domingo, 12 de abril de 2015

A inocência dos roedores

Se Dilma fosse uma ópera, ela se chamaria “Erenice”. Uma ópera em dois atos: 2010, a ascensão; 2015, a queda. A presidente ainda não caiu, mas o Brasil já está caindo. Ainda não se sabe se no abismo ou na real.

Dilma Rousseff declarou que sua campanha não recebeu “dinheiro de suborno”. Já o Lobo Mau declarou que não comeu a vovozinha. Cada um com a sua tática. Se os caçadores da floresta não tivessem aberto a barriga do Lobo, ele teria devorado também a Chapeuzinho. Os caçadores da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça estão abrindo a barriga do PT e tirando um mundo lá de dentro. Mas a cabeça falante do partido continua jurando inocência pela boca da presidente da República. E a Chapeuzinho verde-amarela, coitada, continua na dúvida se acredita.
Antes de voltarmos à ópera, uma última contribuição à fábula. Querida Chapeuzinho: se o seu plano é ser devorada, fique à vontade. Continue acreditando em Dilma quando ela diz, por exemplo, que vai salvar a Petrobras. O humorista inglês John Oliver já caiu na gargalhada diante da presunção de inocência da presidente brasileira — e riu não por ser humorista, mas por ser inglês. Se bem que já há estrangeiros em vários países não achando a menor graça nessa novela. São investidores lesados pelo petrolão e, ao contrário da cordial Chapeuzinho, resolveram chamar a polícia. E lá a chantagem emocional dos guerreiros do povo não protege ninguém. Bandido é bandido.

As delações premiadas de ex-diretores da Petrobras e de empreiteiras convergiram com a do doleiro Alberto Youssef e cravaram: o PT transformou propinas do petrolão em doação legal ao partido. Em mais uma contribuição progressista para a História, os companheiros inventaram a propina oficial. Nada dos arcaicos recursos não contabilizados do mensalão: tudo certinho, tudo declarado, enfim, um roubo absolutamente dentro da legalidade. E as delações indicaram que algumas centenas de milhões de reais escoaram do esquema para a campanha presidencial de Dilma — aquela que não recebeu “dinheiro de suborno”. O acusado de operar esse milagre é o tesoureiro do PT, João Vaccari, que por essas e outras acaba de virar réu no processo da Operação Lava-Jato.

Vejam como Dilma Rousseff realmente é uma ópera. Toda essa engenhosa sucção nacionalista foi montada sob a presidência dela no Conselho de Administração da Petrobras. Está gravado e filmado para quem quiser ver: o ex-diretor da estatal e protagonista do escândalo, Paulo Roberto Costa, acha “estranho” que Dilma não soubesse do esquema. Mais estranho ainda sabendo-se que a montagem do esquema é atribuída a figuras-chave do partido dela, às quais a presidente jamais negou solidariedade — inclusive àquelas condenadas pelo mensalão. O que a inocência de Dilma foi fazer no meio dessa podridão?

Melhor reler o libreto. Está lá, no primeiro ato. Ano de 2010, eleição presidencial (na qual, maldita coincidência, outro delator aponta “dinheiro de suborno” na campanha de Dilma). Ali, nasce uma estrela: Erenice Guerra, braço-direito da candidata à Presidência, entra para a História ao levar a Casa Civil para as páginas policiais, demitida e investigada por tráfico de influência. Erenice era a mulher de confiança de Dilma, preparada por ela para ser sua superministra. Claro que os métodos de Erenice Guerra e a inocência de Dilma Rousseff jamais se cruzaram nos corredores do palácio. É estranho à beça, como diria Paulo Roberto Costa, mas a vida é assim mesmo. Estranha.

Saltando para 2015, o libreto da ópera faz ressurgir a grande personagem. Na Operação Zelotes da Polícia Federal, quem surge no seio de um escândalo bilionário envolvendo a Receita Federal? Erenice Guerra, agindo como principal assessora da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Mas Chapeuzinho verde-amarela continua chupando o dedo e ouvindo Dilma dizer que vai limpar tudo e nunca viu dinheiro de suborno. Adivinhem o que vai acontecer com essa menina distraída em mais quatro anos de ópera?

Quando Vaccari entrou na CPI da Petrobras, ratos foram soltos no recinto. Mas logo se deixaram capturar. Amadores. Vaccari admitiu que esteve no escritório do doleiro Alberto Youssef, mas disse que não sabia por que foi parar lá. Questão de ginga.

Ficar assistindo a esse show de inocência não é para qualquer estômago. O Brasil já desceu da arquibancada uma vez, e vai descer de novo. Os roedores não estão nem aí — continuarão ostensivamente oprimidos, anunciando que o petróleo salvará a educação, e roendo em nome da lei. Até que os brasileiros se cansem dessa cândida obscenidade e os enxote da sala.

Guilherme Fiuza

sábado, 11 de abril de 2015

A solidão das multidões

O desafio dos partidos de oposição é o de criar interlocução com as ruas e impedir que, pela falta de respostas, acabe se expandindo e triunfando a postulação extrema
A semana termina na expectativa das ruas. Não se sabe se a manifestação de amanhã reeditará a anterior. Também não se sabe o que ocorrerá na hipótese de retração ou expansão. O que se sabe é que, por não ter vínculos ou compromissos com partidos, tornou-se fator não apenas enigmático, mas assustador para os políticos.

O que fazer com a insatisfação do público? Os movimentos similares da história recente – diretas já e impeachment de Collor – chegaram às ruas por meio de partidos e lideranças políticas. Triunfaram porque ambos, partidos e sociedade, compartilhavam do mesmo sentimento e dos mesmos propósitos.

Hoje – e eis aí um desafio aos cientistas políticos -, o sentimento é outro. Há um claro divórcio entre ambos. E os sinais já eram visíveis nas manifestações de junho de 2013, que a esquerda, acostumada a comandar as ruas, supôs tê-las sob controle. Enganou-se. O público atropelou literalmente um protesto contra aumento nas passagens dos ônibus em São Pulo e no Rio. Protesto artificial, já que o aumento era de vinte centavos e nenhum dos organizadores era usuário de transporte público.

O objetivo era político-eleitoral, para desgastar os governadores de ambos os estados. Eis que a classe média, termômetro político de qualquer sociedade, ocupou as ruas – e não apenas de Rio e São Paulo, mas de diversas capitais do país - e mostrou que sua tolerância com os governantes estava no limite.

Mas a insatisfação era ainda difusa, sem objeto definido. Cada qual trazia seu protesto a tiracolo – uns falavam da (falta de) saúde, outros da educação, outros da corrupção -, sem slogans unificadores, sem a coreografia dos movimentos organizados.

Como não era contra ninguém em especial, mas contra tudo, governo e oposição tentaram tirar proveito. Fracassaram. Ficou, porém, o recado: a sociedade não estava dormindo.

As eleições serviram de catalisador do processo, mas a vitória de Dilma, sob o manto suspeito das urnas eletrônicas, frustrou esse imenso contingente da população. Se a oposição dá hoje por demonstrada a legitimidade da apuração – não obstante o volume de indícios em contrário que podem ser conferidos no Youtube -, a sociedade pensa diferente, e cobra essa acomodação.

As manifestações deste ano já não são difusas. Tendem a se fixar num alvo: o “Fora, Dilma!”. Dentro de um único slogan, estão as queixas pela má gerência dos serviços públicos, o excesso de impostos e a corrupção. O PT, há 13 anos no poder – e ali levado por um discurso messiânico e moralista –, prova do veneno que serviu aos governos que o precederam, confirmando a sentença bíblica de que cada qual será julgado com o mesmo rigor com que julga. O PT, que julgou tudo e todos com rigor fundamentalista, não resiste a essa colheita moral.

O clamor das ruas – “Fora, Dilma!” -, simples, direto e radical, não foi absorvido pela oposição. Também ela não quer a saída de Dilma – e não por estimá-la, mas por não saber o que fazer nessa hipótese. Se visualizasse um líder na multidão, certamente o procuraria para negociar soluções intermediárias.

Ocorre que as manifestações têm grupos organizadores, mas não líderes. E por não tê-los une-se apenas em torno do propósito central, que é a saída da presidente e de seu partido. Mas isso não chega a ser uma proposta de futuro para o país.

A maior parte pede o impeachment ou a renúncia. Mas há uma parcela, embora claramente minoritária, que já não crê nessa alternativa, pois descrê das instituições. Vê o Judiciário aparelhado, o Legislativo comprometido e a linha sucessória inconfiável. Por isso, pede intervenção militar, como recurso cirúrgico, sem cogitar de que tal procedimento pode matar o paciente.

O desafio político dos partidos de oposição é o de criar interlocução com as ruas e impedir que, pela falta de respostas, acabe se expandindo e triunfando a postulação extrema.

Até aqui, o que se tem são duas alternativas: o presente triunvirato Michel Temer- Eduardo Cunha- Renan Calheiros, num parlamentarismo pelo avesso, em que não se sabe quem é o primeiro-ministro (Temer ou Cunha?), ou um parlamentarismo de verdade, por meio de emenda à Constituição.

Mas um parlamentarismo com esse Parlamento? Ou somente a partir de 2018, como propõe o deputado Roberto Freire? As ruas não demonstram paciência para esperar tanto tempo. Como pano de fundo, a economia encolhe, o desemprego aumenta e a Operação Lava-Jato se expande para outras instâncias do Estado, aumentando a clientela da CPI da Petrobras.

São muitos os dilemas e desafios e os agentes políticos não têm demonstrado estar à altura deles – para dizer o mínimo.

Bye Bye Dilma


Domingo é dia. De novo. O governo respondeu mal. Ele joga com o tempo. Sabe que é difícil manter tanta gente na rua quando sem um resultado tangível. É um cálculo válido para período de estabilidade e crescimento. O Brasil em crise é um fio desencapado. As manifestações não conseguiram ainda seu objetivo: Fora Dilma.

No entanto, Dilma já não está tão dentro como antes. A iniciativa política foi arrebatada pelo PMDB. O ajuste econômico é conduzido pelo liberal Joaquim Levy, que o negocia com o Congresso Nacional.

O debate sobre o ajuste tem conteúdo para ser discutido dias seguidos. Quase todos concordam que um ajuste adequado levará o Brasil de novo ao crescimento. Mas poucos se perguntam sobre o crescimento. Será que vamos reunir forças para um novo voo de galinha? Retomar o crescimento significa entupir os lares de eletrodomésticos e carros, exaurir os rios de forma irresponsável?

Mesmo para um voo de galinha as perspectivas não são boas. Teremos energia para o crescimento em 2016? Nossas estradas suportam um aperto econômico - elas que foram devastadas pelo tempo e pela corrupção? Todos se interrogam para onde estamos indo. Marchar para uma euforia consumista e, depois, cair na depressão torna a política econômica uma nova droga.

O escritor Frei Betto usou a imagem do filme Good Bye Lenin! para expressar o espanto de alguns eleitores de Dilma: é como se dormissem com a vitória de sua candidata e acordassem com a de Aécio Neves, seu adversário. Esse filme de Wolfgang Becker é bem lembrado porque conta a história de uma comunista fervorosa de Berlim oriental que ficou oito meses em coma e acordou depois da queda do Muro. E o esforço do seu filho era para mascarar os traços do capitalismo e evitar que ela se chocasse com o movimento da História.

Good Bye Lenin!, na minha opinião, não exprime apenas a perplexidade dos eleitores de Dilma. Ele exprime a perplexidade de toda a esquerda, que deveria estar acordando de um grande sonho e se espantar com o mundo, como a comunista de Berlim ao ver um imenso anúncio publicitário do outro lado da rua. Seria como se um cubano acordasse na Costa Rica ou um venezuelano nos supermercados do Peru, algo tão diferente. Nesses anos em que o Muro de Berlim caiu, muitos continuaram em coma, ou protegidos das mudanças no mundo real.

Isso não teria tanta importância se a esquerda não fosse para o poder com uma parte das ilusões. Ela confundiu partido com Estado e capitalismo de leis implacáveis com seus sonhos socialistas.

Não deveria. Marx estudou muito para explicitar essas leis. Nem sempre acertou, mas as estudou profundamente e jamais apoiaria um enfoque apenas consumista. Não porque Marx fosse da elite branca. Mas porque saberia que a conta seria cobrada na frente.

Hoje a conta está sendo cobrada. Dormiu-se com a promessa do paraíso, acorda-se numa realidade inequívoca: tanto Dilma como Aécio seriam obrigados a algum tipo de ajuste.

A confusão entre governo e poder, entre partido e Estado acabou arruinando uma experiência, finalmente, dinamitada pela corrupção.

Uma esquerda no governo não poderia comprometer-se a fundo com Cuba e Venezuela. Ainda que admirasse os dois modelos, o que é um alto grau de miopia, deveria levar em conta uma posição nacional.

Uma esquerda no governo deveria abster-se de levar o capitalismo a um outro sistema, mas, sim, tirar o melhor proveito de suas potencialidades e reduzir seus impactos negativos. O capitalismo pode alcançar altos níveis de inovação e criatividade, como nos Estados Unidos, ou mesmo uma respeitável rede de proteção, como na Escandinávia.

Não vejo como transitar do capitalismo para outro sistema econômico, exceto através da decadência e destruição de seus alicerces. E isso nem na Venezuela vai acontecer. O sonho bolivariano encarnou num homem que esmaga os opositores e conversa com passarinhos. Quando vão despertar? Quando encontrarem Nicolás Maduro cantando salsas e merengues nas pizzarias do seu bairro?

Bye Bye Dilma não é apenas o acordar de um sonho eleitoral. E um sono de 12 anos - de pouco mais de 25 anos se contarmos da queda do Muro de Berlim. O projeto não se perdeu apenas pela questão ética. Seus passos estão intensamente discutidos no escândalo do petrolão e outros que se espalham como tanques em chamas.

Mas os fins, quais eram mesmo os fins? Para onde é que nos levavam?

Dentro do País vivemos a crise do populismo econômico. Lá fora, nossa importância diplomática foi dramaticamente reduzida.

Não dói somente ver Dilma e o PT se comportarem como se nada de errado tivesse acontecido. Dói também ver a perspectiva de um grande esforço fiscal desaguar numa visão de crescimento de novo insustentável, tanto econômica como ambientalmente.

A Califórnia passou por mil desafios, abrigou a indústria de cinema e da informática, e agora se vê diante da necessidade de se reinventar. E muitos perguntam se conseguirá, como das outras vezes. A crise hídrica é grave por lá. No Brasil nem sequer nos colocamos a ideia de uma primeira reinvenção. E a crise hídrica é grave por aqui.

Toda vez que falam "vamos fazer o ajuste fiscal, voltar a crescer", tenho um calafrio. De novo, um voo de galinha na economia e na política?

Seria necessário rever o caminho. A visão puramente eleitoral é sempre punida pelas leis do capitalismo. Não há espaço para uma esquerda monocrática que confunde suas ideias com o interesse nacional, que julga aproximar-se do socialismo, mas avança para o colapso econômico.

Essa esquerda dormiu abraçada numa bandeira vermelha e acordou com a multidão em cores verde e amarelo. Se acordou, finge que está dormindo.

Fernando Gabeira

Os de hoje como sempre

Ah, os nossos libertários! Bem os conheço, bem os conheço. Querem a própria liberdade! A dos outros, não. Que se dane a liberdade alheia. Berram contra todos os regimes de força, mas cada qual tem no bolso a sua ditadura. 
Nelson Rodrigues

Descoberto: o Dilmês é a língua dos Pachecos!

“English Spoken. On Parle Français. Si Parla Italiano. Coloca-se Dilmês”. Breve nas melhores vitrines do Mercosul.
Somos, e não é de hoje, um berço esplêndido para Pachecos. De janeiro para cá, eles abundam ‘colocando’ coisas inacreditáveis. (Não pergunte colocando ‘onde’. Finja que sempre soube que colocar é sinônimo de falar. Não dê uma de desinformado!).

Vou fazer aqui, para os jovens, um breve resumo de quem é o inolvidável Pacheco mas, por favor, não percam a oportunidade de ler a Carta ao Sr. Mollinett, em ‘A Correspondência de Fradique Mendes’, de Eça de Queiroz.

Pacheco, quando ainda estudante em Coimbra, bradou: "O século XIX era um século de Progresso e de Luz". Desde então, passou a ser considerado um gênio! A lenda cresceu tanto que Pacheco, já um político, nem precisava falar. Seu grande talento ficou sempre bem guardado e ele foi crescendo na carreira: “deputado, director-geral, ministro, governador de bancos, conselheiro de Estado, par, presidente do Conselho”.

Bastava, como diziam seus colegas, olhar aquela testa. Pacheco não precisou dar a Portugal “nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma ideia. Pacheco era entre nós superior e ilustre unicamente porque tinha um imenso talento”.

Olhe o nosso Brasil e veja quantos Pachecos temos. Como bons Pachecos, sabem administrar seu talento em silêncio. Ninguém nem desconfia...

Começo com dona Dilma. Afinal, hay derecho, ela é a presidente. Ao empossar seu novo ministro da Educação a criadora da Pátria Educadora fez questão de dizer que os ajustes fiscais que navegam sobre nossas cabeças não afetarão os programas “essenciais e estruturantes” do ministério. Seria essa a tal luz à qual o Pacheco original se referia?

E o ministro que vai educar a Pátria? O que ele disse? Ou melhor, ‘colocou’? Muito sofisticado, e desassombrado, ele frisou que não aderiu ao governo. Só aceitou o honroso convite e vai participar do governo no comando de uma pasta cujo objetivo é mastodôntico!

Passo por cima de muitos Pachecos para falar do mais perfeito deles. Vou qualificá-lo rapidinho antes que ele mude de lugar nesta nova partida de Escravos de Jó: ministro Pepe Vargas, novo titular da Secretaria de Direitos Humanos.

Após a cômica coletiva que deu, com versão I e versão II, dom Pepe colocou para o jornal Zero Hora, a respeito de suas relações com a chefe: “A presidente Dilma não fez isso para me sacanear”.

Que alívio!

O gigante acordou em 2013 numa situação complicada. Com toda certeza os Pachecos vão dizer que isso é culpa do FHC. Concordo. Se em 2005 o ex-presidente não tivesse freado o PSDB, nós não estaríamos nesta enrascada.

Fora FHC!

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Quatro mais com Dilma é pena que nem mensaleiros cumpriram!

Quando mentimos para o governo, é um crime. Quando o governo nos mente... é constitucional?
Harvey Gilmore
A presidente Dilma, que alguns ainda defendem como “a proba”, fez todo o circuito da improbidade. Partilhou seu governo entre pessoas cuja reputação não deixava dúvida sobre a que vinham. Fez da mentira estratégia a ser cumprida rigorosamente. Nunca tivemos o país sob uma chefia tão dedicada à refinada arte de mentir. Ela continua mentindo, contra todas as evidências, em cadeia nacional. Mentiu sobre o próprio passado, mente sobre o presente e, agora, mente sobre o futuro. No circuito da improbidade não teve o menor constrangimento em causar dano irreparável à Petrobras e ao setor elétrico para desfilar ante as câmaras dos seus publicitários como a presidente que barateou o custo de vida e conteve a inflação. Mente quando atribui a desgraceira em que jogou a economia nacional a uma circunstância externa (a culpa é sempre dos outros), ou seja, a uma suposta crise internacional que só ela e seus diletos parceiros da Argentina, Venezuela e Cuba experimentam. Mentiu sempre, sem o menor constrangimento para assassinar a reputação de seus adversários imputando-lhes a intenção de adotar medidas impopulares que ela mesma está pondo em prática.

Os governos petistas são exemplo clássico, para constar em livros didáticos, de governos ímprobos. É patético o esforço da mídia amiga em defender a pessoa da presidente. Sustentam a sacralidade de um mandato que ela mesma não respeita. Não o respeita quando mente e quando anuncia que a gente faz o diabo em época de eleição. Se ela não o respeita, por que o respeitaríamos nós?

A estas alturas do segundo mandato, obtido nas trevas de uma inédita apuração secreta de votos (secreto é o voto, jamais sua apuração) nem mesmo os companheiros da presidente, nem mesmo os partidos da base, conseguem arregimentar forças em seu benefício. As extensões petistas nos ditos movimentos sociais perderam prumo e rumo. Já sabem em quem não confiam. Quando os institutos de pesquisa procuram conhecer os motivos do precipício pelo qual despencou o prestígio pessoal e a aprovação do governo Dilma ali estão, bem nítidas, as marcas da perda de credibilidade. Somos prisioneiros desse governo? Cativos por determinação constitucional? Quatro anos disso é pena superior à efetivamente cumprida por todos os políticos réus do mensalão.

Percival Puggina

Reivindico o meu direito de pensar


Queixas-te de teres aí falta de livros. Não interessa a quantidade, mas sim a qualidade: a leitura é proveitosa se for metódica, se apenas for variada torna-se um mero divertimento. Quem deseja chegar à meta que se propôs deve seguir um só caminho, e não vaguear por vários: de outro modo não viaja, deixa-se ir ao acaso. 
(...) Confio, e muito, no pensamento dos grandes homens, mas reivindico o meu direito próprio de pensar. De resto eles não nos legaram verdades acabadas, mas sim sujeitas à investigação; e porventura teriam descoberto o essencial se não tivessem investigado também temas supérfluos. Mas gastaram tempo imenso em jogos de palavras, em discussões capciosas que aguçam inutilmente o engenho. Construímos argumentos tortuosos, empregamos termos de significação ambígua, finalmente desatamos toda a trama. Temos assim tanto tempo livre? Já sabemos como encarar a vida e a morte? O que devemos procurar, com todas as forças, é o modo de nos não deixarmos enganar pelas coisas, e não pelas palavras.
Para que analisar as diferenças entre palavras sinônimas, que não causam dificuldade a ninguém a não ser em discussões de escola? As coisas enganam-nos: aprendamos a observá-las. Tomamos por bens coisas que o não são, desejamos hoje o contrário do que desejamos ontem, os nossos anseios contradizem-se; contradizem-se as nossas decisões. 
Lucius Annaeus Seneca (4 a.C. - 65) 

Nosso Everest é salvar 1 bilhão de crianças


A crise que atravessa a democracia brasileira – descrédito de seus eleitos, caos partidário, alianças espúrias, aparelhamento do Estado pelo partido no poder e corrupção – faz esquecer a crise do próprio conceito de democracia nacional no mundo global: presos a seus eleitores locais e à próxima eleição, os políticos estão estruturalmente despreparados para enfrentar os problemas planetários e de longo prazo. Nos limites nacionais e eleitorais, fica impossível enfrentar questões como aquecimento global, migração, terrorismo, crescimento ou decrescimento, energia, corrupção.

Pensando nisso, com base em uma iniciativa minha e do prêmio Nobel da Paz de 2014, Kailash Satyarthi, parlamentares de diferentes países se reuniram na semana passada no Nepal e criaram o movimento Parlamentares sem Fronteiras (PsF), escolhendo como primeiro tema de ação global os “Direitos da infância no mundo”.

No seu discurso de encerramento do encontro que fundou o movimento, Kailash Satyarthi disse: “Aqui estamos não apenas unindo parlamentares que defendem os direitos das crianças do mundo. Estamos também iniciando uma nova cultura política, adaptada aos tempos globais, para enfrentar problemas globais”.

Não se trata de reunir parlamentares nacionais para representar seus países na discussão de um tema, mas de reunir parlamentares comprometidos com uma questão mundial para, unidos pelo tema, atraírem seus países a uma posição comum no mundo, levando essas ideias para dentro do próprio país.

Ao reunir PsF em torno do tema dos direitos infantis, os parlamentares foram ao Nepal, em primeiro lugar, como defensores dos direitos da infância no mundo, só depois como representantes de seus países. Na verdade, eles vão representar essa bandeira dentro de suas nações.

A ideia é aglutinar o máximo de parlamentares nacionais de diversos países na busca de soluções para problemas globais, quebrando a frase verdadeira de Obama, em Copenhagen, em 2009: “Não há político eleito por eleitores mundiais.” Mas, se cada parlamentar ficar preso apenas aos limites de seus eleitores e da próxima eleição, é possível que as próximas gerações sejam sacrificadas em todos os países.

Nos tempos de hoje, quase todos os problemas de cada país passam por soluções planetárias e de longo prazo. Daí o movimento ter escolhido os direitos da infância como seu primeiro tema, enquanto prepara novas reuniões para outras questões, como energia, terrorismo e pobreza.

Muitas pessoas vão ao Nepal para escalar o monte Everest. Nós não somos tão fortes quanto elas, mas somos mais idealistas. Como eu disse na coletiva internacional de imprensa sobre o encontro, fomos lá para salvar 1 bilhão de crianças sem escola com qualidade, trabalhando no lugar de estudar, sujeitas à exploração sexual, sem atendimento médico e sem comida.

Cristovam Buarque

Um retrato na parede

Entregue o governo a um "neoliberal" na economia e a um pragmático "mordomo" na política, além de hostilizada por sua própria base no Parlamento, a presidente Dilma parece contentar-se em virar um retrato na parede.
Sandro Vaia



PMDB assume o governo sem golpe ou impeachment


A entrega da coordenação política do governo ao vice Michel Temer Lully é a concretização do fim de um ciclo e do início de outro. Sai o neoPT e a banca do cassino passa para as mãos do PMDB. Sem golpe e sem impeachment. Apenas com a rendição final do governo Dilma diante de fatos incontestávels e simbólicos em sua sequência.

Já não bastava a indicação de Joaquim Levy para a condução da proposta macroeconômica. A revelação de Eduardo Cunha como principal líder da oposição, após a forma humilhante como impôs derrota acachapante ao Planalto na disputa da presidência da Câmara, dava a largada no processo.

Veio a seguir a insubordinação do até então incondicional aliado, Renan Calheiros, ao se sentir “traído” em não ser protegido das investigações da Operação Lava Jato. Insubordinação que culminou com a intempestiva adesão à tese de “autonomia” do Banco Central, em artigo de domingo na Folha de S.Paulo. Autonomia do BC que deixou evidente defender em relação ao governo, mas com escandalosos piscar de olhos para os maganos da banca privada – a nova aliança em que se encosta após o longo período de influência empreiteira através do controle da presidência da Transpetro. São eles, como é sabido, os beneficiários de tal astúcia.

É nesse contexto; é nessa lógica de previsíveis movimentos, que deve ser entendida a sagração de Michel Temer Lully. Não apenas para articular aprovação de ajustes fiscais correspondentes ao suicídio político do neoPT. Mas para muito mais; para conduzir o restante do mandato Dilma. Com a reforma política retrógrada que já encontra amplo respaldo na “base aliada”, assim como votação de retrocessos inconstitucionais já aceleradamente encaminhados por Eduardo Cunha, tal como a redução da maioridade penal.

A esquerda na sua integridade conhece agora o preço do transformismo radical que Lula impôs à saudosa legenda do PT. O transformismo por meio de um pacto conservador de grande intensidade, escorado na compensação do assistencialismo de um medíocre reformismo fraco, que desqualificou a grande política.

A tragédia de há muito anunciada começa a chegar ao fim. O fim do sonho da esperança sobre o medo, para a restauração do neoliberalismo deslavado com o qual a cúpula neoPTista apenas finge não gostar de conviver.

Que a esquerda combativa, que não se rendeu nem se vendeu, encontre a força daqueles que sempre se habituaram a ralar no áspero, e se unifique para a recuperação de novos caminhos.

Luta que segue!! (a despeito das traições e covardias)

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Petrobras tá limpa!


O brasileiro é mesmo um milagreiro para deixar santo de quem se atrever no chinelo. Bastou colocar Aldemir Bendine, conhecido como "Valdirene", na presidência da Petrobras para Dilma se inflamar e garantir: "A Petrobras limpou o que tinha de limpar, tirou aqueles que tinha de tirar de lá de dentro e que se aproveitaram de suas posições para enriquecer os próprios bolsos. Mas a Petrobras continua de pé".

É o brado retumbante da mentira. Primeiro que não foi a Petrobras quem tirou, mas a Justiça obrigou a que fosse retirados. Outra é que não enriqueceram os próprios bolsos mas ainda os bolsos políticos, sob comando do PT. Dilma teve e tem um mestre do ilusionismo que segue religiosamente. Prefere jogar na latrina um passado a revelar a verdade em troca de esquentar o trono para o Flagelo de Garanhuns.

Dilma sabe muito bem que a Petrobras não só está assolada, estuprada, sucateada, nem se fez a limpeza devida. Apenas foram obrigados a cortar a bica do propinoduto para o PT e aliados. Para enfeitar a "limpeza", ainda estão embrulhados nas contas para aprovação que não saem nunca.

O que Dilma oculta é que a empresa está embicada para o fundo do pré-sal. Estão arrumando dinheiro estrangeiro para servir de boia. Lutam ainda para se livrar das ações no exterior que serão pagas regiamente com dinheiro dos brasileiros.

O PT e seus comparsas assaltaram tanto na mão grande a galinha dos ovos de ouro que deixaram a empresa na UTI, tática que ainda continuam a aplicar em outras estatais e órgãos governamentais.

A limpeza é tão boa que a Petrobras está "vendendo ativos" da BR Distribuidora, o que não quer dizer que está em pé. Em bom português e não no dicionário petista, significa que está sucateada e começaram a terceirização, que tanto o PT criticou como perda da empresa nacional. Começaram a privatizar a Petrobras e vão em seguida fatiar a Caixa Econômica.

Mentiram sempre que os outros fariam essas mesmas vendas que hoje preparam a fim de tapar o rombo que os roubos constantes deixaram. É preciso de muito dinheiro para tapar a buraqueira que tiraram do Brasil e dos brasileiros para se locupletarem e manterem-se no governo por 13 anos. E ainda vai faltar dinheiro. O trabalhador que aguente a canga.

Amor 'filial' no Congresso

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Eleito pelo povo para servir ao partido

Fabiano (ao fundo, atrás de Zeidan e
 Quaquá) deixou Maricá para servir ao Rio
Eleitor ainda acredita que seus eleitos vão mesmo cumprir as promessas. Grande piada. Mais um exemplo dessa farsa é o caso do deputado federal Fabiano Horta, insignificante vereador e presidente da Câmara municipal, em Maricá, que sempre se curvou às ordens dos chefões do PT.

Às custas do dinheiro público injetado pelo prefeito e presidente regional do PT, Washington Quaquá, o insigne vereador chegou à Câmara federal, onde ficou meros três meses. O deputado que deveria, segundo Quaquá, conquistar investimentos para o município, agora será um mero secretário municipal ... do Rio. Responderá pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico Solidário (o que será isso, meu Deus?) para que Wadih Damous, primeiro suplente do PT em Brasília, e ex-presidente da OAB, possa defender a legenda que cada vez mais beija a barra dos tribunais. Não é à toa que a instituição de tanto respeito em outros tempos hoje fornece defensores do banditismo petista.

A ordem do capo di tutti capi Lula é obedecida sem pestanejar. Horta, o pau-madado, vai gerir umna secretaria sem orçamento próprio, que devido aos cortes este ano terá apenas R$ 300 mil. Mais uma sinecura para aquele que foi "vendido" por Quaquá como o "homem de Maricá em Brasília". Agora será o homúnculo maricaense uma minúscula secretaria carioca, o que nada vai contribuir para Maricá. Enfim, os políticos petistas se servem do eleitor para servirem ao partido. Ou queriam que servissem ao eleitor?

Quem só comunica também se trumbica

Quem é que o padim Lula de Caetés pensa que engana com essa lorota de que a enorme crise que tornou sua afilhada Dilma Rousseff uma pata manca no Palácio do Planalto se deve à desarticulação política de Aloizio Oliva, que usa o sobrenome da mãe, Mercadante, para ninguém se tocar de que o pai era figurinha carimbada na ditadura militar?

Ao completar seu terceiro mês de mandato um dia depois de o golpe de 1964 ter completado 51 anos, a escolhida dele empatou com José Sarney, recordista absoluto de impopularidade desde 1989, com 64% de respostas "ruim" ou "péssimo" à pergunta do Ibope sobre o desempenho de seu governo. Com uma má notícia por dia, alternando recordes negativos na economia com revelações de novas gatunagens ou anúncios de medidas impopulares para tentar corrigir o incorrigível, ninguém precisa ter um sexto sentido premonitório para prever que não demora muito para ela sair de lanterna em punho pelos desvãos e porões palacianos onde tenta se esconder da plebe. E enquanto a pesquisa não revela o novo retrato, Sarney virou arroz de cuxá nos bailes do Planalto Fiscal.

Aí padim tirou do baú seu sermão de profeta da barcaça que afunda ao peso dos ratos do porão. Segundo a colega Vera Rosa, Sua ex-Excelência intensificou a pressão sobre a pupila para ela modificar a desarticulação política do governo, concentrando fogo no filho do general: "Mercadante vive falando de rating pra cá, rating pra lá. Que rating, que nada! A crise é política e o governo tem que resgatar a confiança. O resto vem naturalmente". Resto de quê, cara hirsuta? Lula tem motivos para não gostar do Mazarino do cerrado. Pois foi surrado por Fernando Henrique no primeiro turno da eleição presidencial de 1994 após ter levado em conta a falácia dele de que o Plano Real seria estelionato eleitoral. E depois chamou de "aloprados" seus asseclas que falsificaram dossiê contra José Serra na disputa da eleição estadual paulista de 2006. Mas essa é uma questão dele e Dilma não abre mão do direito de errar.

Na última pesquisa Datafolha, em que a avaliação de "bom" ou "ótimo" do governo federal desceu a cabalísticos 13%, o Congresso Nacional foi lembrado positivamente por apenas 9%. Devoto praticante da verdade pela metade, a mais enganadora das formas da mentira, o demiurgo do ABC só olhou para um lado da questão. Sim, é verdade que a relação da presidente com o Congresso é péssima, como atesta pesquisa da consultoria política Arko Advice, que ouviu 102 deputados federais de 22 partidos e constatou que 61% deles avaliam como "ruim" ou "péssimo" o convívio do Legislativo com o Executivo. Mas a verdade completa é que somente melhorar tal relação em nada tornará a "comandanta" mais popular.

De um lado, porque a imagem de deputados e senadores está ainda mais emporcalhada que a dela. De outro, porque as boas relações entre esses dois Poderes dependem muito menos de qualidades que Oliva não ostenta do que da gana dos parlamentares por um butim palaciano cada vez mais escasso nestes idos de vacas magras. O convívio entre os dois lados da Praça dos Três Poderes só vai melhorar quando houver mais verbas e cargos a distribuir. Se houvesse, nenhum congressista se melindraria com o chefe da Casa Civil lhe fazendo ouvidos de Mercadante nem com o estilo "deixa que eu cuspo" da chefona irritadiça.

O PMDB desconfia da irrelevância de articulação política para salvar o que resta deste desgoverno. Por isso Eliseu Padilha recusou o lugar de Pepe Nada Legal Vargas no palácio. Embora tudo leve a crer que ele se arrastará Ladeira do Pelourinho abaixo até o canto do cisne de 2018. Seu desprestígio crescente não resulta da falta de saliva em corredor, mas da sobra de material orgânico à tona sempre que se levanta algum tapete ou capacho. As obras não iniciadas ou atrasadas em 57% da rede de saneamento básico no Brasil passaram a ser a metáfora pronta ao alcance do nariz.

Na verdade, Dilma mentiu tanto que nem seu espírito santo de orelha, João Patinhas Santana do Bendegó, será mais capaz de resgatar alguma verdade que ela tenha dito por acaso e dela criar uma peça publicitária para ressuscitá-la neste pós-Páscoa. Tudo depõe contra isso: da delação premiada de Paulinho de Lula às fotografias em que ela foi flagrada ao lado do cão de guarda do Partido dos Trabalhadores na Petrobrás, Renato Duque. Na imagem que esboroa a olhos nus, os restos de verniz de sua honestidade pessoal, que evitam um processo de impeachment, são apagados por pegadas de sua protegida Erenice Guerra no cofre da Viúva. Sob o manto protetor de Dilma, Erenice, esse embrião de Graciosa Foster no Ministério de Minas e Energia e na Casa Civil, para a qual - suprema infâmia contra a Pátria - ela a indicou, prosperou à sombra do ancestral benefício da dúvida. A Operação Zelotes ameaça revelar a explicação para a ascensão social que moveu a fiel factótum de uma cidade-satélite para as margens do Paranoá.

Como sabe disso tudo e de muito mais, Lula não acredita nas próprias bazófias de intriga florentina contra o filho do general. Logo ele, que vendeu à Nação a suprema inverdade da gerentona que entrará para a História como o pior presidente da República! E que agora recorre ao velho truque de continuar enganando para não se enganar nem ser enganado. Não o faz por burrice, pois inteligência tem de sobra, ou alienação, por mais soberba que exiba e arrote. Mas, sim, porque não têm saída. Só lhes resta apostar na sorte, essa deusa caprichosa e cega, que sempre esbanjaram. Lula não confia em Dilma, mas na própria capacidade de evitar que ela repita a saga do Pedro da lenda infantil, devorado pelo lobo diante da omissão da aldeia que, após ouvir muitos pedidos de socorro mentirosos, não lhe acudiu.

Lula conta com a mágica de Goebbels, que fabricava verdades de mentiras somadas. É que Chacrinha disse: "Quem não se comunica se trumbica". Mas não contou que "quem só comunica também se trumbica.

José Nêumanne

Alguma decisão consensual pode contrariar direitos humanos?

Parece muito improvável. Aristóteles, chamado a opinar, certamente diria que ninguém pode ser contra direitos humanos porque ninguém pode ser contra si mesmo. Não é humano, portanto, ser contra os direitos humanos, que se alinham com o Direito Natural (estranhamente refugado pela esquerda quando se trata de defender o aborto).

Qual o equívoco cometido por aqueles que em nome dos direitos humanos defendem a manutenção da maioridade penal aos 18 anos? O problema, cuja existência a sociedade facilmente pode intuir, não está nos direitos, mas no estrabismo ideológico que transforma em direito aquilo que é torto e em torto aquilo que é direito. Com efeito, várias pesquisas de opinião e enquetes têm evidenciado que mais de 90% das pessoas são favoráveis à redução, e Aristóteles, chamado a opinar, certamente diria que não pode contrariar os direitos humanos aquilo que os seres humanos desejam em consenso.

Existem certos crimes que requerem desenvolvimento orgânico e intelectual para serem praticados. Requerem potência sexual, força física, capacidade de planejamento e execução. Quem está apto para os cometer está apto para assumir suas plenas consequências.

Por outro lado, certos delitos, que implicam maior agressividade, se enquadram totalmente naquilo que constitui um preceito moral universal: não faças aos outros o que não queres que te façam. Estupradores, torturadores, assassinos não se sentem bem sendo estuprados, torturados, assassinados. Existem delitos que são reprovados até mesmo pela ética dos presídios. Eles sabem.

As principais razões do aprisionamento de criminosos – por tempo proporcional à gravidade do delito praticado – são a defesa da sociedade, o desestímulo a novos crimes e a expiação. A ressocialização pela via da restrição à liberdade é uma idéia generosa ainda não suficientemente comprovada e depende muito mais do indivíduo que do sistema.

Raramente a lei nada tem a ver com direitos humanos, na medida em que seu caráter geral se impõe sobre todas as pessoas ou grupos sociais inteiros. Assim, uma norma que disponha sobre a redução da maioridade penal se refere a tais direitos, sim, mas na direção oposta a que vem sendo objeto de argumentação por seus opositores. Trata-se da defesa dos direitos humanos – vida, segurança, propriedade – do cidadão de bem. Trata-se de proteger a sociedade como um todo e as pessoas humanas concretas da sanha de indivíduos aos quais a lei faculta escolher os governantes, mas considera incapazes de discernir sobre os piores atos que possam praticar.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Chega de intermediários! Lula devia assumir logo o governo


Quem pediu “Volta, Lula!” no ano passado, antes da eleição, agora pode se dar por satisfeito. O ex-presidente nem precisou ser candidato para retornar ao poder. Chegou a participar da campanha, mas apenas simbolicamente. Na verdade, meses antes Lula já estava rompido com Dilma Rousseff, que não quis abrir mão da candidatura e julgou que desta vez poderia governar sozinha. Na eleição, Lula nem queria mais conversa com ela, sua preocupação maior era apenas fortalecer o PT e impedir que o PSDB ou o PSB chegassem ao poder.

O fato é que nunca antes, na História deste país, se viu um governo ser demolido tão rapidamente. Antes mesmo de assumir, já estava destroçado. Dilma ganhou, mas não levou. Ninguém quis aceitar o ministério da Fazenda, ela teve de se humilhar e recorrer a Lula. Teve de aceitar um economista que estava no terceiro escalão do Bradesco, não fazia parte do Conselho nem da Diretoria, tinha a função subalterna de supervisionar um fundo de aplicação financeira de pequena demanda, apenas isso. Joaquim Levy não mandava nada no Bradesco, mas hoje manda no governo e representa abertamente os interesses do banco paulista.

Mesmo Levy tendo com carta branca para comandar a economia, a crise não passou. Pelo contrário, foi se agravando. Dilma teve de se humilhar novamente, pediu socorro a Lula, que deu uma resposta seca: “Se quiser conversar, venha a São Paulo, porque em hipótese alguma irei a Brasília”. Dilma obedeceu. Pegou a Aerolula e foi enfrentar a fera.

Dilma voltou a Brasília com as seguintes determinações de Lula: 1) afastar Aloizio Mercadante e Pepe Vargas da articulação política; 2) buscar um imediato entendimento com o PMDB; 3) recompor-se com Renan Calheiros e Eduardo Cunha; 4) prestigiar os partidos da coalizão, para recuperar a base aliada.

Esta conversa ocorreu numa quinta-feira, dia 12 de fevereiro. Depois do carnaval, Lula pegou o jatinho do empresário José Seripieri Jr. (Grupo Qualicorp), que fica à sua disposição, viajou a Brasília e se reuniu com a cúpula do PMDB e com as lideranças do PT, assumindo ele próprio a articulação política. Na semana seguinte, Dilma também buscou diálogo com o PT e o PMDB, mas Renan recusou o convite dela, a reunião foi um fracasso, e nada de afastar Mercadante e Vargas.

Furioso, Lula chamou o presidente do PT, Rui Falcão, pegou o jatinho de novo e voltou à Brasília para esculhambar Dilma. A reunião foi no Palácio do Planalto e entrou pela noite. A TV Globo mostrou no telejornal a imagem da conversa: Lula gesticulando, irritado, Dilma ouvindo de cabeça baixa, com as duas mãos para trás, e Falcão ao lado, assistindo à cena.

Lula voltou a São Paulo, a crise continuou se agravando e Dilma não afastava Vargas nem Mercadante, alegando que não ainda não encontrara que os substituísse. Saíram as pesquisas Datafolha, MDA e Ibope, mostrando o governo descendo a ladeira, numa celeridade impressionante.

Lula começou a mandar sucessivos recados exigindo a mudança na articulação política, e a pressão era divulgada abertamente pela imprensa, humilhando ainda mais a presidente da República. Dilma não sabia a quem nomear, Lula então mandou que convocasse Eliseu Padilha, uma das raposas do PMDB.

Como ela sempre faz tudo errado, ao invés de se acertar primeiro com Padilha, Dilma foi logo mandando o Planalto divulgar a nomeação. O resultado foi desastroso. Padilha recusou, alegando que a mulher acaba de ter um bebê e lhe pediu que não aceitasse, vejam bem que desculpa esfarrapada.

No desespero, Dilma recorreu a Michel Temer, que não poderia dizer não a convite tão honroso, que o coloca estrategicamente dentro do prédio do Congresso, ocupando o vistoso gabinete da Vice-Presidência, que fica perto do corredor do Anexo I, onde funcionam as comissões.

Será que Dilma Rousseff realmente acredita que Michel Temer vai atuar em favor dela, depois de desprezado por mais de quatro anos? Ontem, ele estreou na função e foi logo mostrando serviço, ao conseguir adiar a formação da CPI do BNDES. Mas nos bastidores, na verdade ele só trabalha para uma só pessoa, que por acaso se chama Michel Temer e é o primeiro na ordem sucessória de um governo que está caindo de maduro, em meio a uma podridão que nunca antes, na História deste país…

No meio desta confusão, Lula está de volta ao poder e Dilma não manda mais nada. Deveriam parar com o fingimento e abrir logo um gabinete para ele no terceiro andar do Planalto.

Marcha para 12 de Abril



Além do Hino Nacional, a marchinha de Juca Chaves, que ironiza a roubalheira doPetrolão, pode ser a trilha sonora para manifestações de rua programadas para domingo, dia 12

Adeus em ritmo de Lava Jato

A honestidade há muito já sumiu,
As consequências vem sempre depois,
Por isso, todo dia pra alegria do Brasil,
Morre um ladrão e nascem dois.

Saí um político, entra outro na quadrilha,
Um marionete de um teatro sem moral,
E o povo que votou pra não perder Bolsa Família,
Já não mais acredita no Pré-Sal.

Enquanto bilionários, funcionários da cobiça,
Investem lá no norte,
No norte da Suíça,

Democracia é isso,
É viajar contente,
Pra Cuba com a nossa presidente.

Infeliz, o país andou pra trás,
Secaram a nossa Petrobrás,
Adeus, ladrões
Adeus,
PT, saudações!

Chutam cachorro morto

Provavelmente você já observou o mesmo que eu. Ao longo dos anos, identificou a posição política dos formadores de opinião atuantes nos veículos a que acessa. Você reconhece, acima de qualquer dúvida, aqueles que emprestaram sua capacidade de influência para ajudar na construção da hegemonia petista. Você pode não saber o clube de futebol pelo qual cada um torce, mas percebe a que projeto político servem.

.

Da mesma forma você deve estar percebendo mudanças. De repente, jornalistas que sempre ajudaram o PT com os quatro pés passam a criticar o partido, a apontar nele, como se fossem deformações recentes, defeitos congênitos de conduta moral e posição política que o acompanham desde sua fundação em 1980.

Essas figuras me trazem à lembrança o falecido escritor José Saramago. Comunista, apoiou todas as violências, todas as execuções e todas as formas de repressão impostas pelo regime cubano sobre o povo da ilha entre 1959 e 2003. Nesse ano, após a execução dos três jovens negros que sequestraram uma embarcação e tentaram fugir para a Flórida, o velho rompeu com ele em um artigo publicado no jornal espanhol "El País" com o título "Hasta aquí he llegado". Ou seja, Saramago assistiu passivamente 27 mil mortes, mas 27003 eram demais para seu humanismo e para seus princípios.

Os jornalistas a que me refiro reproduzem essa hipocrisia. Os governos petistas nunca foram diferentes. Seus principais líderes nacionais sempre usaram o Estado em benefício próprio. Nunca tiveram líderes melhores. Nunca andaram em boas companhias. Nunca foram amantes da verdade. Nunca deram aos fatos importância maior do que às versões. Nunca admitiram os próprios erros. A "causa" sempre foi o critério determinante para a justificação de meios escusos. Por isso, processados, condenados e presos, seus líderes viraram, ato contínuo, guerreiros heróis do povo brasileiro.

Enfim, esses jornalistas estiveram com o PT até o dia 26 de outubro de 2014. Mas no dia 27 a casa caiu. Caiu? Eu os assisto agora, eu os leio agora, eu os ouço agora, batendo em cachorro morto. Mudaram de lado? Não! Fazem o mais fácil. Enquanto criticam o PT, escrutinam os milhões de manifestantes segundo suas classes sociais e "raças", identificam-nos como conservadores, como direitistas, como golpistas. Embora os cidadãos das ruas e dos panelaços digam as mesmas coisas sobre o governo, não merecem palavras de estímulo à oposição que fazem. Afinal, isso beneficiaria a intolerável direita, não é mesmo? Continuarão, portanto, disseminando o mal por outros meios. Estão, simplesmente, trocando de montaria. Prefiro os irredutíveis porque são bem identificáveis. 

O diagnóstico equivocado do PT

Ao comprar briga sem ter força para tanto, os petistas acabaram ficando isolados
Decadente e desprestigiado  (Foto: Arquivo Google)Nos últimos dias, o PT tenta esboçar uma reação para sair da defensiva e enfrentar a maior crise política de sua história, comparável apenas à do mensalão. Na semana passada, em um encontro da Executiva Nacional do partido com os 27 diretórios estaduais da legenda e a presença do ex-presidente Lula, foi defendida uma espécie de retorno às origens do partido.

Entre comportamentos a serem adotados mencionou-se a necessidade de uma atuação militante mais forte, em vez de restrita a períodos eleitorais, reaproximação com movimentos sociais e partidos de esquerda, defesa da ampliação dos direitos dos trabalhadores, reforma política, democratização da mídia e reforma tributária mediante taxação de grandes fortunas.

Embora o discurso da direção petista possa ser interpretado como uma estratégia para acenar à esquerda da sigla num quadro de fragilidade política, o momento é inadequado.

A tentativa de reconstruir a forma de fazer política do PT dos anos 80 e 90 desconsidera a atual conjuntura. Diferentemente da década passada, o partido não tem a mesma capacidade de mobilização nem de ascendência sobre os movimentos sociais e as demais siglas de esquerda. Isso decorre do afastamento natural do PT de sua base original, por conta do exercício do poder.

Outro ponto a ser destacado é que a base eleitoral do partido não é mais a mesma. Desde 2006, o voto petista vem majoritariamente de segmentos com menor renda, baixa escolaridade e que habitam nos pequenos municípios. Ou seja, ao contrário dos anos 80 e 90, o partido não desperta mais a simpatia do eleitorado de classe média dos grandes centros urbanos, que saía voluntariamente às ruas para defender os ideais do partido.

Outro equívoco é argumentar que a rejeição que passou a sofrer é uma reação limitada à chamada “direita” ou às “elites”. Basta olhar alguns números da última pesquisa CNI/Ibope para constatar que o governo Dilma também é mal avaliado entre os eleitores que votaram no PT na última eleição presidencial.

Segundo o Ibope, no Nordeste, região que vota majoritariamente no PT desde 2006, o governo é aprovado por apenas 18% dos eleitores, sendo rejeitado por 55%. Desse percentual, 41% classificam a gestão Dilma como “péssima”. Nos municípios de até 20 mil habitantes, a aprovação do governo soma 13%, enquanto a rejeição totaliza 64%.

Considerando a variável renda no segmento de até 1 salário mínimo, a rejeição é de 60% (apenas 17% aprovam o governo nessa faixa salarial). Fenômeno similar ocorre entre os eleitores com renda entre 1 e 2 salários, na qual o governo é rejeitado por 63% dos entrevistados e aprovado por apenas 13%.

O abalo que Dilma sofreu entre os eleitores que votaram no PT e aprovavam as gestões do partido pode ser explicado pelos efeitos da crise econômica, sobretudo por causa do aumento dos preços dos alimentos que vão à mesa desse público.
Como se trata de um eleitorado sem afinidade ideológica com o PT, já que votava no partido devido à conjuntura econômica favorável, é pouco provável que saiam às ruas para defender o governo.

Ao contrário das eleições de 2002, 2006 e 2010, quando o PT saiu das urnas com uma vitória superior a 60% dos votos, agora não há força política suficiente para a legenda apostar numa estratégia de confronto.

Nesse cenário, qual seria o caminho mais adequado? A busca de moderação, por meio de um diálogo maior com o PMDB, que é o maior e mais importante partido de centro do Congresso. É o que a presidente pôs em prática esta semana, com a entrega da coordenação política ao vice-presidente Michel Temer.

Ao comprar briga sem ter força para tanto, os petistas acabaram ficando isolados. Prova disso é que a presidente Dilma Rousseff é aprovada por apenas 12% dos eleitores e a perda de identificação partidária no PT é crescente. Esse percentual, que já atingiu 35% do eleitorado brasileiro, hoje contabiliza apenas 14%. A conjuntura é tão adversa que nem mesmo o ex-presidente Lula é visto como capaz de liderar uma reação.

Despedida

 Estamos indo embora. Sobre o piso de ardósia,
por entre caules e corolas que exalam um perfume exótico,
os gatos deslizam. São espíritos leves e sóbrios,
com suas patas de veludo, silenciosas,
que arranham a lombada dos livros e o verniz dos móveis.
Os tapetes abafam seus passos ociosos,
como se faz quando se acolhem os órfãos.

Doze anos se passaram, e estamos indo embora.
A brisa do mar, com seus úmidos braços, nos envolve
e empurra para um outro promontório,
uma outra dimensão de nossa breve história,
de que somos, se tanto, transitórios hóspedes,
peças de um tabuleiro onde o tempo se desloca,
alheio à inútil engrenagem dos relógios,
cujas horas se dissolvem numa névoa incorpórea.

Tanto aqui se escreveu em verso e prosa:
romances, elegias, baladas, novelas e toda uma prole
de rascunhos que iam da perífrase ao apólogo.
Tanto aqui se ouviram o lamento de um fagote,
uma ária de ópera, a lenta pulsação de um órgão,
a inquieta truta de um quinteto de cordas,
essa insistente música que ecoa na memória
e que não pode (nem quer ) ir-se embora.
Como estancar as vozes e os acordes
do Réquiem em que Mozart brindou à própria morte?
Como esquecer, Palestrina, teu Kyrie, teu Sanctus, teu Glória?
Como calar esse jorro de notas, essa clave de sol
na partitura de uma noite em que faz frio e chove?

Estamos indo embora. Passem o trinco nas portas
e tranquem as janelas pelas quais rompia a aurora.
Apaguem-se a lua, as estrelas e o monólogo
do sabiá na varanda, as nervosas
mãos do vento a sacudir os vitrais da abóbada.
Levem tudo: quadros, taças, santos barrocos, oratórios,
todo esse insólito e cediço espólio.
Bebeu-se aqui o álcool da vida até o último gole.
Não se esqueçam da arca que ficou no sótão.
Desliguem a luz (e o gás, senão tudo explode).
Que fique um resto como esmola. Paguem um óbolo
ao barqueiro que nos leva rio afora.

                                               Estamos indo embora.
Ivan Junqueira

Quando a mediocridade desenha o futuro

A mediocridade extermina planejamentos, mata oportunidades e elimina a esperança. Como vírus, a mediocridade se expande e multiplica-se sem oposição aparente


A vida é infinitamente mais estranha que qualquer coisa possível de ser inventada pela mente humana. Mesmo munido de doses extras de audácia e quantidades excessivas de autoconfiança, ninguém conseguiria conceber as coisas que fazem parte do cotidiano da existência
.
Se fosse possível ver através dos tetos dos edifícios e observar de cima, em primeira mão, as coisas estranhas, coincidências inacreditáveis, e as cadeias improváveis de eventos acontecendo, como são gerados ou se reproduzem, toda a ficção pareceria noticia de ontem. Com sabor de pão dormido.

E, apesar da riqueza dramática da vida, as noticias que chegam são, em regra, desinteressantes. Padecem do mistério, de criatividade, de profundidade, de vida, enfim. Carecem de justificativas e motivos complexos ou talvez pelo menos de boas razoes.

As explicações são somente desculpas. Supostos pensamentos travestidos de fantasias rotas e delírios ilusórios que, na visão de quem os concebe, deveriam tornar justificável o que não é sequer aceitável ou palatável. E sempre empacotadas em pensamentos ininteligíveis descritos em punhados de frases desconexas contendo pensamentos duvidosos.

Desde que começou a era da mediocridade, não existe grande complexidade nos fatos. São apenas resultado de atividades sempre antiéticas, frequentemente imorais, e muitas vezes ilegais. Transgressões, somente. Simples malfeitos, delitos ou crimes que dispensam explicações sociológicas.

Mas se causa preocupação o passado, é no futuro que reside o problema. Enquanto permanecemos focados no desfile eterno de explicações medíocres para atos inaceitáveis, o futuro vai virando presente sem que a gente tenha cuidado, ou melhor, a preocupação, de prepara-lo.

Enquanto isso se apela por paciência. Mesmo que paciência, a esta altura, signifique apenas a tolerância com o sofrimento causado por equívocos e desvios passados, sem a garantia, confiança ou crença de que este sofrimento semeie dias melhoras.

A mediocridade extermina planejamentos, mata oportunidades e elimina a esperança. Como vírus, a mediocridade se expande e multiplica-se sem oposição aparente.

E o futuro, silencioso, vai chegando. E assiste a oportunidades vazando por entre os dedos, sem plano, projeto, ou objetivo. Testemunha a destruição de maneira desnecessária, mas mesmo assim aparentemente inevitável, do lugar que será habitado pelas gerações por vir.

Elton Simões

Depois de certa idade...

Meu saudoso pai, exemplo de sensibilidade, dizia sempre que “a felicidade está diretamente ligada à ignorância”. Não à ignorância da brutalidade, mas àquela ignorância do não saber. Papai era um cearense “retado”. Médico, formado na Bahia, terminou o curso com uma bolsa de estudos que lhe foi dada pelo Ministro da Educação Francisco Campos, que atendeu um pedido da turma de 1932, composta, de acordo com o convite de formatura em meu poder, por 73 formandos: 38 brancos, 17 negros, 14 baianos e quatro mulheres.

Bons tempos aqueles, em que não havia a perversidade da discriminação e podia-se brincar assim. Seu anel de grau foi presente de seus colegas. Será que a sociedade em que vivemos comportaria esse modus vivendi? Hoje, quem chamar um negro de “negão” está discriminando o sujeito e pode ser processado na forma da lei, ou seja, aquilo que podia ser um tratamento carinhoso é crime hediondo. Pode-se xingar de fdp, ladrão, cavalo, égua etc. Mas bicha ou macaco é discriminação, e lá vai o perigoso criminoso para a cadeia.

Eu tinha dois amigos em Salinas que atendiam pelo nome de Negão. Um morreu, o outro está vivo e reside em São Francisco, lugar na barranca do Velho Chico, abençoado por Deus e bonito por natureza. Há muito não o vejo e não sei como chamá-lo quando o encontrar. Não que ele não entenda, mas outro “aragaço” que, porventura, esteja por perto certamente vai reparar. O país está assim: um saco.
O Congresso Nacional, composto por homens, mulheres e muita gente boa, religiosos ou não, bichas e dissimulados, mensaleiros e ladrões comuns, está que é uma sensibilidade só... Agora, estão discutindo sobre maioridade. Uns querem que ladrõezinhos de 17 anos sejam tratados como “de menor”, outros mais pés no chão, não. Tanto faz bala 22 ou 38 para fazer defunto. Mas não.

Os desocupados de ONGs, direitos humanos e outros modismos enchem o saco de qualquer um. Ô paiseco de... deixa prá lá. Se eu não estivesse com “idade avançada”, me mudaria para qualquer outro lugar onde não houvesse petistas de todas as espécies e padrecos comunistas disfarçados de intelectuais pregando aos incautos...

Agora, para completar o rol de sensibilidades de que estamos possuídos, alguns legisladores, pessoas que se dizem normais, querem tornar “crime hediondo” qualquer manifestação que expresse simpatia ou desejo pela volta dos militares, ou seja, mais ou menos o que acontece na Alemanha, onde não se pode, por outras razões, discutir sobre o Holocausto. Nossa liberdade de expressão está condicionada ao modismo “desses brasileirinhos sensíveis”, que têm medo de polícia e de lobisomem...
Um dos sentimentos que mais me maltrata é a decepção, e eu vivo hoje, como brasileiro, decepcionado com a vida, não a minha vida, mas a vida vivida no Brasil, o que me faz lembrar um salinense ranzinza que, cerrando os dentes, dizia: “Ô Sylo, qué sabê? Se lugá fô lugá, isso aqui num é um lugá”. Também acho... 

No reino da lambança


Raras vezes se viu lambança pior, desde que o PT foi para o poder, há mais de doze anos. Perderam todos, do vice Michel Temer, sem controle do PMDB, a Eliseu Padilha, a viúva Porcina que foi sem nunca ter sido, a Ideli Salvatti, sacrificada no altar da ingratidão, a Pepe Vargas, apunhalado pelas costas, e a Eduardo Cunha e Renan Calheiros, ignorados olimpicamente pelo palácio do Planalto. Agora,a mais prejudicada de todos foi a presidente Dilma Rousseff, mais perdida do que cego em tiroteio.

Temer, hoje coordenador político, fica sem o escudo protetor do palácio Jaburu, ou seja, despojado do argumento de que “quem manda é ela, não tenho nada com isso”. Fará o quê quando os presidentes do Senado e da Câmara desautorizarem o governo e persistirem na guerra de guerrilha contra a presidente?

Eliseu Padilha foi para o espaço, voando mais alto do que os aviões de carreira postos a seus cuidados. Aceitou o convite de Dilma para mudar-se para o ministério de Relações Institucionais e foi obrigado a recusar por ordem de Renan e Cunha. Imagine-se com que cara participou a rejeição.

Ideli Salvatti estava posta em sossego no ministério dos Direitos Humanos, com planos que até iam dando certo. Numa questão de minutos viu-se sem aviso prévio defenestrada. Não recebeu sequer uma palavra de solidariedade do PT.

Já Pepe Vargas, coitado, por obra e graça do Lula, passou de coordenador político a primeira vítima de seu novo ministério, carente de direitos humanos para protestar e rebelar-se contra injustiças. Quando convidado para integrar o ministério do segundo mandato, recebeu da presidente os maiores elogios por sua capacidade de coordenador. Em poucas semanas passou a incompetente.

Não se sabe se os comandantes da Câmara e do Senado ficarão verdes de raiva por terem lido pela imprensa que Michel Temer seria seu novo interlocutor, ou, no reverso da medalha, exultaram pelo fato de Madame haver-lhes fornecido mais um pretexto para continuarem sua rebelião.

O troféu de rainha da lambança, porém, vai para a presidente Dilma. Depois de haver cedido à chantagem dos partidos e formado o pior de todos os ministérios da história da República, patinou olimpicamente na recomposição parcial da equipe, obrigada a tornar-se neoliberal e a renegar as promessas da recente campanha. Mais uma vez, mostrou subserviência ao antecessor no trato da crise econômica ao assistir, inerte, o assalto aos direitos trabalhistas. Sacrificou, como tem feito desde seu primeiro mandato, auxiliares fiéis e sempre melhor preparados do que os substitutos. Com todo o respeito, não sabe para onde vai.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Crimes fiscais de 2013 e 2014

Os achados identificados pela equipe de auditoria confirmaram os indícios de irregularidades relatados na representação, ou seja, o Tesouro Nacional tem atrasado o repasse, às instituições financeiras, de recursos destinados ao pagamento de benefícios sociais (Bolsa Família, abono salarial e seguro-desemprego), previdenciários (INSS) e econômicos (subvenções em financiamentos bancários).
Procurador Júlio Marcelo de Oliveira, do TCU 

O Brasil nos tempos da cólera

Nunca na história recente do Brasil o interesse por política foi tão grande como agora. Fala-se de política em qualquer lugar e a qualquer hora. O chato é, neste momento, o brasileiro que não está nem aí para os rumos do nosso país. Esta sensação perpassa as classes sociais, as faixas etárias e as diversas regiões do país. É um sentimento nacional de ódio aos corruptos, ao seu partido e a suas lideranças, especialmente aquela que se apresentou durante anos como salvadora da pátria e, hoje, não tem coragem de caminhar, sem segurança, por uma simples rua de alguma cidade. Transformou-se em um espantalho. Só assusta — se assusta — algum passarinho desavisado.


Vivemos um impasse. E não há nenhum paralelo com qualquer momento da história republicana. O governo perdeu a legitimidade e mal completou três meses. E ainda faltam — impensáveis — 45 meses. Se as eleições fossem realizadas hoje, Dilma Rousseff sequer chegaria ao segundo turno. E o que fazer? É necessário encontrar uma saída para a greve crise que vivemos. Não cabe dar ouvidos aos covardes de plantão, aqueles que dizem que temos de tomar cuidado com a governabilidade, que não podemos colocar em risco a estabilidade econômica e que o enfrentamento aberto do projeto criminoso de poder é um perigo para a democracia. Devemos silenciar frente a tudo isso? Não, absolutamente não. Esta é a hora daqueles que têm compromisso com o Brasil. Protestar, ocupar as ruas é a tarefa que se coloca. É seguir a lição de Mário de Andrade. Não sejamos “espiões da vida, camuflados em técnicos da vida, espiando a multidão passar. Marchem com as multidões.” E no dia 12 as ruas estarão tomadas por aqueles que não querem simplesmente espiar a vida, mas desejam mudar a vida.

O projeto criminoso de poder acabou transformando a corrupção em algo natural. E o volume fabuloso de denúncias que horroriza a nação é visto positivamente, pois as denúncias estariam sendo apuradas. É inacreditável: em uma manobra orwelliana, o petrolão é definido como uma ação saneadora do Estado, e não como o maior desvio de recursos de uma empresa pública na história da humanidade. Seus asseclas — supostos intelectuais — buscaram algum tipo de justificativa. Como se no Brasil houvesse uma cultura da corrupção, um fator de longa duração. Erro crasso: imaginam que os brasileiros são à sua imagem e semelhança. Não são. Eles é que são corruptos — e nem precisam sair do armário. Já assumiram e faz tempo.

Cabe ressaltar que o movimento da História é surpreendente e imprevisível. No início de junho de 1992, quando a CPMI sobre as atividades de Paulo César Farias — denunciadas por Pedro Collor, irmão do presidente — estava iniciando seus trabalhos, o senador Fernando Henrique Cardoso fez questão de declarar que “impeachment é como bomba atômica, existe para não ser usado.” O deputado peemedebista Nélson Jobim foi enfático: “O Congresso não pode fazer uma CPI para investigar o presidente. Se vocês insistirem nisso, eu vou ao Supremo.” Mais cordato, mas não menos conciliador, o senador Marco Maciel (PFL-PE) declarou que a “CPI não vai produzir sequelas, pois as acusações foram feitas sem provas.” Líderes empresariais saíram em defesa do presidente. Emerson Kapaz, candidato a presidente da Fiesp, disse que as denúncias eram “uma grande irresponsabilidade. As pessoas precisam medir seus atos para não causar mais turbulência no Brasil, já tão afetado pela crise econômica.” E até juristas criticaram Pedro. Um deles, Celso Bastos, declarou que o irmão do presidente era de “um egoísmo elevado à última potência” e que ele “nunca pensou nos interesses da nação.” Quatro meses depois, Fernando Collor não era mais presidente do Brasil.

Hoje vivemos uma situação muito distinta em relação a 1992. Entre outros fatores, um é essencial: as ruas. Desta vez, são elas que estão impulsionando o Parlamento, e não o inverso, como naquele ano. O que ocorreu pelo Brasil, no dia 15 de março, é fato único na nossa história. Eu testemunhei dezenas de milhares de pessoas se manifestando em absoluta ordem na Avenida Paulista. Com indignação — e justa indignação — mas também com bom humor. Foi um reencontro com o Brasil. A auto-organização da sociedade civil é o novo, só não reconhece quem está comprometido com o projeto criminoso de poder — e são tantos que venderam suas consciências.

Esta será uma semana de muita tensão. E isto é bom para a democracia. Ruim é o silêncio ou o medo. As ruas voltaram a ser do povo, e não mais monopólio daqueles que têm ódio à democracia. Nós temos tudo para construir um grande país mas antes temos uma tarefa histórica: nos livrar dos corruptos. E sempre dentro da democracia, da lei e da ordem. São eles — e existem sim o nós e eles — que sempre desprezaram o Estado Democrático de Direito. Nunca é demais lembrar que o PT votou contra o texto final da Constituição.

Vivemos uma quadra histórica ímpar. Não é exagero que nós teremos muito a contar aos nossos filhos e netos. É aquele momento de decisão, de encruzilhada do destino nacional. Para onde vamos? Continuaremos a aceitar passivamente a destruição dos valores republicanos ou tomaremos uma atitude cívica, de acordo com bons momentos da nossa história?

Eles não passarão. E não passarão porque - paradoxalmente - uniram o Brasil contra eles. Ninguém aguenta mais. É hora de dar um passo adiante, de encurralar aqueles que transformaram o exercício de administração da coisa pública em negociata, em mercadoria. E deixar duas saídas: a renúncia ou o impeachment.

Marco Antonio Villa

Quem governa? A hidra brasileira

Ninguém discute que o Brasil tem uma presidente legitimamente eleita nas urnas. Mas a questão deste início de segundo mandato não é o cargo, tanto ameaçado, segundo os petistas, por um terceiro turno. O que se coloca definitivamente com a indicação do vice Michel Temer para a articulação política é a governança do país.

Em pleno século XXI, o Brasil sai na vanguarda mundial e inova, como adoram os petistas. Passa-se a conviver com a hidra de quatro cabeças governantes, mas efetivamente apenas uma eleita democraticamente.

Qualquer estrangeiro fica estarrecido, porque ninguém tem tanta gente governando um país. E como a lambança teria que ser maior ainda cada uma fica de um lado.

A economia está sob o comando do ministro Joaquim Levy, a cabeça que está mandando no país quando se tratar do assunto. É aquele que cobra escanteiro, discuntindo cada medida e articulando com o Congresso, e vai para a área cabecear junto à população e ainda agarra no gol, defendendo a posição do governo. É o próprio multiministro.

Com o congelamento do aloprado Mercadante, da Casa Civil, e a saída de Pepe "Legal" Vargas, da Articulação Política, a cabeça política ficou nas mãos de Temer, ou toda na mão do PMDB. Se não bastasse controlar a Câmara e o Senado ainda tem como articulador o presidente do partido. São três cabeças pensantes peemedebistas, independentes de Dilma, a cabeça supostamente reinante.

Em meio à salada, ainda surge a cereja. Lula, eminência parda, é a cabeça dos movimentos, das críticas às embrulhadas presidenciais, dos conselhos de como evitar conflitos, dos ataques destrambelhados a oposição e zelites, mas ainda assim gerador de muitas outras violências. Mais do que um assessor especialíssimo, também é o criador da criatura, agora espumando com a desmiolada.

Resta, enfim, a última cabeça do momento. A da governante, aquela eleita para governar o país dos brasileiros. Mas o que governa? Na economia, manda um; na política, três que nunca foram afinados com ela; na assessoria, o Flagelo de Garanhuns e uma imensidão de palpiteiros.

E os restantes 38 ministros estão num saco de gatos sem saber a quem responder. Obedecem às ordens econômicas de Levy, às políticas do triunvirato, às de Lula? As ordens de Dilma, a presidente, nem se pode obedecer, porque ninguém sabe quais são. A presidenta virou uma peça decorativa do Planalto, como os presidentes no parlamentarismo. Ficará sua atuação restrita a chás, inaugurações e destemperos.

Se a presidente não preside ou finge presidir, o que está fazendo no Planalto? Talvez modernizando ainda mais o novo modelo e se aplicando como o rei Céphas Bansah, de Hohoe, que governa seu reino através do Skype a 6 mil quilômetros em Gana?

Nem só a vaca foi pro brejo, a governança se afoga num mar de cabeças.

A maior vítima é a verdade

Como czarina do setor elétrico desde 2004, Dilma sabia muito bem que não há como baixar o preço de energia senão aumentando a oferta

Em entrevista à TV Veja, o ministro Eduardo Braga disse que os estados então comandados pelo PSDB (São Paulo, Paraná e, na época, Minas Gerais) são responsáveis pelo aumento de mais de 50% na conta de luz do cidadão. Segundo ele, os entes federativos que defenderam o patrimônio de seus cidadãos da usurpação federal – leia-se MP 579, o conto do vigário da energia barata – são os culpados pela falência do setor elétrico.

Curioso esse ministro. Até aqui nada fez para tirar o setor do desastre provocado por sua chefa. Mas opera bem com a mentira e o transformismo. Dilma quis fazer cortesia com o chapéu alheio. Deu com os burros n’água, apesar de todos os alertas. Agora, com os brasileiros sofrendo forte confisco de renda por uma das contas de energia mais caras do mundo, Braga quer aplicar o conto-do-vigário. Mestre Houaiss no seu Dicionário da Língua Portuguesa diz de quem pratica este delito: “aquele que engana outrem com trapaças; vigarista, velhaco”.

Como czarina do setor elétrico desde 2004, Dilma sabia muito bem que não há como baixar o preço de energia senão aumentando a oferta. Quando decidiu anunciar na TV a canetada mágica que jogaria a tarifa para baixo em 20%, ela sabia que fazia isso à custa da usurpação das empresas estaduais de energia e da Eletrobras – esta, coitada, obrigada a assinar, foi sequestrada e depenada em R$ 10 bilhões pelo governo. Os estados que não assinaram, evitaram a falência de suas empresas.

O problema não foi só destruir o marco regulatório sem ouvir as partes. O pior foi incentivar o consumo em meio a escassez hídrica, quando as térmicas tiveram de ser acionadas a plena carga. Faltou a presidente explicar à Nação como faria a mágica de conciliar a energia cada vez mais cara com tarifas cada vez mais baixas. E mais: ao intervir no mercado e romper contratos, afugentou os interessados em investir no setor.

O rombo aberto desde 2012 já custou R$ 100 bilhões! De onde saiu o dinheiro para esconder o abismo? Do Tesouro Nacional, ou seja, do nosso bolso. Dilma deu com uma mão e tirou com a outra. Como os recursos não são infinitos, repassaram a barbeiragem para a conta de luz: 50% a 70% de aumento apenas em 2015 – e por enquanto. Só não tivemos que racionar energia ainda porque a economia, sobretudo a indústria, só anda para trás neste governo.

Se não bastasse a catástrofe financeira, os reservatórios subiram pouco no período chuvoso. Significa que, persistindo a média climática para o período seco, devemos chegar ao fim do ano com um nível de armazenamento em torno de 10%. Isto é, os problemas do setor em 2015 continuam em 2016. Nem esse quadro lamentável faz o governo assumir o estrago e incentivar uma campanha aberta, direta e franca de redução do consumo.

O discurso tranquilizador do Planalto destoa dos esforços desesperados do mesmo governo para aumentar a oferta (estímulo à geração térmica de pequeno porte, importação de energia da Argentina, leilões de gás com prazos de entrega reduzidos, etc). A Resolução 44 agora autoriza a venda de energia de empresas que tenham geradores a R$ 1.420,34 o megawatt hora! Dilma tinha prometido a R$ 9 e autoriza agora um valor 158 vezes maior! No dizer de um agente do setor: “Hoje a política é gerar energia a qualquer custo.” É a Dilma a qualquer custo fazendo qualquer coisa para sobreviver. Até quando?

A revolução do gás de xisto nos EUA e o colossal acordo da China com a Rússia para importação de gás deixam claro a correlação entre energia e competitividade global – sobretudo enquanto cerne de uma política industrial. Mesmo sabendo que o Brasil é um dos países com melhor massa critica no setor elétrico, Dilma atropelou tudo e todos em nome de seu populismo energético. As vítimas estão aí: a economia popular, a indústria e, sobretudo, a verdade.