sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Pensamento do Dia

 


Sem abdicar da esperança

No Brasil, a reflexão nunca foi razoavelmente prestigiada. Preferimos, sempre, reagir percorrendo o circuito das emoções.

Ocorre que a revolução digital, com a força descomunal das redes sociais, enfraqueceu a mediação reflexiva da informação, acentuando a prevalência, quase absoluta, da emoção sobre a reflexão, em um processo de autoamputação da razão.

Sem juízo de valor, basta ver a capacidade de convencimento dos influenciadores digitais, profissionais ou eventuais, vis-à-vis a mídia tradicional. Seu poder de convencimento é avassalador.

Não é, contudo, um fenômeno local, mas, em menor ou maior intensidade, mundial. Aparentemente, é, também, irreversível, o que imporá uma rediscussão da natureza do Estado e dos institutos que o integram.

Como já ocorreu tantas vezes, talvez estejamos vivendo uma transição entre duas realidades históricas, o que remete à conhecida reflexão do pensador italiano Antônio Gramsci: “O velho está morrendo e o novo não pode nascer; nesse interregno surgem os sintomas mórbidos mais variados”.


Um desses sintomas, hoje, são os movimentos oportunistas que buscam, por meio da manipulação da linguagem, viabilizar interesses próprios, nem sempre legítimos, gerando uma peculiar guerra de palavras.

Grandes dicionários costumam eleger a palavra do ano. O Merriam-Webster, que nos dois últimos anos destacou as palavras pandemia e vacina, elegeu, para este ano, “gaslighting”. Segundo ele, essa palavra corresponde ao ato ou prática de enganar grosseiramente alguém especialmente para vantagem própria, de forma mais elaborada que a mentira improvisada, porque decorre de um planejamento com propósitos iníquos. O Brasil é um terreno fértil para esses atos ou práticas, em virtude de nossa acanhada capacidade de reflexão.

Nesse delicado contexto, que se soma ao imprevisível curso das mudanças climáticas, à guerra da Ucrânia e outros focos de tensão bélica, ao desabastecimento alimentar, à inflação em escala internacional e à crise da democracia, teremos a instalação de um novo governo no Brasil, em circunstâncias em que se constatam visíveis e irresolutas instabilidades institucionais.

É previsível que surjam muitos projetos governamentais para enfrentar os problemas atuais e um futuro desafiador. Ainda que possa parecer uma platitude, é recomendável que a ação política seja pautada pelo comedimento de linguagem, desarmamento dos espíritos, planejamento centrado em diagnósticos e em escolha de soluções qualificadas, e negociação sem apelo a meios pouco virtuosos.

Por que o mundo precisa de um tratado global sobre plástico

De nossas embalagens a nossas roupas e eletrodomésticos – o plástico está presente em quase todos as áreas do consumo.

Mas um tratado global para conter essa torrente de poluição pode mudar as coisas. No início deste ano, líderes mundiais reunidos numa conferência das Nações Unidas votaram por unanimidade pela elaboração de um acordo juridicamente vinculativo sobre o plástico até 2024.

"Este é o acordo ambiental multilateral mais significativo desde o acordo de Paris. É uma apólice de seguro para esta geração e as futuras, para que elas possam viver com plástico e não serem amaldiçoadas por ele", disse então Inger Andersen, chefe do Programa Ambiental da ONU.

Agora é a vez de um comitê de negociação, formado por delegados da ONU, agências especializadas e ONGs, acertar os detalhes. Nesta semana, o grupo se reúne no Uruguai para a primeira rodada de negociações sobre como abordar a produção, o design e o descarte do plástico.
A dimensão do problema

Embora existam muitas estatísticas sobre a produção de plástico, ativistas dizem que não se pode saber ao certo quais são os números reais. Não há requisitos globais para que a indústria relate sua produção, mas a magnitude da crise é clara.

A Fundação Heinrich Böll, uma fundação política da Alemanha, estima que 8,3 bilhões de toneladas métricas de plástico foram produzidas entre 1950 e 2015. Isso é mais de uma tonelada por pessoa vivendo no mundo hoje. Disso, a maior parte foi para produtos e embalagens de uso único – e menos de 10% foi reciclado.

O restante é queimado, despejado em aterros sanitários ou jogado na natureza, nos quais os animais podem ficar presos ou comer e se engasgar.

Animais de engasgam com plásticos em seu habitat

Uma vez em nossos ecossistemas, o plástico pode lá permanecer por centenas de anos. A bem da verdade, ele nunca desaparece completamente, mas apenas se decompõe em fragmentos cada vez menores, que têm um alcance ainda maior. Os microplásticos contaminam a nossa água potável, o ar, o solo e os alimentos. E, como resultado, o corpo humano. A ciência ainda está dividida sobre as ameaças à nossa saúde.

Mesmo assim, a produção não mostra sinais de desaceleração. Se as políticas públicas não mudarem, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que o consumo de plástico deve aumentar de 460 milhões de toneladas métricas em 2019 para 1,2 bilhão de toneladas em 2060.

Dois setores estão particularmente interessados ​​em manter as vendas de plástico em crescimento: o petroquímico e o de combustíveis fósseis, já que a maior parte do plástico é feita com produtos químicos derivados do petróleo e do gás natural. Essa matéria-prima representa 12% da demanda global de petróleo, uma parcela que deve crescer, de acordo com um relatório de 2018 da Agência Internacional de Energia.

Muitos especialistas ambientais dizem que uma crise global como a da poluição plástica também exige uma resposta global para combater o problema.

No momento, a legislação difere de país para país e tem graus variados de sucesso. Muitas leis visam plásticos feitos de material não reciclável ou projetados para serem descartados rapidamente.

A União Europeia, por exemplo, proibiu produtos de plástico de uso único, como cotonetes, talheres, pratos ou canudos. A Nova Zelândia também não permite embalagens de alimentos de poliestireno e bandejas de alimentos de PVC. Bangladesh, Quênia e vários outros países africanos proibiram as sacolas plásticas.

Outros grandes poluentes, como os EUA, não têm nenhuma lei federal que regule o uso de plásticos descartáveis. Mas o lixo tem consequências internacionais, seja quando levado para ecossistemas de outras nações ou exportado para aterros sanitários no exterior.

"No momento, temos uma verdadeira colcha de retalhos na legislação", disse Christina Dixon, da Agência de Investigação Ambiental do Reino Unido. "Mas o plástico, como material e como poluente, é totalmente transfronteiriço. Portanto, é incrivelmente difícil administrar algo que flui pelo ar, pelas correntes oceânicas e pelo comércio."

Embora a poluição plástica seja frequentemente enquadrada como um problema de gerenciamento de resíduos – de que a reciclagem precisa ser intensificada –, muitos especialistas dizem que precisamos é olhar para a origem do problema.

"Não podemos lidar com a poluição plástica sem lidar com a produção de plástico", disse Dixon.

À medida que a produção de plástico virgem aumenta, ativistas estão pressionando para que o tratado global inclua proibições e restrições a novos materiais. Isso significa que a economia teria que repensar o consumo e priorizar a redução dos resíduos plásticos em vez da reciclagem ou do descarte.

Mas, para que isso aconteça, é preciso haver dados melhores, diz Dixon. Ela quer que os negociadores criem um padrão global para que os vendedores relatem quanto produzem, onde obtêm seus petroquímicos e como seu plástico é composto.

"Se tivermos a elaboração de relatórios como uma obrigação legal mínima, isso criará a capacidade de estabelecer restrições a certos tipos de polímeros problemáticos e estabelecer metas para limitar e reduzir gradualmente a produção", disse ela. "Sem o relatório, o tratado está realmente fadado ao fracasso."

Dixon também espera que o tratado estabeleça um fundo para ajudar as economias em desenvolvimento na transição para o abandono do plástico. De acordo com um estudo publicado na Science Advances, países de alta renda, como os EUA e o Reino Unido, foram responsáveis pela maior quantidade de lixo plástico produzido per capita em 2016. Os efeitos, porém, são sentidos em todo o mundo.

O comitê tem apenas dois anos para decidir sobre esses fatores. O prazo apertado mostra a urgência do problema, mas também dificulta as condições.

"Eles precisam encontrar um equilíbrio entre agir rapidamente e projetar um instrumento realmente robusto que será eficaz nos próximos anos", disse Dixon.

Bolsonaro já era, por absoluta incapacidade de se reinventar

Uma coisa é o que dizem para consumo público os políticos que cercam de perto o presidente demissionário Jair Bolsonaro, calado, perplexo e desocupado desde que perdeu a eleição.

Outra bem diferente é o que eles dizem quando conversam entre si no escurinho do cinema, ou nos gabinetes da República à prova de escuta dos curiosos, especialmente dos jornalistas.


Para consumo público, eles dizem, ou pelo menos diziam até um dia desses, que Bolsonaro, pouco a pouco, voltava a governar, que já dava ouvidos aos outros, e que em breve recuperaria a voz.

Intramuros, dizem o contrário. Que Bolsonaro continua apático, macambúzio, sofrido, que não fala porque não tem nada a dizer, e que dificilmente será o líder da oposição ao governo Lula.



Bolsonaro sempre gostou de impor suas vontades, e quando as via ameaçadas, falava muito, batia na mesa, distribuía desaforos, e valia-se da caneta cheia de tinta para intimidar os desafetos.

Jamais em 27 anos como deputado federal ele foi homem de partido. Passou por 9 e está no décimo, o PL de Valdemar Costa Neto. Operava como um franco atirador do baixo clero da Câmara.

Esteve a ponto de encerrar sua carreira por cansaço e desânimo. Sentia-se sem futuro na política. Aí, teve a ideia de ser candidato a presidente para impulsionar a carreira dos filhos.

Foi então, para seu próprio espanto, que se deu bem. Foi então, depois de quatro anos, que se deu mal. Entrou para a história como o único presidente que não se reelegeu, e o pior de todos.

O que ele teria a dizer aos seus eleitores hoje? A maior parte dos que votaram nele queria evitar a volta de Lula. A minoria que poderia votar novamente sente-se órfã e começa a criticá-lo.

Transcorrido mais de ano em que tentou desacreditar o processo eleitoral, reconhecer a derrota seria contraditório. Tendo se empenhado pelo golpe, não pode mandar os golpistas para casa.

Acreditou que os partidos que o apoiaram, comprados com o Orçamento Secreto, estariam ao seu lado na vitória ou na derrota. Não foi o que aconteceu. E ele está revoltado.

Quando a Alemanha, na Copa do Mundo de 2014, goleou o Brasil por 7 x 1 e sagrou-se campeã, muito se disse que o futebol jogado por ela viera para ficar e seria copiado pelos demais países.

Na Copa de 2018, a Alemanha emperrou na fase de grupos. Na Copa do Catar, ora em curso, foi o que se viu ontem. O futebol alemão será obrigado a se reinventar, e certamente o fará.

Quanto a Bolsonaro, por absoluta impossibilidade, já era.

A volta da política cala Bolsonaro

Lula reinaugura a política em Brasília. Até agora tem sabido, para ficar na metafísica influente destes dias, como tocar e lançar a bola, a despeito da rabugice "Duzmercáduz" e de setores consideráveis da imprensa, que odeiam justamente a... política. "Rabugem", a propósito, é sinônimo de sarna. O rabugento está sempre se coçando, numa inquietude viciosa.

Jair Bolsonaro se queda em silêncio porque moralmente derrotado, incapaz de se apresentar a suas milícias com a conhecida altivez burra e truculenta. Faz soar, na sua quietude, o apito de cachorro para manter mobilizados os zumbis do golpismo, enquanto Eduardo, o filhote, vai à farra no Qatar levando consigo supostos "pen drives" sobre "a atual situação do Brasil"... Mas há mais do que o peso da derrota.

Aquele que, para todos os efeitos, ainda preside o país nada diz porque se vê cercado, de súbito, por um ambiente que lhe é absolutamente estranho e ao qual sempre se mostrou hostil: a negociação. Quando chegou à Presidência, tinha uma carreira de quase 30 anos como deputado federal, trilha profissional seguida pelos filhos. O clã havia encontrado um meio de ganhar a vida e de acumular um formidável patrimônio —parte em dinheiro vivo—, mas se dedicava a que causa pública mesmo?


O líder petista indicou vários nomes para se acercar da herança do "imbrochável" amuado, mas é evidente que é ele, não um preposto enfatuado e arrogante, a negociar, por exemplo, a PEC da Transição. O eleito já se encontrou duas vezes com Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (PSD-MG), presidentes, respectivamente, da Câmara e do Senado.

Não sei se Lula consegue a aprovação da PEC pelo pico, com um valor de R$ 198 bilhões, excepcionalizando-se por quatro anos os R$ 175 bilhões do Bolsa Família. Seria o melhor, mas é provável que não leve tudo: alguns falam em favor de dois anos, tempo para se arranjar outra âncora fiscal. Frise-se: essa eventual nova amarra —teto de dívida, por exemplo— é só métrica diversa. O dinheiro é um só. O que se busca é um critério confiável para conter gastos, mas que tenha um efeito virtuoso na economia, em vez de conduzir ao sucateamento de bens e de serviços públicos, com superávit primário chinfrim e insustentável em meio ao caos.

A negociação virou instrumento para a formação da futura base de apoio e para a eleição das respectivas Mesas da Câmara e do Senado. O PT apoiará a recondução de Pacheco, como o esperado, e de Lira, o que constrange alguns bons. É do jogo. Ignorando-se os limites da realidade, não se consegue nem tomar um Chicabon, para ecoar Nelson Rodrigues.

"Ah, mas e a permanência do orçamento secreto"? Como existe, é uma excrescência e não vai se tornar virtuoso porque Lula será o presidente. Parece-me, no entanto, que, por ora, já é grandeza demais dotar o país de uma peça orçamentária realista; reconstruir a governança destroçada em qualquer área que se analise; reinserir o Brasil na economia verde; enfrentar —e isto ainda reserva sortilégios futuros, podem apostar— um processo de normalização do golpismo, que contamina até setores da imprensa, e reinstaurar o espaço da divergência que não pressuponha a eliminação do outro. O "bolsofascismo" veio para ficar. O desafio consiste em circunscrevê-lo, aprisionando-o nos nichos da delinquência política.

Antes de escrever essa coluna, voltei ao noticiário do início de dezembro de 2018. Bolsonaro, presidente eleito, dedicava-se a atacar a legislação ambiental, e Guedes explicava como aprovaria medidas salvacionistas apelando às "bancadas temáticas", não aos partidos. Deu tudo errado. No dia 26 de maio de 2019, o Planalto já patrocinava o primeiro ato golpista contra o STF e o Congresso. Um dos alvos era Rodrigo Maia, então presidente da Câmara, que conduzia a reforma na Previdência e teria, no ano seguinte, papel central na PEC de Guerra contra a Covid. Nem por isso parou de apanhar.

Eram os primeiros passos do desastre. "Uzmercáduz" reagiam com menos estridência do que a uma simples entrevista de Lula afirmando que a responsabilidade fiscal não pode levar à irresponsabilidade social. Estão desatualizados. Precisam redescobrir o capitalismo e a política.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

O que os militares mais temem é a perda dos privilégios adquiridos

Assim como se normalizou Bolsonaro e os absurdos que ele cometeu até aqui, o país correrá perigo caso normalize também a insubordinação militar diante do fato de Lula ter sido eleito.

É isso o que acontece no momento. Se vai haver ou não uma escalada da insubordinação, ninguém pode afirmar com segurança. Só depois que Lula for diplomado e tomar posse.

Nunca os militares acolheram manifestantes que pedem um golpe. Nunca os comandantes ameaçaram pedir demissão por se opor ao presidente eleito. É de insubordinação que se trata.

O Alto Comando das Forças Armadas bolsonarizou-se. O atual presidente governa por delegação dos seus antigos pares, e se dependesse somente deles, teria sido reeleito.

O golpe de 64 foi dado sob o pretexto de defender a democracia ameaçada pelo comunismo. Suprimiu-se a democracia por 21 anos. O comunismo, hoje, não existe mais, salvo na China capitalista.

Se houvesse um novo golpe, qual seria o pretexto? Que a Previdência especial para os militares será suspensa? Que os mais de 6 mil militares empregados no governo perderão o emprego?

Alegações fisiológicas podem pesar, mas não ser admitidas publicamente. Como justificar um golpe? Por que os militares sempre foram de direita, e Lula e a sua turma de esquerda?

O Centrão, em acelerado processo de entendimento com o novo governo, é de esquerda? Geraldo Alckmin, o vice-presidente, é de esquerda? Simone Tebet (MDB) é? Foram todos abduzidos?

Sem falar do presidente americano Joe Biden, que se não vier à posse de Lula estará pronto para recebê-lo antes disso na Casa Branca, como fez em 2002 o então presidente George Bush.

A revolta dos militares com a eleição de Lula alimenta-se do medo de perder os privilégios adquiridos. De volta ao poder sem disparar tiros, imaginaram ali permanecer por um longo tempo.

Lula e seu ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, terão uma parada indigesta pela frente, é verdade. Mas não lhes faltam habilidade e experiência para vencê-la. São bons negociadores.

A revolta dos militares com a eleição de Lula alimenta-se do medo de perder os privilégios adquiridos. De volta ao poder sem disparar tiros, imaginaram ali permanecer por um longo tempo.

Lula e seu ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, terão uma parada indigesta pela frente, é verdade. Mas não lhes faltam habilidade e experiência para vencê-la. São bons negociadores.

Pensamento do Dia

 


Uma rima para patriotas

Em Pernambuco, um patriota abraçou-se a um caminhão para impedir que ele furasse um bloqueio na estrada e rodou crucificado ao para-brisa por quilômetros em alta velocidade. No Paraná, patriotas de mãos dadas cantaram o Hino Nacional para um pneu entronizado no meio da rua –o pneu ouviu o hino em respeitoso silêncio. No Rio Grande do Sul, outra multidão de patriotas piscou seus celulares para o céu, tentando supostamente chamar a atenção de E.Ts. para que venham impedir a posse de Lula.

Já para uma patriota talvez também gaúcha, não há motivo para desespero. No dia 1º de janeiro, Brasília será palco de uma metempsicose: a alma de Bolsonaro transmigrará para o corpo de Lula no ato de posse e Bolsonaro continuará governando, só que no corpo do inimigo. A vidente não explicou o que será do corpo de Bolsonaro, subitamente oco, ou se a alma de Lula, despejada e sem teto, se mudará para o dele.


Enquanto isso, alheios ao Além, mais patriotas fazem penosas vigílias diante de quartéis pelo país, aguentando frio, chuva, água pelas canelas, sem ter onde sentar, passando a esfiha e pizza fria, dormindo ao relento e aliviando-se em banheiros químicos ou no mato –tudo isso para que as Forças Armadas saiam do conforto e cumpram sua obrigação de salvar o país com uma intervenção federal, digo golpe.

Por sorte, nem todo mundo aderiu à insânia. Políticos, empresários, agros, pastores, partidos e até militares, que se faziam de bolsonaristas hidrófobos, já estão conversando com o novo governo. Eduardo Bolsonaro, filho 03, foi flagrado vibrando na torcida brasileira no Qatar, indiferente ao desespero dos patriotas. E, pelo sumiço, prostração e silêncio de quase um mês, nem Bolsonaro, abandonado pelas redes digitais, quer saber mais de Bolsonaro.

O bolsonarismo está se tornando uma seita em extinção e seus últimos fiéis são patriotas sujeitos a uma rima óbvia.

Necessidades são únicas


De que serve discutir as ideologias? Se todas se demonstram, também todas se opõem, e semelhantes discussões fazem duvidar da salvação do homem. Ainda que o homem, por todo o lado, à nossa volta, revele as mesmas necessidades.
Antoine de Saint-Exupéry, "Terra dos Homens"

O que mudou nos meus 30 anos como correspondente no Brasil

Quando cheguei ao Brasil com minha credencial de jornalista de economia, há exatos 30 anos, em novembro de 1992, o país era outro. O espírito de otimismo da jovem democracia havia se perdido há muito tempo no caos econômico.

Meu primeiro texto foi sobre o impeachment de Collor. Política e economicamente, o Brasil estava amplamente isolado do mundo. Com uma política monetária e financeira caótica. Com empresas dirigidas como negócios de família provincianos.

Após meses de idas e vindas, consegui uma entrevista com o diretor da Petrobras. Tive a impressão de caminhar por horas a fio por corredores escuros da futurista sede de concreto da empresa. Hordas de funcionários viam televisão ou conversavam com secretárias e servidores de café de fraque. O diretor não estava. Ninguém sabia dele. Mais tarde, meu suposto entrevistado viria a ser uma figura-chave nas investigações da Lava Jato.

A inflação era tão alta que, quando circulamos com centenas de milhares e milhões de cruzeiros, meu sogro alemão se lembrou do período da República de Weimar (1918-33). No centro de São Paulo, trocamos algumas notas de dólar por gordos maços de dinheiro e os escondemos em sacolas de compras. As transferências de uma conta para outro banco eram penalizadas com altas taxas.

Quase todos os bens de consumo duráveis eram caros e ruins. Paguei 3 mil dólares por uma linha telefônica – meus editores-chefes em Düsseldorf pensaram que eu estava passando a perna neles. Carros custavam uma fortuna.

Durante minhas primeiras entrevistas com bancos de investimento, fiquei surpreso por sempre conseguir falar pessoalmente com seus presidentes. Eles estavam entusiasmados por finalmente um jornalista estrangeiro especializado em economia se interessar novamente por títulos e ações brasileiras.

Então, o Plano Real mudou tudo abruptamente: o Brasil foi reconectado ao mundo. A inflação caiu, investidores chegaram, setores inteiros como telecomunicações e mineração foram privatizados. Isso também lançou as bases para empresas de sucesso como a fabricante de aeronaves Embraer.


Quando o Brasil finalmente se tornou a estrela dos mercados emergentes nos anos 2000, nada parecia atrapalhar sua ascensão a potência global. O Brasil, o quinto maior país do mundo, estava a ponto de se tornar também a quinta maior economia. Entre 2005 e 2008, dezenas de empresas entraram na Bolsa e passaram a valer bilhões de dólares de um dia para o outro. Companhias como Ambev, Vale, Itaú e Petrobras deram a volta ao mundo comprando empresas. Empresas brasileiras nunca haviam tido tamanha presença no cenário internacional.

Não apenas o Brasil se tornou um fornecedor de alimentos e matérias-primas para o mundo, como também milhões de brasileiros ascenderam à classe média. Eles podiam pagar por coisas com as quais nunca haviam sonhado: seguros, viagens internacionais, um curso universitário.

Centenas de delegações comerciais e políticas da Alemanha viajaram ao país e se maravilharam com o Pão de Açúcar. Mas isso não durou muito: entrevistei Eike Batista, Norberto Odebrecht e alguns outros empresários que pouco tempo depois estariam sentados sobre as ruínas de seus próprios impérios.
Década perdida

Os anos 2010, com o impeachment de Dilma, os governos Temer e Bolsonaro foram uma década perdida.

A economia brasileira se tornou mais moderna, sem dúvida. O Brasil também conseguiu expandir sua participação como fornecedor mundial de alimentos.

No entanto, quando ando hoje pelo centro de São Paulo, a sensação infelizmente é melancólica. Porque voltou a ser como era no final de 1992: assim como antes, no início da noite as ruas se enchem de moradores que ajeitam as caixas de papelão sobre as quais dormem. Muitos dos bares e restaurantes em torno da Bovespa estão fechados. Entre a Praça da República e a Sala São Paulo, usuários de crack dominam bairros inteiros. Com lixeiras em chamas e moradias ocupadas, as ruas lembram cenários de uma guerra civil.

Agora estou curioso para ver como será a próxima década.

O inadiável retorno aos quarteis

A doutrina do exército como o grande mudo foi introduzida no Brasil pela Missão Militar francesa, comandada pelo então general Maurice Gamelin. A missão chegou ao Brasil em 1920 para promover a modernização e profissionalização das Forças Armadas. Entendia o seu chefe que os militares deveriam se dedicar exclusivamente às suas funções profissionais e via na introdução da política nos quarteis um fator de corrosão e de quebra da hierarquia e disciplina. Compartilhada pelo marechal Cândido Rondon, a ideia de Gamelin não prosperou e o Brasil viveu um longo ciclo de intervenção militar na vida política nacional, muitos deles traumáticos e de longa duração, como foi o caso dos 21 anos de regime militar.

Esse ciclo foi interrompido pela transição democrática de 1985, possibilitando ao país viver o maior período da sua história republicana sem golpes ou quarteladas. Nem mesmo a morte de Tancredo Neves desviou os militares da rota de se manter nos quarteis e a posse de José Sarney ocorreu na mais absoluta tranquilidade. Isso foi possível graças à liderança do general Leônidas Pires Gonçalves, o avalista da posse do vice-presidente eleito junto com Tancredo.


O retorno organizado dos militares aos quarteis fez bem às Forças Armadas, tornando-as uma das instituições mais respeitadas pelos brasileiros. O paradigma inaugurado em 1985 começou a ser quebrado com a assunção do general Eduardo Villas Boas, tendo como pano de fundo insatisfações dos militares com o relatório da Comissão da Verdade, durante o governo Dilma Roussef. Coincidentemente, ou não, desenvolve-se a partir desse episódio a aproximação do então deputado Jair Bolsonaro com militares de alta patente.

Os quatro anos do governo Bolsonaro foram anos de ativismo político dos militares, com a hipertrofia de sua presença no governo em funções estranhas à sua vocação e ao seu papel constitucional. Houve resistência ao aparelhamento das Forças Armadas e o ex-comandante do Exército Edson Pujol é um exemplo de militares que entendem a instituição a qual pertencem como de Estado e não de governo. Por isso mesmo foi demitido, assim como o então ministro da Defesa, general Fernando Azevedo.

Desde a derrota eleitoral de Bolsonaro, as Forças Armadas têm sido submetidas a uma situação de estresse e de anormalidade. Não é natural sua cadeia de comando divulgar quatro notas oficiais sobre as eleições e o quadro político. Bolsonaristas insatisfeitos com o pronunciamento das urnas pregam o golpe em frente aos quarteis. Com o incentivo de Jair Bolsonaro, seu partido, o PL, dá munição aos manifestantes ao ingressar no TSE com uma contestação parcial às urnas eletrônicas.

O Brasil vive a mais longa e a mais agônica transição, desde a redemocratização do país. Quanto mais se aproxima a posse do novo presidente, mais estridente e mais radical são os atos em frente a quarteis, chegando-se ao ponto de se pregar a convocação de colecionadores, atiradores desportivos e caçadores a se insurgirem, de armas nas mãos à diplomação do presidente eleito, no dia de sua posse.

Mais grave: 221 oficiais de reserva, entre eles brigadeiros e almirantes e generais, fazem um manifesto pedindo aos comandantes militares que intervenham contra o resultados das urnas. A cadeia de comando parece estar de mãos amarradas e se vê na contingência de fazer ouvido de mercador à pregação feita sob suas barbas, como é o caso deste manifesto de oficiais de alta patente da reserva.

Mas entre a postura condescendente e o apoio, há uma distância. Segundo reportagem da CNN Brasil, a cadeia de comando começa a perceber os efeitos corrosivos na tropa, pois os atos em frente aos quarteis “estariam gerando problemas de segurança e discussões internas dentro das corporações, uma vez, que segundo fonte que participou do encontro (dos três comandantes das FFAA com Bolsonaro), militares inconformados com o resultado das urnas estariam fomentando protestos com a participação de parentes e amigos.

É a “Lei Gamelin” se manifestando mais uma vez. Quando a política entra por uma porta nos quarteis, a disciplina e a hierarquia saem pela outra. Assim, até para a preservação de seus valores, o segundo retorno dos militares aos quarteis é inadiável. Só desta forma é que poderão se dedicar exclusivamente às suas funções constitucionais. O restabelecimento do primado do poder civil é condição necessária para que isto aconteça e se materializa pela escolha de um novo ministro da Defesa que não venha do mundo castrense.

Quanto maior a demora de Lula em anunciar o nome do futuro ministro da Defesa, maior será a instabilidade desse período de transição entre governos.

O vácuo é extremamente perigoso em área tão sensível. O presidente eleito parece ter entendido isso. Queimou a etapa de formar um grupo de transição da defesa ao anunciar que na próxima semana divulgará os três comandantes militares de seu governo.

A tendência é a observância do critério da antiguidade, tão caro às Forças Armadas. No pacote virá também o anúncio do novo ministro da Defesa, muito provavelmente o ex-presidente do TCU José Múcio Monteiro, um conservador com trânsito em todos os campos políticos. Da esquerda até Bolsonaro, que o queria como ministro de seu governo.

Espera-se que o espírito conciliador de José Múcio e a indicação dos novos comandantes das três armas contribuirão para que a passagem do bastão na cadeia de comando venha a ser o primeiro passo para o impostergável retorno dos militares aos quartéis.

Só assim o exército voltará a ser o grande mudo, como defendia o marechal Cândido Rondon.

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Pensamento do Dia

 


De onde vem e para onde vai o dinheiro do agronegócio brasileiro?

Para responder essa pergunta tão importante para todos os brasileiros, algumas preliminares precisam ser apresentadas. O conceito de Agronegócio ainda não é muito claro na sociedade em geral, pois o imaginário da agropecuária é muito arraigado em nossas mentes, seja pelo histórico da atividade econômica, seja pela literatura e arte visual. Para entender o moderno conceito de agronegócio temos que recorrer a John Davis e Ray Goldberg, que em 1957, no livro “Concept of Agribusiness”, iniciou uma mudança na forma de entender a produção agropecuária e as suas relações na economia dos países.


Com este novo entendimento, percebeu-se que a atividade é uma grande cadeia de relações (ou sistema), que inicia nas indústrias de insumos e máquinas, engloba o mercado de terras, legislação, sistema financeiro, educação e políticas públicas. Passa para fase de produção agropecuária, propriamente dita, e continua nas indústrias de processamento, logística, exportação, atacadistas, varejistas e chega no consumidor final. Enfim, agronegócio é um gigantesco sistema de múltiplas relações e que movimenta muito (mas, muito mesmo) dinheiro, pessoas e interesses. Outra característica importante do agronegócio é saber onde o dinheiro circula e é concentrado. Esta concentração irá definir quem controla este grande sistema. Quem tem mais dinheiro, manda.

Segundo um estudo de Goldberg, com dados do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), aproximadamente, 80% dos valores circulantes estão no setor antes da porteira e depois da porteira, ou seja, a agropecuária é essencial no processo, mas não coordena o sistema de produção. Munidos desta compreensão, é possível vislumbrar que o dinheiro do Agronegócio, ao final do processo, é concentrado na mão de quem detém as indústrias de insumos, processamento e distribuição. Outro aspecto importante, é que neste modelo, a produção agroindustrial não pode ser muito diversificada, pois somente com padronização dos produtos é viável aplicar o modelo industrial de produção em série na atividade agropecuária. Com pouca diversidade, as indústrias conseguem atuar em toda a produção com poucos produtos e, com isso, controlar praticamente todo o sistema.

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Líder da frente agropecuária prevê inflação dos alimentos e defende exploração mineralLíder da frente agropecuária prevê inflação dos alimentos e defende exploração mineral

Queda de 8% da agropecuária explica recuo do PIB no terceiro trimestreQueda de 8% da agropecuária explica recuo do PIB no terceiro trimestre

Esta concentração em poucos produtos agropecuários, também conduz a uma redução na diversidade de insumos para a produção. Com isso, haverá poucas empresas disputando o mercado e que para dificultar mais ainda a entrada de novos agentes, realizam fusões de proporções planetárias e controlam a maior parte do mercado de insumos e processamento. Segundo estudo do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) de 2019, no ano de 2017, as dez maiores empresas de defensivos agrícolas no Brasil responderam por 80% do total comercializado e se ampliar para as 15 maiores, o total é de 96%. Portanto, boa parte dos gastos com insumos irão ser pagos a um grupo bem pequeno de empresas, sendo a maioria formada por capital estrangeiro. Quanto ao outro extremo da cadeia, o depois da porteira, também caminha a passos largos para a concentração.

Para ilustrar o fenômeno da concentração: o custo de produção do Soja RR, na região centro-sul de Mato Grosso do Sul, para a safra 2021/2022, segundo a Embrapa Dourados, consumirá com insumos, depreciação e custo de oportunidade com máquinas e implementos 59,8%. E o custo total de produção para o mesmo soja e região, poderá consumir de 43,92% a 81,56% da produção, a depender da pior ou melhor previsão dos preços do soja. Conclusão, com a produção e venda do soja, promove-se uma grande circulação de dinheiro, mas, ao final, este terminará nas contas de poucas multinacionais. Enfim, por unidade produzida, o agricultor brasileiro ficará com uma pequena parte deste dinheiro.

Evidente que, ao exportar o produto, o país terá a entrada de dólares que fortalecem as Reservas Externas do país e abastecem a economia de reais depois do câmbio. Este capital, advindo das exportações, será elemento essencial no financiamento da nova produção. Entretanto, estes recursos não vão chegar completamente nas mãos dos produtores, como explicado acima. É necessário considerar que a produção agropecuária é uma atividade de alto risco e o produtor somente consegue se manter na atividade por longos períodos se for abastecido de financiamento externo à propriedade ou se for um produtor de grandes proporções. Para manutenção de produtores médios e pequenos, é necessário prover a atividade de crédito de baixo custo, ou seja, com subsídios. E, atualmente, quem pode propiciar este crédito com juros baixos e alto risco de inadimplência, é o Estado.

Esses recursos disponibilizados à produção agropecuária, originam-se de uma política pública conhecida como Plano Safra, onde o Estado utiliza recursos da poupança rural (49%) e recursos obrigatórios (22%), estes oriundos do VSR (Valor Sujeito a Recolhimento dos recursos depositados à vista nos bancos). Enfim, há um esforço do Estado e, portanto, de toda a sociedade, para financiar a agropecuária, mas boa parte dos recursos não fica especificamente no bolso dos agropecuaristas. Com esse quadro a rentabilidade do agricultor brasileiro tem diminuído, o que conduz a necessidade de crescer em escala de produção para poder manter-se na atividade. Para este crescimento há duas vias: aumentar a produtividade e/ou aumentar a área de produção, que, nos dois casos, implica em grandes investimentos. Este aumento em produtividade implica em aprimorar o sistema industrial de produção, ou seja, investir mais recursos nos insumos das indústrias multinacionais e o crescimento de área implica em comprar novas áreas e avançar na fronteira agrícola. Com as regras ambientais brasileiras, novas fronteiras agrícolas estão se tornando escassas, o que resulta em uma elevação do preço das terras e a tendência natural é que as propriedades sejam cada vez maiores, mais caras e concentradas nas mãos de poucos produtores que consigam atender estas exigências do mercado.

Respondendo à pergunta título do artigo: o dinheiro do agronegócio origina-se em grande parte das exportações e do financiamento público, mas o seu destino final será, em boa parte, os cofres daqueles que coordenam as cadeias produtivas ou de alguns grandes produtores de grandes dimensões. O agronegócio é um dos grandes negócios no Brasil, mas precisa ser mais dos brasileiros.

Os enganados


É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que foram enganadas
Samuel Langhorne Clemens (Mark Twain)

Bolsonaro está se lixando para Eduardo. É Carlos que o preocupa

Derrotado por Lula, hoje faz 30 dias, Bolsonaro perdeu a voz, a vontade de governar e o ânimo pela vida. Arriscou-se a perder Michelle, com quem está casado há 15 anos completados ontem. E afrouxou o estribo que mantinha presos a ele os seus filhos Zero.

Aí deu no que repercutiu muito mal entre seus seguidores mais fanáticos e radicais: enquanto eles enfrentam chuvas torrenciais em acampamentos à porta de quartéis clamando pela anulação das eleições, Eduardo Bolsonaro diverte-se e esbanja felicidade.


E logo onde? No Catar, sede da Copa do Mundo, na companhia da mulher, de uma penca de amigos, e torcendo pela vitória da Seleção Brasileira. Bolsonarista raiz, por força do hábito, veste a camisa da Seleção, mas não torce por ela. É o que eles dizem.

Torcer pela Seleção a essa altura só beneficia o PT e Lula, que venceram uma “eleição roubada”. É justamente por ter sido roubada que eles estão em pé de guerra e cobram uma intervenção militar que a cancele. Pedem também a prisão de Lula.

Não querem só isso. Querem o fechamento do Supremo Tribunal Federal e a prisão de meia dúzia de ministros; entre eles, Alexandre de Moraes, a quem Bolsonaro chamou de canalha no dia 7 de setembro do ano passado. Bolsonaro prometeu desobedecer às ordens dele.

Como continuarão fiéis ao Mito, e aos filhos do Mito, e a uma visão de mundo que eles souberam tão bem vender para convencê-los, quando o mais ideológico dos Bolsonaros faz o que Eduardo fez em ocasião de tamanho sofrimento coletivo?

“Inacreditável que estão no Catar, aderindo ao pão e circo, e o povo aqui clamando em frente aos quartéis para que seja feito algo. Que mancada, hein. Péssimo exemplo. Parece que riem na cara do povo”, escreveu no Twitter um discípulo da família.

Outro escreveu: “No Catar? Enquanto os brasileiros estão debaixo de chuva se manifestando, enfrentando tudo e a todos? Não deveria estar no Congresso lutando pelo povo? Depois cai em descrédito e não sabe por quê!”. E outro, ainda mais revoltado:

“Lamentável a sua postura em meio ao caos, hein, Eduardo? O povo debaixo de sol e chuva na frente dos QGs lutando pelo país, teu pai acabado, chorando em discurso, e vocês aí no Catar, vendo a Copa do Mundo? Lamentável demais.”

Não é a primeira vez, e nem será a última, que Eduardo Bolsonaro (PL-SP), deputado federal reeleito, que se diz amigo do ex-presidente Donald Trump e que ambicionou ser embaixador do Brasil em Washington, decepciona o próprio pai.

Em 2 de fevereiro de 2017, candidato a presidente da Câmara dos Deputados, Bolsonaro deu-se conta da ausência de Eduardo. Bolsonaro sabia que não tinha a mínima chance de se eleger, mas lançou-se candidato só para ocupar espaço na imprensa.

Eduardo, o Zero 3, estava no exterior. O fotógrafo Lula Marques flagrou uma troca de mensagens entre os dois. Bolsonaro teve apenas quatro votos para presidente da Câmara.

Bolsonaro: “Papel de filho da puta que você faz comigo”.

Bolsonaro: “Tens moral para falar do Renan? Irresponsável”. (Referia-se a Jair Renan, o Zero 4)

Bolsonaro: “Mais ainda, compre merdas por aí. Não vou te visitar na Papuda”. (Papuda é a penitenciária de Brasília)

Bolsonaro: “Se a imprensa te descobrir aí, e o que está fazendo, vão comer seu fígado e o meu. Retorne imediatamente”.

Eduardo: “Quer me dar esporro, tudo bem. Vacilo foi meu. Achei que a eleição só fosse semana que vem. Me comparar com o merda do seu filho, calma lá”. (O merda era Jair Renan)

Bolsonaro nunca revelou onde Eduardo estava, o que fazia, e por que poderia ser preso se fosse descoberto. Flávio, senador, o Zero 1, não dá tantas preocupações ao pai, a não ser quando vai à compra de imóveis pagando com dinheiro vivo.

Carlos, vereador, o Zero 2 e o mais instável dos filhos, preocupa Bolsonaro. Ele responde a processos que poderão levá-lo a ser preso por decisão de qualquer juiz da primeira instância. Esse é o principal motivo do desespero em que vive Bolsonaro.

Gil

"O mundo só anda para frente." Gilberto Gil me disse isso há poucos meses quando perguntei se ele não temia um retrocesso maior, que nos levasse aos tempos em que foi preso e viveu exilado em Londres. Afirmou, convicto: "não, não tem isso, não, as pessoas querem viver em paz".

Ao ver a cena revoltante em que Gil e Flora foram acossados e agredidos, uma imagem ficou. Gil parece o tempo todo uns degraus acima da barbárie, como se flutuasse sobre o ódio e a ignorância, sentimentos tão mundanos para quem já alcançou outra dimensão. Naquele patamar em que vivem apenas os deuses da sabedoria, da sensibilidade, da escuta, da paz.

Não foram analistas e cientistas políticos, colegas de profissão, os que acalmaram meu coração diante de todas as ameaças que vivemos e que continuaremos a enfrentar, mas a frase dita num fim de tarde de junho: "o mundo só anda para frente".


Eu me lembrei de livros que ecoam esse otimismo, dos quais falei para Gil em nossa conversa sobre o futuro do país. "Utopia para Realistas", de Rutger Bregman, e "O Novo Iluminismo", de Steven Pinker, olham nessa mesma direção: para frente. O que não significa que o mundo seja cor-de-rosa, que os humanos sejam pura bondade e que a natureza não seja caótica, como pondera Pinker.

Mas em momentos em que vivemos agitações sociais e questionamentos sobre o trabalho, o dinheiro, a família e a felicidade temos a oportunidade de passar por grandes transformações. Bregman cita marcos da civilização que já foram ideias utópicas, tais como o fim da escravidão e o início da democracia, para mostrar que podemos construir uma sociedade melhor com ideias visionárias, mas viáveis.

Humanos subdesenvolvidos são maus, ressentidos, agressivos. Gilberto Gil sabe que o mundo anda para frente porque já chegou num grau de evolução que para a maioria está apenas nos livros, que ainda devo para ele.

domingo, 27 de novembro de 2022

A verdade muito além do fiscal

O ex-ministro Fernando Haddad foi falar com os banqueiros, em nome do presidente Lula, na sexta-feira e defendeu ideias civilizatórias, democracia, normalidade na relação entre poderes e respeito ao pacto federativo. A bolsa caiu e o dólar subiu. A explicação é que acharam que ele foi “vago”. Haddad não podia dar detalhes de coisa alguma, nem ministro é. Mas cabe pensar neste tipo de reação. Bolsonaro abriu guerra com o Judiciário, brigou com estados e municípios, não reconheceu a derrota nas urnas e até hoje conspira contra a democracia. O que gera mais incerteza? O golpismo de Bolsonaro ou a falta de definição sobre a âncora fiscal do novo governo?

Maldita é palavra feia e forte, mas a única possível para definir a herança deixada por Bolsonaro. Há uma devastação no país. Quem seleciona números para dizer que o país melhorou comete erros. Números nada dizem sem o contexto. O orçamento é inexequível. E é também uma arapuca que está tirando capital político e drenando as forças do governo eleito.

Na economia, a arrecadação subiu? Sim, mas em grande parte pela alta da inflação, o que é uma forma espúria de melhorar os dados fiscais. Algumas despesas cresceram em ritmo menor? Sim, mas porque não houve aumento real de salário mínimo em quatro anos e os salários dos servidores civis foram congelados, enquanto os dos militares subiam. A visão seletiva de alguns indicadores não permite uma análise do que está ocorrendo no país.


No mercado se ouve que o temor agora é o tamanho da expansão fiscal do novo governo. Como o ex-ministro Nelson Barbosa explicou, se o governo do presidente Lula gastar os mesmos 19% do PIB que foram gastos neste último ano do governo Bolsonaro, as despesas previstas no orçamento podem aumentar em mais de R$ 140 bi. É que Bolsonaro projetou um aperto fiscal para 2023 em relação à despesa que ele mesmo fez.

Se um liberal na economia quiser dizer que a herança do governo Bolsonaro foi boa terá que abstrair muita coisa. Bolsonaro desmoralizou a governança da Petrobras, subsidiou e manipulou preços dos combustíveis com interesses eleitorais, usou a Caixa Econômica como centro de propaganda, rompeu o teto de gastos várias vezes e em uma delas embutiu um calote, o não pagamento dos precatórios.

Quem for de fato liberal tem que honrar a palavra e repudiar os ataques à liberdade. Bolsonaro durante todo o seu governo ameaçou as liberdades democráticas. Derrotado, conspira para a manutenção do criminoso bloqueio das estradas, que revoga o direito de ir em vir da população. Conspira com a ajuda de “Valdemort” Costa Neto, que inventou mais uma mentira contra as urnas para tentar reverter o resultado legítimo da eleição. Isso eleva muito a incerteza econômica. Num país em que o contrato mais importante, a Constituição, está em risco, tudo está em risco.

Na saúde, o grupo de transição alertou que existem R$ 2 bilhões de vacinas e remédios vencidos ou por vencer. As crianças têm a menor cobertura vacinal em décadas e podem contrair doenças que já haviam sido erradicadas. Na educação, foram cortados 97,5% das verbas para a construção de creches, a merenda escolar está sem reajustes há cinco anos, quando a inflação de alimentos foi de 43%, o programa de combate à violência contra a mulher teve um corte de 90%, o fornecimento de remédios para os pobres tem no orçamento proposto um terço dos recursos que teve no último ano do governo Temer. É exequível esse orçamento? Qual é a previsibilidade que dá um orçamento assim?

A herança do governo Bolsonaro na área ambiental é a maior taxa de desmatamento em dez anos e quatro anos consecutivos de alta da destruição. O crime está mais forte na Amazônia. A conexão entre grileiros, traficantes, garimpeiros ilegais e invasores de terras indígenas provocou vítimas. Será muito difícil para o Estado restabelecer o primado da lei na floresta.

O fiscal não é um tema solto no ar, sem relação com o resto. Consertar toda essa bagunça implica em aumentar gastos. Não permitir a recomposição desses itens de despesas é condenar ao fracasso o governo que nem começou. Como jornalista de economia, tenho sempre defendido e continuarei defendendo a sustentabilidade da dívida pública e o rigor nos gastos do governo. Mas, sejamos sinceros, o país está em escombros.

Réquiem para nossos netos, ou filhos?

Sabemos que nada se cria, nada se perde, tudo se transforma! Não obstante, muitos querem que acreditemos que a gasolina queimada nos veículos desaparece. Confirmando Lavoisier mais uma vez, o acúmulo de gases de efeito estufa mostra que não: ela se transforma em aquecimento global e em quantidade crescente de desastres nada naturais, como enchentes, secas, incêndios e outros. E os subsídios à extração de mais combustíveis fósseis continuam, assim como continuou, por muitos anos, a leniência com o cigarro.

Muitos creem que o desenvolvimento tecnológico virá nos salvar. Foi ele que permitiu a queima de combustíveis, e também itens de conforto como roupas impermeáveis, tapetes e toalhas de mesa resistentes a manchas e ao calor, fio dental, panela antiaderente, etc.! Viva! Viva! Só que, para adquirir estas características esses produtos recebem a adição de PFAS, nome genérico para os per e polifluoroalquil, conjunto de cerca de 12.000 produtos químicos, tóxicos.


Esses PFAS penetram nos nossos corpos pela respiração, pele e alimentos. O governo dos EUA estima que 98% dos norte-americanos o têm no sangue, e que 200 milhões de seus habitantes bebem água com a presença desses também chamados “químicos eternos”, pois não se degradam.

Eles causam câncer, aumento do colesterol, problemas cognitivos e reprodutivos, aumento de peso, danos ao fígado e defeitos congênitos, entre outros.

Estudo recente, citado pelo The Guardian (22/09), revisou 40 outros, realizados nos últimos cinco anos; em conjunto, estes analisaram o sangue de 30.000 cordões umbilicais e encontraram a presença dos PFAS em nada menos que 100% deles. Como não se decompõem, acumulam-se no ambiente, em nos nossos corpos e, com mais intensidade, nos dos fetos. Nossos filhos e netos.’

Assim como as empresas produtoras de cigarro, automóveis e outros, além das extratoras de combustíveis fósseis ou empreiteiras de obras públicas subornaram e subornam autoridades, escamoteiam os riscos e superestimam os benefícios trazidos pelos produtos que lhes geram lucros, também firmas de outros setores fazem o mesmo.

A gigante francesa Saint Gobain poluiu a água que bebem muitos no estado norte-americano de New Hampshire, onde é particularmente elevada a incidência de câncer. Após negar, a empresa acabou por reconhecer que mentiu sobre a quantidade de PFAS usada, assim como a Volkswagen sobre o nível de poluição de seus veículos.

No Brasil, vivemos na ignorância, pois carecemos de estudos que nos informem sobre a quantidade desses produtos em nossas vidas. Por outro lado, muitas “otoridades”, economistas, empresários e jornalistas ficam felizes quando sabem do aumento da produção desses produtos aqui, pois isso eleva o PIB e os permite pensar que comemoram o “progresso”, quando na realidade celebram …. a degradação humana e ambiental!!!

Mantidas essas práticas hoje generalizadas, não celebraremos a vida dos netos, mas desde já podemos encomendar-lhes réquiens.

O barato do absurdo

"É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que foram enganadas". Assim, "nunca discuta com pessoas estúpidas, porque vão lhe arrastar para o nível delas e acabar vencendo por experiência". Estas duas boutades ferinas de Mark Twain podem servir de guia para os perplexos com o embotamento das faculdades mentais de extremistas.

De fato, é tarefa inglória argumentar sobre o grau de realidade de um fato, quando o interlocutor foi emocionalmente capturado por outra certeza, absurda. O fato: TSE, STF, militares, observadores internacionais, governantes à esquerda e à direita no mundo reconhecem a lisura das eleições brasileiras. Mas um empresário retruca: "Creio que é fraude. Mandei caminhões para protestar".


"Creio porque é absurdo" é frase derivada de Tertuliano, teólogo cristão do século três, que queria assim afirmar a fé como transcendental à razão. Só que extremismo nada tem a ver com teologia, e sim com basbaquice, imbecilidade ou estupidez legítima, que é uma forma deliberada de idiotia. Às vezes, o que se diz não coincide com o que se pensa, isso pode ser corriqueiro. Preocupante é o abismo entre um e outro, ocupado pelas ilusões de onipotência do estado de autoexaltação, em que o imbecil veste uma fantasia pretensamente capaz de resgatá-lo de sua miséria existencial. Por insólito que pareça, o absurdo banal é uma droga do extremismo.

Têm se multiplicado na mídia interpretações de natureza psi sobre o fenômeno. Em geral, numa bela língua, mas talvez seja um esforço excessivo. O estúpido, o imbecil, o cretino, o basbaque, o mané não comporta profundidade, é grosseiramente linear. Daí a dificuldade de apreendê-lo pela via da racionalidade culta: busca-se um sentido oculto na cabeça da ovelha, enquanto o comportamento é regido pela mecânica irreflexa do rebanho.

Por mais incômodo e ridículo que seja o despautério nas redes, em frente a quartéis ou sob um céu de ovnis, seria de bom aviso pautar a verve de Mark Twain, uma reflexão prática sobre os impasses do diálogo. Na verdade, isso pode estar ocorrendo, quando até mesmo militares começam a se preocupar mais com o lixo acumulado pelas "livres expressões democráticas" nas portas de suas unidades do que com aquele que enche cabeças "patrióticas" às voltas com picanha e linguiça, ao som de música sertaneja.

Mas estupidez não tem agenda, pode durar. Nesse meio tempo, recomenda-se aos sãos de espírito meditar sobre uma canção ("Le Roi des Cons") do genial Georges Brassens, em que ele diz ser possível rolar por terra a Coroa da Inglaterra, mas "não se destrona o rei dos imbecis". É empresa árdua, certo, porém factível: bem avisadas, as urnas democráticas dão conta do recado.