quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
O novel teatro do absurdo
Venho, há algum tempo, procurando entender os acontecimentos que estamos vivendo no Brasil e imaginando o que a história dirá a nosso respeito ao final deste primeiro século dos anos 2000. Tenho receio de que passemos à história como um povo “meio doido, meio sem-vergonha, desonesto e convictamente mentiroso”. Uma pena, porque, na verdade, só merecem esses qualificativos os que compõem a minoria alimentada pelas tetas da nação, liderada por analfabetos fanáticos, que exploram a boa-fé dos menos favorecidos, retirando sua dignidade e sua necessidade de trabalho honrado em troca de bolsas e alguns trocados.
São maldosos e pilantras que alimentam a boa-fé do nosso povo com promessas vãs, tentando imprimir em suas atitudes uma espécie de espiritualidade, amparando líderes bêbados e paus-mandados de países que se dizem de esquerda apenas para serem diferentes. Vide o exemplo de Fidel Castro, que vive em sua ilha particular ao estilo Côte d’ Azur, enquanto o povo come o pão que o diabo amassou. Outro podre, com nome de Maduro, “gigola” nosso país para gáudio dessa meia dúzia de mentirosos e ladrões da pátria.
Resolvi, mesmo a contragosto, ver o surrealismo da posse daqueles que se dizem vitoriosos de uma batalha em que todos morreram. Em Minas Gerais, a inovação foi fantástica. O novo governador, não satisfeito com as 21 secretarias de Estado já existentes, nomeou mais seis ou sete secretários sem secretarias. Então, primeiro nomeiam-se os secretários e depois criam-se as secretarias. Fazem um tipo de “grilas” de ministérios ou secretarias e jogam para cima. Quem pegar é dono...
No plano federal, não podem mais nomear ministros, senão inteira 40, o número de ladrões de Ali-Babá. Nós temos um governo de duas cabeças, quatro mãos, quatro pernas e 39 dedos. Mitologicamente, qualquer coisa parecida com a Hidra.
Escutei dois discursos, ambos patéticos. O primeiro, de Dona Dilma, a assaltante, vestida com uma roupa parecida com toalha de altar: “É preciso defender a Petrobras dos inimigos externos e dos predadores internos”. Oh, meu Deus, mas não foi ela quem fez essa lambança que desmoralizou e ferrou o país, quando presidia o Conselho da Petrobras, composto por nove membros, no governo do ex-Luiz, ganhando R$ 87 mil por mês mais o salário de ministra? Dona Dilma sofre de amnésia? Não foi ela, como ministra, que criou uma “empresa de papel” para construir e operar a rede de gasodutos, conforme constatação da ANP, a Gasene, que, de acordo com o TCU, teve custos superfaturados em mais de 1.800%? Ah, me poupe ou me desminta...
Bem, outro discurso foi daquele tal de Gilberto Carvalho (ex-ministro da Secretaria Geral da Presidência), um comunista implicado na morte do prefeito Celso Daniel, de Santo André, até hoje sem solução, por conveniência. Sua Excelência me convenceu de que eu sou o culpado por toda essa desgraceira que está corroendo as entranhas do nosso país. Sendo assim, peço que me desculpem, mas eu não sabia de nada, pô...
Governo e Petrobras encenam tragédia de erros
Temos algumas opções para avaliar as reações do governo em torno dos escândalos de corrupção na Petrobras. A primeira é a de que o governo tenta empurrar o problema com a barriga, na esperança de que o tema faça parte da paisagem e todos se acostumem.
A segunda hipótese é a de que o governo não sabe o que fazer, por isso teme dar um passo adiante e piorar tudo. Além disso, teme que um simples mexer nas peças do tabuleiro possa desencadear novas investigações. Como se, ao abrirmos o armário, caíssem dezenas de esqueletos.
A terceira hipótese é a de que o governo está dividido sobre o que fazer. Caso se leve ao pé da letra o que a presidente Dilma Rousseff disse em sua posse sobre o combate à corrupção, não ficará pedra sobre pedra, e o PT, entre outros partidos, vai sangrar muito. Haverá também gente muito importante sangrando.
Considerando o governo, sua competência política e sua estratégica e, ainda, a fratura em sua base política, onde se inclui o próprio PT, a hipótese mais provável é uma quarta que junta todas as três anteriores.
Vamos à quarta: o governo espera que o tema deixe as páginas principais dos jornais ou seja relegado a espaços menos nobres. Até lá, confia em conseguir juntar sua base política para impor uma estratégia que reduza os danos causados pelos escândalos. Porém, não sabe como fazer isso e tampouco tem competência para tal.
Além do mais, está dividido sobre o que fazer. Teme que mais ex-diretores da Petrobras resolvam confessar outros crimes; assim como teme os acordos de delação premiada e os acordos de leniência que estão a caminho.
Dilma insiste em manter como presidente da empresa Graça Foster, que está completamente desmoralizada. Sobretudo após a acusação do Tribunal de Contas da União de que a estatal criou empresas de fachada com laranjas para operar a construção de gasodutos no Nordeste.
Considerando as opções mencionadas, a reação do governo é equivocada. O certo, neste momento, é demitir toda a diretoria, profissionalizar a escolha e empreender uma ampla limpeza na empresa. O governo comete um grave erro, pois demonstra ser conivente com os malfeitos que ocorreram no interior da maior empresa da América Latina. O entorno político do governo se fecha para ver se o tsunami passa. Mas não vai passar.
O potencial destruidor do caso Petrobras é monumental. E não apenas em nível nacional. Internacionalmente, o tema já está fora de controle. Existe quase uma dezena de ações contra a empresa, além das investigações que correm na Securities and Exchange Commission (SEC) e no Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
Todos os conselheiros da Petrobras, inclusive Dilma Rousseff, podem ser investigados e, eventualmente, punidos criminalmente pelo ocorrido. Tempos atrás, quando ainda era ministra da Casa Civil, Dilma disse, em uma declaração à televisão (que circula na internet), que a empresa seguia padrões SOX de legislação anticorrupção.
Fica patente que ela tinha completa noção das consequências de eventuais malfeitos na empresa. Portanto, salvo a proteção diplomática de ser presidente da República do Brasil, tudo conspira a favor de uma punição exemplar para diretores e conselheiros. Imaginem o vexame para o país.
Sem uma reação digna e corajosa, a tragédia de erros vai continuar e pode levar o governo para um beco sem saída.
Murillo de Aragão
Lição sobre fome e dinheiro
Eu lembro quando no Congo eu recebi as diárias, o dinheiro para sobreviver naquele lugar. E eu lembro que eu estava morrendo de fome, e era de tarde já, e não tinha nada para comer na casa. Lembro que eu perguntei: “Não tem nada aí para comer? Estou com muita fome”. E a moça disse: “Teve um ataque ontem, lá no mercado, e não sobrou nada. Não tem nada”. E você se dá conta do valor do dinheiro – um pedaço de papel que é significado puro. E, naquele dia, por exemplo, ele não significava nada. Eu não podia comprar nada com o meu dinheiro. Estava lá, com o dinheiro dentro do bolso e não tinha um grão de arroz para comprar porque não havia paz naquele lugar. E aí você começa a se dar conta de qual é o valor das coisas materiais. Você não come o seu dinheiro. Você não come o seu salário. Há outras coisas ali que têm uma importância e um significado muito maior e que não são coisas físicas. As coisas materiais te dão uma sensação de paz, mas é apenas uma sensação de paz, não é a paz. Não é a saúde, não é a riqueza. É uma sensação de tudo isso. Que pode ser destruída muito rapidamente. Talvez isso tenha ficado mais evidente para mim. Já tinha um significado, mas não tinha essa força que tem hoje
Debora Noal, Médicos Sem Fronteiras
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
A depressão causada pelo futuro incerto desta cleptocracia
Recebi coincidentemente três mensagens nos últimos dias de pessoas que declaram não ter comemorado tradicionalmente a passagem de ano. Não encontraram motivos de alegria para prolongar a noitada. Sentimento de melancólica tristeza, apreensão e incerteza. São eles uma parte deste mundo verde-amarelo, captando as radiações do momento nacional. Que motivo têm de ter orgulho nacional? Quebra de autoestima brota das circunstâncias reais.
Confesso que, pela primeira vez na vida, eu também, um otimista contumaz, um desabrido enfrentador de dificuldades, não comemorei como de costume a passagem de ano. Arrumei um jeito de ficar sozinho, olhando da varanda para o céu, rezando. Sem copo e sem champanhe. Rezando para este mundo de jovens que vem aí. Rezando para que aconteça algo que alimente a esperança, a última a morrer.
Não tenho o que reclamar para mim, nada me falta, minhas exigências pessoais vão se encolhendo a cada ano, assim como se afunila o horizonte de vida. Peço a Deus que me evite a dor, mantenha minha mente lúcida e a vista suficiente para ler e aprender. Que mantenha o cálice amargo afastado, o resto é prêmio.
Mas no papel de pai, de condutor de empreendimentos, como gerador de empregos que envolvem famílias, feitas de gente, me assombro com tantas dificuldades. Uma situação a cada dia mais complexa, ninguém neste país fala de descomplicar, leis enganosas para sugar de quem trabalha e transferir para encastelados e corruptos instalados no topo da pirâmide do poder.
Já surge em muitos o sentimento da greve civil, deixar de pagar impostos para emparedar os governantes à moralidade. Mas isso também é ilusório e complicado. Entretanto, a não violência e a desobediência aos tiranos fizeram de Gandhi o maior político de todos os tempos.
Eu sou da geração que vestiu a camisa com flores, os jeans coloridos, usou cabelos compridos, adorava Bob Dylan, viajava de moto e dormia em qualquer lugar sem sentir desconforto. Um dos tantos que tinham no orientalismo uma referência. Quer saber como? Leia a biografia de Steve Jobs nas “loucuras juvenis”, que fizeram dele uma personalidade valiosa para este planeta.
Eu posso me dar luxos que já não me interessam, me sinto um Qoelet, me espelho no Eclesiastes, perdi as ilusões dos brilhos efêmeros do meio-dia. Prefiro as cores tênues do pouso do sol, aquelas que permitem ver com suavidade. Eu vou à praia quando os outros voltam e fico até o sol cair, sentindo a brisa sem protetor solar.
Prefiro de um Fiatzinho assistir ao desfile de carrões e me sentir seguro de não ser assaltado.
Felicidade não se mede em Ferraris na garagem ou no salão de casa, felicidade é não sentir falta de algo que não temos.
“Per aspera ad astra”, como sustentou Pietro Ubaldi, o caminho do sofrimento é o mais curto. Impérios se ergueram na capacidade de sacrifício, na seriedade e duraram até o momento em que os princípios éticos predominaram na condução do destino de uma sociedade.
Nada disso enxergamos hoje por perto, menos ainda no horizonte. Daí quem tem percepção costuma se encolher e ficar espectador do inevitável.
O Brasil está corroído pelo “bizantinismo burocrático”, que vem sempre associado ao imperar da corrupção. Democracia se transforma em cleptocracia. De um mensalão que desviou R$ 300 milhões se passa a um petrolão que amealhou R$ 21 bilhões. Se a progressão é essa, e a sociedade não tem como conter o avanço da imoralidade, pode-se prever que Sodoma e Gomorra serão incineradas muito em breve.
Tem esperança de evitar uma catástrofe? Gostaria sinceramente de enxergá-la.
Macaco, cuida do teu rabo!
São tantas as investidas do governo da União contra a autonomia dos Estados e municípios que já não as vemos como investidas nem como anomalias institucionais. Quando a presidente Dilma convidou José Eduardo Cardozo para o Ministério da Justiça, ela estava sinalizando para um agravamento dessa situação e para uma radicalização à esquerda em seu governo. O novo ministro pertence à nata do Foro de São Paulo, em cujas reuniões desfia sua oratória revolucionária. Por convicção política o novo ministro só pode ser partidário da centralização, do acúmulo de poder, da unidade de comando.
Não apenas o Ministério da Justiça operará com tais propósitos. Assim será, também, o conjunto do governo por imposição racional das convicções políticas petistas. A democracia como vista por nós, cidadãos comuns, não é a mesma que o PT propõe. Para o partido governante no Brasil, a nossa democracia é burguesa, frágil e pronta para ser comida pelas bordas.
O senhor Cardozo, em recente entrevista ao Estadão, expôs seus projetos para a Segurança Pública, com destaque para a construção de uma estrutura permanente de colaboração das polícias estaduais com a federal. Editorial do mesmo jornal informa que o governo encaminhará ao Congresso um projeto de emenda à Constituição, ampliando o elenco de crimes em relação aos quais passaria a haver competência da União para intervir. No outro lado da cancha, garante o ministro, os Estados conservariam as prerrogativas atuais. Com as palavras de Sua Excelência: “Hoje não posso impor para a PM do Estado normas operacionais. Mas, se tiver uma competência concorrente, posso ter a União estabelecendo diretrizes gerais sem suprimir a possibilidade de os Estados tratarem do mesmo assunto”.
Enquanto planeja uma nova maneira de intervir nas competências dos entes federados, o governo petista descuida do próprio rabo. Sim, porque existe um bom elenco de crimes constitucionalmente postos na alçada federal. Entre eles, estão os crimes praticados por autoridades da República, que têm sido investigados com maior sucesso pela mídia nacional do que pelos órgãos federais incumbidos de fazê-lo. E vale lembrar ao ministro que também são de competência federal, entre outros, os crimes sempre bilionários contra o sistema financeiro, a lavagem de dinheiro, o contrabando e o descaminho. E lá também está o rabo do macaco estendido no meio da avenida.
Nas modernas democracias constitucionais, descentralização é um quase sinônimo de democratização. Pelo viés oposto, centralização é um quase sinônimo de autoritarismo, ou totalitarismo, ou tirania. É algo assim que está em curso no Brasil, de um modo escancarado. O governo da República se sente dispensado de disfarçar o caráter autoritário, totalitário ou tirânico de suas incursões pelas unidades federadas distribuindo dinheiro e brindes como se a vida nacional fosse um grande programa de auditório em que a falsa generosidade arranca abobalhados aplausos.
Percival Puggina
Inflação reverte tendência e é maior para pobres
Ao contrário do que ocorreu até 2008, nos últimos anos a inflação "dos pobres" brasileiros teria sido maior que a "inflação dos ricos" segundo o economista Fábio Ferreira da Silva, membro do Conselho Federal de Economia.
A pedido da BBC Brasil, Silva atualizou os dados de um estudo que havia feito em 2011 para entender como a alta de preços afetava diferentes faixas de renda da população em diferentes regiões do país.
Na época, o pesquisador havia analisado o período de 1995 a 2008 e concluído que, depois do Plano Real o Brasil teve uma inflação "pró-pobre" - ou seja, os preços dos produtos e serviços que têm um peso maior no orçamento das famílias de baixa renda teriam aumentado menos que os dos itens de maior peso para as famílias ricas e de classe média.
Segundo seus cálculos, porém, desde 2009 tem havido uma reversão dessa tendência - com uma inflação pró-ricos. "Pelo quinto ano consecutivo, a inflação dos pobres é mais alta que a média - uma tendência diferente daquela que se observou em anos anteriores", diz Silva.
Em 2014, por exemplo, enquanto a inflação no Centro Sul teria sido de 6,4%, os pobres da região teriam sentido uma alta de preços de 6,8%.
Já no caso do Nordeste, enquanto a inflação média teria sido de 6% no ano passado, para a classe baixa a alta foi de 6,4% e para os ricos, de 5,5%.
De acordo com o estudo inicial do economista, publicado na revista Economia Aplicada, de 1995 a 2008 o Brasil teve uma inflação média de 8% ao ano.
No período, a alta de preços no Nordeste teria sido de 7,4% para os pobres, 7,9% para a classe média e 8,3% para a classe alta. No Sudeste, a inflação teria sido de 7,8% para os pobres, 8,1% para a classe média e 8,2% para os ricos.
Já o novo levantamento indica que desde 2009, a inflação média foi de 5,8%. No Nordeste, a alta teria sido de 6,2% para os pobres, 5,7% para a classe média e 5,1% para a classe alta. E no Sudeste, de 6,1% para os pobres, 5,8% para a classe média e 5,7% para os ricos.
Segundo Silva, essa mudança de tendência se deve a pelo menos dois fatores. O primeiro seria a alta combinada dos alimentos e do item habitação - de grande peso para famílias de baixa renda.
"Os alimentos em domicílio têm maior peso na cesta dos pobres, e seus preços subiram, em média, 7,9% em 2014 devido principalmente a choques de oferta", diz o economista.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
O lugar que gosta de novidade, mas não gera o novo
Certamente não por falta de bons profissionais, instituições ou criatividade. Faltam sistemas que premiem as boas ideias e as coloquem a serviço do crescimento
Olhando (talvez excessivamente) de perto, parece ser local abençoado com vida econômica vibrante, dinâmica, excitante. Onde um dia não é igual a outro. Tudo é sempre novidade. Sempre desafiador. Afinal de contas, não é todo lugar em que as paginas policiais invadem o noticiário politico e econômico e lhes confere emoção, cor e textura. De perto, tudo é (ou parece ser) emocionante, enfim. De perto, realmente, nada nem ninguém é normal.
Vista a distancia, entretanto, tudo muda, inclusive, e principalmente, a percepção. Distancia e o tempo servem para adicionar frieza na analise. Colocar fatos em perspectiva. Decodificar o caos, transformando-o em realidade.
Realidade, infelizmente, não tem coração. Nem preferencia. Nem favoritos. Ela apenas é. Cerca a tudo e a todos sem ser jamais conhecida por inteiro. Mas, mesmo assim, distancia e tempo nos aproxima dela. E olhando, desde onde alcança a vista, o ambiente econômico verde e amarela decepciona.
No longo prazo, É letárgica, lenta, sem dinamismo. Carece de renovação, inovação, invenção. Parece acontecer em dimensão paralela onde os avanços ocorrem em outro compasso. Tem sempre jeito de pão dormido. E sabor de café frio.
Olhando de fora, a pátria que frequentemente veste chuteiras, se esforça para apressar o passo em relação à irrelevância. Isola-se, não inova, não renova, não cresce, não age. Anda em passos de tartaruga como se fosse possível ganhar a corrida sem ser mais veloz que os adversários. E se conforma com isso.
Foi assim, insolando-se, que sempre se perpetuou um capitalismo oligopolizado, estatizado, protecionista, e sem dinamismo. E é assim que, cada dia mais, o país, e em regra (com raras exceções), as suas empresas, caminham para seu isolamento na cadeia global de produção.
As novidades ou inovações não vêm de dentro. Certamente não por falta de bons profissionais, instituições ou criatividade. Falta algo mais. Faltam sistemas que premiem as boas ideias e as coloquem a serviço do crescimento.
Enquanto o mundo, em poucas décadas gerou o Facebook, o Google, a Microsoft, a Apple, a Samsung, a Hyundai; a Kia, e muitas outras grandes empresas, negócios e ideias, nosso potencial de inovação dorme em berço expendido.
Potencial inexplorado. Pertencente ao país do futuro. Que certamente não está morto. Que talvez esteja bêbado. Em cujas terras habitam população cansada de esperar pelo futuro próspero que nos foi vendido, prometido. Mas que tempo insiste em não deixar chegar.
Gente aparentemente condenada a gostar de novidade sem conseguir gerar o novo.Leia mais o artigo de Elton Simões
Malditos sejam os pecadores
Dois milênios depois, os pobres do mundo sabem que a dívida é um pecado que não tem expiação. Quanto mais você paga, mais você deve; e no Inferno está à sua espera com os credores.
Eduardo Galeano
Picaretagem chove a cântaros
as tiranias se alimentam
de grandes e pequenas covardias!
tt catalão
Em Secretário, distrito de Petrópolis, a população já se movimenta contra um empreendimento, absurdamente considerado viável pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), que prevê a construção de cinco hotéis, quatro campos de golfe, shopping center e condomínios verticais e horizontais, numa área abastecida apenas pelo rio Maria Comprida, de pequena vazão.
O problema, que já se configura na serra fluminense, é o mesmo instalado na litorânea Maricá, reduto do petista Quaquá, onde o problema da água vem se agravando desde que o coroné passou a controlar a Prefeitura com sua quaquadrilha. No entanto, pouco se lixando para o problema, incentivou a instalação de condomínios por todo canto, que renderam trocados à prefeitura. Sem falar no discutível projeto na Restinga com shoppings, campos de golfe e muito condomínio. Aumentou-se a população, mas água não há, nem pensar em saneamento, com uma lagoa para despejar tanta bosta.
Sem ter o que inventar para ficar na crista da onda municipal e dar o que discutir aos seus quase 5 mil comissionados, novamente dispara seu estilingue contra a Cedae, como qualquer moleque disposto a quebrar a vidraça do vizinho. Só por pirraça, para fazer jus a sua fama de revolucionário, que precisa de um batalhão de policiais de aluguel para se proteger.
Convoca mais uma vez, através de redes sociais, um movimento dos internautas para pressionar a empresa e logicamente o governo de Luiz Fernando Pezão, hoje adversário político do presidente regional do PT e alcunhado de prefeito. Quer usar principalmente seus mercenários internautas como massa de manobra para atacar o governo estadual e espalhar o quanto o revolucionário caiçara pensa no povo.
Ao apontar um culpado pela crise hídrica, da qual não cuidou durante seis anos, que ocorre desde outubro e vai se prolongar por mais um Verão, o desqualificado administrador volta a ocupar com destaque as páginas compradas na imprensa. Como segue à risca o lema de que a propaganda é a alma do negócio, assim administra petistamente.
Ninguém pode deixar de lado a imensa culpa da Cedae, que monopoliza o serviço, sob as bênçãos governamentais, mas cruzar os braços como se fez durante seis anos sem qualquer pressão sobre a empresa estadual quando se era aliado do então governador, é ser cúmplice no desprezo com que se trata a população, tanto na esfera estadual como, principalmente, na municipal.
Se esquece o digníssimo, que logo após eleito em 2008, se encontrou com o presidente da Cedae para discutir o convênio prorrogando por 60 anos os serviços de fornecimento de água e saneamento no município. Aquele que hoje reclama falava então: “A partir de agora, a Cedae e a Prefeitura de Maricá serão parceiras na captação de recursos. Iremos juntos a Brasília buscar verbas para o saneamento da cidade".
De lá para cá, o que mais fez foi brigar com o governo estadual, evitando qualquer diálogo quanto ao abastecimento. Simplesmente deixou de lado como prefeito a responsabilidade de cuidar dos interesses da população. Preferiu se empenhar em ações eleitoreiras para eleger a mulher e um companheiro às câmaras.
O digníssimo, que só não esquece de fazer farra com o dinheiro público, sequer vai se lembrar que anunciou a criação de uma empresa de águas municipal, nunca saída do papel. Em resposta, mesmo sem água, o município ganhou uma estação de tratamento e captação de água. Parece piada, mas ainda no bolo colocaram a construção de uma Estação de Tratamento de Água na Serra do Lagarto, próxima à divisa com Itaboraí, ao custo de R$ 70 milhões. E está tudo como antes. Nada mais se falou do assunto.
Mas como promessa é a única coisa que chove em Maricá, Quaquá, o digníssimo, anunciou que o município teria mais de 80% atendidos pela rede de abastecimento até o fim do mandato, em 2012. "Essa parceria com o governo estadual e a Cedae já garantiu água também para Bananal, Ponta Negra e Cordeirinho, além do aumento da vazão na região do Centro. Vale lembrar também que é mais um grande investimento que estamos levando para a região de Inoã, além dos que já estão em andamento, o que não ocorria havia mais de 50 anos". De mandato renovado, disse o dito pelo não dito e tome de incentivar, e angariar simpatias, por mais condomínios e shoppings instalados.
Está-se em 2015 e esse mesmo indivíduo volta a tocar na água com a maior desfaçatez de quem durante seis anos só levou o problema com a barriga e dele tratou apenas de boca, quando era interessante para ele. Como tudo, enfim, na seca, tórrida, desabastecida e punida cidade por um governo mafioso, que tomou de assalto a prefeitura.
Quantas vezes usamos 'mudança climática' no dia a dia?
Mudança climática. Duas palavras cada vez mais presentes na linguagem cotidiana dos latino-americanos, que em 2014 sofreram variações bizarras no clima, afetando seu dia a dia e surgindo como uma ameaça a ser levada a sério em 2015.
Não se trata de sermos apocalípticos, mas os sinais estão aí e não podem ser ignorados. Na América Latina, foram registradas as tempestades mais intensas e recorrentes nos últimos anos, períodos cada vez mais intensos de secas e desaparecimento das majestosas geleiras andinas.
Tudo como consequência de um mundo cada vez mais quente, que tem um impacto direto na agricultura e na pesca e, por isso, põe em risco a capacidade de produzir alimentos aos mais de 7 bilhões de habitantes do planeta.
Segundo o recente relatório Baixemos a Temperatura, a América Latina é responsável por apenas 12,5% das emissões de efeito estufa —destacadas como as principais causadoras do aquecimento global--, mas será uma das regiões mais afetadas se a temperatura mundial aumentar quatro graus centígrados, segundo previsões para 2100.
Esse panorama foi o centro das discussões na COP20, realizada em Lima, onde também foi analisado o impacto do aquecimento na saúde da população e na economia mundial.
Apesar das diferenças, em Lima foi acertado no último minuto um acordo para tentar frear a mudança climática, embora não seja vinculante. Agora as esperanças apontam para a conferência Paris 2015, onde deve ser selado um pacto definitivo que obrigue todos os países a adotar ações que reflitam uma diminuição real das emissões.
Enquanto isso, na América Latina os países continuam trabalhando arduamente para reduzir sua marca ambiental e frear o aquecimento global.
A região é uma das mais ativas na promoção dos mercados de carbono, que oferecem incentivos às empresas e comunidades para emitir menos CO2 e ajudam na conservação das vastas zonas florestais. A Costa Rica, por exemplo, se transformou em 2014 no primeiro país da América Latina a ter acesso, por enquanto, a esse sofisticado mercado.
Mesmo assim, a região latino-americana está na vanguarda da chamada “agricultura inteligente”, com o Uruguai na liderança. Esse país, com apenas três milhões de habitantes, passou de uma produção de alimentos para 9 milhões de pessoas em 2005, para 28 milhões de pessoas atualmente, e sua ambição é chegar até 50 milhões de pessoas.
“A agricultura focada no clima se apresenta como uma oportunidade para abordar a segurança alimentar de forma integrada, com benefícios de adaptação e mitigação de impactos”, disse Mohamed Bakarr, especialista ambiental sênior do Fundo para o Meio Ambiente Mundial (FMAM).
É que as mudanças no clima têm um impacto direto na produção alimentar e poderiam gerar instabilidade social nos países em desenvolvimento. Segundo José Antonio Cuesta, economista do Banco Mundial e um dos autores do relatório Alerta sobre o Preço dos Alimentos, “em uma sociedade com maiores níveis de insatisfação é mais provável que se reaja de forma mais violenta às consequências de uma crise alimentar”.
“No último relatório Alerta sobre o Preço dos Alimentos, calculamos que nos últimos seis anos foram registradas 53 manifestações violentas no mundo (relacionadas à escassez de alimentos), das quais oito foram na América Latina”, acrescentou em uma entrevista.
Os vaivéns do clima também podem deixar muitas pessoas sem trabalho. No âmbito macroeconômico, o impacto não é menor: o setor de agricultura dá emprego a quase 20% da população na América Latina e no Caribe, e representa 21% do PIB regional.
Especialistas preveem que o impacto da mudança climática na produção de grãos básicos pode ser muito maior do que imaginamos. Na Argentina, por exemplo, estimativas do Banco Mundial apontam que os produtores perderão 2,5 bilhões de dólares (6,6 bilhões de reais) na produção de soja e milho, por causa das mudanças no clima.
Mas a mudança contra o aquecimento global não se trata apenas de reduzir emissões, mas também de saber gerenciar recursos, e na América Latina a água ocupa o primeiro lugar na lista de prioridades.
O crescimento demográfico e econômico, somado às mudanças climáticas, aumentará a pressão atual sobre os recursos hídricos. De fato, segundo especialistas, entre 43% e 50% da população mundial viverá em países com escassez de água em 2080, comparado com a parcela atual de 28%.
Os desafios em relação à água são muitos e requerem soluções multisetoriais. Alimentar 9 bilhões de pessoas que devem habitar o planeta em 2050 vai exigir duplicar a disponibilidade de água para fins agrícolas. A irrigação é, de longe, a atividade que mais consome água e representa quase 70% da extração e 90% do uso destinado ao consumo no mundo.
O mesmo acontece com a energia. Atualmente, mais de 1,2 bilhão de pessoas não têm acesso à eletricidade. Calcula-se que para produzir energia hoje em dia seja necessário cerca de 15% dos recursos hídricos. Mas as estimativas indicam que o gasto global com eletricidade aumentará cerca de 35% em 2035 e, embora o consumo de água seja mais eficiente, o consumo real desse recurso pelo setor de energia pode subir 85%.
Leia mais o artigo de María José González Rivas, editora do Banco Mundial
O crescimento demográfico e econômico, somado às mudanças climáticas, aumentará a pressão atual sobre os recursos hídricos. De fato, segundo especialistas, entre 43% e 50% da população mundial viverá em países com escassez de água em 2080, comparado com a parcela atual de 28%.
Os desafios em relação à água são muitos e requerem soluções multisetoriais. Alimentar 9 bilhões de pessoas que devem habitar o planeta em 2050 vai exigir duplicar a disponibilidade de água para fins agrícolas. A irrigação é, de longe, a atividade que mais consome água e representa quase 70% da extração e 90% do uso destinado ao consumo no mundo.
O mesmo acontece com a energia. Atualmente, mais de 1,2 bilhão de pessoas não têm acesso à eletricidade. Calcula-se que para produzir energia hoje em dia seja necessário cerca de 15% dos recursos hídricos. Mas as estimativas indicam que o gasto global com eletricidade aumentará cerca de 35% em 2035 e, embora o consumo de água seja mais eficiente, o consumo real desse recurso pelo setor de energia pode subir 85%.
Leia mais o artigo de María José González Rivas, editora do Banco Mundial
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Por que o humor nos liberta dos fantasmas
A sátira não mata, liberta. Os dogmas, religiosos ou políticos, é que têm semeado cadáveres ao longo da História.O humor e a sátira, que implicam sempre uma crítica ao poder, foram ensanguentados nestes dias na França, salpicando todos nós. Sobre as implicações do assassinado de humoristas irreverentes (que verdadeiro humorista não é assim?), já se escreveu quase tudo.
Mas talvez um aspecto tenha sido menos lembrado: o da força que esse gênero literário de sátira possui para libertar os seres humanos dos fantasmas que os angustiam desde o tempo das cavernas.
Se há algo tipicamente humano, é o humor. Não os medos, nem a violência, que também existem no reino animal. Uma das manifestações artísticas que enobrecem a capacidade intelectual do Homo sapiens é a possibilidade de ridicularizar o poder – e a nós mesmos – como antídoto para as tentações de onipotência.
Todos os poderes odeiam os humoristas e satíricos. Quanto mais tiranos os poderes se revelam, mais os odeiam
A sátira dói porque nos desnuda, revela nossos limites, castiga nossa pretensão de acreditar que sejamos importantes e intocáveis.
Ela ameaça o poder porque o coloca em seus limites, já que os que o detêm, seja no âmbito político, religioso ou cultural, podem escorregar na tentação de se considerar intocáveis. E, ao mesmo tempo, liberta a todos nós dos fantasmas aninhados em nossos genes. Fantasmas que afligem e às vezes tiram o sono de grandes e pequenos.
Nada liberta mais nossas crianças dos fantasmas que povoam seus sonhos e suas vigílias do que ridicularizar as bruxas e os super-homens. As crianças adoram quando rimos dos adultos, nós, que constituímos para elas o medo ao poder que castiga ou castra seus melhores sonhos de liberdade.
Poucas coisas são tão libertadoras, em todos os âmbitos, como uma ilustração inteligentemente sarcástica sobre qualquer poder político ou religioso.
Todos os poderes odeiam os humoristas e satíricos. Quanto mais tiranos os poderes se revelam, mais os odeiam. Não há nenhum teste melhor para medir o grau de democracia de uma pessoa ou instituição do que sua capacidade de aceitar a ironia sobre ela e o que ela representa.
Se o humor nos desnuda e remove o falso brilho do poder, não faz mais do que nos trazer de volta às nossas origens, já que todos, desde o início dos tempos, nascemos nus, desvalidos, necessitados de tudo. Nascemos sem poder. Chorando, não rindo.
O humor nos liberta das estruturas com as quais os mantos do poder nos vão revestindo e cobrindo. Devolve nossa essência.
Bastaria essa força de libertação de nossos medos, de nossas estúpidas crenças de superioridade, para defendermos os gênios do humor e sua força criativa.
Democracia não se perverte
Democracia não pode ser pervertida para combater o terror
Deputado do Partido Socialista francês, Eduardo Rikhan Cypel, brasileiro radicalizado na França
A semana de terror assistida por milhões em todo o mundo tem muito a ensinar sobre democracia. Em particular àquele ao qual o ex-presidente francês, general Charles de Gualle, como "não é um país sério".
Em nenhum momento, nenhuma voz por lá se levantou em um gesto antidemocrático. Em uníssono, o país quis uma resposta séria e dentro da legalidade para combater o terrorismo, o que só pode acontecer em democracias estabelecidas.
Democracias há por todo o mundo, e nem adianta encher a boca para se proclamar que vive numa delas, porque raríssimas respeitam os princípios de liberdade e de direitos.
Na França, para combater o radicalismo de bandidos, travestidos de seguidores do Islã, não se reduziu a democracia. Nem através de decretos ou outras ações, o governo feriu princípios, maquiou aqui e ali. Sabem muito bem que não se pode ostentar a democracia com demagogia ou marketing de discursos faraônicos, muitas vezes eivados de totalitarismo.
Tem-se democracia, e devemos respeito a ela, ou apenas somos mascarados para ocultar a face verdadeira de uma republiqueta. Os franceses são definitivamente sérios que não se deixarem levar por malandragem de picaretas sempre dispostos a empurrar com a barriga uma democracia de fachada.
Tem que existir em todos os momentos de uma nação que a queira na íntegra. Perverter a democracia para se manter no poder a qualquer custo, mesmo que a vaca tussa, pintando o diabo, é fazer terror com o próprio povo.
Governo massacra aposentados e pensionistas
Circula na internet, causando desapontamento e revolta a aposentados e pensionistas, uma tabela contendo um quadro comparativo de benefícios pagos pelo INSS entre 1997 e 2014.
O gráfico mostra que os benefícios equivalentes ao salário mínimo subiram 503,25% de 1997 a 2014, enquanto o reajuste para que aposentados e pensionistas que recebem mais de um mínimo foi de apenas 199,07%.
A decepção dos aposentados e pensionistas é mais do que procedente. Esta política é massacrante e não pode ser mantida eternamente, pois tende a nivelar por baixo todos os benefícios, o que representa uma inominável injustiça àqueles que mais contribuíram para manter a Previdência Social.
E com um detalhe deplorável: muitos desses aposentados passaram anos e anos contribuindo sobre 20 salários de referência, que com a reforma da previdência foram reduzidos para apenas 10 salários de referência, sem que essas contribuições a mais tivessem sido devolvidas, numa flagrante apropriação indébita de recursos do contribuinte.
Cabe aqui uma observação importante. A tabela que circula na internet está equivocada, porque se baseou nos valores do salário mínimo vigente no país, que não serve para cálculo dos benefícios do INSS, embora seja considerado piso. Quando o INSS fala em 10 salários, refere-se sempre a salário de referência ou salário de contribuição, e não ao salário mínimo.
Mesmo assim, a tabela serve para demonstrar os prejuízos de quem recebe mais de um salário mínimo. Em 1997, por exemplo, o salário mínimo era de R$ 120,00 e o teto do INSS estava em R$ 1.031,87. Ou seja, era de 8,59 salários mínimos. Em 2014, o mínimo passou a R$ 724 e o valor máximo dos benefícios para R$ 4.390,24, equivalentes a apenas 6,06 salários mínimos. E a queda é progressiva.
O pior de tudo isso é saber que o reajuste das pensões e aposentadorias vem sendo baseado num índice de inflação subavaliado, que não condiz com o verdadeiro aumento do custo de vida, circunstância que aumenta ainda mais os prejuízos dos brasileiros da terceira idade. É revoltante ou não?
Carlos Newton
O gráfico mostra que os benefícios equivalentes ao salário mínimo subiram 503,25% de 1997 a 2014, enquanto o reajuste para que aposentados e pensionistas que recebem mais de um mínimo foi de apenas 199,07%.
A decepção dos aposentados e pensionistas é mais do que procedente. Esta política é massacrante e não pode ser mantida eternamente, pois tende a nivelar por baixo todos os benefícios, o que representa uma inominável injustiça àqueles que mais contribuíram para manter a Previdência Social.
E com um detalhe deplorável: muitos desses aposentados passaram anos e anos contribuindo sobre 20 salários de referência, que com a reforma da previdência foram reduzidos para apenas 10 salários de referência, sem que essas contribuições a mais tivessem sido devolvidas, numa flagrante apropriação indébita de recursos do contribuinte.
Cabe aqui uma observação importante. A tabela que circula na internet está equivocada, porque se baseou nos valores do salário mínimo vigente no país, que não serve para cálculo dos benefícios do INSS, embora seja considerado piso. Quando o INSS fala em 10 salários, refere-se sempre a salário de referência ou salário de contribuição, e não ao salário mínimo.
Mesmo assim, a tabela serve para demonstrar os prejuízos de quem recebe mais de um salário mínimo. Em 1997, por exemplo, o salário mínimo era de R$ 120,00 e o teto do INSS estava em R$ 1.031,87. Ou seja, era de 8,59 salários mínimos. Em 2014, o mínimo passou a R$ 724 e o valor máximo dos benefícios para R$ 4.390,24, equivalentes a apenas 6,06 salários mínimos. E a queda é progressiva.
O pior de tudo isso é saber que o reajuste das pensões e aposentadorias vem sendo baseado num índice de inflação subavaliado, que não condiz com o verdadeiro aumento do custo de vida, circunstância que aumenta ainda mais os prejuízos dos brasileiros da terceira idade. É revoltante ou não?
Carlos Newton
A presidência ditatorial ou a ditadura presidencial
Marcada para o
dia 27, terça-feira, a primeira reunião do ministério arrisca-se a ser a última.
Pelo menos, com os atuais ministros empossados no primeiro dia do ano, somados
aos que permaneceram, no total de 39. Isso porque, depois de conhecida a lista
do procurador-geral da República relacionando supostos envolvidos no escândalo
da Petrobrás, será possível à presidente Dilma fazer alguns ajustes. Poderá
dispensar ministros porventura denunciados, assim como recrutar aliados que
ficaram fora da lambança.
De qualquer
forma, essas reuniões ministeriais perderam sua razão de ser depois que a equipe
inchou. Servem apenas para a presidente dar recados genéricos, quando não passa
reprimendas, tornando-se inviável que cada um dos presentes possa sequer dar
bom dia aos colegas, quanto mais expor suas metas, suas dificuldades, pedindo e
contribuindo com conselhos para o
vizinho do lado. Meia hora que fosse para cada um pronunciar-se e dois dias não
seriam suficientes, mesmo sem intervalo para refeições ou para uma soneca.
Não dá para
governar em colegiado, ou seja, facultando-se a todos os ministros opinar a
respeito de temas comuns ou até colaborando, uns, nas questões dos outros, como
já aconteceu no passado. Cada vez mais dividido em compartimentos estanques,
pelo número absurdo de participantes, o ministério tornou-se uma entidade
insossa, amorfa e inodora, na medida em que todos ouvem a palavra presidencial
mas ficam impossibilitados de debater e apresentar opiniões ou discordâncias.
Nada diferente daquelas vetustas salas de aula do passado, onde o mestre-escola
pontificava e os alunos calavam.
Sequer se
torna possível dividir o ministério em grupos determinados, como o político, o
econômico, o social e o da infraestrutura. Vigora hoje a ditadura presidencial.
Em separado, só poucos ministros conseguem despachar com a presidente. Outros
chegarão ao final do ano conhecendo apenas o auditório palaciano, sem ter
entrado no gabinete de Dilma, limitados às bissextas reuniões conjuntas. Numa
palavra, ministros de primeira e de segunda classe, poucos privilegiados,
muitos discriminados, mas todos calados e subservientes.
Cada vez mais
o exercício da chefia do governo torna-se tarefa monocrática, especialmente se
seu ocupante apresenta temperamento e características monárquicas. Se impõe sua
decisão sem admitir ponderações ou sugestões. O resultado é seu isolamento
permanente, dentro da concepção de que ministros existem para obedecer e
cumprir ordens. Já se foi o período em que tinham condições e coragem para
expor roteiros de ação e até correções de rumo. Curvam-se à fala do trono.
Precisamente o que assistiremos dia 27.
Coincidência
não foi a manifestação contra o aumento das tarifas de transporte publico
verificada em São Paulo, Rio e Belo Horizonte, na noite de sexta-feira. Até a
baderna que se seguiu às passeatas pacificas terá sido minuciosamente
programada. Vieram as mesmas depredações de sempre, com personagens encapuzados
e organizados. Seria bom prestar atenção. Se a onda de julho de 2013 voltar,
será bem mais violenta.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
O discurso da rainha e a máquina publicitária
O Partido dos Trabalhadores mantém uma relação muito própria com a realidade. A exemplo dos partidos totalitários, os fatos, para o PT, são meras referências a partir das quais são concebidas e propagadas as versões mais convenientes. Três fatores se têm revelado utilíssimos para que cada versão, malgrado sua desconexão com os acontecimentos, produza o efeito político pretendido.
O primeiro desses fatores é a velocidade com que a máquina publicitária petista produz e distribui a versão mais proveitosa. É imperioso que chegue a todos os cantos do país simultaneamente com a notícia a partir da qual a versão foi construída. O partido dispõe, então, de numerosa e bem organizada rede de reprodução e repetição das versões que constrói. Em instantes, no canto mais remoto do país, onde houver um vereador do PT ou um dirigente partidário local, ele sabe muito bem o que deve propagar e repetir incessantemente sobre cada assunto de interesse da sigla. Bastaria essa coesão para fazer da mentira verdade e da verdade mentira. Nada que não tivesse sido utilizado antes por todos os partidos de viés totalitário, ao longo do século 20. Inclusive o anseio por reescrever a história, transformando bandidos em heróis e vice-versa, sempre com base nas versões construídas. A Comissão da Verdade é o recente exemplo local de algo que foi prática corrente no mundo comunista.
O segundo fator tem a ver com a fragilidade intelectual do grande público. Quem faz política com astúcia conta com ela e dela se aproveita. Valem-se dessa fragilidade, aliás, todos os vigaristas bem sucedidos. Confiam nela os mentirosos, nas muitas esferas da vida social. Não bastasse isso, é fato: quase sempre, a mentira bem contada é mais atrativa do que a verdade.
O terceiro fator é uma peculiar idiossincrasia de parte da imprensa brasileira que exige de si conduta estéril, uma azoospermia que parece não ter cura, uma equidistância em relação a toda divergência. Graças a isso, mentira e verdade se defrontam com igualdade de condições. Ponto e contraponto. Ainda que um ou outro seja descarado embuste, são raras, entre nós, matérias editoriais desmascarando tramoias. Mesmo se produzidas em série, como as que rechearam o discurso de Dilma.
Os textos que Dilma leu durante a posse, preparados por ghost writer, formam duas coletâneas de exemplos do que examinei acima. Versão, versão, versão, ufanismo, falsidade e mistificação. Graças a esse menosprezo aos fatos, a presidente pode afirmar, sob aplausos, que esta é a “primeira geração de brasileiros que não vivenciou a tragédia da fome”. Graças a ele, a presidente mencionou os escândalos que espocam na Petrobras feito milho de pipoca como se fossem causados por seres alienígenas vindos de algum planeta capitalista. Graças ao mesmo menosprezo pela verdade e pelos fatos, ela referiu um compromisso com a “Pátria Educadora” (meu Deus, que diabo será isso?) depois de haver entregue o Ministério da Educação a um ex-governador que absolutamente não é do ramo. Graças a ele, prometeu extirpar a corrupção no mesmo dia em que chamava para integrar seu ministério pelo menos uma dúzia de políticos envolvidos em denúncias de corrupção. E por aí foi Dilma, comprometida com muito mais do mesmo.
O primeiro desses fatores é a velocidade com que a máquina publicitária petista produz e distribui a versão mais proveitosa. É imperioso que chegue a todos os cantos do país simultaneamente com a notícia a partir da qual a versão foi construída. O partido dispõe, então, de numerosa e bem organizada rede de reprodução e repetição das versões que constrói. Em instantes, no canto mais remoto do país, onde houver um vereador do PT ou um dirigente partidário local, ele sabe muito bem o que deve propagar e repetir incessantemente sobre cada assunto de interesse da sigla. Bastaria essa coesão para fazer da mentira verdade e da verdade mentira. Nada que não tivesse sido utilizado antes por todos os partidos de viés totalitário, ao longo do século 20. Inclusive o anseio por reescrever a história, transformando bandidos em heróis e vice-versa, sempre com base nas versões construídas. A Comissão da Verdade é o recente exemplo local de algo que foi prática corrente no mundo comunista.
O segundo fator tem a ver com a fragilidade intelectual do grande público. Quem faz política com astúcia conta com ela e dela se aproveita. Valem-se dessa fragilidade, aliás, todos os vigaristas bem sucedidos. Confiam nela os mentirosos, nas muitas esferas da vida social. Não bastasse isso, é fato: quase sempre, a mentira bem contada é mais atrativa do que a verdade.
O terceiro fator é uma peculiar idiossincrasia de parte da imprensa brasileira que exige de si conduta estéril, uma azoospermia que parece não ter cura, uma equidistância em relação a toda divergência. Graças a isso, mentira e verdade se defrontam com igualdade de condições. Ponto e contraponto. Ainda que um ou outro seja descarado embuste, são raras, entre nós, matérias editoriais desmascarando tramoias. Mesmo se produzidas em série, como as que rechearam o discurso de Dilma.
Os textos que Dilma leu durante a posse, preparados por ghost writer, formam duas coletâneas de exemplos do que examinei acima. Versão, versão, versão, ufanismo, falsidade e mistificação. Graças a esse menosprezo aos fatos, a presidente pode afirmar, sob aplausos, que esta é a “primeira geração de brasileiros que não vivenciou a tragédia da fome”. Graças a ele, a presidente mencionou os escândalos que espocam na Petrobras feito milho de pipoca como se fossem causados por seres alienígenas vindos de algum planeta capitalista. Graças ao mesmo menosprezo pela verdade e pelos fatos, ela referiu um compromisso com a “Pátria Educadora” (meu Deus, que diabo será isso?) depois de haver entregue o Ministério da Educação a um ex-governador que absolutamente não é do ramo. Graças a ele, prometeu extirpar a corrupção no mesmo dia em que chamava para integrar seu ministério pelo menos uma dúzia de políticos envolvidos em denúncias de corrupção. E por aí foi Dilma, comprometida com muito mais do mesmo.
O lobo mau
O PT e Charlie Hebdo
O que ocorreu em Paris fere a conquista mais preciosa da humanidade, que é o direito de se manifestar. Alega-se que o cristianismo teve seu tempo de trevas na Idade Média. Pois é: quantos séculos faz? Estamos em pleno século 21
Terrorismo e coerência não combinam. Caso contrário, os energúmenos que enxergam agressão numa piada, por mais abjeta, veriam que é incomparável, sob todos os aspectos, com o que eles mesmos promovem em terras muçulmanas contra cristãos.
Mais de cem mil cristãos – incluídas aí crianças - são assassinados por ano no mundo muçulmano pelo simples fato de que são cristãos. Não fazem proselitismo, não hostilizam, não fazem piada, nem muito menos constroem templos. Apenas têm outra crença. É o bastante.
Somente em Paris, há mais de cem mesquitas – grande parte construída nesta Era em que o Ocidente é alvo de atentados e hostilidades, sob pretexto religioso -, sem que se impeça ou constranja alguém de frequentá-las (a partir de agora, e em decorrência do que aconteceu na quarta-feira, já não se sabe).
O atentado tem força simbólica maior que os inúmeros que o precederam nos últimos anos em todo o Ocidente. O alvo foi a liberdade, personificada numa revista de humor. Nesses termos, é ainda mais chocante que o das Torres Gêmeas de Nova York, que atingiu o coração financeiro do capitalismo.
O que ocorreu em Paris fere a conquista mais preciosa da humanidade, que é o direito de se manifestar. Alega-se que o cristianismo teve seu tempo de trevas na Idade Média. Pois é: quantos séculos faz? Estamos em pleno século 21. De lá para cá, muito sangue correu para que jornais pudessem circular livremente.
O Charles Hebdo já ridicularizou padres, pastores e rabinos, e nenhum apontou nem sequer um estilingue contra a revista.
Comentou-se a pouca ênfase com que o governo brasileiro repudiou o episódio, sem falar no silêncio de entidades diretamente ligadas às vítimas – Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), por exemplo.
Outras, como PT e CUT, por meio de alguns de seus militantes, procuraram atribuir, nas redes sociais, a responsabilidade às próprias vítimas. É compreensível.
É para essa gente – os que representam os algozes – que a diplomacia brasileira (e bolivariana) tem direcionado seus interesses na Era PT. Foi Lula quem trouxe para cá, e o recebeu com tapete vermelho, o sanguinário ditador iraniano Mahmoud Ahmadinejad, que proclamava seu propósito de banir Israel da face da terra.
Foi ele também que comparou atos repressivos homicidas no Irã, em retaliação a protestos contra fraudes eleitorais, a uma briga de torcida entre Flamengo e Vasco.
Dispôs-se a mediar, num lance cômico – que o Charlie Hebdo, se lhe desse importância, teria ridicularizado -, os conflitos do Oriente Médio. Lula, como se recorda, invocou seus dons de sindicalista para resolver um conflito imemorial, que transcende a capacidade de compreensão (e solução) da humanidade.
Pior: pretendeu resolvê-lo em favor de uma das partes, o que desfaz o sentido d o verbo mediar. Em Israel, recusou-se a visitar o monumento ao fundador do sionismo, Theodor Herzi, gesto diplomático que nenhum chefe de Estado, em visita ao país, recusa fazê-lo. Já Dilma, no final do ano passado, num igualmente ridículo discurso na assembleia da ONU, condenou as retaliações militares aos degoladores do Exército Islâmico, propondo diálogo.
Sua proposta, quem sabe, poderia agora ser recolocada à polícia francesa e às famílias das vítimas.
O tom da diplomacia petista, que transformou o Itamaraty de órgão de Estado numa célula partidária, é de hostilidade aos Estados Unidos e à União Europeia. Ao Ocidente. E de franca simpatia a governos que promovem e acobertam atos como os que estarreceram o mundo na quarta-feira.
A diplomacia do PT definitivamente não pode repetir com o mundo civilizado: “Je suis Charlie”.
Ruy Fabiano
Há 12 anos no poder, o PT ainda não sabe o que fazer
O problema na maioria dos países não é esquerda ou direita. O problema maior chama-se governos. São todos irresponsáveis. Não começou agora. No Brasil, nenhum governo jamais teve respeito pela população. Gastam o dinheiro dos impostos, tributos, taxas e multas, como se ele desse em árvore, no quintal do Palácio. Isto sem falar no que roubam.
E para mudar esta nossa Monarquia Republicana, é preciso aperfeiçoar o sistema político, caso contrário, depois de arrumarem novamente a casa, às custas da população, aparecerá outro irresponsável e bagunçará tudo de novo. Lógico, cada vez com alguns espertalhões bem mais ricos. Desta vez são os sindicalistas a enriquecerem. Sem contar os de sempre: os fornecedores e financiadores dos governos.
Veja-se o governo FHC. Se não levarmos em conta a continuidade do Plano Real, as privatizações e a Lei de Responsabilidade Fiscal, também pouco fez, salvo a compra de votos para a reeleição, que o beneficiou, mas o feitiço acabou virando contra o feiticeiro. Mas é preciso reconhecer que FHC prejudicou menos o país que a atabalhoada Dilma.
O problema agora são as medidas que o novo ministro Joaquim Levy terá que forçosamente tomar para corrigir uma situação criada por inteira má fé.
Sabemos que a Dilma mente ao dizer que entende de economia, mas é impossível aceitar o fato de que no seu governo ninguém soubesse que as medidas eleitoreiras que ela tomou (ou eles tomaram) causariam sérios problemas ao país.
Acompanho as crises desde 1966, E a dose de erros da gerentona – antes de aterrissar em Brasília, era diretora de uma estatal falida no RS, a CRT – superou todas as más expectativas. E a reeleição dessa quadrilha vai custar muito caro ao país. O ano está apenas começando. Já passei por isso em governos anteriores.
A democracia, se fosse exercida na sua plenitude, precisaria ter salvaguardas para defenestrar com mais facilidade pessoas que exercem a governança com tanta má fé. Se os candidatos – quase todos, uns bandidos impostos pelos partidos políticos – fossem escolhidos pelos eleitores, e já com cláusulas que preservassem as instituições, não teríamos crises periódicas, quase cíclicas.
Vinte e dois anos na oposição – e que oposição, se há governo sou contra. Mais 12 anos com a chave do cofre na mão, e eles ainda não sabem o que fazer. Incrível. Agora então, Dilma misturou alhos com bugalhos na composição dos “40” ministros, para ver se não lhe fazem tanta cobrança, e eles nada farão, além de brigar entre si.
A única coisa prevista para os próximos dois anos será tentar consertar as merdas feitas nos quatro anos anteriores. Nem vou falar das empresas privadas que fecharão as portas em função do arrocho que vem por aí.
Haja saco para aguentar os próximos quatro anos – se Dilma durar tanto… Agora, vai inundar o país de propaganda do governo (paga por nós) sobre o que ela vai fazer pela educação no Brasil. Aprendeu com o “padrinho”, o capo Lula “Ninefingers”.
Martim Berto Fuchs
Seguiremos publicando (editorial conjunto europeu)
O atentado cometido em Paris na quarta-feira 7 de janeiro contra o Charlie Hebdo e o odioso assassinato de nossos colegas, ferrenhos defensores do pensamento livre, não é apenas um ataque à liberdade de imprensa e à liberdade de opinião. É além disso um ataque aos valores fundamentais de nossas sociedades democráticas europeias.
Já nos últimos meses, a liberdade de pensar e informar estava sob a mira, com a decapitação de outros jornalistas, norte-americanos, europeus e de países árabes, sequestrados e assassinados pelas mãos da organização Estado Islâmico. O terrorismo, seja qual for sua ideologia, rechaça a busca da verdade e não aceita a independência de espírito. O terrorismo islâmico, ainda mais.
Depois de negar-se a ceder às ameaças por ter publicado, há quase 10 anos, caricaturas de Maomé, o jornal Charlie Hebdo não mudou em nada sua cultura da irreverência. Com o mesmo ânimo, nós, os jornais europeus que trabalhamos juntos habitualmente dentro do grupo Europa, continuaremos dando vida aos valores de liberdade e independência que são o fundamento de nossa identidade e que todos compartilhamos. Continuaremos informando, investigando, entrevistando, editando, publicando e desenhando sobre todos os temas que nos pareçam legítimos, em um espírito de abertura, enriquecimento intelectual e debate democrático.
Devemos isso a nossos leitores. Devemos isso à memória de todos os nossos colegas assassinados. Devemos isso à Europa. Devemos isso à democracia. “Nós não somos como eles”, dizia o escritor tcheco Vaclav Havel, opositor do totalitarismo que triunfou e se tornou presidente. Essa é nossa força.
Editorial conjunto dos diários Le Monde, The Guardian, Süddeutsche Zeitung, La Stampa, Gazeta Wyborcza e El País
Conta corrente para todos na Índia
Mais de 100 milhões de pessoas já recebem benefícios sociais por meio dos bancosO primeiro-ministro da Índia, o nacionalista hindu Narendra Modi, considera a inclusão financeira “uma prioridade nacional” para facilitar o crescimento inclusivo de um país que se desenvolve em diferentes velocidades. Em seu primeiro discurso no dia da Independência, em agosto do ano passado, lançou a estratégia Projeto do Primeiro-Ministro do Dinheiro do Povo. Seu objetivo, que todas as famílias —tanto no campo quanto nas cidades— tenham acesso a serviços financeiros dá frutos: em menos de cinco meses foram abertas mais de 100 milhões de contas correntes sob essa iniciativa.
“Se queremos eliminar a pobreza, temos que eliminar a discriminação financeira. Temos que conectar todas as pessoas com o sistema financeiro”, afirmou Modi. Agora, as grandes camadas pobres da sociedade podem abrir uma conta sem depositar uma rúpia e ter acesso a serviços como contas de banco com cartão para retirar dinheiro em caixas automáticos, créditos, transferências, seguro e pensões. Com essas contas, o Governo também poderá enviar dinheiro para outros programas destinados aos mais pobres, como bolsas de estudo. Como incentivo para a bancarização, os que abrem contas sob esse programa recebem um seguro contra acidentes e outro de vida.
Nos primeiros dias da campanha, em meados do ano passado, foram abertas 15 milhões de novas contas, volume que esta semana subiu para 103 milhões. É um número elevado em um país de 1,2 bilhão de habitantes marcado pela desigualdade e cujo acesso ao setor bancário é inferior à média mundial.
Com essa iniciativa o Governo espera que os cidadãos abandonem o costume de guardar as economias embaixo do colchão ou de outras maneiras informais, e façam depósitos nas agências. Analistas que apoiam o projeto destacam, além disso, que os mais pobres costumam depender de canais informais de crédito, como os agiotas, que frequentemente cobram juros até cinco vezes mais altos do que os bancos. Acrescentam que, com a bancarização, o dinheiro que o Governo destina aos excluídos poderá chegar de fato aos beneficiados e não se perderá no caminho.
Tática velha de militares
Dilma não está inovando ao inventar um “inimigo externo” para eludir a realidade interna. Com sinal trocado, o regime militar utilizou a mesma tática. A teoria da Segurança Nacional de Golbery dizia que os grandes inimigos do Brasil eram o movimento comunista internacional e seus agentes internos.
E na Venezuela o presidente Maduro usa a mesmíssima tática, assim como a utilizou o general Gualtieri, na Guerra das Malvinas.
Hubert Alqueres
Sob o signo da chantagem
Encenado pelos partidos da base parlamentar do governo, espetáculo mais grotesco não poderia ser programado para este mês de janeiro além da caça aos cargos de segundo escalão dos ministérios. Diante da escalação do primeiro time da equipe, o descontentamento do PMDB, PT, PP, PSD, PDT, PTB e penduricalhos acirrou em todos a ambição de alargarem outros espaços de poder, não tendo recebido os ministérios que esperavam. Utilizam a ameaça de sempre: caso não consigam o maior número possível de dirigentes das múltiplas empresas e dos departamentos encarregados de fazer funcionar a máquina governamental, irão retirar o apoio parlamentar prometido ao palácio do Planalto.
Aliás, é no segundo escalão que se localizam as melhores e mais polpudas oportunidades de abastecer os caixas dos partidos e as contas bancárias de seus líderes. Diretorias de toda espécie assemelham-se a frutas maduras prestes a ser colhidas, daí o conflito entre os partidos. Julgam-se no direito de ocupar espaços tidos como herança, assim como de avançar em territórios ocupados por seus concorrentes.
A confusão é geral, mas o pior nessa caça ao tesouro é a postura da presidente Dilma. Ela e seu núcleo palaciano mais próximo consideram a disputa normal. Suas dificuldades são apenas para contentar a todos. Como aconteceu na definição do ministério, existem feudos e capitanias hereditárias a atender, bem como novas ambições a contemplar. A administração pública fica exposta num amplo balcão de negócios onde oferta e procura celebram acordos abjetos, sem a mínima atenção à eficiência da máquina administrativa e ao melhor funcionamento do poder público.
Tudo se faz sob o signo da chantagem. Determinado banco, departamento ou empresa estatal vai para esse ou aquele partido na medida em que a nomeação assegure mais votos na Câmara ou no Senado. Senão… Senão retiram o apoio a projetos de interesse do governo, quando fevereiro chegar…
Nos tempos em que não havia sido criada a indústria automobilística, quando todo mundo andava a cavalo, de carruagem, charrete ou diligência, a sabedoria popular comparou os políticos que não se definiam a ferreiros, daqueles acostumados a dividir suas marteladas entre o cravo e a ferradura.
Setores ligados ao PT e ao governo fizeram chegar à imprensa informes sobre a presença de Eduardo Cunha na ainda não confirmada lista dos envolvidos no escândalo da Petrobras.
Logo veio a oposição, espalhando a versão de que mais de um ministro do governo Dilma integraria a relação que o procurador geral da República ainda está devendo.
A tréplica não demorou. Os jornais divulgam que o recém-eleito senador e ex-governador de Minas, Antônio Anastasia, também faz parte do grupo prestes a ser denunciado junto ao Supremo Tribunal Federal. Para evitar esse festival de suposições e de baixarias, só mesmo se Rodrigo Janot terminasse sua tarefa de denunciar quem merece ser denunciado e de livrar o pescoço de quem não merece ser degolado.
Carlos Chagas
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Liberdade
— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.
— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.
Miguel Torga (1907-1995)
Eu sou Charlie
O ataque terrorista contra a redação da revista Charlie Hebdo, em Paris, foi mais um, dos milhares que ocorrem pelo mundo, diariamente, para eliminar de vez o direito máximo do homem. É um alerta de que atentados desse ou de outros tipos também acontecem, ou são elaborados, também aqui, porque não se mata apenas pessoas para liquidar a liberdade. Também silenciar a informação, controlar a mídia, esconder em proveito próprio ou de terceiros dados de interesse público, defender a marginalidade política e pública, perseguir os críticos (até com processos) só por não pensar segundo o evangelho da estrela, calar o cidadão em seu direito de expressão, seja ele qual for, são outras formas, das muitas, de se fuzilar a liberdade. Sem ela, o homem do século XXI será mais escravo do que em outras eras, porque não mais terá chance de ao menos sonhar com a libertação: um mero apêndice dos governos com o dever de pagar impostos e o direito de ficar calado.
Palmas para a civilização
O escritor nigeriano Chinua Achebe apresentou em “O mundo se despedaça” o território africano ainda virgem de colonização, quando só o que vicejava eram os inhames na terra e as tradições das tribos. É a partir da chegada do homem branco, ocidental e civilizado, que aquele mundo vem abaixo, junto com a autoestima de um povo.
Está claro que o ocidente se expandiu, se expande em busca de soluções para suas necessidades cada vez maiores, é preciso ter conforto, é preciso consumir, parece uma investida da qual não se escapa, esta sociedade se organiza através do consumo, o que fazer com os produtos que o capital precisa vender? Olha que hambúrguer!, assista ao cinema 3D!, jogue o game da hora!, avançamos desta forma desde o século XVIII.
Com o foco na produção, a referência óbvia virou o planeta, que não manterá por muito mais tempo e novas gerações o habitat perfeito do jeito que hoje conhecemos. A gente se arma em defesa do meio-ambiente, mas não atinamos com a verdade: o planeta sobreviverá muito bem à catástrofe chamada espécie humana, já sobreviveu antes a outras, o que está em jogo é a nossa capacidade de sobrevivência nos continentes, onde as condições naturais podem ficar demasiado hostis à civilização. Lembro que este é ainda o único planeta que temos à disposição.
Mas indo além, quando saímos do conforto da sala e mergulhamos no caldeirão de culturas que é a Terra, será que o nosso jeito ocidental de viver reconhece diferenças fundamentais? Ou impõe-se através da exposição maciça de nossas qualidades via satélite, tevê, internet? Creio que é nosso costume reverberar como se não tivéssemos defeitos, projetamos nossa receita imaculada, deve ser difícil para os outros valorizar o que é tradição.
Felizmente, a globalização também tornou visível esse confronto e nossa consciência coletiva deu um salto decisivo, impor nossa cultura como remédio já não é unanimidade, tem quem ainda pense assim, mas já se encontra quem ache que as pessoas devem viver do jeito que quiserem, talvez o mais perto que puderem de suas raízes ancestrais.
Sobra pouca aventura, porque o mundo inteiro logo não será mais novidade, de onde virá o novo quando aceitarmos e se incluirmos toda a nossa população vasta e diversificada? Aprofundaremos a consciência da existência em um movimento inesperado para dentro? Ou nos lançaremos para o espaço em uma aventura sideral que só conhecerá fronteiras se descobrirmos que não estamos sozinhos?
Do modo como vivemos, se não entregarmos a espécie à extinção, parece mais provável a segunda alternativa. O futuro sonhará com a colonização de planetas, de onde retiraremos as matérias-primas necessárias para manter viva tanta vontade de conforto e tecnologia. A Terra será poupada (tomara!) e avançaremos no infinito atrás de planetas desabitados adequados à exploração. Eu disse desabitados… o que acontecerá quando nascerem humanos na Lua ou em Marte? Novas e incríveis culturas virão, forjarão tradições, autoestima, e os naturais de lá protestarão veementes quando perceberem que são os explorados da vez. “Poupem nossa Lua!”, “Marte para os marcianos!”, posso ouvir as palavras de ordem pesarem sobre nossas consciências em férias.
O filme “Apocalypto”, de Mel Gibson, surpreende com essas questões decorrentes dos males da civilização. Certamente é mais um, mas me faz lembrar que não existem bonzinhos neste jogo cínico onde se enfrentam as influências cotidianas e os modos de vida. Mesmo a selva, a natureza, para onde convergem os olhares querendo uma solução, não explica nada. Os animais são pródigos em se dividirem em violentos clãs e bandos, em disputa eterna pelos melhores territórios. Dali sobressai neste aspecto só a lei do mais adaptado. Somos melhores?
Por que então esta dor sobre o que é o certo a fazer? Esta civilização que mata e decepciona, que incorre em omissões terríveis, também convoca o ser humano a admirar a ciência e a arte. Não há duvida: estamos ferrados entre as noções de beleza e de crime. Por enquanto nós. Até quando?
Marco Antonio Martire (Transcrito de Rubem)
Minha mãe já sabia
"Universalizar o acesso a um ensino de qualidade em todos os níveis" aponta para uma dessas duas interpretações possíveis: ou já atingimos um patamar de excelência na educação e o que precisamos é apenas garantir o ingresso do conjunto dos cidadãos nas escolas; ou devemos assegurar a admissão de todos num sistema que nos próximos quatro anos apontará para um grau de aprimoramento digno de Primeiro Mundo. Como o Brasil ocupa as últimas posições em testes de avaliação internacional de ensino – por exemplo: o Relatório de Capital Humano, formulado pelo Fórum Econômico Mundial nos coloca na em 88º lugar entre 122 países –, e como reputamos que a presidenta Dilma Rousseff é uma pessoa íntegra, podemos, sem sombra de dúvida, descartar a primeira hipótese de interpretação da frase explicativa.
Então, ainda que tarde, e ainda que descrentes, devemos analisar a frase de acordo com a segunda hipótese: iremos assistir, nos próximos 48 meses, um esforço para sanear as bases da educação brasileira, assentadas em um pântano de omissão, incompetência e desmando, para transformá-la em um oásis de eficiência, disseminação de conhecimento e preparação para a vida, que é o que todos ansiamos. Verifiquemos, pois, como a presidenta Dilma está se organizando para enfrentar esse desafio.
Não há mágica para resolver o gravíssimo problema da educação nacional, herança da mentalidade colonizadora, gananciosa, egoísta e predatória, que sobrevive em nossa elite individualista e burra. O Brasil dedica cerca de 5,9% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação, percentual bem próximo daquele destinado pelos países ricos que contam com ensino de qualidade. O problema, então, não reside necessariamente no montante do dinheiro aplicado nessa área, mas em como ele é gerido.
O Ministério da Educação, encarregado de levar à frente o projeto, foi entregue ao ex-governador Cid Gomes, que divide com o irmão, Ciro, o controle da política cearense. Juntos, os Gomes garantiram a vitória acachapante de Dilma no Estado: quase 80% dos votos foram dados a ela. Cid é filiado ao Partido Republicano da Ordem Social (PROS), minúscula legenda que fez, no último pleito, um governador (o do Amazonas, José Melo) e 11 deputados federais. Não consta que ele tenha relação íntima com a pasta da qual é titular, mas, a bem da verdade, isso não tem importância, pois trata-se de um cargo político.
Mas qual o saldo da administração de Cid Gomes no Ceará? Embora tenha se tornado nacionalmente conhecido por uma declaração infeliz, ele implementou algumas políticas que impulsionaram o ensino fundamental no Estado. Em 2011, durante uma greve de trabalhadores da educação, o então governador afirmou, diante das reivindicações por melhores condições de emprego, que quem entra na vida pública – e ele estava pensando nos manifestantes – deve se sentir motivado não por questões financeiras, mas por "amor e espírito público". Como essa declaração acirrou os ânimos, os grevistas se reuniram em protesto em frente à Assembleia Legislativa, tendo sido dispersados pela Polícia Militar com cassetete, gás pimenta e gás lacrimogênio. Por outro lado, o nível do ensino fundamental no Ceará avançou – as notas subiram, nos primeiros anos, de 4,4 em 2011 para 5 em 2013, e, nos últimos anos, de 3,7 para 3,9 –, embora o desempenho no ensino médio tenha caído de 3,4 para 3,3 no mesmo período, segundo avaliação do do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Escola Básica).
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