quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O Haiti é aqui?


Ao congregar sob um só comando Estado, governo e administração, na figura onipotente da presidência da República, nosso modelo institucional produz um grave déficit democrático e um enorme ônus aos pagadores de impostos. Essa fusão só pode dar confusão. A função governo, que é transitória, deve ser partidária. Nisso andamos certos. Mas constitui um completo disparate partidarizar e aparelhar, simultaneamente, o Estado e a administração. Estes, são permanentes.

A partidarização do Estado, vou ficar com este fio do problema, tem determinado as grandes trapalhadas da nossa política externa. Aponto, entre muitos outros, os casos com Honduras, Paraguai, Bolívia, Israel, Itália, Cuba, Irã e Indonésia. Em todos esses, e em muitos outros, ou o Brasil transpassou, varou, o princípio constitucional de respeito à soberania das demais nações ou foi na contramão das melhores tendências internacionais. Isso para não falar na magnanimidade dos governos petistas para com ditadores africanos e sul-americanos, malbaratando recursos nossos em nome da ambicionada cadeira no Conselho de Segurança da ONU.

Andando por esses descaminhos ideológicos, seguindo a cartilha do Foro de São Paulo, o Brasil foi parar no Haiti. Corria o ano de 2004 e a ONU criara o MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para estabilização do Haiti). Transcorreu uma década, o Brasil comanda a missão, e já enviamos ao Haiti mais de 30 mil homens. E agora? Bem, agora a recíproca revelou-se verdadeira. Agora, o Haiti é aqui.

Vinte mil haitianos aparecem no Acre. No Acre? Sim, o governador do Acre é petista. A revista Veja, em 2/02/2014, assim descreve a rota dos haitianos: “Até cruzar a fronteira do Brasil, os haitianos viajam dias a partir da República Dominicana, país vizinho ao Haiti. De lá, embarcam para o Panamá e para o Equador, que não exige visto de entrada. Alguns permanecem no país por algum tempo até juntar dinheiro para o resto da viagem. De Quito (Equador), cruzam o Peru até a cidade de Puerto Maldonado, onde atravessam de carro a fronteira do Brasil e chegam à cidade de Assis Brasil (AC). A corrida de táxi até Brasileia custa 20 reais.”

Do Acre, os haitianos dirigem-se, preferentemente, para São Paulo, não por acaso, cidade administrada pelo PT, o que deixa essa longa história, do início ao fim, sob orientação de certa diretriz partidária. Todas as informações que se têm sobre a recepção aos haitianos não permitem um louvor à dedicação humanitária de quem lhes abriu nossas portas. Se o país os acolhe num gesto humanitário, não é correto tratá-los miseravelmente. E eles estão submetidos a condições inumanas de recepção e encaminhamento.

O governo já anunciou que está em elaboração uma Lei de Migrações, para substituir o Estatuto do Estrangeiro, atualmente em vigor. Mas parece que antes de sair a lei já sepultou o Estatuto, segundo o qual a “imigração objetivará, primordialmente, propiciar mão-de-obra especializada aos vários setores da economia nacional, visando à Política Nacional de Desenvolvimento em todos os aspectos e, em especial, ao aumento da produtividade, à assimilação de tecnologia e à captação de recursos para setores específicos“.

Nada justifica acolher os haitianos para, depois, jogá-los à própria sorte, dispersos num país de proporções continentais. Os petistas administram as questões internacionais com o mesmo desleixo com que tratam das questões nacionais.

Queda de braço


Dilma fez como Ali Babá e reuniu 40 ministros


Um ministro anuncia uma coisa, logo é desmentido pelo Planalto ou por outro ministro. A confusão é geral é só faz aumentar. Ainda não satisfeita em ter 39 ministros, a maioria sem a menor expressão ou importância, a presidente Dilma Rousseff já elevou este número para 40, porque o assessor especial Marco Aurélio Garcia, tido como consultor da Presidência para Assuntos Internacionais, conquistou assento permanente junto aos demais e participa das reuniões ministeriais.

Mas esse espantoso número passa a 41 quando se entende que o marqueteiro João Santana também merece idêntica qualificação de ministro sem pasta. Na verdade, deveria até ser considerado como principal ministro, uma espécie de Rasputin imberbe, pois é o único que consegue ser escutado com atenção por Dilma Rousseff, que acata sem discutir todas as sugestões dele, embora algumas tenham sido inteiramente idiotas, como vazar para a mídia que a presidente Dilma costumava andar sozinha de motocicleta por Brasília, à noite.

No dia seguinte, vergonhosamente o Planalto teve de desmentir a falsa notícia, porque Dilma não tem habilitação nem sabe dirigir motocicleta. Foi patético, porque, na tentativa de desfazer a mancada de Santana, a Secretária de Comunicação Social então inventou que a presidente andava de carona na moto do então secretário-executivo da Previdência Social, Carlos Gabas, que amavelmente se apressou a confirmar a veracidade da informação. E todos puderam imaginar a cena daquela volumosa senhora esforçando para subir na garupa de uma motocicleta para se abraçar fortemente a um jovem funcionário do governo, pelo simples prazer de dar um passeio pela capital…

Santana é um excepcional marqueteiro, mas se alimenta muito da criatividade alheia, ao imitar ideias e situações. No caso do passeio de moto, por exemplo, ele copiou descaradamente o jornalista Said Farah, que era ministro da Comunicação do general João Figueiredo. Para popularizá-lo, Farah espalhou a notícia de que o então presidente gostava de andar de moto sozinho em Brasília, à noite, e divulgou até uma foto dele, a caráter.

Depois, Santana imitou também Ulysses Guimarães e fez Dilma se referir ao “Velho do Restelo”, o personagem de Luís de Camões que tentou evitar a viagem de Vasco da Gama. A presidente da República absurdamente aceitou a sugestão e tentou aparecer como conhecedora das Lusíadas, como se realmente tivesse esse tipo de cultura literária, vejam a que ponto os marqueteiros chegam.

Em outra ocasião, Santana inventou que Lula passara a ler livros e teria até adorado a tradução da biografia de Abraham Lincoln escrita por Doris Kearns Goodwin. Lula gostou da ideia e deu declarações sobre a obra, destacando um episódio em que Lincoln estava numa estação de telégrafo. Só que, ao fazê-lo, Lula disse que o presidente americano estava usando o “telex”, ao invés de telégrafo. Mas o pior da estória é que esta cena não existe no livro, mas apenas no filme de Steven Spielberg, e foi criada pelo roteirista Tony Kushner. Ou seja, Lula apenas viu o filme, foi tirar uma onda de que teria lido a biografia e quebrou a cara.

Esses episódicos erros de Santana são desqualificantes, mas nada consegue reduzir o prestígio do marqueteiro no Planalto e no Instituto Lula, porque ele realmente funciona no que é mais importante – vencer eleição.

Quanto ao outro ministro sem pasta Marco Aurélio Garcia, é o contrário do marqueteiro, pois tudo que o assessor de Assuntos Internacionais faz dá errado. É da inspiração dele, por exemplo, a abertura de embaixadas e consulados em países e cidades sem importância. Com isso, aumentou os gastos do Itamaraty inutilmente, fazendo os diplomatas passarem vergonha no exterior, com credores batendo à porta a todo momento e a imagem no Brasil denegrida no plano internacional.

Quem aceita um assessor desse nível decididamente nem precisa de inimigos. Mesmo assim, a presidente Dilma continua ouvindo os conselhos de Garcia e lhe dá assento nas reuniões ministeriais.

Como todas as anteriores, a primeira reunião ministerial do segundo mandato da presidenta Dilma foi totalmente improfícua. A governante (ou seria governanta, como sugere a comentarista Teresa Fabricio?) demonstra tanta consideração com os ministros que marcou a reunião para as 16 horas, para que tivesse a menor duração possível. Isso significa que praticamente só quem falou foi ela, a quase totalidade dos ministros fez como figurante de novela, que entra em cena mudo e sai calado.

Reunir 39 pessoas (na verdade 40, contando com o “ministro sem pasta” Garcia) é de uma inutilidade constrangedora. Se tivesse o mínimo de conhecimento de técnicas de Administração, a suposta “doutora” pela Unicamp saberia que os ministros precisam ser reunidos por grupos. O mais importante deles seria formado por Fazenda, Planejamento, Desenvolvimento e Banco Central. Dependendo do tema, poderia incluir Agricultura, Relações Exteriores, Turismo, Micro e Pequena Empresa e até Transportes e Portos, em função da importância crescente da logística no desempenho da economia.

Outro grupo seria formado por Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia, Esporte e Desenvolvimento Social. Mais um grupo, integrado por Defesa, Relações Exteriores, Assuntos Estratégicos, Aviação Civil e Segurança Institucional, incluindo os três comandantes das Forças Armadas.

E por aí em diante. Mas quem se interessa por governar de uma forma racional e eficiente?

Carlos Newton

Comperj: duas versões do mesmo ex-secretário

Por falta de vergonha na cara, os políticos brasileiros não passam fome. Sobrevivem a qualquer cataclisma, desastre atmosférico, sobrenadam em alagamentos e têm piscinas cheias quando da seca. Qualquer assunto é motivo para tirarem o sustento de aparecerem nas páginas dos jornais, nas homepages, como homens (ou mulheres) dedicados à causa pública, defensores incondicionais do povo. A cara de pau é lustrada com óleo de peroba importado.

“Já falta água hoje, imagina com o Comperj? É certo que irá faltar muita água. Imagina com as centenas de milhares de pessoas que estão chegando em Itaboraí, São Gonçalo, Magé e outras, devido ao complexo? ”,

A declaração acima é um exemplo dessa cretinice política. Revela o deputado estadual do Rio de Janeiro, Carlos Minc (PT), criticando o secretário estadual do Ambiente, André Corrêa, ao pedir que a população do estado economize água.

Segundo Minc, em 2008, foi encomendada uma avaliação ambiental estratégica da licença do Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj), e foi constatado que para resolver o problema de recursos hídricos na região, a capacidade do sistema Imunana/Laranjal deveria aumentar 70%, passando de sete pra 12 metros cúbicos por segundo, já esquecida. A construção do reservatório deveria ser feita pelo governo. No entanto, ainda de acordo com Minc, então secretário estadual, as conversas caíram no esquecimento.

O que não lembrou em sua grande defesa da população é que foi por duas vezes secretário do Meio Ambiente, na gestão Cabral, e ministro do mesmo setor, desde 2009, no governo Lula. Na época defendia o mesmo complexo com ferocidade petista. Minc declarava que “o licenciamento ambiental da obra, feito pelo Instituto Estadual do Meio Ambiente, é considerado modelo. Ocorreram cinco audiências públicas e o impacto ambiental foi avaliado de maneira adequada”. Em nenhum momento, como governo, advertiu sobre o prejuízo do Comperj às populações.

A crítica de agora é uma forma de se eximir de qualquer culpa quando era governo ou mesmo se esconder no emaranhado de crimes perpetrados contra a população como a atual da seca. Como um ex-ministro e duas vezes secretário no Rio de Janeiro não sabia o que acontecia nos reservatórios cada vez mais vazios? Minc não teria informações privilegiadas de que estavam corretas as previsões de queda no volume de chuvas desde 2012? E as suas declarações bombásticas anunciando, por exemplo, saneamento em Maricá, em 2013, quando sequer existe estação de tratamento ou rede de esgotos? Portanto, como governo, também escondeu do contribuinte informações importantes e sequer avisou que estávamos em situação crítica.

O petista esquece do seu passado no meio ambiente fluminense, que não teve qualquer ação contra o péssimo abastecimento da Cedae? E o que falar das defesas constantes que fez da administração municipal concedendo licenças ambientais para construção de inúmeros condomínios numa região sem água e esgoto?

As declarações de agora são mais uma cortina de fumaça, típica da demagogia, para esconder o passado tenebroso de atitudes nada favoráveis à população, mas que no momento serviam aos interesses tanto governamentais quanto da Petrobras. Afinal o Comperj é mais um daqueles elefantes brancos típicos da ditadura mais para angariar popularidade de abertura de empregos do que efetivo desenvolvimento, porque o estrago ao redor é maior do que o benefício.  

Vídeo divulgado em 2013 com o então secretário do Meio Ambiente, mas que agora o Google informa: "Os comentários estão desativados para este vídeo"

Lula pretende a revolução cultural?


Anuncia o Lula a intenção de promover uma reforma estrutural no PT. Começa pelo cumprimento efetivo das quotas de participação, ou seja, a obrigatoriedade de serem escolhidos para funções de direção nos municípios, estados e no plano federal, 50% de mulheres, 20% de jovens e 20% de negros. O ex-presidente critica a direção centralizada e pretende a renovação dos quadros.

Significa o quê, esse posicionamento? Primeiro, uma declaração de guerra a Dilma Rousseff. Se o PT precisa de reformas é porque a presidente, cujo governo domina mais da metade dos companheiros, impõe diretrizes que isolam o ex-presidente. Nunca é demais buscar lições na História. Na China, Mao-Tsetung estava isolado, afastado das decisões, mera figura decorativa. O poder repousava nas mãos de Liu-Xaochi, Teng-Xiauping e outros moderados. Mao criou a Revolução Cultural, virou o país de cabeça para baixo e voltou a exercer o comando. Liu foi degradado, Teng refugiou-se num comando militar do interior e, por sinal, voltou com toda força depois da morte de Mao, para sepultar a Revolução Cultural.

Guardadas as proporções, o Lula ainda não perdeu de todo o poder, mas se não reagir, como agora parece estar fazendo, torna-se apenas um mito reverenciado mas ultrapassado. Daí a ênfase que pretende dar à renovação dos dirigentes do partido, manobra capaz de atingir o verdadeiro objetivo, no caso, reconduzir o PT às suas origens. Quais? A defesa de reformas socializantes em condições de bater de frente com a linha neoliberal e conservadora adotada pela sucessora.

Na verdade, o que precisa mudar no PT é o seu conteúdo.A legenda ficou igual às demais, um aglomerado de petistas buscando ocupar cargos, funções e espaços que os beneficiem pessoalmente, sem fazer conta dos ideais um dia proclamados de mudar a sociedade através das reformas envolvendo a justiça social, a igualdade, a extirpação da miséria e da pobreza, o fim dos privilégios das elites e sucedâneos.

Se o Lula obterá a vitória, como Mao a obteve, é um ponto de interrogação, até sob o risco dos monumentais excessos e retrocessos que a China enfrentou com seus Guardas Vermelhos, afinal contidos. Uma evidência, porém, sobressai entre outras: vem por aí uma luta de foice em quarto escuro entre ele e Dilma.

Carlos Chagas 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A violência mais perigosa

O mais grave da violência é que nos acostumemos a conviver com ela como se fosse uma triste fatalidade
Já não é segredo para ninguém que o Brasil é hoje um dos países mais violentos do mundo. Os meios de comunicação se encarregam de dar os números que crescem a cada dia. Os assassinatos já superam os 53.000 anuais, a maioria de jovens negros ou mulatos e pouco escolarizados. Por isso chamam menos a atenção?

Há, no entanto, uma violência ainda pior: que nos acostumemos a conviver com ela como se fosse uma fatalidade.

Os cidadãos percebem a violência na pele, em seu cotidiano. No Rio, em oito dias, as balas perdidas causaram sete mortes, principalmente de crianças. Na mítica praia de Copacabana, as autoridades tiveram de levantar torres de observação para vigiar a formação de arrastões, bandos de jovens que chegam para assaltar os banhistas.

Nos ônibus que levam as pessoas dos subúrbios às praias nobres do Rio, a polícia está agindo de surpresa para deter suspeitos que poderiam ir até elas para assaltar os turistas. Os mais vigiados continuam sendo os mais pobres, identificados como violentos potenciais.

As pessoas de bem da nobre zona sul das praias cariocas chegaram a pensar em isolar essas praias, obrigando a pagar para poder desfrutar delas, em uma tentativa de afastar as classes mais baixas.

E não só no Rio. Hoje, mesmo em balneários até ontem tranquilos no nordeste do país, em praias paradisíacas e isoladas, a violência está chegando. Como em Búzios, meca do turismo internacional, onde aumentam os assaltos a pessoas e residências e onde a polícia agora vigia praias nas quais até agora parecia impossível pensar em ser assaltado.

A violência é contagiosa e qualquer um pode receber dois tiros mortais de um policial como resultado de uma simples discussão na rua.

Se a violência física (sobretudo nas grandes metrópoles) continua crescendo, existe no entanto uma violência mais perigosa, que é a de considerá-la parte da vida dos cidadãos, quase sem assombro, até com resignação. “Só espero que não chegue até mim”, dizia uma senhora bem de vida de São Paulo. É como uma loteria ao contrário. Jogamos todo dia para que não nos alcance.

Nenhum presente melhor para os que governam o país do que essa espécie de vacina contra a indignação diante de tanta violência gratuita.

Leia mais o artigo de Juan Arias

Sem preço

Não tem preço ver petistas da gema estupefatos. Sem voz. Como Dilma
Ricardo Noblat

O ministério da soneca


Entre uma campanha e outra, Napoleão fez mais pela França com a pena do que com a espada. Diante da confusão de regulamentos e leis regionais, decidiu botar ordem nas relações entre os cidadãos e entre eles e o Estado. Reuniu uma comissão de notáveis para preparar o Código Civil unificado. Depois de pronto, com 2.281 artigos, foi denominado de Código Napoleônico, exemplo até hoje seguido por muitas nações modernas. Por ironia, eram 39 os participantes da monumental tarefa, que o Imperador presidia de manhã, à tarde e quase sempre à noite, quando exauridos e fatigados, muitos cochilavam. Mola mestra dos trabalhos, o Corso não perdoava, exortando-os com um apelo: “Vamos, cavalheiros, ainda não ganhamos os nossos salários…”

Reúne-se hoje pela primeira vez o novo ministério da Dilma, por ironia contando com 39 ministros. Vão trabalhar pela manhã, presume-se que de tarde também, mas de noite, nem pensar. O que não impede que muitos tirem sua soneca vespertina, embalados pelas palavras da chefona e, com certeza, de alguns condenados escolhidos para expor planos e programas. Parece impossível que os 39 disponham de tempo para se fazer ouvir, hipótese que levaria a reunião ministerial até o dia seguinte. Com a natural tendência ao sono, quantos não resistirão? Até porque, ao contrário dos notáveis de Napoleão, a maioria dos presentes da reunião já em andamento nada teria a relatar ou sugerir, convocados por injunções partidárias fisiológicas, sem maior intimidade com os temas afetos aos respectivos ministérios. Essas contradições fluem para uma única semelhança entre a Brasília de hoje e a Paris de ontem: quantos dos presentes à reunião ministerial poderão dizer que estão ganhando os próprios salários?

Em toda a crônica recente jamais se viu um grupo tão heterogêneo, insosso, amorfo e inodoro. Excetuando-se aqueles aos quais a presidente da República penalizou com a missão impossível de consertar a economia e as finanças públicas sem arcar com a impopularidade, os demais apenas ornamentam a paisagem. Por isso, sem dúvida, será razoável o número dos que estarão cochilando. Sem ter ganho os salários, vale repetir…

Para ficar na referência a Napoleão, importa registrar uma de suas máximas fundamentais: “um governante deve ser mais temido do que amado”. Será essa a diretriz adotada pela presidente Dilma? Saberemos se a reunião ministerial de hoje tiver sido televisada ou ao menos aberta à imprensa. Caso contrário, pela inconfidência dos presentes, quinze minutos depois.

Redução da pobreza estagnada em 2014


Segundo a Cepal, percentual de pessoas em condições de pobreza ficou estável em 28%, enquanto miséria aumentou
A pobreza na América Latina está estagnada há dois anos, segundo dados divulgados ontem pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Destes, 71 milhões, ou 12% dos habitantes da região, estão na extrema pobreza. De acordo com o estudo, 28,1% dos habitantes da região — o equivalente a 167 milhões de pessoas — ainda viviam em condições de pobreza no ano passado, mesmo percentual registrado em 2012.

Já a extrema pobreza na América Latina aumentou de 11,7%, em 2013, para 12%, em 2014. Segundo a secretária-executiva da Cepal, Alicia Bárcena, a alta dos preços dos alimentos e a desaceleração econômica da região são alguns dos fatores para essa estagnação.

— A pobreza persiste sendo um fenômeno estrutural e, desde 2012, a redução da pobreza estancou-se.

Para Alicia, a recuperação da crise financeira internacional “não parece ter sido aproveitada suficientemente para o fortalecimento de políticas de proteção social que diminuam a vulnerabilidade diante dos ciclos econômicos.” Segundo ela, em um cenário de possível redução dos recursos fiscais disponíveis na região, são necessários mais esforços para assegurar as políticas sociais.

No Brasil, de acordo com o organismo regional, a pobreza caiu de 18,6% da população, em 2012, para 18%, em 2013. Já a extrema pobreza aumentou: de 5,4% para 5,9%.

Segundo o diretor do escritório da Cepal no Brasil, Carlos Mussi, dos cerca de 34 milhões de brasileiros que estão na pobreza, 11 milhões estão em situação de extrema pobreza.

— O aumento dos preços dos alimentos tem impacto forte na indigência no Brasil e na América Latina. Ainda que o mercado de trabalho brasileiro tenha seu dinamismo, este vem diminuindo — disse Mussi.

Leia mais a reportagem

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

E se os governantes deixassem Deus em paz?


Toda vez que os governantes, por exemplo na América Latina, se veem em apuros e não sabem como resolver um problema (muitas vezes criados por eles mesmos) invocam a Deus para que lhes facilite as coisas. Ou melhor, tentam convencer os cidadãos de que, no fim, será a providência divina quem irá tirar o pai da forca.

Na mesma semana, fizeram isso o recém-empossado Ministro de Minas e Energia do Brasil, Eduardo Braga, e o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.

Só porque o crescimento está à beira da recessão, como confessou com realismo em Davos o ministro da Economia, Joaquim Levy, é que o Brasil ainda não sofre racionamento de luz.

No entanto, o novo ministro Braga tranquilizou o país com essas palavras: “Deus é brasileiro e vai fazer chover e aliviar a situação”. Ao que parece, os técnicos de seu ministério “ficaram de cabelo em pé” ao ouvir o ministro, como escreveu um jornal brasileiro.

Em seus escritórios e dormitórios, os políticos são livres para cultivar suas devoções religiosas. O ideal, no entanto, é que deuses e santos fiquem ali, na intimidade

Quase lhe fazendo eco, na Venezuela o presidente Maduro, diante do problema da queda dos preços do óleo cru que tanto está afetando a já martirizada população, pediu aos venezuelanos que não se preocupem, pois “Deus proverá. Ele jamais faltou à Venezuela”.

Diante desse uso político do religioso por parte dos governantes incapazes de resolver eles mesmos os problemas de seu país, seria o caso de perguntar: por que não deixam Deus em paz?

Deus, para os que nele creem, não pode ser um coringa, sempre disposto a resolver os erros e incapacidades dos políticos.

Essa não é a função da fé e também não corresponde aos ensinamentos básicos do cristianismo, no qual tanto o ministro brasileiro como o presidente venezuelano se inspiram.

Ambos poderiam recordar que, nas Escrituras, Jesus respondeu a quem tentava envolvê-lo nos assuntos profanos da política com a frase que se tornaria célebre: “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Que os governantes se preocupem em resolver os problemas para os quais foram nomeados sem refugiarem-se nos braços de uma divindade e que deixem Deus em paz, pois sua missão nada tem a ver com os problemas dos políticos e menos ainda com suas insuficiências, erros e corrupções.

A fé dos que creem e a não fé dos agnósticos e ateus é muito mais importante, séria e pessoal do que os jogos do poder temporal.

Leia mais o artigo de Juan Arias

Precisa-se


Precisa-se de uma bola de cristal
que mostre um futuro grávido de paz:
que a paz brilhe no escuro
com o brilho especial que algumas
palavras possuem
mas que seja mais do que a palavra,
mais do que promessa:
seja como uma chuva que sacia a sede da terra.
Roseana Murray

O paredão hídrico


O brasileiro está refém da água. Tem que economizar devido ao volume baixo, baixíssimo, dos reservatórios; e tem que reduzir os gastos de energia, em pleno calor senegalesco, porque as usinas estão com reservatórios em baixa. Sem ela, não se bebe, mas também não se tem energia para encher as caixas de água.

No paredão, o brasileiro nem sabe a quem rezar. Deus tem mais o que fazer do que fabricar água para a glória dos governos brasileiros, que há anos se lixam para os empreendimentos em hidrelétricas e reservatórios. Passaram no mínimo dois anos garantindo, com a falta de transparência costumeira, metáfora para descaso com a população, que tudo estava sob controle. Jogavam com as eleições e falta de água seria um gol contra em suas pretensões.

Agora pedem, com a sempre solícita ajuda da mídia, para que o brasileiro economize, quando políticos e governos nada fizeram nem revelaram os verdadeiros dados dos sistemas hídricos. E o pior é ouvir, ler e ver as imagens das inteligentes reportagens apontando o verdadeiro culpado da crise: o consumidor. É a ele que agora imputam a necessidade de economizar para não faltar. Copmo se esse fosse o caminho mais rápido para um país que não tem plano B para coisa alguma.
É bom acordar de vez. O meio ambiente no Brasil é assolado pelos políticos, que tratam o setor ainda como modismo ou meio de angariar votos entre os idealistas. A falta de seriedade com o problema provocará prejuízos maiores do que todo o rombo do petrolão, pagos durante muito tempo. Medidas urgentes sequer foram pensadas ou postas no papel, o que se vê é um governo federal silencioso diante da crise, quando até comentou execução de traficante. E os estaduais preparam-se para novamente levar com a barriga.
O aquecimento global não é mais uma marolinha que podem empurrar para frente, não dar bola ou mesmo maquiar em ano eleitoral. O anúncio da Agência Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos serve para colocar as barbas de molho. O passado 2014 foi o ano mais quente desde 1880 e dezembro também marcou uma temperatura média na superfície da Terra e dos oceanos sem precedentes nos últimos 134 anos para este período. Para o ano, a temperatura média se situa entre 0,69 °C acima do média do século 20, superando as marcas prévias de 2005 e 2010, de 0,04 °C .
O prejuízo da incúria governamental, que adora falar em desenvolvimento, palavra mágica para os imbecis, está ainda com apenas um dígito de bilhão, mas vai para dois dígitos rapidinho. Não será registrado, porque não interessa aos governantes, o custo do sacrifício da população infinitamente muito maior, em particular entre os mais pobres, aqueles a quem o governo Dilma se oferece como madrasta.

Do túnel do tempo

Este país é um verdadeiro paraíso: a terra produz abundantemente frutas de todas as espécies, o ar é puro e as minas de ouro e pedras preciosas são numerosas. Falta, no entanto, um bem mais precioso que todos os referidos: a liberdade
Evariste-Desiré Parny, relato sobre estada no Rio de Janeiro, em 1773 

A abolição da escravatura e o boicote à educação


Em sua fala de abertura dos trabalhos no Parlamento, em 1888, a princesa Isabel disse que o Brasil precisava ser uma pátria livre da escravidão. Logo depois o governo encaminhou a proposta que viria a ser a Lei Áurea. O deputado Joaquim Nabuco passou a ser o principal articulador da aprovação da proposta, ainda que o governo da época fosse liderado por um partido diferente do seu, e o chefe do governo, o deputado João Alfredo, fosse seu maior adversário em Pernambuco. Essa postura moral de Nabuco lhe dá uma grandeza ainda maior do que a própria luta pela abolição.

Se a princesa tivesse dito que seu lema seria “Brasil: pátria sem escravidão”, sem o governo apresentar o projeto da Lei Áurea, sua mensagem teria atendido a crescente consciência nacional da necessidade de abolir a escravidão, mas sem transformar o lema em um ato realizador.

O lema “Brasil: pátria educadora” tem o mérito de explicitar a posição que, depois de décadas de luta por alguns, começa a ganhar corpo na sociedade brasileira: a importância da educação para o progresso do país. Mas, sem um conjunto de leis, a definição dos recursos e a articulação de uma base de apoio, a ideia ficará apenas como lema.

Dizer que a pátria educadora será constituída graças aos royalties do pré-sal é insuficiente. Porque, se a Petrobras superar suas dificuldades financeiras, se a engenharia for eficaz para extrair o petróleo daquela profundidade, se o preço do petróleo voltar ao patamar de US$ 100 por barril, se a crise ambiental não forçar a substituição do combustível fóssil por outras fontes, mesmo assim, em 2034, o pré-sal só conseguirá gerar R$ 35 bilhões em recursos, cerca de 5,5% do montante necessário para o Brasil virar uma pátria educada.

Prometer que a nação educada será financiada pelo pré-sal é menos seguro do que se a princesa tivesse dito que os escravos seriam alforriados graças aos royalties obtidos pela exploração de café em novas áreas a serem abertas em regiões ainda não desbravadas.

Ao aumentar o piso salarial do professor em 13,01%, elevando-o para R$ 1.917,78, o governo da presidente Dilma não demonstra firmeza de cumprir seu lema. Além de ser um valor insuficiente, o lema não ganha consistência devido à opção do seu governo em deixar a responsabilidade pela educação sobre os ombros de pobres e desiguais prefeituras e Estados. Não há como fazer do Brasil uma nação educada se a educação não for uma questão nacional, com a adoção das escolas pelo governo federal, ao longo dos próximos anos.

Ao apresentar seu compromisso de construir um Brasil sem escravidão, a princesa sancionou a lei da abolição. Se quiser levar a sério sua ideia de construir uma pátria educada, a presidente Dilma deve apresentar o conjunto de ações necessárias para a adoção da educação básica pela União – a PEC 32/2013 é um exemplo. Se fizer isso, todos devem seguir o exemplo de Nabuco e dar o apoio necessário.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Desigualdade

Dentro dos países em desenvolvimento, apesar de os pobres terem melhorado, os ricos ficaram ainda mais ricos, o problema está dentro dos países. Isso é o que chateia as pessoas, a falta de dinheiro e principalmente o estigma social diante da falta de condições básicas
Hans Rosling, especialista em desigualdade do Instituto Karolinska 

Nota zero do Enem é um alerta


Mais de 500 mil candidatos, para ser preciso 529.374 (8,5% do total de inscritos), zeraram a nota da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Para tirar zero, segundo os coordenadores do Enem, é preciso escrever menos de sete linhas, copiar textos de terceiros ou escrever sobre um assunto completamente alheio ao tema – no último exame, realizado em 2014, a proposta era “publicidade infantil”.

O ministro da Educação, Cid Gomes (Pros), inclusive, chegou a julgar a pouca familiaridade dos estudantes com a questão como um dos fatores principais para um resultado tão ruim. Mas seria importante o MEC promover uma leitura mais ampla para o desempenho pífio dessa edição do Enem.

Não é apenas senso comum a queda qualitativa do ensino e público e privado, como também um menor apego das gerações mais novas à leitura e à escrita formal diante de um mundo imperativo de imagens e comunicações abreviadas e superficiais. Em 2013, a Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), iniciativa do próprio governo federal lançada um ano antes para mapear a qualidade do ensino no país, revelou um nível “baixo” de leitura em crianças com menos de 10 anos nas escolas públicas de 22 Estados brasileiros.

A situação não é melhor entre os adultos. Pesquisa da Pró-Livro divulgada em 2012 mostrava uma diminuição significativa do público considerado leitor entre os anos de 2007 e 2011. O percentual de quem leu pelo menos um livro a cada três meses havia caído no período, de 55% para 50% da população. Dentro desse contexto, há ainda aquela parcela não mensurada capaz de ler, mas com dificuldade de interpretar os textos.

Ou seja, apesar das estatísticas oficiais e da importância real do maior número de pessoas nas escolas e universidades brasileiras, a qualidade do ensino e da formação de pessoas minimamente críticas caminha em sentido oposto.

Para escrever uma redação, bem ou mal, com erros ou não de ortografia, é necessário compreensão do tema proposto, raciocínio lógico, associação de ideias e conexão de parágrafos. E essas faculdades estão sendo deixadas de lado não só pela escola formal, mas também por um modo de vida superficial e imediatista comum a jovens, adultos e idosos.

Os brasileiros, que estão entre os líderes de usuários de redes sociais, estão se especializando em ler títulos, em replicar matérias sem ao menos compreendê-las. É como se soubéssemos nada sobre tudo. As discussões, as opiniões emitidas são formadas e esquecidas na mesma velocidade da atualização de uma página no Facebook.

Por essas razões, o resultado da redação do Enem não é surpreendente, mas é altamente preocupante.

Heresia ministerial


“Deus é brasileiro, temos também que contar que ele vai trazer um pouco de umidade, um pouco de chuva, para que a gente possa ter mais tranquilidade ainda”.
O ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, sem ter como poder explicar os quatro anos em que o sistema elétrico brasileiro esteve entregue ao sucateamento e à corrupção (lembre de Paulo Roberto Costa revelando na CPI que a corrupção era generalizada e estava também na Eletrobras), resolveu conclamar a ajuda divina para trazer água.
Esquece o ministro parlamentar, com alguns quiprocós na justiça, que a palavra já conclamava: "Faça por onde que te ajudarei". Resta se perguntar quando o governo Dilma ou o de Lula fizeram por onde para que possam contar com o auxílio dos céus? Deus pode até fazer milagres, mas não faz nada quando o homem cruza os braços, ou os governos desprezam as próprias obrigações.

Bula

CORROMPIX

NOME GENÉRICO: Semancolina

APRESENTAÇÃO:

Caixa contendo 28 supositórios tamponados em tamanho megatronic.

USO ADULTO EM POLÍTICOS PROFISSIONAIS ENVOLVIDOS EM MARACUTAIAS.

COMPOSIÇÃO:

Cada supositório contém Semancol, Vergonhol (em solução), Neutralizador de Óleo de Peroba e mais Semancol.

AÇÃO ESPERADA DO MEDICAMENTO:

CORROMPIX deve ser guardado em lugar onde não receba luz, calor e verbas provenientes de Caixa 2. Em alguns casos, os sinais de melhora surgem rapidamente, fazendo com que o político corrupto, venal e hipócrita, transforme-se num Tiradentes em questão de horas. Em outros casos é necessário um período maior de aplicação do produto para que se dê o efeito esperado. Este medicamento só pode ser administrado no momento em que o político estiver sendo amamentado por uma autarquia, empresa privada ou órgão ligado ao Judiciário.

A interrupção repentina do tratamento com os supositórios tamponados é ALTAMENTE DESACONSELHÁVEL. O paciente em estado de corrupção aguda poderá voltar a prevaricar, ficando resistente à Semancolina e ao Vergonhol, o que o tornará um picareta crônico ou, em estados mais graves, um consultor para depósitos em dólar no Exterior.

POSOLOGIA:

Está demonstrado que 90% dos pacientes com corruptite estão infectados por uma bactéria de nome Real avida e que a sua erradicação reduz o índice de aparições dos estados de canalhice ou vontade incontrolável de se apropriar do patrimônio alheio.

Na prática, iniciar o tratamento com um supositório megatronic ao dia. Se o desejo de se locupletar prosseguir, deve-se ir aumentando as inserções, aos poucos, sem nunca exceder 17 supositórios/dia.

A duração do tratamento será de acordo com o efeito terapêutico, devendo prosseguir enquanto a porção retal do paciente oferecer condições satisfatórias de operacionalidade.

REAÇÕES ADVERSAS:

As reações adversas relacionadas com o uso de Semancolina aliada ao Vergonhol mais frequentemente relatadas foram discreta dor no local de aplicação e vermelhidão. Foram descritos raros casos de surto de benevolência, em que pacientes corruptos entregaram seus patrimônios a instituições de caridade e asilos. Mas a incidência desses casos é de 1 em cada 3.783.000 de indivíduos velhacos submetidos à medicação.

OUTRAS INDICAÇÕES:

CORROMPIX está indicado para corruptos que estejam passando por processos criminais, de acareação, renúncia de cargo, quebra de sigilo bancário ou investigação junto ao FBI.

CONTRAINDICAÇÕES:

Este medicamento não deve ser ministrado a laranjas, esposas, cunhados e parentes de políticos corruptos nem a marqueteiros ligados ao paciente.

SUPERDOSAGEM:

Em caso de superdosagem, o corrupto em tratamento com CORROMPIX deve procurar a Delegacia da Polícia Federal ou a Promotoria da República mais próxima e se entregar munido de uma lista com todos os nomes de pessoas envolvidas em seus cambalachos.

VENDA SOB PRESCRIÇÃO JURÍDICA.
MANTENHA AO ALCANCE DE POLÍTICOS.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Mediocridade que nos assola

Eu tenho uma dificuldade intrínseca de existir no mundo (…) dada a fragmentação com que vivemos nossas vidas. Somos todos pequenos atores de pequenas aventuras absolutamente irrelevantes. Já não existem grandes revoluções, grandes aventureiros, grandes estadistas. Nossa vida se inscreve hoje nesse gigantesco bric-à-brac do cotidiano. A grande autobiografia, hoje, seria aquela que desse conta da crescente mediocrização a que estamos sujeitos, seja através do embotamento do espírito crítico, da razão ou dos próprios sentimentos.
Jamil Snege (1939-2003) 

O PT à beira do precipício


Parece que o PT acordou. Pelo menos uma pequena parte, com a Fundação Perseu Abramo à frente. A maioria dos companheiros finge estar dormindo, mas sonhando, mesmo, só os invertebrados, aqueles que se amoldam apenas às benesses do poder. O partido, com um todo, não aguenta mais a abertura à direita empreendida pela presidente Dilma. Começam a pipocar os reclamos, um dia capazes de transformar-se em indignação.

Afinal, foi para apoiar uma política neoliberal e conservadora que o PT foi criado? Juros na estratosfera, beneficiando investidores estrangeiros, aumento de impostos e taxas, supressão de direitos sociais, desemprego – essa receita foi praticada nos tempos de Fernando Henrique. Como adotá-la agora, diante dos aplausos das elites e do silêncio dos companheiros? O primeiro grito de protesto foi dado, débil e pequeno, mas significando estar contido na garganta da imensa maioria petista. Como aceitar a transformação da presidente Dilma, um exemplo a mais de subserviência frente ao modelo universal de mandar a conta das crises econômicas para os menos favorecidos?

A explicação é clara: ela jamais foi do PT. Ingressou em suas fileiras por ambição e esperteza. Iludiu o próprio Lula, hoje afastado da tutela que chegou a exercer, com a evidência de que ele também prestava muito mais atenção no fisiologismo e na ocupação de espaços do que no ideário do partido.

Está o PT numa luta pela própria sobrevivência. Acatando o modelo adotado pelo governo, acabará tornando-se mais um partidinho desses que alugam a legenda para obter compensações individuais para seus líderes. Por conta da iminência do desastre, uns poucos petistas decidiram alertar a massa silenciosa. Seguir o caminho do arrocho equivalerá a chegar à beira do precipício. Para demonstrar a existência de alternativas é que o partido se formou, batalhou e acabou vencendo as eleições. Aderir às diretrizes do passado exprime a negação de sua razão de ser.

Junte-se a tal perplexidade o domínio da corrupção incrustada no governo e se terá a receita de como um movimento puro misturou-se com a sujeira da manipulação do poder. Tivesse a presidente Dilma anunciado na campanha eleitoral que optaria pelas iniciativas celeradas postas em marcha pela nova equipe econômica e seria outro o inquilino do palácio do Planalto, tanto faz se Aécio Neves ou Marina Silva.

Carlos Chagas

Os brasileiros e o complexo de vira-latas


É antológica a crônica do grande Nelson Rodrigues a propósito do futebol e do complexo de vira-latas dos brasileiros: quando a seleção de 1958 partiu para a Suécia, ele escreveu sobre o efeito trágico da trágica derrota da seleção de 1950 para o Uruguai, em pleno Maracanã, quando bastava um mero empate. Tinha sido a primeira Copa do Mundo realizada no Brasil. Aliás, não damos sorte quando somos os anfitriões: basta lembrar o vexaminoso 7 a 1 para a Alemanha no ano passado, no Mineirão.

Vou usar a famosa frase noutro sentido: estou me sentindo uma vira-lata com o silêncio que se abateu sobre o país, vindo de toda parte, dos economistas, dos analistas, do governo, do povão – e todos nós – sobre a saída de fininho do ex-ministro Guido Mantega, sem passar o cargo e sem nos dar nenhuma explicação acerca da crise que se abateu sobre o país. Em minha memória ainda vive o momento, no governo Lula, em que Dilma praticamente ganhou a disputa para ser a sucessora, classificando de “rudimentar” a proposta de condução da economia apresentada em conjunto por Paulo Bernardo, na época no Planejamento, e Antonio Palocci em reunião do ministério com o presidente. Não sei por que e o que ela chamou de “rudimentar”. Só sei que, sob sua batuta, cresceu a proposta já apresentada por Mantega, sob a forma de PPA, Plano Plurianual, logo no início do primeiro governo Lula, em 2003, e que, na época, me pareceu totalmente estapafúrdia, vis-à-vis o domínio do modelo de macroeconomia capitaneado por Palocci e sua turma. Na turma, já estava Joaquim Levy, guindado agora a capitão do time de Dilma em seu segundo governo.

Nem ela, nem ninguém – ao que eu saiba – deu uma palavra para explicar o que estava errado no propósito de criar um “amplo mercado de massas”, via crédito e subsídios, para os que não tinham como ter acesso às mercadorias de ponta fabricadas no Brasil (automóveis, motos, linha branca, computadores, televisões etc.) pelos chamados “campeões nacionais”, grupos empresariais, escolhidos sabe-se lá por quais critérios e financiados pelo BNDES, como se esse banco de fomento fosse um mecenas a patrocinar grandes artistas... Não deu certo. Os salários dos “de baixo” subiram, a classe média tem agora outros segmentos, média-baixa e média-média, mas a desigualdade continua, com os muito ricos mais ricos ainda e os que vivem do salário disputando feito loucos o direito de comprar o que se vende nos shoppings da vida. E a consequência são black blocs, rolezinhos, quebra-quebras nas grandes cidades. E a presidente, que anunciou o novo lema de seu governo, “Brasil, pátria educadora”, não dá uma palavra acerca do fato de que o primeiro contingenciamento anunciado pela nova equipe econômica incide preferencialmente sobre o Ministério da Educação, além da Defesa e das Cidades (onde fica, também, a promessa de melhor mobilidade urbana, supostamente afeta a essa pasta)?

Ficam aí a pergunta e o sentimento de ser uma vira-lata para quem quiser compartilhar comigo
.

'Crise de água não é problema técnico, mas de gestão'

Especialista da Universidade de Ciências Aplicadas de Colônia diz que Brasil tem todo o conhecimento técnico para gerir o abastecimento, mas intervenção política afeta execução do planejamento no setor.
"A falha está na gestão. O problema não é de ordem técnica, mas político-administrativa". Jackson Roehrig, professor de gestão de recursos hídricos da Universidade de Ciências Aplicadas de Colônia, na Alemanha, resume a crise hídrica no Sudeste do país a falhas de gestão.

O especialista, que já atuou como pesquisador na Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental de São Paulo (Cetesb), afirma que a influência política na administração dos recursos hídricos abre brechas para o não cumprimento de planos estabelecidos para o setor, como a construção de novos reservatórios.

Em entrevista à DW Brasil, Roehrig explica como funciona o modelo alemão de gestão de recursos hídricos, que se baseia em associações de bacias compostas por diversos setores, como a indústria, o ramo agrícola e ONGs.

No estado da Renânia do Norte-Vestfália, que abriga o maior sistema integrado de abastecimento de água da Alemanha, essas bacias são uma espécie de "parlamentos da água". Os governos estaduais ficam de fora do processo administrativo, mas atuam como fiscalizadores do sistema.

"O problema do Brasil é que o Estado é fiscalizador dele mesmo", observa.
Leia mais a entrevista

Silêncio para tentar conter a revolta


Nem se passou um mês do "novo" governo de Dilma, ou da colcha de fuxico ministerial, para o país descobrir que a presidente armou uma pegadinha durante as eleições. Tudo que prometeu, e muito do que passou quatro anos se vangloriando, está indo pelo ralo. O ministério pisou tanto na bola neste primeiro mês que é de se espantar ou ficar assustado com o restante do mandato.

O ajuste de contas proposto para colocar as finanças nos eixos nada mais é do que um arranjo para que a população pague os gastos destrambelhados do governo em quatro anos. Dilma pintou o diabo como administradora e agora vem com a conta do seu desmazelo para o povo pagar, como a contenção nos preços da gasolina, as taxa elétricas mais baratas e inclusive a corrupção, que virou um flagelo sob a benção presidencial.

Há um mês sem fazer qualquer declaração, meditando como seu sábio guru, em silêncio conventual, espera apenas uma onda boa para sair pregando para todo mundo as novas do seu evangelho. Messiânica, em seus saltinhos, jogando ao povo suas bondades! Enquanto não surge no horizonte qualquer situação favorável, vai deixando os ministros como responsáveis pelas jamantas de maldades que vêm desferindo na cara da população.

O presidencialismo brasileiro, mais uma vez, mostra, mesmo se dizendo esquerdista, que não passa de demagogia populista. Quer mais que o povo se dane, arrume dinheiro, pague as contas de todo mundo, principalmente as de governo, porque a função deles é gastar inconsequentemente e muitas vezes na forma de roubo ao Erário. Sustentamos essa cambada do mesmo jeito que em outros tempos os dilapidários reis e nobres extorquiam em impostos para sua própria satisfação. Os governos brasileiros, em particular os petistas, ainda não se deram conta que tributos são para beneficiar o povo, não para encher a burra da bandidagem política.

Nunca antes houve um partido como o PT


Acompanhei, à distância, o nascimento do PT e de outros partidos. Afinal, quem já viveu mais de 65 anos e nunca foi alienado tem de conhecer um pouco da História Política brasileira. Com proposta nova e com uma maneira de agir diferente, nasceu e foi assumindo seu espaço e granjeando adesões. As minorias, representando os mais diversos segmentos sociais, encontraram (foram acolhidas, absorvidas) no PT razão para suas lutas.

No poder, o PT transformou-se, esqueceu suas ideias libertárias e rasgou as bandeiras que dizia defender. Algumas delas hoje servem para limpar banheiros de rodoviárias. Suas principais lideranças enriqueceram, da noite para o dia. Se a Receita Federal trabalhasse direito, muitos estariam presos.

Na História Republicana, nenhuma agremiação política brasileira deu guinada tão violenta, tão drástica, tão vergonhosa como fez o PT. Reconheço a existência de erros, usurpações, safadezas e ilegalidades nos demais partidos. Todos já participaram de negociatas, de maracutaias e de armações, mesmo os pequenos partidos, de todas as tendências, aqui e ali, praticaram deslizes.

Mas o PT superou a todos. Desafio a desmentir estes fatos aqueles militantes que, por teimosia ideológica ou por necessidades fisiológicas, continuam defendendo o PT. Só não enxerga quem é cego mentalmente ou está se beneficiando, aboletado no poder.

Estamos na democracia, qualquer um de nós pode escolher partido, facção ou o que seja. Mas os petistas têm a mania de patrulhamento. Antes de assumir o poder, quando eram apontados erros ou safadezas deste ou daquele partido, os petistas tripudiavam, porque entendiam estar por cima de todos, em termos éticos e morais.

A partir do governo Lula, porém, perderam inteiramente o direito de cobrar qualquer irregularidade cometida por outro partido. Aliás, muitas legendas que eram então acusadas de fazerem maracutaias estão coligadas ao PT o tempo todo.

Assim, na minha opinião, devemos mandá-los procurar a turma deles. Nunca antes, na História deste país, houve governo tão corrupto e fétido como o PT. Nós sabemos e eles, também. O resto é conversa de bêbado. E até neste ponto eles estão bem representados.

O PT apodreceu e, como todo fruto podre, cairá e se arrebentará no chão. E, finalmente, para o bem dos brasileiros ainda conscientes, irá para o lugar que é dele, por direito: a lata de lixo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Fé cega, faca amolada


A derrocada de Dilma, o PT e a volta de Lula


Acho que precisamos ler o que está contido nas entrelinhas desses aparentes choques entre petistas. Dilma Rousseff tem pela frente um mandato inteiro e jamais o PT pegou o Brasil para governar numa situação econômica e social tão difícil, que a própria presidente deixou para si mesma, portanto, do PT para o PT. A nomeação de seus ministros foi um fracasso total, muitos deles com problemas na Justiça. Soma-se a essas dificuldades a corrupção institucionalizada. Acrescente-se a esse quadro dantesco o escândalo da Petrobrás, que ainda terá muitos desdobramentos e ramificações, de acordo com a pressão que se está exercendo pela Polícia Federal, pelo Ministério Público e pela Justiça.
O fato é que a insatisfação com o governo Dilma aumenta entre a população mais esclarecida. Integrantes do seu próprio partido a estão criticando publicamente. E pessoas ligadas a Lula, como Marta Suplicy, declaram que ele já desistiu de Dilma, culpando-a pelo atual estágio da economia brasileira.

Outro fato é que o mundo vive uma nova crise – de identidade, recrudescimento da violência, xenofobia, preconceito religioso – que certamente influenciará a economia global. O preço do petróleo desaba e a Rússia está tendo sua moeda em queda, a ponto de a China se oferecer para ajudá-la. Os países que fazem parte do Mercosul (ainda existe?) estão com sérios e graves problemas, dificultando nossas exportações, e a Argentina se apressa em fazer acordo com a China.


Em meio a essa situação, no Brasil o Congresso aumenta as exigências para negociar com o Executivo, com os partidos querendo mais regalias, mais ministérios, mais secretarias, mais poder. Enfraquecida, Dilma pode nem concluir seu governo, se o escândalo da corrupção aumentar e a presidente for atingida por um pacote de acusações que determine a votação do impeachment de seu mandato.

Diante dessas circunstâncias, penso que o PT está fazendo um belo teatro, uma pantomima para nos fazer crer que Dilma traiu o partido, quando, na verdade, a presidente está sendo abandonada por desertores, por covardes petistas que visam a candidatura de Lula em 2018 para resgatar o partido e oferecer ao povo o crescimento econômico que não houve nas duas administrações de Dilma!

O PT é sórdido, mal intencionado, sua paixão é pelo poder e pelos cargos. Se Dilma continuar nesta sua gestão com os mesmos fracassos que a anterior, e tudo indica que é irreversível esta situação, o PT perde prestígio e eleitores com a estagnação econômica, agravando os problemas crônicos do país. E o PT então pode ser alijado do poder, mesmo com Lula se candidatando.

A chance do ex-presidente voltar é se dizer desvinculado de Dilma, alegar que ela não fez o que o partido lhe determinara, que não seguiu os conselhos que ele, Lula, lhe sugerira.

O séquito de Lula, de Marta (relaxa e goza!) e de outras figurinhas carimbadas já começou a puxar o tapete de Dilma justamente no início de seu segundo mandato. Ora, por que deixá-la prejudicar o País por mais quatro anos? Por que Lula não se candidatou? Por um simples motivo: não tem quem possa evitar a crise que se aproxima.

Que então se espalhe que a presidente desobedeceu as ordens do partido, tendo como consequência o fracasso de sua administração. Que a oferenda à fogueira das vaidades seja apenas Dilma, que desceu de paraquedas no PT, e não o próprio Lula, que ainda engana incultos e incautos e tem chances de manter o controle do partido até 2018.

Lula é o Judas. Os beijos e abraços em Dilma na campanha à reeleição diziam claramente: Eis a mulher que deverá ser sacrificada em nome do PT. 

Francisco Bendl 

Casa da mãe Joana

A expressão foi cunhada na Itália. Joana, rainha de Nápoles e condessa de Proença, liberou os bordéis em Avignon, onde estava refugiada, e mandou escrever nos estatutos: “Que tenha uma porta por onde todos poderão entrar”. No Brasil ficou então como “casa de mãe Joana”. Antigamente, a expressão era como se chamava tudo que era confusão, aliás, como o mundo está agora, tendo o Brasil como destaque. 
Até há pouco tempo, pensou-se que jamais haveria qualquer coisa mais imoral do que o mensalão, remuneração mensal criada para parlamentares e membros proeminentes do governo que, em troca dessa benesse, aprovavam no Congresso qualquer porcaria que o governo quisesse. Poucos foram os punidos e muitos os beneficiados e até consagrados, outros, os mafiosos mesmo, arranjaram doenças que não matam nem aleijam, mas libertam. Com nomes de gringos, juízes importantes entenderam que tudo não passou de sacanagem das oposições fascistas... Quem sabe um dia poderão ser canonizados santos?

E nem chegaram a um terço das penas a que foram “condenados”, foram jubilados e estão soltos e fagueiros. Ainda com a estupefação pública pelo mensalão, eis que começa o petrolão... Este pode quebrar o Brasil. Como estará aquele empréstimo que a Petrobras fez ao pré-sal comprando à vista para receber a prazo não sei quantos milhões ou bilhões de barris de petróleo? E, por falar em pré-sal, não tem ninguém preso, não? E como será que está esse caso? Garanto que certinho como “boca de bode” não está...

E de todos os lados pipocam escândalos e absurdos: Na Argentina, “suicidaram” um promotor federal – Augustino Alberto Nisman, de 51 anos, que foi encontrado morto em seu apartamento. Ele era o responsável pela investigação do atentado contra a sede da Associação Mutual Israelita Argentina – Amia –, quando da explosão que deixou 85 mortos. Falam em coincidência... Torcedor do Galo, eu acredito. Em São Paulo, o novo secretário de Justiça, Aloisio de Toledo César, usou uma rede social para criticar os cartunistas do jornal “Charlie Hebdo”, avaliando que eles fizeram mau uso da liberdade de expressão e que está solidário com os muçulmanos porque eles condenam a violência. E concluiu: posso dizer que eu também sou Maomé. 

Eu tenho a mesma opinião do papa Chico. Neste mundo, tudo tem um limite, e, nesse caso, “não se pode insultar a fé das outras pessoas, não se pode tirar sarro de fé”. Disse mais: “Se ofender a minha mãe, pode esperar um murro, é normal”. Legal o Chico... Não concordei foi com Mateus 5:39 – “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal, mas, se qualquer te bater na face direita, ofereça-lhe também a outra. Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti, pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que todo o teu corpo”. Não sei por quê, lembrei-me do Cerveró...

A coisa tá feia!


Desagregação energética


Se o ano de 2014 foi de estiagem, escassez d’água e de energia, podemos esperar que em 2015 as dificuldades serão ainda piores. Racionamento e desorientação dos setores produtivos, gerando-se falências em cadeia e desemprego. Ruas e praças cheias de revoltosos inconformados e famélicos.
As medidas ensaiadas por Joaquim Levy são encomendas de banqueiros, passam longe do cerne da sustentabilidade e do desenvolvimento. A ortodoxia vesga das medidas propostas penaliza a sustentabilidade dos setores primários e estruturantes, aqueles que pagam impostos.

Aumento de tributos, de tarifas reguladas, arrocho de financiamentos. Cortar na pele da administração pública está proibido, os altos escalões se decretaram aumento salarial de 50%, e os gastos fixos nesse patamar secarão ainda mais a capacidade de investimento.

Vida boa está garantida apenas para parlamentares com salário de R$ 34 mil, em cascata todo o serviço público virá atrás. Levy, que vem do Bradesco, vai fazer contrariar todos os interesses, menos os dos banqueiros, um setor sanguessuga, longe de ser o puxador do desenvolvimento.

Em algumas regiões de Minas a chuva de janeiro é zero, não se lembram os mais idosos de um caso tão desesperador. As lavouras estão se perdendo, e a vegetação do campo já está seca como no inverno. Safra zero para alguns produtos em regiões tradicionais. Escassez e aumento do preço da comida.

O índice de saturação dos reservatórios está em apenas 22%, no ano passado nessa época era de 44%, rios secando, reservatórios vazios. Mesmo que fevereiro e março registrassem boas precipitações, das quais não se tem notícia, a realidade continuará arrasadora para o abastecimento e para a geração de energia. Racionamento, que é necessário e já passou da hora, está descartado para não contrariar a soberba presidencial. Cair atirando é a previsão de Dilma.

A situação é crítica desde 2012 e vem gradativamente se esgarçando. Dilma parece o faraó do livro do Êxodo, aquele que mereceu sete castigos divinos pela sua teimosia até se emendar e tomar a medida prometida.

O alicerce do setor elétrico foi rachado, na contramão da história, da lógica e da regra universal, em plena campanha das eleições municipais de 2012, anunciando uma diminuição de 26% das tarifas. Um tiro no pé, uma bomba no setor que originou outras medidas em cadeia para tapar da vista do eleitor o desastre e a conta dele.

Em 2015 deverá se recuperar o que se perdeu escondendo a verdade e adiando medidas.

Agora a conta se abaterá sobre o consumidor com 36% imediatos de reajuste e outros muitos que pipocarão em breve, pois o custo para as geradoras aumentou muito mais, e, de R$ 135 por MWh em 2012, as indústrias encontram-se a contratar por R$ 450, mas com baixíssima oferta.

Para se ter preços baixos, só tem a hipótese de a energia ficar abundante. Dilma fez o contrário: inibiu por decreto a possibilidade de investimento das geradoras, quebrou seus contratados, as quebrou, e ainda o desconto de 26% durou apenas três meses em 2013, seguindo-se aumentos que nunca se viram antes na história deste país.

Ainda se embaralhou, tirou referências no setor, afugentando os investimentos e condenando o país a ser carente de energias por muitos anos ainda. Quer dizer, tarifas altas.

Sempre na contramão, a CCEE rebaixou o PLD máximo (valor de liquidação da excedência de energia) de R$ 822 por MWh para R$ 388. Quer dizer, inviabilizou a produção independente e eventual, que custa cerca de R$ 680 por MWh, como é o caso da termoelétrica a petróleo de Igarapé-MG operada pela Cemig.

Em Pernambuco a termoelétrica de Suape (20% da Petrobras), com capacidade de 389 MWh, uma das maiores do país, sofreu uma quebra na última semana, paralisando 16 dos seus 17 termogeradores. Estouram por ter puxado a corda, sem descanso e manutenção adequada, chegando à fatiga inusual dos materiais.

Isso vem acontecendo de forma generalizada, e já 40% da capacidade nominal de geração está parada por sucateamento, e sem valores definidos que compensem o conserto com a remuneração de R$ 388 por MWh.

O despreparo de quem conduz as medidas de enfrentamento da crise a agrava. Parece que querem arrasar o setor? Seria uma teoria da conspiração para estatizar os falidos?

O caos está aí e parece que veio para ficar

Vittorio Medioli

Sobre o riso e a gargalhada


Como negociar com o terror, cuja força vem exatamente da recusa ao diálogo?
No livro “A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais", Mikhail Bakhtin observa que, a partir do Renascimento e do Iluminismo, a gargalhada espontânea e rude das formas festivas populares — próximas da carne, dos processos fisiológicos e da terra — começa e ser transformada e reprimida. O riso contido diz adeus ao seu estilo escandaloso e “grotesco”, ligado à imagem de um corpo imperfeito, aberto, mutável e sujeito à decomposição. Surge um Equador cósmico entre o que fica acima (mãos, cabeça e juízo) e o que está vergonhosamente abaixo da cintura: o traseiro, os órgãos genitais e excretores, e os seus orifícios e funções. O grotesco tem nessa divisão sua origem, pois o interior do corpo e as suas passagens remetem ao obscuro das grutas. A mesa se divorcia da cama...

Na estética do Renascimento, que modelou a arte iluminista e “moderna”, o corpo perde os orifícios, abandona seus produtos mais humildes: suas protuberâncias e sua capacidade de confundir-se concretamente (como no parto e no amor carnal) com outro corpo. Ele se individualiza. Para Bakhtin, as grosserias e obscenidades seriam “sobrevivências petrificadas e puramente negativas dessa concepção aberta do corpo". A podridão, os órgãos sexuais e a nudez desabrida caracterizavam as festividades populares, as quais baniam o pecado e o tabu, assim como a separação entre o humano e outros mundos.

A partir do século 18, surge um universo fundado na racionalidade que separa a gargalhada (que vem da garganta) do riso superficial educado. O gargalhar é lapidado e “toma a forma de humor, ironia ou sarcasmo. Deixa de ser jocoso e alegre. O aspecto regenerador e positivo do riso reduz-se ao mínimo".

Agora temos o risinho mascarado superior, inaugurado por Voltaire e citado pelos estudiosos entendidos em França que comentaram o recente atentado de Paris. Essa seria a tradição do “Charlie Hebdo" quando, de fato, o terrorismo tem a volúpia dos mártires e — é óbvio — de alguns artistas imbuídos de profetismo, reproduzindo um grotesco rabelaisiano cuja onipotência encara a morte como uma diversão, e não como algo a ser suportado.

O riso irônico dos filósofos franceses separa a luta politica das opções religiosas. Naquela, matava-se com método (usando a guilhotina — uma maquina de matar moderna — igualitária e mecânica); no caso da religião, contudo, tudo se justifica em nome de Deus e do Profeta. A liberdade de dizer o que se quer é deste mundo; matar quem blasfema contra o nosso sagrado é uma guerra e uma vingança porque fala deste mundo e do outro.

A modernidade domesticou o riso que, supomos, pode ser dirigido contra ou a favor de alguma coisa ou alguém. “Certamente, continua Bakhtin, o riso subsiste mas ele se atenua e toma a forma de humor, ironia ou sarcasmo. Deixa de ser jocoso e alegre. O aspecto regenerador e positivo do riso reduz-se ao mínimo". Eu humildemente diria que, se o riso for além da ironia, ele readquire sua antiga volúpia utópica (e carnavalesca) que regenera e pode levar à morte. Morte física ou morte pela transformadora aceitação do gargalhar.
Leia mais o artigo de Roberto DaMatta

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Estagnolândia


O PT sem propostas


Para criar convicções sólidas e estáveis na mente dos trabalhadores, geralmente desconfiados e prejudicados pela permanente falta de oportunidades, deveria o PT promover um objetivo direto capaz de falar à vida e mesmo ao bolso de cada um. Uma forma de melhorar salários e condições de trabalho, como mecanismo para sensibilizá-los. Pode ser cruel a conclusão, mas uma adesão baseada exclusivamente em palavras será sempre débil e vacilante. A autoridade partidária precisa estar materialmente exposta através da formulação de metas a alcançar que atinjam e ampliem diretamente o futuro de cada um.

Até agora, e desde o início do governo Lula, qual a proposta concreta levada pelo PT aos trabalhadores em matéria de direitos e prerrogativas? Estabilidade no emprego? Participação no lucro das empresas? Multiplicação do salário-família? Transporte público gratuito? Cogestão ou extinção dos empecilhos ao salário-desemprego? Aposentadorias compatíveis com as exigências familiares? Reforma agrária efetiva pela distribuição e ocupação das terras improdutivas?

Nada foi apresentado como motivação para o aumento do número de companheiros e por isso o PT diminui ano a ano em número de filiados. Basta atentar também para a influência cada vez menor da CUT nas relações de trabalho, blindada a organização pela necessidade de não criar dificuldades ao governo. Do jeito que as coisas vão, decresce a militância e fica menor a influência do partido no processo político e eleitoral. A reeleição, para Dilma, foi mais difícil do que a eleição. Chegou-se a duvidar dela. Passados quase três meses da vitória sofrida e suada, qual a iniciativa adotada pelos caciques petistas para recuperar o tempo quase perdido e mobilizar a massa operária e camponesa?

A impressão é de que na cúpula do PT, depois das urnas, chegou a hora de cada um pensar em si, reivindicando as tradicionais facilidades de nomeações e acomodações na máquina administrativa. O trabalhador que permaneça à margem, perplexo e desiludido pela falta de propostas em condições de atraí-lo. Pelo contrário, recebe de longe apelos para mais sacrifícios e até supressão de seus direitos.

Perdendo espaços e apoio, desvinculado sempre mais dos ideais de sua fundação, arrisca-se o PT a grandes e negativas surpresas. Perceberá, num dia não muito distante, haver perdido as bases por ausência da capacidade de motivá-las. Como em política inexistem vazios, é bom meditar sobre que forças estranhas irão ocupá-los.

Carlos Chagas

Culpados somos nós?


Brasil vai mal e na educação dá vexame


Criado em 1998, na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, o mais recente resultado do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) demonstra que andamos cada vez mais para trás no que diz respeito à educação.

Na sua última campanha eleitoral, a presidente Dilma Rousseff tinha um mote exclusivamente demagógico e alardeava a promessa de que, em um segundo mandato à frente do Executivo nacional, levaria esta mal tratada nação ao patamar de uma “Pátria Educadora”. Ledo engano.

Esta Pátria foi literalmente deseducada no governo Lula e também no governo Dilma. Basta observar que o problema não se resume na impossibilidade de se fazer uma simples redação, que levou 529.374 estudantes a tirarem nota zero. Eram 6.193.565 participantes e somente 250 deles conseguiram a nota máxima. Isto é uma vergonha, não há dúvida, mas em matemática, esta matéria tão importante para o desenvolvimento dos jovens, também ocorreu outro vexame sem precedentes, já que em 2013, a média conquistada pelos estudantes fora de 514,1 pontos, enquanto agora caiu para apenas 476,8 pontos. Isso significa que pioramos.

Fica, assim, mais do que evidente que esse delírio de marketing de quinta categoria que idealiza transformar o país numa “Pátria Educadora” jamais será alcançado no governo Dilma, que acaba de cortar as verbas do Ministério da Educação. Na verdade, a presidente comanda um governo que, em 12 anos no poder, nada de concreto fez para melhorar o nível educacional das crianças cujos pais não têm condições de matriculá-las em escolas particulares.