quarta-feira, 8 de novembro de 2023

De Gaza, cidade onde nasci, a notícia impensável

A casa da minha família deveria estar numa zona segura no Sul de Gaza. Mas na semana passada as bombas chegaram mesmo assim, sem aviso prévio. Caíram por volta das 10 horas da manhã de quinta-feira, em quatro ou cinco grandes explosões. Um bairro residencial inteiro do campo de refugiados de Khan Yunis, onde nasci e cresci, foi reduzido a escombros. Todos ali vivenciaram isso como um terremoto; um terremoto causado pelo homem. Todo o acampamento estava tremendo.

Contei 49 mortos – entre eles estão 36 membros da minha família. Mais uma dúzia ou mais ainda estão desaparecidos sob os escombros de oito casas, segundo me disseram, e mais de 100 estão feridos.

Agora moro no Canadá, mas a casa da minha família ainda fica no mesmo campo de Khan Yunis, a poucos metros de onde as bombas caíram, e é onde grande parte da minha família ainda vive. Esta casa é tudo o que restou dos nossos falecidos pais e avós depois de terem sido expulsos da aldeia de Beit Daras para a Faixa de Gaza em 1948 – a expulsão em massa dos palestinianos. Milhares de pessoas foram forçadas a deixar a nossa aldeia naquela época e muitas seguiram para Khan Yunis. Inicialmente concebido como uma paragem temporária até que pudessem regressar às suas casas, as famílias de Beit Daras preferiram viver próximas umas das outras. Com o tempo, esse arranjo evoluiu para outro duradouro.



Essas casas estavam repletas de pessoas que tinham fugido do bombardeio israelense à cidade de Gaza – uma família por cada quarto. Quero contar a vocês sobre algumas vidas interrompidas.

Julia Abu Hussein, de dois anos, neta da minha irmã, estava na sala da casa da minha família, aguardando ansiosamente a chegada da minha sobrinha, Rasha, para levá-la à loja para comprar doces. Quando as primeiras bombas caíram, a mãe de Julia, Rawan, agarrou a filha e correu para a cozinha com o resto da família. Mas um estilhaço atingiu a cozinha e matou Júlia nos braços da mãe.

Há apenas duas semanas os pais de Júlia – o meu sobrinho Amjad e a sua mulher, Rawan – seguiram as ordens dos militares israelenses de saírem de Gaza, abandonando a sua casa e deslocando-se para Sul em busca de segurança. Juntamente com a família da minha irmã, levaram três dias para viajar menos de 32 quilómetros até Khan Yunis, Durante três dias acreditávamos que estivessem mortos. Estamos em 2023, mas é como se tivéssemos acordado em 1948. Pessoas voltando a correr em busca de segurança. Quando chegaram à “zona segura” perceberam que nenhum lugar na Faixa de Gaza era realmente seguro.

Meu tio-avô de 79 anos, Nayif Abu Shammala, professor aposentado, e sua mulher, Fathiya, estão entre os sobreviventes da expulsão em massa dos palestino em 1948. Eles moravam bem na nossa frente e morreram sob as bombas. Suas três filhas e quatro filhos também foram mortos.

Quando ela era jovem, uma delas, Aisha, era conhecida como o rosto mais fofo do acampamento. Ela era uma daquelas pessoas que irradiava felicidade. Sua irmã Dawlat morava nos Emirados Árabes Unidos e estava visitando sua casa para ver sua família quando as bombas caíram. Ela deixa dois filhos e um marido que nem teve a chance de se despedir dela. A mais nova das irmãs, Umaima, e a sua filha Malak também fugiram do bombardeio no Norte. Mas as bombas os alcançaram de qualquer maneira.

Os filhos de Nayif e Fathiya – Zuhair, Hassan, Mahmoud e Mohammed – morreram todos junto com suas mulheres. As vidas dos três filhos de Hassan também foram sacrificadas pelas bombas. Essas crianças não são estranhos distantes; eram almas lindas que eu conhecia bem. Crianças cujos rostos cheios de personalidade ainda consigo ver. Crianças que me contaram seus sonhos para as vidas que teriam pela frente. Tudo agora foi reduzido ao pó.

Por que Israel os matou? A família não tem filiações políticas. Nada pode justificar o crime hediondo de matar três gerações, a menos que o criminoso seja palestino.

Minha tia-avó, Um Said, viveu uma vida longa, pelo menos. Ela tinha 92 anos e estava em casa com a filha, Najat, quando as bombas caíram. Ambas agora encontram seu lugar de descanso sob os escombros.

No verão passado, quando visitei Gaza, Um Said gentilmente me deu um vestido bordado que ela usou uma vez. Ela insistiu que eu o levasse de volta para o Canadá comigo. Estou grata por ter feito isso. É tudo o que me resta para me lembrar dela.

Estou lutando para encontrar novas maneiras de descrever a morte – desaparecidos, levados, mortos, sob os escombros, suas almas no céu. A máquina de propaganda israelemse diz-me que eles não estão mortos porque os palestinos devem estar a mentir sobre o número de mortes, mesmo enquanto as lamentamos. Ou se de fato morreram foi porque devem ser “terroristas”.

A nora de Um Said, Suhaila, era professora. O mesmo acontecia com Imtiyaz, mulher de Asa’ad, meu primo-irmão que administrava uma pequena mercearia, o lugar favorito de meu próprio filho, Aziz, quando voltávamos para nossa terra natal.

Asa’ad era conhecido em todo o acampamento Khan Yunis como uma alma gentil que vendia mercadorias por pouco dinheiro. Ele mantinha um denso registro com os nomes das pessoas que lhe deviam dinheiro, mas muitas vezes se esquecia de cobrar. Seu rosto radiante, sua loja, sua gentileza e sua família foram todos roubados de nós em plena luz do dia. Quando as bombas caíram, a loja de Asa’ad estava lotada. Contei pelo menos seis crianças que morreram lá. Os filhos de Asa’ad, Hussein e Abdelrahman, um estudante do terceiro ano de medicina, estavam entre os mortos.

Quero perguntar ao presidente Joe Biden porque é que ele apoia isto. Será que ele acredita que a dor de uma mãe israelense é diferente da de uma mãe palestina? O sangue dela é mais valioso do que o sangue dos que estão em Gaza? Esta é a única explicação que consigo encontrar para o que Biden apoie o que se passa em Gaza.

Os familiares sobreviventes me enviaram fotos de Khan Yunis. Do corpo ensanguentado de Julia enrolado em um lençol branco e carregado por meu primo Jameel, de casas destruídas. Esta é apenas uma pequena fatia do sofrimento que é servido em Gaza. Entendo que numa guerra morrem civis. Mas este é um padrão.

Israel fala em escolas geridas pelo Hamas e em hospitais geridos pelo Hamas para continuar a desumanização dos palestinos e preparar o terreno para mais crimes. É apenas uma desculpa para matar mais civis. Isto tem como alvo a própria existência dos palestinos. Para mim, isso é genocídio.
Ghada Ageel, uma refugiada palestina de terceira geração, trabalhou como tradutora para o The Guardian em Gaza de 2000 a 2006. Atualmente é professora visitante no departamento de ciência política da Universidade de Alberta.

Lugar mais solitário do mundo


Não há lugar mais solitário no mundo do que a cama de uma criança ferida que já não tem família para cuidar dela
Ghassan Abu Sittah, médico em Gaza

Planos morais

Vamos lá, pessoal, não é tão difícil assim. Dá para condenar os brutais ataques terroristas do Hamas e, ao mesmo tempo, criticar a resposta israelense, que vem causando um morticínio entre palestinos. Os planos morais em que atuam um e outro não são idênticos, mas, para quem morre no processo, o resultado é rigorosamente o mesmo.

Por mais justa que seja a sua causa, ela não lhe dá o direito de entrar no território inimigo e assassinar civis desarmados, incluindo crianças, a sangue-frio. A violação moral do Hamas no 7 de outubro é incontestável, quer você abrace éticas deontológicas, da virtude ou consequencialistas. Se o ataque tivesse tido como alvo apenas militares e colonos armados, ele ainda poderia ser descrito como ato de resistência. Não foi o caso.


A ação do Hamas deu a Israel o "ius ad bellum", o direito de ir à guerra, e eventualmente matar, para recuperar os reféns e neutralizar o poderio do grupo terrorista. Mas Tel Aviv ainda tem a obrigação de agir em conformidade com o "ius in bello", as leis de guerra definidas pelas convenções de Genebra, notadamente as proteções à população civil. E nem com muito boa vontade dá para dizer que Israel esteja se empenhando ao máximo em evitar as mortes de civis.

É verdade que o fato de o Hamas deliberadamente esconder seus QGs e armamento em túneis sob hospitais e escolas torna essa tarefa bem mais complexa, mas, se Israel quer manter superioridade moral sobre seu adversário, precisa encontrar uma forma de conciliar esses objetivos contraditórios.

Há uma pegadinha aí. Pelo menos nas visões mais cínicas, age-se moralmente por uma questão de reputação. Se Israel se convencer de que sofrerá condenação da opinião pública mundial independentemente do que faça —tivemos uma prévia disso no caso do hospital Al-Ahli Arab, em Gaza—, poderá concluir que é inútil tentar agir moralmente. Aí o que já é feio ficaria muito pior.

E todo o mundo ouve

Hitchcock afirmou que “drama é a vida sem os pedaços aborrecidos” — drama is life with the dull bits cut out. E tem razão: a ficção salienta os momentos em que se vive mais intensamente, por boas ou más razões. Mas, para que esses momentos sobressaiam de forma notável, é necessário estabelecer contextos que lhes permitam revelar-se.


No filme Sozinho em Casa, por exemplo, é crucial sabermos que Kevin é o mais novo de uma família de 11 crianças, justificando-se assim que seja esquecido em casa. Em O Tubarão, de Spielberg, importa ficarmos a conhecer a vida social e política da pequena ilha estival onde aparece um tubarão devorador de pessoas: a ação dos protagonistas é enquadrada por este contexto narrativo inicial. Aliás, Spielberg vai desde logo direto ao assunto: desenha o breve contexto de uma praia em que jovens convivem em redor de uma fogueira à noite, de onde passa para o ataque do tubarão a uma jovem que decide tomar um banho ao luar. Logo de seguida conhecemos o xerife local, a sua família e a relação com o mayor da ilha. Em ambos os casos, sendo breve ou longo, atrás ou à frente do momento do incidente inicial, o contexto tem de ser dado, sob pena de a narrativa se tornar aleatória ou injustificada.

Em cinema é comum considerar-se que o contexto é a pedra angular da clareza narrativa, que, por sua vez, será tanto maior quanto mais forte for a relação de causalidade entre as cenas: passamos do ataque do tubarão para o xerife da vila e não para qualquer outra personagem sem a responsabilidade de manter a população em segurança — estaríamos, nesse caso, perante uma causalidade mais fraca.

Na realidade, assim é na vida: tudo é causal. Uma série de acontecimentos exteriores a este texto motivaram a sua escrita. Os meus actos derivam do meu contexto e das leituras que dele faço. Nesse sentido, um filme sobre a atual guerra no Médio Oriente até poderia começar no dia 7 de Outubro, com o hediondo ataque do Hamas. Mas — e este “mas” é tudo —, sem posterior contextualização e sem uma leitura das várias e fortíssimas causalidades em campo, ficamos reduzidos a uma narrativa aleatória, à mercê de interesses e interpretações das forças em conflito.

Nesse hipotético filme sem contexto para trás, assistiríamos apenas a um bando de homens maus a atacar pessoas felizes que viviam em paz nos seus territórios. Uma vez estabelecido o contexto, viria à luz uma informação relevante: esses territórios, onde estas pessoas felizes foram atacadas e raptadas, são, na sua larga maioria, terras ocupadas de forma ilegítima, ao arrepio do direito internacional e com enorme perda e dor para a população palestiniana. Pelo menos em cinema, a identificação do problema inicial pode não legitimar ou justificar todas as ações subsequentes, mas, narrativamente, está sempre presente; faz parte do plot.

Enquanto a montante estiverem reunidas as condições para o conflito, Israel não terá nunca toda a razão do seu lado. Não pode nenhum povo, em nome da sua sobrevivência, ou por qualquer outro motivo, ocupar e/ou aniquilar outro. Não existe nenhum contexto humano que o justifique — e Israel devia sabê-lo.

Para muitos de nós, tornou-se insuportável ver as imagens tristes que chegam de Gaza, que sucederam às terríveis imagens de Israel. Porque nos fazem chorar, de tristeza, vergonha, raiva ou impotência. No entanto, sugiro que as vejamos. E que choremos, à vontade e com vontade. Porque são estas lágrimas, instintivas, causais, que chegam ao coração de pessoas justas, que falam em nosso nome — e todo o mundo ouve.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Respeito mútuo


Nós, como israelitas, não podemos ter segurança se os palestinos não tiverem liberdade
Yuval Abraham, jornalista israelense fundador junto com o jornalista palestino Ahmed Alnaouq a página “Across the Wall”

Os tratores do medo

A tradição dos oprimidos nos ensina, diz Giorgio Agamben, que o “estado de exceção em que vivemos” (no cenário mundial) “é a regra”. E segue, na esteira de Walter Benjamin: “devemos chegar a um conceito de história que se corresponda com este fato […] porque o poder não tem hoje outra forma de legitimação do que a situação de perigo grave a que apela em todas as partes de forma permanente e que, ao mesmo tempo, se esforça e o produz secretamente”.[1]

A guerra é a maior tormenta que faz o mundo como ele é. A guerra varre todas as demais tempestades, suprime moralidades, oprime consciências e corpos; altera classes, costumes, revela os passados que estavam mortos e reabre ao mundo novas e piores possibilidades; assim como os homens fazem as guerras ou permitem que as façam, elas – as guerras – também moldam o futuro. Os heróis das guerras não fazem o futuro porque eles foram obrigados a saber matar e quem mata suprime sempre algo de si mesmo, por mais generosa que seja a recompensa da vitória. As guerras deixam poucos verdadeiros heróis na superfície da história.

Bombardeios passaram a ser denominados “explosões”, ação militar de revide contra um atentado terrorista passou a ser qualificado de “guerra contra o Hamas”; as ações humanitárias para salvar crianças e populações civis passaram a ser “ataques à existência de Israel”; e as bombas incendiárias contra hospitais passaram a ser – primeiro – “levemente” justificadas como erros técnicos, depois – pesadamente – como efeitos colaterais de uma guerra contra o terror. A única saída para a guerra, como hoje ela revela, está em voltar a negociar em torno do cumprimento dos acordos de Oslo que, se não for possível, vai implodir o resto do Século XXI.



No 11 de setembro de 2001, o ataque terrorista ao World Trade Center fez 2.996 mortes, comoveu o mundo e reforçou a disposição do Império para a Guerra com a fabricação de armas e com os negócios de reconstrução dos países que seriam destruídos. O século iniciava prometendo barbárie, porém mais de 10 mil mortos por bombas de fósforo jogadas contra hospitais, escolas e contra a população civil na Faixa de Gaza, ainda são leves para dar sentido à consciência do Ocidente democrático e cristão.

Estamos entrando num período em que a novilíngua colonial-imperial, que tudo encobre, desliza suavemente para oficializar a inevitabilidade do genocídio que o Governo de extrema direita de Benjamin Netanyahu pensa ter o direito divino de fazer. Diz ele que Israel é o “bem” absoluto, que cumpre uma missão divina abrigado num Estado teológico e o povo palestino é o mal diabólico, que pode e deve ser varrido da terra, o que torna justificável transformar todo um povo num povo maldito, sem respeitar a vida de mães, crianças, jovens, civis de todos os tipos e espécies.

É para a justificação desta vontade divina – ou sua aceitação “naturalizadora” – que a maior parte da mídia vem transitando, depois que algumas coberturas equilibradas mostraram uma certa pluralidade perante os horrores de uma nova carnificina no Oriente Médio.

Benjamin Netanyahu diz que cumpre uma missão civilizatória e defende que ali todos os valores do “ocidente” estão em jogo, como ocorreu com o Império no Vietnam, como ocorreu com a busca de armas químicas no Iraque, como se fez verdade absoluta – durante três décadas na América Latina – aquela missão civilizadora dos EUA, com seus instrutores de tortura ensinando interrogatórios para as ditaduras da América Latina.

A fala de Benjamin Netanyahu ao povo judeu – confrontando o “bem” contra o “mal” – a partir de valores religiosos lidos de uma forma sectária e contrangedoramente medieval, não é apenas uma falácia, mas é uma estratégia de poder e de alianças fundadas no medo com todos os fundamentalismos do mundo, inclusive com aqueles governos e países que eventualmente ainda apoiam um Estado palestino.

O que parece ser só uma falácia religiosamente correta, na verdade suprime as categorias políticas da modernidade e assim abre o Estado sagrado para qualquer aliança pragmática, em favor das suas verdades religiosas que não podem ser glosadas pela história.

O resto do Século XXI transita para uma situação de perigos indeterminados, nos quais o Governo de Israel, ao deslegitimar todos os esforços feitos pela ONU, apoiada pelos países vencedores da 2a Guerra Mundial – inclusive pela Rússia soviética – podem ser jogados no lixo. O complexo industrial militar dos EUA, os Bancos Centrais do mundo inteiro, os especuladores das guerras, os agiotas legais e ilegais do sistema financeiro global, podem ser levados para um ou para outro lado, segundos seus interesses imediatos de dominação e sobrevivência. Só não tem capacidade de interferir decisivamente para terminar a guerra aquela parte da humanidade – a maioria dos humanos – que não concorreu para sua eclosão.

Os custos humanos da guerra, até agora aceitos pela grande mídia, que mostram a batalha de Israel contra o Hamas sendo transformada numa guerra contra todo o povo palestino, indica que eles não se importam e não perdoarão ninguém que se atreva a enfrentar o seu sistema de dominação: os tratores mortais deste século acostumarão a humanidade sobrevivente a aceitar que aqueles arados que ceifam crianças, sejam necessários também para alimentar o mercado da morte: a fabricação de bombas, armas, carros de combate, munições, foguetes, mísseis e gases que asfixiam, formam a essência do keinesianismo colonial-imperial, que gera muitos novos ricos, empregos seletivos e mortes coletivas no horizonte do século.

A guerra contra as crianças

Não quero comover, emocionar, levar às lágrimas. Apenas perguntar: Que mundo é este em que 420 crianças são mortas por dia, sem que nada possamos fazer? Que mundo é este em que, entre 20 mil feridos, 7 mil são crianças? Que mundo é este em que crianças não podem dormir com o barulho das bombas, não podem brincar entre ruínas pontilhadas de corpos despedaçados?

Difícil aceitar um mundo em que não se trocam imediatamente crianças sequestradas pelo Hamas e crianças presas em Israel. Uma troca pura e simples, sem considerações aritméticas, do tipo um por um. Todas deveriam voltar para suas casas, no caso de ainda terem uma.

Alguns diriam que é ingenuidade supor que as guerras não sejam destrutivas. Sempre mataram, mutilaram e separaram entes queridos. Mas, ao longo do tempo, evoluímos. Criamos leis internacionais. A Convenção de Genebra tem quatro versões, precisamente porque não só definia crimes de guerra, como também expressava essa evolução civilizatória.


Depois dela, tivemos o Estatuto de Roma e um Tribunal Penal Internacional que alguns países como os Estados Unidos não reconhecem. Pelas leis internacionais, Putin deveria estar preso por deportar à força para a Rússia 16 mil crianças. O único tribunal permanente deveria funcionar. O presidente Lula questionou sua existência, mas não se lembra de que o Brasil assinou o tratado em 2002 e o integrou à Constituição em 2004.

Outro argumento que se usa para justificar guerras sangrentas é a defesa do Estado. Grande parte da humanidade apoia a fórmula de dois Estados independentes e pacíficos no Oriente Médio: Israel e Palestina. Mas vale a pena defender ou criar um Estado a partir do massacre de crianças? Os estrategistas não contam com a morte e mutilação infantil. Mas deveriam avaliar os traumas da guerra e da perda da infância, que definirão a personalidade dos que sobrevivem até a idade adulta. Isso significa que a guerra não está apenas produzindo violência, mas semeando violência por muitas gerações.

Algumas organizações defendem a libertação de todas as crianças e a criação de um espaço e tempo para que possam brincar em segurança. Se eu ainda ocupasse cargo público, tentaria apoiar essa possibilidade articulando contatos internacionais em parlamentos de todo o mundo. “Let the Children Play” seria o tema de uma campanha, que teria até a música de Santana como forma de divulgação.

Claro que isso não é o mesmo que um cessar-fogo. Mas de que adianta aprovar um cessar-fogo que Israel só aceitará quando quiser?

Uma campanha pelas crianças teria mais chance de abrir um pequeno espaço civilizatório numa guerra tão próxima da barbárie. E poderia também abrir uma brecha na polarização que domina o debate. Afinal, apesar do que pensam os mais radicais, nem as crianças palestinas nem as de Israel são responsáveis pelas decisões políticas.

Cada vez que ouço um porta-voz da guerra dizer que não há inocentes do outro lado, a primeira imagem que me vem à lembrança é a de milhões de crianças que não escolheram a tragédia, apenas nasceram dentro dela.

Crianças precisam de oxigênio nos hospitais de Gaza, e as máquinas dependem de geradores, que, por sua vez, dependem de combustível. Por que não deixar entrar o combustível? Apenas porque o Hamas pode roubá-lo? Que peso teriam na guerra alguns litros que poderiam salvar tantas vidas que acabam de vir ao mundo?

Ou o mundo reconquista um mínimo de sanidade ou será muito difícil sobreviver nele, sabendo que quase 20 crianças morrem a cada hora de guerra. Levar em conta essa realidade significa colocar pelo menos um tijolo no improvável edifício da paz.

Neste momento, algumas qualidades infantis, como a fantasia e a ingenuidade, talvez possam abrir um pequeno espaço nessa espessa couraça da guerra que a diplomacia e a articulação internacional não conseguem penetrar.

domingo, 5 de novembro de 2023

Os palestinos enterram seus mortos sem nem mais contá-los

Sabe-se que a primeira vítima da guerra é a verdade. E isso não decorre das redes sociais, coisa recente. Sempre foi assim e sempre será. A última guerra justa que o mundo assistiu foi contra o nazismo em meados do século passado. A última guerra que a imprensa acompanhou In loco foi a do Vietnã.

Entre outras razões, os Estados Unidos saíram do Vietnã derrotados porque as imagens dos soldados mortos exibidas diariamente pela televisão minaram o apoio dos norte-americanos ao seu governo. Nunca mais deixaram que a imprensa pudesse mostrar o que de fato acontece em um campo de batalha.

Se continuasse a mostrar, talvez não existissem mais guerras, e elas são uma fonte extraordinária de lucro para o complexo industrial militar. A cobertura de guerras virou uma espécie de jogo. Foi assim no Afeganistão, atacado pelos Estados Unidos na guerra contra o terror. Foi assim no Iraque de Saddam Hussein.


Os terroristas do 9/11 eram cidadãos sauditas, mas o Afeganistão foi acusado de abrigá-los. Hussein foi capturado e morto sem que o Iraque acumulasse armas de destruição em massa como se dizia. Os talibãs voltaram ao poder no Afeganistão. No Iraque, nasceu mais tarde a organização terrorista Estado Islâmico.

O governo de extrema-direita de Israel aplicou um torniquete na cobertura da guerra que o mundo, alarmado com tanta atrocidade de ambos os lados, acompanha estarrecido. É a guerra de um único exército, o mais poderoso do Oriente Médio, que enfrenta um grupo radical que encarna a ideia de independência dos palestinos.

Apoiado pelas maiores potências do mundo Ocidental, Israel dá-se ao luxo de não ter suas verdades contestadas, e impede que as verdades distribuídas pelo Hamas possam ser verificadas por uma imprensa independente. Os jornalistas estão impedidos de entrar na Faixa de Gaza. Dos que haviam por lá, quase 40 já morreram.

Não só. Entidades de ajuda humanitária e de defesa dos direitos humanos na Faixa de Gaza não podem exercer com segurança suas atividades, uma delas a de documentar, recolher dados e produzir relatórios sobre o que de fato acontece. Não podem sequer manter contato com seus funcionários e colaboradores.

Samir Zaqout, vice-diretor geral do Centro Al Mezan para os Direitos Humanos, diz que ele próprio trocou o norte de Gaza por Rafah, porta de entrada no Egito pelo Sul, dada a força dos ataques de Israel no Norte do enclave. Pesquisadores do Al Mezan perderam parentes ou suas casas devido aos ataques aéreos.

A falta de gás em Gaza e a dificuldade de fornecimento de eletricidade anulam a capacidade dos palestinos de documentar sua desgraça. Observa Shawan Jabarin, diretor da Al-Haq, organização de direitos humanos:

“Não há eletricidade em Gaza para carregar telefones, não há Internet regular e não há lugar seguro para onde eu possa pedir aos meus observadores para irem”.

Problemas de comunicação impedem que trabalhadores do grupo de direitos humanos Gisha conduzam investigações: Diz um dos seus representantes: “Todas as manhãs, esperamos ouvir um sinal de vida do nosso investigador e saber que ele e a sua família, os seus filhos e o seu pai idoso sobreviveram à noite”.

A informação que sai de Gaza e sua confiabilidade é uma das questões mais significativas da guerra. O Ministério da Saúde de Gaza denunciou o bombardeio de ambulâncias que levavam doentes para o Egito. Israel assumiu a autoria, mas disse que as ambulâncias estavam carregadas de combatentes do Hamas.

Quem diz a verdade? Sempre que se refere aos comunicados do Ministério da Saúde de Gaza, a imprensa ocidental faz questão de lembrar que o ministério é comandado pelo Hamas. Quando os comunicados são de Israel não se faz ressalvas. É a informação duvidosa de um lado contra a informação sem restrições do outro.

Shawan Jabarin e Samir Zaqout, que não se identificam com o Hamas, rejeitam as críticas ao Ministério da Saúde em Gaza. Zaqout diz acreditar que a pessoa que duvida do número de mortes adota a versão israelense dos fatos. Mas argumenta:

“Qualquer pessoa que observe a quantidade de bombardeios e a força do fogo entende que isso é destruição. Não há outra maneira de descrevê-lo, e os números nem desempenham mais um papel. Os palestinos estão enterrando seus mortos sem nem mais contá-los.”

Pensamento do Dia

 


Ciclo de violência, múltiplos culpados

Este momento da guerra entre Israel e o Hamas conduz a três perguntas fundamentais. Quais as parcelas de responsabilidade de cada lado no atual sofrimento da população da Faixa de Gaza? Qual o risco de a guerra se expandir? Quanto esta crise inviabiliza ou impulsiona um futuro Estado palestino? As três questões estão interligadas.

Os palestinos têm muitos motivos para frustração e revolta: a ocupação militar e a expansão das colônias judaicas na Cisjordânia; a garantia pelas forças israelenses do acesso de judeus ao complexo da Mesquita de Al-Aqsa e as frequentes interdições de fiéis muçulmanos; a disseminação da presença judaica no bairro árabe da Cidade Velha de Jerusalém; o bloqueio à Faixa de Gaza.


Entretanto, desde que surgiu, em 1987, o Hamas canaliza esse ressentimento de uma forma que apenas afasta uma solução para esses problemas, proporciona a Israel pretextos para manter essas políticas e reforça as correntes extremistas da política israelense.

Esta é a quinta guerra com Israel que o Hamas provoca desde sua chegada ao poder em Gaza, em 2007, sempre causando enorme sofrimento para os palestinos. O sofrimento impingido por Israel agora é tanto maior quanto a brutalidade das atrocidades cometidas pelo Hamas no dia 7 e a barragem de foguetes desde então.

O Hamas se mistura à população civil com o propósito perverso e covarde de elevar o preço político das respostas israelenses a seus ataques. Eu presenciei em Gaza elementos do Hamas emergindo por um alçapão do subterrâneo do pátio de um hospital. Fui visto filmando foguetes disparados de área residencial e homens encapuzados do Hamas invadiram à meia-noite o apartamento onde eu estava para examinar minha câmera.

A tomada de mais de 200 reféns pelo Hamas, outro ato de perversidade e covardia, também reduz a margem de ação de Israel. Tudo isso é responsabilidade do Hamas.

Por outro lado, é compreensível o desejo de Israel de aniquilar o Hamas, depois do que o grupo fez. Mas Israel tinha um leque de opções militares. A carga explosiva dos mísseis disparados pelos caças israelenses produz necessariamente a morte de grande número de civis. Existem mísseis menores, que permitiriam ações mais cirúrgicas.

Sei que isso soa improvável, diante da incompreensível falha de inteligência e de resposta militar que permitiu as incursões de 7 de outubro do Hamas, mas Israel mantém minuciosa vigilância sobre Gaza, por meio de radares, balões, drones, aviões e satélites.

Os túneis são um imenso complicador, mas Israel estaria realizando bombardeios às cegas se não fosse capaz de acompanhar os movimentos do inimigo. Os porta-vozes militares israelenses garantem que estão disparando contra elementos do Hamas.

Mesmo para perfurar túneis não é necessário abrir crateras tão grandes como as que os mísseis israelenses estão abrindo, matando dezenas de civis. Em alguns casos, tapetes de bombas têm arrasado quarteirões residenciais inteiros. A responsabilidade por essas decisões operacionais é de Israel.

Quanto mais despropositada a resposta, maior a tendência não só dos palestinos mas de todo o mundo árabe-muçulmano de responsabilizar Israel, e não o Hamas, pelo sofrimento dos civis. Isso alimenta a radicalização e diminui ainda mais o espaço para uma solução negociada.

Não interessa ao Irã envolver o Hezbollah em grande escala. A milícia xiita libanesa é o grande ativo dissuasório de eventual ação de Israel para negar a capacidade nuclear do Irã, o grande objetivo estratégico da teocracia em Teerã, que parece próximo de ser alcançado. Provocar Israel, com ajuda americana e britânica, a destruir o Hezbollah agora seria contraproducente.

A brutalidade dos bombardeios de Israel cria o terreno fértil para mais terrorismo, antissemitismo e islamofobia, numa espiral que se retroalimenta. Abre caminho também para mais ataques de grupos externos apoiados pelo Irã, como o Hezbollah no Líbano, milícias árabes e iranianas na Síria e no Iraque e os houthis no Iêmen.

Alguém tem de ser moral e politicamente capaz de romper essa espiral de violência do Oriente Médio

Nada disso significa que Israel seria diretamente responsável pelas ações de todos esses atores. Assim como os militares israelenses respondem por suas decisões táticas e operacionais, também o Irã e esses grupos devem responder pelas deles. Mas alguém tem de ser moral e politicamente capaz de romper essa espiral. Não tem sido essa a tradição do Oriente Médio.

'O nível do nosso medo está além do normal. Pensam em nós?'

16h – Converso com minha irmã quando ela se refere a um incidente ocorrido antes do início da atual situação como “nos bons tempos”. Digo que nunca tivemos “bons momentos”. Mesmo quando as coisas estavam relativamente estáveis, os habitantes de Gaza sofreram. Não tínhamos um fornecimento confiável de eletricidade; não podíamos viajar facilmente, e alguns nunca conseguiam viajar; o desemprego era muito elevado e a vida, longe de ser normal. Acontece que temos circunstâncias ruins e mortais. Posso estar exagerando, mas é assim que vejo as coisas.

Também conversamos sobre quantas coisas compramos desde que evacuamos do Norte para o Sul. Brinco com minha irmã e digo que tudo o que precisamos agora é de um carpinteiro para pôr algumas prateleiras em nosso quarto e nos dar mais espaço.

Minha irmã não riu.

20h – As notícias não são boas. A situação piora – coisas horríveis e aterradoras estão acontecendo. O nível do nosso medo está além do normal. Nenhum sinal de esperança. Digo aos meus amigos que não tenho certeza se nos veremos outra vez amanhã.

22h – Ouço Ahmad lá fora, recitando um poema que adoro. Não tenho certeza do que o motivou, mas ouvir isso aqueceu meu coração:

“Quando preparar o seu pequeno-almoço, pense nos outros / Não se esqueça de alimentar os pombos.

Quando você se envolver em suas guerras, pense nos outros / Não se esqueça daqueles que exigem a paz.

E quando você voltar para sua casa, pense nos outros / Como aqueles que moram em tendas.

Quando você adormecer contando planetas, pense nos outros / Que não conseguem encontrar um lugar para dormir.”


Alguém está pensando em nós? E vamos acabar morando em barracas, ou pior, nos tornarmos um daqueles que não conseguem encontrar lugar para dormir?
Ziad (Transcrito do The Guardian)

O detentor do poder

Um verdadeiro poder não pode ser construído exclusivamente sobre vitórias fáceis. O terror que ele quer despertar, e no qual está propriamente interessado, depende da massa de vítimas.

Todos os conquistadores famosos da história trilharam esse mesmo caminho. Posteriormente, foram-lhes atribuídas virtudes de toda espécie. Após séculos, historiadores ainda comparam conscientemente as qualidades de tais conquistadores, para — como acreditam — chegar a um juízo exato sobre eles. A ingenuidade fundamental dessa empreitada é palpável. De fato, estão ainda sob o fascínio de um poder de há muito ultrapassado. Assim, vivendo numa outra época, tornam-se contemporâneos daqueles que nela viveram, e algo do temor que estes sentiam ante a crueldade do poderoso acaba transferindo-se para eles; não sabem, porém, que se entregam a esses poderosos, enquanto observam honestamente os fatos. Soma-se a isso uma motivação mais nobre, da qual não estiveram livres nem mesmo grandes pensadores: é insuportável ter de afirmar que um número de seres humanos — cada um contendo em si o conjunto das possibilidades humanas — foi massacrado em vão, em prol de absolutamente nada; é por isso que então se passa a buscar um sentido para tais massacres. Como a história prossegue, é sempre fácil encontrar um sentido aparente em sua continuidade: cuidando-se para que tal sentido receba uma certa dignidade. Aqui, porém, a verdade nada tem de dignidade. Ela é tão vergonhosa quanto foi aniquiladora. Trata-se exclusivamente de uma paixão privada do detentor do poder: seu prazer pela sobrevivência cresce com seu poder; este permite-lhe dar rédeas à sua paixão. O verdadeiro conteúdo desse poder é o desejo de sobreviver a massas de seres humanos.

É mais proveitoso para o detentor do poder se suas vítimas são inimigos; de qualquer modo, os amigos produzem resultado semelhante. Em nome de virtudes varonis, exigirá o mais difícil, o impossível, de seus súditos. Não lhe importa que estes sucumbam na execução da tarefa. É capaz de convencê-los de que é uma honra fazê-lo por ele. Através de rapinagens, cujo produto permite-lhes de início desfrutar, ele os ata a si. Servir-se-á então da voz de comando, a qual foi como que talhada para seus objetivos (não podemos, contudo, encetar aqui uma discussão detalhada dessa voz de comando, que é de extrema importância). É assim que, se entende do que faz, fará deles massas belicosas, incutindo-lhes ideias sobre a existência de tantos inimigos perigosos que, por fim, seus seguidores não poderão mais abandonar a massa de guerra que compõem. É claro que não lhes revela sua intenção mais profunda; sabe dissimular muito bem e, para tudo o que ordena, encontra centenas de pretextos convincentes. É possível que se traia, em sua arrogância, no círculo de amigos mais íntimos; mas, se assim for, o fará de forma radical, como fez Mussolini diante de Ciano, ao desdenhosamente chamar seu povo de rebanho, cuja vida, naturalmente, pouco importava.

Mas a real intenção de um verdadeiro detentor do poder é tão grotesca quanto inacreditável: ele quer ser o único. Quer sobreviver a todos, para que ninguém sobreviva a ele. Quer furtar-se à morte a todo custo; assim, não deve haver ninguém, absolutamente ninguém, que possa matá-lo. Jamais se sentirá seguro enquanto homens, quaisquer que sejam, continuarem existindo. Mesmo seu corpo de guarda, que o protege dos inimigos, pode voltar-se contra ele. Não é difícil provar que sempre teme secretamente aqueles a quem dá ordens. Sempre o assalta, também, o medo dos que lhe estão mais próximos
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Elias Canetti, "A consciência das palavras"

Resiliência

Stephan Zweig, um dos mais brilhantes intelectuais da primeira metade do século 20, resolveu dar fim à vida. Fugido do nazismo, morava, em fevereiro de 1942, na cidade serrana de Petrópolis, gostando cada dia mais do Brasil. Contudo, via a Europa destruída, faltando-lhe forças para começar de novo. Desistiu da humanidade, desalentado com a barbárie, malgrado seu otimismo quanto ao Brasil: via um povo de certa brandura, com desejo de conciliação, a viver de maneira amistosa, com possível união de todas as classes. Porém, nem esta visão idílica do Brasil lhe deu condições para insistir em sobreviver diante da violência do nazismo, esgotado por estar sem pátria havia muitos anos.

Houve muitas outras desgraças humanitárias desde 1942, mas, por outro lado, cresceu a consciência de novos direitos que dignificam a pessoa humana e valorizam a igualdade de gênero, o combate a qualquer tipo de discriminação de raça, origem, religião, nacionalidade. São conquistas que deveriam afastar a atrocidade.

Por isso mesmo, neste instante, soma-se à indignação, em face da invasão da Ucrânia, a imensa tristeza diante dos atos de terrorismo deslanchados pelo Hamas, com ataque mortífero contra jovens a dançar, decapitando bebês e sequestrando civis para melar acordo entre Israel e Arábia Saudita. A reação de Israel, todavia, embora justa, está sendo desmedida, desproporcional, atingindo a população pacífica, com a morte de muitas crianças. A desolação com a desumanidade é o sentimento dominante.

E, no Brasil, nada nos socorre neste momento, pois o ufanismo de Zweig era um equívoco, próprio de quem, em busca de um refúgio seguro, ignorava a realidade subjacente.


Pelo contrário, infelizmente, vivemos uma guerra interna assustadora, na qual a população negra é a principal vítima. Facções, milícias e policiais corruptos compõem o poder paralelo, enquanto o poder estatal legítimo se deslegitima ao se aliar aos criminosos ou os extorquir e sendo assustador ao atacar toda uma comunidade indiscriminadamente.

O desânimo em vista da perversidade de nossa guerra interna tem por fonte as tristes operações policial-militares resultantes em chacinas. Assim foram a Operação Exceptis, há pouco mais dois anos em Jacarezinho, no Rio de Janeiro, e recentemente, na Baixada Santista, com a Operação Escudo.

A Operação Exceptis ocorreu entre 6h e 16h do dia 6 de maio de 2021. Contou com 200 agentes policiais a pé, quatro blindados e dois helicópteros. Após dois minutos de seu início, um inspetor da Polícia Civil desceu do blindado e foi morto com um tiro na cabeça. Em represália à morte do companheiro, agentes policiais foram brutais na comunidade, que viveu verdadeiro cenário de guerra.

Mas a chacina de Jacarezinho não é exceção. Ao contrário, em 2021 a letalidade policial aumentou 25,9%, chegando a 35,4% dos homicídios havidos na capital fluminense. As chacinas, neste ano, cresceram 266,7%, totalizando 44 ações, tendo sido notificados 185 mortos, em aumento de 302,2%. As chacinas policiais atingiram, ao longo do tempo, diversas comunidades, sendo vítimas principalmente negros e pobres.

A Operação Escudo, na Baixada Santista, foi represália ao assassinato de soldado, redundando na morte de 28 pessoas provocada pela polícia e na prisão de centenas, tendo sido algumas torturadas. Pior: a glorificação da violência policial pelo governador paulista é grave e consagra a autonomização da polícia, cujo descontrole pelos poderes políticos, conforme estudo de Daniel Hirata, leva à formação de milícias.

Outra fonte de desânimo vem do fato de se já ter instituído no Rio de Janeiro um Poder Judiciário paralelo: bandidos do Comando Vermelho (CV), que assassinaram por engano três médicos, foram justiçados pela organização criminosa que os matou, como pena pelo equívoco cometido. Foi o cumprimento rápido da sentença editada pela justiça de um Estado paralelo eficiente.

Há a tentação de jogar a toalha diante da barbárie que se apresenta lá e aqui. Mas maior é o chamamento pela resiliência em prol da paz, a ser buscada mesmo com sucesso imprevisível. A paz interna depende não só de ações policiais, mas do descortínio de implantação de política criminal de cunho social, seja ocupando os espaços das periferias das grandes cidades com equipamentos sociais (esporte, teatro, cinema, shows), seja levando a justiça ao povo com a presença de juiz, promotor, delegado de polícia nos lugares mais distantes e desassistidos, como sucedeu com os Centros Integrados do Cidadão, os CICs, em São Paulo.

Cumpre fazer de cada bairro periférico a reprodução do que se fez em Jardim Ângela, reocupando o espaço com atividades integradoras, criando oportunidades para os jovens e instalando creches e escolas como centros de convivência.

Dói viver no atual espectro de perversidade, mas o arrependimento será insuperável se não buscarmos a paz, munidos de todas as dúvidas, mas também de muita disposição para reivindicar políticas sociais e denunciar morticínios patrocinados pelo Estado.

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Pensamento do Dia

 


Idade da Estupidez

Há quem diga que este período da história da humanidade será conhecido como a Idade da Estupidez. O raciocínio corre sobre o fio da lógica e revela uma contradição. Ao mesmo tempo em que a ciência avança em todas as áreas, no terreno espiritual experimentamos o regresso ao breu da ignorância.

A absoluta maioria dos viventes é beneficiária do avanço, mas não é parte da inteligência que o produziu. Ao contrário, usa os seus resultados para espargir a sua estupidez. A internet é o melhor exemplo. Todas as pessoas podem expor suas ideias, o que é comemorado pelos idiotas da oclocracia com bumbos, trombones e urras à nova democracia. Estudo recente de universidades europeias sobre os conteúdos veiculados nas redes da web informa que 90% dos internautas têm a oferecer apenas sandices, bobagens, preconceitos, pieguices, superstições e todo o tipo de vulgaridade da vida pornográfica. Isso na Europa, onde o padrão intelectual é sabidamente superior ao nosso. Basta comparar a qualificação das nossas universidades no ranking mundial. Perdemos para o Cazaquistão.

O caldo de cultura produzido na internet é espesso em sabedoria extraída do senso comum. Conceitos latrinários de filosofia de boteco adquirem a aura de verdade porque é a verdade da maioria. Os fanáticos de todos os fundamentalismos fazem a festa. Aí incluídos defensores do “politicamente correto”. Gente que insiste em impor à vida pública regras morais e costumes que adotou na vida privada. O que parecia ser parte da luta contra os preconceitos tornou-se instrumento ditatorial de hordas que se organizam contra as liberdades de quem não concorda com suas ideias. Nada mais preconceituoso.

O fenômeno criou um mercado próspero para as teorias de baixa extração intelectual. Os pregadores propõem bobagens absurdas e a maioria, em sua idiotia, repete. A mídia que restou, conformada a esse mercado, reproduz a logorréia que escorre do computador para as manifestações públicas mais deprimentes. Entre elas, essa mania recente de mulheres a mostrar os seios, sendo que algumas deveriam ser proibidas pelo estado de decadência física em que se encontram.

Uma preocupação apresentada no estudo é com a reprodução do lixo cultural por outros meios também poderosos. A pesquisa tomou uma amostra entre professoras do primeiro grau. Todas se mostraram influenciadas por movimentos da ignorância e naturalmente repassam suas ideias aos alunos. Isso indica que teremos uma geração de imbecis bastante fundamentados em teorias estúpidas.

Há salvação? O estudo não é conclusivo. E sabemos que o estúpido é, antes de tudo, um forte, porque sua força se tornou expressão coletiva através da rede mundial da internet. Teremos que conviver com a praga de nosso tempo. O estúpido está em todos os lugares. Seja escabroso, rabelaisiano ou ecológico. Religioso fundamentalista ou acadêmico emérito e laureado. Sacerdote nutricionista, teórico dos gêneros e da liberdade sexual. Há estúpido sumítico e valetudinário, como há estúpido que crê na hierarquia de valores, no patriotismo boçal e no direito de extravasar seus recalques no futebol e no carnaval. Há também os que acreditam nos direitos intocáveis de cães, gatos e de todos os animais irracionais. Talvez por solidariedade e identificação.

Eu, com todo o respeito, não acredito que haja estúpido neófito. Sou pessimista. A vida mostrou-me que não há condição para ser idiota. O idiota é idiota independente de gênero, classe social, idade, escolaridade, opção política, profissão ou religião. O estúpido nasce glorioso. A estupidez se impõe porque é a expressão da maioria que está aí para aplaudi-la. E não duvide, a estupidez, se ainda não chegou, está preparada para assumir o poder em todas as instâncias. Argh!

Fábio Campana (1947|2021)

Notícias de uma guerra que chega até nós

A coisa mais tenebrosa que conheci foram os campos de concentração de Auschwitz e Birkenau, na Polônia, designados pelo regime nazista de Adolph Hitler como o lugar para a “Solução Final” para os judeus. Entre o começo de 1942 e o fim de 1944, homens, mulheres, crianças e anciãos de toda a Europa foram transportados em trens para serem eliminados em câmaras de gás e crematórios naquele complexo macabro. Cerca de 1,3 milhão e 3 milhões de prisioneiros foram ali exterminados, sendo 90% judeus. Aproximadamente 150 mil poloneses, 23 mil ciganos, 15 mil soldados soviéticos e 400 testemunhas de Jeová também foram executados, morreram de fome, doenças ou em experiências médicas.

Tudo o que já havia visto sobre o Holocausto, em fotos, vídeos e filmes, nem se compara à experiência tenebrosa da visita ao local. O maior espanto é constatar como a racionalidade humana é capaz de banalizar o mal. Por isso mesmo, não estranhei a reação de Dani Dayan, presidente do Centro para a Memória do Holocausto de Israel, ao criticar o uso da Estrela Amarela pelos diplomatas de seu país na reunião do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), na segunda-feira: “O emblema amarelo simboliza o desamparo do povo judeu. Hoje, temos um país independente e um exército forte, somos mestres do nosso próprio destino. Hoje, deveríamos colocar um botton de bandeira branca na lapela, não um emblema amarelo”, disse, sobre o uso indevido da Estrela de Davi.

Ao ostentar a estrela amarela na lapela com o slogan “Nunca Mais”, o embaixador de Israel na ONU, Gilad Erdan, afirmara que era um símbolo de orgulho e uma forma de lembrar que juraram se defender, e que o antissemitismo e o ódio aos judeus estão crescendo pelo mundo. No regime nazista na Alemanha e nos países ocupados na II Guerra Mundial, todos os judeus foram obrigados a usar uma estrela amarela costurada na roupa para serem identificados. Depois, nos campos de concentração, foram numerados com uma tatuagem no braço.

O uso da estrela amarela pelos diplomatas era uma remissão ao Holocausto, por causa do ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro, no qual 1.400 pessoas foram assassinadas e 250 foram sequestradas em Israel. A retaliação de Israel é legitimada perante a opinião pública mundial não somente com a narrativa da luta contra o terrorismo, mas, também, com a memória dos fatos que mais mexem com corações e mentes dos judeus de todo o mundo, inclusive no Brasil: os campos de extermínio nazistas.


Em contrapartida, o repúdio ao massacre de crianças, mulheres e idosos em Gaza, que somam aproximadamente 75% dos 8,5 mil palestinos mortos pelo exército de Israel, extrapola o mundo árabe e mobiliza todo o Oriente muçulmano. Tornou-se o epicentro da nova “guerra fria” entre Estados Unidos e a Rússia, em lugar do conflito da Ucrânia. Não há o menor sinal de paz no horizonte. Nem mesmo um cessar-fogo humanitário, a não ser que seja aprovada alguma resolução no Conselho de Segurança da ONU, que vive seu maior impasse. A China, que hoje assume a presidência do colegiado, até agora foi espectadora privilegiada. Veremos qual será seu papel.

As notícias são desanimadoras. Há 240 reféns de Israel nas mãos do Hamas. O número de funcionários das Nações Unidas mortos na Faixa de Gaza aumentou para 67, segundo informação divulgada pela Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente. Um bombardeio no campo para refugiados na cidade de Jabalia, no norte de Gaza, deixou 50 mortos e mais de 300 feridos.

O coronel Richard Hecht, porta-voz do exército de Israel, confirmou que as forças armadas do país atacaram o campo para matar um dos comandantes do Hamas. Os rebeldes Houthis do Iêmen também entraram na guerra, que acontece a mais de 1.600km de sua sede em Sanaa, e lançaram drones e mísseis contra Israel. Continuam as escaramuças entre o Hezbollah e o exército israelense, na fronteira com o Líbano. Na Cisjordânia ocupada, os conflitos de rua com os soldados israelenses se intensificam.

Em 2009, o historiador britânico-judeu Tony Judt, que faleceu no ano seguinte, num antigo intitulado O que fazer?, vaticinou que a opção de deixar “mediocridades incompetentes” à frente de Israel e da Autoridade Palestina teria consequências catastróficas. “Graças ao tratamento abusivo dos palestinos pelo ‘Estado judeu’, o imbróglio israelense-palestino é o motivo mais iminente para o ressurgimento do antissemitismo em todo o mundo. É o fator mais eficiente no recrutamento de agentes para os movimentos islâmicos radicais. E priva de um sentindo as políticas externas dos Estados Unidos e da União Europeia para uma das regiões mais delicadas e instáveis do mundo. Algo diferente precisa ser feito.”

Para Judt, Israel vivia um drama existencial: continuar sendo um Estado judeu e deixar de ser uma democracia liberal, como propõe o premiê Benjamin Netanyahu, ou se tornar uma democracia multiétnica e deixar de ser um Estado judeu, com a anexação dos territórios palestinos ocupados. A terceira opção é empurrar os palestinos de Gaza para o deserto do Sinai e promover uma limpeza étnica nos territórios ocupados da Cisjordânia.

O filho do homem

Houve a guerra e vimos desmoronar muitas casas e agora não nos sentimos mais seguros em casa como antes, quando estávamos quietos e seguros. Há algo de que não se cura, e os anos vão passando, mas não nos curamos nunca. Quem sabe teremos de novo uma luminária sobre a mesa e um vaso de flores e os retratos dos nossos queridos, mas não acreditamos mais em nenhuma dessas coisas, porque antes tivemos de abandoná-las de repente ou as procuramos em vão entre os escombros.

É inútil acreditar que podemos sair curados de vinte anos como aqueles que passamos. Os que foram perseguidos nunca mais reencontrarão a paz. Um toque insistente de campainha à noite não pode significar outra coisa para nós que não a palavra “delegacia”. E é inútil dizer e repetir a nós mesmos que por trás da palavra “delegacia” agora talvez haja rostos amigáveis, a quem poderíamos pedir proteção e assistência. Em nós essa palavra sempre provoca desconfiança e assombro. Se observo meus meninos dormindo, penso com alívio que não precisarei acordá-los no meio da noite para fugir. Mas não é um alívio pleno e profundo. Sempre acho que mais cedo ou mais tarde precisaremos nos levantar de novo na noite e escapar e deixar tudo para trás, quartos quietos e cartas e lembranças e roupas.


Uma vez sofrida, jamais se esquece a experiência do mal. Quem viu as casas desabando sabe muito bem quanto são precários os vasos de flor, os quadros, as paredes brancas. Sabe muito bem de que é feita uma casa. Uma casa é feita de tijolos e argamassa, e pode desabar. Uma casa não é tão sólida. Pode desabar de um momento para outro. Atrás dos serenos vasos de flor, atrás das chaleiras, dos tapetes, dos pavimentos lustrosos de cera há o outro vulto verdadeiro da casa, o vulto atroz da casa caída.

Não nos curaremos nunca desta guerra. É inútil. Jamais seremos gente tranquila, gente que pensa e estuda e modela sua vida em paz. Vejam o que aconteceu com nossas casas. Vejam o que aconteceu com a gente. Nunca vamos ser gente sossegada.

Conhecemos a realidade em sua face mais terrível. Mas já nem sentimos mais desgosto. Ainda há alguns que se queixam de que os escritores se servem de uma linguagem amarga e violenta, que contam coisas duras e tristes, que apresentam a realidade em seus termos mais desolados.

Nós não podemos mentir nos livros, nem podemos mentir em nenhuma das coisas que fazemos. E talvez este seja o único bem que nos veio da guerra. Não mentir e não tolerar que os outros mintam a nós. Assim somos, os jovens de agora, assim é a nossa geração. Os mais velhos ainda são muito apegados à mentira, aos véus e às máscaras que recobrem a realidade. Nossa linguagem os entristece e ofende. Não entendem nossa atitude diante da realidade. Nós estamos perto da substância das coisas. Esse é o único bem que a guerra nos deu, mas só nos deu a nós, jovens. Aos outros, mais velhos que nós, a guerra só trouxe insegurança e medo. E também nós, os jovens, temos medo, também nós nos sentimos inseguros em nossas casas, mas não estamos indefesos diante desse medo. Temos uma dureza e uma força que os outros, antes de nós, jamais conheceram.

Para alguns a guerra só começou com a guerra, com as casas desmoronadas e os alemães, mas para outros ela começou antes, desde os primeiros anos do fascismo, e por isso a sensação de insegurança e de permanente perigo é ainda maior. O perigo, a sensação de precisar se esconder, a sensação de precisar deixar de repente o calor da cama e das casas, começou, para tantos de nós, há muitos anos. Insinuou-se nas diversões juvenis, nos acompanhou nos bancos de escola e nos ensinou a ver inimigos em todo lado. Assim foi para muitos de nós, na Itália e em outros lugares, e se acreditava que um dia poderíamos caminhar em paz pelas ruas de nossas cidades; mas hoje, quando talvez possamos caminhar em paz, hoje nos damos conta de que não nos curamos daquele mal. Assim somos constrangidos a buscar sempre novas forças, sempre uma nova dureza para contrapor a qualquer realidade. Somos impelidos a buscar uma serenidade interior que não nasce dos tapetes e dos vasos de flor.

Não há paz para o filho do homem. As raposas e os lobos têm seus covis, mas o filho do homem não tem onde pousar a cabeça. Nossa geração é uma geração de homens. Não é uma geração de raposas e de lobos. Cada um de nós teria grande vontade de pousar a cabeça em algum lugar, cada um gostaria de ter uma pequena toca enxuta e aquecida. Mas não há paz para os filhos dos homens. Cada um de nós uma vez na vida se iludiu achando que podia dormir sobre qualquer coisa, apossar-se de uma certeza qualquer, de uma fé qualquer, e então repousar o corpo. Mas todas as certezas de antes nos foram arrancadas, e a fé jamais será algo em que enfim se possa mergulhar no sono.

E agora somos gente sem lágrimas. O que comovia nossos pais já não nos comove nada. Nossos pais e as pessoas mais velhas que nos reprovam pelo modo como criamos os meninos. Queriam que mentíssemos aos nossos filhos como eles mentiam a nós. Queriam que nossas crianças se divertissem com bonecos de pelúcia em graciosos cômodos pintados de rosa, com arvorezinhas e coelhos estampados nas paredes. Queriam que cercássemos de véus e de mentiras a infância deles, que lhes ocultássemos cuidadosamente a realidade em sua verdadeira substância. Mas nós não podemos fazer isso. Não podemos fazer isso com crianças que acordamos no meio da noite e vestimos ansiosamente no escuro, para fugir ou nos esconder ou porque a sirene de alarme rasgava o céu. Não podemos fazer isso com crianças que viram o assombro e o horror em nossa cara. Não podemos começar a contar a essas crianças que elas foram trazidas pela cegonha, ou lhes dizer que os mortos partiram numa longa viagem.

Há um abismo intransponível entre nós e as gerações anteriores. Os perigos que eles corriam eram irrisórios, e suas casas só desmoronavam muito raramente. Terremotos e incêndios não eram fenômenos que se verificassem com frequência e para todos. As mulheres tricotavam malhas, ordenavam o almoço à cozinheira e recebiam as amigas em casas que não desabavam. Cada qual meditava e estudava e esperava organizar sua vida em paz. Era um outro tempo, e talvez se vivesse bem. Mas nós estamos atados a esta nossa angústia e, no fundo, satisfeitos com nosso destino de homens.
Natalia Ginzburg, "As pequenas virtudes"

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Pensamento do Dia

 


Embaixador de Israel usa estrela amarela na ONU

O embaixador de Israel nas Nações Unidas exibiu uma estrela amarela em seu peito na segunda-feira ao discursar no Conselho de Segurança da organização, provocando críticas do memorial do Holocausto de Israel, o Yad Vashem, que classificou o ato como uma "desonra às vítimas" judaicas do nazismo.

Ao colocar o emblema durante a sessão plenária, o diplomata Gilad Erdan afirmou que pretende usar a estrela até que os membros do conselho condenem explicitamente as atrocidades cometidas pelo grupo terrorista Hamas contra cidadãos israelenses. "Usaremos essa estrela até que vocês acordem e condenem as atrocidades do Hamas".

A estrela amarela é um dos principais símbolos de perseguição aos judeus, que em diferentes momentos históricos foram obrigados a usá-la como um sinal de identificação. A prática teve início no século 8º, no Califado Omíada, por imposição de governantes muçulmanos. Mais tarde, foi introduzida na era medieval europeia pelos cristãos. Seu uso mais recente e conhecido ocorreu durante o Holocausto, no século 20, quando os nazistas obrigaram os judeus de territórios ocupados a portarem variações da estrela com a palavra "judeu" inscrita no meio.

Além do embaixador Erdan, outros membros da delegação israelense na ONU exibiram a estrela na sessão de segunda-feira. Ao justificar por que havia feito isso aos representantes do Conselho, o embaixador evocou a história do Holocausto: "Alguns de vocês não aprenderam nada nos últimos 80 anos. Alguns de vocês esqueceram por que esse órgão foi criado."

"Portanto, vou lembrá-los. A partir de hoje, toda vez que olharem para mim, vão se lembrar do que significa ficar em silêncio diante do mal", disse o embaixador, referindo-se ao ataque terrorista do Hamas a Israel em 7 de outubro. "Assim como meus avós e os avós de milhões de judeus, de agora em diante minha equipe e eu usaremos estrelas amarelas", disse, levantando-se para afixar no peito de seu terno a insígnia, com a inscrição "Never Again" ("Nunca mais", em inglês). "Usaremos essa estrela até que vocês acordem e condenem as atrocidades do Hamas."

Até o momento, o Conselho de Segurança das Nações Unidas, formado por 15 membros, não chegou a um consenso sobre um posicionamento unificado em relação à guerra entre Israel e o Hamas, que resultou na morte de 1.400 israelenses e numa dura resposta de Israel, que vem travando operações militares na Faixa de Gaza, enclave palestino controlado pelo grupo fundamentalista. Até o momento, quatro propostas de resoluções naufragaram no conselho por causa de divisões entre os cinco membros permanentes (Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França), que têm poder de veto.

Duas propostas russas que eram vagas em mencionar o Hamas foram vetadas pelos EUA ou não conseguiram votos suficientes. Um texto dos americanos, mais explícito no apoio a Israel, por sua vez, foi vetado pela Rússia e China. Um quarto texto, proposto pelo Brasil e que chegou a garantir 12 votos, foi vetado pelos EUA sob a justificativa de que não fazia referência aos direitos de autodefesa dos israelenses.

Até o momento, apenas uma resolução foi aprovada, na Assembleia Geral, que não tem o mesmo poder do Conselho de Segurança para impor decisões. O texto, que pede uma "trégua humanitária" na Faixa de Gaza, atualmente sob cerco de Israel, tem tom similar às propostas russas, evitando mencionar o Hamas.

O gesto de Gilad Erdan de exibir a estrela foi mal recebido por alguns setores da sociedade israelense. O Yad Vashem, o memorial oficial de Israel para lembrar as vítimas judaicas do Holocausto, que pediu que o diplomata usasse a bandeira israelense em vez da estrela.

O presidente do Yad Vashem, Dani Dayan, político e empresário que também teve uma controversa carreira como diplomata, disse "lamentar" a ação da delegação israelense em Nova York. "Esse ato desonra as vítimas do Holocausto, bem como o Estado de Israel", escreveu na rede X, antigo Twitter.

"A estrela amarela simboliza o desamparo do povo judeu e o fato de ele estar à mercê de outros. Agora temos um Estado independente e um exército forte. Somos os donos de nosso próprio destino. Hoje prenderemos em nossa lapela uma bandeira azul e branca, não uma estrela amarela", disse Dayan, que em 2015 chegou a ser indicado como embaixador no Brasil, mas nunca chegou a assumir o posto por causa da oposição de Brasília, que não simpatizava com a associação de Dayan ao movimento de assentamentos judaicos na Cisjordânia ocupada.

A guerra da propaganda: lições do passado

Como estamos em guerra de novo, voltei ao meu manual de propaganda bélica de cabeceira. Que estamos em guerra, creio que ninguém duvidará. Não me refiro, claro, apenas às guerras em sentido estrito —Rússia e Ucrânia, Israel e Palestina—, mas também aos conflitos políticos deflagrados como guerra cultural e guerrilha ideológica, que nem sempre matam, mas arrastam países à destruição e terminam em tentativas de golpes de Estado, como vemos seguidamente desde 2016.

E o manual a que me refiro é, na verdade, um tratado muito bem documentado sobre o uso da propaganda na Primeira Guerra. Chama-se "Propaganda Technique in the World War" e foi publicado por Harold D. Lasswell em 1927. Na guerra, diz ele, desde que a meta a ser alcançada passe por alguma forma de convencimento das pessoas, a propaganda tem que ser considerada.


Nos conflitos, as mentes são tão importantes quantos as armas e as pressões econômicas, pois são elas que mobilizam, motivam ou desmoralizam, recrutam, engajam, justificam, superam ou criam resistências à participação, dão ou retiram superioridades morais, tornam os sacrifícios toleráveis ou inaceitáveis. Por isso, as notícias e boatos da propaganda são tão importantes quantos mísseis, dinheiro e músculos; a propaganda é a guerra por outros meios, é a guerra por meio de ideias, conceitos, cognições, sentimentos e atitudes.

Lasswell dedica um inteiro capítulo à satanização do "outro lado" durante um conflito. Quando a guerra está prestes a iniciar, o trabalho da propaganda consiste em fazer com que se acredite que foi o inimigo quem deu início às hostilidades e que a guerra, a este ponto, não só é inevitável, mas o único recurso possível para se enfrentar o mal. Uma vez, contudo, que a guerra está em curso, é preciso reforçar a motivação para se manter em um conflito que já mostra o seu lado monstruoso e exige sacrifícios. E isso se faz por meio da reiteração de exemplos da depravação do inimigo, que demonstrem que se a guerra é feia, o inimigo é muito pior.

O código moral do público vai determinar os temas e as ênfases nos exemplos de maldade que precisam ser apresentados. De toda forma, ninguém resiste a responder com estupefação e ódio ao inimigo diante de exemplos de atrocidades. E quanto mais vulneráveis e inofensivos forem as suas vítimas, mais serão óbvias razões para odiar o inimigo. O que outro faz ou fez com "mulheres, crianças, idosos, padres e freiras, prisioneiros e não combatentes mutilados" não será esquecido nem perdoado.

A originalidade e a verdade dos relatos estão longe de ser indispensáveis, mas só um inimigo degenerado e cruel é capaz de degolar crianças ou matá-las de fome, de violentar mulheres e sequestrar velhinhas, de bombardear hospitais ou metralhar garotos.

Para rematar a convicção de que o inimigo é sombrio e perverso, a propaganda deve manter ativa uma lista de crimes perpetrados pelo outro lado, o catálogo de infâmias. Desumanidades, genocídio, impiedade, tudo listado e contabilizado. Tudo deve ser fartamente ilustrado com "fotografias de cadáveres mutilados e aldeias devastadas". Se possível, testemunhas oculares devem contar a sua própria história, depoimentos de quem esteve com o inimigo e mudou de lado, enojado com tamanha iniquidade, devem ser publicados, assim como relatórios assinados por pessoas de reputação.

A este pronto, a contrapropaganda do inimigo já estará ativada para a negação: "as histórias de atrocidade em massa e destruição intencional são generalizações maliciosas de alguns exemplos individuais lamentáveis", dirá; o inimigo é vil e falso, não se deve crer em uma palavra da sua boca. É quanto aparecem os exemplos de atrocidades e infâmias realizadas pelo lado que primeiro acusou.

Cem anos antes das invenções das fake news, Lasswell já advertia aos seus leitores que "a propaganda real, onde quer que seja estudada, tem um grande elemento de falsificação. Isso varia desde colocar uma falsa data em um despacho, passando pela impressão de boatos não verificados, chegando até à ‘encenação’ de eventos". Os exemplos são copiosos, vão do uso de imagens, em parte retocadas, do pogrom judeu de 1905 como se fosse uma nova atrocidade inimiga, à falsificação de edições inteiras de jornais do outro país. Ou a invenção pura e simples de fatos.

Nada há de novo sob o sol da propaganda entre as guerras do século 20 e as do século 21. Nem sequer o uso dos horrores como meio de criar animosidade, alimentar o ódio e manter as pessoas em estado permanente de conflito.