Se eu não me levanto,
Se você não se levanta,
Se ele não se levanta,
Quem brandirá uma tocha de esperança nas trevas?
Atiq Rahimi, "As mil casas do sonho e do terror"
domingo, 27 de setembro de 2020
A nova política caducou
A tira que ilustra esta coluna, do talentoso quadrinista brasileiro Pietro Soldi, é a mais perfeita tradução do que a autodenominada “nova política”, que nunca teve nada de novo e em menos de dois anos se encontra em avançado estado de necrose, legou ao País.
Brasileiros de Norte a Sul elegeram para o Executivo e o Legislativo vários espécimes de jumentos vendados, achando que revolucionariam a forma de fazer política. Mas o resultado é que estamos ensopados de café quente e sem muito sinal de que vamos conseguir reerguer a mesa que tombou e colar a louça que foi feita em cacos.
Olhemos a situação do Rio de Janeiro e de Santa Catarina. O primeiro vinha de uma sucessão de larápios que só não roubaram as pedras do calçadão de Copacabana. O segundo tinha alguns dos melhores indicadores econômicos do País e saúde fiscal relativamente boa.
Brasileiros de Norte a Sul elegeram para o Executivo e o Legislativo vários espécimes de jumentos vendados, achando que revolucionariam a forma de fazer política. Mas o resultado é que estamos ensopados de café quente e sem muito sinal de que vamos conseguir reerguer a mesa que tombou e colar a louça que foi feita em cacos.
Olhemos a situação do Rio de Janeiro e de Santa Catarina. O primeiro vinha de uma sucessão de larápios que só não roubaram as pedras do calçadão de Copacabana. O segundo tinha alguns dos melhores indicadores econômicos do País e saúde fiscal relativamente boa.
Mas os eleitores dos dois Estados acharam por bem eleger completos desconhecidos, que entraram na política pela porta fácil do discurso anticorrupção, atrelados ao bolsonarismo e surfando na onda lavajatista.
Resultado: menos de dois anos depois, Wilson Witzel, cujo nome 90% dos fluminenses não sabiam nem pronunciar quando nele votaram, e Carlos Moisés, cuja foto até hoje eu não saberia reconhecer, estão a caminho do impeachment.
De Bolsonaro não é preciso falar. Já mencionei seu discurso na ONU, mais uma exibição que não deixou nada a dever à tirinha do Pietro.
E nos Parlamentos e na vida partidária, qual o saldo da tal nova política? Não muito superior. Há, sim, excelentes novos parlamentares, da esquerda à direita.
Os movimentos não partidários, como Agora, Livres, Renova BR e Acredito, aliás, contribuíram de forma mais significativa para isso que os partidos, pois enfrentaram a necessidade de formação desses jovens líderes.
Quanto às siglas, seguem perdidas na geleia geral ideológica e programática, inclusive as novas. Basta ver o episódio Novo versus Filipe Sabará. O candidato passou no tal processo seletivo, mas em seguida seu currículo acadêmico foi desmentido, se descobriu uma diferença de nada menos que R$ 3.985.000 em sua declaração de bens, e o barraco começou. Diante de tantas inconsistências, Sabará recorreu à seguinte explicação: a “ala esquerdista” (!) do Novo, representada por João Amoêdo (!!), o estaria perseguindo. Seria até engraçado, se não fosse patético. Dá-lhe coice com olhos vendados!
A divisão interna do Novo é mais um sinal claro de que não se mudam as práticas políticas apenas com slogans, sapatênis e ideias naive – como a de que não usar Fundo Partidário é sinal de virtude por si só.
Renovação política se faz com projetos claros, definição de políticas públicas e compreensão dos problemas do Brasil e dos Estados e de que legisladores têm mais a fazer que filminhos ridículos no TikTok ou Instagram.
Que 2020 comece a corrigir 2018 e que tiremos a venda do jumento e elejamos bons políticos para fazer política. Olha só que ideia disruptiva!
Resultado: menos de dois anos depois, Wilson Witzel, cujo nome 90% dos fluminenses não sabiam nem pronunciar quando nele votaram, e Carlos Moisés, cuja foto até hoje eu não saberia reconhecer, estão a caminho do impeachment.
De Bolsonaro não é preciso falar. Já mencionei seu discurso na ONU, mais uma exibição que não deixou nada a dever à tirinha do Pietro.
E nos Parlamentos e na vida partidária, qual o saldo da tal nova política? Não muito superior. Há, sim, excelentes novos parlamentares, da esquerda à direita.
Os movimentos não partidários, como Agora, Livres, Renova BR e Acredito, aliás, contribuíram de forma mais significativa para isso que os partidos, pois enfrentaram a necessidade de formação desses jovens líderes.
Quanto às siglas, seguem perdidas na geleia geral ideológica e programática, inclusive as novas. Basta ver o episódio Novo versus Filipe Sabará. O candidato passou no tal processo seletivo, mas em seguida seu currículo acadêmico foi desmentido, se descobriu uma diferença de nada menos que R$ 3.985.000 em sua declaração de bens, e o barraco começou. Diante de tantas inconsistências, Sabará recorreu à seguinte explicação: a “ala esquerdista” (!) do Novo, representada por João Amoêdo (!!), o estaria perseguindo. Seria até engraçado, se não fosse patético. Dá-lhe coice com olhos vendados!
A divisão interna do Novo é mais um sinal claro de que não se mudam as práticas políticas apenas com slogans, sapatênis e ideias naive – como a de que não usar Fundo Partidário é sinal de virtude por si só.
Renovação política se faz com projetos claros, definição de políticas públicas e compreensão dos problemas do Brasil e dos Estados e de que legisladores têm mais a fazer que filminhos ridículos no TikTok ou Instagram.
Que 2020 comece a corrigir 2018 e que tiremos a venda do jumento e elejamos bons políticos para fazer política. Olha só que ideia disruptiva!
O código da fome
Dá para imaginar o que é isso? Ficar dias e dias com o estômago a ronco, aquela dor aguda, lancinante, enganada às vezes a caldo de folha ou na maisena insossa de farinha com água e nada mais? Nem aroma para consolo? Sentado no declive do chão de pedra, proximidade do teto de palha, parede de barro e pau, que ameaça todo dia cair, no castigo do sol e da chuva, com o odor incessante de esgoto a céu aberto, em um ambiente onde a miséria espreita como sina, dividir a parca ração do dia é quase um privilégio de poucos ali — cenário mais extenso e predominante Brasil afora do que imaginam os benfejados pela sorte.
Quem não está lá nem desconfia da sinopse de angústias desses humildes desvalidos, o contingente populacional classificado por institutos oficiais na condição de carência alimentar extrema, consumidos pela privação, cujas vidas são uma experiência de risco em alta cadência, rotineiramente. As crianças desnutridas, que mais sofrem, com seus corpos miúdos, pernas mirradas, braços de tão magros estendidos como asas sem serventia, remela nos olhos entre insetos, reclamam no choro instintivo (manhã, tarde e noite) por um prato de alimento sólido. Uma refeição honesta, quem sabe! No amplo universo dos desesperados sociais brasileiros, viver com fome é realidade constante.
Ao menos 10,3 milhões deles estão no momento sem nada para comer, segundo a mais recente Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, divulgada semana passada. Uma barbaridade! Número que tende a piorar com a pandemia, depois de um incremento recente de mais de 3,1 milhões de necessitados na mesma condição, agravando um quadro que já é vergonhoso e inaceitável no País que se autoproclama “celeiro do mundo”, detentor do maior cinturão verde planetário, onde tudo que planta dá, com área cultivável de dimensões continentais.
Quem não está lá nem desconfia da sinopse de angústias desses humildes desvalidos, o contingente populacional classificado por institutos oficiais na condição de carência alimentar extrema, consumidos pela privação, cujas vidas são uma experiência de risco em alta cadência, rotineiramente. As crianças desnutridas, que mais sofrem, com seus corpos miúdos, pernas mirradas, braços de tão magros estendidos como asas sem serventia, remela nos olhos entre insetos, reclamam no choro instintivo (manhã, tarde e noite) por um prato de alimento sólido. Uma refeição honesta, quem sabe! No amplo universo dos desesperados sociais brasileiros, viver com fome é realidade constante.
Ao menos 10,3 milhões deles estão no momento sem nada para comer, segundo a mais recente Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, divulgada semana passada. Uma barbaridade! Número que tende a piorar com a pandemia, depois de um incremento recente de mais de 3,1 milhões de necessitados na mesma condição, agravando um quadro que já é vergonhoso e inaceitável no País que se autoproclama “celeiro do mundo”, detentor do maior cinturão verde planetário, onde tudo que planta dá, com área cultivável de dimensões continentais.
A verdade do evento trágico é deveras pior. Atualmente, segundo o levantamento, 36,7% dos lares brasileiros — isso mesmo! — têm dificuldade para garantir qualidade e quantidade de alimentos a todos os integrantes da família. Atente para o drama: está se falando de mais de um terço, quase a metade das casas no País, onde falta comida suficiente para seus membros. É suportável aceitar tamanha indigência? Talvez até para não chocar em demasia uma sociedade acostumada ao descaso, os famintos são, eufemisticamente, enquadrados em três níveis de “insegurança alimentar” — todas elas abomináveis, mas que tendem a abrandar o choque de quem não compreende a dimensão do desastre social, de proporções épicas, agora em curso.
Na escala, existem as famílias que não podem comprar o suficiente para sustento e passam aperto. No pelotão intermediário é considerado restrição alimentar “moderada” o constrangedor estratagema de pular refeições. E no grau extremo, não há mesmo nada o que comer, muitas vezes por dias, e a mendicância, apelando nas ruas, segue como -ultimo subterfúgio. É desolador aceitar, mas a fome por aqui adquire rosto e move um Brasil mais comum do que muitos imaginam.
Por que falhamos em providências essenciais e prementes para boa parte da população? Como pudemos chegar a esse grau de desamparo? A face mais arrasadora e ultrajante da calamidade alimentar está no contraste da consciência de líderes, senhores do Estado, que negam o destino comum a tantos brasileiros. O mandatário Jair Bolsonaro, por exemplo, é o primeiro a desdenhar do infortúnio: “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”, disse recentemente, desconsiderando as evidências e até chacoteando dos desvalidos. “Você não vê gente, mesmo pobre, pelas ruas, com físico esquelético”. Provavelmente, o parvo chefe da Nação não está frequentando as ruas que devia na condição que o cargo lhe exigiria.
Todos sabem, sanha corrente, Bolsonaro não desperdiça uma chance de errar, como confirmam as baboseiras lançadas em qualquer direção. Foi agraciado pelo Congresso com uma política de transferência de renda de R$ 600, que não era seu intento e acabou encampando como ideia sua para fins eleitoreiros, capaz de, na esteira do isolamento, conter em parte a extenuante procissão de miséria dos pés-descalços, descamisados, desabrigados indolentes da paisagem nacional.
Mas agora se depara na encruzilhada de como resolver um problema em crescente avanço. Após enterrar, espetaculosamente, o “Renda Brasil”, maquina alternativas, nem todas claras, que passam pelo resgate da famigerada CPMF para fazer brotar verba suficiente. É bom desconfiar da produção de gambiarras no Planalto Central.
Quando o capitão Bolsonaro tem uma ideia, convém trancá-lo no banheiro e esperar que passe. O vendaval de aflitos não pode esperar muito tempo, na crueza da escassez, para saciar suas necessidades.
Na calada da noite, nos barracos construídos ilegalmente ou na cobertura de papelão cercada por pneus velhos, debaixo do viaduto, em palafitas rudimentares, tentando sobreviver por meios insanos, são seres humanos, cidadãos, favelados ou não, invasores de terras e de imóveis abandonados, “pobres e paupérrimos” — na lembrança, essa sim providencial, do presidente — que acalentam e esperam diariamente resposta para a fome. João, Genésia, José, Francisca, são tantos os nomes e rostos dessa tragédia que machuca até encará-los. O pequeno Gerson, da comunidade paulista de Paraisópolis, deitado no chão, numa miserável confraternização com seu vira-lata, é todo dia engabelado pela mãe para sair às brincadeiras, tentando driblar a fome. É dor que não passa assistir à cena.
Qualquer um, no mínimo de discernimento humanitário, vergaria lágrimas. A miséria mostra seu código de necessidade mais evidente na fome. Ela atinge e faz vítimas em escala bíblica no Norte e no Nordeste, que abrigam a parcela prevalente dos domicílios com privação alimentar. As carências, no caso, são mais sentidas em áreas rurais, regiões ribeirinhas, lares chefiados por mulheres, por negros ou pessoas autodeclaradas pardas.
É a fome reforçando o preconceito. Perceba, também, o tamanho da frequência do drama enfrentado pelo rebento Gerson, acima citado: metade das crianças com menos de cinco anos (6,5 milhões ao todo no País) cresce em residências com algum grau de insegurança alimentar. O que tamanha chaga representa no desenvolvimento do País a maioria desconfia. A alimentação adequada é condição “sine qua non” para o aprendizado e desempenho escolar. Parte majoritária do público de pequeninos encontrava o que comer nas escolas e entidades de ensino.
Com o fechamento dos estabelecimentos, em meio à quarentena, nem isso. A merenda de crianças e adolescentes sumiu da rotina e a leitura lógica sinaliza que a pandemia intensificou a vulnerabilidade dos que não comem, numa escalada sensivelmente agravada pelo aumento conjuntural dos preços dos alimentos. Na pororoca de situações inesperadas, todas conspirando para o mal, o desperdício de bilhões de sacas de grãos, frutas e vegetais — que se deixam cair nos transportes de safra, nos equívocos de escoamento ou de armazenamento indevido — parece inconcebível e poderia reparar ao menos parte do drama.
Restam ainda a autoestima e esperança dos desvalidos e o caminho da solidariedade, capaz de fazer milagres. Há ainda um Brasil capaz de oferecer um prato a mais para uma boca a mais. Não apenas por meio das entidades filantrópicas e mutirões assistenciais. Cada um pode e deve fazer a sua parte, começando ontem, para legitimar a erradicação dessa doença da fome, que teimou em maltratar logo o povo habitante do celeiro do mundo.
Na escala, existem as famílias que não podem comprar o suficiente para sustento e passam aperto. No pelotão intermediário é considerado restrição alimentar “moderada” o constrangedor estratagema de pular refeições. E no grau extremo, não há mesmo nada o que comer, muitas vezes por dias, e a mendicância, apelando nas ruas, segue como -ultimo subterfúgio. É desolador aceitar, mas a fome por aqui adquire rosto e move um Brasil mais comum do que muitos imaginam.
Por que falhamos em providências essenciais e prementes para boa parte da população? Como pudemos chegar a esse grau de desamparo? A face mais arrasadora e ultrajante da calamidade alimentar está no contraste da consciência de líderes, senhores do Estado, que negam o destino comum a tantos brasileiros. O mandatário Jair Bolsonaro, por exemplo, é o primeiro a desdenhar do infortúnio: “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”, disse recentemente, desconsiderando as evidências e até chacoteando dos desvalidos. “Você não vê gente, mesmo pobre, pelas ruas, com físico esquelético”. Provavelmente, o parvo chefe da Nação não está frequentando as ruas que devia na condição que o cargo lhe exigiria.
Todos sabem, sanha corrente, Bolsonaro não desperdiça uma chance de errar, como confirmam as baboseiras lançadas em qualquer direção. Foi agraciado pelo Congresso com uma política de transferência de renda de R$ 600, que não era seu intento e acabou encampando como ideia sua para fins eleitoreiros, capaz de, na esteira do isolamento, conter em parte a extenuante procissão de miséria dos pés-descalços, descamisados, desabrigados indolentes da paisagem nacional.
Mas agora se depara na encruzilhada de como resolver um problema em crescente avanço. Após enterrar, espetaculosamente, o “Renda Brasil”, maquina alternativas, nem todas claras, que passam pelo resgate da famigerada CPMF para fazer brotar verba suficiente. É bom desconfiar da produção de gambiarras no Planalto Central.
Quando o capitão Bolsonaro tem uma ideia, convém trancá-lo no banheiro e esperar que passe. O vendaval de aflitos não pode esperar muito tempo, na crueza da escassez, para saciar suas necessidades.
Na calada da noite, nos barracos construídos ilegalmente ou na cobertura de papelão cercada por pneus velhos, debaixo do viaduto, em palafitas rudimentares, tentando sobreviver por meios insanos, são seres humanos, cidadãos, favelados ou não, invasores de terras e de imóveis abandonados, “pobres e paupérrimos” — na lembrança, essa sim providencial, do presidente — que acalentam e esperam diariamente resposta para a fome. João, Genésia, José, Francisca, são tantos os nomes e rostos dessa tragédia que machuca até encará-los. O pequeno Gerson, da comunidade paulista de Paraisópolis, deitado no chão, numa miserável confraternização com seu vira-lata, é todo dia engabelado pela mãe para sair às brincadeiras, tentando driblar a fome. É dor que não passa assistir à cena.
Qualquer um, no mínimo de discernimento humanitário, vergaria lágrimas. A miséria mostra seu código de necessidade mais evidente na fome. Ela atinge e faz vítimas em escala bíblica no Norte e no Nordeste, que abrigam a parcela prevalente dos domicílios com privação alimentar. As carências, no caso, são mais sentidas em áreas rurais, regiões ribeirinhas, lares chefiados por mulheres, por negros ou pessoas autodeclaradas pardas.
É a fome reforçando o preconceito. Perceba, também, o tamanho da frequência do drama enfrentado pelo rebento Gerson, acima citado: metade das crianças com menos de cinco anos (6,5 milhões ao todo no País) cresce em residências com algum grau de insegurança alimentar. O que tamanha chaga representa no desenvolvimento do País a maioria desconfia. A alimentação adequada é condição “sine qua non” para o aprendizado e desempenho escolar. Parte majoritária do público de pequeninos encontrava o que comer nas escolas e entidades de ensino.
Com o fechamento dos estabelecimentos, em meio à quarentena, nem isso. A merenda de crianças e adolescentes sumiu da rotina e a leitura lógica sinaliza que a pandemia intensificou a vulnerabilidade dos que não comem, numa escalada sensivelmente agravada pelo aumento conjuntural dos preços dos alimentos. Na pororoca de situações inesperadas, todas conspirando para o mal, o desperdício de bilhões de sacas de grãos, frutas e vegetais — que se deixam cair nos transportes de safra, nos equívocos de escoamento ou de armazenamento indevido — parece inconcebível e poderia reparar ao menos parte do drama.
Restam ainda a autoestima e esperança dos desvalidos e o caminho da solidariedade, capaz de fazer milagres. Há ainda um Brasil capaz de oferecer um prato a mais para uma boca a mais. Não apenas por meio das entidades filantrópicas e mutirões assistenciais. Cada um pode e deve fazer a sua parte, começando ontem, para legitimar a erradicação dessa doença da fome, que teimou em maltratar logo o povo habitante do celeiro do mundo.
No desgoverno do Brasil só cabe a agenda eleitoral
Deus fez chover em Mato Grosso um dia depois da visita do presidente Jair Bolsonaro, festejou o general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo. “Deus está com nosso presidente e continuará a abençoar o Brasil”, acrescentou. Os incêndios na Amazônia e no Pantanal são fenômenos naturais e nenhuma ação humana pode evitá-los, garantiu outro general, Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional. As críticas à política ambiental brasileira, segundo ele, são ligadas a um “evidente” movimento internacional para derrubar o governo. O chefe dos generais, presidente do país abençoado, também cuidou do fogo, pouco depois, em discurso na Assembleia-Geral da ONU. Na Amazônia só índios e caboclos fazem queimadas, mas na mata úmida nenhum incêndio se propaga, assegurou.
É isso mesmo o Executivo brasileiro? É mais que isso – e muito menos que um governo. É preciso acabar com a erotização das crianças e com a discussão de gênero nas escolas, disse o ministro da Educação, Milton Ribeiro, em entrevista ao Estado. Mais sociável que Abraham Weintraub, o novo ministro reafirma prioridades de seu antecessor e também os valores e o padrão – por assim dizer – cultural de seu líder comum, o presidente da República. Nenhuma surpresa, portanto, quando o novo ministro se refere a homossexuais como produtos de famílias desajustadas e descreve a desigualdade como “problema do Brasil”, fora da responsabilidade de sua pasta.
Educação, igualdade e liberdade são temas correlacionados há mais de dois séculos, como comprovam as Cinco Memórias sobre a Instrução Pública, de Condorcet. Um tratamento recente do assunto aparece no livro Capital et Idéologie, de Thomas Piketty, publicado em 2019. A difusão de conhecimentos e o acesso às qualificações são apontados por ele como fatores primordiais, em longo prazo, para a redução das desigualdades em cada país e em âmbito internacional (páginas 622-623). Condorcet abre seu livro, editado no fim do século 18, atribuindo à sociedade o dever de proporcionar instrução ao povo “como meio de tornar real a igualdade de direitos”.
Mas desigualdade, segundo o ministro da Educação, é problema do Brasil. Não envolvam seu ministério nessa história. Ideia estranha? Nem tanto, para quem acompanha as ações do grupo chefiado, em Brasília, pelo presidente Jair Bolsonaro. Problemas do Brasil – ou da maior parte dos brasileiros – nunca foram incluídos na agenda normal do Palácio do Planalto, desde janeiro de 2019. De fato, nem mesmo houve mais que uma pauta de interesses bolsonarianos.
O combate à pandemia, tem repetido o presidente, foi delegado a governadores e prefeitos pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Isso é falso, como se observou muitas vezes. Decisões sobre isolamento e etapas de abertura foram atribuídas aos poderes estaduais e municipais, mas o Judiciário apontou a “competência concorrente” dos três níveis, sem isentar de responsabilidade a administração federal.
Evitar essa responsabilidade combina com a negação do problema. Depois de qualificar a covid-19 como gripezinha, o presidente se opôs ao isolamento e classificou como inútil o uso da máscara, objeto de piada em sua transmissão da última quinta-feira, em que aparece ao lado do ministro do Meio Ambiente. No fim, os dois tentam ridicularizar o toque de cotovelos como cumprimento.
Covid-19 é assunto dos outros. Devastação ambiental é história inventada por inimigos do Brasil. Isso inclui brasileiros a serviço de interesses estrangeiros, como dirigentes dos maiores bancos privados nacionais, cientistas famosos, membros de organizações ambientalistas e líderes da ala mais moderna e mais produtiva do agronegócio.
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e estudos do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) são apontados como contrários ao discurso oficial. Mas nada disso importa. Gente empenhada em cobrar ações de quem exerce o poder só atrapalha.
Por mais de um ano o presidente desprezou a economia, deixando o assunto para o “posto Ipiranga”, o ministro Paulo Guedes. O impacto da pandemia nos negócios forçou a revisão de padrões. Foi preciso pensar nas pequenas empresas, nos assalariados e até nos muito pobres. Antes, nenhuma dessas categorias havia estado entre as prioridades. Sem operações de socorro, no entanto, nem os empresários fiéis a Bolsonaro ficariam livres de grandes perdas.
Essas operações, semelhantes às implantadas em dezenas de países, atenuaram a crise e tornaram o presidente mais popular até no Nordeste, região dominada, até aí, por seus adversários. A ajuda aos pobres virou parte da estratégia da reeleição, item número um da pauta presidencial. Por que não criar uma Bolsa Família com marca própria? Melhor ainda se um congressista, como o relator do Orçamento, cuidar do assunto, assumindo o custo de mexer em verbas muito apertadas.
Teria o presidente chegado até aí se tivesse perdido tempo governando? Brasil acima de tudo, Deus acima de todos e reeleição em primeiro lugar.
Educação, igualdade e liberdade são temas correlacionados há mais de dois séculos, como comprovam as Cinco Memórias sobre a Instrução Pública, de Condorcet. Um tratamento recente do assunto aparece no livro Capital et Idéologie, de Thomas Piketty, publicado em 2019. A difusão de conhecimentos e o acesso às qualificações são apontados por ele como fatores primordiais, em longo prazo, para a redução das desigualdades em cada país e em âmbito internacional (páginas 622-623). Condorcet abre seu livro, editado no fim do século 18, atribuindo à sociedade o dever de proporcionar instrução ao povo “como meio de tornar real a igualdade de direitos”.
Mas desigualdade, segundo o ministro da Educação, é problema do Brasil. Não envolvam seu ministério nessa história. Ideia estranha? Nem tanto, para quem acompanha as ações do grupo chefiado, em Brasília, pelo presidente Jair Bolsonaro. Problemas do Brasil – ou da maior parte dos brasileiros – nunca foram incluídos na agenda normal do Palácio do Planalto, desde janeiro de 2019. De fato, nem mesmo houve mais que uma pauta de interesses bolsonarianos.
O combate à pandemia, tem repetido o presidente, foi delegado a governadores e prefeitos pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Isso é falso, como se observou muitas vezes. Decisões sobre isolamento e etapas de abertura foram atribuídas aos poderes estaduais e municipais, mas o Judiciário apontou a “competência concorrente” dos três níveis, sem isentar de responsabilidade a administração federal.
Evitar essa responsabilidade combina com a negação do problema. Depois de qualificar a covid-19 como gripezinha, o presidente se opôs ao isolamento e classificou como inútil o uso da máscara, objeto de piada em sua transmissão da última quinta-feira, em que aparece ao lado do ministro do Meio Ambiente. No fim, os dois tentam ridicularizar o toque de cotovelos como cumprimento.
Covid-19 é assunto dos outros. Devastação ambiental é história inventada por inimigos do Brasil. Isso inclui brasileiros a serviço de interesses estrangeiros, como dirigentes dos maiores bancos privados nacionais, cientistas famosos, membros de organizações ambientalistas e líderes da ala mais moderna e mais produtiva do agronegócio.
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e estudos do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) são apontados como contrários ao discurso oficial. Mas nada disso importa. Gente empenhada em cobrar ações de quem exerce o poder só atrapalha.
Por mais de um ano o presidente desprezou a economia, deixando o assunto para o “posto Ipiranga”, o ministro Paulo Guedes. O impacto da pandemia nos negócios forçou a revisão de padrões. Foi preciso pensar nas pequenas empresas, nos assalariados e até nos muito pobres. Antes, nenhuma dessas categorias havia estado entre as prioridades. Sem operações de socorro, no entanto, nem os empresários fiéis a Bolsonaro ficariam livres de grandes perdas.
Essas operações, semelhantes às implantadas em dezenas de países, atenuaram a crise e tornaram o presidente mais popular até no Nordeste, região dominada, até aí, por seus adversários. A ajuda aos pobres virou parte da estratégia da reeleição, item número um da pauta presidencial. Por que não criar uma Bolsa Família com marca própria? Melhor ainda se um congressista, como o relator do Orçamento, cuidar do assunto, assumindo o custo de mexer em verbas muito apertadas.
Teria o presidente chegado até aí se tivesse perdido tempo governando? Brasil acima de tudo, Deus acima de todos e reeleição em primeiro lugar.
O grito desaparecido
Faz semanas que o louco não passa na avenida. Não à hora em que passava, no meio da madrugada, se valendo do silêncio do bairro para redobrar o alcance do seu grito. Não morreu de frio, isso é certo, porque, nas noites mais severas de inverno, ele ainda passava, sensivelmente mais louco, mais desesperado, nos amaldiçoando um por um. Então, uma noite, ele não veio. Outra noite e nenhum sinal dele. E daí para uma semana, duas semanas, três. Tem isso relação com as sirenes de polícia no lugar dos gritos? Ou tem a ver com uma pandemia desacreditada, o vírus correndo solto? Ou será que, num dos seus surtos circulantes, o louco topou com um desses neo-nazis de rua, caçadores de pretextos? O fato é que, depois de desaparecer, ele ressurgiu apenas uma vez, e à luz do dia, abafado pelo trânsito da avenida. Desde então se faz notar por sua falta. É sua falta que grita. Como se tivesse levado com ele, com seu berro animal, a urgência de uma revolta onde cabe tudo o que dói até o ponto do insuportável, uma revolta que não espera ocasião nem negociação: rebenta, revolta-se. Como se tivesse deixado conosco uma paz estranhíssima e imerecida, que fica ainda mais absurda quando cantam os passarinhos. Todos os sons da indignidade escamoteados, os sons da violência bem-sucedida escondidos. À falta do louco, nós do bairro temos essa quase alucinação coletiva de uma calma com passarinhos. Que ele volte, o nosso louco, o nosso bode-expiatório, para nos amaldiçoar como merecemos, e também para drenar os nossos gritos, e fazê-los circular pela cidade, como prévia dos jornais do dia, todo dia.
Mariana Ianelli
Mariana Ianelli
Chauvinismo e xenofobia
Nicolas Chauvin foi um soldado francês condecorado por Napoleão Bonaparte por sobreviver a vários combates, severamente mutilado, depois de ser ferido 17 vezes. Tornou-se uma lenda para os franceses, até que as comédias escrachadas de vaudeville começaram a ridicularizar sua ingenuidade e fanatismo, dando origem ao termo que hoje é muito utilizado para caracterizar o sentimento ultranacionalista que leva os indivíduos a odiar as minorias e perseguir os estrangeiros. Na década de 1970, as feministas dos Womens`s Lib deram uma conotação mais abrangente ao termo, ao chamar os machistas de “porcos chauvinistas”.
Por causa de seu discurso de ontem na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente Jair Bolsonaro entrou para o rol dos líderes políticos chauvinistas da atualidade, o que não é bom para nenhum chefe de Estado nem para o Brasil, em particular. Seu discurso nacionalista não chegou a ser histriônico, mas fugiu à verdade e ignorou a realidade, sendo muito contestado interna e externamente. Além do chauvinismo, Bolsonaro revelou certa xenofobia, ao culpar os caboclos e índios pelos incêndios na Amazônia e Pantanal.
Xenofobia é outra palavra muito feia. Refere-se ao sentimento de hostilidade e ódio manifestado contra pessoas por elas serem estrangeiras ou serem enxergadas como estrangeiras. Trata-se de um preconceito social muito comum no mundo por causa do fluxo de migrações. Árabes e muçulmanos sofrem com isso na Europa, mexicanos e latinos nos Estados Unidos. Geralmente, a xenofobia está associada ao racismo. A forma como Bolsonaro trata os índios no Brasil sempre teve essa conotação xenófoba; a novidade é o preconceito que revelou na ONU em relação aos caboclos brasileiros.
Certos fenômenos da vida brasileira não se explicam pela sociologia ou pela ciência política, somente podem ser compreendidos quando nos socorremos da antropologia. A eleição de Bolsonaro, por exemplo, sua capacidade de se amalgamar aos evangélicos e capturar o sentimento de preservação da família unicelular patriarcal nas camadas mais pobres da população, ameaçada pelas dificuldades econômicas e as mudanças de costumes. Em contrapartida, Bolsonaro não consegue entender o nosso sincretismo religioso e o peso da miscigenação na formação da identidade brasileira. Se entendesse, não trataria com tanto preconceito os indígenas e os caboclos da Amazônia.
O caboclo tem uma cultura de selva adquirida dos índios. Porém, manteve a língua, a religiosidade e certos costumes dos portugueses, ao longo de secular abandono. É um comportamento semelhante ao do moçambicano branco, mas muito diferente do bôer sul-africano, que renegou as origens, inventou uma nova língua e se considera a grande tribo branca da África. Todos ficaram insulados após a expulsão dos holandeses do Nordeste brasileiro. Explico: quando os holandeses chegaram ao Recife, em 1630, para controlar o açúcar, perceberam que o que dava dinheiro não era só plantar cana e produzir açúcar, mas também vender africanos para os senhores de engenho. Saíram do Recife em 1641 para atacar Angola e dominar o tráfico negreiro para o Brasil. Quando começou a guerra de guerrilhas em Pernambuco para expulsá-los, Salvador de Sá organizou uma expedição do Rio de Janeiro para expulsar os holandeses de Angola, em 1648. Cerca de 2 mil portugueses, porém, ficaram largados na Amazônia, para onde haviam sido enviados em 1637, para explorar o cacau e a castanha, produtos de grande valor comercial.
Apesar dos esforços portugueses para manter o controle da região, notadamente do Marquês de Pombal, após o Tratado de Madri (1750), por meio da fortificação de suas fronteiras — Belém, Gurupá, Manaus, Santarém, Almeirim, Óbidos, Tabatinga, São Gabriel da Cachoeira, Guaporé, Macapá e outros —, a integração à economia nacional somente veio a ocorrer no século XIX, com o Ciclo da Borracha (1870-1912), quando aproximadamente 300 mil nordestinos migraram para seus seringais. Mas a cultura amazônida do caboclo já estava dada.
Além do preconceito étnico, há um viés de intolerância religiosa muito forte na fala de Bolsonaro, porque o caboclo é uma “entidade” do sincretismo religioso entre africanos e índios. Nas religiões ou seitas afro-brasileiras, é a designação genérica dos espíritos de ancestrais indígenas brasileiros que supostamente surgem nas cerimônias rituais e que foram idealizados, já no século XX, segundo os modelos de orixás da teogonia jeje-nagô e do indianismo literário romântico. Na Umbanda, são guerreiros enérgicos, procurados pelos conselhos sensatos e passes poderosos. Bolsonaro mexeu com Ubirajara, Tupiara, Cobra Coral, Pena Branca, Sete Flechas, Águia Dourada, Sete Espadas, Espada Flamejante, Sete Lanças, Tabajara, Tamoio, Sete Ondas, Sete Matas, Caboclo Pantera Negra, Tupuruplata, Rompe-Mato, Caboclo Apeiara, Araribóia, Rompe-Ferro, Pena Vermelha, Beira Mar, Caiçara e Sete Caminhos.
Por causa de seu discurso de ontem na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente Jair Bolsonaro entrou para o rol dos líderes políticos chauvinistas da atualidade, o que não é bom para nenhum chefe de Estado nem para o Brasil, em particular. Seu discurso nacionalista não chegou a ser histriônico, mas fugiu à verdade e ignorou a realidade, sendo muito contestado interna e externamente. Além do chauvinismo, Bolsonaro revelou certa xenofobia, ao culpar os caboclos e índios pelos incêndios na Amazônia e Pantanal.
Xenofobia é outra palavra muito feia. Refere-se ao sentimento de hostilidade e ódio manifestado contra pessoas por elas serem estrangeiras ou serem enxergadas como estrangeiras. Trata-se de um preconceito social muito comum no mundo por causa do fluxo de migrações. Árabes e muçulmanos sofrem com isso na Europa, mexicanos e latinos nos Estados Unidos. Geralmente, a xenofobia está associada ao racismo. A forma como Bolsonaro trata os índios no Brasil sempre teve essa conotação xenófoba; a novidade é o preconceito que revelou na ONU em relação aos caboclos brasileiros.
Certos fenômenos da vida brasileira não se explicam pela sociologia ou pela ciência política, somente podem ser compreendidos quando nos socorremos da antropologia. A eleição de Bolsonaro, por exemplo, sua capacidade de se amalgamar aos evangélicos e capturar o sentimento de preservação da família unicelular patriarcal nas camadas mais pobres da população, ameaçada pelas dificuldades econômicas e as mudanças de costumes. Em contrapartida, Bolsonaro não consegue entender o nosso sincretismo religioso e o peso da miscigenação na formação da identidade brasileira. Se entendesse, não trataria com tanto preconceito os indígenas e os caboclos da Amazônia.
O caboclo tem uma cultura de selva adquirida dos índios. Porém, manteve a língua, a religiosidade e certos costumes dos portugueses, ao longo de secular abandono. É um comportamento semelhante ao do moçambicano branco, mas muito diferente do bôer sul-africano, que renegou as origens, inventou uma nova língua e se considera a grande tribo branca da África. Todos ficaram insulados após a expulsão dos holandeses do Nordeste brasileiro. Explico: quando os holandeses chegaram ao Recife, em 1630, para controlar o açúcar, perceberam que o que dava dinheiro não era só plantar cana e produzir açúcar, mas também vender africanos para os senhores de engenho. Saíram do Recife em 1641 para atacar Angola e dominar o tráfico negreiro para o Brasil. Quando começou a guerra de guerrilhas em Pernambuco para expulsá-los, Salvador de Sá organizou uma expedição do Rio de Janeiro para expulsar os holandeses de Angola, em 1648. Cerca de 2 mil portugueses, porém, ficaram largados na Amazônia, para onde haviam sido enviados em 1637, para explorar o cacau e a castanha, produtos de grande valor comercial.
Apesar dos esforços portugueses para manter o controle da região, notadamente do Marquês de Pombal, após o Tratado de Madri (1750), por meio da fortificação de suas fronteiras — Belém, Gurupá, Manaus, Santarém, Almeirim, Óbidos, Tabatinga, São Gabriel da Cachoeira, Guaporé, Macapá e outros —, a integração à economia nacional somente veio a ocorrer no século XIX, com o Ciclo da Borracha (1870-1912), quando aproximadamente 300 mil nordestinos migraram para seus seringais. Mas a cultura amazônida do caboclo já estava dada.
Além do preconceito étnico, há um viés de intolerância religiosa muito forte na fala de Bolsonaro, porque o caboclo é uma “entidade” do sincretismo religioso entre africanos e índios. Nas religiões ou seitas afro-brasileiras, é a designação genérica dos espíritos de ancestrais indígenas brasileiros que supostamente surgem nas cerimônias rituais e que foram idealizados, já no século XX, segundo os modelos de orixás da teogonia jeje-nagô e do indianismo literário romântico. Na Umbanda, são guerreiros enérgicos, procurados pelos conselhos sensatos e passes poderosos. Bolsonaro mexeu com Ubirajara, Tupiara, Cobra Coral, Pena Branca, Sete Flechas, Águia Dourada, Sete Espadas, Espada Flamejante, Sete Lanças, Tabajara, Tamoio, Sete Ondas, Sete Matas, Caboclo Pantera Negra, Tupuruplata, Rompe-Mato, Caboclo Apeiara, Araribóia, Rompe-Ferro, Pena Vermelha, Beira Mar, Caiçara e Sete Caminhos.
Nornalização da barbárie
É como se tivessem se acostumado com a barbárie. Essa normalização diminui a pressão em órgãos que deveriam estar fiscalizando. Uma sociedade anestesiada diante desse cenário acaba não fazendo pressão para que essa tendência do desmatamento e queimadas mude
Banco Mundial aponta crescimento da pobreza e desigualdade no Brasil
Os brasileiros na faixa dos 40% mais pobres, população equivalente a 85 milhões de pessoas, começaram este ano de pandemia da covid-19 sem terem recuperado a renda que tinham antes da recessão iniciada em 2014, no final do governo Dilma Rousseff. O mesmo não ocorreu com a outra parcela da população, que no início do ano já recebia uma renda superior à do período pré-crise.
Os cálculos são de estudo do Banco Mundial realizado a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). A parte mais pobre da população teve alívio temporário ao longo de 2020 com a renda emergencial, mas muitos voltarão à situação anterior após o fim do benefício, em dezembro.
De 2014 a 2019, a renda dos 40% mais pobres caiu, em média, 1,4% por ano. No mesmo período, a renda média dos brasileiros como um todo cresceu 0,3% ao ano. Se a evolução da renda nesse período tivesse beneficiado igualmente todas as faixas da população, haveria no começo deste ano 13 milhões de brasileiros a menos vivendo em pobreza e 9 milhões a menos na pobreza extrema. O Banco Mundial considera que quem tem uma renda per capita menor que 499 reais por mês vive na pobreza, e a pobreza extrema atinge quem tem menos de 178 reais per capita por mês.
Como consequência da recuperação desigual, houve aumento da desigualdade de renda. Medida pelo índice de Gini, ela estava em 0,525 em 2015 — a menor da história do país — e alcançou 0,550 em 2018. No ano seguinte, houve uma leve queda, para 0,547. Quando mais próximo de 1, mais desigual é a renda.
O principal motivo para a perda de renda dos 40% mais pobres nesse período foi a queda da renda do trabalho dos homens, responsáveis pela maior parte da renda na maioria dos lares brasileiros. Esse fator foi responsável por três quartos da alta da pobreza e da pobreza extrema e por três quartos da alta da desigualdade de 2014 a 2019.
"Os empregos perdidos na crise se recuperaram de forma muita lenta, e a uma velocidade ainda menor para quem está na base da pirâmide. Além disso, a renda de quem conseguiu retomar o trabalho em muitos casos não voltou ao nível anterior da crise", afirma à DW Brasil Gabriel Ibarra, economista sênior do Banco Mundial especialista em pobreza no Brasil.
A distribuição desigual da recuperação, que penaliza duplamente os mais pobres, está relacionada à natureza do trabalho que essa faixa da população desempenha, em geral informal e exposto a vulnerabilidades.
"O tipo de trabalho normalmente disponível para quem está na base da distribuição são os trabalhos informais, com menos proteção, mais voláteis. É diverso dos trabalhos disponíveis para as parcelas mais ricas e mais educadas, que têm acesso a empregos formais e mais conectados à economia, comparado a quando você é um autônomo que trabalha vendendo algo na informalidade", afirma Ibarra.
O Banco Mundial desenvolveu um quadro comparativo da evolução da pobreza extrema, da pobreza e da desigualdade entre os países da América Latina no período de 2014 a 2018, fazendo ajustes nas pesquisas nacionais de cada um deles.
Apesar de o fim do super-ciclo de commodities de 2011 ter afetado todos os países da região, o Brasil foi um dos poucos que viu sua pobreza e desigualdade crescerem nesse período. E, entre os que tiveram essa reversão, o Brasil lidera nos três índices.
Além do Brasil, apenas Honduras e Equador também tiveram aumento de desigualdade no período; Argentina e Equador registraram aumento da pobreza; e Argentina, Equador e Honduras tiveram alta da pobreza extrema — todos em menor grau do que o Brasil.
Esse cenário trágico é resultado, segundo Ibarra, de uma conjunção de fatores, como o nível de endividamento das famílias, a mudança excessivamente abrupta de uma política fiscal expansionista para contracionista no segundo governo Dilma, a queda geral do consumo e a fuga de divisas após o país perder o selo de bom pagador, conhecido como grau de investimento, em 2015.
O relatório também aponta outros motivos "que estavam acumulando problemas para o futuro", como baixo ganho de produtividade, custo crescente do trabalho, demanda baseada mais em consumo do que investimento e alta constante dos gastos correntes do governo, em especial na Previdência Social.
Como resultado, a crise fez o Brasil perder parte dos ganhos sociais obtidos de 2001 a 2013, quando 24,6 milhões de seus habitantes deixaram a pobreza — cerca de 50% da redução da pobreza em toda a América Latina e Caribe nesse período.
O Bolsa Família, sistema de proteção social que é, segundo Ibarra, reconhecido internacionalmente pela flexibilidade e capacidade de focalização dos recursos em quem mais precisa, não foi capaz de amortecer a crise para os mais miseráveis. De 2014 a 2017, mais de 4,6 milhões brasileiros caíram para a pobreza extrema.
Algumas pesquisas já apontaram as deficiências do Bolsa Família nessa fase, como represamento de pedidos para receber as transferências, redução das equipes que fazem a busca ativa de possíveis beneficiários e a ausência de reajustes anuais do benefício para repor a inflação.
"Durante e após a crise de 2014, não vimos a resposta [do sistema de proteção social] como houve em outros momentos, o que teve implicações para a pobreza e a desigualdade", diz o economista do Banco Mundial.
O impacto da renda emergencial
Neste ano, o impacto da pandemia na economia foi reduzido para as faixas mais pobres devido ao auxílio emergencial. O benefício de 600 reais, que chega a 1,2 mil reais para mães solteiras, começou a ser pago em abril para um período inicial de três meses. A partir de outubro, será reduzido à metade, e a última parcela será paga em dezembro.
Por ter um valor muito superior ao Bolsa Família, cujo benefício médio é de 190 reais, em alguns casos a renda emergencial superou a perda provocada pela pandemia, retirando famílias da pobreza.
"Esse programa foi tão amplo que há evidências sugerindo que ele reverteu, e não apenas mitigou, alguns dos efeitos monetários da pandemia. E não é uma surpresa que essas transferências possam ter mais que compensado o impacto para alguns grupos", afirma Ibarra.
Questionado sobre qual será o impacto do fim do auxílio emergencial na pobreza a partir do ano que vem, ele afirma que isso dependerá de eventuais reformas dos programas sociais, do desempenho da economia no último trimestre deste ano e do comportamento do mercado de trabalho.
Os cálculos são de estudo do Banco Mundial realizado a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). A parte mais pobre da população teve alívio temporário ao longo de 2020 com a renda emergencial, mas muitos voltarão à situação anterior após o fim do benefício, em dezembro.
De 2014 a 2019, a renda dos 40% mais pobres caiu, em média, 1,4% por ano. No mesmo período, a renda média dos brasileiros como um todo cresceu 0,3% ao ano. Se a evolução da renda nesse período tivesse beneficiado igualmente todas as faixas da população, haveria no começo deste ano 13 milhões de brasileiros a menos vivendo em pobreza e 9 milhões a menos na pobreza extrema. O Banco Mundial considera que quem tem uma renda per capita menor que 499 reais por mês vive na pobreza, e a pobreza extrema atinge quem tem menos de 178 reais per capita por mês.
Como consequência da recuperação desigual, houve aumento da desigualdade de renda. Medida pelo índice de Gini, ela estava em 0,525 em 2015 — a menor da história do país — e alcançou 0,550 em 2018. No ano seguinte, houve uma leve queda, para 0,547. Quando mais próximo de 1, mais desigual é a renda.
O principal motivo para a perda de renda dos 40% mais pobres nesse período foi a queda da renda do trabalho dos homens, responsáveis pela maior parte da renda na maioria dos lares brasileiros. Esse fator foi responsável por três quartos da alta da pobreza e da pobreza extrema e por três quartos da alta da desigualdade de 2014 a 2019.
"Os empregos perdidos na crise se recuperaram de forma muita lenta, e a uma velocidade ainda menor para quem está na base da pirâmide. Além disso, a renda de quem conseguiu retomar o trabalho em muitos casos não voltou ao nível anterior da crise", afirma à DW Brasil Gabriel Ibarra, economista sênior do Banco Mundial especialista em pobreza no Brasil.
A distribuição desigual da recuperação, que penaliza duplamente os mais pobres, está relacionada à natureza do trabalho que essa faixa da população desempenha, em geral informal e exposto a vulnerabilidades.
"O tipo de trabalho normalmente disponível para quem está na base da distribuição são os trabalhos informais, com menos proteção, mais voláteis. É diverso dos trabalhos disponíveis para as parcelas mais ricas e mais educadas, que têm acesso a empregos formais e mais conectados à economia, comparado a quando você é um autônomo que trabalha vendendo algo na informalidade", afirma Ibarra.
O Banco Mundial desenvolveu um quadro comparativo da evolução da pobreza extrema, da pobreza e da desigualdade entre os países da América Latina no período de 2014 a 2018, fazendo ajustes nas pesquisas nacionais de cada um deles.
Apesar de o fim do super-ciclo de commodities de 2011 ter afetado todos os países da região, o Brasil foi um dos poucos que viu sua pobreza e desigualdade crescerem nesse período. E, entre os que tiveram essa reversão, o Brasil lidera nos três índices.
Além do Brasil, apenas Honduras e Equador também tiveram aumento de desigualdade no período; Argentina e Equador registraram aumento da pobreza; e Argentina, Equador e Honduras tiveram alta da pobreza extrema — todos em menor grau do que o Brasil.
Esse cenário trágico é resultado, segundo Ibarra, de uma conjunção de fatores, como o nível de endividamento das famílias, a mudança excessivamente abrupta de uma política fiscal expansionista para contracionista no segundo governo Dilma, a queda geral do consumo e a fuga de divisas após o país perder o selo de bom pagador, conhecido como grau de investimento, em 2015.
O relatório também aponta outros motivos "que estavam acumulando problemas para o futuro", como baixo ganho de produtividade, custo crescente do trabalho, demanda baseada mais em consumo do que investimento e alta constante dos gastos correntes do governo, em especial na Previdência Social.
Como resultado, a crise fez o Brasil perder parte dos ganhos sociais obtidos de 2001 a 2013, quando 24,6 milhões de seus habitantes deixaram a pobreza — cerca de 50% da redução da pobreza em toda a América Latina e Caribe nesse período.
O Bolsa Família, sistema de proteção social que é, segundo Ibarra, reconhecido internacionalmente pela flexibilidade e capacidade de focalização dos recursos em quem mais precisa, não foi capaz de amortecer a crise para os mais miseráveis. De 2014 a 2017, mais de 4,6 milhões brasileiros caíram para a pobreza extrema.
Algumas pesquisas já apontaram as deficiências do Bolsa Família nessa fase, como represamento de pedidos para receber as transferências, redução das equipes que fazem a busca ativa de possíveis beneficiários e a ausência de reajustes anuais do benefício para repor a inflação.
"Durante e após a crise de 2014, não vimos a resposta [do sistema de proteção social] como houve em outros momentos, o que teve implicações para a pobreza e a desigualdade", diz o economista do Banco Mundial.
O impacto da renda emergencial
Neste ano, o impacto da pandemia na economia foi reduzido para as faixas mais pobres devido ao auxílio emergencial. O benefício de 600 reais, que chega a 1,2 mil reais para mães solteiras, começou a ser pago em abril para um período inicial de três meses. A partir de outubro, será reduzido à metade, e a última parcela será paga em dezembro.
Por ter um valor muito superior ao Bolsa Família, cujo benefício médio é de 190 reais, em alguns casos a renda emergencial superou a perda provocada pela pandemia, retirando famílias da pobreza.
"Esse programa foi tão amplo que há evidências sugerindo que ele reverteu, e não apenas mitigou, alguns dos efeitos monetários da pandemia. E não é uma surpresa que essas transferências possam ter mais que compensado o impacto para alguns grupos", afirma Ibarra.
Questionado sobre qual será o impacto do fim do auxílio emergencial na pobreza a partir do ano que vem, ele afirma que isso dependerá de eventuais reformas dos programas sociais, do desempenho da economia no último trimestre deste ano e do comportamento do mercado de trabalho.
'O vírus é uma desculpa para um enredo de proporções totalitárias'
“O jogo acabou, Bill. As pessoas não são cegas.” Isto foi o que Dejan Lovren, um dos mais conhecidos futebolistas internacionais croatas, resolveu escrever nas redes sociais, como comentário a uma imagem que mostrava o criador da Microsoft a segurar um cartaz em que agradecia aos trabalhadores da saúde o extenuante e perigoso tratamento de doentes com Covid-19. Lovren é fã do profissional das teorias da conspiração David Icke e, no seu Instagram, o futebolista partilha acusações tão insólitas como a de o coronavírus estar a ser disseminado através da rede 5G de telemóvel, ou a de que qualquer vacina para cessar o contágio conterá “microchips de nanotecnologia” destinados a controlar o cérebro de quem a tomar. E se Bill Gates, por via da fundação que detém com a mulher, Melinda, é um dos principais financiadores de investigações científicas para desenvolver uma vacina contra o SARS-CoV 2, o tal “jogo” revela-se cristalino na cabeça de Lovren.
Imagina-se que Lovren exultou com a manifestação que no início deste mês juntou milhares de pessoas na capital do seu país, Zagreb, num protesto contra as medidas impostas pelas autoridades para combater a propagação do novo coronavírus. “A Covid-19 é uma mentira, não somos todos ‘covidotes’”, ou “Tirem a máscara, apaguem a televisão, vivam plenamente a vossa vida”, lia-se em alguns dos cartazes exibidos pelos participantes, apesar de uma segunda vaga da pandemia ser já, na altura, equacionada na Europa. Dir-se-ia, até, que a satisfação de Lovren chegou ao júbilo: os manifestantes antimáscaras, antidistanciamento e, sobretudo, antivacinas que convergiram de toda a Croácia para Zagreb talvez só tenham sido superados em número pelos cerca de 20 mil correligionários que num domingo de agosto se concentraram para o mesmo protesto em Berlim, organizado pela extrema-direita, que lhe chamou “Dia da Liberdade”, título do filme sobre a Wehrmacht (o exército alemão), de 1935, dirigido por Leni Riefenstahl, a cineasta que trabalhou ao serviço do aparelho de propaganda de Hitler. Ou seja, os manifestantes croatas terão ganho aos colegas de Paris, Madrid, Zurique, Londres e Roma. Na concentração na capital italiana, e só na aparência deslocados, alguns participantes empunhavam bandeiras de apoio a Trump. E, por sinal, uma sondagem feita pela Gallup nos EUA, em julho/agosto, assinalou que 35% dos inquiridos responderam que não tomariam a vacina contra o SARS-CoV 2, mesmo que estivesse aprovada pela FDA (Food and Drug Administration) e fosse gratuita. Aquela percentagem corresponde a mais de 100 milhões de habitantes do país…
O médico João Júlio Cerqueira, criador do projeto SCIMED-Ciência Baseada na Evidência, considera, em declarações à VISÃO, que estamos a assistir a uma “fusão de paranoias” em que “os proponentes de terapias alternativas e de bem-estar se juntam aos apoiantes da extrema-direita” na oposição às medidas oficiais para conter a pandemia. Há “dezenas de estudos” que “demonstram que os doentes seguidos por terapeutas alternativos têm muito maior desconfiança relativamente à vacinação”, acrescenta. E a “fusão de paranoias”, deteta o médico, funciona sob a mesma mensagem: “O vírus é uma desculpa para um enredo de proporções totalitárias, projetado para acabar com a liberdade de movimento, reunião, expressão e – para o horror de alguns na indústria do bem-estar – impor um programa de vacinação em massa.” Estes grupos, resume João Júlio Cerqueira, “são um poço de desinformação” e vão causar estragos na contenção da pandemia.
“É compreensível o receio face a uma ‘vacina feita à pressa’”, diz João Júlio Cerqueira. “Ao contrário de um medicamento, uma vacina é dada a pessoas sem qualquer doença, pelo que a segurança é, de facto, o fator mais relevante”, acrescenta. E a vacina russa alardeada por Putin em nada ajuda. “Foram realizados apenas os ensaios mais precoces – fase 1 e fase 2 -, com uma amostra bastante pequena e usando maioritariamente pessoas jovens, pelo que não sabemos qual será o efeito em outros grupos demográficos e numa amostra de maior dimensão”, explica o criador do SCIMED-Ciência Baseada na Evidência. E o grande perigo é o de, caso corra mal, “a experiência russa colocar em causa a credibilidade das restantes vacinas”.De outra ordem são os receios relativos aos efeitos secundários e à eficácia da vacina para o SARS-CoV 2, que pode vir a estar disponível no final deste ano. E não faltam sondagens recentes a refletir aquelas apreensões. Em agosto foi divulgada uma pesquisa feita pela Ipsos em 27 países (Portugal não incluído), por encomenda do Fórum Económico Mundial, em que 74% dos inquiridos responderam que tomariam a vacina contra o novo coronavírus, se já existisse, mas em que, entre quem disse que não a inocularia, 54% aludiram a receios sobre os efeitos secundários e 29% a dúvidas acerca da sua eficácia. Quanto a um estudo que incluiu Portugal, publicado em junho no European Journal of Health Economics, 21% dos inquiridos mostraram-se indecisos pelas mesmas razões.
A boa notícia, por outro lado, é que “a criação de uma nova vacina começa a ser cada vez menos difícil, graças ao ‘know-how’ e à inovação tecnológica”, diz o médico. Significa isto “não só a criação da vacina em tempo menor, como iniciar os testes com relativa rapidez”. É isso que “está a acontecer com as mais de 100 vacinas que competem entre si para chegar ao mercado, e dar resposta à pandemia do SARS-CoV 2”, verifica o clínico.
Mas há que colocar a hipótese de a vacina falhar ou de demorar demasiado a chegar. Aí, “dificilmente teremos outra hipótese que não passe pela imunidade de grupo”, diz João Júlio Cerqueira. E, nesse campo, “começam a existir alguns sinais que podem ser positivos”, embora com características “preliminares”, nota o médico. Por exemplo, “há pessoas que parecem ser imunes ao SARS-CoV 2 graças ao contacto com outros coronavírus”. E mesmo havendo indivíduos que não produzem anticorpos protetores contra o SARS-CoV 2, após exposição ao coronavírus, “essas pessoas podem ser imunes graças à memória das células T”, que atacam congéneres infetadas por vírus, levando à sua destruição e cessando os processos de replicação viral, “algo que não é estudado nos testes serológicos”, diz o criador do SCIMED-Ciência Baseada na Evidência.
Pensa-se que a imunidade de grupo se estabelece numa baliza percentual situada entre 60% e 85% de uma população. Mas também há quem defenda que aquelas percentagens podem ser mais baixas. E existe aqui um forte caso para apresentar: depois de brutalmente afetada pela pandemia, a cidade brasileira de Manaus regista agora uma redução significativa e “inexplicável” do número de infeções, ao mesmo tempo que atingiu uma “imunidade na ordem dos 20%”, anota João Júlio Cerqueira.
Ao contrário do que diz o futebolista internacional croata Lovren, que acredita em vacinas com “microchips de nanotecnologia” para controlar o nosso comportamento, o “jogo” não acabou. E ainda bem.
O médico João Júlio Cerqueira, criador do projeto SCIMED-Ciência Baseada na Evidência, considera, em declarações à VISÃO, que estamos a assistir a uma “fusão de paranoias” em que “os proponentes de terapias alternativas e de bem-estar se juntam aos apoiantes da extrema-direita” na oposição às medidas oficiais para conter a pandemia. Há “dezenas de estudos” que “demonstram que os doentes seguidos por terapeutas alternativos têm muito maior desconfiança relativamente à vacinação”, acrescenta. E a “fusão de paranoias”, deteta o médico, funciona sob a mesma mensagem: “O vírus é uma desculpa para um enredo de proporções totalitárias, projetado para acabar com a liberdade de movimento, reunião, expressão e – para o horror de alguns na indústria do bem-estar – impor um programa de vacinação em massa.” Estes grupos, resume João Júlio Cerqueira, “são um poço de desinformação” e vão causar estragos na contenção da pandemia.
“É compreensível o receio face a uma ‘vacina feita à pressa’”, diz João Júlio Cerqueira. “Ao contrário de um medicamento, uma vacina é dada a pessoas sem qualquer doença, pelo que a segurança é, de facto, o fator mais relevante”, acrescenta. E a vacina russa alardeada por Putin em nada ajuda. “Foram realizados apenas os ensaios mais precoces – fase 1 e fase 2 -, com uma amostra bastante pequena e usando maioritariamente pessoas jovens, pelo que não sabemos qual será o efeito em outros grupos demográficos e numa amostra de maior dimensão”, explica o criador do SCIMED-Ciência Baseada na Evidência. E o grande perigo é o de, caso corra mal, “a experiência russa colocar em causa a credibilidade das restantes vacinas”.De outra ordem são os receios relativos aos efeitos secundários e à eficácia da vacina para o SARS-CoV 2, que pode vir a estar disponível no final deste ano. E não faltam sondagens recentes a refletir aquelas apreensões. Em agosto foi divulgada uma pesquisa feita pela Ipsos em 27 países (Portugal não incluído), por encomenda do Fórum Económico Mundial, em que 74% dos inquiridos responderam que tomariam a vacina contra o novo coronavírus, se já existisse, mas em que, entre quem disse que não a inocularia, 54% aludiram a receios sobre os efeitos secundários e 29% a dúvidas acerca da sua eficácia. Quanto a um estudo que incluiu Portugal, publicado em junho no European Journal of Health Economics, 21% dos inquiridos mostraram-se indecisos pelas mesmas razões.
A boa notícia, por outro lado, é que “a criação de uma nova vacina começa a ser cada vez menos difícil, graças ao ‘know-how’ e à inovação tecnológica”, diz o médico. Significa isto “não só a criação da vacina em tempo menor, como iniciar os testes com relativa rapidez”. É isso que “está a acontecer com as mais de 100 vacinas que competem entre si para chegar ao mercado, e dar resposta à pandemia do SARS-CoV 2”, verifica o clínico.
Mas há que colocar a hipótese de a vacina falhar ou de demorar demasiado a chegar. Aí, “dificilmente teremos outra hipótese que não passe pela imunidade de grupo”, diz João Júlio Cerqueira. E, nesse campo, “começam a existir alguns sinais que podem ser positivos”, embora com características “preliminares”, nota o médico. Por exemplo, “há pessoas que parecem ser imunes ao SARS-CoV 2 graças ao contacto com outros coronavírus”. E mesmo havendo indivíduos que não produzem anticorpos protetores contra o SARS-CoV 2, após exposição ao coronavírus, “essas pessoas podem ser imunes graças à memória das células T”, que atacam congéneres infetadas por vírus, levando à sua destruição e cessando os processos de replicação viral, “algo que não é estudado nos testes serológicos”, diz o criador do SCIMED-Ciência Baseada na Evidência.
Pensa-se que a imunidade de grupo se estabelece numa baliza percentual situada entre 60% e 85% de uma população. Mas também há quem defenda que aquelas percentagens podem ser mais baixas. E existe aqui um forte caso para apresentar: depois de brutalmente afetada pela pandemia, a cidade brasileira de Manaus regista agora uma redução significativa e “inexplicável” do número de infeções, ao mesmo tempo que atingiu uma “imunidade na ordem dos 20%”, anota João Júlio Cerqueira.
Ao contrário do que diz o futebolista internacional croata Lovren, que acredita em vacinas com “microchips de nanotecnologia” para controlar o nosso comportamento, o “jogo” não acabou. E ainda bem.
sábado, 26 de setembro de 2020
Elogio do comedimento
Em 2020, quer se reeleja ou não, Jair Bolsonaro provavelmente terá ainda à sua frente um país consumido por várias devastações, umas bem visíveis, outras quase invisíveis. Comecemos pelas devastações visíveis.
Falar da Amazônia é chover no molhado. Pensemos só em nossa incapacidade de efetivar as reformas sem as quais não retomaremos o crescimento econômico em bases sustentáveis. Em nosso calamitoso sistema de ensino, sobre o qual nenhuma proposta relevante de reforma veio a público nestes quase dois anos de governo. No disparate de um país que não consegue ajustar as contas do governo, mas insiste em se desenvolver com base no investimento público, e num governo que mantém o ministro Paulo Guedes como personagem figurativo. Num país corroído até a medula pela corrupção, que alimentava a esperança de reformar essa área de forma drástica, mas, em vez disso, assistiu à defenestração do ex-juiz Sergio Moro e a um tapete vermelho estendido na rampa do Planalto para o retorno da “velha política”.
Por último, mas não menos importante, uma palavra sobre nossa medíocre taxa de investimento, que nos mantém aprisionados na chamada “armadilha do baixo crescimento”. Aprisionados até onde a vista alcança, uma vez que uma renda anual per capita crescendo 2% ao ano não será dobrada em menos de 30 anos – o que ainda seria um resultado medíocre. Em tal quadro, nutrimos a ilusão de que dentro de mais alguns anos o nosso decantado “país do futuro” será um pouco melhor ou pelo menos igual a esse de que hoje dispomos, como se a possibilidade do retrocesso não existisse, a pior hipótese sendo a de ficarmos parados no tempo, sem sair do lugar.
Falar da Amazônia é chover no molhado. Pensemos só em nossa incapacidade de efetivar as reformas sem as quais não retomaremos o crescimento econômico em bases sustentáveis. Em nosso calamitoso sistema de ensino, sobre o qual nenhuma proposta relevante de reforma veio a público nestes quase dois anos de governo. No disparate de um país que não consegue ajustar as contas do governo, mas insiste em se desenvolver com base no investimento público, e num governo que mantém o ministro Paulo Guedes como personagem figurativo. Num país corroído até a medula pela corrupção, que alimentava a esperança de reformar essa área de forma drástica, mas, em vez disso, assistiu à defenestração do ex-juiz Sergio Moro e a um tapete vermelho estendido na rampa do Planalto para o retorno da “velha política”.
Por último, mas não menos importante, uma palavra sobre nossa medíocre taxa de investimento, que nos mantém aprisionados na chamada “armadilha do baixo crescimento”. Aprisionados até onde a vista alcança, uma vez que uma renda anual per capita crescendo 2% ao ano não será dobrada em menos de 30 anos – o que ainda seria um resultado medíocre. Em tal quadro, nutrimos a ilusão de que dentro de mais alguns anos o nosso decantado “país do futuro” será um pouco melhor ou pelo menos igual a esse de que hoje dispomos, como se a possibilidade do retrocesso não existisse, a pior hipótese sendo a de ficarmos parados no tempo, sem sair do lugar.
Dediquei o parágrafo acima a focos bem visíveis de devastação, todos eles de conhecimento geral. Entre as devastações menos visíveis, a primeira a mencionar é, sem dúvida, o abandono da reforma política. Já nem falamos nela, como se o nosso sistema político fosse um primor de funcionalidade, como se as instituições, nos três Poderes, estivessem funcionando esplendidamente e como se a máquina do Estado estivesse pronta a responder ao primeiro impulso favorável ao crescimento da economia. O que se vê, infelizmente, é bem o contrário, e aqui vou me ater a um aspecto apenas da estratégia política de Jair Bolsonaro.
Nunca em nossa História tivemos tantos militares graduados no Executivo. Não estou sugerindo que isso seja ilegal, nem quero recorrer ao termo “cooptação”, sabidamente pejorativo. Mas, inegavelmente, o recrutamento para o Executivo de tantos oficiais militares não se harmoniza com o artigo 142 da Constituição de 1988, que define as Forças Armadas como “instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina”. Essa definição do status das Forças Armadas é o núcleo conceitual que as diferencia de uma força suscetível de partidarização ou de eventual devoção a um governo de índole caudilhesca. É óbvio que falo em tese, sem me referir a nenhuma conduta específica das Forças Armadas no atual governo. Contudo, no momento atual, expressar tal preocupação é normal e cabível, tendo em vista o clima de desvairada radicalização que possibilitou a ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência e, igualmente importante, as atitudes por vezes desnorteadas que Sua Excelência assume.
Mesmo tendo passado 29 anos na Câmara dos Deputados e obtido expressiva votação no pleito presidencial, salta aos olhos que Jair Bolsonaro não assimilou na extensão devida os conceitos e deveres inerentes a toda função pública. Bem ao contrário, ele parece desconhecer a noção de “liturgia do cargo”; contraria (para não dizer sabota) de maneira frontal o trabalho dos Estados e municípios no combate à pandemia de covid-19, fomentando aglomerações e recusando-se a usar a máscara; procura influenciar a Polícia Federal, desconhecendo, ao que parece, que também ela é uma instituição de Estado; e muda de orientação política como quem troca de camisa, por exemplo, deixando de lado a “nova” e retornando à “velha” política.
Ainda mais preocupante, a meu juízo, é o manifesto desprezo do presidente da República pelo imperativo do comedimento na vida pública. A pessoa investida numa magistratura do Estado tem de compreender que não se pertence mais. O respeito devido aos cidadãos e ao país impõe-lhe a mais estrita observação desse preceito que denominamos comedimento, moderação, temperança, senso de proporção. Em seu ensaio Os Inimigos Íntimos da Democracia, o filósofo francês Tzvetan Todorov vai direto ao ponto: descomedir-se é o caminho mais rápido para reunir num único feixe os riscos objetivos a que toda democracia vez por outra se torna vulnerável. “Na Grécia antiga”, o filósofo prossegue, “os deuses puniam o orgulho dos homens que pretendessem ascender ao lugar deles, como se fossem onipotentes; entre os cristãos, o ser humano é sujeito desde o nascimento pelo pecado original, que limita severamente suas aspirações.”
Nunca em nossa História tivemos tantos militares graduados no Executivo. Não estou sugerindo que isso seja ilegal, nem quero recorrer ao termo “cooptação”, sabidamente pejorativo. Mas, inegavelmente, o recrutamento para o Executivo de tantos oficiais militares não se harmoniza com o artigo 142 da Constituição de 1988, que define as Forças Armadas como “instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina”. Essa definição do status das Forças Armadas é o núcleo conceitual que as diferencia de uma força suscetível de partidarização ou de eventual devoção a um governo de índole caudilhesca. É óbvio que falo em tese, sem me referir a nenhuma conduta específica das Forças Armadas no atual governo. Contudo, no momento atual, expressar tal preocupação é normal e cabível, tendo em vista o clima de desvairada radicalização que possibilitou a ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência e, igualmente importante, as atitudes por vezes desnorteadas que Sua Excelência assume.
Mesmo tendo passado 29 anos na Câmara dos Deputados e obtido expressiva votação no pleito presidencial, salta aos olhos que Jair Bolsonaro não assimilou na extensão devida os conceitos e deveres inerentes a toda função pública. Bem ao contrário, ele parece desconhecer a noção de “liturgia do cargo”; contraria (para não dizer sabota) de maneira frontal o trabalho dos Estados e municípios no combate à pandemia de covid-19, fomentando aglomerações e recusando-se a usar a máscara; procura influenciar a Polícia Federal, desconhecendo, ao que parece, que também ela é uma instituição de Estado; e muda de orientação política como quem troca de camisa, por exemplo, deixando de lado a “nova” e retornando à “velha” política.
Ainda mais preocupante, a meu juízo, é o manifesto desprezo do presidente da República pelo imperativo do comedimento na vida pública. A pessoa investida numa magistratura do Estado tem de compreender que não se pertence mais. O respeito devido aos cidadãos e ao país impõe-lhe a mais estrita observação desse preceito que denominamos comedimento, moderação, temperança, senso de proporção. Em seu ensaio Os Inimigos Íntimos da Democracia, o filósofo francês Tzvetan Todorov vai direto ao ponto: descomedir-se é o caminho mais rápido para reunir num único feixe os riscos objetivos a que toda democracia vez por outra se torna vulnerável. “Na Grécia antiga”, o filósofo prossegue, “os deuses puniam o orgulho dos homens que pretendessem ascender ao lugar deles, como se fossem onipotentes; entre os cristãos, o ser humano é sujeito desde o nascimento pelo pecado original, que limita severamente suas aspirações.”
Como o Brasil que alimenta 1 bilhão ultrapassou 10 milhões de famintos 'dentro de casa'?
Um dos pontos mais importantes — e menos comentados — do discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU, na terça-feira, se referia à produção de alimentos.
"No Brasil, apesar da crise mundial, a produção rural não parou. O homem do campo trabalhou como nunca, produziu, como sempre, alimentos para mais de 1 bilhão de pessoas. O Brasil contribuiu para que o mundo continuasse alimentado", afirmou o presidente. "Garantimos a segurança alimentar a um sexto da população mundial (…) O Brasil desponta como o maior produtor mundial de alimentos."
A fala se choca com dados divulgados pelo IBGE menos de uma semana antes da fala do presidente.
Mais de 10 milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar grave, segundo o órgão. Em outras palavras, essa multidão — que inclui crianças — literalmente passa fome no Brasil.
A pesquisa, que se refere aos anos de 2017 e 2018, também aponta que o total de pessoas com alimentação em quantidade suficiente e satisfatória no Brasil é o mais baixo dos últimos 15 anos. O total de brasileiros que passam fome cresceu, segundo o órgão, em 3 milhões de pessoas em cinco anos.
Os dados chamam ainda mais atenção quando postos em perspectiva: em 2014, quatro anos antes da coleta dos dados agora divulgados, o Brasil oficialmente saiu do Mapa da Fome das Nações Unidas, em uma conquista aplaudida pelo mundo inteiro.
A BBC News Brasil conversou com alguns dos principais especialistas do país em temas como acesso à alimentação adequada e fome para responder a seguinte pergunta:
Como, afinal, o mesmo país que alimenta boa parte do planeta tem ao mesmo tempo tantos milhões de famintos?
Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, divulgada em 17 de setembro, 10,3 milhões de brasileiros passavam fome durante o levantamento — um aumento de 3 milhões de pessoas sem acesso normal a refeições em 5 anos.
A conta não inclui pessoas em situação de rua.
Segundo o estudo, a insegurança alimentar grave no Brasil é registrada principalmente em áreas rurais: 23,3% da população urbana passam fome, enquanto 40,1% da população rural atravessam a mesma situação.
Ainda segundo o IBGE, quanto mais moradores viverem em um domicílio, maior será a chance de haver fome ali. Do total de brasileiros que passavam fome no período da pesquisa, a maioria vivia na região Nordeste, seguida pelo Sudeste e pelo Norte.
O IBGE divide o conceito de insegurança alimentar em 3 categorias.
A insegurança leve acontece quando a família não tem certeza se terá acesso a alimentos no futuro, e quando a qualidade da comida já é ruim. Diz o IBGE: "Nesse contexto, os moradores já assumem estratégias para manter uma quantidade mínima de alimentos disponíveis. Trocar um alimento por outro que esteja mais barato, por exemplo."
Já a insegurança moderada surge quando os moradores já têm uma quantidade restrita de alimentos — menos comida na despensa do que o satisfatório.
Por fim, a insegurança grave aparece, nas palavras o IBGE, "quando os moradores passaram por privação severa no consumo de alimentos". É nesta categoria que se encaixa a definição tradicional de fome.
Considerando os três tipos de insegurança, o estudo mostra que o problema do acesso a alimentação de qualidade também é grave. Segundo o IBGE, "pelo menos metade das crianças menores de cinco anos viviam em lares com algum grau de insegurança alimentar".
Isso equivale a 6,5 milhões de crianças. Quando a referência é insegurança grave — ou fome — 5,1% das crianças com menos de 5 anos e 7,3% das pessoas com idade entre 5 e 17 anos vivem nessa condição.
Diferentemente do que o presidente Jair Bolsonaro afirmou, o Brasil não é o primeiro, mas o terceiro maior produtor de alimentos do planeta — com mais de 240 milhões de toneladas no ano passado, ficando atrás apenas da China e dos EUA.
Segundo a ABIA, Associação Brasileira da Indústria de Alimentos, o Brasil exportou comida para mais de 180 países, movimentando 34,1 bilhões de dólares no ano passado.
A maior parte, 36,8%, foi para a Ásia, principalmente para a China. Em seguida vinham União Europeia (18,8% das exportações) e Oriente Médio (14,3%).
Segundo a associação, o Brasil é o segundo exportador mundial de alimentos industrializados em volume e o quinto em valor.
É também o primeiro produtor e exportador mundial de suco de laranja; o segundo produtor e primeiro exportador mundial de açúcar; o segundo produtor e primeiro exportador mundial de carne bovina e de carne de aves.
Mas é importante diferenciar a origem dos alimentos que vão para a mesa do brasileiro e para as prateleiras no exterior.
Segundo o último censo agropecuário do IBGE, 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros vêm da agricultura familiar. Eles são produzidos em terras pequenas, com geralmente entre 1 e 2 hectares, administradas por pessoas da mesma família que costumam produzir para consumo próprio e vender o excedente.
Diferentemente das grandes monoculturas de soja ou café, ou dos grandes pastos da pecuária do agronegócio, a agricultura familiar é marcada pela diversidade de alimentos: de mandioca e hortaliças a milho, leite e frutas.
É graças a ela que o prato do brasileiro pode ser farto e colorido, como recomendam nutricionistas.
Já o agronegócio, de outro lado, abarca os maiores produtores do país e contribui com mais de 60% da balança comercial do país.
Com representantes em todos os níveis da política nacional, o agronegócio tem produção principalmente destinada à exportação.
Daniel Balaban, diretor do Centro de Excelência contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos da ONU no Brasil, diz que o nome do agronegócio, não à toa, é "negócio".
"O agronegócio vai aonde pagam mais, aonde ele tem mais lucro. O dólar a R$ 5,50, um dólar supervalorizado, fez com que o produto brasileiro ficasse muito barato para exportação, principalmente a China, que compra muito, fora outros mercados como Rússia. Fica muito barato para eles comprarem e o retorno é bom para o exportador", afirma.
Já o Kiko Afonso, Diretor Executivo da Ação da Cidadania, fundada pelo sociólogo Betinho (Herbert de Souza) em 1993 para combater a fome e a miséria no país, diz que a política de agricultura brasileira se orienta para as exportações.
Nas palavras de Afonso, isso pode ser "bom para a balança econômica, mas é péssimo para o consumo local, principalmente para as populações mais vulneráveis".
"Você soma dois grandes fatores: uma política de governo que olha para o agronegócio e a exportação em detrimento do pequeno produtor, o que encarece o alimento, e uma segunda vertente de desigualdade social absurda, onde grande maioria da população vive com um salário abaixo de uma média aceitável para se sobreviver". diz.
"Os dois elementos em conjunto geram uma diminuição do poder de compra das famílias e obviamente dificuldade para a aquisição de alimentos."
Os especialistas destacaram à BBC News Brasil que a atenção destinada por governos à agricultura familiar, que põe comida na mesa do brasileiro, vem diminuindo no Brasil.
"A ONU acompanha há muito tempo todos os países e o Brasil é um deles", diz Balaban. "Com a diminuição das políticas de fomento aos agricultores familiares, é intrínseco o aumento do número de pessoas passando fome."
Ele cita o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que no passado chegou a ter orçamento superior a 1 bilhão de reais e foi duramente cortado até que, no governo de Michel Temer. encolheu de R$ 478 milhões para R$ 294 milhões.
Pelo programa, o governo compra alimentos de pequenos produtores e os distribui para pessoas de baixa renda. Em meio à pandemia, o governo Bolsonaro anunciou R$ 500 milhões para uma retomada do PAA.
"O Pronaf, Programa de Apoio ao Agricultor Familiar, diminuiu bastante o número de empréstimos com juros subsidiados para eles comprarem a sua produção, fertilizantes, sementes. E outros programas, por exemplo de captação de água da chuva com cisternas, também caíram drasticamente", diz o especialista da ONU.
"Essa população do campo é muito vulnerável, então ela precisa que esteja sempre sendo incentivada e apoiada por políticas públicas do governo."
Afonso, da Ação da Cidadania, concorda.
"É sempre importante lembrar que esse governo extinguiu o Conselho de Segurança Alimentar (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Consea), justamente o órgão que dialogava com a sociedade civil na construção de políticas de segurança alimentar no Brasil", afirma.
Por medida provisória em janeiro do ano passado, Bolsonaro extinguiu o conselho, criado em 1993 como parte da criação de um marco legal para o combate a fome.
O órgão era formado por 60 voluntários — 40 representantes de ONGs e movimentos sociais e 20 do governo.
"A situação é muito grave, e estamos falando de muita gente que pode morrer de fome no Brasil", diz Afonso. "Isso é inaceitável. Nosso fundador, o Betinho, sempre dizia que a fome é uma das piores, se não a pior, indignidade que o ser humano pode ter; E a gente luta justamente para que isso não aconteça."
A fome, segundo o IBGE, se concentra justamente nas regiões rurais — aquelas onde se produz a comida.
Marcelo Neri, professor da FGV, ex-presidente do Ipea e ex-ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República entre 2013 e 2015, diz que "o morador do campo é mais pobre, produz alimentos, mas não ganha o suficiente para comprá-los".
"Em 2019, 53% dos 20% mais pobres e 10% dos 20% mais ricos brasileiros declaravam que faltava dinheiro para alimentação. Já no resto do mundo, os números eram 48% nos 20% mais pobres e 21% nos 20% mais ricos", diz o professor.
"Ou seja, nossos mais pobres têm hoje mais insegurança alimentar que no mundo, enquanto nossos mais ricos têm menos. É a famosa desigualdade tupiniquim."
Os demais especialistas também apontam a precariedade vivida no campo.
"O Brasil teve muitas políticas de ajuda aos pequenos agricultores familiares no passado. E essas políticas perderam força nos últimos governos: já no final do governo da Dilma, Temer e agora. Praticamente estão, vamos dizer, muito pequenas as políticas de apoio aos pequenos. Isso faz com que, além deles diminuírem a produção ou não comerem, acaba trazendo fome ao campo", avalia Balaban, da ONU."Se o trabalho já é precarizado nas regiões urbanas e vem se precarizando cada vez mais, especialmente num governo que nos últimos anos tem lutado, por exemplo, contra as fiscalizações de trabalho análogo à escravidão no campo, você imagina o grau de desigualdade social vista no campo no Brasil", pondera Kiko Afonso."Elas acabam tendo que migrar ou para centros urbanos, para morarem em favelas e regiões super pobres, porque são pessoas que vieram do campo e têm enorme dificuldade de adaptação nas grandes cidades, ou elas têm que se adequar e trabalhar para o grande agronegócio, que obviamente tem foco em lucrar o máximo possível. Vemos a manutenção de uma visão escravocrata do país onde o trabalhador do campo é super desvalorizado."
Como o avanço da pandemia do novo coronavírus afeta o cenário da fome no Brasil?
Uma pesquisa da FGV divulgada em julho mostrou que a faixa da população que vive em extrema pobreza caiu de 4,2% para 3,3% da população, a menor taxa dos últimos 40 anos no Brasil.
"É triste dizer isso, mas o Brasil tem uma renda média de R$ 480. De repente, quando 65 milhões de pessoas receberam R$ 600 na sua conta, o Brasil diminuiu incrivelmente, durante este período dos recursos emergenciais, o número de pessoas abaixo da linha da pobreza", diz Daniel Balaban, do Centro de Excelência contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos da ONU.
A extrema pobreza se refere a quem vive com menos de US$ 1,90 por dia, ou R$ 154 mensais.
O resultado, no entanto, não é razão para comemoração.
"Se a gente já tinha antes mais de 80 milhões de brasileiros em algum grau de insegurança alimentar, seja leve, moderado ou grave, esse número certamente vai aumentar, e a gente estima que supere a casa dos 100 milhões, o que seria o maior número da História do Brasil", estima o representante da Ação da Cidadania.
"A recessão e a crise não vão ser resolvidas no curto prazo nem no Brasil nem em qualquer lugar do mundo, o desemprego já é quase recorde, e a gente vê que o auxílio emergencial é insustentável no modelo atual criado pelo governo dos últimos anos que praticamente amarrou qualquer investimento", ele afirma.
Balaban completa: "O problema todo é que quando os recursos emergenciais acabarem, volta-se ao problema anterior, porque o problema anterior era estrutural, e esse recurso é emergencial. Foi extremamente importante, só que acaba."
Marcelo Neri, da FGV, vai além.
"Segundo nosso último levantamento apesar da queda de renda do trabalho recorde de 20,5% na pandemia, cerca de 13,1 milhões de pessoas saíram da pobreza em plena pandemia, O que explica este paradoxo é a "generosa" concessão do auxílio emergencial que chegou a 67 milhões de brasileiros ao custo de 322 bilhões de reais durante 2020", afirma.
"O problema é que o auxílio termina em 31 de dezembro e aí não só os ex-pobres vão voltar a condição inicial como terão a companhia de outros novos pobres deslocados pela pandemia."
O avanço da fome surpreende?
A resposta unânime é "não".
"Os números da POF, infelizmente para a Ação da Cidadania, não surpreendem. A gente sabia da dimensão das famílias que estavam nos pedindo alimento em vez de educação, saúde, etc. Quando a pessoa abre mão desses outros direitos para pedir comida, é porque a situação realmente está muito grave", diz Kiko Afonso.
"Infelizmente, especialmente no Brasil, esses problemas que são dramas, não são tragédias, têm pouca visibilidade."
Já Marcelo Neri pondera que os resultados da pesquisa do IBGE "desafiam aqueles que acreditam que fome é coisa do passado no Brasil" e que outros estudos corroboram o resultado.
"Antes que ataquem o mensageiro, observamos o mesmo drama em evidências internacionais sobre o Brasil citados. A proporção daqueles que não têm dinheiro para comprar alimentos cai de 20% até 18% e depois sobe para 30% em 2017-18, o que é consistente em termos de período e prazos com a última POF-IBGE", diz.
"Este mesmo patamar de 30% é mantido em 2019. O Brasil, que estava em número 30 em 2014, passou em 2019 a posição 82 em 150 países. Ou seja, os movimentos identificados nas pesquisas ibgeanas são robustos, e o aumento observado até 2017-18, se manteve em 2019."
"No Brasil, apesar da crise mundial, a produção rural não parou. O homem do campo trabalhou como nunca, produziu, como sempre, alimentos para mais de 1 bilhão de pessoas. O Brasil contribuiu para que o mundo continuasse alimentado", afirmou o presidente. "Garantimos a segurança alimentar a um sexto da população mundial (…) O Brasil desponta como o maior produtor mundial de alimentos."
A fala se choca com dados divulgados pelo IBGE menos de uma semana antes da fala do presidente.
Mais de 10 milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar grave, segundo o órgão. Em outras palavras, essa multidão — que inclui crianças — literalmente passa fome no Brasil.
A pesquisa, que se refere aos anos de 2017 e 2018, também aponta que o total de pessoas com alimentação em quantidade suficiente e satisfatória no Brasil é o mais baixo dos últimos 15 anos. O total de brasileiros que passam fome cresceu, segundo o órgão, em 3 milhões de pessoas em cinco anos.
Os dados chamam ainda mais atenção quando postos em perspectiva: em 2014, quatro anos antes da coleta dos dados agora divulgados, o Brasil oficialmente saiu do Mapa da Fome das Nações Unidas, em uma conquista aplaudida pelo mundo inteiro.
A BBC News Brasil conversou com alguns dos principais especialistas do país em temas como acesso à alimentação adequada e fome para responder a seguinte pergunta:
Como, afinal, o mesmo país que alimenta boa parte do planeta tem ao mesmo tempo tantos milhões de famintos?
Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, divulgada em 17 de setembro, 10,3 milhões de brasileiros passavam fome durante o levantamento — um aumento de 3 milhões de pessoas sem acesso normal a refeições em 5 anos.
A conta não inclui pessoas em situação de rua.
Segundo o estudo, a insegurança alimentar grave no Brasil é registrada principalmente em áreas rurais: 23,3% da população urbana passam fome, enquanto 40,1% da população rural atravessam a mesma situação.
Ainda segundo o IBGE, quanto mais moradores viverem em um domicílio, maior será a chance de haver fome ali. Do total de brasileiros que passavam fome no período da pesquisa, a maioria vivia na região Nordeste, seguida pelo Sudeste e pelo Norte.
O IBGE divide o conceito de insegurança alimentar em 3 categorias.
A insegurança leve acontece quando a família não tem certeza se terá acesso a alimentos no futuro, e quando a qualidade da comida já é ruim. Diz o IBGE: "Nesse contexto, os moradores já assumem estratégias para manter uma quantidade mínima de alimentos disponíveis. Trocar um alimento por outro que esteja mais barato, por exemplo."
Já a insegurança moderada surge quando os moradores já têm uma quantidade restrita de alimentos — menos comida na despensa do que o satisfatório.
Por fim, a insegurança grave aparece, nas palavras o IBGE, "quando os moradores passaram por privação severa no consumo de alimentos". É nesta categoria que se encaixa a definição tradicional de fome.
Considerando os três tipos de insegurança, o estudo mostra que o problema do acesso a alimentação de qualidade também é grave. Segundo o IBGE, "pelo menos metade das crianças menores de cinco anos viviam em lares com algum grau de insegurança alimentar".
Isso equivale a 6,5 milhões de crianças. Quando a referência é insegurança grave — ou fome — 5,1% das crianças com menos de 5 anos e 7,3% das pessoas com idade entre 5 e 17 anos vivem nessa condição.
Diferentemente do que o presidente Jair Bolsonaro afirmou, o Brasil não é o primeiro, mas o terceiro maior produtor de alimentos do planeta — com mais de 240 milhões de toneladas no ano passado, ficando atrás apenas da China e dos EUA.
Segundo a ABIA, Associação Brasileira da Indústria de Alimentos, o Brasil exportou comida para mais de 180 países, movimentando 34,1 bilhões de dólares no ano passado.
A maior parte, 36,8%, foi para a Ásia, principalmente para a China. Em seguida vinham União Europeia (18,8% das exportações) e Oriente Médio (14,3%).
Segundo a associação, o Brasil é o segundo exportador mundial de alimentos industrializados em volume e o quinto em valor.
É também o primeiro produtor e exportador mundial de suco de laranja; o segundo produtor e primeiro exportador mundial de açúcar; o segundo produtor e primeiro exportador mundial de carne bovina e de carne de aves.
Mas é importante diferenciar a origem dos alimentos que vão para a mesa do brasileiro e para as prateleiras no exterior.
Segundo o último censo agropecuário do IBGE, 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros vêm da agricultura familiar. Eles são produzidos em terras pequenas, com geralmente entre 1 e 2 hectares, administradas por pessoas da mesma família que costumam produzir para consumo próprio e vender o excedente.
Diferentemente das grandes monoculturas de soja ou café, ou dos grandes pastos da pecuária do agronegócio, a agricultura familiar é marcada pela diversidade de alimentos: de mandioca e hortaliças a milho, leite e frutas.
É graças a ela que o prato do brasileiro pode ser farto e colorido, como recomendam nutricionistas.
Já o agronegócio, de outro lado, abarca os maiores produtores do país e contribui com mais de 60% da balança comercial do país.
Com representantes em todos os níveis da política nacional, o agronegócio tem produção principalmente destinada à exportação.
Daniel Balaban, diretor do Centro de Excelência contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos da ONU no Brasil, diz que o nome do agronegócio, não à toa, é "negócio".
"O agronegócio vai aonde pagam mais, aonde ele tem mais lucro. O dólar a R$ 5,50, um dólar supervalorizado, fez com que o produto brasileiro ficasse muito barato para exportação, principalmente a China, que compra muito, fora outros mercados como Rússia. Fica muito barato para eles comprarem e o retorno é bom para o exportador", afirma.
Já o Kiko Afonso, Diretor Executivo da Ação da Cidadania, fundada pelo sociólogo Betinho (Herbert de Souza) em 1993 para combater a fome e a miséria no país, diz que a política de agricultura brasileira se orienta para as exportações.
Nas palavras de Afonso, isso pode ser "bom para a balança econômica, mas é péssimo para o consumo local, principalmente para as populações mais vulneráveis".
"Você soma dois grandes fatores: uma política de governo que olha para o agronegócio e a exportação em detrimento do pequeno produtor, o que encarece o alimento, e uma segunda vertente de desigualdade social absurda, onde grande maioria da população vive com um salário abaixo de uma média aceitável para se sobreviver". diz.
"Os dois elementos em conjunto geram uma diminuição do poder de compra das famílias e obviamente dificuldade para a aquisição de alimentos."
Os especialistas destacaram à BBC News Brasil que a atenção destinada por governos à agricultura familiar, que põe comida na mesa do brasileiro, vem diminuindo no Brasil.
"A ONU acompanha há muito tempo todos os países e o Brasil é um deles", diz Balaban. "Com a diminuição das políticas de fomento aos agricultores familiares, é intrínseco o aumento do número de pessoas passando fome."
Ele cita o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que no passado chegou a ter orçamento superior a 1 bilhão de reais e foi duramente cortado até que, no governo de Michel Temer. encolheu de R$ 478 milhões para R$ 294 milhões.
Pelo programa, o governo compra alimentos de pequenos produtores e os distribui para pessoas de baixa renda. Em meio à pandemia, o governo Bolsonaro anunciou R$ 500 milhões para uma retomada do PAA.
"O Pronaf, Programa de Apoio ao Agricultor Familiar, diminuiu bastante o número de empréstimos com juros subsidiados para eles comprarem a sua produção, fertilizantes, sementes. E outros programas, por exemplo de captação de água da chuva com cisternas, também caíram drasticamente", diz o especialista da ONU.
"Essa população do campo é muito vulnerável, então ela precisa que esteja sempre sendo incentivada e apoiada por políticas públicas do governo."
Afonso, da Ação da Cidadania, concorda.
"É sempre importante lembrar que esse governo extinguiu o Conselho de Segurança Alimentar (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Consea), justamente o órgão que dialogava com a sociedade civil na construção de políticas de segurança alimentar no Brasil", afirma.
Por medida provisória em janeiro do ano passado, Bolsonaro extinguiu o conselho, criado em 1993 como parte da criação de um marco legal para o combate a fome.
O órgão era formado por 60 voluntários — 40 representantes de ONGs e movimentos sociais e 20 do governo.
"A situação é muito grave, e estamos falando de muita gente que pode morrer de fome no Brasil", diz Afonso. "Isso é inaceitável. Nosso fundador, o Betinho, sempre dizia que a fome é uma das piores, se não a pior, indignidade que o ser humano pode ter; E a gente luta justamente para que isso não aconteça."
A fome, segundo o IBGE, se concentra justamente nas regiões rurais — aquelas onde se produz a comida.
Marcelo Neri, professor da FGV, ex-presidente do Ipea e ex-ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República entre 2013 e 2015, diz que "o morador do campo é mais pobre, produz alimentos, mas não ganha o suficiente para comprá-los".
"Em 2019, 53% dos 20% mais pobres e 10% dos 20% mais ricos brasileiros declaravam que faltava dinheiro para alimentação. Já no resto do mundo, os números eram 48% nos 20% mais pobres e 21% nos 20% mais ricos", diz o professor.
"Ou seja, nossos mais pobres têm hoje mais insegurança alimentar que no mundo, enquanto nossos mais ricos têm menos. É a famosa desigualdade tupiniquim."
Os demais especialistas também apontam a precariedade vivida no campo.
"O Brasil teve muitas políticas de ajuda aos pequenos agricultores familiares no passado. E essas políticas perderam força nos últimos governos: já no final do governo da Dilma, Temer e agora. Praticamente estão, vamos dizer, muito pequenas as políticas de apoio aos pequenos. Isso faz com que, além deles diminuírem a produção ou não comerem, acaba trazendo fome ao campo", avalia Balaban, da ONU."Se o trabalho já é precarizado nas regiões urbanas e vem se precarizando cada vez mais, especialmente num governo que nos últimos anos tem lutado, por exemplo, contra as fiscalizações de trabalho análogo à escravidão no campo, você imagina o grau de desigualdade social vista no campo no Brasil", pondera Kiko Afonso."Elas acabam tendo que migrar ou para centros urbanos, para morarem em favelas e regiões super pobres, porque são pessoas que vieram do campo e têm enorme dificuldade de adaptação nas grandes cidades, ou elas têm que se adequar e trabalhar para o grande agronegócio, que obviamente tem foco em lucrar o máximo possível. Vemos a manutenção de uma visão escravocrata do país onde o trabalhador do campo é super desvalorizado."
Como o avanço da pandemia do novo coronavírus afeta o cenário da fome no Brasil?
Uma pesquisa da FGV divulgada em julho mostrou que a faixa da população que vive em extrema pobreza caiu de 4,2% para 3,3% da população, a menor taxa dos últimos 40 anos no Brasil.
"É triste dizer isso, mas o Brasil tem uma renda média de R$ 480. De repente, quando 65 milhões de pessoas receberam R$ 600 na sua conta, o Brasil diminuiu incrivelmente, durante este período dos recursos emergenciais, o número de pessoas abaixo da linha da pobreza", diz Daniel Balaban, do Centro de Excelência contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos da ONU.
A extrema pobreza se refere a quem vive com menos de US$ 1,90 por dia, ou R$ 154 mensais.
O resultado, no entanto, não é razão para comemoração.
"Se a gente já tinha antes mais de 80 milhões de brasileiros em algum grau de insegurança alimentar, seja leve, moderado ou grave, esse número certamente vai aumentar, e a gente estima que supere a casa dos 100 milhões, o que seria o maior número da História do Brasil", estima o representante da Ação da Cidadania.
"A recessão e a crise não vão ser resolvidas no curto prazo nem no Brasil nem em qualquer lugar do mundo, o desemprego já é quase recorde, e a gente vê que o auxílio emergencial é insustentável no modelo atual criado pelo governo dos últimos anos que praticamente amarrou qualquer investimento", ele afirma.
Balaban completa: "O problema todo é que quando os recursos emergenciais acabarem, volta-se ao problema anterior, porque o problema anterior era estrutural, e esse recurso é emergencial. Foi extremamente importante, só que acaba."
Marcelo Neri, da FGV, vai além.
"Segundo nosso último levantamento apesar da queda de renda do trabalho recorde de 20,5% na pandemia, cerca de 13,1 milhões de pessoas saíram da pobreza em plena pandemia, O que explica este paradoxo é a "generosa" concessão do auxílio emergencial que chegou a 67 milhões de brasileiros ao custo de 322 bilhões de reais durante 2020", afirma.
"O problema é que o auxílio termina em 31 de dezembro e aí não só os ex-pobres vão voltar a condição inicial como terão a companhia de outros novos pobres deslocados pela pandemia."
O avanço da fome surpreende?
A resposta unânime é "não".
"Os números da POF, infelizmente para a Ação da Cidadania, não surpreendem. A gente sabia da dimensão das famílias que estavam nos pedindo alimento em vez de educação, saúde, etc. Quando a pessoa abre mão desses outros direitos para pedir comida, é porque a situação realmente está muito grave", diz Kiko Afonso.
"Infelizmente, especialmente no Brasil, esses problemas que são dramas, não são tragédias, têm pouca visibilidade."
Já Marcelo Neri pondera que os resultados da pesquisa do IBGE "desafiam aqueles que acreditam que fome é coisa do passado no Brasil" e que outros estudos corroboram o resultado.
"Antes que ataquem o mensageiro, observamos o mesmo drama em evidências internacionais sobre o Brasil citados. A proporção daqueles que não têm dinheiro para comprar alimentos cai de 20% até 18% e depois sobe para 30% em 2017-18, o que é consistente em termos de período e prazos com a última POF-IBGE", diz.
"Este mesmo patamar de 30% é mantido em 2019. O Brasil, que estava em número 30 em 2014, passou em 2019 a posição 82 em 150 países. Ou seja, os movimentos identificados nas pesquisas ibgeanas são robustos, e o aumento observado até 2017-18, se manteve em 2019."
O lugar do Brasil no mundo, depois de Bolsonaro
Se Jair Bolsonaro deixasse a Presidência do Brasil amanhã, qual seria a nova política externa brasileira? Passados quase dois anos desde os primeiros passos do ex-Capitão sobre a rampa do Planalto, ainda não surgiu, de maneira clara, uma proposta alternativa à agenda diplomática do governo brasileiro.
Até o momento, a formulação política das oposições tem se limitado a criticar as gafes, bravatas e malfeitos do Presidente e dos seus, ou, quando muito, a exercitar uma anacrônica nostalgia da política externa dos governos pré-Bolsonaro.
Enquanto isso, um século 21 se desdobra com desafios e oportunidades para o maior país da América Latina. Que fatores travam a formulação de alternativas para a diplomacia nacional?
Recentemente, uma curta entre o Bolsonaro e Al Gore — ganhador do Prêmio Nobel da Paz e ex-Vice Presidente dos Estados Unidos — viralizou nas redes, atraindo o ridículo de setores da elite brasileira que pensa a imagem do país no mundo. A crítica, porém, focou na caricata falta de postura do Presidente do Brasil, cuja ignorância constrangeu um líder mundial.
Pouco se debateu sobre o mérito da discussão havida entre os dois — os destinos da Amazônia —, ou sobre quais soluções o governo brasileiro deveria pautar no complexo debate sobre mudança climática.
Ensaios de resposta ao status quo até existem, porém, ainda que anacrônicas. Enquanto Brasília quebra recordes de desmatamento e o país se transforma na capital mundial do coronavírus e da cloroquina, o melhor que as oposições têm conseguido oferecer é a nostalgia por um passado cujas glórias foram controversas, para dizer o mínimo.
Como contraponto a atual política externa do governo brasileiro, o legado internacional dos governos Lula e Dilma tem sido reivindicado para servir como alternativa ao amadorismo do comportamento diplomático brasileiro.
Justiça seja feita, é evidente que a política externa levada à cabo pelos governos de Lula, Dilma e Temer esteve muito mais à altura da tradição de excelência da diplomacia brasileira. Porém, reconhecer o amadorismo com que Brasília hoje se posiciona no mundo está longe de equivaler a uma reivindicação do passado recente como sarrafo diplomático digno de guiar as escolhas do país para o futuro.
Sob condições de normalidade política, a tese do brilhantismo recente da política externa brasileira nunca pararia em pé.
Enquanto isso, a década de 2020 nasceu para valer.
Estados Unidos e China travam uma batalha comercial pelos mercados globais da tecnologia 5G e o Brasil — um dos maiores mercados consumidores de internet do mundo — não parou para pensar uma estratégia de negociação para uma decisão geoeconômica tão monumental.
Não é certeza sequer que o Palácio do Planalto se dá conta de que o Brasil seja talvez o mais crucial fiel da balança neste momento da disputa global.
Em outro front de disputa da economia global, o trauma causado pela pandemia faz emergir lentamente um novo consenso sobre o valor estratégico da diversificação das cadeias globais de suprimentos. Nem por isso tem havido no Brasil debates, discursos, publicações ou pautas na imprensa apontando que o país deveria aproveitar esta histórica oportunidade para atrair investimentos estrangeiros diretos em direção a um salto de qualidade na nossa enferrujada infraestrutura.
Que agendas devem ser priorizadas para uma reinvenção do lugar do Brasil no mundo?
As oportunidades e responsabilidades globais do Brasil no século 21 vão muito além da dimensão econômica.
Na América do Sul, o desastre político e econômico na Venezuela impõe o fardo da liderança regional sobre os ombros da fronteira brasileira. Cabe ao Brasil estar à altura de sua vocação para liderar a região e articular diálogo com todos os stakeholders em Caracas — o regime de Maduro, a oposição e os militares — de modo a endereçar um consenso negociado para superação da crise de refugiados que hoje já ofusca até mesmo a recente tragédia humanitária na Síria.
Como democracia protagonista do mundo em desenvolvimento, o Brasil deve um compromisso não apenas com a sua própria emancipação econômica, mas com desenvolvimento social, econômico e político do Sul Global. Esta percepção não é novidade para o pensamento diplomático nacional. Iniciativas anteriores como a IIRSA (aliança para integração de infraestruturas no Cone Sul) foram capazes de mobilizar os recursos e a expertise da engenharia civil brasileira, de excelência, para uma agenda de melhorias nos complexos de infraestrutura de nações parceiras.
O tempo é de retomada e expansão desta agenda, para além inclusive das fronteiras sul-americanas.
No continente africano, o Brasil encontra uma dívida histórica a ser paga, com atraso, e uma oportunidade de desenvolvimento mútuo a ser aproveitada, o quanto antes. Como maior país africano fora da África, é do Brasil a responsabilidade — e a oportunidade — de viabilizar cooperação com nações africanas com vistas ao desenvolvimento, aqui e lá, de empregos, expertise agrícola, projetos de construção civil, intercâmbio cultural e segurança alimentar. Passos promissores em direção a esta agenda foram feitos sob a liderança de Lula.
No mundo inteiro, a força com que a agricultura brasileira lidera os rankings de fornecedores de alimentos no mundo é o resultado de décadas de investimento em produtividade e planejamento estratégico. O dividendos em soft power que nascem do fato de alimentarmos mais de 1 bilhão de pessoas além das nossas fronteiras precisa ser mobilizado para construir momento e legitimidade na agenda da segurança alimentar global, da China à Nigéria.
Em matéria ambiental, de novo, a história pesa contra a superficialidade do discurso político. A despeito de turbulências recentes, poucos países gozam de legitimidade no debate global sobre desenvolvimento sustentável como o Brasil. Apesar dos tweets de Bolsonaro, o Brasil permanece como potência ambiental mundial, na exata medida em que suas fronteiras ainda abrigam a maior biodiversidade registrada no mundo. A matriz energética brasileira permanece a mais lastreada em energias renováveis. Não há máquina do tempo capaz de jogar o Brasil para longe da história de liderança que desempenhou na construção dos mais importantes consensos do direito ambiental internacional, da Eco-92 à Rio+20, passando pelo protagonismo brasileiro na concepção do Protocolo de Nagoya.
Quanto mais se reflete sobre a história recente do Brasil, mais elementos se encontra para fundamentar a vocação brasileira para o protagonismo internacional.
Desde a primeira hora do pós-segunda guerra encarada como nação consensual pelos arquitetos do sistema ONU, o Brasil guarda — até hoje — um potencial incomparável para pautar as Nações Unidas.
As adversidades enfrentadas atualmente pelo multilateralismo precisam ser aproveitadas como oportunidade de consolidação de uma agenda transformadora sua Assembleia Geral em verdadeiro parlamento mundial, espaço global onde nações emergentes adquiram maiores poderes institucionais, com o Brasil avançando em sua ambição de sentar-se permanentemente no Conselho de Segurança.</p>
<p>Pesquisas de opinião recentes apontam recorde de apoio ao regime democrático na sociedade brasileira. Pode ainda não ser claro quando, mas é fato que, em algum momento, a Era Bolsonaro vai acabar. Quando este dia finalmente chegar, à recém-empossada elite da política externa brasileira não será mais possível apenas surfar no consenso de que Bolsonaro prejudicou o interesse nacional enquanto ocupou o Alvorada. Ao mesmo tempo, não será mais possível requentar as soluções diplomáticas da velha Nova República, para as quais o eleitorado brasileiro não tem mais paciência.
O Brasil precisa do mundo, mas nunca o mundo precisou tanto do Brasil. É chegada a hora da diplomacia brasileira retomar a liderança que lhe cabe no processo de definição dos destinos nacionais.
Pedro Vormittag, Lemann Fellow na School of International and Public Affairs da Universidade de Columbia
Até o momento, a formulação política das oposições tem se limitado a criticar as gafes, bravatas e malfeitos do Presidente e dos seus, ou, quando muito, a exercitar uma anacrônica nostalgia da política externa dos governos pré-Bolsonaro.
Enquanto isso, um século 21 se desdobra com desafios e oportunidades para o maior país da América Latina. Que fatores travam a formulação de alternativas para a diplomacia nacional?
Recentemente, uma curta entre o Bolsonaro e Al Gore — ganhador do Prêmio Nobel da Paz e ex-Vice Presidente dos Estados Unidos — viralizou nas redes, atraindo o ridículo de setores da elite brasileira que pensa a imagem do país no mundo. A crítica, porém, focou na caricata falta de postura do Presidente do Brasil, cuja ignorância constrangeu um líder mundial.
Pouco se debateu sobre o mérito da discussão havida entre os dois — os destinos da Amazônia —, ou sobre quais soluções o governo brasileiro deveria pautar no complexo debate sobre mudança climática.
Ensaios de resposta ao status quo até existem, porém, ainda que anacrônicas. Enquanto Brasília quebra recordes de desmatamento e o país se transforma na capital mundial do coronavírus e da cloroquina, o melhor que as oposições têm conseguido oferecer é a nostalgia por um passado cujas glórias foram controversas, para dizer o mínimo.
Como contraponto a atual política externa do governo brasileiro, o legado internacional dos governos Lula e Dilma tem sido reivindicado para servir como alternativa ao amadorismo do comportamento diplomático brasileiro.
Justiça seja feita, é evidente que a política externa levada à cabo pelos governos de Lula, Dilma e Temer esteve muito mais à altura da tradição de excelência da diplomacia brasileira. Porém, reconhecer o amadorismo com que Brasília hoje se posiciona no mundo está longe de equivaler a uma reivindicação do passado recente como sarrafo diplomático digno de guiar as escolhas do país para o futuro.
Fatos da história recente ilustram um desempenho satisfatório, mas aquém do potencial brasileiro para o protagonismo internacional.
Agendas centrais para o interesse nacional, como a conquista da liderança geopolítica da América do Sul, não vingaram, tendo enfrentado disputas com uma Venezuela cheia de ambições e vitaminada pelo comércio petrolífero.
Em matéria de política comercial, Brasília ficou à margem da articulação da Aliança pelo Pacífico, perdendo protagonismo para o Chile e para a Colômbia na economia e na geopolítica da região. Sob Lula, o governo brasileiro só não fracassou na costura de acordos comerciais significativos porque sequer tentou costurá-los.
Nem mesmo as celebradas vitórias na agenda global de combate à pobreza — que sempre motivaram a carismática presença de Lula em fóruns internacionais — resistiram ao teste do tempo. Literatura recente mostrou que a queda na desigualdade econômica na década de 2000 não foi significativa como se imaginou. Com Dilma, a desigualdade inclusive voltou a crescer.
Agendas centrais para o interesse nacional, como a conquista da liderança geopolítica da América do Sul, não vingaram, tendo enfrentado disputas com uma Venezuela cheia de ambições e vitaminada pelo comércio petrolífero.
Em matéria de política comercial, Brasília ficou à margem da articulação da Aliança pelo Pacífico, perdendo protagonismo para o Chile e para a Colômbia na economia e na geopolítica da região. Sob Lula, o governo brasileiro só não fracassou na costura de acordos comerciais significativos porque sequer tentou costurá-los.
Nem mesmo as celebradas vitórias na agenda global de combate à pobreza — que sempre motivaram a carismática presença de Lula em fóruns internacionais — resistiram ao teste do tempo. Literatura recente mostrou que a queda na desigualdade econômica na década de 2000 não foi significativa como se imaginou. Com Dilma, a desigualdade inclusive voltou a crescer.
Sob condições de normalidade política, a tese do brilhantismo recente da política externa brasileira nunca pararia em pé.
Enquanto isso, a década de 2020 nasceu para valer.
Estados Unidos e China travam uma batalha comercial pelos mercados globais da tecnologia 5G e o Brasil — um dos maiores mercados consumidores de internet do mundo — não parou para pensar uma estratégia de negociação para uma decisão geoeconômica tão monumental.
Não é certeza sequer que o Palácio do Planalto se dá conta de que o Brasil seja talvez o mais crucial fiel da balança neste momento da disputa global.
Em outro front de disputa da economia global, o trauma causado pela pandemia faz emergir lentamente um novo consenso sobre o valor estratégico da diversificação das cadeias globais de suprimentos. Nem por isso tem havido no Brasil debates, discursos, publicações ou pautas na imprensa apontando que o país deveria aproveitar esta histórica oportunidade para atrair investimentos estrangeiros diretos em direção a um salto de qualidade na nossa enferrujada infraestrutura.
Que agendas devem ser priorizadas para uma reinvenção do lugar do Brasil no mundo?
As oportunidades e responsabilidades globais do Brasil no século 21 vão muito além da dimensão econômica.
Na América do Sul, o desastre político e econômico na Venezuela impõe o fardo da liderança regional sobre os ombros da fronteira brasileira. Cabe ao Brasil estar à altura de sua vocação para liderar a região e articular diálogo com todos os stakeholders em Caracas — o regime de Maduro, a oposição e os militares — de modo a endereçar um consenso negociado para superação da crise de refugiados que hoje já ofusca até mesmo a recente tragédia humanitária na Síria.
Como democracia protagonista do mundo em desenvolvimento, o Brasil deve um compromisso não apenas com a sua própria emancipação econômica, mas com desenvolvimento social, econômico e político do Sul Global. Esta percepção não é novidade para o pensamento diplomático nacional. Iniciativas anteriores como a IIRSA (aliança para integração de infraestruturas no Cone Sul) foram capazes de mobilizar os recursos e a expertise da engenharia civil brasileira, de excelência, para uma agenda de melhorias nos complexos de infraestrutura de nações parceiras.
O tempo é de retomada e expansão desta agenda, para além inclusive das fronteiras sul-americanas.
No continente africano, o Brasil encontra uma dívida histórica a ser paga, com atraso, e uma oportunidade de desenvolvimento mútuo a ser aproveitada, o quanto antes. Como maior país africano fora da África, é do Brasil a responsabilidade — e a oportunidade — de viabilizar cooperação com nações africanas com vistas ao desenvolvimento, aqui e lá, de empregos, expertise agrícola, projetos de construção civil, intercâmbio cultural e segurança alimentar. Passos promissores em direção a esta agenda foram feitos sob a liderança de Lula.
No mundo inteiro, a força com que a agricultura brasileira lidera os rankings de fornecedores de alimentos no mundo é o resultado de décadas de investimento em produtividade e planejamento estratégico. O dividendos em soft power que nascem do fato de alimentarmos mais de 1 bilhão de pessoas além das nossas fronteiras precisa ser mobilizado para construir momento e legitimidade na agenda da segurança alimentar global, da China à Nigéria.
Em matéria ambiental, de novo, a história pesa contra a superficialidade do discurso político. A despeito de turbulências recentes, poucos países gozam de legitimidade no debate global sobre desenvolvimento sustentável como o Brasil. Apesar dos tweets de Bolsonaro, o Brasil permanece como potência ambiental mundial, na exata medida em que suas fronteiras ainda abrigam a maior biodiversidade registrada no mundo. A matriz energética brasileira permanece a mais lastreada em energias renováveis. Não há máquina do tempo capaz de jogar o Brasil para longe da história de liderança que desempenhou na construção dos mais importantes consensos do direito ambiental internacional, da Eco-92 à Rio+20, passando pelo protagonismo brasileiro na concepção do Protocolo de Nagoya.
Quanto mais se reflete sobre a história recente do Brasil, mais elementos se encontra para fundamentar a vocação brasileira para o protagonismo internacional.
Desde a primeira hora do pós-segunda guerra encarada como nação consensual pelos arquitetos do sistema ONU, o Brasil guarda — até hoje — um potencial incomparável para pautar as Nações Unidas.
As adversidades enfrentadas atualmente pelo multilateralismo precisam ser aproveitadas como oportunidade de consolidação de uma agenda transformadora sua Assembleia Geral em verdadeiro parlamento mundial, espaço global onde nações emergentes adquiram maiores poderes institucionais, com o Brasil avançando em sua ambição de sentar-se permanentemente no Conselho de Segurança.</p>
<p>Pesquisas de opinião recentes apontam recorde de apoio ao regime democrático na sociedade brasileira. Pode ainda não ser claro quando, mas é fato que, em algum momento, a Era Bolsonaro vai acabar. Quando este dia finalmente chegar, à recém-empossada elite da política externa brasileira não será mais possível apenas surfar no consenso de que Bolsonaro prejudicou o interesse nacional enquanto ocupou o Alvorada. Ao mesmo tempo, não será mais possível requentar as soluções diplomáticas da velha Nova República, para as quais o eleitorado brasileiro não tem mais paciência.
O Brasil precisa do mundo, mas nunca o mundo precisou tanto do Brasil. É chegada a hora da diplomacia brasileira retomar a liderança que lhe cabe no processo de definição dos destinos nacionais.
Pedro Vormittag, Lemann Fellow na School of International and Public Affairs da Universidade de Columbia
Um governo irrelevante
O ministro da Educação, Milton Ribeiro, disse, em espantosa entrevista ao Estado, que temas como a volta às aulas em meio à pandemia de covid-19 e a dificuldade de muitos alunos pobres de acompanhar aulas a distância por limitações técnicas não dizem respeito ao MEC.
A lei é clara. Quem tem jurisdição sobre escolas são o Estado e o município. Não temos esse tipo de interferência. Se eu começo a falar demais, (governadores e prefeitos) dizem que estou querendo interferir; se eu fico calado, dizem que se sentem abandonados”, declarou o ministro.
De fato, a lei é clara: no artigo 211 da Constituição está escrito que “a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime de colaboração seus sistemas de ensino”. Ou seja, a interpretação dada pelo ministro Milton Ribeiro ignorou a obrigatoriedade da colaboração entre os entes da Federação, resguardados os princípios federativos. O MEC não pode simplesmente lavar as mãos como sugeriu o ministro. Deve, ao contrário, como parte do governo federal, coordenar-se com os entes federados para superar tão graves desafios, que prejudicam a educação brasileira há muitos anos. Se isso não é tema para o MEC, é difícil saber qual seria a serventia desse Ministério.
Mas a atitude do ministro Milton Ribeiro não surpreende, num governo cujo próprio presidente da República frequentemente rejeita as responsabilidades inerentes a seu cargo. O presidente Jair Bolsonaro vive a dizer, por exemplo, que nada pode fazer em relação aos esforços para conter a pandemia de covid-19 nos Estados e municípios porque foi impedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o que é uma grossa mentira – mas muito conveniente.
Dentro da estratégia demagógica bolsonarista, o presidente tratou a pandemia como coisa sem importância, e as medidas de isolamento social adotadas pelos Estados como parte de uma conspiração para prejudicar seu governo. Na verdade, Bolsonaro queria poder total para ordenar o relaxamento das medidas, em nome de alegados imperativos econômicos. Quando o STF lhe negou esse poder, por ser inconstitucional, passou a posar de defensor dos pobres que precisavam trabalhar e, segundo dizia, estavam sendo impedidos por governadores inescrupulosos e por juízes inconsequentes.
Agora é a vez dos estudantes: “Não tínhamos por que fechar as escolas, mas as medidas restritivas não estavam mais nas mãos da Presidência da República. Por decisão judicial, elas competiam exclusivamente aos governadores e prefeitos”, declarou recentemente Bolsonaro.
Em vez de assumir seu papel como chefe do Poder Executivo federal, responsável pela articulação dos entes subnacionais e pela negociação com o Congresso especialmente em tempos de crise, o presidente Bolsonaro preferiu o caminho fácil do populismo e da irresponsabilidade – que lhe parece natural, dado seu histórico na política. Age assim tanto em relação à pandemia como em relação a todo o resto: sem ter qualquer ideia do que é governar e do que pretende para o País, ausenta-se do debate das grandes questões nacionais e espera viver do lucro eleitoreiro de ações demagógicas e, no mais das vezes, desimportantes.
É com esse espírito que trabalha seu ministro da Educação. Na entrevista, Milton Ribeiro disse que “são o Estado e o município que têm de cuidar disso aí” e “não foi um problema criado por nós”, referindo-se à desigualdade educacional que afeta estudantes sem acesso à internet. Ao mesmo tempo, pareceu muito mais preocupado com a orientação sexual dos alunos, tema que mobiliza a militância bolsonarista nas redes sociais, do que com seu bem-estar e seu aprendizado em meio à pandemia.
Assim, o MEC – que já está em seu terceiro ministro – continuará irrelevante, justamente no momento em que é mais necessário. Nada surpreendente, num governo em que o Ministério da Saúde se ausenta em plena pandemia e em que o Ministério do Meio Ambiente se omite em meio a queimadas e ao avanço do desmatamento, entre outras barbaridades. Tudo à imagem e semelhança de seu chefe.
Como preservar a democracia da vontade do povo e das elites
Pesquisa CNI-Ibope aponta recorde de popularidade do governo Bolsonaro. Acham seu governo ótimo ou bom 40% dos entrevistados. Apenas 29% dizem ser ruim ou péssimo. Estou com a minoria dos 29%. "Que é, Reinaldo, vai discordar da maioria do povo?" Já fiz isso muitas vezes.
Em 2006, no auge de embates com esquerdistas, escrevi um texto que me rendeu uma tempestade de insultos. Lá se lia: "Fico aqui queimando as pestanas, tentando achar um jeito de eliminar o povo da democracia. Ainda não consegui. Quando encontrar, darei sumiço no dito-cujo em silêncio. Ninguém nem vai perceber...".
Um amigo me censura pelo emprego, que considera excessivo, da ironia. Talvez tenha razão. Não costumo explicá-la. Com nota de rodapé, ela vira capim. Esquerdistas me mandaram para o "paredón" moral por aquele artigo. Direitistas aplaudiram. Corria o ano da graça de 2006, e Lula seria reeleito três meses depois, um ano após o mensalão.
Eu fazia uma citação coberta do Artigo 10, de "O Federalista", de Madison, que trata da necessidade de preservar a "Assembleia" das paixões do que ele chama "facções" —sejam majoritárias ou minoritárias. E daí se pode supor que o que ele entende por "República", que nós chamamos "democracia", é mais do que a vontade da maioria.
O governo era então de esquerda. Hoje, somos governados pela extrema direita, com um estoque de agressões à ordem constitucional e legal que supera, em um ano e nove meses, os 13 e poucos de gestões petistas. E eis-me aqui de novo a negar capim a ruminantes.
Nesta sexta, o país vai superar a marca dos 141 mil mortos por Covid-19. Estamos à frente dos EUA em óbitos por 100 mil e lideramos o ranking tétrico do G-20. As praias e os bares indicam que parte considerável dos brasileiros faz a sua própria leitura de "Os Lusíadas", de Camões. Entregam-se esses à urgência embriagada "e se vão da lei da morte libertando", ainda que possam efetivamente matar e morrer em suas obras nada valorosas.
Há um desprezo épico pelo saber testado e firmado, do tamanho das línguas de fogo que devastam o Pantanal e parte da Amazônia. Os investimentos estrangeiros despencam e fogem, levados pelos fumos da irresponsabilidade oficial e da morte. Jamais me acusem de ter dito um dia que a voz do povo é a voz de Deus. Já escrevi que, mais de uma vez, foi o capeta que soprou as escolhas aos ouvidos das massas.
"Tá tristinho, Reinaldo, com a vontade do povo?" Reproduzo pergunta que um petista fez em 2006 na área de comentários do blog quando escrevi o tal artigo. Nessas coisas, não sou alegre nem triste. Aponto o que vejo. Reservo os sentimentos para meus amores e meus amigos.
O auxílio emergencial, obra do Congresso, não de Bolsonaro, e a caça a governadores que combateram o vírus, com ou sem roubalheira, explicam parte do resultado da pesquisa. Há, pois, fatos que elucidam os números. Mas não era e não sou paternalista: a avaliação traduz agora, como traduziu no passado, escolhas que são também morais e éticas.
Todo o cuidado é pouco. A culpa não é só do povo, claro! Há a das elites, ainda mais importante, conforme também se depreende do citado Artigo 10. Escrevemos nosso próprio roteiro de "Como as Democracias Morrem". No livro, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt observam que uma das "normas cruciais" para a sobrevivência da democracia é a "reserva institucional".
Entende-se por isso "o ato de evitar ações que, embora respeitem a letra da lei, violam claramente o seu espírito", pois tal ação "pode pôr em perigo o sistema existente". Ministério Público e Judiciário, nos últimos seis anos, têm mandado a autocontenção às favas e destruído o ambiente da "reserva institucional", pretextando o cumprimento da lei —o que, de resto, é falso.
A democracia, que é mais do que um sistema de escolha de governantes, está, sim, em perigo. Seja porque a paixão das facções chega às decisões de Estado, seja porque a elite do aparato investigativo-judicial perdeu a noção da importância que tem a "reserva institucional" na defesa de um regime de liberdades.
Pronto. O achincalhe pode começar, como em 2006, agora por novos autores.
Em 2006, no auge de embates com esquerdistas, escrevi um texto que me rendeu uma tempestade de insultos. Lá se lia: "Fico aqui queimando as pestanas, tentando achar um jeito de eliminar o povo da democracia. Ainda não consegui. Quando encontrar, darei sumiço no dito-cujo em silêncio. Ninguém nem vai perceber...".
Um amigo me censura pelo emprego, que considera excessivo, da ironia. Talvez tenha razão. Não costumo explicá-la. Com nota de rodapé, ela vira capim. Esquerdistas me mandaram para o "paredón" moral por aquele artigo. Direitistas aplaudiram. Corria o ano da graça de 2006, e Lula seria reeleito três meses depois, um ano após o mensalão.
Eu fazia uma citação coberta do Artigo 10, de "O Federalista", de Madison, que trata da necessidade de preservar a "Assembleia" das paixões do que ele chama "facções" —sejam majoritárias ou minoritárias. E daí se pode supor que o que ele entende por "República", que nós chamamos "democracia", é mais do que a vontade da maioria.
O governo era então de esquerda. Hoje, somos governados pela extrema direita, com um estoque de agressões à ordem constitucional e legal que supera, em um ano e nove meses, os 13 e poucos de gestões petistas. E eis-me aqui de novo a negar capim a ruminantes.
Nesta sexta, o país vai superar a marca dos 141 mil mortos por Covid-19. Estamos à frente dos EUA em óbitos por 100 mil e lideramos o ranking tétrico do G-20. As praias e os bares indicam que parte considerável dos brasileiros faz a sua própria leitura de "Os Lusíadas", de Camões. Entregam-se esses à urgência embriagada "e se vão da lei da morte libertando", ainda que possam efetivamente matar e morrer em suas obras nada valorosas.
Há um desprezo épico pelo saber testado e firmado, do tamanho das línguas de fogo que devastam o Pantanal e parte da Amazônia. Os investimentos estrangeiros despencam e fogem, levados pelos fumos da irresponsabilidade oficial e da morte. Jamais me acusem de ter dito um dia que a voz do povo é a voz de Deus. Já escrevi que, mais de uma vez, foi o capeta que soprou as escolhas aos ouvidos das massas.
"Tá tristinho, Reinaldo, com a vontade do povo?" Reproduzo pergunta que um petista fez em 2006 na área de comentários do blog quando escrevi o tal artigo. Nessas coisas, não sou alegre nem triste. Aponto o que vejo. Reservo os sentimentos para meus amores e meus amigos.
O auxílio emergencial, obra do Congresso, não de Bolsonaro, e a caça a governadores que combateram o vírus, com ou sem roubalheira, explicam parte do resultado da pesquisa. Há, pois, fatos que elucidam os números. Mas não era e não sou paternalista: a avaliação traduz agora, como traduziu no passado, escolhas que são também morais e éticas.
Todo o cuidado é pouco. A culpa não é só do povo, claro! Há a das elites, ainda mais importante, conforme também se depreende do citado Artigo 10. Escrevemos nosso próprio roteiro de "Como as Democracias Morrem". No livro, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt observam que uma das "normas cruciais" para a sobrevivência da democracia é a "reserva institucional".
Entende-se por isso "o ato de evitar ações que, embora respeitem a letra da lei, violam claramente o seu espírito", pois tal ação "pode pôr em perigo o sistema existente". Ministério Público e Judiciário, nos últimos seis anos, têm mandado a autocontenção às favas e destruído o ambiente da "reserva institucional", pretextando o cumprimento da lei —o que, de resto, é falso.
A democracia, que é mais do que um sistema de escolha de governantes, está, sim, em perigo. Seja porque a paixão das facções chega às decisões de Estado, seja porque a elite do aparato investigativo-judicial perdeu a noção da importância que tem a "reserva institucional" na defesa de um regime de liberdades.
Pronto. O achincalhe pode começar, como em 2006, agora por novos autores.
O 'Dia D' contra a Covid-19 vai inaugurar oficialmente a 'ciência bolsonarista'
Jair Bolsonaro e Eduardo Pazuello, o ministro da Saúde que já era antes de sê-lo, vão promover no dia 3 de outubro um “Dia D” contra a Covid-19, nas unidades básicas de saúde. De acordo com o Estadão, o objetivo é divulgar orientações sobre o que julgam ser o tratamento precoce da doença, inclusive com a distribuição do que já está sendo chamado de “kit covid”. Ele é composto de hidroxicloroquina , azitromicina e ivermectina. Todos remédios que se mostraram inúteis contra a doença.
O jornal paulistano apurou que, durante a semana, Pazuello promoveu reuniões de planejamento do grande evento e que o empresário Carlos Wizard, cujo nome chegou a ser cotado para ser secretário da pasta da Saúde, participa da organização do troço. Wizard is on the table. Numa das reuniões com gestores públicos, Pazuello disse que o “Dia D” é um “esforço nacional que o SUS está fazendo para divulgar melhores práticas, para que possamos salvar mais vidas, acrescentando que há “pessoas sendo iludidas no País”, porque “até hoje você encontra cartazes dizendo: está com covid, fique em casa até ter falta de ar.” A ideia é que Bolsonaro faça um pronunciamento em cadeia nacional no dia 2 para divulgar o evento.
Trata-se de ação de marketing de um presidente que se recusou a coordenar o combate à pandemia. Ações de marketing não são necessariamente ruins, cuidados precoces são recomendáveis, mas o tal “Dia D” é uma infâmia descomunal porque vai desovar medicamentos sem indicação para Covid-19 na caixa de remédios do cidadão iludido por propaganda enganosa. O governo que resolveu promover a charlatanice de maneira acintosa, passando do discurso abilolado à ação irresponsável. O único medicamento existente que provou ter alguma eficácia no tratamento da doença pandêmica que já matou quase 140 mil brasileiros é o antiviral remdesivir. Tanto que foi o remédio escolhido para ser utilizado, em caso de necessidade, nos testes de vacinas que começarão em janeiro no Reino Unido, mais precisamente numa clínica em Londres, com voluntários que serão inoculados com o vírus, como noticiamos há alguns dias.
O jornal paulistano apurou que, durante a semana, Pazuello promoveu reuniões de planejamento do grande evento e que o empresário Carlos Wizard, cujo nome chegou a ser cotado para ser secretário da pasta da Saúde, participa da organização do troço. Wizard is on the table. Numa das reuniões com gestores públicos, Pazuello disse que o “Dia D” é um “esforço nacional que o SUS está fazendo para divulgar melhores práticas, para que possamos salvar mais vidas, acrescentando que há “pessoas sendo iludidas no País”, porque “até hoje você encontra cartazes dizendo: está com covid, fique em casa até ter falta de ar.” A ideia é que Bolsonaro faça um pronunciamento em cadeia nacional no dia 2 para divulgar o evento.
Trata-se de ação de marketing de um presidente que se recusou a coordenar o combate à pandemia. Ações de marketing não são necessariamente ruins, cuidados precoces são recomendáveis, mas o tal “Dia D” é uma infâmia descomunal porque vai desovar medicamentos sem indicação para Covid-19 na caixa de remédios do cidadão iludido por propaganda enganosa. O governo que resolveu promover a charlatanice de maneira acintosa, passando do discurso abilolado à ação irresponsável. O único medicamento existente que provou ter alguma eficácia no tratamento da doença pandêmica que já matou quase 140 mil brasileiros é o antiviral remdesivir. Tanto que foi o remédio escolhido para ser utilizado, em caso de necessidade, nos testes de vacinas que começarão em janeiro no Reino Unido, mais precisamente numa clínica em Londres, com voluntários que serão inoculados com o vírus, como noticiamos há alguns dias.
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