sexta-feira, 17 de junho de 2022

Pensamento do Dia

 


Incompetência estratégica

“É uma região inóspita, afastada de tudo”, declarou o vice-presidente Hamilton Mourão, nove dias depois do desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, na Terra Indígena Vale do Javari. Mourão já se disse descendente de indígenas; ele é gaúcho de Porto Alegre, mas seu pai é amazonense. Hoje general da reserva, foi comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva em São Gabriel da Cachoeira (Amazonas), de 2005 a 2008, e preside há dois anos o Conselho Nacional da Amazônia Legal (CNAL). Deveria saber que na região onde a dupla sumiu vivem mais de 190 mil pessoas. Como assim “inóspita”?


O Conselho Nacional da Amazônia Legal foi reativado em fevereiro de 2020, vinculado à vice-Presidência da República. Originalmente, o órgão foi criado em 1995, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, subordinado ao Ministério do Meio Ambiente, embora nunca tivesse mostrado ao que veio. Tudo leva a crer que devia ter continuado assim: as três missões de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) promovidas pelas Forças Armadas no combate a crimes ambientais na Amazônia consumiram R$ 550 milhões e não reduziram o desmatamento na maior floresta tropical do mundo. Muito ao contrário, só em maio último, foram abaixo 1.180km² de verde, a maior destruição para este mês desde 2016. Essa dinheirama equivale a quase seis vezes o orçamento do Ibama em 2020 para fiscalização e licenciamento ambientais, e gestão da biodiversidade.

Os militares também se aboletam na Funai: eles ocupam as chefias de 19 das 39 coordenações regionais da fundação, contra duas de servidores públicos, como o Bruno Pereira – as demais foram tomadas por policiais militares e federais, ou por funcionários de cargos comissionados. Desde 2017 já se sabia que o crime organizado estava tomando conta da região onde o jornalista e o indigenista desapareceram; *mas de lá para cá, a situação só piorou.

“As duas pessoas entram numa área que é perigosa sem pedir uma escolta, sem avisar efetivamente as autoridades competentes e passam a correr risco, né?”, disse Mourão sobre o episódio. “Se o lugar onde a gente trabalha é perigoso e precisa de escolta armada, tem uma coisa muito errada aí. E a culpa não é nossa”, rebateu a antropóloga Beatriz Matos, mulher de Bruno.

A autoproclamada eficiência militar virou lenda do Boitatá? Como esquecer a desastrosa passagem de outro general, Eduardo Pazuello, pelo Ministério da Saúde, no auge da pandemia de Covid-19? Considerado especialista em logística, esqueceu-se de abastecer os hospitais da capital amazonense com cilindros de oxigênio. Seu, digamos, descuido levou os hospitais da cidade a entrarem em colapso e pelo menos 31 pessoas à morte, em dois dias. Quando foi efetivado ministro da Saúde, em 16 de maio de 2020, o Brasil contabilizava 233 mil casos e 15.633 mortes por Covid-19; ele deixou o cargo em 15 de março do ano seguinte com mais de 11,5 milhões de infectados, e cerca de 280 mil mortos.

Depois de sair do Ministério da Saúde, Pazuello foi designado para chefiar a Secretaria de Assuntos Estratégicos do Executivo. O que nos leva a pensar: será que não é incompetência, mas estratégia? Para Ailton Krenak, não há dúvida: “Quando os sujeitos do governo falam em preocupação acerca da soberania, eles ocultam a má intenção de entregar todo esse território e virar as costas para a morte de Yanomami, a violência contra o corpo de crianças indígenas, o ataque contra lideranças e defensores dos que estão sendo assassinados semanalmente”.

Não é a natureza hostil que oferece perigo no Vale do Javari, mas os invasores e sua ganância, que se espalham como ervas daninhas – com a indisfarçável negligência ou até cumplicidade do poder público. “Vemos agora o último assalto a uma região do mundo com muita riqueza”, reflete Krenak. O que fazer? O autor do best-seller “Ideias para adiar o fim do mundo” aconselha: “A coisa está virulenta. Não se sabe mais de onde pode sair um ataque. Mas a gente vai superar esse momento. Não dá para nos desencorajarmos. Precisamos não cultivar a mentira e não nos associarmos a versões fajutas da realidade”. Que a verdade seja a nossa arma.

Amazônia: holding do crime

Ali tem o Código Penal completo. Na verdade ali virou uma grande holding criminosa. Existe no crime organizado o fenômeno da convergência. Quem extrai madeira ilegal atua junto com o garimpeiro. O trafico de drogas começa a colaborar. O traficante vira madeireiro, o madeireiro vira traficante
Alexandre Saraiva, delegado da Polícia Federal

Dom e Bruno, vítimas de um Estado disfuncional

A Amazônia sempre foi um lugar perigoso para ativistas. Em 1988, Chico Mendes, líder sindical dos seringueiros, foi assassinado a tiros em Xapuri, no Acre. Em 2005, a religiosa Dorothy Stang, ativista social vinda dos Estados Unidos, foi morta em Anapu, no Pará. Outras dezenas de ativistas pagaram com a própria vida por lutarem contra a devastação da Amazônia e por uma sociedade mais justa no norte selvagem do Brasil.

Nesta quarta-feira, o presidente Jair Messias Bolsonaro mencionou Dorothy, dizendo que ninguém culpou o governo do PT pela morte de Dorothy Stang. Ele acha injustas as críticas que está recebendo pelos comentários infelizes que fez sobre Dom Phillips e Bruno Pereira, e pela situação precária de segurança no oeste amazônico.

Para começar, durante os governos de Lula e Dilma, havia SIM muitas críticas de ambientalistas e ativistas sociais em relação a como o governo petista tratava a Amazônia. "Lula e Dilma passarão para a História como predadores da Amazônia", disse Dom Erwin Kräutler, em 2012, se referindo à construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. O bispo do Xingu também cobrava o governo petista paraense pelo mau desempenho da Justiça estadual em resolver o caso de Dorothy.

Havia também muita frustração por parte do Movimento Sem Terra pelo lento avanço da reforma agrária na região Norte durante os governos petistas. Mas, por outro lado, o governo Lula teve em Marina Silva uma ministra do Meio Ambiente capaz de fortalecer os órgãos de fiscalização na região. Assim, as altas taxas de desmatamento começaram a cair, a partir do primeiro governo Lula, de quase 28 mil quilômetros quadrados por ano em 2004 para 4,5 mil em 2012.

Havia, naquela época, um discurso forte de vontade de preservar a Amazônia. E de pôr ordem na região. O governo Michel Temer abandonou, então, a preservação da floresta em troca de votos da bancada ruralista. Sem ela, Temer não teria terminado seu mandato. Com Bolsonaro, os ventos mudaram de vez. Desde que ele surgiu no cenário político, passou a espalhar seu veneno verbal contra indígenas, ativistas e movimentos sociais. Ele confunde políticas liberais com liberar geral – para garimpeiros, madeireiros, caçadores e fazendeiros.

A partir de 2018, ano em que Bolsonaro alcançou destaque nacional e se elegeu presidente, as viagens para a Amazônia mudaram. Encontramos garimpeiros sem medo da fiscalização, e, ao mesmo tempo, fiscais com medo dos garimpeiros. Cartazes de apoio a Bolsonaro são onipresentes na Amazônia, ao lado das fazendas onde se desmata e se queima a floresta sem medo de punições. Com o governo Bolsonaro, as multas ambientais se foram, levadas pela boiada.

A Amazônia virou uma terra sem lei. Abandonada pelo governo que deveria pôr ordem lá. Aliás, vale lembrar que Bruno Pereira tinha sido exonerado do seu cargo na Funai depois de organizar uma megaoperação contra garimpeiros. Aparentemente, um governo que se diz conservador e de direita não gosta de conservar nem de pôr ordem.

Assim, quem hoje em dia manda em regiões como o Vale do Javari são grupos criminosos, até internacionais, com narcotraficantes vindos do Peru, da Colômbia e da Venezuela fazendo negócios em terras brasileiras. Cadê o Exército brasileiro, que tanto fala da soberania sobre a Amazônia? Está, aparentemente, ocupado em fiscalizar urnas eletrônicas em vez de combater crimes. Cadê a ordem e o progresso?

Quantas vezes ouvimos o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, denunciar ONGs e ativistas estrangeiros por supostamente quererem roubar a Amazônia. Até suspeitava-se que Heleno teria mandado grampear bispos católicos antes do Sínodo sobre a Amazônia, em 2019. Errou o alvo. Buscou comunistas atrás das árvores, mas não viu os narcotraficantes.

Os inimigos do país não são os bispos, nem os fiscais, nem os ativistas ambientaos ou os indígenas. É o crime organizado, que, sob o governo Bolsonaro, se sente livre para se expandir. Não só na Amazônia, aliás, mas também em cidades como Rio de Janeiro, onde cada vez mais áreas estão sob o domínio da milícia.

O Brasil nunca será uma Venezuela, repete Bolsonaro. Bom, pode não ser uma Venezuela, mas cada vez mais, o Brasil parece estar a caminho de se tornar um narco-Estado como o México ou a Colômbia. Uma terra sem lei.

Dom Phillips e Bruno Pereira lutavam contra essa degradação do Brasil. Tarefa que deveria ser do próprio Bolsonaro e seu governo. Por seus serviços pelo Brasil, Dom e Bruno ganharam nada menos que o desprezo presidencial.
Thomas Milz

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Pensamento do Dia

 


Governo parece aceitar uma Amazônia sob domínio de criminosos

No segundo mês de mandato, Jair Bolsonaro mandou avisar que estava declarando "guerra ao crime organizado". O presidente enviou ao Congresso uma mensagem que replicava o marketing da campanha eleitoral e dizia que o governo não teria "pena nem medo de criminoso".

O próprio Bolsonaro faz questão de desmoralizar esse esforço fajuto de propaganda –com os típicos traços de crueldade de seu discurso. Nesta quarta (15), o presidente praticamente responsabilizou o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips por terem desaparecido na Amazônia.

Bolsonaro disse que a dupla fazia "uma excursão" pelo Vale do Javari e apontou que os dois ficaram em perigo porque "resolveram entrar numa área completamente inóspita sozinhos, sem segurança". Como se os assassinos não fossem os únicos culpados, ele acrescentou que era "muito temerário" andar pela região sem estar preparado.


O monitoramento da Amazônia é um desafio para qualquer governo, mas Bolsonaro abriu mão de qualquer empenho. Ele reconheceu que grupos criminosos circulam livremente na região e afirmou que Pereira e Phillips podem ter sido mortos porque incomodavam quem pratica atividades ilegais. "Lá tem tudo o que se possa imaginar", disse.

Dias antes, o vice-presidente Hamilton Mourão havia usado o mesmo tom resignado para falar daquele pedaço da Amazônia. "É uma região inóspita, afastada de tudo", descreveu. "Do lado peruano, uma série de ilegalidades acontecem. Do nosso lado, também. As duas pessoas entram numa área que é perigosa sem pedir uma escolta, sem avisar efetivamente as autoridades competentes, e passam a correr risco, né?"

Mourão e Bolsonaro preferiram não lembrar que a ocupação da área pelo crime organizado também é consequência de décadas de ausência do Estado. Um governo que diz defender a todo custo a soberania e a proteção do território parece mais do que conformado em ver a Amazônia como uma terra sem lei.

Na Amazônia, o coração das trevas

O assassinato dos heróis amazônidas Bruno Pereira e Don Philipps (já se deve falar assim) em plena atividade nas investigações que realizavam sobre atividades ilegais nas remotas regiões do vale do Javari no extremo oeste da Amazônia, além da comoção mundial que suscitou, trouxe para nós com evidência solar o projeto de capitalismo pirata que serve de bússola de orientação do governo Bolsonaro, apresentado sem subterfúgios em reunião ministerial de infausta memória nos idos de junho.


Foi nela que se alardeou o programa de desmatamento sistemático da floresta para fins de expansão do agronegócio, abrindo passagem para a boiada, na expressão do seu ministro do Meio Ambiente, na presença patibular da sua ministra da Agricultura, quando também foram ouvidas manifestações escandalosas de teor predatório das nossas instituições e dos valores cultivados por que há de melhor em nossas tradições nacionais.

O que o país e o mundo não sabiam até o desfecho trágico do assassinato dos amazônidas Bruno e Don era que havia homens com têmpera de heróis que, mesmo desprotegidos e desprovidos de recursos, porfiavam em defesa da floresta e dos seus povos enfrentando riscos mortais, denunciando, mesmo que com baixo poder de vocalização à opinião pública, nacional e estrangeira, os crimes de lesa pátria que ali se praticavam.

A execução criminosa deles destampou para horror universal – alguém já lembrou propósito o Coração das Trevas de J.Conrad – a crueldade a que estavam expostos os naturais da região, particularmente os indígenas, objetos da exploração predatória exercida por uma rede de pequenos interesses que estavam na ponta a serviço de grossos interesses capitalistas, envolvendo inclusive setores do narcotráfico e da traficância de armas, em movimentos expansivos que visavam por sob controle grande parte dos imensos recursos naturais ali disponíveis.

A ocupação criminal daquela região não pode ser encoberta pela razão cínica de que ali o Estado estava a léguas de distância, embora ele contasse com um histórico de presença, mesmo que rudimentar, malbaratada que foi pela ação do governo Bolsonaro em sua política de abrir uma estrada real para a passagem de boiadas, pastos, mineração, das madeireiras e tudo que pudesse ser convertido em objeto de lucro pela ação de caçadores da fortuna, agentes da livre iniciativa na linguagem do nosso governante, num capitalismo flibusteiro renomeado com o solene nome de defesa da soberania nacional.

Será desse lugar remoto da floresta que pela ação destemida de intelectuais locais aliados a indígenas e a segmentos da população amazônida, conscientes da necessidade de interlocução com a opinião pública nacional e estrangeira e com círculos universitários, especialmente os vinculados às universidades da Amazônia, que vai ter partida o movimento até então o mais significativo, pela ressonância externa e interna que provoca, na estratégica questão ambiental para a democracia brasileira.

Dali desvela-se a trama que põe a nu as redes dos interesses do nosso capitalismo autoritário, na antiga conceituação do antropólogo Octávio Velho, cujas raízes estiveram e estão radicadas no mundo agrário solidamente defendidas pelos aparelhos repressivos à disposição dos movimentos expansivos do capital entre nós. Emancipar a região das fronteiras amazônicas do crime organizado, protegê-la por um Estado democrático no que pode vir a ser a missão da iniciativa atual do Senado em instituir uma comissão para averiguar o que se passa no vale do Javari, pois que é de lá que deveremos decifrar o projeto sinistro em curso de assentar no país uma nova floração para o capitalismo autoritário.

O trágico episódio que vitimou nossos bravos amazônidas, trazendo para o centro da agenda do mundo civilizado os temas dominantes no cotidiano de resistência em que viviam, é exemplar do papel transformador que a convicção fundada nos ideais de justiça é capaz de operar.

Quem Bolsonaro culpa pela morte de Bruno Pereira e Dom Phillips

Garimpeiros ilegais que roubam a riqueza das reservas indígenas? Ele já foi um deles quando era soldado. Sempre os elogia. Garimpeiros, legais ou ilegais, votam em Bolsonaro.

Pescadores ilegais que contrabandeiam milhares de toneladas de peixes para países vizinhos? O Ibama finge que não os vê. Votam em Bolsonaro, assim como milicianos, traficantes.

Grileiros de terras indígenas demarcadas ou não? Grileiros de quaisquer tipos de terra na Amazônia? Essa gente sabe ser agradecida. Bolsonaro é seu padrinho, e por isso vota nele.

Desmatadores que trabalham para empresas nacionais ou internacionais, não ganham lá grande coisa, mas o que ganham dá para viver? Bolsonaro anistia suas multas. Eles votam nele.

O crime organizado, nacional e transnacional, que hoje atua em boa parte da Amazônia de vez que a presença do Estado é nenhuma? Por que Bolsonaro o culparia? São parceiros.

Descarte-se os militares. São poucos. Os oficiais contam os dias que faltam para sair dali. Sonham com postos no litoral. Dizem que a Amazônia é nossa, mas sabem que não é. Apoiam Bolsonaro.


Vou dar uma pista de quem Bolsonaro culpa pela morte do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, radicado no Brasil há muito tempo, casado com uma brasileira.

Na Flórida, Estados Unidos, depois de pedir ao presidente Joe Biden ajuda americana para se reeleger, Bolsonaro disse ao comentar o 7º dia de buscas aos dois desaparecidos:

“Eles, quando partiram, as informações que temos é que não foi acertado com a Funai. Acontece, né. As pessoas abusam, né”.

Quer outra pista para descobrir a resposta à pergunta sobre quem Bolsonaro aponta como responsável pelo assassinato bárbaro dos dois? Lá vai. Há 48 horas, Bolsonaro declarou:

“Já se levanta o comportamento deles na área, se era querido ou não. Lamento terem saído da forma como saíram, duas pessoas em terras desprotegidas. Tudo tem ali, até pirata”.

Última pista antes da revelação que você intui ou já sabe: ontem à tarde, a poucas horas de agentes federais descobrirem aonde estavam enterrados pedaços dos corpos, Bolsonaro disse:

“Um inglês e um brasileiro que sabiam dos perigos da região. […] Estão me culpando agora. Quando mataram a Dorothy Stang ninguém culpou o governo, era de esquerda”.

Bingo! Sim, Bolsonaro culpou Bruno Pereira e Dom Phillips pela própria morte. Não poderia ter sido mais claro ao dizer por fim:

“Esse inglês era malvisto, fazia muita matéria contra garimpeiros, questão ambiental, então, naquela região que é bastante isolada, muita gente não gostava dele. Ele tinha que ter mais que redobrada atenção para consigo próprio e resolveu fazer uma excursão.”

Fique sabendo o mundo que quem defende a Amazônia corre risco de morrer no Brasil de Jair Messias Bolsonaro.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Brasil entrega a Amazônia

 


Demos o golpe, e agora?

Num exercício de quiromancia política, pode-se dizer que são mínimas as chances de um golpe nos dias seguintes a uma possível vitória de Lula nas próximas eleições. Mesmo assim, essa afirmação é temerária quando o presidente da República sopra ventos golpistas, e o ministro da Defesa, ex-comandante do Exército, repreende o Tribunal Superior Eleitoral.

Admita-se, portanto, que existem pessoas preferindo um golpe. Para quê?

Em 1968, quando o general Costa e Silva baixou o Ato Institucional nº 5, o Brasil vivia um raro processo de radicalização. Grupos armados de esquerda praticavam atos terroristas. Pelo menos 11 bancos foram assaltados. Em junho, seis meses antes da edição do AI-5, um hospital militar foi atacado, e uma bomba explodiu diante do Quartel-General do Exército em São Paulo, matando um soldado. Em julho, terroristas executaram um major alemão supondo que ele era um oficial boliviano. Em outubro, foi assassinado um capitão americano que vivia em São Paulo.

Noutra ponta, com o terrorismo da direita, militares lotados no Centro de Informações do Exército punham bombas em teatros e livrarias vazias. Espancavam-se atores, e um maluco que se dizia ligado a um general praticou pelo menos 14 atentados em São Paulo. Quatro pessoas foram sequestradas no Rio e levadas clandestinamente para quartéis.

Esse clima não existe hoje. Também não existem os sinais de recuperação da economia, prenunciando o que viria a ser o Milagre Brasileiro.


Recuando um pouco mais, chega-se a 1964, quando um governo ruinoso associou-se à indisciplina militar de marinheiros rebelados. Isso não existe hoje. Acima de tudo, não existe o projeto de uma elite autoritária, porém cosmopolita e reformista. Sabendo o que fazia, o general Castello Branco entregou a gestão da economia a Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões.

Hoje, o que há no bufê é um presidente que, depois de flertar com a indisciplina de policiais militares, demitiu três presidentes da Petrobras para derrubar o preço dos combustíveis, e um ministro da Economia que, com uma inflação de dois dígitos, sugere o congelamento voluntário de preços aos supermercados.

Existem pessoas que flertam com um golpe. Para fazer o quê? O que está na mesa é um autoritarismo retrógrado que, pela força da gravidade, se aproximará do velho salvacionismo latino-americano. O coronel Hugo Chávez era um oficial moralista e aventuroso. Eleito presidente, inventou o bolivarianismo, e deu no que deu.

A carta dos golpes do século passado saiu do baralho. Vale lembrar o que escreveu o general Castello Branco, chefe do Estado-Maior do Exército, no dia 20 de março de 1964:

— Não sendo milícia, as Forças Armadas não são armas para empreendimentos antidemocráticos. Destinam-se a garantir os poderes constitucionais e sua coexistência.

(Naquele tempo, não existiam milícias nas cidades e nas matas do Brasil. Hoje, as milícias dominam bairros em algumas cidades e associam-se ao crime na Amazônia, infiltrando-se na agenda dos agrotrogloditas.)

Como disse o general Hamilton Mourão em julho de 2018, quando o ex-capitão Jair Bolsonaro cavalgava os sonhos da direita nacional: “Existe certo radicalismo nas ideias, até meio boçal”.

Passaram quatro anos, e a boçalidade avançou.

Enquanto corria a barca de Niterói para o Rio

Em memória de Moraes Moreira e para Edson Nunes

 Andei muito de bicicleta, bonde, ônibus, trem e — acreditem — cavalo e mula, mas, acima de tudo, de barca.

A barca com duas frentes (ferryboat) que ligava Niterói ao Rio, mas que nós, niteroienses, concebíamos mais como nos ligando ao Rio de Janeiro, que era a capital da República.

“Pegar a barca para o Rio” era visitar o melhor do Brasil. Voltar para Niterói era retornar ao lado pequeno da Cidade Maravilhosa.

Ir ao Rio e voltar a Niterói salientava a emoção entre o “estar em casa” e o “sair de casa” e esperar inseguro uma condução.

A antiga divisão central entre os espaços de senhores e escravos — ambos, porém, submetidos a um sistema do mais ou menos nobre — fez com que a rua e seus pontos de mobilidade, as “paradas” de bonde e ônibus e a estação das barcas, no caso niteroiense, fossem — como continuam sendo — lugares de ansiedade.


Quando fui ao Rio sozinho pela primeira vez, recebi uma bíblia de conselhos relativos aos perigos dos espaços abertos onde não se é conhecido. Neles, “tudo pode acontecer” e “se pode encontrar qualquer um”. Em espaços de extremado anonimato e sem saber quem é quem, corre-se o risco da “falta de educação” ou de coisa muito pior. E depois ficamos espantados com o “você sabe com quem está falando?” e as balas perdidas...

No caso das barcas, um comportamento tipo “salve-se quem puder” era rotineiro quando os portões se abriam. Havia uma corrida para a barca, cuja fila existia apenas na compra da passagem. Lembro-me da sofreguidão para encontrar lugar em barcas muitas vezes vazias.

O traço distintivo de ir ao Rio era que a cidade só permitia por mar a passagem entre casa e rua, entre o mundo gratuito da casa e o universo do trabalho da rua. Não havia meios alternativos, e a dependência da barca era total, o que fazia com que a distância Niterói-Rio fosse social e simbolicamente acentuada.

Felizmente, foram tempos passados. Hoje, os engarrafamentos da Ponte e a infernal ausência de transporte público tornaram tudo pior.

Todos esses gargalos provocaram uma revolta que muitos pensaram ser o estopim de uma revolução nessa então ansiosa, mas pacata, estação das barcas da Praça Arariboia de Niterói.

Num estudo clássico de Edson Nunes, “A Revolta das Barcas: populismo, violência e conflito político” (que tive o prazer de prefaciar), revela-se detalhadamente como esse local de passagem transformou-se em praça de guerra na manhã de sexta-feira, dia 22 de maio de 1959.

Notei uma aglomeração naquele dia ao descer do ônibus de Icaraí que me levou às “barcas” — de onde eu seguiria de lotação para a Cancela (São Cristóvão), cruzando a pé a Quinta da Boa Vista para o Museu Nacional (que pegou fogo), onde, na então Divisão de Antropologia, eu iniciava um estágio com os professores Castro Faria e Roberto Cardoso de Oliveira. Imediatamente me avisaram que havia uma greve, e estavam faltando barcas para o transporte regular dos milhares de passageiros. Voltei para casa e segui como pude a rebelião.

Rebelião que muitos esperavam fosse o estopim de uma revolução socialista, e outros tomavam como mera rebeldia e abuso “do povo”, incentivado por “elementos políticos” estranhos ao espírito nacional.

Foi esse evento violento — um “quebra-quebra” — que Edson Nunes revela como sendo tecido, além do perene problema do transporte urbano, por forças políticas que envolviam sindicatos grevistas e governantes. Estes, pertencendo a coligações partidárias com ideologias opostas, tiveram que assistir, abafar e resolver.

O estudo revela como essa ambiguidade promoveu uma paralisação que culminou na estatização dos serviços e num ataque, com laivos de uma inversão carnavalesca, à residência dos proprietários das barcas. Depois de infindáveis reuniões, os órgãos oficiais restabeleceram esse serviço essencial e exclusivo. Depois da revolta em que todos ganharam, menos o usuário-cidadão — o povo —, esse eterno perdedor no Brasil. 
Roberto DaMatta

O faminto

Era uma vez um faminto. Passando um dia diante de uma morada singularmente grande, ele se dirigiu às pessoas que se aglomeravam nos degraus da escadaria, perguntando a quem pertencia aquele palácio. “A um rei dos povos, o mais poderoso do Universo” responderam. O faminto foi então até os guardiães postados no pórtico de entrada e pediu uma esmola em nome de Deus. “Donde vens tu?” perguntaram os guardiães, “então não sabes que basta te apresentares ao nosso amo e senhor para teres tudo quanto desejas?” Animado pela resposta, o faminto, embora um tanto ressabiado, transpôs o pórtico, atravessou o pátio espaçoso que se seguia à entrada, assim como o jardim sombreado de vigorosas árvores, e logo alcançou o interior do palácio, passando de aposento em aposento, todos grandes, de paredes muito altas, mas despojados de qualquer mobília; sem se deixar perder no labirinto daquela estranha moradia, ele acabou por chegar a uma ampla sala revestida de azulejos decorados com desenhos de flores e folhagens que compunham agradavelmente com a enorme taça de alabastro plantada no meio da peça, de onde jorrava água fresca e docemente rumorejante; um tapete de veludo bordado com arabescos cobria parte desta sala, onde, recostado em almofadas, estava sentado um ancião de suaves barbas brancas, a face iluminada por um sorriso benigno. O faminto avançou para o ancião de barbas formosas, saudando-o: “Que a paz esteja contigo!” “E contigo a paz, a misericórdia e as bênçãos de Deus!” respondeu o ancião inclinando ligeiramente a fronte. “Que desejas, pobre homem?” “Ó meu senhor e amo, peço-te uma esmola em nome de Deus, pois estou tão necessitado a ponto de cair de fome.” “Por Deus!” exclamou o ancião “é possível que eu esteja numa cidade onde um ser humano tenha fome como dizes? É intolerável!” “Que Deus te abençoe e abençoada seja tua santa mãe” disse o faminto em reconhecimento aos sentimentos do ancião. “Fica aqui, pobre homem, quero repartir contigo o pão e que te sirvas do sal da minha mesa.” E logo o ancião bateu palmas e ao jovem serviçal que se apresentou ordenou que trouxesse o gomil com a bacia. E disse pouco depois para o faminto: “Hóspede amigo, chega-te mais perto e lava as mãos”. E o próprio ancião levantou-se, dobrou o corpo para a frente, e fez com nobreza o gesto de esfregar as mãos debaixo da água que era supostamente derramada de um gomil invisível. O faminto ficou sem saber o que pensar da encenação que seus olhos viam e, como o ancião insistisse, ele deu dois passos e fez também de conta que lavava as mãos. “Ponham a toalha. Depressa!” ordenou o ancião aos servidores “e não demorem em trazer-nos o que comer, que este pobre homem está quase a desfalecer de fome.” Vários servos começaram a ir e vir, como se pusessem a mesa e a cobrissem com numerosos pratos. O faminto, dobrando-se de dor, pensou com seus botões que os pobres deviam mostrar muita paciência diante dos caprichos dos poderosos, abstendo-se por isso de dar mostras de irritação. “Senta-te a meu lado” disse o ancião “e trata de honrar a minha mesa.” “Ouço e obedeço” disse o faminto sentando-se no tapete ao lado do ancião, frente à mesa imaginária. “Senhor meu hóspede, minha casa é a tua casa e minha mesa é a tua mesa. Não faças cerimônia, come enquanto estiveres no apetite.” E como o ancião o estimulasse a acompanhá-lo, o faminto não se fez esperar, logo simulando também tocar nos supostos pratos, espetar bons nacos, e, movendo o queixo, mastigar e engolir a comida inexistente. “Que me dizes deste pão?” perguntou o ancião. “Este pão é bem alvo e muito bom, nunca na vida comi outro que mais me soubesse” respondeu prontamente o faminto, sem forçar sua gentileza. “Que prazer tu me dás, ó senhor meu hóspede! Mas penso que não mereço esses elogios, senão que dirás tu das iguarias que estão à tua esquerda, este assado com recheio de arroz e amêndoas, este peixe em molho de gergelim, ou estas costelas de carneiro! E que dirás do aroma?” “O aroma é embriagador tanto quanto o aspecto e o paladar divinos.” “Não posso deixar de reconhecer que o senhor meu hóspede está animado da maior indulgência para com a minha mesa, por isso mesmo vais provar agora da minha própria mão um bocado incomparável” disse o ancião, simulando tirar entre as pontas dos dedos um bocado da travessa e chegá-lo aos lábios do faminto, dizendo: “Deves mastigar bem!”. O faminto estendeu os lábios para que o bocado lhe fosse introduzido na boca, mastigando-o bastante em seguida, fechando até os olhos de deleite para dar maior realidade à sua representação: “Excelente!” exclamou em acabamento. “Ó meu hóspede amigo, pelo modo como falas bem se vê que és pessoa de gosto, habituado a comer à mesa de príncipes e de grandes; come mais, e que te faça bom proveito.” “Estou satisfeito, já provei de todos os pratos, não posso mais” disse o faminto sorrindo em agradecimento, e mal contendo as dores da sua terrível fome. O ancião então bateu palmas e quando vieram os servos disse: “Podem trazer a sobremesa”. Os jovens servos romperam numa azáfama, agitando os braços em gestos variados e com certo ritmo, depois de tantos outros rápidos e precisos que significavam levantar uma toalha e pôr outra, embora nada fosse mudado. Finalmente o ancião ergueu a mão e eles se retiraram. “Dulcifiquemo­-nos” disse o ancião com algum preciosismo “vamos aos doces: esta torta empolada de nozes e romãs, com certo ar épico, parece muito capaz de nos tentar. Prova um bocado, hóspede amigo, é em tua honra que ela há de ser partida. Tens aqui a calda almiscarada, talvez queiras mesmo polvilhá-la... Come, come, não faças cerimônia.” E o ancião dava o exemplo, imolando colherada sobre colherada, com apetite e requinte, numa encenação tão perfeita, como se saboreasse uma torta de verdade. E o faminto o imitava com arte, embora a fome mais do que nunca lhe contraísse o estômago. “Geleias? Frutas? Tens aqui tâmaras secas, tâmaras em licor, passas... De que é que mais gostas? Por mim prefiro a fruta seca à fruta preparada pelo confeiteiro, não se perdeu o sabor nativo. Tens de provar também esses figos acabados de colher da árvore. Não? E os pêssegos? Talvez prefiras ameixas... Tens aqui, come, come, Deus é clemente com os humanos!” O faminto, que à força de mastigar em falso tinha a boca e a língua e os maxilares cansados, ao passo que o estômago lhe gritava cada vez mais alto, respondeu à insistência continuada do ancião: “Estou satisfeito, senhor, não quero mais nada!”. “É estranho! Pela fome que te trouxe até aqui, hóspede amigo, admira que te saciasses tão depressa; de qualquer forma, foi uma honra dividir minha mesa contigo. Mas ainda não bebemos...” disse o ancião com um leve traço de zomba lhe percorrendo os lábios, e logo bateu palmas e a esse sinal acorreram adolescentes de braços graciosos em suas túnicas claras, e simularam levantar a toalha, pôr outra, e plantar em cima taças e copos de toda a ordem. E o anfitrião, encenando sempre, encheu as taças, oferecendo uma ao faminto que a recebeu com vênia amável, levando-a em seguida aos lábios: “Que vinho sublime!” exclamou ele fechando de novo os olhos e estalando a língua. E mais vinho foi derramado nas taças, e outros supostos vinhos foram trazidos, de muitas espécies e sabores. Um e outro entremeavam a consumação, entregando-se ao jogo instável dos embriagados, pendulando lentamente a cabeça e o meio-corpo, além de muitos outros trejeitos, até que todas as garrafas fossem provadas. E depois de ter deitado tanto vinho nos copos, o ancião interrompeu subitamente a falsa bebedeira, e, assumindo sua antiga simplicidade, a fisionomia de repente austera, falou com sobriedade ao faminto com quem dividira imaginariamente sua mesa: “Finalmente, à força de procurar muito pelo mundo todo, acabei por encontrar um homem que tem o espírito forte, o caráter firme, e que, sobretudo, revelou possuir a maior das virtudes de que um homem é capaz: a paciência. Por tuas qualidades raras, passas doravante a morar nesta casa tão grande e tão despojada de habitantes, e está certo de que alimento não te há de faltar à mesa”. E naquele mesmo instante trouxeram pão, um pão robusto e verdadeiro, e o faminto, graças à sua paciência, nunca mais soube o que era fome.


(Como podia o homem que tem o pão na mesa, o sal para salgar, a carne e o vinho, contar a história de um faminto? como podia o pai, Pedro, ter omitido tanto nas tantas vezes que contou aquela história oriental? terminava confusamente o encontro entre o ancião e o faminto, mas era com essa confusão terapêutica que o pai deveria ter narrado a história que ele mais contou nos seus sermões; o soberano mais poderoso do Universo confessava de fato que acabara de encontrar, à custa de muito procurar, o homem de espírito forte, caráter firme e que, sobretudo, tinha revelado possuir a virtude mais rara de que um ser humano é capaz: a paciência; antes porém que esse elogio fosse proferido, o faminto — com a força surpreendente e descomunal da sua fome, desfechara um murro violento contra o ancião de barbas brancas e formosas, explicando-se diante de sua indignação: “Senhor meu e louro da minha fronte, bem sabes que sou o teu escravo, o teu escravo submisso, o homem que recebeste à tua mesa e a quem banqueteaste com iguarias dignas do maior rei, e a quem por fim mataste a sede com numerosos vinhos velhos. Que queres, senhor, o espírito do vinho subiu-me à cabeça e não posso responder pelo que fiz quando ergui a mão contra o meu benfeitor”.)
Raduan Nassar, "Lavoura Arcaica"

Bolsonaro e o escafandrista do bar do Antonio’s, no Leblon

Como discordar de Bolsonaro quando ele diz, como disse, ontem, a um grupo de empresários paulistas:

“Eu não tinha nada para estar aqui na presidência. Nem levo jeito. Nasci para ser militar. Entrei na política meio por acaso”.

Dá para discordar do que disse em seguida, referindo-se à sua eleição há quatro anos:

“Deus botou a mão sobre o Brasil”.


Se tivesse posto, a pandemia não teria recebido passe livre do governo para matar mais de 667 mil pessoas, nem haveria 33,4 milhões de famintos, nem a situação do Brasil teria piorado.

Acostumamo-nos com o que diz e faz Bolsonaro por mais estúpido que seja. E mesmo que ele não se reeleja, a naturalização da estupidez será o seu maior legado, para desgraça do país.

Conta a lenda que nos anos 1970, um escafandrista, vestido com sua pesada roupa de mergulho, entrou no bar e restaurante Antonio’s, reduto da boemia carioca, no Leblon. Sentou-se a uma mesa de canto, tirou a máscara e pediu um chope.

As outras 12 mesas estavam ocupadas, o alarido era grande, mas todos fingiram não ver o escafandrista. Depois de algum tempo, o jornalista João Saldanha, irritado com a indiferença coletiva diante do inusitado, subiu numa cadeira e falou em voz alta:

“Gente, tem um escafandrista entre nós e isso não é normal”.

Ninguém disse nada e a vida seguiu.

Gente, não é normal que Bolsonaro tenha pedido ajuda americana para derrotar Lula em outubro próximo. E logo no seu primeiro encontro com o presidente Joe Biden.

Bolsonaro apoiou a reeleição de Trump e sua tentativa de dar um golpe que culminou com a invasão do prédio do Congresso. Foi um dos últimos chefes de Estado a parabenizar Biden pela vitória.

Será que ele imaginava ouvir de Biden que os Estados Unidos apoiariam sua reeleição? Biden mudou de assunto. A informação vazou e foi publicada, deixando Bolsonaro mal na foto.

Gente, não é normal que de Los Angeles, onde se reuniu com Biden, Bolsonaro tenha voado a Orlando e liderado uma motociata na companhia de um blogueiro foragido da justiça brasileira.

Anderson Torres, ministro da Justiça, assistiu à cena. Para não ser preso por ordem do Supremo Tribunal Federal, o blogueiro fugiu com a ajuda de um dos filhos de Bolsonaro, Eduardo, o Zero Três.

Gente, também não é normal que Bolsonaro vá sábado a Manaus para outro passeio. Manaus é o coração da Amazônia onde desapareceram o indigenista Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips.

Pertences dos dois já foram achados, mas seus corpos, não. O crime chocou o mundo, menos a Bolsonaro, que chamou Pereira e Phillips de aventureiros e culpou-os pelo que aconteceu.

Não, gente, não é normal que um presidente da República proceda dessa forma. Seu despreparo para o cargo que ocupa não justifica tamanho desamor pela vida alheia.

Das sete vezes em que Bolsonaro se elegeu deputado federal, cinco foram pelo voto eletrônico que ele agora quer desacreditar. Pelo voto eletrônico, elegeu-se presidente.

Dia sim, outro também, Bolsonaro apregoa que não haverá eleições se as urnas não puderem ser auditadas. Ele sabe que elas podem e serão auditadas, mas seu propósito é tumultuar o país.

Está à procura de um acordo por debaixo do pano com a Justiça. Topa aceitar o veredito popular, seja qual for, desde que em caso de derrota não seja preso, nem seus filhos.

Gente, uma coisa dessas definitivamente não é normal. E de nada adianta fingir que não vemos.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Chamadas a dar ideias, Forças Armadas querem ser fiscais e superiores ao TSE

O TSE acolheu muito mais do que se imaginava das sugestões das Forças Armadas para a eleição. Acolheu seis totalmente, e quatro parcialmente. O levantamento divulgado pelo tribunal é uma resposta ao ofício do ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, em que o general fez ameaças e exigências ao TSE.

A única sugestão dos militares rejeitada foi a divulgação das listas de abstenções e os dados de óbitos, o que, segundo o TSE, violaria a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais.

As Forças Armadas não entraram nessa conversa com boas intenções. Desde que foram chamados para participar de um conjunto de outras entidades da sociedade para oferecer sugestões. Eles distorceram o sentido do convite de dar sugestões e acham que o TSE acate as ideias como se fossem ordens. Elas colocaram, nessa nota, como um poder acima do Tribunal, passando a cobrar que tudo que disseram seja aceito.

Sendo que nas 88 perguntas e nesta nota divulgada na sexta-feira, usam um tom absolutamente inconveniente, dando ordens ao tribunal. Em um trecho, em negrito, o ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira diz que 'cabe destacar que uma premissa fundamental é que secreto é o exercício do voto, e não sua apuração'.

Não há apuração secreta. Quem disse isso para ele foi o presidente da república em mais de uma das suas mentiras. Querem dar ares de verdade à afirmação do presidente de que o voto é apurado numa sala escura com seis pessoas. 

A carta é cheia de minúcias para parecer que é técnica, mas não é. É uma discussão política e perigosa. No item 19, o general faz um referência ao artigo 142 da Constituição, que na interpretação do governo atual e de juristas de extrema-direita, dá poderes às Forças Armadas como poder moderador. E não é isso. Não há poder sobre os poderes.

E, no final, ameaça ainda mais. Disse que "não interessa concluir o processo eleitoral sob a desconfiança dos eleitores. Eleições transparentes são questões de soberania nacional e de respeito aos eleitores".

Somando tudo isso, mostra que o general está ameaçando a justiça eleitoral brasileira. A expressão perfeita foi usada ontem pelo jornalista Bernardo Mello Franco, que disse que ele colocou a faca no peito do TSE. 

Essa nota e esse comportamento são inaceitáveis. As Forças Armadas não são fiscais das eleições. Elas têm um trabalho importante, fundamental de logística das urnas, porque esse é um país continental.

Muitos apontam que o erro foi o ministro Roberto Barroso em ter feito o convite para as Forças Armadas integrarem a comissão de transparência das eleições.

Barroso teve boa fé, o problemas é que os militares já estavam com más intenções. Já estavam ao lado do presidente da república, que tem feito ameaças às eleições. Acho que mesmo se não tivessem sido chamados, fariam essas mesmas confusões. Então esta distorção é evidentemente culpa é das Forças Armadas e não do ministro Barroso.

Pensamento do Dia

 


Até os Estados Unidos sabem

Faltando quatro meses para uma das votações mais importantes da América Latina em anos, um confronto de alto risco está se formando. De um lado, o presidente, alguns líderes militares e muitos eleitores de direita argumentam que a eleição está aberta à fraude. Do outro, políticos, juízes, diplomatas estrangeiros e jornalistas estão soando o alarme de que Bolsonaro prepara o cenário para tentativa de golpe
Jack Nicas, do The New York Times, no artigo “Novo aliado de Bolsonaro no questionamento das eleições: os militares”

Na República da desigualdade imperfeita

A surpresa chegou pelo correio. Cortesia da editora, abri o pacote curioso para saber qual seria a novidade. A capa colorida, suas 458 páginas e o título instigante só aguçaram meu interesse.

Eu nunca havia ouvido falar do autor. Julguei se tratar de uma obra de estreia, mas, na orelha do livro, a revelação: Edson Lopes Cardoso já conta com 73 anos, e aquele era só mais um, dos vários livros escritos ao longo de sua vida.

“Nada os trará de volta” é uma compilação de textos publicados por Cardoso nas últimas quatro décadas, ao longo das quais analisa os principais acontecimentos políticos e sociais brasileiros.

À medida em que folheava o livro, um sentimento de completa alienação tomou conta de mim. Como nunca havia ouvido falar de um intelectual com uma obra tão vasta, que se formou em algumas das principais instituições do país (UFBA, UnB e USP) e se valia de tantas referências históricas e culturais num diálogo com os principais intérpretes de nossa sociedade?


“Diálogo”, porém, é apenas uma força de expressão. Uma pesquisa nos acervos dos principais jornais me indicou que há raríssimas aparições de Edson Lopes Cardoso na grande imprensa brasileira. Aos poucos, fui percebendo que talvez eu não fosse o único alienado a nunca ter travado conhecimento de sua obra.

Sim, Edson Lopes Cardoso é negro - e uma das vozes mais lúcidas no movimento negro brasileiro. Militante, foi um dos organizadores da histórica Marcha Zumbi dos Palmares contra o Racismo, pela Cidadania e pela Vida, que reuniu mais de 30 mil pessoas em Brasília em 1995 e teve reedições nos anos seguintes. Foi chefe de gabinete do sociólogo Florestan Fernandes, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), durante seu segundo mandato como deputado federal de 1991 a 1994. E é coordenador do Ìrohìn - Centro de Documentação, Comunicação e Memória Afro-Brasileira.

A obra de Cardoso é um passeio pelos principais acontecimentos brasileiros e mundiais das últimas décadas, analisados à luz dos seus impactos sobre a vida da população negra. A profundidade e a sofisticação do seu pensamento não ficam atrás de nenhum dos cultuados nomes da intelectualidade branca brasileira.

O fato de um pensador desse porte ser pouquíssimo conhecido e não encontrar espaço na grande mídia diz muito sobre o nosso racismo estrutural - e do quanto precisamos avançar para a ampliação da presença dos negros em nossa sociedade, inclusive na política.

Num de seus textos, Cardoso resgata a figura de Manoel da Motta Monteiro Lopes, primeiro deputado federal negro de nossa história, jurista pernambucano eleito em 1909, após ter tido diploma negado pela classe política em 1905. De lá pra cá, outros negros conseguiram chegar ao Congresso e também a prefeituras e governos estaduais, mas de forma desproporcional ao tamanho da população negra.

Cardoso reconhece o papel do movimento negro ao denunciar o racismo, ampliando a conscientização dos cidadãos, e reivindicar direitos de pretos e pardos, mas demonstra que as principais conquistas obtidas nas últimas décadas se deram sob a tutela de políticos brancos, no âmbito dos partidos e dos governos.

O Brasil somente será um país verdadeiramente democrático, segundo Edson Cardoso, caso haja representação de peso para a população pobre e preta. “Queremos opinar e sugerir, dirigir, decidir, queremos comando, queremos monitorar e implementar, queremos a gerência de recursos públicos, queremos o controle das riquezas que ajudamos a construir”, escreveu em julho de 2005.

Junto com o livro, veio o convite para o seu lançamento em São Paulo, que ocorreu na quinta-feira passada (9/06). Por coincidência, eu estava na capital paulista e decidi comparecer, a fim de conhecer ao vivo o pensador que acabara de abrir meus olhos para tantas questões.

O evento era um debate com lideranças da Coalizão Negra por Direitos, ativistas que lançaram recentemente mais de cem pré-candidaturas de pretas e pretos aos cargos de deputado estadual e federal, em praticamente todos os Estados do país. Aglutinados no movimento “Quilombo nos Parlamentos”, essas lideranças de dezenas de movimentos sociais pretendem colocar em prática a tese de Cardoso, várias vezes repetida no livro: que a marginalização dos brasileiros negros só será superada com a ampliação da sua representatividade nas instâncias decisórias do poder.

Esse processo, contudo, não é nem um pouco simples, alerta o autor. Ao longo de nossa história, já dizia Edson Cardoso num texto de 2008, o discurso em favor da diversidade racial foi encampado por muitos partidos, mas muito mais com o propósito de atrair os votos dos eleitores pretos do que de batalhar para o aumento da bancada de parlamentares de pele negra - e isso vale inclusive para a esquerda.

Conversando com representantes da Coalizão Negra por Direitos durante o evento, pude constatar um misto de excitação com a mobilização para o lançamento das campanhas e uma apreensão quando ao efetivo apoio que receberão dos partidos aos quais estão associados. Apesar das manifestações de apoio das cúpulas partidárias, os pré-candidatos pretos ainda não têm garantia sobre o quanto receberão de recursos dos fundos partidário e eleitoral para custear suas campanhas.

A preocupação é legítima. Segundo meus cálculos, deputados federais que tentaram a reeleição em 2018 (quase todos homens e brancos) receberam em média R$ 1,2 milhão de seus partidos. Candidatos brancos novatos tiveram uma cota bem menor: R$ 133,8 mil. Para os candidatos negros novatos, porém, o valor foi ainda menor: apenas R$ 42,8 mil em média. Esses dados já explicam bastante porque temos tão poucos negros no Congresso Nacional.

Como diria Edson Cardoso, “os negros constroem nos partidos uma causa sem substância; [...] eles [os candidatos negros] carreiam votos para a eleição dos outros [os políticos brancos]”.

Oxalá o destino da Coalização Negra por Direitos seja diferente nas eleições deste ano.

Freud explica

Só há um entendimento para o que estamos vivendo no Brasil e neste fato só Freud explica. Impressionante, como a irresponsabilidade de quem colocou o futuro do país em risco por conta de um neoliberalismo cego hoje é perdoada e ignorada por muita gente, sobretudo pela imprensa oficial, a burguesia e o chamado senso comum.


Tudo aquilo que aprendemos na terapia, quem fez terapia, vai por água abaixo no que estamos vivendo nesses anos de Bolsonaro. Somos obrigados a conviver com sentimentos comprometedores como culpa, vergonha, senso de rejeição, impotência e sobretudo uma autoestima baixíssima incapaz de reagir à tamanha humilhação.

Esta viagem de Bolsonaro ao exterior me causa engulhos. É uma vergonha planetária institucionalizada onde a ignorância, a submissão e a desimportância assumem dimensões enormes. Somos vistos pelo resto do mundo como um país que tem um presidente ridículo e que quer levar todos ao mesmo lugar.

Na terapia passamos muito tempo tentando descobrir o que nos fez chegar a certas situações. A influência do passado, da relação paterna ou materna que explica mais ou menos tudo. Agora, na politica é parecido. Precisamos olhar pra trás e ver como muitos foram vítimas de todas as infâmias criadas após a derrota de Aécio Neves nas eleições e de tudo o que veio depois. Impediram a presidenta Dilma de governar e numa articulação organizada armaram o golpe. Isso explica tudo o que estamos passando do mesmo jeito que as atitudes dos nossos pais ou mães explicam nossas neuroses de hoje. Fomos tratados com violência? Fica difícil agir de um modo que não deixe transparecer esta violência. Mas, tentamos corrigir. Saber que isso existe já é importante. 

Saber o que aconteceu na nossa história recente também. Entender porque chegamos a esse ponto é quase tão importante quanto a descoberta da solução. Saber disso já faz parte da solução. Havemos de ter alta um dia e comemoraremos nossa saúde mental junto com todos. A psicanálise e a política dão as mãos para levar tanto ao indivíduo quanto à nação a uma sensação se soberania, de libertação e de saúde.

Precisamos superar esse momento de submissão, de total falta de amor próprio que nos leva a considerar normais os fatos que estamos assistindo. Nada disso é normal. É normal dentro de um cenário como este que vivemos agora de morte, de destruição, de desestímulo, de demonização da política no sentido geral. A política é como a terapia que nos leva à transformação. É preciso entender o que vivemos, o que estamos vivendo e o que vamos viver para poder tirar uma reta em direção ao sucesso, à transformação, à construção da felicidade.

Freud, hoje em dia, já foi superado enquanto dinâmica de terapia, mas seus ensinamentos permanecem assim como os do velho Karl Marx. Nada como conhecer bem para poder transformar. Queremos escolas, queremos casa, comida, diversão e arte e queremos saúde, física e mental para construir um país melhor.

Fome no país do agronegócio

Trinta e três milhões de pessoas passam fome no Brasil. O número praticamente dobrou em dois anos. É um caso de emergência nacional.

Não creio que Bolsonaro esteja se importando muito com isso. Quando morriam as pessoas com Covid-19, ele disse:

— E daí? Não sou coveiro.

Um humorista lembrou muito bem que ele pode dizer agora:

— E daí? Não sou cozinheiro.


Tenho escrito que Bolsonaro é um bode na sala. Um imenso bode. Por trás de sua incompetência e insensibilidade, há uma crise muito séria, que não se resolverá com paliativos. Desde a década passada sobem os preços de alimentos e energia, assim como se sucedem eventos extremos causados pela emergência climática.

A crise ficou apenas mais profunda com a pandemia, que matou mais de 6 milhões, e uma estúpida guerra, que opõe um grande produtor de petróleo a um grande produtor de alimentos.

Evidente que esse pano de fundo será ofuscado pela ruidosa derrota de Bolsonaro. O alívio imediato é uma sensação que precisa ser vivida até que deparemos com a realidade de um mundo que mudou e com a evidência de que o passado não volta mais.

Ironicamente, Bolsonaro venceu em 2018 colocando-se contra o sistema. Desprezava tudo, até o marketing político.

Agora, aconselhado por seus amigos sistêmicos do Centrão, procura jovens dos mais jovens. Como? Com um discurso paternalista, do tipo “obedeçam aos seus pais”.

Quem obedece aos pais não precisa de ajuda de Bolsonaro para fazê-lo; quem não obedece não o fará influenciado por ele.

No fundo, seu movimento de conquista dos jovens, no máximo, reforçou seu discurso para os mais velhos. Coisas do marketing político que, como tantas outras iniciativas, acaba obtendo o contrário do que almeja.

No auge da crise planetária, quando o bode sair da sala, nos daremos conta de que a destruição da Amazônia é um de seus componentes mais dramáticos.

Neste momento, o desaparecimento de um jornalista inglês, Dom Phillips, e de um indigenista, Bruno Pereira, é um aprendizado nacional.

Poucos conhecem o Vale do Javari, que, com 85 mil quilômetros quadrados, é maior que a Áustria. Poucos sabem que vivem ali indígenas que chamamos de isolados, mas são, na realidade, grupos que não querem contato, preferem viver sua vida.

Fica mais evidente, com o desaparecimento de Dom e Bruno, que a Amazônia é controlada por grupos criminosos um pouco como alguns morros do Rio. Jornalistas que tentam mostrar essa realidade podem sofrer o que sofreu Tim Lopes.

Continuo esperançoso em que os desaparecidos sejam encontrados. Mas é impossível não acentuar que a presença do crime organizado na Amazônia é fruto de uma política.

Hoje podemos dizer que é uma insanidade a ideia de controlar a natureza, ainda mais o sonho dos militares, teorizado por Golbery do Couto e Silva, de domar a floresta, vista como um “inferno verde”.

Essa concepção certamente levaria a uma tolerância com o garimpo, a grilagem, o desmatamento e agora o tráfico de drogas e animais silvestres.

Nesse sentido também, Bolsonaro é apenas um bode na sala. Simboliza, de forma caricatural, toda uma concepção de mundo que vai da produção ao consumo, até a maneira como se faz da natureza um simples objeto do avanço tecnológico. Ironicamente, a Amazônia que os militares querem proteger dos invasores imaginários já está invadida pelo crime organizado, que a destrói impiedosamente.

Nosso orgulho nacional de alimentar o planeta com um poderoso agronegócio torna-se um constrangimento, diante do fato de cerca de 15% do nosso povo passar fome.

Não cabe mais perguntar que país é este. Já sabemos o bastante para responder dolorosamente.

Árvores tombando, rios contaminados, corpos humanos torturados pela fome, talentos perdidos. O Brasil é um país suicida.
Fernando Gabeira

domingo, 12 de junho de 2022

O avesso do avesso

A participação de militares no governo Bolsonaro começou com a presunção de muitos de que eles conseguiriam controlar seus ímpetos autoritários, enquanto a escolha de Paulo Guedes para o superministério da Economia indicaria um governo liberal. A escolha de Sergio Moro, também para um Ministério da Justiça fortalecido na sua estrutura com órgãos de fiscalização como o Coaf, indicaria o combate à corrupção de maneira organizada.

Bolsonaro, o político bronco, teria sido manipulado por grupos políticos e militares para abrir caminho à tomada do poder de um projeto político liberalizante. Seria uma espécie de marionete para a volta dos militares ao poder pela porta da frente, já que o último general ditador, João Figueiredo, saíra do Palácio do Planalto pela porta dos fundos, negando-se a transmitir a faixa presidencial a José Sarney, vice de Tancredo Neves.

No último dos quatro anos de governo Bolsonaro, já não resta nada do projeto liberal do Paulo Guedes, nem do combate à corrupção planejado por Moro, nem a suposta resistência dos militares. Ao contrário, dominam o cenário atual militares que foram cooptados pelo presidente para uma ação que a cada momento ganha mais força, enquanto o jogo político se desenvolve sem que o mandatário demonstre fôlego para se reeleger democraticamente.


O abuso do poder político e econômico do governo é cada vez mais explícito, levando por terra a fama dos militares de serem a elite do funcionalismo público, enquanto não sobra pedra sobre pedra do processo liberal na economia, a ponto de o ministro Paulo Guedes ter defendido nos últimos dias um congelamento de preços para controlar a inflação que já chega a 12% ao ano.

Não chegamos ainda à tentativa governamental de controlar os preços diretamente, como já aconteceu anteriormente, mas o sonho de consumo de estancar num estalo a corrida dos preços contra o bolso do cidadão está explícito no sonho iliberal de congelamento por “três, quatro meses” na palavra de Guedes, num ato falho que indica o sonho de chegar a 2 de outubro nas eleições sem os preços subirem.

A mirabolante fórmula para conter a alta dos combustíveis, torrando uma Eletrobras inteira nessa aventura, neutraliza a privatização, um dos pontos capitais do superado projeto liberal na economia. O ministro da Defesa, general Paulo Sérgio, chegou ao posto de comandante do Exército, aparentemente, contra a vontade de Bolsonaro, que ficara irritado com um artigo que publicou defendendo a prevenção da Covid-19. Então chefe do Departamento Geral de Pessoal do Exército, anunciava números que indicavam que a Força tinha menos incidência de Covid devido a um política que em tudo era contra o que Bolsonaro defendia em público.

Se existiam mesmo diferenças de posição com o presidente, essas foram sendo gradativamente superadas à medida que a convivência no centro do poder foi aproximando os dois. Foi promovido depois a Ministro da Defesa. Hoje, a Defesa é uma aliada incondicional da campanha do presidente Bolsonaro para desacreditar as urnas eletrônicas, auxiliando na confrontação com os tribunais superiores, especialmente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A insistência com que os técnicos militares, passados todos os prazos e limites legais, continuam a apontar supostos problemas no sistema eleitoral, aponta para um apoio à pregação de Bolsonaro de que está sendo armada uma manobra para roubar-lhe a vitória nas urnas. Sem, no entanto, um resquício de prova para sustentar a desconfiança.

A mais recente cartada está sendo organizada mais uma vez para o dia 7 de Setembro, em que se comemorará o Bicentenário da Independência do país. A utilização de data tão simbólica para confrontar as instituições, a menos de um mês das eleições, prenuncia a intenção de impedir que elas se realizem. Bolsonaro afronta o STF e o TSE dia sim, outro também. Agora mesmo, em Orlando, encontrou-se com o foragido bolsonarista Allan dos Santos, e voltou a ameaçar não respeitar decisões dos tribunais superiores.

Seu parceiro Donald Trump, com quem pretende se encontrar perto das eleições, está às voltas com a Justiça nos Estados Unidos, acusado formalmente de ter tentado um golpe de Estado ao não aceitar a vitória de Joe Biden para a Presidência. Bolsonaro vai pelo mesmo caminho, e o TSE e o STF já deram mostras de que não estão brincando ao confirmarem a cassação dos mandatos de dois deputados bolsonaristas por divulgarem fake news pela internet. Muitos começam a achar que ele está querendo ser cassado, para escapar de uma derrota que parece inevitável e poder alegar que está sendo perseguido pelo “sistema”.