá e blá…

Entre as dezenas de vezes que repetiu essa cena ao longo desta tarde, pelo menos uma vez a Globonews apresentou, na sequência, o secretário de Segurança Publica do Rio de Janeiro, Jose Mariano Beltrame, repetindo o seu mantra para que não haja retrocesso na política das UPPs, qual seja, a de levar a polícia aos morros cariocas que ficaram abandonados por décadas à lei do cão dos traficantes desde que Leonel Brizola fez um acordo com eles para conseguir se eleger. É que depois que os “ingleses” da Copa deixaram o Rio, o interesse das autoridades por aqueles “pretos“, “pobres” e “putas” só vem diminuindo…

Não peguei o discurso inteiro de Beltrame com som, mas quando aumentei o volume, ele falava daquele bom “jovem brasileiro” que, apenas para se divertir, esfaqueou na virilha e chacoalhou a faca, olhando-o nos olhos, aquele cardiologista que foi trucidado e sangrou até à morte na Lagoa Rodrigo de Freitas no mes passado, apenas porque resolveu pedalar duas ou tres voltas por esse “cartão postal” do Rio de Janeiro num belo entardecer. E o que dizia Beltrame sobre esse “jovem brasileiro” em especial? Que ele já tinha sido preso 15 vezes antes por sua polícia – isso mesmo, 15 vezes! – mas foi devolvido 15 vezes às ruas, de faca em punho, pelo sistema Judiciário e pelos códigos penais que o ministro da Justiça quer manter intactos, porque não ha lei neste país que possa tirar “jovens” como esse de circulação.

É claro que ninguém pensou jamais em mandar “jovens brasileiros” para esses presídios de fato hediondos apenas por esporte ou mesmo por excesso de zelo. Mas é que “São as vítimas, estúpido”!, diria o famoso marqueteiro de Bill Clinton.

Se não temos presídios melhores para encerrá-los, temos de escolher entre manter esses jovens na rua, de faca em punho, correndo atrás de nossos filhos e mães, apenas porque são “jovens”, ou enfiá-los onde quer que seja para que pessoas como o cardilogista trucidado e os outros 55.999 brasileiros que são assassinados nas ruas deste país todos os anos tenham uma chance a mais de sobreviver.

Nós todos adoraríamos que o senhor ministro e seu partido deixassem barato 2 ou 3% do que nos roubam para por os presídios brasileiros no melhor “padrão Fifa”. Eu, pessoalmente, acho que eles só serão arrumados quando os chefes do partido do próprio ministro e outros bandidos “excelentes” deixarem de ser recolhidos, quando flagrados com a mão na massa, em alas especialmente construidas para eles passarem o seu semestre sabático na Papuda e começarem a ser presos nos hediondos presídios que temos pelo mesmo prazo “dosimetrado” para seus comparsas “civis” no mesmo crime. Só com essa perspectiva no horizonte – a de que todo brasileiro que mereça ser preso seja julgado pelo mesmo tribunal, condenado às mesmas penas e preso na mesma prisão – veremos os correligionários do ministro, mais os seus “aliados” e os seus “adversários” na farsa que se encena em Brasilia, darem um jeito nas prisões que possam vir a frequentar.

Não tendo essa opção hoje, o jeito é mandar “jovens” que andam por aí esfaqueando gente para as prisões que houver, porque a prioridade deve ser dos esfaqueados e não dos esfaqueadores.

É das vítimas que se trata. Entendeu agora, “excelência”?

Do ponto de vista político...

https://media.zenfs.com/en/homerun/wp_tumblr_migration_provider_889/f216c0eebb3384b83269b2a872162a1f

Eu vou-vos dizer o que eu penso realmente sobre os políticos. Outra noite vi uns políticos na televisão a falar sobre o Vietname. Eu gostaria muito de ter atravessado o ecrã da televisão com um lança-chamas, queimar-lhes os olhos, mutilar-lhes as partes baixas, e depois perguntar-lhes como é que eles analisavam esta situação de um ponto de vista político
Harold Pinter

Somos coniventes ou idiotas?

A discussão sobre a propriedade ou não das doações privadas às campanhas eleitorais, muito motivadas pelos últimos escândalos que envolveram empresas fornecedoras da Petrobras, estão se desenvolvendo como se o que agora fora revelado fosse coisa inimaginável, um sinal dos tempos. Há décadas que as eleições no Brasil são financiadas dessa mesma forma, com empreiteiras, bancos, laboratórios, empresas multinacionais de variados setores destacando em seus orçamentos verbas consideráveis para transferir a candidatos e a seus partidos para custear a farra eleitoral. No capítulo das doações oficiais, esse é mais ou menos o quadro. Há também, sabe-se, de candidatos financiados pelo jogo do bicho, pelo tráfico de drogas e outros fora da lei, cujos valores doados, por razões óbvias, ficam apenas nos caderninhos que vez ou outra a polícia apreende e divulga. As prestações de contas, junto à Justiça Eleitoral, ou revelam generosos aportes quase sempre das mesmas empresas feitos a candidatos muitas vezes concorrentes aos mesmos cargos ou apresentam mágicas, de candidatos que conseguiram sua eleição sem quase gastarem um tostão. Elegem-se, dizem e eu acredito, com suas ideias, levadas pelo apoio de cabos eleitorais (isso ainda existe) e a eficácia do papelório com retratos, frases de compromisso e textos de farto lero-lero.


O país não suporta mais o custo de eleições a cada dois anos. Não pode se manter mais o funcionamento, como se dá, de câmaras municipais, de assembleias legislativas, da Câmara Federal e do Senado com salários imorais, verbas de representação e cerimoniais, desperdício permanente, uma conjugação de gastos e investimentos que desrespeitam princípios elementares de moralidade pública. Não tem sentido a quantidade de assessores, secretárias, prédios, material de escritório, equipamentos que são disponibilizados para muito pouco resultado. Todos sabem desses absurdos e nem no momento das eleições isso vem à tona. Simplesmente elegemos ou reelegemos os mesmos, aqueles que se nutrem e aos seus grupos dessas manobras. Uma criminosa podridão.

Cessaram os debates sobre o voto obrigatório, sobre a coincidência das eleições, sobre a obrigatoriedade de destinação fixa do orçamento nacional, dos Estados e municípios para o funcionamento dos legislativos. Não se falou mais sobre o voto distrital, sobre a representatividade dos partidos organizados às dúzias, sobre os tempos de TV e rádio para a propaganda eleitoral que viraram moeda. Isso mesmo: monetizou-se o direito dos partidos ao tempo da propaganda gratuita e por isso temos quase quarenta partidos recebendo dinheiro público do Fundo Partidário e nada se faz para acabar com essa impropriedade. Nada. Em 2016 teremos eleições, em 2018 também e assim seguiremos. Pagando e votando. Jogando dinheiro fora e aplaudindo. Que idiotas somos! 


Brasil cai em ranking da paz e eleva 'custo' mundial da violência

País gasta 255 bilhões de dólares por ano como consequência da violência

"O Brasil é um país pacífico e assim continuará”, afirmou a presidenta Dilma Rousseff no final do ano passado, durante uma cerimônia da Comissão Nacional da Verdade. O Índice Global da Paz, lançado nesta quarta-feira pelo Institute of Economics & Peace, no entanto, mostra um cenário diferente. De acordo com o relatório, o Brasil caiu 11 posições no ranking dos países mais pacíficos do mundo, e ocupa a 103a posição de um total de 162 nações - atrás de Haiti, Cuba, Argentina e Serra Leoa. O estudo leva em conta dezenas de variáveis, como acesso a armas, taxa de encarceramento da população, atividade terrorista, crimes violentos, desigualdade de gênero e PIB.

Os quatro países mais pacíficos do mundo, de acordo com o índice, seriam Islândia, Dinamarca, Áustria e Nova Zelândia, enquanto que no final da tabela estão Síria, Iraque, Afeganistão e Sudão do Sul. Na América do Sul, o Brasil só está à frente de Venezuela e Colômbia, que enfrentam, respectivamente, uma grave crise social e política e um conflito armado que já dura décadas entre o Exército e movimentos guerrilheiros ligados ao tráfico de drogas.

A alta taxa de homicídios no Brasil – 25,2 por 1000 habitantes -, a 12ª maior do mundo, ajudou a derrubar o país no ranking. Além do impacto humano e social que as mais de 50.000 mortes anuais têm, o estudo faz uma estimativa do custo da violência para os cofres públicos e para a economia brasileira, levando em conta despesas com o sistema de saúde, com aparato de segurança estatal e com o Judiciário. No total, o país gasta 255 bilhões de dólares (765 bilhões de reais) por ano como consequência da violência, o equivalente a 8% do valor do PIB nacional. O Brasil tem o quinto maior gasto global com a violência, atrás apenas dos Estados Unidos, China, Rússia e índia.

Para termos de comparação, em maio deste ano o ministro do Planejamento Nelson Barbosa anunciou um plano de austeridade que previa corte de 69 milhões no orçamento do Governo. Programas sociais como o Minha Casa Minha Vida e até obras do PAC tiveram verbas reduzidas. O valor gasto com a violência é mais de sete vezes maior do que orçamento da saúde, que é de 109 bilhões de reais. “A violência exige que investimentos sejam redirecionados de áreas produtivas como educação, infraestrutura e saúde para áreas de contenção da violência”, diz o texto, que cita grandes forças de segurança e encarceramento em massa como exemplos.

Em defesa do livro arbítrio (ou "Um grito de desabafo")


Em um país que falsamente se autodenomina laico e democrático, mas que se encontra inexoravelmente contaminado por leis arcaicas, fruto, sobretudo, de uma herança religiosa medieval, somos constantemente compelidos a refletir o quanto realmente nos encontramos em um triste estágio de subdesenvolvimento normativo.

O maior exemplo é a sublimação legal do mais importante direito que Deus nos deu: o livre arbítrio. Afinal, no estado da natureza, e pela mais importante concessão divina, o ser humano nasce livre para ser o único senhor do seu destino, fadado a dar satisfações unicamente a sua consciência.

Há algum tempo, um colega confidenciou ter experimentado, por determinação do destino, o mais dramático desafio a que um homem pode ser submetido, num dilema entre o amor e a consciência jurídica; entre o justo e o legal; entre o espiritual e o material.

Contou-me que sua mulher, incapacitada no leito do hospital, sentindo dores insuportáveis, com um câncer terminal que já havia retirado a dignidade de viver, implorou-lhe para que pusesse fim a seu martírio, mas não propriamente pela prática da eutanásia que lhe garantisse o direito de morrer com um mínimo de amor próprio, mas, sobretudo, pelo respeito a seu bem mais precioso: o livre-arbítrio.

Era uma mulher intelectualizada, com plena consciência de que não poderia contar com o Estado, que no Brasil não foi concebido para servir ao cidadão e sim para ser servido por este, ao contrário de outras nações, como a Suíça, onde existem até clínicas especializadas em viabilizar o legítimo desejo de uma morte digna (algo que os brasileiros só fazem com total naturalidade e amor, quanto se trata de um simples animal de estimação).

Restou a esta mulher, portanto, apenas recorrer àquele que lhe jurou amor eterno, até que a morte os separasse. E o desejo dele era atender ao pedido. Mas havia tantas implicações, que ficou mergulhado em dúvidas, não conseguia superar a rigidez da legislação criminal e o pesadíssimo sentimento de culpa que a formação religiosa atira sobre nossos ombros. Ele foi vacilando, se acovardou.

Mas ela insistia e foi assim até o final, quando o marido ainda conseguiu ouvi-la sussurrar as últimas palavras: ‘”Eu te perdoo, apesar de tudo”. Mas ele jamais conseguiu se perdoar.

Talvez fosse preferível optar pela ameaça de prisão injusta por um ato de amor (mas ainda assim por um tempo determinado), do que se sujeitar a uma condenação eterna por um ato de covardia.

Diante desse comovente relato, fiquei pensando que sempre é possível perdoar alguém, mas talvez seja realmente impossível perdoar-nos por qualquer ação ou omissão que tenha resultado em consequências graves. Com toda certeza, o perdão mais difícil é aquele que tentamos conceder a nós mesmos.

De toda maneira, o mais importante é que o Estado e a sociedade brasileira possam enfim amadurecer democraticamente, para propiciar aos cidadãos uma necessária evolução normativa que contemple o sublime respeito ao livre-arbítrio, elevando a dignidade humana ao patamar das conquistas mais preciosas a serem protegidas pelo nosso Direito, para que nenhum ser humano (apenas por ostentar a condição de brasileiro e se encontrar em solo pátrio) tenha de passar por tanto sofrimento, traduzido por uma dor que se encerra para aqueles que já se foram, mas nega a alegria da vida aos que ficaram.

Reis Friede

O PT e sua mentalidade do sítio

Deve-se ao repórter Luiz Antonio Novaes o registro de dois episódios ilustrativos da mentalidade do sítio que tomou conta do PT. Primeiro, eles tinham como inimigos os adversários políticos. Depois, a imprensa oligopolizada. Em seguida, a freguesia dessa mesma imprensa. Aos poucos, quase todo mundo.

Novaes estava no Congresso do PT em Salvador, onde só havia petistas, e narrou duas cenas.

Quando o governador da Bahia, Rui Costa, começou a falar, ouviram-se alguns gritos: “Cabula! Cabula!”. Costa foi um dos fundadores do partido na Bahia e Cabula é um bairro de Salvador onde, em fevereiro, a PM matou 12 pessoas (todos negros) e feriu outras seis. A tropa diz que eram traficantes que reagiram à chegada dos soldados. (Apenas um dos 12 mortos tinha antecedentes criminais.) Falando a uma plateia de PMs, o governador construiu uma metáfora comparando a ação dos policiais diante de malfeitores à do artilheiro na boca do gol, quando tem poucos segundos para decidir o que fazer e bateu o martelo: “Não há indícios de que teve atuação fora da lei nesse caso”. Portanto, os artilheiros da PM baiana fizeram 12 gols.

Quando Rui Costa começou a discursar, os gritos de “Cabula” pouco significavam para quem viera de outros estados, mas a lembrança da chacina era suficiente para irritar o comissariado do governador. O problema surgiu quando alguém ouviu “Papuda” no lugar de “Cabula”. Haveria petistas gritando o nome da penitenciária para onde foram mandados dois ex-presidentes do PT e seu ex-tesoureiro. Nessa hora, os companheiros estranharam-se, trocaram gritos e alguns empurrões. A confusão durou uma meia hora, exaltando ânimos que tanto podiam estar reagindo aos gritos de “Cabula”, de “Papuda” ou a ambos.

Pouco depois, como faltassem assentos no salão, vieram gritos de “Cadeira! Cadeira!”. Novamente, uns pediam cadeiras e outros ouviam “cadeia”. Dessa vez o mal-estar foi meramente auditivo.

Quem já ouviu milhares de pessoas gritando “Papuda” e “cadeia” na Avenida Paulista não tem por que se impressionar com cenas desse tipo. O episódio de Salvador mostrou que há petistas prontos para ouvir “Papuda” em vez de “Cabula” e “cadeia” no lugar de “cadeira” dentro de um congresso do partido. O inimigo, poderoso, conspirador e manipulativo, estaria em todos os lugares, inclusive lá. Coisa de quem está mal dos nervos, como o presidente americano George W. Bush quando viu uma deputada na Casa Branca com um botão onde leu “Osama”. Era “Obama”.

Gritar “Cabula” num evento onde discursava Rui Costa seria uma atitude agressiva, mas razoável para um petista desaparelhado que passa a vida defendendo os direitos do andar de baixo. Ouvir “Papuda” é coisa diversa, reação de alguém capaz de pensar que, a qualquer momento, inclusive durante uma reunião de petistas, poderá ser atazanado pela lembrança do mensalão e das petrorroubalheiras. Vai daí, “cadeira” vira “cadeia”.

A mentalidade do sítio colocou o PT no cubo de Marcel Marceau. Ele era um grande mímico e seu melhor numero era o de um cubo imaginário. A cada movimento que fazia, o cubo encolhia até que, de tão pequeno, não permitia que se movesse. O fato de um sujeito ser paranoico não impede que esteja sendo seguido, mas também o fato de ele estar sendo seguido não impede que ele seja paranoico.

Elio Gaspari