quarta-feira, 8 de abril de 2015

O manifesto da virtude não contabilizada

O Brasil estava à deriva, até que veio o encontro nacional do PT em São Paulo. Os presidentes dos 27 diretórios reuniram-se em torno do oráculo, e aí tudo ficou claro como a pele da elite branca. É sempre assim: por mais tenebrosa que seja a tempestade lá fora, quando o PT se junta em torno de Lula da Silva, tudo fica belo e luminoso. Ficamos sabendo que a crise é pura inveja que os ricos têm do povo. E saiu um novo manifesto -atenção, Brasil! - no qual o partido do mensalão e do petrolão ensina aos brasileiros o que é virtude.

É claro que o manifesto do PT não trata da estagnação econômica, nem da previsão de recessão apontada pelo Boletim Focus do Banco Central. Eles estão no Palácio há 12 anos, mas não têm nada com isso. O documento também não trata da mais recente façanha do partido - a inscrição de seu tesoureiro como réu no processo da Lava Jato. Isso é o tipo de coisa que só interessa à imprensa burguesa. E é justamente a imprensa o que preocupa os companheiros em seu mundo dourado. O manifesto propõe um projeto de lei para controlar a mídia (novidade!) - no exato momento em que a presidente dá posse ao novo ministro da Secretaria de Comunicação exaltando a... liberdade de expressão.

Dilma falou que sabe quanto a imprensa livre é importante, porque ela é uma pessoa que viveu sob uma ditadura. Atualmente, no Brasil, praticamente só Dilma viveu sob uma ditadura. Todos aprendemos a acompanhar, contritos, o sofrimento diuturno de Dilma Rousseff em sua resistência implacável aos militares. Quando começamos a achar que a batalha está concluída, o Palácio do Planalto solta mais um release sobre "Os anos de chumbo", e lá vamos nós sofrer mais um pouco ao lado de nossa heroína. Não há nada mais urgente hoje no Brasil do que apoiar Dilma contra o regime militar. Ela há de nos libertar desse inimigo morto e enterrado há 30 anos.

Enquanto a presidente luta heroicamente pela liberdade de expressão, que só ela sabe quanto é valiosa, seu partido costura docemente a mordaça. O PT já tentou colocar rédeas na mídia até através de um pacote de direitos humanos. Agora, o tal manifesto propõe uma nova regulamentação do direito de resposta. Os companheiros só vão sossegar quando a comunicação de massa no país alcançar o padrão de uma assembleia do partido. Chega de perseguição a guerreiros do povo brasileiro como João Vaccari. A cada denúncia publicada sobre as peripécias do tesoureiro na arrecadação de fundos para a revolução progressista, a mídia há de ter que abrir espaço para a resposta do guerreiro. E ele terá o sagrado direito de declarar, como seu antecessor Delúbio no mensalão, que há uma conspiração da direita contra o governo popular.

O manifesto divulgado pelo PT no dia 30 de março explica que o partido está sendo "atacado por suas virtudes". Não esclarece se entre essas virtudes está a formidável capacidade de captação de recursos junto às empresas investigadas na Lava Jato. Ou a invejável capacidade de escolher e cultivar os diretores certos para a Petrobras, sem os quais uma legião de parasitas e picaretas morreria de fome. Talvez por humildade exacerbada, o manifesto do PT não cita entre suas virtudes a façanha de ter jogado a maior empresa brasileira na lona, rebaixando-a ao grau de investimento especulativo. Tamanho virtuosismo realmente só poderia gerar inveja e perseguição.

"A campanha de agora é uma ofensiva de cerco e aniquilamento", diagnostica o manifesto. "Para isso, vale tudo. Inclusive criminalizar o PT." Eis o escândalo: estão criminalizando o PT. Será que não percebem que todos os crimes pelos quais os petistas têm sido indiciados, julgados e condenados são crimes decorrentes das suas virtudes? Será possível que essa elite golpista não aprendeu a distinguir o crime mau do crime bom?

Na reunião de cúpula, o assessor da Presidência, Marco Aurélio Garcia, esclareceu: "Ganhamos a eleição com uma narrativa que a presidente assumiu de forma corajosa". No dia seguinte, no Senado, o ministro da Fazenda tentava salvar a pele do governo com uma narrativa oposta a essa que a presidente assumiu corajosamente. Talvez seja por isso que as multidões voltaram às ruas: entenderam enfim que estão sendo governadas há 12 anos por uma narrativa.

Juiz pede socorro


Cansado de ver tribunal ‘de joelhos diante de réus a troco de orçamento’, juiz quer intervenção: processos contra autoridades desaparecem ou acabam no ‘limbo jurídico’

Na semana passada chegou à mesa da corregedora nacional de Justiça, Nancy Adrighi, uma correspondência incomum: cinco sindicatos estaduais de servidores do Executivo, Legislativo e Judiciário pediram que o Conselho Nacional de Justiça determine “com urgência” uma devassa no Tribunal de Justiça do Espírito Santo. É o segundo requerimento de investigações sobre supostos atos criminosos no Judiciário capixaba, nos últimos vinte dias.

A denúncia inicial partiu de um juiz. Em cartas à presidência e à corregedoria local, o desembargador Pedro Valls Feu Rosa descreveu a “realidade sombria” da instituição, que “parece ter sido ‘projetada’ para impedir que certos processos tenham tramitação”.

Feu Rosa conhece como poucos a corte estadual, que já presidiu. Convive com ameaças. A mais recente chegou envelopada na tarde de sábado, 14 de março à sua casa, em Vitória. Avesso à escolta, mantém a rotina de passeios matinais e missa aos domingos. Por hábito, expõe no gabinete de trabalho a relação dos processos recebidos, com respectivas datas de entrada.

Não há um único preso por corrupção nas celas capixabas. No entanto, sobram processos: “Não são um ou dois, mas dezenas. E praticamente todos arrastam-se há anos, com pouco andamento e sem julgamentos” — registrou nas cartas. “São pessoas acusadas de desviarem milhões dos cofres públicos (...) Os anos se passam e os processos seguem em uma espécie de ‘limbo jurídico’, aguardando o dia — humilhante para uma instituição — da prescrição.”

Processos contra autoridades “desaparecem”, escreveu. “Confira-se: sou desembargador há 20 anos, presidente de Câmara Criminal, e nem assim consigo saber onde estão, e em qual estado, processos relativos a não uma, mas quatro operações policiais de ampla envergadura — três da Polícia Civil e uma da Polícia Federal.”

“Fui relator daquela deflagrada pela Polícia Federal”, prosseguiu. “Há uma gravação, no inquérito, de um senhor que se apresenta como ‘organizador da fila de licitações’. Diversos municípios são mencionados de forma clara e inequívoca. Pois bem: já se passaram quase dois anos, e sequer consigo saber onde estão os processos!”

“As denúncias contidas nestas quatro operações são gravíssimas, envolvendo desde corrupção até narcotráfico. E onde estão os processos? (...) É possível que não exista ‘fila de licitações’ ou sequer um dos atos de corrupção apontados. Sim, pode ser que não exista mesmo um corrupto sequer aqui no Espírito Santo — mas que se dê, até mesmo em benefício dos acusados, uma resposta. Eis o que peço enquanto juiz e cidadão: que o Poder Judiciário dê uma resposta!”

Aos 48 anos, Feu Rosa se diz cansado de ver o Judiciário “tantas vezes de joelhos diante de réus a troco de orçamento”. A omissão, escreveu, “custa caro à população, desestimula os bons políticos, assusta os investidores, custa vidas, dadas as consequências dos escandalosos níveis de corrupção registrados.”

Ele sugeriu a intervenção do Conselho Nacional de Justiça. O conselho é responsável constitucional pelo controle e transparência do Judiciário, mas tem sido gradualmente desidratado pela reação conservadora de parte da cúpula judicial. O caso do Espírito Santo é novidade nesse cenário: um juiz pede socorro para fazer a Justiça funcionar.

Leia mais o artigo de José Casado

Não é piada, mas outro engodo petista

Quando se pensava que se tinha visto o máximo de safadeza petista, eis que surge mais uma sacada com o selo PT de usurpação dos cofres públicos. E o mentor do novo vale tudo por dinheiro é o não menos canastrão Washington Quaquá, presidente regional do partido e prefeito de Maricá. 


Outra vez, quando o próprio partido está às voltas com a corrupção, o "Sassá Mutema" dos desocupados se lixa para os escândalos envolvendo o próprio partido e lança projeto ainda mais escandaloso: Minha Casa Minha Pousada. Parece até paródia do programa governamental, mas é mais uma demonstração de desgoverno com financiamento público.

Segundo a propaganda, divulgada nas redes, jornais oficiosos e prestes a se espalhar pelo Estado, às custas do contribuinte, o descarado Quaquá bolou a picaretagem olímpica. "Vamos nos preparar para receber os turistas que virão para o Rio nas Olimpíadas de 2016". A convocação que ocupa quatro páginas de um jornal local anuncia que a Prefeitura vai ajudar a transformar "a sua casa em uma pequena pousada".

Quaquá não perde a oportunidade de usar e abusar dos cofres públicos para se autopromover e chega ao cúmulo de declarar, na propaganda, que a "Prefeitura quer que em 8 anos Maricá se transforme no quinto destino turístico do Brasil" (hoje não ocupa nem sequer a lista dos 100 no país).

Seria ridículo, se não fosse uma tragédia para o município, que assiste há sete anos os roubos e rombos frequentes no Erário para a gangue petista, chefiada por Quaquá, se entronizar de vez em Maricá.

Destinar dinheiro público para moradores (quer dizer, os cúmplices da roubalheira) transformarem as próprias casas em pequenas pousadas só tem mesmo a colaborar a que o dinheiro público pague melhorias em residências cadastradas.

O intuito de receber turistas durante as Olimpíadas, numa cidade a mais de 40 km do Rio, sem água, saneamento básico, saúde, estrutura hoteleira e outras mazelas, é mais uma forma de escamotear a administração corrupta que nos últimos anos vem assolando Maricá. Tudo sob os olhares complacentes dos petistas, da cambada de comissionados e de todos os Poderes que estão blindando a "quaquádrilha".

'Dieta fiscal' não combina com ministério gordo

Diante dos sacrifícios exigidos pelo ajuste, população espera contrapartida do Governo

Num momento em que a equipe econômica da presidenta Dilma faz campanha pelo ajuste fiscal — repassando, num primeiro momento, o custo desse equilíbrio das contas públicas para o contribuinte — a existência de 39 ministérios aumenta a sensação de que o Governo pretende continuar numa zona de conforto de eficiência bastante questionável. Quando Fernando Henrique Cardoso deixou o Governo, ele deixou 24 ministérios. Lula criou 13, na sequência, e Dilma criou outros dois. Durante a campanha eleitoral, o assunto pegou fogo, e a presidenta argumentava que não reduziria o número de ministérios, pois havia o risco de tirar o peso para assuntos importantes que hoje são tratados com status ministerial, caso da Secretaria de Política das Mulheres.

Mas, quanto mais ministérios, maior a chance de haver ‘buracos negros’ na administração, avaliam os especialistas, e o pior, abriria brechas para negócios paralelos, leia-se, propinas, que acelerassem o processo de trâmites burocráticos em Brasília. A ideia já havia sido ensaiada pelo Governo Dilma quando os protestos de 2013 levaram milhares às ruas do país, e a sociedade esperava uma resposta para a insatisfação popular com os serviços públicos. A presidenta já tinha esse diagnóstico, feito por um dos grandes empresários brasileiros, Jorge Gerdau, que esteve no Governo Dilma encabeçando a Câmara de Política e Gestão e Competitividade, visando melhorar a eficiência do setor público.

O assunto parecia ter sido esquecido, mas volta agora, provocado, também, diante dos pedidos de sacrifício que o Governo tem feito para o contribuinte e para as empresas. A Fazenda, por exemplo, acaba de aumentar dois impostos (PIS e Cofins) para 80.000 empresas a título de reforço de caixa para cumprir o superávit primário. Quando entrar em vigor, dentro de 90 dias, o aumento dos tributos incidirá sobre operações financeiras das companhias.

A presidenta Dilma já afirmou que promoverá “um grande corte” de gastos, e a ideia de que esse corte venha a ser de 80 bilhões de reais ganha força. Em 2013, o custo dos 39 ministérios era de 58 bilhões de reais, sem levar em conta autarquias ou secretarias vinculadas. Aglutinar algumas pastas não significa, necessariamente, tirar o status delas. O que a sociedade brasileira exige mais do que nunca é a excelência de resultados, seja do tamanho que for o ministério. Por ora, os 39 não deram sequer uma pista de que há mais benefícios ao país com a existência de mais ministros.

A classe política ainda não percebeu que os brasileiros invejam os Governos mais austeros, onde os governantes saem de metrô para seus trabalhos, como os prefeitos de Londres ou Nova York, colocam os filhos em escolas públicas, ou abrem mão de seus salários para dar o exemplo à população, como o ex-presidente uruguaio José Mujica. O mesmo vale para viagens oficiais com gigantes comitivas de assessores que nada agregam ao país. Num momento em que o Brasil está à flor da pele com as denúncias de corrupção, e decepcionado com a alta de inflação que afeta o seu bolso, além do medo do desemprego, uma dieta de verdade nos cargos ministeriais seria bem-vinda.

Os protegidos da sociedade

Os governos democráticos no Brasil abusam do direito de governar quando testam o limite do cidadão para a prudência e a temperança
Doutor Joaquim aplica Band-Aid no corpo do atropelado certo de que o paciente sofre, mas não é bem sua dor que interessa. Não pode operá-lo, temeroso da reação de quem provocou o acidente. Ganha tempo inadmissível dando aulas de ficção para enfermeiros de Chicago, pois sabe que a dona do hospital não está em condições de demiti-lo.Os governos democráticos no Brasil abusam do direito de governar quando testam o limite do cidadão para a prudência e a temperança. 
Os apetites pessoais que têm levado nosso país a crises politicas rotineiras e sucessivas não nascem da sociedade. Uma geração de descendentes e vítimas do poder arbitrário está chegando ao fim, quatro gerações depois, vendo a democracia como uma volúpia do poder sobre o desejo das pessoas. Um estado de espírito que vai e volta, um período excelente, que não dura e nunca é o que estamos vivendo.

A morte do idealismo no Brasil e da simplicidade da politica é resultado da proliferação de líderes de comportamentos velados, cujo poder não é o recebido dos eleitores. É a politica exercida como autoexame, mesmo que sob a ótica de pessoas honestas, permitindo a vitória do mundo privado, pessoal, sobre a farsa do universo constitucional que não rege mais nada. Atualmente, dinheiro e vulgaridade dominam tudo, fazendo a política não se submeter ao princípio da verificação e, por isso, seu significado prático não precisa ser demonstrado. Bastam variações do velho modelo do presidencialismo de reeleição para capturar a energia social em direção a cópias de cópias de ideias de escassa autoridade. A relação entre a política e a sociedade não é mais essencial. Virou uma dominação fundada na correlação que seleciona membros para a construção de interesses e a formação de trincheiras de sócios em clubes exclusivos.

No momento em que o Estado quiser encontrar na sociedade uma coletividade essencial à sustentação do nosso país no mundo, ele deixará de ser a farsa deste modelo como o toleramos. E nele a politica será uma atividade simples, de pessoas que pretendem e possuem vocação para representar os outros. Por que hoje, se as coisas não são simples, não é por serem complicadas ou complexas, é por que andam falsas. E neste quadro, cada “novidade desnecessária” exige alguém necessário. E por causa disso no Brasil qualquer coisa só existe se for regulamentada. Nos países viáveis, só se regulamenta o que dá errado. É esta má tradição que confirma que nunca tivemos nenhum governo seguro de que a Constituição é a lei que protege a sociedade contra a falta de limites do governo.

Não deveriam ser efemeridades essas magníficas intuições econômicas e politicas desses 21 anos de presidentes de esquerda que não conseguiram ir além do condicionamento histórico de seus sonhos pessoais. Afinal, o governante aqui descumpre a lei dizendo que é para salvar a democracia. Mas o que sempre se viu é que tudo que é urgente para nossos democratas serve para justificar algum arbítrio e seu método injusto. O modelo político e econômico atual chegou ao fim. Se anda insepulto, é por ser protegido da sociedade.

Paulo Delgado

terça-feira, 7 de abril de 2015

Desmanchando o milagre que os portugueses fizeram

Não dá mais para segurar. Nem para compor, amaciar, tergiversar. Ou se adotam mudanças radicais e profundas nas instituições e nas pessoas ou o país se desagrega. Porque nunca se roubou tanto como nessa tríplice aliança entre governo, empreiteiras e políticos.

Governo, por nomear bandidos para a direção de suas empresas, ávidos de permitir o assalto ao patrimônio público, do qual retiram fortunas em benefício próprio. Empreiteiras, porque, mancomunadas com altos dirigentes das estruturas governamentais, superfaturam obras e serviços, obtendo contratos e aditivos falsos para enriquecer às custas dos cofres da nação. Políticos, porque responsáveis pelas nomeações, junto ao governo que dominam, exigindo das empreiteiras altos percentuais dos negócios escusos.

Os últimos meses estão mostrando que não apenas na Petrobras corria lama em vez de petróleo. Na construção de hidrelétricas e termoelétricas, na implantação de ferrovias e rodovias, portos e demais obras, é a mesma coisa. No fornecimento de produtos e na oferta de serviços, também. Até no organismo encarregado de zelar pela cobrança de impostos. Dificilmente se encontra um importante setor da administração pública que não esteja infestado por dirigentes corruptos, empresas privadas e políticos.

Urgente se torna derrubar o tripé. Primeiro através de um governo capaz de identificar, substituir e punir quantos bandidos estiverem incrustados em suas estruturas. Depois, por fiscalização tão rígida capaz de levar as empresas a perceber como mais lucrativa a honestidade do que a roubalheira. Por último, depois de ampla reforma política, depurar os partidos e afastar a corrupção das práticas eleitorais.

Como se chegará a tanto? Trocar o governo poderá constituir-se em solução extrema, caso ele não se recicle em tempo recorde por meio da defenestração de ministros ineptos, representantes de partidos, e sua substituição por técnicos e similares de comprovada capacidade, em condições de recuperar as empresas públicas danificadas. Importante também será, por meio do Congresso, delegar ao Ministério Público, o Judiciário e a Polícia Federal mecanismos de ação cirúrgica para a investigação, identificação e condenação de quantos estiverem implicados nesse festival de corrupção.

Fora daí será a desagregação nacional. Nossa transformação num conjunto cada vez mais dissociado de um futuro comum e da vontade de buscá-lo. Estará desfeito o milagre produzido pelos portugueses, que nos legaram um país uno e indivisível em meio ao fracionamento da América Espanhola.

Carlos Chagas

A 'aula' do professor


Rui falcao plateia discurso nao receber doacao privada caixa 2
Uma coisa é dizer que pessoas no PT se envolveram em malfeitos. Outra é tentar qualificar o PT como uma organização criminosa. Não estou de acordo. Não me considero criminoso. Não tenho nada a ver com isso. Essa é uma das razões pelas quais temos que tomar medidas concretas, como a recusa do financiamento empresarial. Temos que chamar todos os partidos a fazer a mesma coisa. Aí vamos ver quem é quem. Não é possível que o PT, com 1,5 milhão de filiados, não seja capaz de se financiar. Pago R$ 1 mil por mês ao partido.
Marco Aurélio Garcia, alcunhado de "O Professor"

O PT e a avestruz

O PT está se comportando como avestruz. Pensa que escondendo a cabeça ninguém mais verá o resto do corpo. Os escândalos se sucedem, o mensalão passa para o petrolão e o partido insiste em frisar sua virgindade ética, como se tudo fosse uma grande artimanha das oposições. Ainda assim, deveria ser bem explicado a que oposição seus líderes se referem, pois, se ela existe, tem sido incapaz de conduzir qualquer coisa. Segue a reboque das ruas, que nas últimas semanas se tornaram as grandes protagonistas do País.

Vamos convir que a posição de vítima assumida pelo partido não tem nenhuma chance de vingar. O PT está no quarto mandato presidencial e é, portanto, responsável por tudo o que nele aconteceu e acontece. De nada adianta continuar culpando o ex-presidente FHC de todo mal que nos aflige, pois se esse argumento for levado a sério ele terminará sendo responsável por qualquer unha encravada. O que, sim, tem faltado ao governo e seu partido principal é o humilde reconhecimento de seus erros, algo que parece situar-se além da soberba reinante.

Se o País vive, do ponto de vista governamental e partidário, uma espécie de desmoronamento ético, isso se deve ao aparelhamento da máquina estatal, tornada mero instrumento de consecução de fins partidários. O discurso oficial é contra a corrupção, quando a prática partidária consiste em acobertá-la. O PT nem consegue punir seus envolvidos tanto no mensalão quanto no petrolão. Uns são considerados "guerreiros do povo brasileiro", outros ainda não o são por não terem sido condenados.

O atual tesoureiro continua protegido e a Petrobrás segue blindada na verdadeira apuração de suas responsabilidades. Tudo é um grande jogo de cena. Acontece que essa cena não está mais "colando", não gera nenhuma adesão dos cidadãos. O PT caiu na lama e não consegue sequer se levantar.

Em contrapartida, o País vive um despertar ético, demonstrando real preocupação com suas instituições. As manifestações de 15 de março foram uma efetiva tomada de consciência, com as ruas plenas de indignação, independentemente de faixa etária, classe social e gênero. O governo e seu partido não conseguem mais tapar o sol com a peneira. Não há marketing que resolva essa situação. Os mágicos ficaram sem mágica!

Não tem o menor cabimento o PT reclamar de uma grande orquestração da mídia, como se fosse ela a responsável pelas grandes manifestações de rua, pelos escândalos da Petrobrás, pela inflação e pelo PIB zero. Jornais, revistas e meios de comunicação em geral, em sua diversidade e pluralidade, retratam o que está acontecendo.

O que pretendem os dirigentes partidários? Que as ruas repletas de gente não sejam filmadas, retratadas e descritas? Que o PIB zero não seja comentado? Que a inflação que acomete os cidadãos seja desconsiderada, quando ela é sentida diariamente nos supermercados? Que a corrupção na Petrobrás não seja noticiada? Que o trabalho da Justiça e do Ministério Público seja denegrido?

A política petista de feroz crítica aos meios de comunicação consiste na tentativa de matar o mensageiro para que a mensagem não seja transmitida. Em vez de o partido enfrentar seus reais problemas, termina apelando para seu arsenal ideológico de ideias antiquadas e ultrapassadas, desta feita a de "controle social da mídia" ou "democratização dos meios de comunicação".

Para falar claro: trata-se da tentativa de restabelecer a censura no País, agora nos moldes do que já é feito na Venezuela, na Bolívia, na Argentina e no Equador, nessa via comunista, soviética, agora denominada "socialismo do século 21", como se assim a proposta autoritária se tornasse mais palatável! A moralidade é estropiada em nome de uma "superioridade moral do socialismo".

O PT não consegue nem se entender no que diz respeito ao seu apoio ao governo Dilma. A austeridade fiscal que está sendo introduzida não é a responsável pela inflação, pelo PIB zero, pela desvalorização do real e pelos altos juros. Estes nada mais são que consequências das políticas econômicas conduzidas pelo governo Dilma e pelo segundo mandato do governo Lula. São, reitero, meras consequências. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, nada mais está fazendo que tentar corrigir o descalabro reinante, que é produto do que foi feito até aqui.

Agora, que o partido se insurja contra o ministro e, indiretamente, contra a presidente, em nome das políticas desastradas que nos levaram até esta situação, é um manifesto contrassenso. Caberia, isso sim, apoiar a mudança de rumo, em nome da governabilidade e, sobretudo, do País, que é maior do que qualquer partido e que a soma de todos. Como pode a presidente exigir o apoio incondicional do PMDB quando o seu próprio partido é o maior opositor de sua política atual?

A proposta de alguns setores partidários de radicalização do processo político, por meio de uma nova aliança com os movimentos ditos sociais, é de uma grande irresponsabilidade. Movimentos como o MST são expressões de um projeto político de tipo marxista, para instalar no País um regime totalitário de tipo socialista.

Trata-se, no caso, de uma organização de tipo leninista, que tem vários braços, como os Sem-Teto, as Mulheres Campesinas, os Atingidos pelas Barragens, os Pequenos Agricultores e a Via Campesina. Todos obedecem a uma mesma estratégia e ao mesmo comando, tendo na Venezuela e em Cuba seus maiores exemplos. A faceta social é mera roupagem.

Insistir nessa via significaria lançar o País na ingovernabilidade e numa eventual crise institucional. Quando Lula chamou o "exército do Stédile" às ruas, ele conclamou essa milícia a se preparar. Permaneceram ele e os seus apoiadores cegos e surdos aos clamores populares.

No dia 15 de março, um dos seus dizeres era: "A rua brasileira jamais será vermelha!". Como bem expressaram os manifestantes em suas roupas: "Ela é e sempre será verde-amarela!".

Brasil pressiona pela mudança

 Brasileiros lembram o sábio Diógenes, aquele que só pediu a Alexandre que se afastasse porque lhe estava roubando o sol
O Brasil não está em crise porque as pessoas saem à rua para protestar. É o contrário: decidiram fazer isso porque desejam mudar o velho Brasil. Querem que o país se supere e ressuscite da crise, e não acreditam mais nas promessas de seus atuais governantes, convencidos como estão de que eles mentiram.

Vai fazer dois anos que neste país os indignados saíram pela primeira vez de suas casas para exigir melhorias em alguns serviços públicos para que fossem dignos de um país moderno, e protestar contra a corrupção. Na época não gritavam “Fora, Dilma” nem “Fora, PT”.

Para aplacar o mau humor das pessoas, a presidenta fez cinco promessas aos brasileiros, entre as quais um plebiscito nacional para a reforma política – que se mostrou inútil por ser anticonstitucional – e o combate sem trégua contra a corrupção.

As promessas não só não foram levadas adiante como também, hoje, a situação do Brasil é muito pior do que na época. A reforma políticase enreda em si mesma porque os encarregados de fazê-la não querem perder seus privilégios, enquanto a corrupção, em vez de ter sido freada, irrompeu como uma bomba nuclear com o novo escândalo da Lava Jato, que fez o do mensalão empalidecer. E outros novos escândalos já estão na fila da investigação judicial.

Os brasileiros se cansaram de promessas e escândalos, e se radicalizaram: desta vez pedem até uma nova República, outro Brasil. Querem que os que prometeram o que não souberam ou não quiseram cumprir saiam para dar lugar a outros. Por ora, talvez não saibam com quem substituí-los, mas sabem que querem algo novo e diferente.

Esse clima que o Brasil vive e que as manifestações anunciadas para o próximo dia 12 poderiam confirmar ou desmentir me fizeram recordar o que se conta, entre história e lenda, do filósofo grego Diógenes, que há 2.500 anos andava com uma lanterna em busca de “um homem”, ou seja, um que fosse honesto, e não corrupto.

Como os EUA 'viraram o jogo' contra a corrupção

No século 19, a falta de um funcionalismo público profissional favorecia o apadrinhamento nos Estados Unidos. Grandes projetos de infraestrutura manchados por corrupção; apadrinhamento político nos governos federal, estadual e local, bem como o uso de cargos públicos para obter ganhos privados e manter-se no poder.

O cenário acima poderia descrever a situação atual de diversos países do mundo - inclusive do Brasil -, mas se refere especificamente aos Estados Unidos do fim do século 19.

No período a partir de 1870, conhecido como “Gilded Age” (Era Dourada), o surgimento de uma sociedade mais urbanizada e industrializada e de novas fontes de riqueza nunca antes vistas, em um momento de rápido crescimento econômico nos EUA, evidenciou os altos níveis de corrupção política no país.

Seriam necessárias algumas décadas e a adoção de várias medidas de regulação para que o problema fosse controlado.

Apesar de ressaltarem que a corrupção não foi totalmente erradicada nos EUA, analistas concordam que as reformas adotadas na virada do século 19 para o 20 foram essenciais para combater o problema e fazer com que o país hoje se situe entre aqueles com baixos níveis deste tipo de delito.

No mais recente Índice de Percepção da Corrupção, divulgado em dezembro passado pela Transparência Internacional, os EUA aparecem na 17ª posição entre 175 países, ao lado de Irlanda, Hong Kong e Barbados. O Brasil ficou em 69º lugar, ao lado de Bulgária, Grécia, Itália, Romênia, Senegal e Suazilândia.

Segundo analistas, nas décadas finais do século 19, práticas até então dominantes nos EUA, como clientelismo e apadrinhamento político, começaram a ser menos toleradas.

“Muitas práticas que simplesmente eram encaradas como normais em períodos anteriores da história americana passaram a ser vistas como problemas”, disse à BBC Brasil o historiador Alan Lessoff, professor da Illinois State University.

Dilma vai cair, só não se sabe o tempo da agonia

Não há a menor perspectiva de final feliz para a crise política, econômica, social e ética que devasta o governo federal. São escândalos e notícias negativas que se acumulam, inexoravelmente. A grande mídia nem precisa fazer manipulação, basta publicar o que está acontecendo, sem maiores comentários. E a tendência é a situação piorar, progressivamente, para desespero da troika formada pelo Planalto, PT e Instituto Lula (não necessariamente nesta ordem).


Não há dúvida de que Dilma Vana Rousseff virou uma espécie de rainha da Inglaterra, que reina, mas não governa. A administração federal está absolutamente paralisada e o país caminha com as próprias pernas, vivendo uma experiência surrealista de “laissez-faire”, que pode até ser positiva, pois é melhor não ter governo algum do que suportar um governo tão incompetente.

A presidente poderia se manter assim até o fim do novo mandato, ninguém ligaria, como aconteceu recentemente na Bélgica, que passou vários anos sem ter primeiro-ministro, não entrou em crise econômica ou ética, seguiu se desenvolvendo, uma maravilha. Mas acontece que aqui no Brasil as coisas estão bem diferentes e Dilma Rousseff tem muito mais problemas do que a simpática e educada rainha Fabíola.

Neste início de mandato, as investigações da força-tarefa da Operação Lava Jato já estão encontrando cada vez mais provas sobre gravíssimos atos de corrupção em outros setores do governo, como a construção de hidrelétricas e ferrovias. E na fila, aguardando apuração, estão os fundos de pensão, o BNDES, a Eletrobrás e outras estatais, além do chamado Sistema S e de muitos ministérios.

Na verdade, é um nunca-acabar de escândalos, que não atingem apenas o Executivo, pois a opinião pública está consciente de que Legislativo e Judiciários também estão apodrecidos. Embora o país esteja mergulhado numa gravíssima crise econômica, os salários das autoridades dos Três Poderes estão cada vez mais altos, com inaceitáveis mordomias, incluindo os cartões corporativos, cujos gastos são mantidos sob sigilo absoluto, vejam a que ponto essa gente chega.

Não há governo capaz de resistir a tamanho bombardeio. É ilusão achar que Dilma Rousseff possa acabar incólume como Lula, simplesmente repetindo que não sabia de nada.

A situação se complica ainda mais, porque ninguém consegue apoiar Dilma Rousseff, nem mesmo o ex-presidente Lula, que a conduziu ao poder. Na semana passada, o grupo majoritário do PT divulgou um manifesto de críticas ao governo federal, com ponderações compartilhadas por todas as demais alas do partido.

As centrais sindicais também já desembarcaram do governo. Durante evento organizado pelos movimentos sociais na última terça-feira, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, criticou os tarifaços de luz, da água e dos combustíveis, além das propostas do ajuste fiscal do ministro Joaquim Levy.

No Congresso, não existe mais base aliada desde o início de fevereiro, quando o presidente Eduardo Cunha (PMDB-RJ) instituiu o primado regimental dos blocos partidários e assumiu pessoalmente o comando do principal deles, formado por 227 deputados, deixando o PT completamente isolado.

Por fim, é sempre bom lembrar que nunca antes, na História deste país, um governo conseguiu se preservar no poder sem contar com apoio da maioria dos parlamentares. O resto é folclore.

Cretinice da empulhação










"O Brasil sempre foi isso. No Brasil, sempre a forma de destruir seu adversário era chamar de corrupto."


Renato Janine Ribeiro, novo ministro da Educação, há duas semanas baixou o cacete no governo Dilma, mas com a posse como ministro passou a adoçar os lábios presidenciais.

Entregar a educação de um país a um cretino é uma tremenda falta de educação, no mínimo. Agora recebe até o título de “ministro educador numa Pátria Educadora”.

Quando ainda o cargo serve como cala boca a mais um filósofo no melhor estilo Mangabeira Unger, demonstra que Dilma e o PT estão cooptando tudo que não presta para formar um governo de fachada. Comparar o novo ministro a Darcy Ribeiro e Paulo Freire, como fez Dilma, é um acinte de uma “incompetenta” e mostra do que o PT é capaz para dourar suas safadezas. Janine, nem em milhares de reencarnações, poderá chegar aos pés daqueles dois e de muitos outros nomes que honraram a educação brasileira.


O desgoverno continua ladeira abaixo na hora de mostrar capacidade. Compara o melhor com a escória e diz reunir as melhores mentes quando forma um batalhão de imbecis e aproveitadores. 

O partido dos últimos dias

Rodando quase 1500 km no estado do Piauí, nem sempre com internet, vivi, como grande parte do planeta, o assombro da queda do avião nos Alpes. Um amigo mostrou um desenho circulando na internet: Lula batendo na porta da cabine de um avião, gritando: “Abra essa maldita porta!” É apenas um dos centenas de memes que circulam na rede. Mas impreciso. Dilma não quer se suicidar, nem deseja nossa morte. Lula, se entrasse na cabine, não teria mais condições de controlar o avião. Os tempos mudaram, e, parcialmente, a crise brasileira é também produto de sua política.

Numa pausa no Hotel Nobre (R$20 a diária com ventilador e R$40 com ar condicionado) abri a janela para noite da cidade de Castelo do Piauí e acho que compreendi melhor o rumo das coisas no Brasil.

Dilma perdeu a iniciativa na política. Quem impõe sua agenda é o PMDB. Pragmático, confuso, controlando o Congresso, o PMDB dá as cartas. Não sabemos aonde quer chegar. Percebemos apenas que marca Dilma para não deixá-la andar.

Dilma perdeu a iniciativa na economia. Foi necessário chamar um técnico, como somos obrigados a fazer quando máquinas e conexões desandam em nossa casa. Joaquim Levy conduz a política econômica, dialoga com o Congresso e, de vez em quando, inadvertidamente, critica a própria Dilma. O programa de isenção para estimular as empresas foi chamado de brincadeira que custou caro.

Numa palestra em inglês, Levy disse que Dilma nem sempre toma o caminho mais fácil para realizar as coisas e, às vezes, não é eficaz. A primeira etapa da frase parece-me até elogiosa: nem sempre escolhe o caminho mais fácil. Esse traço está presente em muitas pessoas que venceram adversidades, ou recusaram caminhos eticamente condenáveis.

Nem sempre somos eficazes como queríamos. Isto é válido para todos, de uma certa forma. O problema é que Dilma é presidente, e Levy, seu ministro.

Ministros não falam assim de seus presidentes, sobretudo quando se encontram isolados, são recebidos com batidas de caçarola ou perdem, vertiginosamente, a aprovação popular, ao cabo de uma eleição cheia de falsas promessas.

Domingo que vem haverá novas manifestações. O tema será “Fora Dilma”. Possivelmente, os manifestantes pedirão que leve o PT com ela.

Na minha análise, Dilma está saindo de forma lenta e gradual. Ao perder terreno para o PMDB, deixa, discretamente a política, onde nunca entrou com os dois pés.

Ao escolher Joaquim Levy e definir um necessário ajuste econômico, perde terreno para o PSDB, que defendia uma correção de rumos.

Resta o campo social, área muito difícil de fazer avançar em tempos de crise econômica. Seu único trunfo é o PT, que combate a nova política e já está pronto a atribuí-la ao adversário, caso fracasse.

Dilma escolheu um novo secretario de comunicação. Ouço alguém dizer na rádio que uma das qualidades de Edinho Silva é acordar cedo e ler todos os jornais. A entrevista não esclarece se ele entende o que lê. Talvez tenha um pouco de resistência a políticos tratados no diminutivo. No entanto, nunca soube dos conhecimentos de Edinho na comunicação. Se as tivesse, já teria sido chamado, pois a crise já dura meses.
Creio que todos esses fatores fazem com que Dilma vá deixando lentamente a cena política, como a luz de um navio visto do cais, distanciando-se num oceano escuro. O partido dela acha, no meu entender com razão, que os mais vulneráveis devem sofrer menos, ganhar um tempo de adaptação à crise. Mas o PT não faz nenhum gesto para reduzir ministérios e demitir os milhares de companheiros que se acomodaram na máquina do governo. Nem tem a mínima ideia de por onde começar a cortar os gastos oficiais. O PT apenas defende os pobres, mas se dedica radicalmente a ampliar a própria riqueza

Leio que numa recente reunião, no mesmo tom militar, o PT afirmou que estava diante de uma campanha de cerco e aniquilamento. Simples assim: estavam marchando pela floresta e, repente, os adversários armaram um cerco de vários anéis. Jamais se perguntam como entraram nessa enrascada. Lula se diz o brasileiro mais indignado com a corrupção que ele mesmo comandou, ao montar o esquema político na Petrobras.

Já não são muitos os que levam Lula ao pé da letra. Alguns petistas bem-intencionados falam que a saída é voltar às origens. No passado, quando nos estrepávamos, sempre surgia alguém dizendo: “Precisamos voltar às origens, reler Marx”.

É uma saída com tintas religiosas. Muitas novas seitas surgiram assim: é preciso reler a Bíblia e dar a ela uma verdadeira interpretação.

Não há livro que salve quando não se examina nem se assume em profundidade os erros cometidos. A história não se explica com categorias religiosas, por mais respeitáveis que sejam os impulsos místicos.

A chamada volta às origens criaria apenas o PT do reino de Deus, o PT dos últimos dias, o PT quadrangular.

Fernando Gabeira

Jogo de cena da maioridade penal

O Brasil parece que não teve nada o que pensar ou fazer melhor na última semana do que discutir a redução da maioridade penal como se fosse o maior dilema do país. O projeto está no Congresso há mais de 20 anos e, de repente, não mais do que de repente, ressurge entre as traças. Abracadabra! Tudo para atender ao chamado "clamor das ruas", que nada mais é do que dar ibope e fornecer palco para os parlamentares em baixa, principalmente da turma afiliada ao PT. 

Quando foi para tratar da maioridade eleitoral, que atendia aos interesses dos políticos, foram rápidos no gatilho. Mas agora embolam legislação, que existe nas melhores democracias do ramo, com problema social e de direitos humanos.

Rosarinho, a toda pura aloprada petista, até se chocou quando soube que a maioridade penal de 16 anos já vigora na imaculada Cuba desde o início do regime de Fidel Castro. Contrária à lei por condenar os pobres e negros, como se lei tivesse conta bancária e cor, repete o discurso surrado de quem defende nos palcos os pobres e negros para roubá-los no bolso. É a cara desinformada de um partido demagógico.A lei é para punir quem comete crime (Quer dizer, no Brasil, depende do crachá, do conta bancária e da cor). Nada mais justo que pague a pena, seja condenado por matar com sangue frio.

Partidários de um governo omisso no problema penal saírem aí alegando que os pobres e negros serão os mais punidos pela redução penal, é jogo de cena. O que querem é encobrir o descaso com que o sistema carcerário e os centros de atendimento dos menores são tratados.

Há um arranca-rabo e ainda não se chegou a consenso sobre sua utilidade. O que se tem de certo é que a redução da maioridade também é uma ação exemplar para reduzir a devastadora sensação de impunidade que assola o país. E isso os parlamentares, que aproveitam os palcos da debater a lei, parada há mais de 20 anos, sabem muito bem que é uma ducha para serenar ânimos, fazer com que todo mundo só fale da redução penal.

Cadeia não é para corrigir nem recuperar para a sociedade. Lá fora riem dessa santa ideia brasileira. Cadeia é punição para quem não sabe agir dentro da lei na sociedade.

Mas aí está o grande dilema: aqui a cadeia não tem condições de receber nem bicho raivoso, o que dirá gente, então o problema é do governo cumprir a lei. E o PT há 12 anos no governo nunca cumpriu qualquer lei sobre as instalações penitenciárias, os centros de recuperação, nem sequer se manifesta quando há rebelião em presídio. Prefere debater, ficar no blábláblá modorrento, e empurrar a efetivação de medidas, porque essas nunca interessam, mas sim o bom discurso "social", do qual os petistas são useiros e vezeiros.

É errado, mesmo mais criminoso, o Estado não fornecer condições dignas de o preso cumprir a pena. Mas isso colocam fora de questão, porque aí quem acaba indo para a prisão é o governo por uma ação promovida pelos detentos. Por isso, estão afirmando que redução da maioridade penal não leva a nada. Mas existe e é cumprida lá fora, porque não tentar aqui e ver os resultados?

Independente da legislação, há que o governo fazer sua parte. Gastar para melhorar as condições penitenciárias, criar centros penais para jovens. Dar qualidade humana ao preso. Aí será pedir demais, gastar dinheiro que serve aos comissionados, aos políticos. Assim não dá. E o PT é o mais bandido dos criminosos brasileiros com ou sem maioridade penal. 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

E agora, camaradas, vamos seguir o exemplo de Cuba?

Os governos do Brasil, Argentina e Venezuela, entre outros que dançavam ciranda-cirandinha com Cuba no Foro de São Paulo, devem estar atônitos.

Toda essa turma dos partidos de esquerda da América Latina formou seus quadros e suas milícias com corações e mentes seduzidos pelo lero-lero de Fidel Castro. Cuba, mais que o modelo, era a inspiração. Era o ponto final da peregrinação. Era Roma, Santiago de Compostela, Jerusalém, Meca das esquerdas ibero-americanas.

Por ali foram e por seus fundamentos andaram os governos de Chávez, Maduro, Kirchners, Evo Morales, Rafael Correa, Lula, Dilma e muitos outros. Depois de uma década, há mais burros n’água do que fora d’água. Aqui na nossa volta, onde a gente acompanha melhor, os três países mencionados acima, os mais ruidosos e ativos no neocomunismo, estão com as respectivas economias aos pandarecos e os governos com o prestígio no chão. Exatamente como Cuba, há mais de meio século, para quem a conhece.

Imagino, então, a surpresa de todos ao verem que os negócios daquela ilha pertencente à firma Castro&Castro Cia. Ltda. passam a ser feitos com o Império, com os ianques, com o grande satã do Norte, sob cujo guarda-chuva passaram a se abrigar os proprietários de Cuba. A imagem da charge acima é simplesmente brilhante!

Percival Puggina

Contra a corrupção, a alternância no poder

Nunca antes na história do país, os brasileiros deram tantos sinais de indignação com a roubalheira generalizada
Poder (Foto: Antonio Lucena )

Em setembro de 2012, um mês e pouco depois do início do julgamento do mensalão, até então o maior escândalo de corrupção da história do país, o ex-ministro da Justiça dos governos Lula, Márcio Thomaz Bastos, advogado de um dos 38 réus, comia uma banana em uma dependência reservada do Supremo Tribunal Federal, em Brasília, quando ouviu a pergunta de um amigo: “O que houve para chegarmos até aqui?”

Thomaz Bastos parou de comer, temperou a garganta e respondeu em voz baixa sem olhar diretamente para o amigo: “Perdemos o controle da situação”.

Seguiu-se um longo silêncio antes que completasse: “Agora, só a alternância no poder poderá acabar com tudo isso”.

O amigo nada mais lhe perguntou. Ele voltou a comer a banana, uma fruta rica em potássio e que faz bem ao coração.

Saudades do mensalão! Movimentou uma ninharia se comparada com os valores desviados dos cofres da Petrobras. De resto, foi um escândalo que se limitou às fronteiras do Congresso e dos partidos.

É verdade que a “sofisticada organização criminosa” que operou o mensalão ambicionava controlar o aparelho de Estado. Foi descoberta a tempo. Dos 38 réus, 24 foram condenados.

O número de envolvidos com a roubalheira da Petrobras chega a 50. Gira em torno de R$ 2 bilhões o dinheiro que serviu para financiar partidos e enriquecer políticos e diretores da Petrobras.

O avanço das investigações da Operação Lava-Jatos reforça a cada dia que passa o sentimento de que a corrupção disseminou-se por toda parte com a cumplicidade dos governantes. E também com a decisiva ajuda de bancos e de empresas que sonegam impostos.

O PT dirá junto com a presidente Dilma Rousseff que a corrupção é uma velha senhora que nunca vai embora.

Ocorre que nos últimos 12 anos, ela foi uma senhora que engordou alimentada pelo projeto do partido de não se afastar do poder. De evitar por todos os meios legítimos ou não a alternância no poder, única saída sugerida por Thomaz Bastos para a situação que atravessamos.

Dalton Avancini, presidente da Camargo Corrêa, uma das 14 empreiteiras que pagaram propinas para fechar negócios com a Petrobras, confessou à Justiça que sua empresa fez a mesma coisa para executar obras na Ferrovia Norte-Sul, iniciada em 1987 ainda durante o governo José Sarney. Quando concluída, ela terá 4.155 km e cortará 10 Estados. Um banquete para apetites insaciáveis.

As principais empreiteiras do país formaram um cartel para operar trechos da ferrovia. Houve também superfaturamento de contratos com a doação legal e ilegal de dinheiro a partidos e políticos.

Petrobras, Ferrovia Norte-Sul... O que mais? Ah, sim, a Usina de Belo Monte, no Sul do Pará, uma obra orçada em R$ 19 bilhões. Ali funcionou o mesmo modelo nefasto de atuação das empreiteiras.

Thomaz Bastos não era inocente a ponto de pensar que a alternância no poder fosse capaz por si só de pôr um fim à corrupção.

O que ele quis dizer, segundo o amigo que o interrogou, foi que a alternância desmonta ou enfraquece esquemas de corrupção em pleno funcionamento. Até que outros venham a substitui-los, se vierem, levará muito tempo.

Nunca antes na história do país, os brasileiros deram tantos sinais de indignação com a roubalheira generalizada.

Quem sabe não estamos às vésperas de mudanças de comportamento que afetarão certamente o que hoje se pratica à luz do dia, sem a mínima inibição, pudor ou receio, amparado na certeza de que ao fim e ao cabo a impunidade prevalecerá?

É preciso tirar as pessoas da miséria sem se aproveitar delas


Aqueles que dizem defender as camadas mais necessitadas da sociedade agora falam em ódio social. É a forma de se defenderem dos equívocos que cometeram na busca de ajudar os irmãos, fizeram tudo só para si e fugiram de suas reais responsabilidades.

Primeiro, eram contra os governos que “distribuíam esmolas”. Lula até denunciou isto. Quando chegaram ao poder, porém, não apenas mantiveram a prática que maldiziam, mas aumentaram as “esmolas” e não deram seguimento a segunda etapa que também cobravam dos outros: a reciprocidade. Diziam que era necessário oportunizar a melhoria cultural e intelectual dos carentes como única maneira destas camadas se livrarem das esmolas. Mas quantas famílias foram recuperadas? Basta pegar o cadastro atual e compará-lo com as relações dos últimos 15 anos.

Para o PT, os pobres servem de escada para o poder. Alimentar os carentes e mantê-los vivos é a tarefa de primeira necessidade, para ambos os atores: os beneficiados com o “bolsa” e os beneficiados com os votos.

O discurso do ódio quem fomentou e fez crescente foi o próprio PT. Afinal, o que os petistas querem? Mais Petrobras? Mais BNDES? Mais urnas eletrônicas inconfiáveis? Mais vagas no Judiciário?

É preciso que os petistas façam um exame de consciência e assumam sua parte na corrupção que aí está. Há quem não tenha participado? Claro que sim, até acredito. Mas todos ajudaram a construir a máquina que se apoderou do Estado brasileiro para fundir a corrupção à estrutura pública e tudo o mais. Esta é a realidade.

Hoje, não basta tirar Dilma Rousseff. É muito pouco. Quem assumir terá de se comprometer com uma devassa no setor público nacional. E o mesmo deverá ser feito nos estados e municípios. É o que se espera.

Mudam-se os tempos...


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soia.
Luís de Camões

Rombo na caverna do Ali Babá

A febre privatizante dos tempos do governo Fernando Henrique chegou às raias da irresponsabilidade, conforme afirmação de um de seus ministros. Era preciso facilitar o financiamento de grupos privados empenhados em adquirir patrimônio público, já que dinheiro eles tinham muito pouco. O BNDES abriu seu cofre, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, também, mas mesmo assim não dava. Os compradores queriam comprar patrimônio público com dinheiro público, um negócio pirata que nenhuma CPI conseguiu investigar, porque quem mandava no Congresso eram os tucanos.

Para fechar a lambança, alguém lembrou dos fundos de pensão das estatais, verdadeiras fortunas amealhadas com a poupança de dezenas de milhares de funcionários que todos os meses contribuíam com parte de seu salário, imaginando dispor de uma aposentadoria mais justa, complementar. Era o governo que designava os gestores desses fundos, tornando-se fácil que se dispusessem a aplicar o vasto montante sob seu controle onde o palácio do Planalto mandasse, como nas privatizações.


Veio o governo do PT, passando a nomear companheiros para presidir os fundos, e a prática continuou. Claro que não mais para impulsionar as privatizações, mas para onde o Lula e sua turma indicassem. Acudir projetos oficiais, ajudar grupos em dificuldades e, certamente, partidos políticos. Não se tratava apenas de encontrar boa destinação para garantir o futuro dos funcionários das estatais, pois os empréstimos produziam juros, mas, em especial, socorrer empreitadas duvidosas e amigos em dificuldade. Com a eleição de Dilma, tudo continuou como antes. Os fundos de pensão eram a caverna do Ali Babá, onde os detentores do poder iam encontrar recursos mais do que vultosos, destinando-os às suas aventuras e fracassos.

O escândalo estourou semana passada. Os fundos dos funcionários dos Correios, da Petrobrás, da Caixa Econômica, do BNDES, do Banco do Brasil e de muitas outras empresas públicas investiram em bancos falidos, obras inviáveis e aventuras descabidas, até no exterior, tudo por ordem lá de cima. Resultado: estão falidos. O dinheiro das aposentadorias sumiu. Os funcionários atuais precisarão contribuir com adicionais extras, também tirados de seus salários, para tentar a recuperação de seu futuro. O total do rombo ultrapassa os 30 bilhões de reais.

Trata-se de um logro monumental. Uma vigarice que nada fica a dever a mensalões e petrolões. Com a diferença de que a Polícia Federal e o Ministério Público não podem entrar nesse sistema fechado de previdência complementar. A lei dispõe que os fundos são investidores de longo prazo, correndo riscos como os demais. Azar de seus funcionários…

Carlos Chagas

É preciso criticar ainda mais


Nunca na historia deste país (obrigado, Lula, pelo chavão) o brasileiro apanhou na cara desde que acorda. Nem escapa de pesadelos aterradores: fome, doença para ser atendido no SUS, desemprego eterno, inflação "galopante", assaltos de mascarados do Planalto, cavaleiros políticos do Apocalipse.

Acordou, ligou o rádio, a tevê, o computador, o smartphone, e aí vem a escarrada na cara de quem trabalha, sua e é condenado a pagar o pedágio de viver à milícia governamental.

Em país sério, ou a cambada de canalhas faria seppuku, ou arrumava as malinhas correndo para entrar no xilindró. Fariam tudo rapidinho porque os cidadãos já sairiam de casa armados para começar uma revolução. Todo pronto para um dia (ou uma semana, ou um mês) de fúria. Cada um por si mesmo seria bomba humana partindo para o quebra-quebra, marchando em bloco de manifestação contra as arbitrariedades ou a bandidagem governamental.

Aqui depois de socos na boca do estômago, das taponas e das escarradas cretinas na cara, o brasileiro sai engolindo as ofensas à sua dignidade de trabalhador. E pelas ruas, espremido em transporte público, com o salário minguando, engarrafado com o carro que está pagando cada vez mais caro, baixa a cabeça de um torturado, escravo de poderes de uma gangue que assalta o país.

Vai cada um, aos poucos, engolindo os sapos que lhe enfiam goela abaixo. De povo cordial, como fazem acreditar – e ele acredita -, passa a povo acomodado, cabisbaixo diante do Poder, enfraquecido pela praga política. Escorraçado.

Direis, mas o povo vai às ruas! Vai, bem menos do necessário para pressionar efetivamente um governo desgovernado. Ainda é preciso bem mais, insistentemente, por todas as vias, repudiar todos os cretinos, do partido que for, de direita, esquerda ou os costumeiros de cima do muro. Denunciar com fotos a porcaria que nos oferecem como maravilhas, obras de milhões que fedem longe como outras galhofas. Gritar nas redes ainda mais, promover panelaços de ensurdecer o surdo poder. Não temer a bandidagem política, porque somos donos de nós e livres, dignos, o que não são nem serão.

O cecê dos idiotas

Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos
Nelson Rodrigues

Lula e Dilma no papel de 'Exterminadores do Futuro'



O ex-presidente Lula e sua criatura, Dilma Rousseff, vêm acusando cada vez mais o golpe que se auto-infligiram nos últimos anos, com escândalos no campo criminal e atrocidades na economia.

“O PT não pode ficar acuado diante dessa agressividade odiosa”, disse Lula nesta semana. E conclamou dirigentes do partido a aprofundar relações com movimentos sociais como CUT e MST.

O isolamento de Lula e do PT fica evidente quando apelam a movimentos que defendem justamente o contrário do que a presidente diz que vai fazer.

Dilma recriada pelo ministro Joaquim Levy (Fazenda) agora promete um “grande corte” nos gastos públicos. E só, não passa disso. “Agora é nossa vez, vamos conter os gastos”, diz a presidente.

É a mesma pessoa que em 2005 (na Casa Civil) tachou de “rudimentar” proposta de equilibrar o déficit público no longo prazo e que, nos últimos 12 meses, permitiu que ele dobrasse.

Os movimentos de Lula e Dilma mostram o tamanho do atraso político e econômico em que estão metidos. Como ficaram ultrapassados e estão caindo de podres.
Anacronismo de Lula ao apelar para o “exército” datado do MST de João Pedro Stedile em oposição a manifestações de rua gigantescas; e derrota total de Dilma ao enterrar sem cerimônia toda e qualquer agenda sua para dar carta branca a um ministro que considera que ela age “não da maneira mais efetiva”.
No caso da presidente, a “tomada de poder” por Eduardo Cunha (na Câmara) e Renan Calheiros (no Senado) tem menos a ver com sua irrisória popularidade do que com um vácuo total de agenda e ideias para o país.

Depois de 30 anos de redemocratização e 20 de estabilização econômica é como se chegássemos no futuro voltando ao passado. E sem projeto de futuro.

Fernando Canzian

Se Deus quiser

A gente vai continuar comendo doce que nem criança em festa, como vamos almoçar sempre com o saleiro à mão, fechando os olhos para saborear a gordura da picanha, mas esperamos continuar com saúde se Deus quiser. Porque Deus ia querer maltratar os filhos seus?

Se Deus quiser vamos continuar comprando muita loteria, com esperança de um dia ganhar e, além de recuperar tudo que gastamos, ficar tão ricos que gerente de banco vão nos chamar de vossa excelência. Não é que a gente anseie ficar rico, é que temos muita esperança em Deus.Vamos continuar saindo em cima da hora para encontros e reuniões e, apesar do trânsito cada dia pior, e apesar dos imprevistos que o diabo manda, vamos chegar sempre pontualmente, se Deus quiser.

Como vamos deixar para amanhã tudo que podemos fazer hoje mas, se Deus quiser, no fim vai dar tudo certo.

Vamos obedecer à preguiça, porque Deus não pode ter criado à toa uma coisa tão gostosa, e assim iremos deixando de conversar sobre os problemas que surgem com a mulher, os filhos e os vizinhos, na esperança de que os problemas se irão como o nevoeiro da manhã, e no dia seguinte tudo estará limpo, se Deus quiser.

Também não iremos à reunião do condomínio nem da associação de pais e mestres porque, por Deus, coisa mais chata não há, e pode deixar de ir porque sempre tem quem vá, graças a Deus.

Não vamos beber e dirigir, vamos beber e deixar Deus dirigir, temos muita confiança em Deus.

Não vamos nos esforçar no trabalho nem nos aperfeiçoar – pra que? – se na vida a gente tem o que Deus mandar.

Quando alguém disser “se Deus quiser”, vamos interpretar como apoio a tudo que também esperamos de Deus, e vamos nos sentir como irmãos dessa pessoa tão boa para nós, pensando ah, Deus esteja conosco.

Se não soubermos responder alguma coisa, diremos “sabe Deus” e ficaremos em paz com a consciência.

Nas carências, diremos “Deus há de prover”, e deixaremos o problema em suas mãos, pois quem mais poderoso para tudo atender?

Se pecarmos, será porque Deus não ouviu quando pedimos “não nos deixeis cair em tentação”.

E, quando seguirmos o exemplo de Judas, será porque também Deus não ouviu quando pedimos “livrai-nos de todo mal”.

Quando errarmos, não pediremos desculpas e muito menos consertaremos, pois Deus tudo perdoa e tudo Deus conserta desde Adão, não?

Mas Deus que se cuide porque, se tudo der errado e a gente ficar muito mal, botaremos a culpa em Deus, que afinal tudo pode, então porque não pôde fazer mais por nós?

E o pior é que Deus nem responde, Castro Alves já clamava: Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?

Mas, por enquanto, e na falta de opção melhor, seguimos confiando: seja o que Deus quiser.