sexta-feira, 5 de junho de 2020
A esperança vencerá a asfixia
Asfixia vem do grego asphyxía, ou “sem pulso”. A impossibilidade de respirar que leva à falta de oxigênio no organismo. Causada por algum impedimento mecânico de causa fortuita, violenta e externa. Um joelho na garganta? No dicionário, há ainda o sentido figurado de “asfixia”: sujeição à tirania; opressão e privação de certas liberdades.
Por 11 vezes em oito minutos e 46 segundos, com o pescoço espremido pelo joelho de um policial branco com mão no bolso, o ex-segurança negro e pai de família gritou. "I can’t breathe". Desempregado pela pandemia, preso por usar numa mercearia uma nota falsa de 20 dólares, Floyd foi morto por asfixia. “Parada cardiopulmonar agravada pela compressão do pescoço por um agente da lei”. No sentido figurado, Floyd foi morto pelo racismo e autoritarismo no governo Trump. "O papai mudou o mundo", disse sua filhinha de seis anos, Gianna, com esperança e sorriso nos olhos. Eu me emocionei.
O Brasil também não consegue respirar: 70% se sentem oprimidos pelo desrespeito de Bolsonaro aos mais de 32 mil mortos pelo coronavírus e suas famílias. Provocados pelo riso pérfido, o cavalo, as tochas, a gravata do fuzil, a louvação ao preconceito, o copo de leite supremacista, o desprezo por pobres e negros, o altar oferecido à ditadura e a seus torturadores. Os brasileiros de bem se revoltam com faixas por intervenção militar e fechamento do Congresso e do STF. Se indignam com a morte bárbara do adolescente negro de 14 anos João Pedro, dentro de casa, no Complexo do Salgueiro, comunidade do Rio de Janeiro, com granadas e tiros.
Não existirão jamais respiradores suficientes da Conchinchina para fazer essa nação respirar enquanto Bolsonaro e seus filhos estiverem desgovernando. O grito sufocado vem das famílias enlutadas. Morrer desse vírus não era o destino de seus queridos. O grito ecoa nos hospitais de campanha, jamais concluídos por incompetência ou corrupção. O grito vem de profissionais da saúde sem equipamento e sem salário. O grito sai das favelas sem água, sem casa, sem emprego, sem comida e sem segurança. O homicídio do Estado é culposo ou doloso? Primeiro ou terceiro grau?
Bolsonaro veta ajuda federal para o combate à pandemia, enquanto sua secretaria de comunicação é acusada de financiar sites de fake news e pornografia. Que morram mesmo da gripezinha, é o destino de todo mundo e daí, é Messias mas não faz milagre, não é coveiro mas incentiva o contágio, não quer ministro da Saúde que não seja o general interino e servil. É um plágio de Trump até no mau uso da Bíblia.
Por que o grito da maioria não está nas ruas e não há manifestações de resistência pacífica civil como nos Estados Unidos? Vários motivos. O primeiro é o temor legítimo do contágio. Continuamos a bater recordes, não chegamos ao pico do luto. Outro medo é o da cilada. Bolsonaro e sua turma adorariam que infiltrados promovessem quebra-quebra e vandalismo, dando munição contra os “antifascistas terroristas, marginais e baderneiros”. Terceiro receio é o da violência das “forças da ordem”. Ou alguém acha que policiais brasileiros se ajoelhariam e abraçariam manifestantes contra racismo e Bolsonaro? "Don’t shoot!"
Há aplicativos que ajudam a respirar. Uso um toda noite para dormir. "I have a dream". Ao despertar, quem sabe essa família que cultua o ódio e que deforma a imagem do país terá sido deposta. E Bolsonaro estará assim limitado a uma definição crua nos livros de História: o presidente mais desumano já eleito no Brasil. Lamento, mas esse será seu destino. Não é o destino de todos os presidentes, mas será o seu. A esperança vencerá a asfixia.
Ruth de Aquino
Por 11 vezes em oito minutos e 46 segundos, com o pescoço espremido pelo joelho de um policial branco com mão no bolso, o ex-segurança negro e pai de família gritou. "I can’t breathe". Desempregado pela pandemia, preso por usar numa mercearia uma nota falsa de 20 dólares, Floyd foi morto por asfixia. “Parada cardiopulmonar agravada pela compressão do pescoço por um agente da lei”. No sentido figurado, Floyd foi morto pelo racismo e autoritarismo no governo Trump. "O papai mudou o mundo", disse sua filhinha de seis anos, Gianna, com esperança e sorriso nos olhos. Eu me emocionei.
O Brasil também não consegue respirar: 70% se sentem oprimidos pelo desrespeito de Bolsonaro aos mais de 32 mil mortos pelo coronavírus e suas famílias. Provocados pelo riso pérfido, o cavalo, as tochas, a gravata do fuzil, a louvação ao preconceito, o copo de leite supremacista, o desprezo por pobres e negros, o altar oferecido à ditadura e a seus torturadores. Os brasileiros de bem se revoltam com faixas por intervenção militar e fechamento do Congresso e do STF. Se indignam com a morte bárbara do adolescente negro de 14 anos João Pedro, dentro de casa, no Complexo do Salgueiro, comunidade do Rio de Janeiro, com granadas e tiros.
Não existirão jamais respiradores suficientes da Conchinchina para fazer essa nação respirar enquanto Bolsonaro e seus filhos estiverem desgovernando. O grito sufocado vem das famílias enlutadas. Morrer desse vírus não era o destino de seus queridos. O grito ecoa nos hospitais de campanha, jamais concluídos por incompetência ou corrupção. O grito vem de profissionais da saúde sem equipamento e sem salário. O grito sai das favelas sem água, sem casa, sem emprego, sem comida e sem segurança. O homicídio do Estado é culposo ou doloso? Primeiro ou terceiro grau?
Bolsonaro veta ajuda federal para o combate à pandemia, enquanto sua secretaria de comunicação é acusada de financiar sites de fake news e pornografia. Que morram mesmo da gripezinha, é o destino de todo mundo e daí, é Messias mas não faz milagre, não é coveiro mas incentiva o contágio, não quer ministro da Saúde que não seja o general interino e servil. É um plágio de Trump até no mau uso da Bíblia.
Por que o grito da maioria não está nas ruas e não há manifestações de resistência pacífica civil como nos Estados Unidos? Vários motivos. O primeiro é o temor legítimo do contágio. Continuamos a bater recordes, não chegamos ao pico do luto. Outro medo é o da cilada. Bolsonaro e sua turma adorariam que infiltrados promovessem quebra-quebra e vandalismo, dando munição contra os “antifascistas terroristas, marginais e baderneiros”. Terceiro receio é o da violência das “forças da ordem”. Ou alguém acha que policiais brasileiros se ajoelhariam e abraçariam manifestantes contra racismo e Bolsonaro? "Don’t shoot!"
Há aplicativos que ajudam a respirar. Uso um toda noite para dormir. "I have a dream". Ao despertar, quem sabe essa família que cultua o ódio e que deforma a imagem do país terá sido deposta. E Bolsonaro estará assim limitado a uma definição crua nos livros de História: o presidente mais desumano já eleito no Brasil. Lamento, mas esse será seu destino. Não é o destino de todos os presidentes, mas será o seu. A esperança vencerá a asfixia.
Ruth de Aquino
É sempre bom lembrar
O ataque destrutivo às instituições, a pretexto de salvá-las, depurá-las ou expurgá-las, já nos trouxe duas longas ditaduras na RepúblicaLuís Roberto Barroso, ministro-presidente do Tribunal Superior Eleitoral
'I can’t breathe': Carta ao Gustavo
O Gu tem 5 anos. Guineense de gema, com uma grande costela portuguesa, é lindo na sua pele chocolate. É meu sobrinho.
O pai, meu irmão, é bem moreno e, debaixo do sol africano, o tom de pele fica muito próximo do Gu. A mãe uma fula guineense linda de morrer, já não é bem assim.
A palete de cores familiares estava harmoniosa para o Gu até à minha chegada. É que ao contrário do pai, a tia Sara é muito branca, mas mesmo muito branca, e com sol fica vermelha, não morena.
O caos estava lançado naquele pequeno cérebro com uma inteligência emocional acima da média que me comove. Eu fui baralhar-lhe “as coisas”.
E foi a mim, não ao tio Mário, também ele muito moreno, que numa daquelas noites quentes em que o nosso programa favorito é estarmos sentados na varanda para receber o fresco dos mosaicos enquanto brincamos e conversamos, que o Gu lançou a pergunta mais inocente de todas e que diz tanto: “tu também vais ficar preta?”
Para o Gu há um degradê de cores que vai do branco ao preto e acha que todos começam no branco para acabar no preto. Acho linda esta visão e percebo tão bem de onde vem.
Sonha com Portugal. “Tem muitas coisas”, diz ele. E eu quero muito que ele venha conhecer Portugal e que conheça mais mundo ainda além fronteiras, onde vai encontrar outras variações de cor, os esquálidos, os amarelos, os vermelhos.
O que eu ainda não lhe disse é que na Guiné ele é branco, no mundo não.
Ver as imagens de George Floyd com a cara no alcatrão contra um pneu, o joelho do polícia no pescoço e a morrer sem ar, é claro que me faz pensar no Gu e no Júnior, o mais novo.
Pensar no mundo que os espera e na possibilidade de não estar presente num momento em que precisem de defesa destes atos de violência, que têm como único critério a cor da pele, angustia-me, tira-me a respiração.
Recentemente, no bairro de Alvalade, Lisboa, assisti ao ato abjeto de ver uma mulher branca, loira, cuspir na cara de uma pessoa com uma cor diferente da dela. A vítima, um homem, respondeu da forma muito inteligente e exemplar, sem violência, com palavras, e chamando a polícia. Só no último segundo, quando a mulher lhe bateu, ele teve de se defender.
Marcou-me. Fiquei mal disposta durante dias. Portugal não é um país racista? Tenho as minhas dúvidas. Que mundo é este?
Como é que eu vou explicar ao Gu o racismo que se vive no mundo. Um mundo que parece tão melhor do que o dele, “tem muitas coisas”, mas que o vai descriminar sem qualquer dó nem piedade.
Fico sem respiração só de pensar que o mundo pode arrancar toda a bondade e inocência deste pequeno grande coração, que tem a capacidade de expressar sentimentos como muitos adultos não têm, sem que lhe caia qualquer “píncaro”.
Fico sem respiração por todas estas pessoas, que tão bem me acolhem no seu país, para virem ser maltratadas no mundo dito civilizado.
Sara Filipe
O pai, meu irmão, é bem moreno e, debaixo do sol africano, o tom de pele fica muito próximo do Gu. A mãe uma fula guineense linda de morrer, já não é bem assim.
O caos estava lançado naquele pequeno cérebro com uma inteligência emocional acima da média que me comove. Eu fui baralhar-lhe “as coisas”.
E foi a mim, não ao tio Mário, também ele muito moreno, que numa daquelas noites quentes em que o nosso programa favorito é estarmos sentados na varanda para receber o fresco dos mosaicos enquanto brincamos e conversamos, que o Gu lançou a pergunta mais inocente de todas e que diz tanto: “tu também vais ficar preta?”
Para o Gu há um degradê de cores que vai do branco ao preto e acha que todos começam no branco para acabar no preto. Acho linda esta visão e percebo tão bem de onde vem.
Sonha com Portugal. “Tem muitas coisas”, diz ele. E eu quero muito que ele venha conhecer Portugal e que conheça mais mundo ainda além fronteiras, onde vai encontrar outras variações de cor, os esquálidos, os amarelos, os vermelhos.
O que eu ainda não lhe disse é que na Guiné ele é branco, no mundo não.
Ver as imagens de George Floyd com a cara no alcatrão contra um pneu, o joelho do polícia no pescoço e a morrer sem ar, é claro que me faz pensar no Gu e no Júnior, o mais novo.
Pensar no mundo que os espera e na possibilidade de não estar presente num momento em que precisem de defesa destes atos de violência, que têm como único critério a cor da pele, angustia-me, tira-me a respiração.
Recentemente, no bairro de Alvalade, Lisboa, assisti ao ato abjeto de ver uma mulher branca, loira, cuspir na cara de uma pessoa com uma cor diferente da dela. A vítima, um homem, respondeu da forma muito inteligente e exemplar, sem violência, com palavras, e chamando a polícia. Só no último segundo, quando a mulher lhe bateu, ele teve de se defender.
Marcou-me. Fiquei mal disposta durante dias. Portugal não é um país racista? Tenho as minhas dúvidas. Que mundo é este?
Como é que eu vou explicar ao Gu o racismo que se vive no mundo. Um mundo que parece tão melhor do que o dele, “tem muitas coisas”, mas que o vai descriminar sem qualquer dó nem piedade.
Fico sem respiração só de pensar que o mundo pode arrancar toda a bondade e inocência deste pequeno grande coração, que tem a capacidade de expressar sentimentos como muitos adultos não têm, sem que lhe caia qualquer “píncaro”.
Fico sem respiração por todas estas pessoas, que tão bem me acolhem no seu país, para virem ser maltratadas no mundo dito civilizado.
Sara Filipe
Antes do primeiro tiro
Abandonou a maioria para liderar a minoria numa guerra de motivação e interesse pessoal. Fechados com ele estão 26% dos brasileiros, muitos dos quais identificados em pesquisas: Forças Armadas, que reforçam as iniciativas transgressoras do comandante em chefe; Polícias Militares; gabinete do ódio, organização que já se ramificou por seis ou sete Estados; boa parte dos aposentados; empresários financiadores da rede de fake news; milícias digitais e seus robôs; fanáticos perigosos e armados confessos; filhos e amigos.

Não surpreende a existência, na sociedade brasileira, deste elevado número de praticantes do jogo de conflito permanente. Analistas afirmam que sempre foi deste tamanho o espectro da direita à extrema direita, espaço entremeado pelos adeptos do nazismo, do fascismo e do culto às armas de fogo como instrumento da disputa política.
O governo criou sua própria teoria da liberdade de expressão para justificar o modelo de operação e os crimes identificados na ação de grupos leais a Bolsonaro. Adélio Bispo estaria também exercendo seu direito à liberdade de expressão?
Na maioria de 70% deixados para trás na deserção do presidente, agora por eles rejeitado, destaca-se a presença das mulheres e, neste segmento, as pacifistas donas de casa; os estudantes; os funcionários públicos civis; os cientistas e professores; os que ganham até dois mínimos; o trabalhador informal; o Poder Legislativo; o Poder Judiciário; os signatários da série de manifestos em defesa da ameaçada democracia.
Pouco importa a Bolsonaro que, com seu governo de minoria, será difícil reeleger-se em 2022. Sinal, quem sabe, de que seu plano não preveja, à frente, uma eleição, e sim uma cerimônia de sagração.
Entre os interesses dos guerrilheiros liderados por Bolsonaro e os da maioria dos brasileiros, dos quais desistiu antes mesmo de apresentar um programa de governo para todos (educação, saúde, segurança, emprego, é uma incógnita o que gostaria de fazer o presidente), não há conciliação possível.
No momento, a maioria está com todas as suas forças mobilizadas para sobreviver à pandemia e consolar os que perderam sua família para a doença. Este é o assunto mais grave e importante em qualquer sociedade do mundo. Enquanto fica claro, a cada vez que se manifesta, que o presidente acha que ganhou o poder para tratar da própria vida e a de seus filhos.
Há quem avalie 26% um apoio suficiente para evitar o impeachment, principalmente se, na linha de frente, no momento certo, estiverem os partidos do Centrão. Os fatos discordam: dias antes de sofrer impeachment, o ex-presidente Fernando Collor recebeu, em pesquisa, o apoio de 20% dos brasileiros, e a ex-presidente Dilma Rousseff registrava a seu lado 30% do eleitorado.
É preciso reconhecer, porém, que por falta de amadurecimento das condições propícias não se chegou ao momento do impeachment, como também não há cenário político que permita o golpe.
Jair Bolsonaro ainda tem a chance, assim, de assumir o governo, começando por aceitar o conselho do ministro Gilmar Mendes: criar um exército de enfrentamento da pandemia, com a presença da União, Estados e municípios, como o País fez na crise do apagão. Correr com esta providência antes que sua ordem de armar a população produza o primeiro tiro.
Vida ou morte
Perguntado sobre os mais de 30 mil mortos por Covid-19 no Brasil, o presidente da República respondeu, na lata, sem dó: "A morte é o destino de todos". A morte é o destino de todos. Destino de George Floyd nos Estados Unidos, nas mãos de um policial. Destino do menino João Pedro, de 14 anos, baleado enquanto obedecia a quarentena dentro de sua casa. Assassinado por policiais. A morte é o destino de todos. Destino de pessoas de idades diversas, vítimas da doença a que o presidente se recusa a dar a devida relevância. Pois bem. A morte é, de fato, o destino de todos, ou de muitos que não perderiam sua vida tão cedo em razão do desprezo pela vida que demonstra o líder do país. Manifestação? Sim, manifestação.
As manifestações no meio de uma epidemia evidentemente aumentam o risco de contágio. As pessoas precisam se proteger, sair de máscara, procurar manter distanciamento para reduzir o risco de contaminação. Mas condenar as manifestações pró-democracia por causa da epidemia?
É bom lembrar que a manifestação pró-democracia é contra o presidente da República, que não apenas repudia a democracia, mas faz troça da epidemia e da perda de vidas, todas as vidas — em especial, a vida dos mais pobres e dos negros, os mais atingidos até agora. Portanto, manifestar-se pró-democracia é posicionar-se a favor da luta contra a epidemia.
Manifestar-se pró-democracia é uma questão de vida ou morte, tal qual a própria epidemia.
Tenho visto muita gente no Brasil se recusando a enxergar aquilo que deveria ser óbvio. O país atravessa um momento insustentável, com um governante que prefere o caos à preservação do país. Um governante que detesta as instituições que regem nossa democracia. Um governante abertamente favorável à brutalidade e à opressão. Um governante que não se importa com o sofrimento de dezenas de milhares de famílias brasileiras, com dezenas de milhões de habitantes do Brasil, com os mais vulneráveis, que ele reluta em auxiliar pela renda básica emergencial. O que fazer perante essa situação? Panelaços, sim. Gritaria, sim.
Mas vejam: as ruas sempre foram um espaço privilegiado da ação política. Quando algo está profundamente errado nós buscamos as ruas porque é nelas que se tem maior visibilidade e, portanto, se encena a um maior número a contestação, na esperança de que espectadores se disponham a se tornar atores. A tomada das ruas está proibida por causa da epidemia? Não, tomá-las está mais perigoso, mas de modo algum proibido.
Cabe a todas as pessoas que queiram se manifestar — diga-se, legitimamente — contra a barbárie do bolsonarismo ir às ruas com responsabilidade. Com máscara para não se contaminar. Com máscara para não contaminar os outros.
Aqui nos EUA a morte de George Floyd levou centenas de milhares de pessoas para as ruas ao longo de mais de uma semana. Algumas dessas manifestações foram violentas. Outras foram pacíficas. Outras ainda tiveram de lidar com a brutalidade da polícia: foi esse o caso aqui em DC, onde moro. Para que Trump pudesse tirar uma foto com a Bíblia na mão de cabeça para baixo, as forças de segurança lançaram gás lacrimogênio sobre pessoas que exerciam pacificamente seu direito de protestar contra o racismo.
Há temores de que possa haver um recrudescimento da epidemia nas próximas semanas? Sem dúvida. Mas o resultado das manifestações já é visível: os policiais envolvidos na morte de Floyd que haviam sido acusados com brandura viram suas acusações se tornarem muito mais duras em razão da indignação do povo nas ruas diante da injustiça do homicídio e da condescendência com ele.
Vejo no Brasil uma relutância que, apesar do descontrole da doença, não vislumbrei aqui. São pessoas que veem no governo Bolsonaro, na figura presidencial, todos os perigos que eles representam, mas que hesitam. Hesitam por causa da epidemia. Hesitam devido a um senso de responsabilidade justificado, como preservação das vidas.
Contudo, calar-se neste momento, apequenar-se neste momento, esconder-se neste momento é dar respaldo às atrocidades que levam vidas impiedosamente e com descaso. "É o destino de todos".
Vamos aceitar isso passivamente?
Monica De Bolle
As manifestações no meio de uma epidemia evidentemente aumentam o risco de contágio. As pessoas precisam se proteger, sair de máscara, procurar manter distanciamento para reduzir o risco de contaminação. Mas condenar as manifestações pró-democracia por causa da epidemia?
É bom lembrar que a manifestação pró-democracia é contra o presidente da República, que não apenas repudia a democracia, mas faz troça da epidemia e da perda de vidas, todas as vidas — em especial, a vida dos mais pobres e dos negros, os mais atingidos até agora. Portanto, manifestar-se pró-democracia é posicionar-se a favor da luta contra a epidemia.
Manifestar-se pró-democracia é uma questão de vida ou morte, tal qual a própria epidemia.
Tenho visto muita gente no Brasil se recusando a enxergar aquilo que deveria ser óbvio. O país atravessa um momento insustentável, com um governante que prefere o caos à preservação do país. Um governante que detesta as instituições que regem nossa democracia. Um governante abertamente favorável à brutalidade e à opressão. Um governante que não se importa com o sofrimento de dezenas de milhares de famílias brasileiras, com dezenas de milhões de habitantes do Brasil, com os mais vulneráveis, que ele reluta em auxiliar pela renda básica emergencial. O que fazer perante essa situação? Panelaços, sim. Gritaria, sim.
Mas vejam: as ruas sempre foram um espaço privilegiado da ação política. Quando algo está profundamente errado nós buscamos as ruas porque é nelas que se tem maior visibilidade e, portanto, se encena a um maior número a contestação, na esperança de que espectadores se disponham a se tornar atores. A tomada das ruas está proibida por causa da epidemia? Não, tomá-las está mais perigoso, mas de modo algum proibido.
Cabe a todas as pessoas que queiram se manifestar — diga-se, legitimamente — contra a barbárie do bolsonarismo ir às ruas com responsabilidade. Com máscara para não se contaminar. Com máscara para não contaminar os outros.
Aqui nos EUA a morte de George Floyd levou centenas de milhares de pessoas para as ruas ao longo de mais de uma semana. Algumas dessas manifestações foram violentas. Outras foram pacíficas. Outras ainda tiveram de lidar com a brutalidade da polícia: foi esse o caso aqui em DC, onde moro. Para que Trump pudesse tirar uma foto com a Bíblia na mão de cabeça para baixo, as forças de segurança lançaram gás lacrimogênio sobre pessoas que exerciam pacificamente seu direito de protestar contra o racismo.
Há temores de que possa haver um recrudescimento da epidemia nas próximas semanas? Sem dúvida. Mas o resultado das manifestações já é visível: os policiais envolvidos na morte de Floyd que haviam sido acusados com brandura viram suas acusações se tornarem muito mais duras em razão da indignação do povo nas ruas diante da injustiça do homicídio e da condescendência com ele.
Vejo no Brasil uma relutância que, apesar do descontrole da doença, não vislumbrei aqui. São pessoas que veem no governo Bolsonaro, na figura presidencial, todos os perigos que eles representam, mas que hesitam. Hesitam por causa da epidemia. Hesitam devido a um senso de responsabilidade justificado, como preservação das vidas.
Contudo, calar-se neste momento, apequenar-se neste momento, esconder-se neste momento é dar respaldo às atrocidades que levam vidas impiedosamente e com descaso. "É o destino de todos".
Vamos aceitar isso passivamente?
Monica De Bolle
quinta-feira, 4 de junho de 2020
General 'terrivelmente democrata'
É ofensivo às Forças Armadas, em particular ao Exército Brasileiro, alguém dizer que vai haver ruptura e que vai haver golpe. Isso é ofensivo, não é aceitável. A minha geração é radicalmente democrática. A minha responsabilidade de estar no governo é de não fazer feio, de corresponder à confiança e história que eu tenho no ExércitoGeneral Luiz Eduardo Ramos,ministro da Secretaria de Governo
A estupidez
Em 1976, Carlo Cipolla (1922-2000), historiador e economista, escreveu precioso ensaio em inglês, língua que, segundo ele, era a única a permitir a apreciação de sua obra. Somente em 1988, aceitou a ideia da versão italiana, Allegro ma non tropo, que torna disponível a primeira edição de As Leis Fundamentais da Estupidez Humana (Ed. Planeta, 2020) traduzida da versão original. (ATENÇÃO: qualquer semelhança com fatos, situações e pessoas é mera coincidência)
Primeira Lei: “Todo mundo subestima, sempre e inevitavelmente, o número de indivíduos estúpidos em circulação”. Este número é uma constante de estúpidos, a fração B.
Segunda Lei: “A probabilidade de uma pessoa ser estúpida independe de qualquer outra característica dessa pessoa”. Constatação subversiva: os homens não nascem iguais. Sem conversa mole de “padrões culturais”. O ser nasce estúpido por obra da Providência. E as pesquisas comprovaram (é evidência científica!) que a constante B’ está presente nas pessoas, independente de sua condição social. Na Universidade, por exemplo, a fração B’ está presente entre o pessoal da limpeza, PhDs e vencedores dos prêmios Nobel.
A Terceira Lei: “Estúpida é a pessoa que provoca perdas para outras pessoas ou grupo de pessoas enquanto não obtém nenhum ganho e ainda pode incorrer em perdas”. Esta, para mim, é a “Lei de Ouro da Estupidez”. Para compreendê-la é preciso atentar para o conceito de perdas e ganhos e, especialmente, para as quatro categorias em que se divide a humanidade: os inteligentes, os vigaristas, os otários e os estúpidos. O cara pode ser vigarista e em certas situações agir como otário; o mesmo acontece como o otário, o inteligente, mas retornam à posição de origem. O estúpido se basta no dano que causa, inclusive, a ele.
O leitor vai ficar intrigado, e continuar, até compreender que as pessoas sensatas e racionais têm dificuldade de entender irracionalidade e a estupidez.
Daí a Quarta Lei: “As pessoas sempre subestimam o poder de causar danos de indivíduos estúpidos e esquecem que, sob qualquer circunstância, lidar ou se associar a pessoas estúpidas resultam em custo incalculável”.
A Quinta Lei (“O estúpido é o tipo mais perigoso de pessoa”). Para mim é mais um corolário do que lei. O leitor decide.
Ia esquecendo: o livro tem dois capítulos: “Estupidez e poder” e “O poder da estupidez”. Desnecessário abordar. Conhecemos bem este assunto. E cada caso é um caso.
Primeira Lei: “Todo mundo subestima, sempre e inevitavelmente, o número de indivíduos estúpidos em circulação”. Este número é uma constante de estúpidos, a fração B.
Segunda Lei: “A probabilidade de uma pessoa ser estúpida independe de qualquer outra característica dessa pessoa”. Constatação subversiva: os homens não nascem iguais. Sem conversa mole de “padrões culturais”. O ser nasce estúpido por obra da Providência. E as pesquisas comprovaram (é evidência científica!) que a constante B’ está presente nas pessoas, independente de sua condição social. Na Universidade, por exemplo, a fração B’ está presente entre o pessoal da limpeza, PhDs e vencedores dos prêmios Nobel.
A Terceira Lei: “Estúpida é a pessoa que provoca perdas para outras pessoas ou grupo de pessoas enquanto não obtém nenhum ganho e ainda pode incorrer em perdas”. Esta, para mim, é a “Lei de Ouro da Estupidez”. Para compreendê-la é preciso atentar para o conceito de perdas e ganhos e, especialmente, para as quatro categorias em que se divide a humanidade: os inteligentes, os vigaristas, os otários e os estúpidos. O cara pode ser vigarista e em certas situações agir como otário; o mesmo acontece como o otário, o inteligente, mas retornam à posição de origem. O estúpido se basta no dano que causa, inclusive, a ele.
O leitor vai ficar intrigado, e continuar, até compreender que as pessoas sensatas e racionais têm dificuldade de entender irracionalidade e a estupidez.
Daí a Quarta Lei: “As pessoas sempre subestimam o poder de causar danos de indivíduos estúpidos e esquecem que, sob qualquer circunstância, lidar ou se associar a pessoas estúpidas resultam em custo incalculável”.
A Quinta Lei (“O estúpido é o tipo mais perigoso de pessoa”). Para mim é mais um corolário do que lei. O leitor decide.
Ia esquecendo: o livro tem dois capítulos: “Estupidez e poder” e “O poder da estupidez”. Desnecessário abordar. Conhecemos bem este assunto. E cada caso é um caso.
O pior dos exemplos
Ou é ilusão, ou má-fé da parte dele. A sua responsabilidade é inequívoca e se desdobra em muitos planos: na falta de coordenação da política sanitária que caberia ao ministério cujo titular mudou três vezes em um mês; na hostilidade gratuita à Organização Mundial da Saúde, apartando o país das redes internacionais de cooperação nessa área literalmente vital; na demora em adotar medidas de proteção aos mais pobres e vulneráveis, aos empregados com carteira, aos pequenos empreendedores e às milhares de empresas necessitadas de apoio —iniciativas cujo porte mesquinho foi em parte corrigido pelo Congresso; na ausência, enfim, de qualquer noção do que fazer nos próximos meses, para não falar no próximo ano.

Como se fosse pouco, Bolsonaro comportou-se por palavras e atos como o principal agente desorganizador dos esforços para conter o impacto destrutivo do novo coronavirus. Desinformou os brasileiros e incentivou o desrespeito ao isolamento social, que até o momento é o único redutor comprovado da velocidade da contaminação.
Recente pesquisa nacional de opinião realizada pelo DataPoder360 mostra a população dividida ao meio entre os que se sentem e os que não se sentem seguros para sair de casa e retomar as suas atividades. Sintomaticamente, entre os 28% que apoiam Bolsonaro chega a 73% a proporção daqueles que acham seguro abandonar o distanciamento social. No grupo dos que o desaprovam, são apenas 37%.
À parte isso, estudo ainda inédito dos pesquisadores Ivan F. Fernandes, Gustavo A. Fernandes e Guilherme A. Fernandes —“Ideologia, isolamento e morte: uma análise dos efeitos do bolsonarismo na pandemia de Covid19”— mostra que a votação de presidente no primeiro turno, por município, tem correlação negativa com a taxa de isolamento, e correlação positiva com mortes por Covid-19. Ou seja, ali onde ele teve mais votos, o isolamento é menor e, em decorrência, maior o número de óbitos.
Embora os resultados não permitam dizer que as atitudes de Bolsonaro explicam o descaso de seus eleitores com a própria saúde e a dos outros, na melhor das hipóteses as suas bravatas o estimulam.Maria Hermínia Tavares
Balanço da trágica parceria entre Bolsonaro e o coronavírus
É como se em pouco mais de dois meses tivesse sido dizimada a população de Exu em Pernambuco, ou de Três Marias em Minas Gerais, ou de Itatiaia no Rio, ou de Ilha Solteira em São Paulo, ou de São Pedro das Missões, no Rio Grande do Sul.
O número de infectados pelo vírus está próximo dos 600 mil. É como se todos os habitantes de Joinville, em Santa Catarina, tivessem ficado doentes. Ou de Londrina, no Paraná. Ou de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Ou de Macapá, capital do Amapá.
O Brasil é segundo país do mundo em número de casos da doença. Só perde para os Estados Unidos. E o quarto em número de mortos, atrás dos Estados Unidos, Reino Unido e Itália. Enquanto nesses países diminui o número de casos novos, aqui aumenta.
O que o presidente Jair Bolsonaro chamou de gripezinha, destinada a matar 800 pessoas, deverá custar a vida de cerca de 50 mil até o próximo dia 20, segundo estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E o pior não terá passado

“A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todos”, disse o presidente. Uma pesquisa realizada pela Associação Paulista de Medicina com 2.808 profissionais, apontou que 84,5% dos médicos acreditam que o pior ainda está por vir.
Quando vier, o país estará mais exposto do que jamais esteve desde quando foi dada a largada para o confinamento social. Sob a pressão de Bolsonaro, de empresários e de prefeitos, governadores por toda parte relaxaram as medidas de isolamento.
O resultado será colhido em breve. E se for o previsto pelos cientistas, ou as medidas serão restabelecidas ou haverá o caos desejado pelo presidente. Ele sempre afirmou que o vírus só será vencido depois de contaminar 70% da população. Estupidez pura!
São muitos os candidatos a dono de uma das alças dos caixões dos mortos pela pandemia. Mas uma delas, por merecimento, com toda certeza é de Bolsonaro. O Brasil é o único país do mundo que trocou duas vezes de ministro da Saúde em menos de 60 dias.
Criou-se, ontem, a figura do ministro interino oficial da Saúde para elevar o status do general Eduardo Pazzuelo que sucedeu a Nelson Teiche, que por sua vez sucedera a Luiz Henrique Mandetta, demitido por Bolsonaro porque estava muito bem no cargo.
A levar-se em conta sua nova condição de ministro interino oficial da Saúde, o general seria o quarto em dois meses. Porque sucede também a ele mesmo que até então era apenas ministro interino. Mais uma contribuição de Bolsonaro à administração pública.
Presidentes que se merecem
Donald Trump é o primeiro presidente que não tenta unir os americanos - ele nem faz de conta de querer isso. Em vez de nos unir, ele tenta nos dividir. Estamos sofrendo as consequências de três anos desse esforço deliberado. Estamos sofrendo as consequências de três anos com um líder imaturoGeneral Jim "Mad Dog" Mattis, ex-ministro da Defesa de Trump
Pandemia deve derrubar a classe média brasileira
O mercado de 210 milhões de brasileiros consumidores ávidos, que, na dúvida, preferem gastar a economizar, atraiu todos os fabricantes de bens de consumo do mundo. Em média, os brasileiros compravam mais celulares, televisores, geladeiras, cosméticos e produtos de higiene pessoal do que os indianos, russos e sul-africanos. Este consumo também levou às altas taxas de crescimento da última década: dois terços do crescimento do Brasil foram dependentes do consumo – pouco veio das exportações ou dos investimentos.
Mas desde 2015 o motor de crescimento da economia brasileira vem estagnando e encolhendo: o país caiu para o 12º lugar em termos de potência econômica. E a tendência é descendente. Os brasileiros estão empobrecendo novamente, em vez de ascender. Há seis anos, sua renda média era 9% superior à renda média global, mas ao final do ano será quase 20% menor, prevê a Economist Intelligence Unit. O declínio da sociedade é particularmente evidente em uma comparação com a China: em 2016 a renda per capita (medida pelo poder aquisitivo) ainda era a mesma na China e no Brasil. Hoje é 30% menor no Brasil do que na China.

De acordo com as últimas previsões, o declínio continuará e será exacerbado pela pandemia. Uma razão para isso é o rápido aumento da taxa de desemprego. De acordo com estimativas do Banco Safra, a taxa real de desemprego já está em torno de 16% – e não os 12,9% oficialmente divulgados. Isso porque as estatísticas oficiais não levam em conta aqueles que, sem esperança de achar algo, não estão mais à procura de trabalho.
Além disso, a dívida dos cidadãos voltou a aumentar. Nos últimos dois anos, os brasileiros têm usado as baixas taxas de juros para contrair empréstimos. Sua dívida é quase metade do que eles ganharam nos últimos 12 meses (46%). Este também é o nível mais alto desde 2005, quando as pesquisas começaram.
O governo brasileiro teve considerável dificuldade em chegar às pequenas e médias empresas (PMEs) durante a crise: embora o governo queira dar às PMEs 40 bilhões de reais para garantir que elas não demitam seus funcionários, ainda não fez os investimentos necessários. Ao todo, 1,4 milhão de empresas deveriam ser favorecidas, e 12 milhões de empregos, mantidos. Mas, até agora, só 1% do empréstimo pôde ser sacado. A maioria das pequenas e médias empresas não se enquadra no programa de apoio – são pequenas demais para um faturamento anual de 360 mil reais ou mais. As grandes empresas recebem crédito dos bancos estatais, as empresas de médio porte ficam pelo caminho.
Isso também faz com que a renda dos brasileiros encolha. Segundo o Sebrae, as PMEs brasileiras respondem por mais da metade do total de empregados (52%) e produzem um quarto do PIB do país.
O instituto Ibre/FGV acaba de analisar os últimos dados do Fundo Monetário Internacional. Segundo estes números, a renda per capita dos brasileiros deve cair pelo menos 6% neste ano, para cerca de 13.600 dólares por habitante. A previsão sombria: a década de 2011-2020 é provavelmente a que os brasileiros perderam mais renda nos últimos 120 anos.
Alexander Busch
Bolsonaro não pode se eximir de responsabilidade nas mortes
Os números trágicos da Covid-19 no Brasil — que já é o segundo país com maior número de casos, atrás dos EUA —, porém, estão longe de ser uma fatalidade. Refletem a sucessão de equívocos do governo Bolsonaro, e também de governadores e prefeitos, no enfrentamento do novo coronavírus.
Bolsonaro tratou uma das mais letais pandemias da História como “gripezinha”, que não apresentaria maiores riscos para pessoas jovens e saudáveis. A doença infectou mais de 550 mil e pôs o país entre os quatro com maior número de mortes (atrás de EUA, Reino Unido e Itália). Em óbitos diários, o Brasil assumiu indesejável liderança.
Desde o início, Bolsonaro adotou discurso divergente do Ministério da Saúde de seu próprio governo. Enquanto a pasta defendia o isolamento para atividades não essenciais, o presidente criticava as quarentenas e dizia que as medidas de restrição eram um exagero.

A gestão do Ministério da Saúde durante a pandemia é talvez o melhor retrato do modo errático como Bolsonaro conduziu o combate à doença. Em plena fase de aceleração, demitiu o ministro Luiz Henrique Mandetta — cujo trabalho era aprovado pela população, segundo pesquisas de opinião — e levou o substituto, Nelson Teich, a pedir exoneração com menos de um mês no cargo. Os dois não resistiram às interferências de Bolsonaro em assuntos técnicos, como a liberação do novo protocolo da cloroquina, contra todas as evidências científicas, que apontam ineficácia do medicamento contra a Covid-19 e aumento do risco de mortes.
Com a efetivação ontem de Eduardo Pazuello como ministro interino da pasta, após 18 dias no cargo, o Brasil passou a ter três ministros da Saúde em menos de dois meses. Quando Mandetta saiu, o país registrava 1.924 mortes. Na terça, eram 31.199, o que representa um aumento de mais de 1.500%.
Evidentemente, governadores e prefeitos, que protagonizam o combate mais direto à pandemia, com autonomia dada pelo STF para decretar medidas de restrição, também têm suas digitais nesses números. Mesmo podendo contratar sem licitação numa situação de calamidade, não conseguiram adequar suas redes para receber a avalanche de doentes. Mas Bolsonaro não pode se eximir de responsabilidade, e muito menos falar em destino. Se o governo tivesse um discurso coeso, se a gestão da Saúde não enfrentasse tantos solavancos, se o país mantivesse uma política sanitária consistente, e mais comprometida com a Ciência, talvez o panorama hoje não fosse tão sombrio.
Medo das ruas
É uma grande ironia que, depois de tanto tempo de apatia, os primeiros lampejos de manifestações anti-bolsonaristas de rua venham ocorrendo sob o signo do medo – e dos dois lados, se é que são apenas dois. Depois da forte adesão de entidades da sociedade aos manifestos em defesa da democracia nos jornais e na Internet, e do protesto das torcidas na Paulista que acabou reprimido pela PM de São Paulo, há novas manifestações oposicionistas convocadas para diversas capitais no próximo domingo. Sua organização, porém, está cercadas de dúvidas e sentimentos contraditórios.
Por trás disso, nas profundezas das discussões, está o receio concreto de integrantes da oposição de cair numa armadilha bolsonarista. Consideram que os confrontos deste início de semana em SP, no Rio e em Curitiba mostraram claramente de que lado estão as PMs: do governo federal, que vem falando a sua linguagem nas questões de segurança e lhe dando melhor remuneração. O temor, portanto, é de que os inevitáveis enfrentamentos com as polícias descambem para atos de provocação, violência e perda de controle das manifestações. Há quem acredite inclusive na possibilidade de haver elementos infiltrados jogando pela radicalização e liderando saques, atos de destruição de patrimônio e agressões.
Um cenário desses no domingo de protestos da oposição pode ser tudo o que Jair Bolsonaro deseja como pretexto para obter apoio de setores conservadores para o uso das Forças Armadas na garantia da lei e da ordem durante manifestações. Ou até para coisa pior, usando-as para justificar medidas de força e sabe-se lá mais o que. O discurso do presidente de satanização da esquerda e suas declarações recentes não dão margem a enganos. A iniciativa de Bolsonaro de anunciar que, neste domingo, seus aliados não devem ir às ruas, deixando-as para os adversários, também deixou muita gente com a pulga trás da orelha.
Na prática o governo está morrendo de medo que seus opositores consigam colocar muita gente nas ruas – diferentemente do movimento bolsonarista, unido e barulhento, mas pouco expressivo em números. Do outro lado, a oposição está morrendo de medo de não conseguir encher as ruas na pandemia e ainda perder o controle dos protestos.
E agora? Vamos ou não vamos? É o que boa parte dos mais consequentes se indaga. Um difícil dilema para quem vê o país derreter e esperou tanto para ver surgir expressão mais concreta da insatisfação popular, ingrediente básico de qualquer movimento político contra o governo. Afinal, panelas fazem barulho e manifestos agregam forças políticas, mas não têm o poder de cassar presidentes.
Helena Chagas
Parte da esquerda politicamente correta teme ser acusada de fazer justamente aquilo que condena em Jair Bolsonaro: incitar, ou ao menos compactuar com a formação de aglomerações de pessoas durante a pandemia. Se dá crime de responsabilidade para Bolsonaro, como tantos gostam de repetir, dá para a oposição também – e esse é o argumento que, na superfície, sustenta a posição de quem é contra o comparecimento a essas atos, que continuam sendo convocados pela web por torcidas e outros grupos não ligados oficialmente a partidos e suas entidades.
Por trás disso, nas profundezas das discussões, está o receio concreto de integrantes da oposição de cair numa armadilha bolsonarista. Consideram que os confrontos deste início de semana em SP, no Rio e em Curitiba mostraram claramente de que lado estão as PMs: do governo federal, que vem falando a sua linguagem nas questões de segurança e lhe dando melhor remuneração. O temor, portanto, é de que os inevitáveis enfrentamentos com as polícias descambem para atos de provocação, violência e perda de controle das manifestações. Há quem acredite inclusive na possibilidade de haver elementos infiltrados jogando pela radicalização e liderando saques, atos de destruição de patrimônio e agressões.
Um cenário desses no domingo de protestos da oposição pode ser tudo o que Jair Bolsonaro deseja como pretexto para obter apoio de setores conservadores para o uso das Forças Armadas na garantia da lei e da ordem durante manifestações. Ou até para coisa pior, usando-as para justificar medidas de força e sabe-se lá mais o que. O discurso do presidente de satanização da esquerda e suas declarações recentes não dão margem a enganos. A iniciativa de Bolsonaro de anunciar que, neste domingo, seus aliados não devem ir às ruas, deixando-as para os adversários, também deixou muita gente com a pulga trás da orelha.
Na prática o governo está morrendo de medo que seus opositores consigam colocar muita gente nas ruas – diferentemente do movimento bolsonarista, unido e barulhento, mas pouco expressivo em números. Do outro lado, a oposição está morrendo de medo de não conseguir encher as ruas na pandemia e ainda perder o controle dos protestos.
E agora? Vamos ou não vamos? É o que boa parte dos mais consequentes se indaga. Um difícil dilema para quem vê o país derreter e esperou tanto para ver surgir expressão mais concreta da insatisfação popular, ingrediente básico de qualquer movimento político contra o governo. Afinal, panelas fazem barulho e manifestos agregam forças políticas, mas não têm o poder de cassar presidentes.
Helena Chagas
Profeta Messias

Ontem (02) o país ultrapassou as 30 mil mortes pelo coronavírus. Horas antes, o capitão declarou: “Eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”.
Alvoroço no Alvorada
Não era sem tempo que alguns dos principais meios de comunicação do país deixassem de presenciar essa cena macabra ocorrendo sob o brilhante céu da Capital da República, onde diariamente – além de registrarem esses descalabros – ao tentarem fazer perguntas, recebem de volta ironias, provocações e ameaças que vêm aumentando em escalada, sem que providências sejam tomadas para garantir minimamente sua presença no local. Essa semana muitos deram um basta.
A cada alvorecer mais preocupante, os dias nacionais quando já acordamos em sobressaltos, como se já não bastassem os milhares de mortos, os números que diariamente sabemos no crepúsculo dos dias em meio à pandemia, ao desencontro de ações, dos conflitos entre regiões, do vazio verde-oliva ocupado na Saúde por patentes e coturnos.
A vestimenta da Alvorada traz detalhes que acabam passando, como se lei não tivéssemos mais: talvez vocês não tenham reparado ainda que o homem da gravata com fuzis agora aparece cercado por seus seguranças ostentando máscaras de proteção com a sua figura carimbada, em um personalismo que conhecemos no século passado durante a ascensão do mal do fascismo e nazismo. O “e daí?” usado alegremente na máscara da deputada que já estaria cassada em momentos normais. E naquela reunião do dia 22 de abril que agora, perplexos, assistimos, vários ministros e autoridades regurgitaram suas ignorâncias em alto e bom som, sem que tenham sido presos. Aliás, o que é compreensível, se ali tivesse havido voz de prisão entre uns e outros não sobraria quem apagasse a luz daquele salão.
O alvoroço não é pouco, e se distribui muito além da alvorada e do Alvorada, das manhãs, tardes e noites, causando inquietação no nosso sono das madrugadas, do Planalto às planícies; entre os Poderes, agora em isolamento social, engaiolados em lives e encontros digitais, reuniões extemporâneas, declarações e notas de repúdio em redes e folhas de papel que não duram minutos respirando até que outras tenham de substituí-las.
Fosse só o homem, mas ele tem os filhos enumerados, porque agora é moda, além do banheiro, o ir lá fazer 01, 02, que já era bem ridículo como expressão. Temos por aqui mais zeros, sempre à esquerda, nunca nos lugares onde no mínimo deveriam estar trabalhando, mas tentando desgovernar juntos, como clones do sobrenome que precisamos urgentemente, e antes que seja tarde, parar.
Nosso alvoroço – dos que prezam pelas liberdades individuais e pelo respeito – tem de começar a ser sentido lá no Alvorada.
Nossa alvorada haverá de ser muito melhor. Do jeito que está, sujeita a trovoadas, poderá nos levar a uma noite terrível. Mais terrível dos que os pesadelos que atormentam nosso sono buscando sobreviver, além da pandemia, além deles, e de todo o atraso e violência que claramente representam.
A falta que faz liderança
Neste exato momento, fora a tripla crise de saúde, economia e política, o que está acontecendo é um seriíssimo embate entre a farda e a toga. O pessoal da farda (incluindo os que acabaram de trocá-la pelo paletó e gravata ou pelo pijama) está convencido de que, se houve “extremismos”, “exageros retóricos” e “falas impensadas” contra instituições, isso empalidece diante do que o pessoal da toga no STF impôs para cercear os poderes do presidente da República – uma usurpação acompanhada igualmente por falas irresponsáveis e desonestidade intelectual.

No mínimo desde o julgamento do mensalão o pessoal da toga andava dividido, mas se uniu ao entender que o pessoal da farda dá suporte a um presidente que pensa dispor de poderes imperiais, desrespeita limites entre Poderes estabelecidos na Constituição, age por interesses políticos próprios e pessoais para solapar instituições e só não jogou o País ainda numa irrecuperável crise institucional pois eles, os da toga, baseados em princípios e doutrinas, foram capazes de esclarecer e impor limites (como no caso de medidas de combate à covid-19).
Não há saída à vista para esse embate pois ele é a expressão de duas fortes forças políticas que ocuparam duas instituições. Não é só entre o pessoal da farda no palácio que reina a sincera convicção de que o pessoal da toga expressa um “establishment” (sim, é essa palavra meio fora de moda que se usa para falar do STF) que se articulou para defender privilégios que vão de ganhos da magistratura a benefícios fiscais e proteções a setores empresariais, passando pelo funcionalismo público. A luta do “establishment”, portanto, é para impedir a reforma do Estado representada por Bolsonaro e sua eleição.
No outro lado, figuras do STF sempre atentas aos ventos das redes sociais e opiniões publicadas encaram Bolsonaro e o que ele significa como um perigo real para as instituições democráticas e o estado de direito. Consideram suas ações políticas e o endosso explícito que concede a movimentos contra o Congresso e o Judiciário como ações políticas que não são apenas arroubos retóricos. São, nesse entendimento, parte do aberto intuito de destruir as normas mínimas do confronto político, da civilidade e do próprio jogo democrático.
Os bombeiros de sempre, de um lado e de outro, conseguem debelar incêndios pontuais. Mas não têm a capacidade de resolver a situação de fundo que resulta agora num precário equilíbrio. A saber: a “via jurídica” para destronar Bolsonaro, uma possibilidade com a qual uma parte do STF flerta, passa por uma PGR que não vê condições técnicas de denunciar o presidente. A rota para derrubar o presidente via TSE depende desse órgão alterar jurisprudência – fora o tempo que isso leva.
Bolsonaro e sua turma de aloprados não dominam as ruas, não dispõem de apoio nas Forças Armadas para levar adiante uma “revolução” que só existe na cabeça de malucos nos quais o entorno do presidente presta muita atenção. Talvez entendam que vociferar contra o STF nada vai produzir de prático, a não ser dar tempo para alternativas políticas “de centro” (que podem incluir facilmente o Centrão) se articularem e solidificarem.
Em outras palavras, ninguém tem forças para vencer ninguém. As crises econômicas e de saúde demonstraram fartamente a “necessidade da convergência” à qual o general Mourão se refere, mas também como diminui o espaço político para essa convergência. O maior efeito da demonstração da crise está, porém, em outro aspecto.
Para a tal “necessária convergência” precisa-se de liderança. Quem?
Bolsonaro governa para a banda podre do sistema
Bolsonaro chegou ao poder, ao menos em parte, levado por esse sentimento antissistema, prometendo acabar com “o que aí está”, tirar o poder das elites (econômica, política, cultural etc.) que se encastelaram e desfrutam de privilégios. Na prática, contudo, governa para as elites. Ou melhor, para uma parcela delas: a parte mais inescrupulosa, para a banda podre que não aceita nenhum limite à sanha acumulativa de dinheiro e poder.

Entre os empresários, o apoio não vem daqueles que buscam adequar suas empresas ao mínimo de boas práticas, ética e sustentabilidade, e sim dos mais ávidos pelo lucro imediato.
Basta comparar a postura de Luiza Trajano, de cooperação com o esforço de distanciamento social ao mesmo tempo em que preserva os empregos de seus funcionários, com a de Luciano Hang, que ao primeiro anúncio de quarentena, gravou vídeo em que ameaçava os empregos de milhares de funcionários.
Na religião, o bolsonarismo não é representado por líderes que buscam com humildade viver sua fé e seu compromisso moral, mas pelos pastores mais estridentes e fanatizadores, sedentos de dízimo e de poder.
No agronegócio, os representantes de um agro tecnológico e sustentável já percebem o buraco em que o Brasil se meteu. Bolsonaro governa para o que há de mais retrógrado no agronegócio, os interesses predatórios que querem matar índio e desmatar a Amazônia para transformar em pasto.
No jornalismo, mesma coisa. Profissionais que buscam objetividade de apuração são hostilizados, ao mesmo tempo em que o presidente recomenda “jornalistas” que não veem problema em distorcer o quanto for necessário para melhor bajulá-lo e garantir sua fama junto aos apoiadores.
Na política, Bolsonaro se aproxima do que há de mais abertamente fisiológico e aproveitador, entregando o FNDE e o Banco do Nordeste às legendas do centrão, numa negociação com zero conteúdo propositivo.
Em todos os casos, a lógica é uma só: o bolsonarismo é a lei do autointeresse acima de qualquer consideração institucional, social, legal ou ética.
Há, e não é de agora, uma hipocrisia no discurso de qualquer elite. Um descompasso entre aquilo que pregam e a maneira como de fato se comportam. Esse descompasso gera indignação. De que adiantam discursos certinhos e polidos, com belos ideais, se a prática é desonesta?
O problema é que, para fazer discurso e prática coincidirem, o bolsonarismo não busca melhorar a prática; ele só abriu mão do discurso.
Assim, a prática piora ainda mais, se tornando ainda mais exploratória. O ambientalismo do sistema era da boca pra fora? Então agora vamos desmatar sem disfarces.
A preocupação com a democracia e com os vulneráveis dos políticos de sempre não casava bem com a política fisiológica de jogo de interesses? Então agora o presidente admite não estar nem aí.
O único aspecto do sistema que querem mudar são os limites que esse sistema interpunha à busca desenfreada de seus interesses.
Ao altruísmo hipócrita, preferem o egoísmo desavergonhado. “Ao menos é autêntico.”Joel Pinheiro da Fonseca
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