segunda-feira, 12 de maio de 2025

Pensamento do Dia

 


O choque de realidade das contas 'certas'

As campanhas eleitorais são propícias a exageros. É o momento em que se prometem sonhos, mesmo que todos saibam à partida que não podem ser realizados – como acontece, aliás, com a maioria dos melhores devaneios que temos. Mas não há mal no exagero, desde que as promessas sejam sinceras e percetíveis na sua justa dimensão: a de que, embora sendo exageradas, indicam o caminho para se poder alcançar um futuro melhor, mais justo, mais solidário e, preferencialmente, mais feliz e próspero. É aquilo a que se chama sonhar alto, seguindo o exemplo do velho slogan popularizado nas ruas de Paris em Maio de 68, com um apelo transcendental e provocador: “Sejamos realistas, exijamos o impossível.”

Nada contra os sonhos nem contra os exageros, portanto. Se há algo que falta na política atual, na verdade, é essa urgência antiga de perseguir utopias, de sonhar com um mundo melhor, mesmo que, realisticamente, possamos reconhecer que se trata de um sonho impossível. Se virmos bem, o debate político era muito mais rico e estimulante quando estavam em confronto modelos ideológicos de sociedade, quase sempre utópicos e impossíveis. E, por isso, as campanhas conseguiam ser muito mais excitantes, aguerridas e, porventura, enriquecedoras e memoráveis, do que as discussões centradas a discutir percentagens do défice ou a esgrimir estatísticas de saúde, sem que se perceba, tantas vezes, a sua associação com a realidade ou o que isso implica na experiência quotidiana de milhões de pessoas.

Com as utopias atiradas para o canto das velharias e, por isso, ausentes do debate, temos assistido a uma campanha eleitoral demasiado centrada em promessas apenas exageradas e tantas vezes irrealistas. Não porque prometam o impossível, mas porque se baseiam numa realidade que, porventura, não existe agora e será até muito diferente, para pior, dentro de alguns meses, dada a conjuntura internacional em que mergulhámos.


De uma forma ou de outra, quase todos os principais organismos têm estado a rever em baixa as previsões de crescimento económico para o que resta do ano. Em todas as análises, leva-se em linha de conta o impacto das tarifas quase universais decretadas pela maior economia do planeta, liderada por Donald Trump, e as ondas de choque que elas estão a causar em todo o mundo. E acumulam-se os avisos sobre a necessidade de fazer previsões mais de acordo com a realidade que se adivinha e menos com a que se deseja.

Em tempo de campanha eleitoral, ninguém parece preocupado com esses avisos. E, como se aparentemente nada tivesse acontecido em Washington, continuamos a ouvir as mesmas promessas, baseadas em projeções que já se percebem ser irrealistas. Os sinais e a realidade aconselhavam prudência – mesmo que essa não seja uma “habilidade” que os diretores de campanha considerem útil para “caçar” votos. A verdade, no entanto, é que o FMI reviu em baixa as previsões de crescimento económico para Portugal (à semelhança do que fez para o resto do mundo) e os dados do Instituto Nacional de Estatística relativos ao primeiro trimestre confirmam o abrandamento da atividade económica no País. Apesar disso, o Governo enviou para Bruxelas uma estimativa de crescimento do PIB de 2,4%, bem superior aos 2,1% que tinha incluído, há poucos meses, na sua proposta de Orçamento do Estado, e que até o Conselho das Finanças Públicas considerou “provável, mas não prudente”.

Vale a pena brincar com o fogo? E prometer aquilo que o agravamento da situação internacional vai impedir de ser cumprido? Há muitas perguntas que precisam de ser feitas numa campanha eleitoral que decorre num momento demasiado volátil e imprevisível para o mundo. Mas quando não se prometem utopias nem grandes sonhos, o mínimo que devemos exigir é o compromisso de se falar verdade e com rigor. Não basta prometer “contas certas”. É preciso que as promessas estejam devidamente quantificadas, tanto no custo como no benefício. No fim, faremos as contas: quantas promessas vão resistir ao choque da realidade?

No horizonte


A utopia está lá no horizonte.
Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
Para que serve a utopia?
Serve para isso:
para que eu não deixe de caminhar.

Eduardo Galeano

Mamã, o que é um massacre?

Abraço os meus filhos, com força. Aperto-os e beijo-os muitas vezes. Fingem que fogem. Riem-se enquanto lhes faço cócegas, pedem-me que os tape com os lençóis e que fique mais um pouco antes de ir dormir. Fico. Não me sai da cabeça a imagem de uma menina palestiniana que vi umas horas antes na internet. Os olhos encovados, os ossos espetando-se nos ombros. “Só queria que tudo voltasse a ser como antes”. Foi tudo o que tive coragem de a ouvir dizer. Ela terá mais ou menos a idade dos meus filhos e suporta horrores que eu nem consigo imaginar. Fome, sede, medo. Mas foi a mim que me falharam as forças para a ouvir falar. E agora cresce-me no peito um aperto, enquanto deito os meus filhos e penso em todas as crianças que em Gaza não têm a mesma sorte.

“A lista de Schindler” estreou quando eu era miúda. Nesse filme também havia uma menina. Estava vestida de vermelho, quando tudo à sua volta era a preto e branco. Schindler vê-a ao longe, cambaleante, com passos hesitantes de criança pequena, atravessando as ruas por onde os soldados nazis vão matando a tiro homens que passam, saqueando casas, atirando objetos pelas janelas. A menina caminha até entrar num prédio. Sobe as escadas, entra numa casa abandonada e esconde-se debaixo de uma cama. Vemos-lhe, então, a cara de frente e acreditamos que vai sobreviver. Mas o casaco vermelho identifica-a numa pilha de cadáveres, umas cenas mais à frente. A fuligem dos corpos judeus incinerados, acumulando-se sobre o seu carro, não era mais do que um incómodo para Schindler, até ele perceber que a menina estava entre os mortos.

Cresci a ouvir dizer que o “Davim” vinha de uma trisavó judia. E não sei se foi por isso, mas passei parte da adolescência a ler e a ver tudo o que era possível sobre o Holocausto. Nessa altura, as atrocidades nazis pareciam uma suspensão da humanidade, impossível de compreender. “Never again”, dizia-se. E os filmes mostravam como os bons combatiam os maus.


Percebi muito mais tarde que a maldade extrema do nazismo sobre os judeus não foi um episódio isolado de extermínio. Na verdade, foi uma prática reiteradamente usada por regimes colonialistas, nomeadamente no séc. XIX em África, enquanto Adolf Hitler era ainda uma criança. É uma prática de aniquilação que só é possível quando deixamos de ver o exterminado como humano. É, por isso, que a menina de casaco vermelho é tão importante para acordar Schindler do torpor moral que o deixava assistir quase sem reação à perseguição dos judeus. Ela força-o a entender que os perseguidos são humanos.

É por isso que, por todo o mundo ocidental, têm sido cada vez mais reprimidas as manifestações contra o genocídio em Gaza. Os que nos querem lembrar a humanidade dos palestinianos são amordaçados, detidos, afastados com canhões de água, acusados de antissemitismo.

Há, porém, nas fileiras dessas manifestações muitos judeus. Alguns deles são mesmo sobreviventes do Holocausto ou descendentes diretos de quem passou por esse horror.

Stephen Kapos é um deles. Tinha apenas sete anos quando a Alemanha nazi invadiu a Hungria em março de 1944. Em abril de 2024 fez um discurso no Hyde Park, em Londres, para falar de como os nazis deportaram 400 mil judeus para Auschwitz e dos seus 15 familiares, incluindo o seu pai, que passaram por campos de concentração. “Nós, judeus, que sobrevivemos a toda esta dor, mortes, humilhação e destruição, estamos contra a utilização da memória do Holocausto pelo Governo de Israel como cobertura e justificação para o genocídio em curso contra o povo palestiniano em Gaza e na Cisjordânia”, disse, então, perante uma multidão que o ouviu em silêncio e o aplaudiu entusiasticamente no fim.

Quase um ano depois, Stephen Kapos foi detido para interrogatório pela Polícia em Londres para ser ouvido por ter participado noutro protesto pela paz em Gaza. Apesar dos seus 87 anos e de andar titubeante apoiado numa bengala, Kapos foi acusado de tentar furar uma barreira policial. Mas será mais difícil acusá-lo a ele ou aos milhares que fazem parte da Jewish Voice for Peace de antissemitismo. E é também por isso que os que agora gritam “never again for anyone” são tão importantes.

“O que é um massacre?”, perguntou a minha filha, da primeira vez que viu um outdoor onde se apela ao “fim do massacre na Palestina”. Vacilei na resposta. Como é que se explica a maldade a quem ainda nunca a viu? Não sei há quanto tempo foi isso. Mas foi há demasiado. Porque, agora, quando passamos pelo cartaz, ela pergunta, ansiosa: “O massacre ainda não acabou?”.

Envergonha-me dizer-lhe que não, mas tenho ainda mais medo que vá acabar em breve da pior forma possível, quando vejo nas notícias que há um plano de ocupação total de Gaza por Israel.

A “solução final” que os aliados travaram na Segunda Guerra Mundial, avança agora perante a indiferença quase generalizada dos que assistem a um conflito que – quaisquer que sejam as razões invocadas de um e de outro lado – está na prática a deixar milhares de civis encurralados, sem acesso a água, nem comida, nem medicamentos ou qualquer tipo de ajuda. Empurrados para uma morte certa, cruel e silenciosa. Enquanto nós fingimos não ver.

Abracadabramarajá

Em política, palavras e símbolos podem assumir dimensões mágicas. Principalmente quando são usadas no calor do clima eleitoral. A história está cheia de sugestivos exemplos.

Não custa recordar as eleições presidenciais de 1945, ocorridas oito anos após a ditadura estadonovista. Na época, os dois candidatos com chances efetivas de vitória eram o general Eurico Gaspar Dutra e o brigadeiro Eduardo Gomes.

O brigadeiro representava o novo. Já ostentava uma aura legendária de heroísmo marcada pelo episódio dos 18 de Copacabana (eram na verdade 12) e de esperança em relação aos novos tempos de liberdade e democracia que se descortinavam no horizonte político. Era apoiado pela UDN, partido que defendia o ideário liberal, congregava grande parte da elite pensante do país e se apropriava das inquietações de um Brasil urbano emergente. Era um candidato com charme e, teoricamente, com mais possibilidades do que Dutra.

Dutra, com seu ar carrancudo e destituído de maiores dotes estéticos, representava o velho regime de qual fora Ministro da Guerra e, depois, ao derrubá-lo, o seu próprio algoz. Curiosamente, tinha como base partidária o PTB de Getúlio, o ditador deposto, desde então recolhido em exílio voluntário na fazenda Itu (Município de Itaqui, RGS), e do PSD que, com o passar do tempo, transformou-se em escola política de pragmatismo e vocação para a conciliação e para o poder.


A opacidade do candidato, junto com o que representava, não estimulava previsões eleitorais otimistas. Pois bem, o brigadeiro, num arroubo retórico diante de entusiasmada plateia do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, cometeu um erro de consequências desastrosas quando disse: “Não necessito, para me eleger, desta malta de desocupados que apoia o ditador Vargas”.

A frase teve um efeito devastador. Em Campinas, habilmente, Hugo Borghi decodificou-a para o povo num grande comício, imputando ao brigadeiro o que, mais tarde, soaria como uma sentença: “O brigadeiro disse que, para se eleger, não precisava dos marmiteiros desempregados”.

“Marmiteiro” teve um competente uso semântico e semiótico contra o candidato da UDN. Passou a ser sinônimo de povo rude, trabalhador, uma espécie de boia-fria e, ao mesmo tempo, constituiu-se no símbolo da campanha de Dutra.

O brigadeiro amargou uma derrota que se repetiria nas eleições de 1950.

No Brasil, ao se falar neste assunto, não se pode passar ao largo das artes demoníacas de Jânio Quadros, sem dúvida, o político que mais eficazmente manipula palavras e símbolos.

Aliás o ex-presidente se comunica como o eleitorado predominante com símbolos. Um símbolo para cada conceito

Para o conceito de autoridade usava a reprimenda dos bilhetinhos, como presidente, ou o estardalhaço das multas de trânsito, como prefeito de São Paulo.

Para o conceito de moralidade, a famosa vassoura. Para o conceito de identificação popular, Jânio dispunha de um arsenal de símbolos, que ia do sanduíche que comia ostensivamente nos comícios, após fartas refeições, passando pelo desalinho dos cabelos polvilhados de caspas produzidas, até a adoção de uma farda presidencial que fez sucesso na década de sessenta: o blujânio.

O prestidigitador Jânio Quadros ainda é personagem da vida política. E que personagem!

Em 89, a história pode se repetir. E como repetição é, inevitavelmente, uma farsa. Está na praça, estourando a boca do balão e os percentuais das pesquisas, um jovem bruxo chamado Fernando Collor, com impecável acabamento da mídia eletrônica.

O ex-governador de Alagoas, embora inconsistente como algodão-doce e empostado como galã de novela das oito, descobriu uma palavra mágica como combustível da campanha: marajá, que também é símbolo do clientelismo, do privilégio odioso, da mutretagem e da esperteza, expedientes que irritam o cidadão comum.

O candidato do PRN descobriu o filão.

E pelo menos, por enquanto é o xodó do eleitor e a tábua de salvação do oportunismo cego dos profissionais do poder.

Sua cintilante imagem de justiceiro dos tempos românticos, montado no alazão televisivo, tem conseguido seduzir uma parcela da população que pode, perigosamente, trocar a aparência pela essência.

É certo que falta muito tempo para o dia do juízo eleitoral. No entanto, corre-se o risco real de o eleitor gritar na urna a palavra mágica: abracadabramarajá! e sair de dentro dela um Presidente da República. Logo depois, quando o eleitor descobrir que o presidente é obra do feitiço, será tarde demais.
Gustavo Krause

*Este artigo foi publicado na edição do Diário de Pernambuco de 25 de maio de 1989. O Primeiro turno foi disputado por 22 candidatos no dia 15 de novembro de 1989. Em abril, as pesquisas revelavam um empate técnico entre Brizola (PDT),13%, Lula (PT), 12% e Collor (PRN) 14%. Collor e Lula passaram para segundo turno com 30,47% e 17,18% dos votos válidos. A primeira eleição presidencial sob as regras da Constituição de 5 de outubro foi vencida por Collor com 53,03% e Lula com 46,97% dos votos válidos, em 17 de dezembro de 89. Na época, exercia o mandato de Vereador pela cidade do Recife. No primeiro turno votei em Aureliano Chaves candidato PFL e, no segundo turno, faço parte da lista dos votos em branco (1.793.224, 2,59% dos votos totais)

domingo, 11 de maio de 2025

Pensamento do Dia

 


Grande mal

A ignorância dos que detêm o poder é perigosa por si só — e a do povo pode piorar as coisas. A ignorância fortalece regimes autoritários e enfraquece a democracia. Sem saber o suficiente sobre os problemas do país ou o que diferencia os partidos políticos, o eleitor pode fazer escolhas imprudentes e se arrepender depois. 

Peter Burke

Gaza está sozinha no mundo

Poucos meses atrás, o poeta palestino Mosab Abu Toha se declarou dilacerado. Preso e libertado pelas forças israelenses na sua Gaza natal em 2023, obteve salvo-conduto para sair do enclave. Bons tempos aqueles em que salvo-condutos ainda eram fornecidos. Do Egito, ele migrou para os Estados Unidos. E foi dessa terra estrangeira que refletiu sobre seu estado d’alma em entrevista ao canal Al-Jazeera. O salto entre o “ontem” e o “agora”, disse, fora brutal. “Imagine estar num abrigo em Gaza com seus pais, irmãos, filhos, sem conseguir proteger nenhum deles. Você é incapaz de prover comida, água, medicamentos, nada. E agora você se vê nos Estados Unidos, justamente o país que financia o genocídio. É desesperador”, resumiu ele.


Nesta semana o poeta de 31 anos recebeu o prestigioso prêmio Pulitzer por ensaios publicados na revista The New Yorker sobre os efeitos físicos e emocionais da carnificina em curso. Em paralelo, também recebeu ameaças de grupos da extrema direita americana que exigem sua depo1]rtação. Acabou cancelando palestras agendadas em diversas universidades do país.

Mesmo que quisesse ser deportado para seu chão, Abu Toha não conseguiria. A Faixa de Gaza está selada por terra, mar e ar. Ninguém entra nem sai desde que o governo israelense de Benjamin Netanyahu, em 22 de março último, rompeu a trégua acordada numa tentativa extrema de obter a capitulação do Hamas.

Difícil não ver ironia nas comemorações, nesta semana, dos 80 anos do final da Segunda Guerra. A vitória das Forças Aliadas e da União Soviética contra o nazismo não parece ter produzido uma humanidade menos cínica. Moscou comemora com razão a quase sobre-humana resistência da antiga Leningrado (hoje São Petersburgo) ao histórico cerco militar de 872 dias. Hitler havia ordenado que não seria dada a opção de rendição à cidade. Ela deveria simplesmente cessar de existir, destruída por bombardeios, fome, doenças, apagamento de vida. Ainda assim, Leningrado resistiu, defendida até a última unha pelo Exército Vermelho e por uma população civil comparável à da Faixa de Gaza hoje (mais de 2 milhões). Estima-se que perto de 1,5 milhão de civis não tenham sobrevivido ao cerco.

Pergunta: para que serve o colossal aparato militar russo exibido na Praça Vermelha se ninguém, ali, é capaz ou está interessado em salvar uma única criança a minguar em Gaza?

Também vem à mente o bloqueio de Berlim Ocidental, já em plena Guerra Fria. Em junho de 1948, os soviéticos interromperam todo e qualquer trânsito de pessoas, mercadorias, fornecimento de eletricidade e água à população sob tutela de França, Grã-Bretanha e Estados Unidos. A medida ordenada por Stálin visava ao isolamento da vida naquele setor, para obter controle total sobre a cidade dividida. Como é sabido, os aliados ocidentais reagiram, montaram uma complexa logística aérea e abasteceram as necessidades dos quase 2,5 milhões de berlinenses ilhados (novamente, população próxima aos 2,3 milhões de palestinos de Gaza). Durante 321 dias, conseguiram despejar mais de 1,5 milhão de toneladas de suprimentos aos sitiados. Foram tão eficientes que Stálin desistiu do bloqueio e foi tratar de ampliar seu império alhures.

Hoje, os Estados Unidos apoiam a erradicação da vida civil em Gaza, enquanto Reino Unido e França desviam o olhar para não parecer cúmplices. Dos “países-irmãos” árabes muçulmanos, já se falou aqui — historicamente, pouco a esperar.

E a ONU? Nada fez no mais longo cerco da História da guerra moderna — o de Sarajevo, capital da Bósnia e Herzegovina, que durou quase quatro anos da década de 1990. Vivia-se então a desintegração da antiga Iugoslávia, e a Sérvia pretendia criar uma continuidade territorial na Bósnia, por meio da limpeza étnica dos muçulmanos. Ao longo do cerco, 64% da população da cidade não sobreviveu às privações. Sem falar no massacre de Srebrenica, enclave muçulmano em território sérvio declarado “zona de segurança” pela ONU, também no âmbito da desintegração iugoslava. Ali, o horror foi fulminante — durou apenas 11 dias em julho de 1995. O bastante para se tornar o maior massacre cometido na Europa desde a Segunda Guerra.

É claro que cada matança, bloqueio ou cerco histórico reflete as dinâmicas militar, política e humanitária de seu tempo. Não é diferente em Gaza. Mas nem por isso deixa de ser horrendo que continuemos a assistir calmamente a mais um estrangulamento de povo. Gaza está sozinha no mundo. Solidariedade não basta para mudar a história.

Ansiolítico para a politização da vida

A democracia deveria ser chata. O tédio indica que as coisas funcionam bem, políticos e partidos circulam pelas posições de poder quase aleatoriamente e sem solavancos, juízes de que não se sabe o nome fazem o seu trabalho com tranquilidade, e os demais serviços públicos acontecem como o dia sucede a noite. As pessoas tocam a vida sem se ocupar muito do que ocorre nos palácios e nas assembleias.

Há mais de dez anos esse padrão se alterou num punhado de países democráticos. Simulacros de batalhas de vida ou morte impregnaram o cotidiano. Tornou-se hábito denunciar as agendas ideológicas de cientistas, artistas, professores, magistrados, empresários, sacerdotes, esportistas, diplomatas, jornalistas e inseri-las no grande jogo da política. Ganhar eleição virou credencial para bagunçar o coreto institucional e sabotar contratos sociais profundos e longevos.

Como a autoajuda ainda não saiu de moda, arrisco algumas sugestões para atravessar esse período tempestuoso minimizando, quem sabe, as avarias no casco mental.


Brasília é Brasil. Não caia no conto do vigário de que a política se transformou num clube fechado de privilegiados imorais dedicados a esfolar os bons cidadãos na planície. Se você for eleito presidente e seus amigos virarem deputados, senadores e ministros do Supremo, a situação não melhora.

O radical é o conservador de amanhã. A história universal dos agitadores mostra que o espírito da abertura à novidade é espancado tão logo o demagogo molda o governo à sua feição e se cerca de bajuladores. Na oposição a gente faz bravata, disse um sábio político brasileiro. Acredite nele.

Político não é salvador nem exterminador da pátria. A paixonite por um candidato deveria ser encarada e tratada como síndrome aditiva. O ódio mortal também. Em regimes democráticos o pior canalha acerta aqui e ali, e o melhor estadista de vez em quando apronta uma cabeluda. Venere e execre entidades sobrenaturais, não seres humanos.

Política nacional nem sempre salva a lavoura. É mais importante preocupar-se com a instrução que as crianças recebem num raio de 5 km de você do que esgoelar-se pela anistia em Brasília. Governos e burocracias locais fazem diferença em temas cruciais.

Politizar e moralizar tudo é artimanha de preguiçosos e néscios. A despeito das opiniões políticas de García Márquez, Vargas Llosa, Nana Caymmi e Aldir Blanc, um universo estético e artístico com códigos próprios envolve as suas obras. Navegar por ele e nele desenvolver afinidades e críticas faz bem à alma, propicia elevação e gozo. O crápula pode ser sublime, e a vestal, cantar como uma gralha. O que uma celebridade afirmou sobre eleições e candidatos não tem valor especial. Ignore.

Há menos conspirações do que imagina nossa vã ideologia. Maquinações de vilões para destruir o planeta só abundam nos filmes da Marvel. Empresas farmacêuticas não planejam controlar nossos corpos ou evitar que a natureza sozinha nos cure e nos fortaleça. Falta de vacina e de antibiótico pode matar mesmo, e a melhor opção não estará nos florais de Bach, no leite cru, na cloroquina nem na homeopatia.

Valorize o saber, não os sabichões. Procure ser menos conclusivo e mais especulativo ao abordar um campo de conhecimento que mal arranha. Amplie suas informações, aprenda sobretudo a fazer as boas perguntas e a tomar distância de quem posa de profeta para anunciar novidades radicais.

Política é teatro cívico. Os papéis se invertem, inimigos viscerais se tornam aliados, as derrotas e as vitórias nunca são totais nem irreversíveis. Faça como um político, não odeie a ponto de não negociar; não ame a ponto de não contrariar.

Converse com quem você acha que detesta. Teclar é fácil, quero ver dizer barbaridades de uma pessoa na frente dela, num papo individual. Provavelmente vocês descobrirão que estão mal informados sobre as convicções de cada um, que há preocupações e defeitos comuns e que não vale a pena gastar tanta energia com política. Ouça, repense, proponha.

Bolsonaro cria aliança entre golpistas e ladrões para atacar STF no conclave do capeta

Enquanto os católicos esperavam que o Espírito Santo se manifestasse em Roma, no Congresso Brasileiro Jair e a ladroagem do Congresso desenhavam seus pentagramas para fugir da cadeia e trazer o golpe de volta do inferno.

Foi o conclave do capeta.

Na última quarta-feira, a Câmara dos Deputados aprovou uma sacanagem para interromper a ação penal contra o deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), acusado (e obviamente culpado) no inquérito do golpe. O plano era aproveitar para interromper o julgamento dos outros réus no mesmo inquérito, como Bolsonaro e Braga Netto.


A manobra Ramagem serviu para provar que nada naquele papo de anistia era sobre a Débora do Batom, sobre o pipoqueiro, sobre o sorveteiro. Assim que começou a conversa de anistiar só as Déboras da vida, os líderes do golpe bolaram a manobra Ramagem. Ela salva os líderes do golpe, mas não faz nada por Débora, pelo pipoqueiro ou pelo sorveteiro.

Dois dias depois, o STF decidiu o óbvio: a suspensão só vale para os crimes que Ramagem cometeu depois de se tornar deputado. E só vale para Ramagem.

O inquérito do golpe não vai parar, mas o escândalo é o seguinte: a manobra Ramagem foi aprovada pela totalidade da direita brasileira e pela ampla maioria dos deputados. Essa gente toda topou continuar tensionando as instituições democráticas em nome dos piores interesses.

Além das organizações extremistas "Partido Liberal" (91%) e "Partido Novo" (100%), 89% dos deputados do PP, 83% dos deputados do União Brasil, 90% do Republicanos, 72% do MDB e 57% do PSD votaram a favor da manobra Ramagem.

O conclave do capeta consagrou uma aliança poderosíssima: a federação entre os direitistas que temem o STF porque tentaram golpe de Estado, os direitistas que temem o STF porque roubaram dinheiro público e a facção majoritária dos direitistas que temem o STF porque tentaram golpe de Estado e porque roubaram dinheiro público.

Por que os ladrõezinhos de sempre do Congresso Brasileiro se aliaram aos bolsonaristas contra o STF ?

Não tenho dúvida de que todos eles teriam apoiado um golpe bem-sucedido. Essa é a natureza deles, essa é sua origem histórica.

Mas por que brigar com o STF para puxar o saco de um golpe que fracassou?

É verdade: o Centrão, no fundo, são as ruínas da Arena, partido criado pela ditadura militar. Sim, Bolsonaro e Aras mataram a Lava Jato e desmontaram o combate à corrupção no Brasil. É claro, ninguém no Congresso esqueceu que foi durante o governo Bolsonaro que foi criado o orçamento secreto.

Mas, até aí, gratidão não é o ponto forte dessa turma. Na verdade, há uma comunhão de interesses entre ladrões e golpistas.

No STF há vários processos contra deputados que roubaram dinheiro público, especialmente no orçamento secreto. Para os ladrões do Congresso, a turma do Jair é um instrumento conveniente para pressionar o STF a parar outros inquéritos além do inquérito do golpe.

E assim o golpismo bolsonarista vai sobrevivendo, graças a essas transfusões de sangue do centrão.

Era o que faltava para a direita voltar a ser a Arena: juntar golpe e ladroagem. Ainda falta um nome para a aliança, mas isso deve ser resolvido ano que vem: lá pelo mês de junho devem passar a se chamar "Movimento Tarcísio Presidente".

Quando o diabo faz política

"Para obter o seu objetivo, o diabo é capaz até de citar as Escrituras" (Shakespeare em "O Mercador de Veneza"). Um filme a que se pode assistir como paráfrase desse pensamento é "O Diabo de Cada Dia" (2020), de Antonio Campos, sobre uma corrente do mal perpetuada em pequena cidade de Ohio (EUA). Vê-se como a religião molda trajetórias de vida, desenhando personagens com linhas distorcidas, desvirtuando o que se entende por fé. A ignorância total da realidade é aprofundada pela interpretação enviesada da Bíblia a cargo de um duvidoso pastor.


Um vilarejo desses é uma espécie de quintal de grande metrópole, assim como os sul-americanos foram chamados de "quintal" da América pelo neofascismo instalado em Washington. O que transcorre no filme é modelo da obtusidade dos protocolos populares da fé entre nós. Uma infra-teologia, raspas do atraso americano, molda o espaço de onde parte a crença para abraçar o destino humano em suas relações com o invisível. Mas o espanto diante dos comportamentos bizarros exibidos a olhos públicos decorre de quem tenta buscar um mínimo de racionalidade para o que acontece, quando as causas se localizam no mundo equívoco criado pela imaginação mítica do rebanho.

Pouco tempo atrás, pareciam ligadas a um clima alucinatório orações coletivas a pneus de caminhão, indivíduos em marcha como autômatos descontrolados, multidões com celulares acima das cabeças em aparente apelo por uma intervenção dos céus. Amenizado o clima, porém, o fenômeno se reedita nas redes e em frente ao hospital do internamento de Bolsonaro. Numa postagem, dizia um fiel que, abaixo de Deus na Terra, só o numinoso capitão.

Esses eventos fanáticos resultam da exasperação de uma das subculturas oligofrênicas, plenas de analfabetos funcionais (68 milhões de brasileiros acima de 18 anos, segundo o recente indicador de várias fundações, institutos, Unesco e Unicef), que coabitam com o sistema público de costumes e crenças. É síndrome de doença epidêmica da alma coletiva. O movimento antivacina, fortalecido durante a pandemia da Covid, faz parte de uma latência dessa natureza não só entre nós, como em outros países. Em 1966, numa epidemia de poliomielite, um pastor holandês proibiu os paroquianos de vacinar seus filhos, sob o pretexto de uma "punição de Deus". Numa antiga concepção judaico-cristã, qualquer calamidade seria interpretada como castigo de Deus a pecadores. Para espíritos mais obscuros, "coisa do diabo".

Daí ao salto no mundo da política é apenas circunstância, quando profecias bíblicas se tornam políticas de Estado. Diabo, outro nome para terror existencial, é matéria de neofascismo com Trump. Ao modo de Lúcifer, ele forjou uma foto em trajes papais e tem oficiado ritos cristãos. Eventos desrespeitosos, principalmente agora com um novo papa. A amplitude dessa efervescência fake não tem escala geográfica. Tanto faz país, metrópole, vilarejo, as quatro paredes de um templo suburbano ou uma "church" (o inglês marca a diferença de uma instalação de ricos), pastos para o pior do ser humano. Com ou sem inferno: não à toa, já se disse que "o diabo é um otimista se acredita que pode piorar as pessoas" (Karl Kraus).

sábado, 10 de maio de 2025

Pensamento do Dia

 


Planeta armado, estômagos vazios: 1,5% dos gastos militares bastaria para erradicar fome

Em seu primeiro pronunciamento, o papa Leão XIV disse: “Nos ajudem a construir pontes vocês também, com diálogos, com encontro, para sermos um único povo, sempre em paz”. Palavras sábias e oportunas. O Institute for Economics & Peace (IEP) publicou o Global Peace Index (GPI) 2025 e mostra que houve uma redução generalizada dos níveis de paz global.

O GPI é uma medida que avalia o nível de paz em 163 países e territórios, considerando fatores como conflitos internos e externos, segurança social e militarização. Em 2024, o GPI destacou que a diferença entre os países mais e menos pacíficos atingiu seu maior nível em 16 anos – os 25 países tiveram queda de 7,5% no índice no período.


Essa situação traz impactos econômicos efetivos. O custo econômico global da violência chegou a cerca de US$ 19,1 trilhões em 2024, equivalente a aproximadamente 13,5% do PIB mundial. Em termos per capita, trata-se de uma perda de US$ 2.380 por habitante – alta impulsionada pelo crescimento de 20% nas perdas do PIB devido a conflitos.

Além desse custo direto, as guerras trazem outros impactos econômicos devastadores, como os deslocamentos de populações, destruição de infraestrutura e desestabilização de mercados, fatores que afetam a produção e distribuição de alimentos. Como consequência, cresce a vulnerabilidade alimentar. Numa comparação objetiva, somente os gastos militares globais em 2024 somaram US$ 2,71 trilhões, enquanto que, segundo estimativas do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (WFP), seriam necessários cerca de US$ 40 bilhões por ano para acabar com a fome no mundo até 2030. Ou seja, apenas 1,5% dos gastos militares globais anuais seriam suficientes para erradicar a fome mundial.

A disparidade entre os recursos destinados à guerra e os necessários para acabar com a fome evidencia uma escolha de prioridades. Redirecionar uma fração dos gastos militares para programas de segurança alimentar poderia salvar milhões de vidas e promover a estabilidade global. Mas, por que a humanidade não aprende com a História e evita esse nível de violência e extermina a fome?

Acho que todos sabemos as respostas a essa questão. O fato é que, com toda a evolução da humanidade, ainda lidamos com questões profundas que vão ao coração das contradições humanas. E continuamos repetindo nossos erros. Interesses econômicos e políticos, corrupção e outras falhas não podem prevalecer. Mas, ainda temos que lidar com a nossa própria natureza e que Mahatma Gandhi traduziu muito bem ao dizer: “Há o suficiente no mundo para a necessidade de todos, mas não para a ganância de todos”.

Atribuímos ao Estado e aos governos a missão de servir e proteger

Ninguém fala ou ouve as pessoas, os cidadãos e as famílias. E porque o fariam? Independentemente do que cada um vai fazer durante os próximos quatro anos, os membros dos governos e da Assembleia da República são inimputáveis, a não ser em casos de polícia

Todos nós precisamos de ajuda e protecção.


Uma das responsabilidades mais importantes atribuída, pelos cidadãos, ao Estado e aos governos é proteger. Proteger as pessoas, as famílias e o seu meio ambiente. Proteger deveria implicar que o Estado e os governos se informassem, consultassem, negociassem consensos, legislassem com seriedade, competência e celeridade, regulamentassem, implementassem, controlassem, inspecionassem efetivamente, avaliassem e decidissem proteger melhor.

Consultar e negociar consensos, por exemplo, devia levar a criar mecanismos para ouvir e falar com todas as pessoas, com todas as famílias, com os cidadãos, particularmente com aqueles que não estão organizados, nem têm lóbis, como é o caso da grande maioria das pessoas: as crianças e os jovens, as mulheres, os homens, os séniores, os doentes, os presidiários, etc.

Os cidadãos, as crianças, os jovens e as mulheres, os trabalhadores e os empreendedores não sentem que vivem numa sociedade onde o Estado e os governos os protegem.

As pessoas vivem com receio e angustiadas.

Uma outra obrigação atribuída, pelos cidadãos, ao Estado e aos governos é servir. Servir as pessoas, individualmente, os cidadãos, as famílias e os diferentes grupos que constituem a sociedade. No entanto os governos não ouvem nem veem. O Estado e os seus serviços públicos estão muito longe, estão separados da sociedade. O descontentamento com a não resposta dos governos e do Estado é estrutural.

Não só o Estado e os governos falham no cumprimento das suas atribuições mais básicas, como os cidadãos, as pessoas e a sociedade não dispõem de mecanismos eficazes para intervir junto do Estado e dos governos. O sistema só funciona de cima para baixo – o estado e os governos afastaram os cidadãos e estes retraem-se.

A qualidade da democracia depende (da qualidade) da participação dos cidadãos na gestão e na vida do país.

Em período eleitoral o isolamento e a não resposta do Estado e dos governos, assim como a desilusão e o cansaço dos cidadãos, parecem mais evidentes. Os candidatos, nomeados pelas suas organizações, fazem declarações, discutem e debatem entre si tentando cada um demonstrar ser o mais hábil, o mais inteligente, o mais perspicaz, o mais incisivo, o mais convincente, sorridente e simpático. Ao mesmo tempo cada um tenta denegrir, rebaixar e humilhar todos os outros. Nada disto é particularmente interessante e deprime-nos.

A democracia morre quando o cidadão não faz nada por ela, nem com ela.

Ninguém fala ou ouve as pessoas, os cidadãos e as famílias. E porque o fariam? Independentemente do que cada um vai fazer durante os próximos quatro anos, os membros dos governos e da Assembleia da República são inimputáveis, a não ser em casos de polícia.

A democracia morre, quando o cidadão a deixa morrer e se entrega à ditadura.

A inação, a frustração, a angústia e a raiva contidas fragilizam o nosso sistema imunitário e, a prazo, deterioram, irremediavelmente, a nossa saúde.

No entanto, em democracia tudo é possível. Os cidadãos podem dar mais qualidade à democracia. As pessoas, as famílias, todos os cidadãos podem, por exemplo, decidir ser mais abertos e intervenientes nos seus locais de trabalho, onde vivem e onde estudam. Nada os impede de tomarem a iniciativa e criarem uma sociedade mais humanista, onde todas as pessoas se sintam bem, onde os pais tenham tempo e as condições de vida que lhes permitam estar e brincar com as suas crianças, acompanhar os adolescentes. Precisamos de falar uns com os outros e de assumir as nossas responsabilidades como seres humanos e como cidadãos. Votar, uma vez de quatro em quatro anos, não chega.

Se é ruim para o setor privado, é excelente para a educação brasileira

Nas últimas semanas, temos acompanhado uma verdadeira campanha tanto na mídia tradicional quanto na imprensa alternativa, incluindo alguns veículos progressistas, contra uma proposta recente do Ministério da Educação, que sequer foi formalmente apresentada, para regulamentar minimamente a modalidade de educação superior a distância no Brasil.

A proposta do Ministério da Educação para regulamentar a educação a distância representa um avanço necessário e urgente para garantir a qualidade do ensino superior ofertado, principalmente pelas instituições privadas de ensino, que hoje concentram 95,9% das matrículas nessa modalidade. Ao propor medidas como a limitação do número de alunos por turma nas aulas síncronas (aulas que ocorrem em tempo real, mas com professores e estudantes em locais diferentes), a obrigatoriedade das avaliações presenciais e a implementação de atividades presenciais e semipresenciais, o governo federal sinaliza que não é mais admissível tratar a educação a distância como um atalho para diplomas baratos e formação deficiente — que vendem, parcelado, a ilusão, principalmente para a classe trabalhadora, de empregos mais qualificados e com maiores salários, o que dificilmente acontecerá com a conclusão desses cursos.

Para entender a forte reação do setor privado contra qualquer tipo de regulação do ensino a distância, é preciso estar atento a alguns números desse setor.

Segundo levantamentos realizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia vinculada ao Ministério da Educação, e disponibilizados no Censo da Educação Superior de 2023, neste ano ingressaram no ensino superior no Brasil 4.993.992 estudantes. Desses, 4.424.903 — ou 88,6% — matricularam-se na rede privada, e 569.089 — ou 11,4% — ingressaram em instituições públicas de ensino. 

Das 4.424.903 novas matrículas na rede privada, 3.226.891 — ou 73% — foram na modalidade de educação a distância, enquanto 1.198.012 — ou 27% — foram em cursos presenciais. Já ao analisarmos os dados referentes às novas matrículas nas instituições públicas de ensino superior, observamos um cenário diametralmente oposto ao da rede privada: 481.578 — ou 85% — dos novos estudantes optaram por cursos presenciais, enquanto 87.511 — ou 15% — matricularam-se em cursos a distância.

Considerando o total das 4.993.992 novas matrículas no ensino superior em 2023, 3.314.402 — ou 66,4% — foram realizadas na educação a distância, e 1.679.590 — ou 33,6% — em cursos presenciais.


Um dado em particular, publicado pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), chama a atenção e ajuda a entender a motivação por trás da tentativa de impedir o Ministério da Educação de regular os cursos superiores a distância: a receita de R$ 41,98 bilhões obtida pelas instituições privadas em 2023. No entanto, em vez de celebrarem os lucros obtidos com a exploração da educação privada no país, os mantenedores das instituições de ensino superior chamaram atenção para a queda de 36,6% nas matrículas, o que, segundo eles, estaria “apertando as margens de lucratividade”.

Esses números nos permitem entender por que é praticamente impossível andar por uma cidade brasileira sem nos depararmos com propagandas de cursos de ensino superior a distância ou com um dos cerca de 50 mil polos instalados nos mais inusitados espaços, como lojas comerciais de tamanho diminuto, lojas de conveniência em postos de combustíveis, garagens ou até dividindo espaço com outras atividades comerciais, como, por exemplo, escritórios de contabilidade, advocacia, estúdios de pilates ou lojas de roupas.

Também é possível compreender a mobilização por meio de artigos, colunas, manifestos e discursos em “defesa do acesso ao ensino superior”, quando a real preocupação das grandes corporações educacionais é a ameaça à rentabilidade de um modelo de negócio baseado na precarização do trabalho docente e na oferta de educação de baixíssima qualidade.

A verdade é que a explosão da educação a distância no Brasil, a partir da flexibilização das regras de regulação em 2017, permitiu a multiplicação de cursos online ofertados principalmente por instituições privadas de ensino superior, com pouquíssima exigência pedagógica, mínima interação docente e uso excessivo de conteúdos prontos e automatizados.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), os cursos presenciais obtêm, em média, os melhores resultados nas avaliações do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). De acordo com os resultados mais recentes, referentes ao ano de 2022; 28,5% dos cursos presenciais alcançaram os conceitos mais altos (22,4% obtiveram conceito 4 e 6,1% conceito 5). Já entre os cursos ofertados na modalidade a distância, apenas 16,6% atingiram esses mesmos níveis de excelência (14,2% com conceito 4 e 2,4% com conceito 5).

Esses dados demonstram que, apesar do discurso de democratização do acesso, a educação a distância praticada majoritariamente por instituições privadas de ensino superior tem, na média, oferecido uma formação de qualidade significativamente inferior àquela oferecida pelos cursos presenciais.

A regulação que ainda está em fase de gestação pelo Ministério da Educação já enfrenta justamente esse quadro. E a reação dos empresários do setor e dos seus sócios espalhados em diferentes áreas, que afirmam que as novas normas “quebram os pilares da educação a distância”, como capilaridade e preço acessível, revela a confusão proposital entre inclusão educacional e precarização, tanto do trabalho docente, como do ensino ofertado. O que está em jogo não é a defesa de educação acessível, mas sim a manutenção de um modelo de negócios baseado em turmas enormes, professores mal remunerados, tutores subcontratados, pouca ou nenhuma aula ao vivo e provas feitas remotamente, sem fiscalização adequada.

Eterna repetição


Não há nada novo sob o Sol, e a eterna repetição das coisas é a eterna repetição dos males

Eça de Queiroz

Atenção! Atentado ao pudor

Vi-a a primeira vez no meio de outras fotografias do José Sena Goulão. As costas nuas com a pele escrita a negro e em maiúsculas. “Atenção, atentado ao pudor”. Nota-se-lhe o balanço da caminhada no corpo, nas nádegas expostas, enquanto desce a Avenida da Liberdade, com cravo numa mão e um saco preto de pano ao ombro. Parei na imagem, por um instante. Mas só depois a vi replicada, em muitas publicações nas redes sociais, quase todas indignadas. É uma mulher jovem, de seios nus, pintados com cravos e pelos púbicos a aparecer por entre a lingerie de rendas vermelhas e racha entre as pernas. Matéria suficientemente inflamável para a fazer arder na fogueira dos que gostam de fazer trocadilhos entre liberdade e libertinagem.

Digo que parei na imagem. E sinto que tenho de o justificar. Não foi pelo escândalo. Fui parada pela ideia de que é extraordinário como aquela mulher conseguiu descer uma avenida, no meio de uma multidão, sentindo-se segura quando estava tão exposta.

Só essa minha reação já mostra o quanto crescemos condicionadas pela ideia de que nos expormos equivale a convidar os outros a invadir-nos. “Vais mesmo sair assim vestida? Se vais voltar sozinha para casa, talvez não devas levar uma saia tão curta. Se levares esse decote, alguém se pode meter contigo. Vão ficar com a ideia errada. Pareces uma oferecida”. Somos programadas para pensar que mostrar-nos equivale a oferecer-nos. Se estamos no espaço público, somos públicas.

Mas não sou eu quem se irrita com os turistas que se passeiam pelo Chiado em fato de banho? Sim. Então, por que raio defendo agora a rapariga que descia a avenida de fio dental e cravos? Porque o que ela estava a fazer era usar o seu corpo politicamente. Ela estava lá para nos mostrar o efeito que tem um corpo feminino no espaço público quando é exibido por decisão própria e afirmação de liberdade e não para satisfazer uma objetificação comercial. Porque ninguém se choca com as imagens de mulheres despidas que na mesma avenida vendem perfumes e cremes. Porque quem está aflito com a libertinagem da miúda não se insurge contra as mui desnudas bailarinas que ladeiam qualquer cantor pimba nos programas da manhã.

Que poder é este que temos que tanto medo mete? Porque só pode nascer do medo a perseguição, a repressão, a tentativa de domínio e humilhação. Somos treinadas para baixar os olhos, tapar o corpo, falar baixo e pouco. E, se não o fazemos, somos bruxas, loucas, taradas, convencidas, mal comidas, à procura de atenção.

Não sei como se chama a mulher que desceu a avenida que ainda tem o nome da liberdade. Sei que a imagem dela tem a força de um grito. E que este é o momento para gritar.

Milhões de raparigas da idade dela engrossam nas redes sociais a trend das tradewifes, exaltando a ideia de que as mulheres devem ficar em casa, a cozinhar e a tratar da imagem, sustentadas por homens, porque – como repetem nos podcasts da moda – “o trabalho não combina com a energia feminina”. Os feeds estão cheios de mulheres muito produzidas a fazer bolachas e granola. Há posts sobre as zonas turísticas mais frequentadas por sugar dadys, assinalando onde podem ser caçados estes machos mais velhos e endinheirados. No Telegram, homens partilham imagens que as namoradas lhes enviaram ou fotografias tiradas à socapa debaixo das saias de quem nem se apercebeu que estava a ser fotografada. Os vídeos de violações circulam pelo WhatsApp. E na machoesfera os incels trocam fantasias sobre massacres feitos para castigar as raparigas que lhes negam o sexo a que acham que têm direito ou discutem como a legalização da violação poderia fazer baixar este crime para elas “deixarem de se pôr a jeito” e de os provocarem com esse único poder que têm e que está entre as pernas.

E o grande drama, a demonstração clara de que há liberdade a mais e juízo a menos, é uma mulher de cuecas de renda que desce uma avenida, numa manifestação pacífica, feita para celebrar o dia em que se começou a quebrar um pudor imposto por uma noite que amordaçava o desejo e a afirmação de todos os que se desviavam da norma.

Do que precisamos não é de pudor, é de vergonha na cara. Quem explora e quem oprime, quem rouba e quem corrompe, quem exibe públicas virtudes para esconder crimes privados, quem humilha e quem viola, quem persegue e quem amedronta. São esses aqueles que precisam de se envergonhar.
Margarida Davim

Seu celular está sempre tocando (ou assim você espera)

Uma mensagem brilha na tela em busca de outra. Seus dedos estão sempre ocupados: você pressiona as teclas, digitando novos números para responder às chamadas ou compondo suas próprias mensagens. Você permanece conectado – mesmo estando em constante movimento, e ainda que os remetentes ou destinatários invisíveis das mensagens recebidas e enviadas também estejam em movimento, cada qual seguindo suas próprias trajetórias. Os celulares são para pessoas em movimento. 

Estando com o seu celular, você nunca está fora ou longe. Encontra-se sempre dentro – mas jamais trancado em um lugar. Encasulado numa teia de chamadas e mensagens, você está invulnerável. As pessoas ao seu redor não podem rejeitá-lo e, mesmo que tentassem, nada do que realmente importa iria mudar. 


Uma chamada não foi respondida? Uma mensagem não foi retornada? Também não há motivo para preocupação. Existem muitos outros números de telefones na lista, e aparentemente não há limite para o volume de mensagens que você pode, com a ajuda de algumas teclas diminutas, comprimir naquele pequeno objeto que se encaixa tão bem em sua mão. Pense nisto (quer dizer, se houver tempo para pensar): é absolutamente improvável chegar ao fim de seu catálogo portátil ou digitar todas as mensagens possíveis. Há sempre mais conexões para serem usadas – e assim não tem tanta importância quantas delas se tenham mostrado frágeis e passíveis de ruptura. O ritmo e a velocidade do uso e do desgaste tampouco importam. Cada conexão pode ter vida curta, mas seu excesso é indestrutível. Em meio à eternidade dessa rede imperecível, você pode se sentir seguro diante da fragilidade irreparável de cada conexão singular e transitória.

Dentro da rede, você pode sempre correr em busca de abrigo quando a multidão à sua volta ficar delirante demais para o seu gosto. Graças ao que se torna possível desde que seu celular esteja escondido em segurança no seu bolso, você se destaca na multidão – e destacar-se é a ficha de inscrição para sócio, o termo de admissão nessa multidão.

Uma multidão de pessoas destacadas: um enxame, para ser mais preciso. Um agregado de indivíduos autopropulsores que não precisam de comandantes, testas de ferro, porta-vozes, agentes provocadores ou informantes para se manterem juntos. Um agregado em movimento no qual cada unidade móvel faz a mesma coisa, mas nada é feito em conjunto. As unidades marcham no mesmo passo sem sair do alinhamento. Coerente consigo mesma, a multidão expulsa ou atropela as unidades que se destacam – mas são apenas essas as unidades toleradas pelo enxame.

Os telefones celulares não criam o enxame, embora sem dúvida ajudem a mantê-lo como é – um enxame. Este, por sua vez, estava esperando por Nokias e Ericssons e Motorolas ávidos por servi-lo. Se não houvesse enxame, qual seria a utilidade dos celulares?

Aos que se mantêm à parte, os celulares permitem permanecer em contato. Aos que permanecem em contato, os celulares permitem manter-se à parte…
Zygmunt Bauman, "Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos"

Estelionato como esporte nacional

O escândalo envolvendo descontos no salário de 4 milhões de aposentados revelou apenas uma ponta do iceberg no Brasil. Por meio dele, ficamos sabendo que os idosos no Brasil não são apenas roubados por entidades fantasmas que os relacionam em suas listas, sem consentimento.

Outra modalidade de golpe se dá por meio do crédito consignado. Sem que fosse consultada, uma mulher do Rio Grande do Sul teve descontos em sua aposentadoria referentes a 45 empréstimos, um rombo de R$ 170 mil.

O valor dos golpes dados pelas entidades fantasmas ronda os R$ 6 bilhões. O crédito consignado em 2023 movimentou R$ 90 bilhões.

Para comprovar a tese de que os idosos, principalmente os que vivem no interior e não manejam bem as ferramentas digitais, são vítimas fáceis, surgiu um novo golpe: alistá-los para receber, hipoteticamente, o dinheiro roubado pelas entidades fantasmas.

O que se passa entre os aposentados é apenas uma exacerbação do clima nacional.

Diariamente, recebemos chamadas de supostas centrais do banco, com a voz de suas atendentes virtuais, comunicando uma compra e pedindo que confirmemos ou não a autenticidade. São-nos dadas duas opções: um para sim, dois para não. Como a compra não existe, a tendência é apertar o dois para não e ter seus dados capturados pela quadrilha.

Há casos em que, além da atendente virtual, aparecem vozes de falsos funcionários dos bancos alertando para trocar o dinheiro da conta para um lugar mais seguro e esse novo lugar é apenas um abismo de onde o dinheiro nunca mais voltará.

Os golpes desse gênero cruzam os ares com grande intensidade. Há muitas quadrilhas trabalhando nesse campo. Mas eles não significam tudo.

A indústria hoteleira revelou que os golpes de falsas hospedagens chegaram a produzir um prejuízo às suas vítimas da ordem de R$ 25 bilhões somente em São Paulo.

Não devem estar computados aí os prejuízos causados pelas agências de viagem que vendem passagens baratas, mas não entregam. Elas estão fechando, uma atrás da outra.

Na internet, há um ranking dos principais golpes, uma variação extraordinária que vai da falsa central de atendimento ao falso motoboy.

Isso sem contar as inúmeras empresas na internet que se dispõem a vender, mas não entregam nunca. Eu mesmo já comprei um tênis para presentear minha filha, mas ele jamais chegou.

Não é preciso muito argumento para convencer que estamos cercados pelos estelionatários. Há quem considere que a lei deveria ser mais pesada contra eles, pois raramente vão para a cadeia.

Minha indagação é diferente: existe algo cultural que torna o estelionato mais comum no Brasil do que em outros países?

Não vou culpar de novo os degradados que vieram nos colonizar nas caravanas portuguesas.

Minha pergunta é sobre a atmosfera brasileira agora, na qual as próprias instituições são vistas como entidades que tiram vantagens de suas prerrogativas e pouco devolvem. O Executivo é visto como gastador, sobretudo em viagens internacionais com numerosas comitivas; o Judiciário vive uma situação excepcional em que os salários acima do teto são apenas uma parte do problema; e o Legislativo mobiliza R$ 50 bilhões em emendas parlamentares, algumas delas ainda secretas.

Será que isso não influencia o comportamento com a mensagem de que é importante garantir o melhor para si próprio, independentemente das necessidades coletivas?

É claro que o comportamento das elites não atenua o de milhares de estelionatários no País. Mas pode contribuir indiretamente.

O Brasil, como outros países, sempre viveu o problema desse tipo de golpe. Na era analógica, era muito comum uma modalidade chamada conto do vigário, que aparecia com frequência nas páginas policiais.

Mas os golpes do passado quase sempre jogavam com a ilusão da vítima de obter dinheiro fácil. Ela entregava pouco na expectativa de ganhar muito.

As vítimas de hoje, sobretudo os aposentados, são indefesas.

Grande parte dos golpes contra aposentados se volta para o interior de Estados como Piauí e Maranhão, com baixo índice de alfabetização digital.

Estamos preparados para esta guerrilha de golpes? No INSS, ela aconteceu ao longo dos anos, sem que fosse debelada – ao contrário, ela cresceu recentemente.

O índice de solução dos golpes aplicados, de um modo geral, ainda é baixo. Eles se multiplicam porque representam também uma boa parte de atividade no interior das cadeias, onde nunca foi possível, efetivamente, controlar a entrada de celulares.

Os bancos, por sua vez, quase nunca restituem o dinheiro perdido, embora muitas vezes os golpes sejam precedidos do uso de vozes idênticas às que fazem comunicados oficiais. Tudo o que puderam oferecer foram campanhas orientando seus clientes a não cair em golpes.

Diante disso, talvez fosse necessária uma grande força-tarefa nacional destinada a reduzir drasticamente esta praga. Ela precisa ser eficiente, bem equipada e também tomar cuidado para que não falsifiquem suas coordenadas e se torne também o tema de um novo golpe.
Fernando Gabeira