quarta-feira, 22 de outubro de 2025

A guerra invisível e a nova fronteira da luta humanitária

O mais importante movimento de solidariedade internacional concentrou os olhos sobre Gaza, contudo, a África sangra em silêncio. No coração do continente, o Sudão vive uma das maiores tragédias humanitárias do século — uma guerra civil que já produziu mais de 13 milhões de deslocados, centenas de milhares de mortos e um colapso moral global. Desde abril de 2023, o país é palco de uma disputa brutal entre o Exército Sudanês (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), que transformou cidades inteiras em ruínas.

O Sudão enfrenta uma crise alimentar severa e foi classificado como um dos países com riscos mais elevados. Regiões como Zamzam e El-Fasher foram devastadas pela privação alimentar usada como arma de guerra. 4,7 milhões de crianças e gestantes estão em risco de morte por desnutrição. O alimento é bloqueado, os hospitais destruídos, a ajuda humanitária impedida. O país tornou-se um laboratório de extermínio em que a fome, o estupro e o terror são táticas militares.

Entre 7 e 9 de outubro de 2025, mais de 60 pessoas foram mortas em ataques aéreos sobre El-Fasher, incluindo mulheres e crianças abrigadas em mesquitas. Trata-se de uma guerra total contra a vida – e não apenas contra exércitos. Na maioria das vezes, o genocídio sudanês permanece fora das manchetes e do debate internacional.


O resultado é que o Sudão se tornou a guerra por procuração mais complexa da atualidade. Nenhuma das potências envolvidas luta pela democracia ou pela paz. Todas defendem seus próprios interesses – estratégicos, energéticos, comerciais ou simbólicos. O país é apenas o território onde essas forças se confrontam, e os sudaneses, seus reféns.

Enquanto isso, o Ocidente pratica uma seletividade moral que se repete em todas as guerras do Sul. Os governos que clamam por direitos humanos na Ucrânia e denunciam os horrores em Israel, silenciam diante da África. Condenam a fome palestina, mas ignoram a fome africana. O G7 e a OTAN, que posam de defensores da civilização, financiam as mesmas indústrias bélicas que alimentam os conflitos no continente.

Mais de 30 milhões de pessoas precisam de ajuda imediata, mas menos da metade do plano humanitário da ONU foi financiado em 2025. A omissão não é descuido: é cálculo. O caos interessa. Ele mantém a África fragmentada, dependente e útil como barreira migratória. Cada guerra, cada crise, cada colapso reforça a política de contenção humana que impede milhões de africanos de cruzar o Mediterrâneo. É a nova forma de colonização – um sistema que transforma a miséria em instrumento de controle geopolítico.

A guerra no Sudão é também um espelho de Gaza, de Iêmen, de Congo, de Haiti. Em Gaza, o colonialismo é direto. No Sudão, é travestido de disputa interna. Em ambos, o que impera é a indiferença institucionalizada e a repetição de um padrão racial e histórico de desumanização. O Ocidente só reconhece tragédias quando o sofrimento tem cor e idioma semelhantes aos seus.

O caso sudanês revela algo ainda mais profundo: o capitalismo global não sobrevive sem a barbárie. Ele precisa de guerras periféricas para expandir lucros, de crises para justificar o saque, de catástrofes para legitimar intervenções. O sangue africano é a moeda com que se compra a estabilidade europeia e americana. O ouro e o urânio de Darfur sustentam o brilho das metrópoles e as baterias dos carros elétricos do Norte.

Como já advertia Karl Marx, “o capital nasce escorrendo sangue e lama por todos os poros”. E como completava Jean-Paul Sartre, “a liberdade de um só não é possível enquanto houver escravos”. A guerra no Sudão é o retrato contemporâneo dessa dialética. Cada criança faminta é o custo oculto da nossa modernidade.

Mas o que fazer diante desse abismo? O primeiro passo é recuperar o sentido revolucionário da autodeterminação dos povos. O direito à soberania não pode continuar sendo privilégio do Norte. A África não é colônia, nem laboratório de diplomacia seletiva. O povo sudanês tem o direito de decidir seu destino sem ser manipulado por alianças regionais ou sanções geopolíticas.

A paz não virá de Washington, Moscou ou Riad. Ela nascerá da organização popular africana e da solidariedade internacionalista. O socialismo, se quiser ser fiel à sua essência humanista, deve reencontrar na África a sua nova fronteira moral. Defender o Sudão é defender o sentido universal da vida. É afirmar que nenhum povo pode ser sacrificado no altar dos interesses econômicos.

Nesse contexto, o Brasil tem uma responsabilidade histórica intransferível. Somos o maior país afrodescendente do mundo, herdeiros diretos das civilizações africanas que nos moldaram. Nossa cultura, nossa língua e nossa espiritualidade nascem da África. O silêncio diante da destruição sudanesa é uma negação da nossa própria identidade.


O Brasil deve propor, no âmbito da ONU e da União Africana, uma Conferência Internacional pela Paz e Autodeterminação Africana, sediada em Salvador (Bahia) – símbolo maior da diáspora negra. Deve liderar um Movimento Sul-Sul de Solidariedade Humanitária, unindo países da América Latina e do continente africano para discutir paz, reconstrução e soberania. Deve criar, em parceria com universidades e organizações afro-brasileiras, um Observatório Permanente de Crises Africanas, capaz de produzir relatórios independentes e pressionar por responsabilização internacional.

Essas não são medidas simbólicas: são instrumentos concretos de reconstrução da ética global. O Brasil pode e deve ser a voz dos povos oprimidos, não apenas um espectador nas conferências das potências. Nossa diplomacia deve voltar a falar a língua dos povos – a língua da solidariedade, da igualdade e da dignidade.

A esquerda internacional, os socialistas, os trabalhadores e os movimentos revolucionários precisam compreender que o Sudão é mais do que uma tragédia africana: é uma nova fronteira de mobilização mundial. O que se decide ali não é apenas o destino de um país, mas o futuro do próprio conceito de humanidade. A luta pela África é a continuidade da luta pela Palestina, pela Amazônia, pelo clima, pela dignidade humana. Tudo está ligado pela mesma lógica de exploração e de resistência.

O genocídio sudanês é a prova de que o capitalismo em colapso precisa destruir vidas para continuar existindo. A resposta só pode vir de uma reorganização global dos povos – um novo internacionalismo ético, solidário e revolucionário. Um movimento capaz de unir trabalhadores, intelectuais, mulheres, negros, indígenas, estudantes e camponeses em torno de uma bandeira única: a defesa incondicional da vida contra a economia da morte.

Vivemos o tempo da urgência moral. A tecnologia avança, mas a consciência recua. A humanidade multiplica satélites, mas não consegue impedir que uma criança morra de fome em Darfur. O problema não é técnico; é político. E toda omissão é uma forma de cumplicidade.

Por isso, é hora de romper o silêncio. De transformar a solidariedade em organização e a indignação em política.

Porque a paz na África não é apenas uma causa regional.

É o começo da paz no mundo.

Concentração inédita cria risco de estouro da bolha da IA

Existe uma bolha da inteligência artificial? Esse é um debate que vem consumindo os círculos no entorno do Vale do Silício há pouco mais de um mês. O anúncio de uma operação casada de Nvidia, Oracle e OpenAI acelerou a preocupação. Afinal, existem vários indícios cada vez mais fortes de que a economia americana se meteu num lugar inédito. O primeiro começa com as magnificent seven — as sete magníficas, companhias que ocupam as sete primeiras colocações na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) em valor de mercado. Por ordem: Nvidia, Microsoft, Apple, Google, Amazon, Meta e Tesla.

Em conjunto, as sete representam quase 35% do índice S&P 500, que reúne as 500 maiores companhias com capital aberto na NYSE e na Nasdaq. Tamanha concentração já ocorreu de forma similar no passado, mas nunca deste jeito. Por uns meses, em 1964, as sete maiores chegaram a valer perto de 30% do total. Entre 1973 e 1974, algo similar aconteceu. Mas não só representavam parte um tanto menor do conjunto, como havia uma diferença crucial. Nos anos 1960, naquele punhado de empresas, havia uma grande companhia telefônica, automobilísticas, petroleiras e até a IBM. Na década seguinte, a lista incluía ainda bancos e a GE. As sete pertenciam a muitos setores distintos. A ramos diferentes. Se houvesse uma crise do petróleo, como aliás houve, isso até aumentava o consumo de telefone. A ação de uma cai, a outra sobe.


Não foi só isso que mudou. Empresas que valiam muito, mas muito mesmo, no mercado americano ou mundial, chegavam a algo na casa dos US$ 200 bilhões. A Nvidia vale mais de US$ 4 trilhões. Microsoft e Apple estão possivelmente a semanas de cruzar essa linha. Mesmo corrigindo pela inflação, os números simplesmente não são comparáveis. Nem sequer cabem na mesma régua, tamanha a distância. E algo mais torna a preocupação maior. Os fundos com as aposentadorias dos americanos de classe média vêm sendo transferidos para a Bolsa cada vez mais nas últimas décadas. É a maior economia do mundo, portanto, com o maior volume de dinheiro mensalmente deslocado para guardar planejando auferir renda na velhice, dada a concentração. Quase todo esse dinheiro tem ido para comprar papéis das sete magníficas.

O apelido que o conjunto ganhou tem um trocadilho que, em português, se perde. Trata-se do nome original do filme “Sete homens e um destino”, adaptação americana, como western, de “Os sete samurais”, de Akira Kurosawa — por sua vez, versão japonesa de “Sete contra Tebas”, peça do teatro ateniense clássico. O mundo dá voltas.

E a preocupação aumenta. A Nvidia tem entre seus maiores clientes as grandes companhias de nuvem, que adquirem os chips de IA. São Microsoft, Google, Amazon e Oracle. A mesma Nvidia investiu US$ 100 bilhões na OpenAI. A OpenAI tem um contrato com a Microsoft e outro com a Oracle para rodar seus modelos de inteligência artificial na nuvem. Nuvem que depende de chips Nvidia. Ora, a mesma Nvidia também investiu na Anthropic, concorrente da OpenAI — que roda seus modelos nas nuvens de Amazon, Google e, mais recentemente, Microsoft. Se estas duas, OpenAI e Anthropic, não estão entre as sete, é por uma única razão. Não abriram capital. São empresas fechadas. Mas as sete grandes estão entre suas principais acionistas.

O dinheiro é circular. Entra numa e vai para a outra. A conta circular, feita pela McKinsey, funciona assim: ao todo, 60% do montante do dinheiro do negócio da IA vai para chips e nuvem. É quanto das fortunas investidas sai do cofre de uma, entra na outra, e volta para a primeira. Outros 25% são gastos em energia, escorrendo para outro setor da economia. Ponha-se, ainda, uns 15% do investimento em construção civil. Aço, concreto, cabos, operários.

Não é pouco dinheiro. O fato de a economia americana não estar em recessão, apesar das tarifas impostas ao mundo pelo governo Trump, é atribuído à única coisa que cresce como se não houvesse possibilidade de fim para construção de riqueza baseada numa única ideia: inteligência artificial. Nunca, na história do capitalismo, um único setor da economia gerou tanta riqueza tão rápido. E fez isso sem mostrar objetivamente como aumentar a produção usando o que vende. Não é um detalhe pequeno. IAs já poupam dinheiro em muitas empresas. Há estudos mostrando isso. É só que a conta da economia ainda é uma fração do que se investe.

Como o crescimento é num único setor muito estreito, baseado numa única inovação, basta uma das sete grandes sofrer uma crise que o risco de contágio é grande. Bum! Estoura a bolha.

Uma voz do Brasil

A voz anônima de uma atendente de restaurante chegou aos ouvidos de Caetano Veloso. “A vida é amiga da arte”, cantava a senhora ao microfone para uma sala quase vazia, com uma toca de plástico sobre a cabeça. “É a parte que o sol me ensinou”.

A imagem da improvável e fascinante cantora circulou pelas redes sociais, captada por alguém que ainda fez troça de sua idade – a “vovozinha do restaurante”. Mas conquistou tantos corações que chegou ao autor daquela canção, Força Estranha.

Deitado na cama, com o celular nas mãos, Caetano se emocionou. “Ela canta lindo”, disse ele. “É a mesma canção que cantei com meus filhos na televisão”.

Pouca gente saberá, por enquanto, quem é a cantora. Nem onde fica o restaurante, onde já não havia quase ninguém quando ela começou a cantar. Mas não importa. Ela mostrou ali, naquela rara simplicidade, como bate hoje o coração do Brasil.


Um Brasil que anda esquecido de si mesmo. Que se deixou mergulhar em brigas de egos, disputas políticas e guerras ideológicas que parecem ter saído do túnel do tempo.

Talvez de um século atrás, quando os nazistas começaram por atacar os artistas e acabaram levando o mundo inteiro a uma grande guerra.

Naquela Alemanha de antes de Hitler, Berlim era uma espécie de Nova York, que atraía artistas e intelectuais de todo o mundo. O cinema era revolucionário, a música inovadora, a arquitetura e a arte se uniram para criar o movimento Bauhaus.

Tudo foi proibido depois que os nazistas chegaram ao poder. Nazistas que inspiraram o famoso discurso do primeiro responsável pela cultura no governo de Jair Bolsonaro.

Aqueles quatro anos foram um tempo de ataque aos artistas. Na visão dos mais fiéis bolsonaristas, todos eram sanguessugas patrocinados pela Lei Rouanet. Embora os protegidos cantores sertanejos tenham feito fortunas com shows pagos por prefeituras alinhadas com a direita.

A senhorinha do restaurante não ganhou nada ao cantar. Talvez venha a ficar famosa e apareça na televisão. Mas também isso não importa. O que importa é o que ela tem por dentro e canta, mesmo que para ninguém.

Não terá sido aleatória a escolha da canção. “Eu vi muitos homens brigando, ouvi seus gritos”, escreveu Caetano. “Estive no fundo de cada vontade encoberta. E a coisa mais certa de todas as coisas não vale um caminho sob o sol”.

No horizonte da política a imagem é outra. As grandes certezas imutáveis dividiram as pessoas, os amigos, as famílias. E até hoje há gente que aposta na radicalização, como a abrir caminho a uma instabilidade que soe como convite ao autoritarismo.

Nada disso parece mesmo valer um caminho sob o sol. O Brasil está povoado de pessoas simples como aquela cantora, com muita sensibilidade e vontade de viver em paz, em um país que busque reduzir a pobreza, a desigualdade e a violência.

É para toda essa gente que os futuros candidatos a presidente devem um novo projeto. Algo mais do que um necessário projeto nacional de desenvolvimento, que permita mais oportunidades a todos e proteção social a quem mais precisa.

Esse projeto também deve incluir a busca de uma nova identidade brasileira, para além da guerra ideológica que ainda ameaça contaminar as eleições de 2026.

O Brasil pode vir a se mostrar a si mesmo a ao mundo como um país que une a liberdade à busca do desenvolvimento, à proteção de sua natureza, ao combate à desigualdade e ao estímulo a suas mais diversas culturas.

Para que muitas outras senhorinhas possam soltar sua voz tamanha.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Pensamento do Dia

 


Herzog, 50 anos

Passava da uma da tarde na esquina da Alameda Santos com Rua Leôncio de Carvalho. Era minha hora de almoço numa primavera com tempo nublado, 50 anos atrás. Sentado num muro baixo, lia o paulistano Jornal da Tarde. No pé da página, a notícia da morte de Vladimir Herzog.

De noite, na escola, soube pelo professor de química que o jornalista fora assassinado no DOI-Codi. Eu tinha 16 anos e lembro-me de sentir naquele momento o que uma ditadura faz com seus adversários: mata.

Dias depois, amigos mais velhos me contaram ter estado na missa em memória do jornalista, um ato ecumênico acontecido na Catedral da Sé e que reunira cerca de 8 mil pessoas. Pelos relatos, compreendi que não fora somente uma celebração religiosa, a reza compungida pela alma do morto. Além de tudo, os presentes lutavam em defesa da liberdade de viver sem temor e não ser subjugados por um regime autoritário. Ali se rezava por todos nós.


À luz da História, a missa celebrada entre outros por Dom Paulo Evaristo Arns e pelo rabino Henry Sobel, duas figuraças com quem conviveria anos depois, marca o início da derrubada da ditadura militar. O governo do general Ernesto Geisel prometia uma abertura lenta e gradual, quando se percebeu ser o regime um corpo disforme integrado por policiais maus e policiais bons — como se isso fosse possível num regime de exceção. Havia uma briga interna. Desde seu início, em março de 1964, já desapareciam desafetos políticos — prática tornada hábito sob Emílio Médici, com a banalização da tortura e o puro assassinato, como acontecera com Herzog e ocorreria com o operário Manoel Fiel Filho, ambos no reinado de Geisel, em desafio a sua autoridade. Apenas em 1977, com a demissão do ministro do Exército, Sylvio Frota, Geisel conseguiria ter em mãos seu projeto de liberalização (nos seus termos, fique claro).

Não se derruba uma ditadura sem passar por um longo processo. O mesmo vale para chegar a um golpe, como o de 1964, que precisou de muitos anos de sedição, políticos incompetentes e, no caso específico, dinheiro americano para a compra de deputados e senadores golpistas

A reação à morte de Vlado Herzog serviu para a classe média apoiadora do golpe perceber o caráter assassino do regime. Herzog não integrava a luta armada, não pegava em armas, era somente um jornalista de esquerda, de trato afável, amante de teatro. Como ele, milhões de outros brasileiros faziam oposição intelectual aos generais. Com seu desaparecimento, caía a ficha de que qualquer um poderia ser eliminado. O filme “Pra frente, Brasil”, dirigido por Roberto Farias, lançado em 1982, baseia-se num fato real. Um cidadão comum é confundido pelos agentes da repressão com um militante da luta armada. Preso, embora dissesse ser tudo engano, é barbaramente torturado. Não havendo liberdades democráticas, com o Estado de Direito suspenso e a imprensa sob censura, a simples delação anônima podia resultar em tortura e morte.

Terminada a ditadura, um acordo de covardia institucionalizou a impunidade dos torturadores. Ao contrário do Chile e da Argentina, que julgaram seus assassinos, o Brasil varreu sob o tapete sua sujeira. Até elegeu depois alguns como deputados, mostrando como a sociedade é também um corpo disforme onde convivem o médico e o monstro. Apenas os militares foram pintados como algozes, esquecendo o apoio civil dado ao regime em nome de uma pretensa luta contra a paranoia do comunismo.

O renitente apoio ao capitão Bolsonaro, julgado e condenado por tentativa de golpe, mostra a doença autoritária da sociedade brasileira. Os manifestantes nas portas dos quartéis ou na invasão dos prédios dos três Poderes, agora pintados pela conhecida contemporização brasileira, colocariam novamente no cadafalso outros cidadãos como Vladimir Herzog ou Rubens Paiva.

Passados 40 anos da volta da democracia, e 50 daquela tarde de tempo nublado na cidade de São Paulo, o Brasil ainda paga pela herança da ditadura. Não se pode dizer que a doença passou. Permanecemos uma sociedade violenta. A cordialidade brasileira, aquela que encanta turistas e alimenta nosso ego, sempre foi verniz fino sobre a brutalidade. Existe um ex-presidente, com seus seguidores civis capazes de elogiar torturadores e um regime que prendia e matava a esmo. E existem patriotas em defesa de um golpe de Estado, com a volta dos militares ao poder, desfilando pelas ruas de camisa amarela. Eles não querem nada mais que o fim da nossa liberdade — e não apenas para quem lê notícias encostado num muro baixo.

O discurso do ódio nas escolas públicas

Nunca, em outra altura da nossa carreira de quase quatro décadas enquanto professores da escola pública, o nosso papel foi tão importante para apaziguar o discurso do ódio que se sente, latente, dentro e fora da sala de aula.

Os tempos mudaram. E não foi para melhor. Numa altura em que o mundo parece desabar sobre as nossas cabeças, o discurso de promoção e incentivo ao ódio, ao preconceito e à violência contra pessoas singulares ou grupos específicos, cresce a olhos vistos. Se as famílias não colocarem como prioridade estabelecer limites a este fenómeno e se a escola pública e os seus professores não criarem, com caráter de urgênci,a um plano de ataque para esta problemática crescente, o quadro final será catastrófico.

Quem não viu ainda nos ecrãs da televisão ou, mais provável e frequentemente, nos grupos de whatsapp de alunos e pais, alguns vídeos que se tornam virais em poucos minutos com cenas com crianças e jovens a serem agredidos, gozados, humilhados perante um público que, em vez de agir de imediato, se limita a filmar? Basta deambular pelos corredores de uma escola multicultural como a minha para percebermos o quão fácil é, para um jovem adolescente, abrir a boca e humilhar, ofender, diminuir o outro, com base em características como a cor da pele, a religião, a orientação sexual, o estilo de vestuário, o corte de cabelo, o número de piercings e/ou tatuagens, entre outros.


No entanto, a escola não é o espaço embrionário para este tipo de discurso negativo contra grupos vulneráveis. Pelo contrário, ao longo dos últimos tempos, temos vindo a assistir a uma crescente aceitação do outro na escola pública. Em todas as turmas temos cada vez mais jovens marcadamente diferentes da maioria, quer pelo seu estilo alternativo, quer pela sua orientação sexual assumida sem medos. A normalização do discurso de ódio a que se vem assistindo surge de fora para dentro, impulsionado muitas vezes pela comunidade de onde estes jovens são oriundos e onde se integram (ou não). Por mais que opiniões desfavoráveis sobre determinados grupos ou indivíduos historicamente discriminados tenham vindo a surgir no discurso comum a que se assiste diariamente e, em grande parte, divulgados através de meios de comunicação social, a escola procura combater, de todos as formas possíveis, este tipo de discurso discriminatório.

A escola pública promove a educação em Direitos Humanos. Na minha disciplina, Português, surgem múltiplas oportunidades para este debate. Desde o profícuo debate a partir do estudo da epopeia lusitana aos vícios dos homens apresentados alegoricamente no Sermão de Santo António aos Peixes, passando pela mudança e pelo desconcerto do mundo presentes na lírica camoniana ou a falta de liberdade de expressão a partir do estudo da obra de Saramago, a língua materna permite múltiplos cenários de promoção dos Direitos Humanos. Mas acontecerá o mesmo nas outras disciplinas? Julgo mesmo que, em certos contextos, continuamos a agir como se o Holocausto não tivesse existido. E a escola deve trazer os Direitos Humanos para a agenda do dia, promovendo debates, criando experiências de inclusão e de solidariedade, incluindo-as no Plano de Atividades de todas as escolas, de todos os grupos disciplinares, de todas as áreas do saber, transversalmente alcançando todos, todos…

Como criar uma cultura de paz em escolas onde a diversidade étnica, religiosa, socioeconómica, de género, de estilo é tão gritante? Tenho na mesma sala de aula portugueses do bairro, membros de gangues, ciganos, negros, árabes, brasileiros de variadas vertentes religiosas e até uma aluna paquistanesa que usa hijab. Cada vez mais sinto a necessidade de ver fomentada na escola pública uma comunicação de respeito e de inclusão que promovam uma cultura de combate ao discurso de ódio que comece na sala de aula e se estenda, desta vez, ao exterior. Este é um desafio difícil mas urgente, uma vez que a onda de discursos de ódio está a alastrar-se e sai de casa para as ruas do bairro, para a cidade e para o mundo. Embora o Gabinete da Unesco para a Prevenção do Genocídio e a Responsabilidade de Proteger tenha desenvolvido um guia com algumas respostas educacionais, orientações e recomendações sobre a forma de fortalecer os sistemas educacionais para combater o discurso de ódio, estes parecem não ter sido divulgados pelas escolas, neste dias que correm, muito mais preocupadas com a sua diária burocracia estupidificante.

A publicação da Unesco, intitulada Enfrentar o discurso de ódio por meio da educação: um guia para formuladores de políticas (2023), aponta algumas soluções para prevenir e combater narrativas nocivas e discriminatórias na forma de xenofobia, racismo, antissemitismo, anti-islamismo e outros tipos de intolerância. Em consequência do rápido crescimento do número de utilizadores das redes sociais e da banalização de discursos populistas e extremistas por toda a Europa e pelo mundo, deve a escola através dos profissionais de ensino ajudar combater as narrativas de ódio. Neste sentido, a divulgação da Agenda Educação 2030 da Unesco, que faz parte de um movimento global para erradicar a pobreza através de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030, coloca a Educação como um desses objetivos fundamentais (Objetivo número 4).

O discurso de ódio contra grupos minoritários e/ou desfavorecidos, já por si marginalizados, pode agudizar situações de exclusão social ao promover a intolerância e o desrespeito pelo “outro”. A escola, através de uma educação inclusiva e equitativa, capacitando indivíduos de grupos marginalizados e, consequentemente, promovendo a sua inclusão social, pode ser um fator-chave na minimização deste tipo de discurso.

Como podem a escola e os seus professores combater esta forma de discriminação e criar uma cultura de paz num ambiente de respeito por todos e para todos? Contrariar narrativas prejudiciais e discriminatórias passará, entre outros aspetos, pela capacitação de professores e alunos sobre os valores e práticas a respeitar na relação com os cidadãos globais e digitais, pela adoção de abordagens pedagógicas e de toda a escola para fortalecer a aprendizagem social e emocional. Contudo, nada disto será verdadeiramente eficaz sem uma reformulação de alguns conteúdos curriculares, adequando-os culturalmente e incluindo conteúdos promotores da tolerância e do direito às liberdades fundamentais ao ser humano.

Numa altura em que a liberdade de expressão se revela cada vez mais necessária para as democracias e em que o discurso de ódio se propaga, é prioritário combater cenários de agressividade e de intolerância que ocorrem no dia a dia das nossas escolas, desenvolvendo na comunidade escolar um olhar crítico em relação a todo e qualquer tipo de discriminação.

Não é depois do discurso de ódio estar implementado que se deve agir. Este deve ser prevenido desde cedo através da construção permanente de diálogos sobre respeito pela diversidade, atividades que desenvolvam o pensamento crítico e promovam aprendizagens sociais e emocionais. Para que serve a escola, afinal, se não for para enfrentar os “desafios mundiais à paz, à justiça, aos direitos humanos, à igualdade de género, ao pluralismo, ao respeito à diversidade e à democracia?” (UNESCO)

Recordemos as palavras de Eduardo Sá, psicólogo clínico e psicanalista, num texto publicado no Observador (17/01/21): “O discurso do ódio, de que tanto se fala, é construído por nós, todos os dias. Não que o façamos de forma intencional, claro. Mas enquanto não educarmos para se saber escutar, para se pensar com aquilo que se sente, para se aprender com os outros, enquanto não se reeducar as pessoas para a palavra (…), menos os nossos filhos (e alunos) encontrarão na diversidade os argumentos com que apurem a singularidade.”

A escola, repito, joga neste tabuleiro um papel fundamental.

Ninguém quis ver o que aconteceu em Gaza

Existe uma resolução do Conselho de Segurança da ONU aprovada dez anos atrás que obriga os Estados-membros à proteção de jornalistas durante conflitos armados. Não só porque jornalistas integram a população civil de países, como pela função social específica que desempenham no mundo. Assinada por unanimidade em 27 de maio de 2015, a 2222 especifica que “jornalistas, profissionais de mídia e pessoal associado” na cobertura de guerras não podem ser considerados alvo militar. Outra resolução, bem mais recente (2730, de 2024), aborda especificamente “os princípios da distinção, proporcionalidade e precauções em conflitos armados”, de modo a proteger civis e pessoal humanitário. Contudo, ao longo dos últimos dois anos, até o frágil cessar-fogo instaurado em 10 de outubro, tudo isso e muito mais foi pulverizado pela ação das Forças de Defesa de Israel (FDI) na Faixa de Gaza.


Até aí nada de muito novo, visto que resoluções da ONU valem pouco dependendo da força política ou do apadrinhamento do país infringente. Inesperado, mesmo para os tempos atuais de escassez moral no mundo, foi a docilidade com que o chamado grande jornalismo profissional aceitou que seu papel de testemunha-chave da História fosse bloqueado. Diana Buttu, advogada palestino-canadense especializada em Direito Internacional, resumiu assim o noticiário inicial do conflito na imprensa ocidental:

— O mundo nos informa que nada pode justificar o 7 de Outubro (data em que grupos terroristas do Hamas irromperam no sul de Israel, trucidaram 1.219 pessoas em poucas horas e fizeram 251 reféns), mas tudo o que Israel fizer pode ser justificado pelo 7 de Outubro.

No início do feroz assalto das FDI, também pareceu compreensível que, por razões militares, Israel vedasse o enclave a todo e qualquer representante de mídia independente. Ninguém esperava poder voltar aos tempos áureos do jornalismo de guerra dos anos 1960 e 1970, quando os Estados Unidos, atolados no Vietnã, perderam o apoio da opinião pública graças à independência dos jornais, ao arrojo dos enviados ao front e à liberdade que tiveram para trabalhar arriscando a vida. Nas guerras seguintes, tanto contra o Iraque quanto no Afeganistão, o Pentágono domesticou os grandes órgão de mídia — transformou os enviados especiais em embedded journalists. Atrelados às forças invasoras, grande parte da cobertura foi feita em movimentos cerceados, e o envio de imagens ficou sob escrutínio. Mesmo assim, não foram poucos os jornalistas internacionais que abriram mão da sedução de poder cobrir uma guerra do interior de um tanque e se aventuraram a explorar o morticínio por conta própria.

Em Gaza, nem isso. O bloqueio foi, é e continua a ser irredutível e absoluto. Coube então ao jornalismo profissional e amador de Gaza vestir coletes e capacetes e mostrar o que ninguém queria ver. De início desacreditados pelas grandes mídias mundiais, ou suspeitos de ser meros propagandistas do Hamas, toda uma geração de repórteres, cinegrafistas, fotojornalistas, radialistas e blogueiros palestinos vivenciou e testemunhou a história da guerra. Foi alto o custo humano desse trabalho insano. Levantamento feito para o canal Al Jazeera identificou 278 jornalistas e pessoal de mídia (palestinos em sua imensa maioria) mortos em Gaza por ação de Israel. Foi somente em agosto deste ano, transcorridos 22 meses de blecaute total, que mais de 250 veículos de mídia de 50 países emitiram um protesto coletivo contra esse apagamento de vidas e da História. Mas notas de protesto não bastam. Soa infantil, mas uma flotilha encabeçada por The New York Times, The Economist, Financial Times, Le Monde, The Guardian, El País, Haaretz, The Wall Street Journal e outros pesos pesados poderia ter sido tentada para chamar a atenção do mundo para o bloqueio. Consórcios multinacionais de jornalismo de qualidade, que já provaram imensa capacidade de articulação e investigação com empreitadas como os Panama Papers, se mantiveram de mãos atadas. No Brasil, os mesmos jornais que no governo Jair Bolsonaro tiveram a ousadia de se organizar para contornar o bloqueio de dados nacionais sobre a Covid-19 não consideraram mover montanhas para acabar com o bloqueio da verdade em Gaza.

Quem apaga a luz teme o que possa ser visto. Chegará o dia em que o governo de Benjamin Netanyahu precisará entreabrir os portões da desumanidade. A imprensa mundial acorrerá e fará descrições caudalosas da desolação. Tarde demais. O que aconteceu em Gaza ninguém quis ver.

‘Pobreza não é fracasso pessoal’

A pobreza não é um fracasso pessoal, é uma falha sistêmica, uma negação da dignidade e dos direitos humanos. A afirmação feita pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, no Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17/10), diz muito sobre a realidade do povo brasileiro.

Pessoas negras (pretos e pardos) representam a maioria dos que se encontram em situação de pobreza no nosso país. Para se ter uma ideia, entre 2012 e 2023, mais de 60% dos negros tinham renda de no máximo um salário mínimo. Nesse período, a renda média nos domicílios com pretos e pardos foi menos da metade da auferida nos domicílios sem negros (Cedra).

No Brasil, a expectativa de vida de mulheres e homens negros chega a ser seis anos menor do que a dos brancos em razão de fatores decorrentes da pobreza, que expõe os mais pobres a doenças ligadas à falta de saneamento básico, à alimentação inadequada e à violência urbana.

Quem vive em situação de pobreza experimenta múltiplas privações que se conectam reforçando as carências e dificultando o acesso efetivo a direitos e garantias constitucionais. Um rol exemplificativo inclui o direito à moradia digna, nutrição adequada, trabalho decente, inclusão social, educação de qualidade e saúde.

Verdade que o país entrou num ciclo de redução da pobreza e da desigualdade nos últimos quatro anos, o que permitiu que quase 9 milhões de pessoas deixassem a chamada linha da pobreza (IBGE). Mas é muito importante lembrar que a pobreza é dinâmica, ou seja, as famílias muitas vezes entram e saem dessa condição de maneira cíclica.

Nesse sentido, impedir que as pessoas voltem para a pobreza é tão importante quanto tirá-las dessa condição.

E é aí que entram programas sociais de transferência de renda e políticas públicas de redução das desigualdades. O combate à pobreza abrange a promoção da equidade racial, o acesso à justiça e a inclusão racial. Afinal de contas, pobreza não é um fracasso pessoal.


Ana Cristina Rosa

Bem-vindos à era da 'nowstalgia'

Será que ainda controlamos as nossas vidas? Ou será que, sem darmos por isso, entregámos o leme a forças invisíveis – algoritmos que decidem o que vemos, mercados que ditam o valor do nosso trabalho, crises nacionais e internacionais que se sucedem como temporais sem fim? Vivemos num tempo em que o futuro deixou de ser um horizonte e se tornou uma ameaça. E, diante dessa ameaça, fazemos algo estranho: voltamo-nos para trás. Não para a História, mas para uma versão suavizada do passado recente – os anos 80, sobretudo – como se ali, entre sintetizadores, calças de ganga justas e videoclipes coloridos, tivéssemos perdido uma felicidade que agora nos escapa. É a isso que o sociólogo francês Gérald Bronner, professor na Universidade de Sorbonne, chama “nowstalgia”: a nostalgia do presente, ou, mais precisamente, a recusa de deixar o presente ir embora, porque o futuro já não nos pertence.

Mas por que falo dos anos 80? Porque essa década, em particular, se tornou o santuário emocional de uma geração que, em muitos casos, nem a viveu? Talvez porque os anos 80 pareciam prometer um futuro sem catástrofe. A Guerra Fria ainda pairava, mas o muro ainda não tinha caído – e, por isso, havia ainda um “depois” imaginável. A tecnologia era simples, tangível: um walkman, um telefone fixo, um ecrã de televisão que não nos vigiava. Havia crise, claro – mas também música alta, cor, movimento. Madonna dançava como se o mundo fosse seu. Prince cantava sobre o desejo e a liberdade como se fossem direitos naturais. O cinema falava de viagens no tempo, de heróis improváveis, de mundos melhores ao virar da esquina. Era um tempo de hedonismo consciente: gozar o agora, sim – mas com a certeza de que o amanhã ainda estava por escrever.


Hoje, o hedonismo mudou de rosto. Já não é celebração – é fuga. Consumimos o passado como se fosse um analgésico: ouvimos vinis não pelo som superior, mas por calor humano; vestimos roupa vintage não por estilo, mas por segurança simbólica; vemos séries ambientadas nos anos 90 não por nostalgia real, mas por saudade de um tempo em que o futuro parecia pertencer-nos. A “nowstalgia” é, assim, uma forma de autopreservação psíquica. Diante da perda de controlo sobre o ambiente, a globalização desenfreada, a aceleração tecnológica e a incerteza climática, preferimos congelar o tempo. Como escreve Bronner no seu livro À L’Assaut du Réel (2023), “o presente tornou-se tão compacto que o seu campo gravitacional absorve a nossa imaginação e desvitaliza o futuro”.

Mas e se essa fuga for, na verdade, uma rendição?

Perguntemo-nos: quem beneficia com o nosso desinteresse pelo futuro? Quem lucra com a nossa crença de que “nada pode mudar”? Não são os que detêm o poder? Não são os que querem manter o mundo exatamente como está – desigual, seletivo, predatório – mas com um verniz de normalidade? A “nowstalgia” é perigosa não por ser doce, mas por ser passiva. Transforma a política em estética, a memória em mercadoria, a esperança em playlist.

E, no entanto, há algo de profundamente humano nesse desejo de regresso. Porque a arte, a música, o cinema dos anos 80 não eram apenas entretenimento – eram formas de esperança. David Bowie reinventava-se a cada álbum como um ato de liberdade. Nina Simone cantava Mississippi Goddam (1965) com fúria e beleza, lembrando-nos de que a arte pode ser uma arma. Em Portugal, os anos pós-Abril foram também anos de efervescência cultural: Zeca Afonso, Sérgio Godinho, o Zé Mário Branco, GNR, os Heróis do Mar, Delfins, Xutos & Pontapés, o Rui Veloso – todos usaram a música para pensar o País, sonhar e celebrar a liberdade, exigir justiça. A felicidade que recordamos não estava só nas cores ou nos ritmos – estava na sensação de que o coletivo podia mudar o mundo.

Hoje, essa sensação rareia. Vivemos em bolhas algorítmicas, isolados mesmo quando conectados, ansiosos mesmo quando “bem-sucedidos”. O trabalho não dá dignidade – dá exaustão. A casa, o carro, não são lar nem movimento necessários – são investimentos. O amor não é paixão – é gestão de expectativas. E o futuro? O futuro é um fardo. Por isso, agarramo-nos ao passado como quem se agarra a um salva-vidas. Mas um salva-vidas não leva a lado nenhum – só impede que se afogue.

E é nesse vazio que floresce o veneno político. Enquanto idealizamos um passado que nunca existiu – um Portugal homogéneo, tranquilo, “sem conflitos” –, alimentamos discursos que trocam liberdade por ordem. A xenofobia avança disfarçada de defesa da identidade nacional, como se a nossa História não tivesse sido feita de cruzamentos desde os tempos dos fenícios. A misoginia regressa sob o manto dos “valores tradicionais”, como se a emancipação das mulheres não tivesse sido uma das conquistas mais profundas e belas da democracia portuguesa. E a extrema-direita cresce, não com fardas, mas com sorrisos bem-ensaiados, mentiras e promessas vãs de segurança – promessas que, na prática, exigem o sacrifício do outro: do imigrante, da mulher que decide sobre o seu corpo, do jovem que exige um planeta habitável, de todos nós.

Tudo isto prospera num clima de desespero silencioso. Um desespero que não se manifesta em barricadas, mas em olhares cansados, em casas vazias de aldeias desertificadas, em famílias que trabalham dois turnos e ainda assim não conseguem pagar uma renda. Esse desespero não pede revolução – pede alívio. E é aí que entra a ilusão: a ideia de que voltar atrás é a solução. Mas voltar atrás para onde? Para um tempo em que as mulheres precisavam da autorização do marido para abrir uma conta bancária? Para uma sociedade onde falar contra o regime podia levar à prisão? Onde escrever um artigo, um poema, poderia ser censurado pelo lápis azul? Para um País que via o diferente como ameaça?

A “nowstalgia”, nesse sentido, é uma traição à memória. Porque o povo que fez o 25 de Abril não era um povo de ressentimento. Era um povo de esperança ativa. Sabia que o futuro não caía do céu – tinha de ser construído, disputado, defendido. E hoje, quando tantos repetem que “não há alternativa”, esquecem-se de que a própria democracia foi, um dia, a alternativa impossível que se tornou real.

Essa esperança ativa tinha um nome concreto: bem-estar. Não o bem-estar do consumo, mas o bem-estar da dignidade. O direito a um emprego que não humilhasse, a uma casa que não fosse provisória, a uma escola democrática que abrisse horizontes, a um hospital que acolhesse sem perguntar quem se era. Como escreveu o filósofo Agostinho da Silva, numa das suas Lições de Filosofia, “o tempo é o espaço da liberdade” – e essa liberdade só tem sentido quando permite viver com plenitude. Essa plenitude inclui o amor, a paixão, a felicidade – não como estados privados, mas como possibilidades coletivas. Um País onde se pode amar quem se quer, onde se pode sonhar sem vergonha, onde se pode envelhecer com cuidado, onde se pode nascer sem medo.

Foi essa visão que inspirou a Constituição de 1976, com os seus artigos sobre o direito ao Trabalho (art. 58º), à Saúde (art. 64º), à Educação (arts. 73º-79º), à Proteção na Velhice e na Doença. Não eram promessas abstratas – eram respostas a décadas de exclusão. Hoje, porém, esses direitos são tratados como encargos, como luxos que o País “não pode pagar”. A educação é mercantilizada, a saúde é precarizada, o emprego é desvalorizado, a habitação tornou-se um privilégio. E enquanto isso acontece, a “nowstalgia” distrai-nos com vinis, séries rétro e discursos sobre “valores perdidos” – como se os verdadeiros valores não fossem precisamente os que estão a ser desmantelados sob os nossos olhos.

José Saramago, que sempre viu o futuro como responsabilidade, escreveu com clareza implacável: “O futuro não é o que será, mas o que fazemos dele.” A frase, proferida em múltiplas entrevistas e recolhida no seu Caderno de Viagem (Caminho, 2001), não é otimismo ingénuo – é um apelo ético. E o que estamos a fazer do futuro? Estamos a permitir que o medo defina os limites do possível. Estamos a aceitar que a solidariedade seja chamada ingenuidade, que a justiça social seja rotulada de utopia irrealista. Mas a utopia, como bem nos lembrou Saramago noutra ocasião, é o horizonte que nos faz caminhar. Sem ela, ficamos parados – e o presente, inchado de ansiedade, devora-nos.

Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego, confessou com inquietude profética: “O futuro é aquilo que ninguém quer, mas que todos terão.” Talvez tenha razão. Mas há uma diferença crucial entre sofrer o futuro e habitá-lo com intenção. A liberdade, como escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen em O Nome das Coisas (Assírio & Alvim, 1977), é o espaço em que o homem pode ser justo. Não é um privilégio, nem um dado adquirido – é um campo de ação ética, que exige coragem, lucidez e compromisso com os outros.

Então, talvez a pergunta não seja “como voltar aos anos 80?”, mas “como recuperar a coragem que os anos 80, em parte, simbolizavam?” Não a inocência – essa nunca existiu –, mas a ousadia de imaginar. Porque a verdadeira felicidade nunca esteve no consumo do passado, mas na capacidade de construir um futuro comum.

Pensemos nos nossos filhos. Nos nossos netos. Nos nossos entes queridos. Que mundo estamos a legar-lhes? Um mundo onde o medo decide quem entra, quem fala, quem existe? Ou um mundo onde a liberdade – essa liberdade cara, conquistada com cravos e coragem – continua a ser um projeto vivo, exigente, interminável, eterno?

Chega de entregar o futuro à “nowstalgia” do medo. Chega de permitir que o presente, inchado de ansiedade e manipulação, devore o amanhã que os nossos avós sonharam e os nossos filhos merecem. O 25 de Abril não é uma fotografia emoldurada. É um compromisso. E esse compromisso chama-se: nunca mais!

Nunca mais haverá ditadura, mesmo que venha mascarada de normalidade. Nunca mais haverá racismo institucional, mesmo que se disfarce de “preocupação cultural”. Nunca mais mulheres caladas, nunca mais fronteiras fechadas à Humanidade, nunca mais um País que esquece que a sua força está na sua diversidade, na sua luta, na sua capacidade de sonhar coletivamente.

O futuro não é um destino. É uma responsabilidade. E essa responsabilidade começa agora – não na fuga, mas na presença. Não na “nowstalgia”, mas na ação consciente. Porque, como escreveu a Sophia de M. B. Andresen, a liberdade é o espaço em que o homem pode ser justo, repito – e esse espaço só existe se o construirmos, juntos, todos os dias.

N.B. Esta crónica é dedicada a todos os que ainda ouvem uma canção e sentem que o mundo pode mudar – porque, de facto, já mudou. Basta lembrar-mo-nos como.

sábado, 18 de outubro de 2025

Pensamento do Dia

 


A necessidade do Estado Palestino

A criação do Estado Palestino, juntamente com a segurança de Israel, são fundamentais para a pacificação e estabilização do Oriente Médio, e da política mundial. A maioria de nossos problemas atuais decorrem do Oriente Médio, berço de nossa civilização, com as suas divisões e anteposições, que até hoje perduram. O Acordo de Cessar Fogo obtido pelos Estados Unidos, nos moldes atuais, é instável e não soluciona o problema, onde a guerra irá voltar, brevemente ou a médio e longo prazo.

A criação de Israel remonta ao fim da Primeira Guerra Mundial. Em 1916, a Inglaterra, a França e a Rússia assinaram o Acordo Sykes-Picot, no qual, devido ao desmantelamento do Império Otomano a Palestina e a Jordânia ficariam sob o Mandato Britânico, e o Líbano e a Síria sob o Mandato Francês, até 1943.


Após a Segunda Guerra Mundial, diante do holocausto e na inexistência de Estado juridicamente constituído na Palestina, a Assembleia da ONU aprovou, em 3 de setembro de 1947, a formação dos Estados Judeu e Palestino por 33 votos, representando 72% dos países, contra 13 votos no total. Votaram a favor os Estados Unidos, União Soviética, França, Brasil, dentre outros; votaram contra a Síria, Líbano, Arábia Saudita, Egito, Iraque, Irã, dentre outros; a Inglaterra, a China, e outros oito países se abstiveram.

A fundação de Israel data de 14 de maio de 1948, com a sequência da Guerra da Independência. Seguiram-se, até hoje, o total de 11 guerras entre Israel e os países da região, com a estimativa de cerca de 170.000 mortos no total, sendo 70.000 em Gaza nestes últimos 2 anos.

Hoje, 157 dos 193 Estados membros da ONU, ou seja, 80% dos países, reconhecem o direito da constituição do Estado Palestino, incluindo a Inglaterra, França, Canada, Australia, México, Brasil, o Vaticano, Turquia, Rússia, China, Índia, Japão, dentre outros, com o veto dos Estados Unidos.

São dois os principais problemas entre Israel e os países Árabes da Região.

Do ponto de vista político, toda vez que três países, com culturas e interesses antagônicos, compartilham suas fronteiras, o modelo tende ao desequilíbrio. Ali, se confrontam hoje Cristãos, Mulçumanos e Judeus, em suas diferentes percepções. Segundo a Teoria dos Jogos, todo sistema tripartite conflitivo tende ao desequilíbrio, uma vez que quando duas partes se acertam a terceira não necessariamente concorda, gerando na instabilidade contínua.

Do ponto de vista econômico, o petróleo é a grande riqueza e problema da região. 51% das reservas mundiais de petróleo estão no Oriente Médio, Arábia Saudita 16%, Iran 9,5%, Iraque 9%, Kuwait 6%, Emirados Árabes 6%. Os Estados detêm 2% das reservas mundiais, com 19% do consumo, Israel sem reservas. Como disse Robert Kennedy Jr., atual Secretário da Saúde e de Serviços Humanos de Trump, em sua então pré-candidatura à Presidência dos Estados Unidos em 2024, “Israel é a nossa fortaleza. É quase como ter um porta-aviões no Oriente Médio. Se Israel desaparecer, os BRICS vão controlar 90% do petróleo do mundo e isso seria uma catástrofe para nossos interesses”.

Segundo as teorias sobre o terrorismo, como em Martha Crenshaw, David Rapoport, Robert Gurr, dentre outros, pode-se e se deve combater, mas é muito difícil derrotar o terrorismo pelas armas, uma vez que o terrorismo sempre se renova, em seus líderes, segundo os motivos que lhe geram. A melhor solução, além do combate, é a composição, mesmo que relativa, como ocorreu na Irlanda do Norte. Para o bem da pacificação, dos povos, e dos países.

O Acordo de Cessar Fogo é mais uma Proposta de Rendição do que um Acordo de Paz, momentaneamente oportuno para todas as partes.

A pacificação tem o seu preço.

Hollywood me enganou

Sou uma vítima de Hollywood. Algumas décadas assistindo a filmes de ação me fizeram crer que o amor pela liberdade, pela democracia e a rejeição à tirania estavam inscritos no DNA dos americanos. É claro que nunca comprei essas ideias pelo valor de face.

Acompanhei dezenas de intervenções dos EUA em outros países que não podem ser catalogadas como defesa da democracia. Mesmo as que podem foram muitas vezes marcadas por um escandaloso autointeresse de Washington.


Ainda assim, acho que é difícil negar que os EUA, em parte pelas preferências de seus cidadãos, foram uma peça-chave na construção da ordem mundial do pós-Guerra, indubitavelmente mais democrática do que todas as ordens mundiais que a antecederam. E as preferências dos americanos são em parte determinadas pela imagem que esse público projeta de si mesmo, o que tem a ver com Hollywood.

Nesse contexto, devo dizer que me surpreende a passividade com que os americanos estão aceitando a escalada autoritária de Trump. Até entendo que as maiorias republicanas na Câmara, no Senado e na Suprema Corte deem corda para o Agente Laranja, mas como explicar que universidades, escritórios de advocacia e empresários que até outro dia se proclamavam paladinos do liberalismo também estejam acedendo a exigências, às vezes claramente ilegais, do governo Trump?

O pragmatismo pode ser uma resposta. O poder que a Casa Branca tem de impor custos a seus desafetos é quase infinito. É sempre mais interessante deixar que os outros façam o combate. Também deve haver atores imaginando que Trump acaba constitucionalmente em 2029. Melhor esperar a tormenta passar sem se molhar.

Não digo que esses raciocínios estejam necessariamente errados, mas não dá para negar que envolvem um certo risco. Kim Il Sung foi escolhido como presidente da Coreia do Norte para um mandato de quatro anos e a ditadura já está na terceira geração. Vamos ver se os protestos anti-Trump convocados para este sábado mudam a dinâmica, mas não estou muito otimista.

Lenço de pano

Costumo carregar um lenço de pano no bolso de trás da calça. Prática antiga, minha tia-avó Helena, já falecida, conhecedora do hábito, reiteradamente me presenteava com caixas contendo três, nas datas importantes. Traziam, eu achava o máximo, a letra erre bordada, e vinham, titia nunca falhava, com as cores: branca, azul e rosa. Ainda me sobrou um deles, alvo, limpo e engomado, com a inicial floreada, na caligrafia bonita dos antigos. Sempre que lanço mão de um, em ocasiões mais ou menos frequentes de emoção, as pessoas em volta estranham. Quem usa lenço hoje em dia, meu Deus? Seria mais natural surpreenderem-se com o lacrimejar instantâneo, eu assim à flor da pele, mas é o objeto de pano que chama mais a atenção.

Os comentários, aliás, são em tais ocasiões os mais variados. Afirmam ser coisa de velho, haver pouca higiene em se armazenar aquela porcaria na algibeira, o mais saudável seria utilizar utensílios descartáveis de papel. Ofendo-me, é claro! Por que não devo manter alguma tradição em meus costumes? Já mudei tanto, aceitei novidades, modernizei-me, embora aos trancos e barrancos, sou hoje capaz de encarar o mundo estranho em que vivo sem importunar os viventes do entorno. Não custava nada haver alguma reciprocidade, respeitarem gostos inocentes trazidos de um passado que, para mim pelo menos, é recente, parece ter sido vivido ontem. Desejo poder enxugar minhas lágrimas com conforto.

E como tenho chorado!

O mundo se tornou insalubre demais. Se me distraio e abro inadvertidamente algum filme recebido no computador, entro em contato com eventos horríveis, traumatizantes, vejo o ser humano sofrendo injustiças inacreditáveis. Fico logo engasgado, com embrulhos no estômago, a dor me escorre pela face incontrolavelmente. Como ver um pai tentando acalmar um filho que chora com medo de bombas e não tremer de ódio ante o vil? Os dois aterrorizados, tudo em volta chacoalhando, clarões iluminando as janelas e estrondos assustadores. Levo logo a mão para trás, alcanço aquele que sempre esteve ali para me secar o pranto. Permaneço horas impressionadíssimo. Quem mandou ser capaz de sentir com tanta fúria a dor alheia?

Gaza.

Então vejo alguém recitando um poema do palestino Ahmad Assuq. Resultado de teclar inadvertidamente um link no celular. Na telinha surgem escritores judeus brasileiros. Eles revezam-se dizendo versos fortes e sofridos desse poeta tão jovem, apenas vinte e seis anos de luta:

Vamos colocar máscaras
Para não ter que perder
Estes rostos que já não
Reconhecemos

E constato que, embora Adorno tenha dito que a poesia não sobreviveria a Auschwitz, ela está ali sangrando meus olhos, umedecendo minhas mãos, preciso urgentemente do meu lenço.

Gaza.

Como respirar, sorrir, sentar-se à mesa para fazer refeições sabendo que há um massacre sendo realizado?

Como respirar, sorrir, sentar-se à mesa para fazer refeições sabendo que existem crianças com fome e apavoradas?

Não consigo sem meu lenço. Impossível!

Ricardo Ramos Filho

Reivindiquemos o dever dos nossos deveres

Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.

Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lhe permitem aquelas que efetivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensamos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os governos façam nos próximos 50 anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.

José Saramago ao receber o Prêmio Nobel

Lucrando com a Casa Branca

Donald Trump cruzou muitas linhas vermelhas nestes nove meses de seu segundo mandato, mas em poucas áreas sua apropriação pessoal da autoridade política é tão evidente quanto em relação aos seus bens e aos de sua família. Ele não é o primeiro presidente dos EUA a vir do mundo empresarial, mas nenhum até agora obscureceu tanto a linha entre serviço público e lucro privado, uma fronteira fundamental para o funcionamento de qualquer sistema político democrático.

Desde que assumiu o cargo pela segunda vez em 20 de janeiro, Trump tem usado seu poder de forma tão agressiva que enfraqueceu o modelo de freios e contrapesos, a própria base da democracia americana. Ele também não hesitou em reprimir a dissidência e mobilizar todo o poder executivo para intimidar a imprensa, a sociedade civil e a oposição. Suas decisões de política externa estão redefinindo a estrutura para o uso da força e os limites do direito internacional. E deixaram claro para grandes corporações, oligarcas da tecnologia e qualquer estrangeiro interessado em fazer negócios nos Estados Unidos que tudo no Salão Oval tem um preço.


É difícil fornecer números concretos sobre o enriquecimento dos Trumps durante esse período, já que muitos de seus negócios não estão listados na bolsa de valores e a estrutura corporativa que eles criaram os torna difíceis de monitorar. Várias investigações estimam que sua riqueza, estimada em cerca de US$ 2,3 bilhões no final de 2024, pode ter se multiplicado por três ou até cinco vezes nos últimos meses. No entanto, há algumas evidências convincentes. O investimento da família no mercado de criptomoedas não existiria ou seria tão lucrativo sem as mudanças legislativas feitas por seu próprio governo, que excluiu o Federal Reserve e outras agências federais do negócio, que agora está exclusivamente em mãos privadas. Seus filhos estão fechando acordos com muitas petromonarquias pouco antes da visita oficial de Trump ao país em questão, e alguns desses governos estão autorizados a fazer negócios nos Estados Unidos — como a participação do fundo MGX de Abu Dhabi nas operações do TikTok USA — após depositar bilhões em uma startup de criptomoedas fundada pela família presidencial. Por sua vez, as empresas de tecnologia concordaram em pagar milhões em indenizações ao próprio Trump para encerrar os processos movidos pelo presidente.

O pior, porém, é que tal nível de monetização de cargos públicos carece da reação social e política que poderia ter provocado em outros tempos. Donald Trump rompeu muitos dos limites do que era considerado aceitável em um presidente, disfarçando preocupações éticas como questões partidárias. A polarização política também leva à erosão dos mecanismos de supervisão e responsabilização, permitindo que o presidente escape da responsabilidade perante seus eleitores. Sem uma resistência efetiva da sociedade e de instituições independentes, a deterioração de alguns dos princípios fundamentais da democracia americana pode ser irreversível.

Editorial do El País

Termo ‘empreendedorismo’ se vulgarizou

Volta e meia circulam aqui palavras, geralmente traduções do inglês, para nós aparentemente novas, mas que já eram antigas e usuais, com variantes de significado ao longo do tempo. De certo modo, palavras têm “biografia”. Se quisermos colocar a questão numa perspectiva mais abrangente que, no caso, é a policial, elas têm até “folha corrida”.

Quando fui pesquisador visitante da Universidade de Cambridge, na Inglaterra e, depois, professor catedrático, pagava minhas contas numa agência de famoso banco bem no centro da cidade. Uma placa indicava que ali tivera casa, na qual instalara o primeiro banco da localidade, John Murdock (1755-1816), que fora membro do Parlamento e 13 vezes prefeito da cidade. Tinha um lema, que a placa consagra: “O que vocês chamam corrupção, eu chamo influência”. Explicava seu criativo modo de criar riqueza e poder.


Está sepultado, santamente, numa pequena igreja próxima da casa em que vivera e em que triunfara como empreendedor. Nela, hoje, há um restaurante italiano.

Dessa cultura, uma palavra que teima em se infiltrar em nosso vocabulário é “empreendedorismo”. Como se fosse um conceito socialmente inovador. Em inglês tem sentido mais especificamente econômico, relativo a ganho e lucro, do que aqui.

O sentido da palavra agora vulgarizada vem de Joseph Schumpeter (1883-1950), economista tcheco, que foi ministro da economia da Áustria. Acabou emigrando para os EUA, tornou-se cidadão americano e lá morreu.

Bem examinada a coisa, não se trata de mera inovação vocabular, mais uma palavra dentre tantas palavras estrangeiras que se incorporam a uma língua que já não é, propriamente, a nossa velha língua portuguesa com sotaque nheengatu.

Durante o período bolsonarista de nossa decadência política, “fake news” foi designação “chique”, porque em inglês, para uma prática aqui antiga nem um pouco chique, a mentira como instrumento da esperteza e dos espertalhões. Não apenas para juntar riqueza, mas também para juntar poder, um instrumento novo de nossa corrupção antiga.

Empreendedorismo, tudo sugere, é vulgarização ampliada da concepção do mesmo Schumpeter, a de empresário inovador, aquele que em busca do lucro toma decisões econômicas de risco, inova porque antecipa-se nas práticas de obtenção do lucro que o diferenciam dos concorrentes.

Schumpeter deu à centralidade de sua concepção de inovação o sentido de “destruição criativa”. Ela impulsiona o progresso industrial e destrói as práticas econômicas obsoletas. Promove o desaparecimento de indústrias antiquadas e o surgimento de novas.

De certo modo, a concepção de economia de Schumpeter e a cultura do empreendedorismo já não dizem respeito, propriamente, ao que o filósofo Karl Marx (1818-1883) e seu parceiro de obra, o empresário do ramo têxtil Friedrich Engels (1820-1895), definiram como modo capitalista de produção e reprodução do capital, uma teia de relações sociais e de consciência social, as relações sociais de classe.

Com Schumpeter, dizem respeito a crescimento econômico, a quantidades, a ganhar com a inovação econômica para ganhar primeiro e, assim, ganhar mais. Já não dizem respeito a desenvolvimento econômico com um modo determinado e cambiante de desenvolvimento social. O lucro extraordinário da inovação já não resulta de relações sociais de superação de contradições da reprodução do capital. Mas da solidão do empreendedor criativo.

A transformação dessa mudança em cultura do meramente lucrar, em mediação da mentalidade pós-moderna, espalha-se rapidamente e promove a transformação redutiva e funcional das mentalidades. Já não se trata apenas do ganhar como lucro, mas do ganhar no amplo sentido de ganhar dominação, poder e riqueza, de uma economia sem socialidade.

Na “Ética protestante e o espírito do capitalismo”, de Max Weber, o enriquecimento era indício do favorecimento de Deus ao cumpridor de uma ética de moderação, do consumo ao sexo. Deus entrava indiretamente num modo de vida que favorecia o enriquecimento da pessoa por ele beneficiado.

As igrejas pentecostais, nos EUA e depois em outros países, como o Brasil, através da teologia da prosperidade reinventaram Deus e o tornaram sócio do empreendimento. O crente investe o que tem na compra da benevolência de Deus e cada templo é, de certo modo, um balcão de negócios.

Diferentemente da tese schumpeteriana, o ganho não é aí produto de um risco criativo e calculado. É investimento e compra. É expressão da coisificação da pessoa e de uma modalidade de alienação que a liberta dos valores da tradição, como a do pensamento crítico, para torná-la escrava de uma vida que é o cativeiro de um modo materialista de empreender.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

A desigualdade explicada às crianças

O céu está por cima da nossa cabeça, agora quase todo cinzento, com laivos de azul esmagados sob o peso das nuvens do outono, e um ventinho agudo e cortante, que regressa por esta altura, como todos os anos. Mudar de estação é um recomeço com sabor a passado. Andamos para a frente, voltando para trás. A mim, outubro lembra-me o cheiro da madeira dos lápis no estojo, a mochila às costas, a borracha a esfarelar-se sobre os erros que se apagam e uma página com um desenho de um cacho de uvas roxas no livro da escola. O mundo começa todos os dias, mas nunca do zero.

Da primeira vez que levei a minha filha mais velha à praia, tive a ilusão de poder descrever-lhe o mundo como se ele não tivesse existido antes dela. Esta é a areia e esta é uma concha. E ali está o mar, que cabe dentro deste búzio. O azul que te cega é salgado. O chão que pisas escorrega-te pelos dedos. E os gritos que te embalam são das gaivotas, que sempre aqui estiveram, mas parecem hoje novas como nunca. Tudo parece novo e diferente, porque estamos a vê-lo pela primeira vez, como se nunca antes ninguém o tivesse visto.


Mas a invenção do mundo faz-se por camadas. “As pessoas que vêm de África cozinham melhor do que as outras?”, perguntou-me certo dia o meu filho mais novo enquanto deambulávamos pela cidade. Franzi o rosto. Não percebi a pergunta. “É porque são sempre as pessoas mais escuras que trabalham nas cozinhas.” Fiquei com a pergunta a remoer na cabeça. E a única coisa que consegui dizer é que a cor da pele não nos diz em que país alguém nasceu e que África nem sequer é um país, mas um continente grande, cheio de gentes diferentes e países com as suas histórias de reis, exércitos e cidades.

Quase um ano depois, a mesma inquietação surge com outra pergunta. “Porque é que as pessoas morenas trabalham mais nas limpezas?” E a resposta que andei a cozinhar já me sai mais completa, mas não é fácil de contar. A desigualdade é uma coisa que só parece óbvia quando caímos no conto de fadas que nos diz que ela é tão natural e antiga como o céu que está sobre as nossas cabeças. Mas não é. A desigualdade é difícil de contar porque ela é muito antiga, sim, tem raízes com milhares de anos, mas não nasceu com o início do mundo. E arrancá-la da terra pode mesmo ser a única forma de evitar o fim do mundo.

Ensaiei, como pude, uma explicação que os meus filhos pudessem entender. Sem dourar o que é sombra. Mas voltando à ideia de que a única vez que nascemos iguais já foi há milhares de anos. Depois disso, cada um de nós foi nascendo num mundo antigo, herdando tudo o que já cá estava. E sabendo, enquanto o dizia, que dizê-lo não pode nem deve impedir-nos de querer inventar o mundo. O barro com que trabalhamos é duro, mas não deve faltar-nos nunca a coragem, a imaginação e até a alegria para o moldarmos.

Comecei, então, a contar. Houve um tempo em que os mais fortes decidiram explorar os mais fracos. Houve um tempo em que se decidiu que os tons da pele podiam ser uma escala de ser humano. Quanto mais escuros, menos humanos, para que pudéssemos explorá-los como se arrancam pedras das minas ou se colhem frutos das árvores. Para que parecesse natural o que nunca o foi. Marcaram-se assim, na pele, os fortes que tudo podem e os fracos que nada têm.

Quem chegou ao mundo muitos séculos depois da invenção da raça já nasce marcado por ela. Não só pela cor que lhe cobre a pele, mas pela pobreza que recebeu de herança. Não há nada que dite tanto a sorte de alguém como o berço em que nasceu. Contam-nos histórias de heróis, que cabem nos dedos das mãos, para deixar na sombra os milhões que nunca deixarão de ser pobres pelo simples facto de que foi assim que nasceram.

O esforço não conta nada? Conta alguma coisa. Mas é muito diferente correr com um menir às costas ou de braços vazios. Começa-se sem os alimentos que nos tornam mais saudáveis e fortes, sem as brincadeiras que nos estimulam, sem o tempo para que nos cuidem e ganhemos o sentido de sermos alguém que merece. Depois vem a importância de sobreviver, de nos fazermos à vida para ter o que comer. Não há o luxo dos livros, das viagens e dos museus. E a vida transforma-se numa corrida de obstáculos, em que alguns nascem com asas e outros com pernas curtas.

Explico muitas vezes aos meus filhos que os pobres são, quase sempre, os que mais trabalham. Só que vivem na mentira de que o trabalho que fazem não vale nada e são ensinados a odiar quem tem menos. O desempregado que passa o dia no café irrita-os mais do que o bem-nascido que vive das rendas das casas herdadas. É que esse é aquele que eles queriam ser. No fundo, sabem que vale mais esse privilégio de berço do que as migalhas dos subsídios. Mas não o dizem em voz alta, com medo que pareça inveja.

Os malfadados subsídios foram muitas vezes a forma de repor alguma justiça, entre os que já nascem com prédios e contas no banco e os que só nascem com fome. Foram também uma forma de colar a cuspo uma certa paz, adormecendo estômagos famintos com algumas côdeas, para lhes entorpecer a raiva. Mas enganar a fome não é o mesmo que matá-la. E é aí que têm razão aqueles que se inflamam contra os subsídios, que tentam mascarar a desigualdade em vez de a abalar verdadeiramente.

A fome só se mata com a paz, o pão, habitação, saúde, educação. Sim, lá vem outra vez essa velha cantiga. Hei de cantá-la até enrouquecer. Porque é por isso que anseiam os que lutam pela liberdade, mas também muitos dos que agora a veem como sua inimiga. É nas falhas desse muro que nascem as ervas daninhas, bem regadas por aqueles a quem interessa ver ruir tudo. Para que tudo volte a ser aquilo que se inventou há milhares de anos. Teremos de as arrancar com os dedos e de plantar no seu lugar as sementes do amor e da igualdade.

“Volta para a tua terra” não é sobre nós, brasileiros

Quando emigrei para Lisboa, em 2019, tornei-me Outra pela primeira vez. O processo de tornar-se Outro é, por si só, dramático. Já havia começado meu letramento racial no Brasil há alguns anos, com alguma consciência mais formal por volta de 2014, mas, em Portugal, a branquitude se movimentou dentro e fora de mim com dinâmicas que me ultrapassavam em termos teóricopráticos.

O privilégio branco de poder escolher tornar-se o Outro traz também a responsabilidade que implica em mecanismos e dinâmicas que, parafraseando Audre Lorde, lucram com opressões de outras partes de nossas identidades — mulher, latina, etc.

Como todo processo, há, na consciência racial somada à migração, movimentos, descobertas, retrocessos, desvios — é contraditório, humano e vivo. Mas algo me parece deslocado quando, no coletivo da nossa bolha, a branquitude intelectual brasileira de esquerda que emigrou nos últimos anos parece ter um prazer curioso em se colocar como alvo principal da violência xenófoba

Não podemos rir dos bolsonaristas em Portugal que parecem gostar do país justamente pelos avanços de bem-estar social que são frutos de políticas de esquerda — e/ou parecem não perceber que também são imigrantes. Não percebermos nós a incongruência quando, por exemplo, dizemos lutar pelos direitos reparativos da memória colonial, mas não olhamos a nossa própria ascendência também colonial.

Há que se “devolver o ouro”. Mas não a nós.

Somos todos brasileiros e carregamos as violências da construção (e preservação) nacional dentro de nossa identidade, passado e presente individuais e coletivos. Entretanto, como bem sabemos pela experiência cotidiana no nosso país de origem, o racismo não tem ponderações no momento de operar. O fenótipo é a sentença.

Eu, enquanto brasileira branca de cara, de classe média independente dos 10 euros na conta, se estiver quieta pelas ruas de Lisboa, serei bem tratada até abrir a boca. Uma pessoa brasileira dos muitos outros brasis que compõem o nosso país, provavelmente, terá outro tratamento desde o começo.

Isso, para restringir a discussão aos brasis que vivem aqui, sem entrar em outras migrações e/ou diásporas. E deixamos para outro texto as lutas seculares dos movimentos negros portugueses.

Nós não deixamos de ser brancos por sermos latinos na Europa. Nós não deixamos de reproduzir a estrutura por termos nos deslocado dela.

Não dá para falar sobre xenofobia sem falar de racismo, capitalismo e suas dinâmicas. Obviamente, dentro dos nossos lugares de fala — e, “se branco só escuta branco” —, já passou da hora de nós, aqueles que se interessam pelo assunto — e não só —, termos essa conversa de forma honesta e não condescendente.
Maria Pinheiro

Espectadores do genocídio

“Quando perdi minha perna, fiquei muito triste. Saí do hospital e passei o dia na loja. Não queria fazer nada, não queria ver ninguém. E então, quando precisei voltar para o hospital, percebi no caminho e no hospital que agora a maioria das pessoas em Gaza é como eu. Quase todo mundo perdeu uma perna ou um braço. Então está tudo bem.” A história do menino cuja perna (e muito mais) foi roubada pela guerra foi contada pela psicóloga Letícia Furlan, da organização Médicos Sem Fronteiras, no Museu das Memórias (In)Possíveis, uma instituição que acolhe as histórias daqueles que não têm lugar. Era 11 de outubro, um dia após o cessar-fogo de Israel sob o “acordo de paz” imposto por Donald Trump. Os palestinos tiveram que engolir um acordo que, mais uma vez, os humilha e os mantém sem soberania em seu próprio país, porque era a única maneira de impedir que Israel continuasse a matá-los até que não restasse nenhum deles. Eles tiveram que engolir isso devido à inação de muitos países, especialmente na Europa. Mas e os espectadores do genocídio?

Muito já foi escrito sobre a cumplicidade de alemães comuns no genocídio nazista e sobre a falha, ano após ano, de governos e cidadãos ao redor do mundo em agir. Sempre será obsceno que todo esse horror tenha sido ignorado por anos. A Europa e os Estados Unidos não se opuseram à Alemanha na Segunda Guerra Mundial pelo extermínio dos judeus, mas por razões geopolíticas e econômicas. Mas agora, na terceira década do século XXI, como podemos explicar a falha dos governos em agir? Porque os palestinos não precisavam de discursos vazios enquanto os israelenses reduziam seus corpos a escombros humanos. Ao contrário do genocídio nazista, escondido da maioria das pessoas em uma era sem internet, a destruição em massa de palestinos tem sido documentada diariamente em vídeo, áudio e texto pelas famílias das vítimas, profissionais de saúde e jornalistas que se arriscaram a cobri-la — pelo menos 252 foram mortos pelas forças israelenses. Então, como podemos explicar a falha da maioria das pessoas ao redor do mundo em agir?


Em um manifesto poderoso, um grupo de mais de 50 intelectuais, incluindo Angela Davis, Virginie Despentes e Benjamin Seroussi, pediu apoio às ações dos ativistas da flotilha que se dirigia a Gaza, cujo espírito humanista “quebra o estupor”. No texto, eles distinguem entre os assassinos, os mortos e os espectadores: “O espetáculo do genocídio nos atordoa, mas a destruição não é o fim de tudo: inaugura novas formas de governar, e em todos os lugares, muito além de Gaza, novos sujeitos aparecem, desvitalizados, atordoados, paralisados. Gostemos ou não, a cena tem três atores: os assassinos, os mortos e os espectadores. Nós, os espectadores, nos tornamos uma população reduzida a nos percebermos — com vergonha e raiva — impotentes, presos em nosso ponto mais fraco: nossa sensibilidade ao obsceno, misturada ao medo e ao fascínio, seguida por uma gradual dessensibilização ao próprio espetáculo.” Para eles, os espectadores consentiram com o genocídio por omissão, ao não reagirem ao horror e ao sofrimento que estavam vendo na tela.

Tantas vezes acusadas de encenar um espetáculo, as flotilhas, ao contrário, denunciaram a transformação do genocídio em espetáculo, quebraram a paralisia, humanizaram a resposta e arriscaram seus corpos na luta pela dignidade. Greta Thunberg foi repetidamente atacada por membros do governo israelense e insultada em diversas línguas na internet por incorporar a conexão entre colapso climático e genocídio, entre colonialismo e genocídio. Quando Greta foi libertada, Trump, o “pacificador”, chamou-a de “encrenqueira” e a aconselhou a ir ao médico para “controlar sua raiva”. Mas será que Greta é o problema? Não deveriam ser os espectadores, aqueles que dia após dia consentem por omissão que crianças explodam ou morram de desnutrição, os causadores do choque? Como uma reação de solidariedade diante do genocídio se tornou um “problema” que deveria ser tratado por um médico?

Ainda temos tempo para, coletivamente, deixarmos de ser espectadores. Não haverá paz se Benjamin Netanyahu e os membros de seu governo não forem responsabilizados por seus crimes e terminarem suas vidas na prisão. Não haverá paz, não apenas para a Palestina, mas para o mundo, se o genocídio permanecer impune. O destino da Palestina depende do nível de pressão que os cidadãos exercem sobre seus líderes, de sua solidariedade ativa com o povo devastado. Devemos a eles uma resposta aos 67.000 assassinados, mais de 20.000 deles crianças, números deliberadamente subestimados, pois há milhares de outros sob os escombros. Essas estatísticas também não incluem os 461 mortos por fome, que Israel transformou em arma de guerra. Devemos a eles uma resposta à criança de Gaza que terá que viver sem uma perna entre os escombros de sua terra, e às 21.000 crianças que a máquina de horror israelense deixou com alguma deficiência. Continuar a aquiescer por omissão destruirá a todos nós.

É dever das escolas ensinar a ter empatia

Não é por acaso que empatia se tornou matéria obrigatória, por lei, em todas as escolas da Dinamarca. Uma vez por semana, crianças e adolescentes, de 6 a 16 anos, se reúnem na “klassens tid”, a “hora da turma”.

Conversam sobre sentimentos, convívio, dificuldades, conflitos, atitudes. O professor é mediador. O objetivo é estimular a cooperação, o respeito, a escuta ativa, reduzir o bullying e o preconceito contra diferentes.

Acho o máximo. Explica também por que esse país escandinavo é o segundo mais feliz do mundo, no ranking da ONU. Ensinar, desde cedo, a ter empatia ajuda a construir uma sociedade mais justa e equilibrada.


Forma cidadãos, não indivíduos. Adultos mais conscientes, capazes de ouvir e suportar opiniões diferentes. Privilegia a cooperação, a solidariedade, no lugar da competição exagerada e estéril.

No Brasil, sobretudo nas grandes cidades, um de nossos incômodos é a falta de empatia. Não falo só de prefeitos e parlamentares que não estão nem aí para a população e não escutam o eleitor. Falo de todo mundo que a gente encontra na rua, na praça, no bar, até mesmo amigos ansiosos para brigar.

Empatia é palavra batida. Resumindo, significa conseguir se colocar no lugar do outro. Sentir o que o outro sente, perceber que o outro precisa de você. Mas não basta entender o significado. Tem que praticar. As pessoas confundem empatia com simpatia, bondade, sorrisos. É outra coisa.

Há mais de 30 anos a Dinamarca incluiu no currículo escolar o ensino de empatia. Em círculo, alunos discutem como foi a semana, se alguém se sentiu desprezado, agredido, ridicularizado. É uma disciplina tão importante quanto matemática.

Na “klassens tid”, não existem notas boas ou ruins, a ideia é cultivar o “hygge”, que significa aconchego, junto a pessoas queridas. Rejeitar ambientes hostis. Construir uma convivência respeitosa. O inverso do que vemos nas redes sociais e em muitos grupos de WhatsApp. E entre parentes.

Ensinar empatia é ensinar humanidade. Seria impossível a Dinamarca eleger um presidente que defendesse tortura, por exemplo. Ou que não se importasse com 700 mil mortos na pandemia e achasse falta de ar um mimimi. Inimaginável.

Bom saber que, no Brasil, existem escolas que tentam transmitir noções de cidadania. Uma é a Escola Parque, na Gávea. A partir do sexto ano, os alunos se reúnem uma vez por semana com a psicóloga. Para aprender a refletir. A disciplina se chama PEMSA. Psicopedagogia em sala de aula.

“Nós aprendemos sobre acolhimento, respeito, não pensar mal das pessoas antes de conversar e tentar entender, discutimos valores éticos, vemos vídeos e escutamos histórias de superação, falamos de bullying, racismo”, disse Nina Rezende Prada, 12. Minha neta.

Em nosso Brasil de tantas carências, falta muito para que o ensino de empatia seja promovido a política pública. Um luxo ou uma necessidade? Essa preocupação continua restrita a escolas de elite – e é uma pena, porque vemos e sofremos todo dia episódios de agressão gratuita, de incivilidade absurda.

É evidente que não dá para comparar as duas sociedades. A Dinamarca e o Brasil são países diametralmente opostos em quase tudo. A população dinamarquesa é quase igual à da cidade do Rio de Janeiro.

Mesmo assim, há muitos pontos em comum na juventude dos dois países. A necessidade de se sentir amado e acolhido é universal. Uma hora por semana para aprender a ouvir, falar e compreender não é tanto tempo assim. Ajuda a reduzir o assédio, a inadequação ou a solidão entre adolescentes.

E quem sabe, poderíamos almejar, na idade adulta, a um convívio cotidiano mais cordial e equilibrado, porque a falta de educação virou uma praga no Brasil.