domingo, 17 de maio de 2020

A pandemia e o Estado que queremos

Em março, um meme viralizou nas redes sociais. Dizia: “Se ateus descobrem Deus quando enfrentam a morte, neoliberais descobrem Keynes quando enfrentam uma pandemia”. Era uma alusão irônica à transmutação de líderes que até pouco tempo atrás defendiam cortes nas políticas sociais e ajustes fiscais e que, no contexto da pandemia, passaram a vestir a camisa dos sistemas públicos de saúde e a defender o aumento de gastos públicos.


Em poucos lugares do mundo essa mudança foi tão espetacular quanto no Brasil, onde os ventos da diminuição do papel do Estado sopravam em categoria de furacão antes da pandemia. As imagens do então Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (conhecido pela sua proximidade das empresas de seguro privado de saúde) em coletivas diárias usando o colete do Sistema Único de Saúde, são emblemáticas dessa mudança.

Mudou também a agenda de discussão de políticas públicas. Uma ampla coalizão de parlamentares e atores da sociedade civil conseguiu emplacar a discussão sobre renda mínima no Congresso Nacional e um auxílio emergencial foi aprovado pela grande maioria. O tema da desigualdade, tão em baixa nos últimos anos, voltou ao centro do debate. E, com ele, o papel do Estado.

Temos Estado demais ou de menos? Esta pergunta clássica não é mais adequada. A questão mais importante no momento atual precisa ser: que tipo de Estado queremos? Criticar o discurso antipolítico e antiestado do neoliberalismo extremo não significa aceitar que qualquer Estado serve. As ameaças à privacidade e aos direitos humanos das ações de vigilância do Estado, justificadas sob o manto da guerra contra o vírus, ilustram bem o argumento. Em países com regime autoritário, como China ou Vietnã, as políticas contra a pandemia foram implementadas de forma rápida e brutal, a partir do poder repressor do Estado. O Vietnã, apesar de fazer fronteira com a China e ter um sistema de saúde pouco eficiente, tem sido amplamente reconhecido como caso de sucesso.

Para evitar a pandemia, o governo vietnamita tomou medidas radicais, como o isolamento de cidades inteiras por semanas ainda em fevereiro. Em países democráticos, também há casos de êxito. A Áustria, que faz fronteira com outro país muito afetado pela pandemia, a Itália, conseguiu controlar o número de casos de contaminações e mortes e foi um dos primeiros na Europa a relaxar a política de isolamento. No caso austríaco, as medidas adotadas pelo Estado obtiveram amplo apoio da população, que seguiu as orientações das autoridades sem a organização de carreatas ou protestos contra o isolamento como os que vemos acontecer, por exemplo, nos Estados Unidos.

Em países como o Brasil, nem a saída vietnamita e nem a austríaca funcionam. No primeiro caso, porque o Estado, felizmente, não tem a capacidade repressora necessária. No segundo, por que o Estado, infelizmente, não detém a legitimidade necessária. A ausência de uma frente unificada de partidos e líderes políticos sobre o melhor caminho a adotar para enfrentar a crise só contribui para dificultar ainda mais a ação estatal, pese aos esforços de muitas autoridades locais. O resultado é um Estado errático e inconsistente, incapaz de proteger grande parte da população da doença e dos efeitos econômicos da pandemia.

É nesse contexto que surgem pelo país afora uma diversidade de iniciativas sociais criadas por comunidades periféricas, que procuram se proteger da doença por conta própria. Grupos locais têm lançado campanhas para arrecadar recursos para distribuir kits de higiene e alimentos. Em Paraisópolis (uma das maiores favelas de São Paulo), por exemplo, organizações locais criaram o título de “presidente de rua” para as dezenas de lideranças locais que organizam o isolamento social e a distribuição de doações. A associação de moradores chegou a contratar uma equipe médica para atender a população. No Rio de Janeiro, a Redes da Maré lançou a campanha “Maré diz NÃO ao Coronavírus”, que mobiliza voluntários e arrecada recursos. O Instituto Marielle Franco criou um mapa de iniciativas para tornar visíveis ações similares país afora. Nosso grupo de pesquisa na Universidade de Brasília, o Resocie, também vem catalogando experiências de comunidades pobres que buscam enfrentar a pandemia com os recursos que conseguem mobilizar por conta própria.

É claro que esses recursos estão longe de ser suficientes para combater uma doença que vem derrubando economias do mundo inteiro. Essas iniciativas representam menos uma solução em si, do que a sinalização de que as comunidades pobres do país contam com organizações que têm, muitas vezes, mais legitimidade como representantes das preocupações locais do que o próprio Estado.

Devido às décadas de ausência do Estado, organizações locais como as mencionadas acima detêm conhecimento único sobre as necessidades dos moradores e os desafios que enfrentam. Além disso, desenvolveram estratégias de organização e de comunicação para lidar com emergências, como por exemplo o drama das enchentes anuais. Mais crucial ainda, atores locais contam com a confiança dos moradores, algo que a cientista política Gabriela Lotta mostrou, em seu estudo sobre agentes comunitários de saúde, ter impacto positivo na implementação de políticas nas periferias.

Conhecimento capilarizado, experiência com situações de crise, confiança da população: são os ingredientes que o Estado mais precisa neste momento. Mas estas qualidades somente poderão ser mobilizadas efetivamente se os atores locais tiverem voz na construção e implementação de políticas de combate à pandemia, de forma a poder adaptá-las às suas realidades.

Algumas iniciativas já mostram que a colaboração entre organizações estatais e atores locais é viável e produz bons resultados. Um exemplo é a “Campanha Se Liga no Corona!”, uma parceria entre a Fundação Osvaldo Cruz, a entidade não governamental Redes da Maré e organizações de Manguinhos, no Rio de Janeiro. A Fiocruz, que é vinculada ao Ministério da Saúde, está apoiando comunicadores populares dessas favelas para disseminar informação correta, em linguagem acessível, sobre como combater a propagação do coronavírus.

Em um país com altos níveis de desigualdade e capacidade estatal deficiente como o Brasil, a crise sanitária aberta pelo coronavírus vai de mãos dadas com uma crise humanitária. A sociedade civil tem se mobilizado para ajudar os mais vulneráveis a enfrentarem ambas crises. No entanto, seus recursos são escassos e a tendência é que, à medida que passa o tempo, as iniciativas sejam afetadas pela diminuição das doações e o cansaço dos voluntários. Até mesmo a solidariedade tem limites. Precisamos do Estado. Não necessariamente do Estado maior, e certamente não do Estado mais repressor, mas sim do Estado mais democrático, que aproveite e fortaleça mobilizações comunitárias como as mencionadas neste artigo.
Rebecca Abers e Marisa von Bülow (Instituto de Ciência Política da UnB)

Piada no exterior

'Terceiro mundo, se for/
Piada no exterior/
Mas o Brasil vai ficar rico/
Vamos faturar um milhão'


Renato Russo escreveu os versos de Que País é Esse? em 1987. De lá para cá, voltamos a eleger presidentes, dois dos cinco eleitos sofreram impeachment, ainda integramos o que se chamava de Terceiro Mundo na época dele, e agora se diz eufemisticamente país em desenvolvimento, e vivemos a primeira pandemia de um século que o líder do Legião Urbana não chegou a conhecer ainda na condição de piada no exterior.


O desgoverno Jair Bolsonaro, como o Estado consagrou em sua capa neste sábado, nos faz enfrentar o novo coronavírus de forma destrambelhada. Irresponsabilidade, omissão, sarcasmo, falta de empatia, autoritarismo, fanatismo, desapreço pela ciência e desprezo pela vida compõem o arsenal que o presidente da República lança, como perdigotos tóxicos, sobre uma Nação estupefata todos os dias.

Jogamos fora a vantagem temporal que tínhamos em relação à Ásia, à Europa e aos Estados Unidos no enfrentamento da covid-19 descartando as experiências exitosas que essas regiões tiveram e piorando as desastradas, algo que choca a imprensa internacional, a comunidade médica e científica global e os investidores já assustados com uma recessão planetária sem precedentes. É perceptível em textos de publicações científicas internacionais, em comentários em telejornais de outros países e em análises que agências de risco ou papers acadêmicos a dificuldade até de explicar certas atitudes e declarações de Bolsonaro, dado seu descolamento de qualquer traço de realidade.

A demissão do segundo ministro da Saúde em 29 dias no pico da pandemia foi a cereja desse bolo de vergonha mundial que somos obrigados a passar, como se já não fossem tantos os desafios perturbadores impostos pelo desgoverno e pela pandemia em si.

Paulo Guedes pode se esgoelar para falar que fez tudo certo, Tereza Cristina merece elogios por tentar limpar nossa barra com parceiros comerciais ofendidos grosseiramente por seu chefe e seus pares, mas não nos enganemos: dada nossa incapacidade de formular qualquer plano racional para saída programada de um isolamento sabotado desde o dia 1 pelo presidente, pegaremos a cauda do cometa da recuperação econômica global. Essa retomada não será nada simples, nem linear. Os países reemergem de suas quarentenas atingidos de forma diferente e mais fechados.

Quem vai querer investir num país em que o presidente assina uma MP eximindo servidores de responsabilidade por atos tomados durante a pandemia ao mesmo tempo em que tenta forçar um ministro (qualquer um) a assinar decreto tornando protocolo de tratamento um remédio cuja eficácia já foi questionada por estudos no mundo todo? Que está prestes a ser mostrado em áudio e vídeo em todo seu esplendor apoplético e autoritário dizendo que vai intervir na Polícia Federal para proteger sua família e “ponto final”?

Que já demitiu 11 ministros em 500 dias e ameaça, estufando o peito de orgulho, fazer (mais) um pronunciamento em rádio e TV vociferando contra o necessário e até aqui insuficiente isolamento social? Vamos ficar ilhados no Brasil, com dificuldade para obter vistos para viagens de turismo ou negócios, talvez sem sermos convidados até para campeonatos de futebol pelos vizinhos mais pobres, mas mais bem sucedidos no combate ao vírus.

A música da epígrafe tem ainda os versos “ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da Nação”. Só que enquanto Bolsonaro vilipendia a primeira sob silêncio conivente de seus ministros e dos demais Poderes, esse futuro se torna mais distante. Não sabemos qual será o mundo pós-covid-19. Mas podemos cravar que o Brasil estará no fim da fila para ingressar nele.

O sanatório do Dr. Jair

O slogan “Brasil acima de tudo” está prestes a ganhar novo significado. Desgovernado pelo bolsonarismo, o país marcha para o topo do ranking de mortes diárias pelo coronavírus. Ultrapassar os Estados Unidos virou questão de semanas, prevê o médico Drauzio Varella. “O Brasil vai ser o epicentro da epidemia mundial”, ele resumiu, em debate promovido na quinta-feira pela Oxfam.

Em tempos normais, o país já estaria condenado a uma crise humanitária. O vírus cobraria a conta histórica da desigualdade e da falta de investimentos em saúde e moradia popular. O negacionismo do capitão elevou o patamar da tragédia. Ele desprezou a ciência e torpedeou as medidas de distanciamento, necessárias para frear a contaminação.



O Brasil é o único país do mundo que descartou dois ministros da Saúde em plena pandemia. O primeiro foi chutado porque resistiu às ordens para sabotar governadores e iludir doentes com um remédio milagroso. O segundo entregou o cargo pelas mesmas razões.

Nelson Teich assumiu com a promessa de “alinhamento completo” a Bolsonaro. Precisou de 28 dias para desistir do papel de fantoche. Indicado por um empreiteiro amigo, ele se limitava a assinar papéis num ministério loteado entre militares. Em sua breve gestão, o número oficial de mortes saltou de 1.924 para 14.817.

O oncologista desperdiçou a última chance de prestar um serviço público ao sair sem denunciar o que viu. Sua queda mostra que não há limites para o mandonismo e a insensatez no sanatório do Dr. Jair.

Em 500 dias no Planalto, Bolsonaro afastou todos os auxiliares que ousaram questioná-lo. Sobraram os lunáticos, os oportunistas e os generais que toparam o papel de cúmplices. Eles colaram a imagem das Forças Armadas a um presidente que põe o próprio povo em risco e usa o poder para proteger os filhos da polícia.

Na sexta, horas depois da saída de Teich, um quarteto de ministros foi à TV para defender o chefe. O general Luiz Eduardo Ramos acusou a imprensa de instalar um “clima de terror”. Ele entrou na escola de cadetes em 1973, quando a ditadura censurava notícias sobre uma epidemia de meningite. Mais ousado, o general Braga Netto culpou o jornalismo por casos de depressão e violência doméstica na quarentena. Faltou pouco para sugerir que as emissoras deixem de cobrir a pandemia para exibir paradas militares.

Damares Alves, a pastora que dá tom de chanchada ao desgoverno, citou estudos inexistentes para sustentar que “a cloroquina faz bem”. Paulo Guedes, o economista do bolsonarismo, discursou em defesa do “direito de ser infectado”. Deixou de dizer que o egoísmo pode tirar o leito hospitalar de quem respeita o isolamento.

Guedes não se cansa de naturalizar o autoritarismo e repetir a propaganda enganosa do capitão. Na sexta, ele descreveu Bolsonaro como “um democrata” que “não concorda com a velha política” e combate o “aparelhamento”. No mesmo dia, o Dr. Jair reconduziu Carlos Marun, fiel escudeiro de Eduardo Cunha, ao conselho de Itaipu. O ex-deputado continuará a embolsar R$ 27 mil por mês com a sinecura. O dinheiro poderia sustentar 45 famílias com o auxílio emergencial de R$ 600.

Pensamento do Dia


Quantos já não avisaram?

Uma pequena fábula conta que um jovem prisioneiro na Alemanha voltou a Bonn, poucos anos após a guerra, para se vingar com a vista dos escombros. Mas eis que, no fundo de uma rua, surge uma banda tocando uma marcha militar e o jovem começa a chorar. A fábula é do século passado, tem mais de quarenta anos, o poeta Tonino Guerra a escreveu. Tonino Guerra avisou. Primo Levi também avisou, insistentemente, durante décadas. Que o terror vai sendo gestado em mínimas crisálidas. Que há uma poeira aparentemente inofensiva que amanhã reunirá as cinzas de um futuro. A diáspora dos nazis como uma semeadura de sombras. Por algum tempo eles se entocaram, ocultaram-se sob outros nomes, outras identidades, e foram sobrevivendo com risco de serem caçados. Mas há muito que deixaram suas tocas, com gosto especial de se exibirem em tempos de pandemia, e pouco têm a esconder que já não lhes suba à cara. Alguém diz que avisou, quando tudo e todos se afogam em evidências, mas quantos já não avisavam quando ainda mal varridas as ruínas do pós-guerra. Que era preciso não desmerecer os indícios. Não se fazer de cego, surdo e mudo. Em todas essas coisas reles, esquecíveis, corriqueiras, que só agora prestamos atenção por causa de um vírus, em todas essas coisas comuns e em circunstâncias as mais banais, eles também foram se infiltrando, livres de denúncia, como se irrelevantes. As nossas máscaras obrigatórias, agora, fazem as vezes de mordaça, o protocolo de lavar constantemente as mãos nunca as deixa limpas e faz tempo que já é tarde.
Mariana Ianelli

Tentar viver direito



A melhor coisa para homenagear quem se foi é tentar viver direito de novo. Não pode deixar que a morte destrua tudo que tem de bom
Lya Luft

Coisas que não quero esquecer do confinamento

No confinamento, acredito, abrimos os olhos para muito do que está à nossa volta, dentro de casa e no mundo. É fácil, agora, voltar a fechá-los, à medida que nos vamos habituando às regras desta nova vida, embora ainda à espera de que tudo volte a um suposto normal que, na verdade, já não sabemos muito bem como é ou como será. Quero acreditar que, apesar de tudo, algo irá mudar para que não fique exatamente tudo na mesma (ao contrário do que proclamava o príncipe de Falconeri, em O Leopardo). Mas isso só sucederá se não nos esquecermos do que aprendemos nos últimos tempos. Cinco exemplos:
1 - Os trabalhadores das profissões menos valorizadas são, no seu conjunto, os mais essenciais ao funcionamento do País. Como esta crise o demonstrou, durante semanas, são eles que mantêm ativos os serviços básicos – fundamentais para a ideia e o sentimento de coesão nacional. Tudo aquilo que damos por garantido, como o abastecimento regular de bens alimentares, as ruas limpas e seguras, os transportes públicos, o funcionamento dos serviços de eletricidade, de água e de saneamento básico, o transporte de mercadorias e até o apoio a idosos ou a outros grupos desfavorecidos, é assegurado por milhares de pessoas que, na generalidade dos casos, levam para casa pouco mais do que o ordenado mínimo. Durante o confinamento, a ação destes trabalhadores de serviços essenciais foi elogiada por todos. É bom que essa memória não se perca – em especial, quando eles vierem pedir uma mais justa valorização das suas profissões e do seu nível de vida.


2 - A saúde é o nosso bem mais precioso. Os últimos tempos foram eloquentes quanto à necessidade de se ter um Serviço Nacional de Saúde (SNS) forte, ativo e eficaz, mas que saiba também reconhecer e premiar a dedicação, o empenho e o profissionalismo dos seus profissionais. Viu-se, em todo o mundo, a diferença que há entre um SNS vocacionado para responder às necessidades de toda uma população e os serviços de saúde centrados apenas na chamada eficiência, mas sobretudo no negócio. Nos primeiros meses da pandemia, o nosso SNS conseguiu estar à altura e não colapsar como tantos outros. Mas a maratona ainda vai nos primeiros quilómetros e, apesar das ovações escutadas nas ruas, a meta continua longe. A lição ficou: o SNS não pode ser visto como uma despesa; tem de ser encarado e acarinhado como um investimento – para o bem comum.

3 - A confiança na Ciência é a melhor forma de preparar o futuro. Nesta crise, até os líderes religiosos aceitaram os conselhos dos cientistas, e foram encerrados igrejas, mesquitas, sinagogas e templos. Os países que mais depressa responderam às indicações dos cientistas foram os que registaram menos vítimas. As nações governadas por líderes populistas, conhecidos pela sua insistência em teorias negacionistas, tiveram os resultados que se observam no Brasil e nos EUA. Mais: a Ciência voltou a dar-nos a verdadeira noção do tempo e, em simultâneo, da pequenez dos indivíduos na Natureza. E demonstrou como a transparência na informação e a cooperação planetária são fundamentais para fazer face a qualquer ameaça global. É preciso que a Ciência volte a ocupar um papel central no processo de decisão – até porque esta pandemia ainda não acabou, e temos um planeta a precisar de ser preservado… se o quisermos continuar a habitar.

4 - Os nossos comportamentos individuais têm consequências coletivas. Esta pandemia demonstrou que a forma como nos comportamos é decisiva para conter, ou não, a propagação do vírus, salvar ou condenar pessoas. Mas também nos levou a pensar mais como os nossos gestos e atos podem ser importantes para melhorar a vida das sociedades, redescobrir os laços de vizinhança, sentirmo-nos todos habitantes de um planeta comum.

5 - A internet passou a ser um bem essencial. Comunicar e partilhar dados tornou-se tão básico como os serviços de água, de eletricidade e de saneamento básico. É preciso pensar nisso a sério e repensar o poder imenso dos gigantes tecnológicos nesse bem essencial.

O legado possível da pandemia

Já ficou gasta, pelo excessivo uso, a afirmação de que as crises, por um lado, geram desafios, ameaças e problemas graves, por outro, abrem oportunidades. Do enfrentamento de eventos catastróficos como a atual pandemia do coronavírus e do aprendizado individual e coletivo decorrente podem nascer mudanças de atitudes, gerando saltos de qualidade nas políticas públicas, no comportamento empresarial e no relacionamento humano e social.

Tudo pode acontecer, inclusive nada. Não é uma decorrência automática. Depende do comportamento de cada um e de todos. A “gripe espanhola” de 2018, que infectou 25% da população mundial da época – 500 milhões de pessoas – e levou à morte de 17 milhões a 100 milhões de pessoas, segundo as precárias e imprecisas estatísticas, se deu em plena 1ª Guerra Mundial e não obrigatoriamente gerou mais solidariedade e integração entre as nações e as pessoas, visto que logo à frente tivemos a maior recessão da história em 1929 e a 2ª Guerra Mundial, de 1939 a 1945.

Sejamos otimistas. Vamos torcer e trabalhar para que a pandemia da Covid-19 produza, no Brasil e no mundo, avanços civilizatórios na direção de uma sociedade mais solidária, humana, justa e democrática. A saúde, que sempre foi uma preocupação central dos brasileiros, assumiu um protagonismo inédito. O verdadeiro bombardeio de notícias e informações sobre o coronavírus, roubando a cena de outros assuntos da política e da economia, tende a gerar uma atenção maior às políticas públicas de saúde. Um primeiro legado da pandemia, portanto, pode ser o crescimento da consciência de que é preciso aumentar os investimentos em saúde e melhorar muito a gestão de nosso sistema.


O sistema brasileiro de saúde – apesar de o SUS carregar no nome a palavra “único” – é composto de três subsistemas: o sistema público nacional universal, de cobertura integral e gratuita; a saúde suplementar – planos e seguros privados; e o sistema de desembolso direto dos cidadãos – os pagamentos particulares feitos nos balcões das farmácias e laboratórios ou para remunerar serviços médicos e odontológicos.

O SUS é ancorado no texto constitucional e na Lei Orgânica da Saúde (Lei 8080/1990) e baseado no direito de cidadania e no dever de o Estado prover os serviços de saúde indistintamente a todos os cidadãos brasileiros. Portanto, um direito determinado pela Constituição brasileira no âmbito das relações Estado/cidadão.

Diferentemente, a saúde suplementar é derivada de uma relação de mercado entre o usuário contratante e as operados e seguros de saúde, baseada numa figura central nas economias de mercado, realidade, porém, muitas vezes esquecida no Brasil: o contrato. A saúde suplementar atende a 47 milhões de brasileiros, ou seja, quase 25% da população.

Nas lacunas existentes no SUS e na saúde suplementar, muitas vezes os brasileiros são levados a tirar o dinheiro do próprio bolso para pagar medicamentos, consultas, exames.

O SUS tem resistido heroicamente à epidemia, embora em vários Estados e cidades o sistema hospitalar esteja vivendo um colapso, sobretudo na oferta de leitos de UTI. Vivemos um descompasso crônico no SUS entre os recursos humanos e financeiros disponíveis e as necessidades da população. Isto é fruto de uma realidade histórica desde sua criação que é a do subfinanciamento.

Segundo dados da OMS (2014), em dólar equalizado, o investimento público anual por habitante no Brasil gira em torno de US$ 435. Enquanto isso sistemas de acesso universal e cobertura integral em outros países investem muito mais: Portugal (US$ 1.363), Espanha (US$ 1.890), Reino Unido (US$ 3.266), Canadá (US$ 3.704) e França (US$ 3.868). Dinheiro não é tudo. Prova disso é que o país que mais gasta, os EUA, não tem os melhores resultados. Mas não há como fazer mágica.

Quem sabe, com o aprendizado da pandemia, governos, Congresso Nacional, sociedade deem mais atenção ao orçamento do SUS e priorizem este investimento essencial para a sociedade?

Numa das inúmeras lives que participei neste período de isolamento social, testemunhei um emocionante e sensível depoimento de um prefeito de uma grande cidade brasileira, que tendo passado dias angustiantes em uma UTI, graças a Covid-19, ao ser perguntado sobre qual o aprendizado pessoal que herdou, ele disse que tinha construído quatro viadutos em seu mandato, mas que a partir de agora teria um novo foco em relação ao sistema de saúde. Será que teremos a mesma percepção coletiva após a pandemia?

Mas outros legados poderão prevalecer. Entre eles, certamente haverá uma revalorização do desenvolvimento científico-tecnológico e da cadeia produtiva nacional da saúde. Todos nós ficamos na torcida por nossos cientistas, que num esforço concentrado e hercúleo, buscam uma vacina ou um tratamento contra o coronavírus. Vamos investir mais em nossos cientistas e pesquisadores? A inovação é a chave do desenvolvimento no mundo contemporâneo.

Também, não só no Brasil, ficamos alarmados com a excessiva dependência global da oferta de equipamentos e insumos farmacêuticos ativos (IFAs) de alguns poucos países como China, Índia e Coreia do Sul. Houve uma verdadeira “guerra comercial” para a compra de ventiladores pulmonares, insumos e equipamentos de proteção individual. Haverá mais atenção no Brasil ao setor produtivo nacional e uma política industrial inteligente para que situações assim não se repitam?

Outra conquista possível e que veio para ficar é a telemedicina. Poderemos aumentar e muito a produtividade de nossos escassos recursos e ampliar o acesso aos serviços de saúde com o uso das modernas ferramentas tecnológicas que possibilitam o atendimento à distância. Claro que precisamos de uma boa normatização do assunto. Mas esse avanço não pode ficar prisioneiro de razões corporativas.

Ainda como herança, nós certamente poderemos ter uma integração muito maior entre o SUS e a saúde suplementar. Como os recursos públicos são escassos e a saúde suplementar atende a um quarto da população, é fundamental abrir os canais de diálogo e discutir transparentemente as linhas de cooperação, já que quanto melhor for o desempenho da saúde privada, melhor para o SUS.

Várias iniciativas governamentais e legislativas têm, nesse momento de crise, buscado o apoio do sistema privado de saúde, que voluntariamente fez doações expressivas para centros de pesquisas, hospitais de campanha, governos, organizações não governamentais de assistência social, disponibilização de leitos de UTI, equipamentos. Muitas vezes essas meritórias iniciativas esqueciam a diferença essencial entra a natureza constitucional do SUS e o fundamento contratual da saúde suplementar.

Se queremos que a saúde suplementar seja eficiente e complemente as ações do SUS, não podemos minar a sustentabilidade econômica do setor privado. O diálogo transparente e fundamentado é o caminho da cooperação e da solidariedade.

Por último, mas não menos importante, poderá sobreviver talvez um ambiente mais favorável às ações de prevenção e promoção da saúde e aos autocuidados. Fomos treinados na pandemia pelos profissionais da saúde, pelas autoridades sanitárias e pelos meios de comunicação a investir no autocuidado e na prevenção. Lavar as mãos, usar máscaras, evitar aglomerações.

O aumento da consciência sobre a importância da prevenção contra doenças pode ser o maior legado desta pandemia. Alimentação saudável, atividades físicas, combate ao tabagismo, ao alcoolismo e às drogas, hábitos sexuais saudáveis, monitoramento permanente dos vetores de doenças crônicas (hipertensão, diabetes, entre outras), podem ter um impacto inimaginável sobre os indicadores de saúde.

Como disse, nenhum avanço será automático. O ser humano é o único na face da terra que tem consciência plena, capacidade de aprendizado amplo, possibilidade de transformar a vida. Que os momentos de tensão e angústia provocados pela Covid-19 sirvam de alavanca para, por meio do aprendizado pessoal e coletivo, conquistarmos uma saúde melhor para todos os brasileiros.

sábado, 16 de maio de 2020

Parece loucura, mas tem método

É lógico que uma democracia representativa digna do nome não tem condições de se firmar onde a ética da impessoalidade do Estado não se desenvolva; e tal ética, por sua vez, não se consolida se as Forças Armadas se mantiverem no universo do populismo ou do caudilhismo. Em qualquer país, a inexistência de harmonia entre essas esferas institucionais cedo ou tarde dará ensejo a retrocessos e, no limite, ao próprio rompimento da ordem constitucional. No Brasil, tal situação ficou claramente exemplificada nos episódios da renúncia de Jânio Quadros (1961) e do desgoverno de João Goulart (1961-1964).

Em 1945, logo ao regressar da guerra na Itália, o marechal Mascarenhas de Moraes deu o cartão vermelho para o ditador de plantão, o Sr. Getúlio Vargas, e exigiu a realização de eleições e a convocação da Assembleia Constituinte, como viria a ocorrer em 1946. Mesmo nos 21 anos (1964-1985) em que exerceram autoritariamente o poder, os militares não permitiram a personalização do poder, como era tradicional na América Latina.

No período recente, o populismo e a corrupção dos oito anos de Lula, aos quais se seguiram a incompetência e o voluntarismo econômico de Dilma Rousseff abortaram a retomada do crescimento econômico, mas o desarranjo institucional não chegou a se configurar plenamente, graças, é certo, ao penoso processo do impeachment de Dilma, Mas comparado ao ciclo Lula-Dilma, o momento atual suscita preocupações bem maiores.

A partir da eleição de 2018, a reação às sandices e tensões cultivadas pelo PT e o esvaziamento dos partidos de centro deixaram o espaço aberto para o surgimento de uma força política — o bolsonarismo — perigosa tanto na base quanto na cúpula. Na base, devido ao vazio de ideias, à hostilidade contra a ordem institucional e à agressividade dos adeptos de Jair Bolsonaro. Na cúpula, o presidente em vez de apaziguar os ânimos, fomenta os antagonismos; em vez de observar a liturgia do cargo que ocupa, não perde uma chance de desmoralizá-lo. Será tal comportamento uma simples emanação de idiossincrasias ou peças de uma estratégia que parece ser loucura, mas pode ter método. ´

Fato é que, alternando ameaças e gaiatices, Jair Bolsonaro parece empenhado em esticar a corda, em testar limites e em debilitar os anticorpos ainda existentes no Congresso, no STF e nas Forças Armadas. É um filme que já vimos muitas vezes, mas nunca tendo no papel principal um personagem tão manifestamente descerebrado.

Lei de morte

A lei me deu o direito de escolher as atividades essenciais. O resto, que não é essencial, é a cargo de governadores e prefeitos
Jair Bolsonaro

O suicídio de uma nação?

O Brasil passa pela crise mais grave da história republicana. Não há nada que se compare ao desastre representado pelo governo Jair Bolsonaro. A crise sanitária avança a cada dia e a tendência é que permaneça por boa parte do ano tendo em vista a dificuldade das autoridades de impor, com eficácia, o isolamento social. O maior aliado do coronavírus é Bolsonaro e suas sucessivas ações e declarações que desmoralizam o protocolo estabelecido pelo próprio Ministério da Saúde. A ampliação do número de infectados e de óbitos, além da extensão no tempo da epidemia, deve deixar um rastro de destruição que vai perdurar por alguns anos, principalmente nas comunidades mais pobres.

À crise sanitária deve ser acrescentada a crise econômica. Seus efeitos devem se estender a 2021. O efeito vai ser devastador levando ao fechamento de milhares de empresas e a uma fabulosa taxa de desemprego. Para piorar, há uma séria crise político-institucional. Bolsonaro faz do ataque às instituições o seu passatempo favorito. E ao afrontar os outros dois poderes estimula seus adeptos a comportamentos que se assemelham às milícias nazi-fascistas.


Além das tensões internas, o governo Bolsonaro patrocina ações externas lesivas ao interesse nacional. Hoje o Brasil é uma espécie de África do Sul na época do Apartheid. Estamos isolados na comunidade internacional. A pecha de país pestilento, onde o chefe do governo age de forma irresponsável, sem paralelo no mundo democrático, já percorre o planeta. Sem exagero, poderá ocorrer de brasileiros terem de passar por uma quarentena ao chegar, por exemplo, a Europa. E nisto estão incluídos não só os turistas, como os empresários.

Pior será se transformarem — e nossos concorrentes estão à espreita — as nossas exportações (do agronegócio, especialmente) em mercadorias que podem estar também contaminadas. Também dificilmente será aprovado o acordo da União Europeia com o Mercosul e a China deve retaliar o Brasil comprando menos e diversificando seus fornecedores de carnes e grãos. No primeiro caso, a Europa está estarrecida com o comportamento de Bolsonaro nos campos sanitário e político; no segundo devido ao xenofobismo anti-chinês de vários membros do governo, a começar pelo Presidente. Só temos uma saída: o impeachment de Bolsonaro. Se ele não consegue comandar o Brasil em plena pandemia, o fará no momento da reconstrução, quando precisaremos, principalmente, de estabilidade política?

Sai Moro, entra Roberto Jefferson

A base digital que apoia o presidente Bolsonaro avaliza as falas do ex-deputado Roberto Jefferson atribuindo-lhe a especialização em corrupção, o que o legitimaria como fiador da honestidade do atual governo. “Esse conhece o assunto”, dizem vários posts encontrados nas redes sociais. Nesse estranho conceito, a virtude é a experiência no ramo.

Não se deve julgar quem penou – ou seja, pagou a pena pelos seus erros. Mas uma segunda chance a que todos os que erram têm direito, não deve começar pelo posto de julgador. A Jefferson falta autoridade moral para exercer o papel de emissor de atestado de probidade.


O fato, por isso, torna-se um atestado de óbito da virtude, antes conceituada como algo além do dever mais elementar, a honestidade. O especialista Jefferson, posa agora de metralhadora em punho em foto cuja legenda prega o fechamento do Supremo Tribunal Federal, sob o argumento de que o poder verdadeiro está “na ponta do fuzil”.

Diante de tal distorção, espanta que continue sem merecer nova avaliação penal como personagem com direito a um recomeço. A metralhadora não é metáfora, mas uma proposta de extinguir a Suprema Corte à bala. Não fosse aquela que o condenou por crimes confessados, já seria uma incitação inaceitável. Sendo a instância máxima do Judiciário, e a que efetivamente o mandou para a prisão, é incompreensível o silêncio em torno de sua nova performance.

O exercício impune do cangaço digital de Jefferson é uma mostra, mais que tantas outras, do colapso moral que assola o país, em uma escala epidêmica contra a qual, à semelhança do coronavírus, não se consegue aplicar um antídoto. A diferença é que para este não se descobriu o remédio, ao contrário daquele contra o qual simplesmente não se aplica a vacina.

Jefferson experimenta uma dupla sensação de prazer. De um lado, vinga-se de sua condenação, a expor seus julgadores como integrantes de uma Corte desonesta – aqui com o estímulo da comunicação extra-oficial do governo. De outro, enxerga ansioso a possibilidade de voltar a influir na política nacional, o que importa em recomeçar sua liberdade com emprego que um ex-detento comum jamais teria.

No caso, Jefferson resgata o sonho de ter novamente o ministério do Trabalho, já extinto, mas passível de ressurreição, onde não desistiu ainda de colocar sua filha, Cristiane Brasil, vetada pela Justiça para essa função no governo anterior. Se não for por aí, não tem importância, outro mimo serve também, no contexto de uma aliança de sobrevivência costurada pelo governo.

Seria irônico, se não fosse dramático, que o renascimento de Jefferson para a política se dê pelas mãos de Bolsonaro, eleito com o mote de combate à corrupção, na esteira da Lava Jato, cujo símbolo maior acaba de deixar o governo dizendo que se enganou.

Assim, como nos anúncios de substituição nos jogos de futebol, o governo informa: sai Sérgio Moro, entra Roberto Jefferson.</p>
João Bosco Rabello

Brasil sob os clarins


Teich rejeita a opção pela morte

O médico Nelson Teich pediu demissão do cargo de ministro da Saúde menos de um mês depois de assumi-lo, provavelmente em respeito a seu juramento profissional, que diz, entre outras coisas: “A ninguém darei por comprazer nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda”. O mesmo comportamento teve o antecessor de Nelson Teich, o também médico Luiz Henrique Mandetta, ao recusar-se a obedecer às ordens do presidente Jair Bolsonaro que claramente causariam ainda mais danos à saúde da população brasileira, já bastante castigada pela pandemia de covid-19.

Qualquer médico que assuma o Ministério da Saúde e queira permanecer no cargo por mais de 15 dias terá que renunciar a esse juramento. Será, portanto, um mau profissional de saúde, que aceitará reduzir o Ministério da Saúde a mero despachante dos patológicos desejos de Bolsonaro. Pior, será um cúmplice de um empreendimento que, sem exagero, já pode ser chamado de social-darwinista – em que a morte por covid-19 é vista como uma forma de depuração da sociedade, pois só abate aqueles que não têm “histórico de atleta”.

Nelson Teich e Luiz Henrique Mandetta recusaram-se a chancelar a obsessão de Bolsonaro pela cloroquina, remédio cuja eficácia contra o coronavírus está muito longe de ser comprovada e cujos perigosos efeitos colaterais são, ao contrário, bastante conhecidos. Mandetta, quando ainda ministro, chegou a assinar um protocolo que liberava a droga para uso somente em pacientes em estado grave, com indicação médica e com a anuência do paciente. Mas, assim como seu sucessor, não aceitou a imposição de Bolsonaro para ampliar o uso em qualquer estágio da doença.

Pressionado pelo presidente nos últimos dias, Nelson Teich disse que havia ainda muita incerteza sobre a cloroquina e rejeitou a droga como um “divisor de águas” no tratamento da doença. Além de Bolsonaro, os únicos chefes de Estado que defendem a cloroquina como elixir milagroso contra a covid-19 são o norte-americano Donald Trump e o venezuelano Nicolás Maduro, o que dispensa comentários.

Nelson Teich e Luiz Henrique Mandetta também haviam manifestado oposição ao relaxamento das medidas de isolamento social, contrariando o presidente Bolsonaro, que dia e noite exige o fim da quarentena e a “volta ao normal” em todo o País, sob o argumento de que é preciso impedir o colapso da economia. É tal a determinação do presidente de colocar em risco a saúde e a vida de milhões de brasileiros para salvar sua própria pele que ele ameaçou fazer um pronunciamento em rede nacional, hoje, para insistir em seu discurso contrário ao isolamento, afrontando os governadores e prefeitos que, além de terem que lidar com a pandemia, são obrigados a enfrentar a sabotagem do governo federal.

Em menos de um mês, nada menos que três ministros – Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich e Sérgio Moro – deixaram o governo por se recusarem a cumprir ordens do presidente – não por insubordinação, mas em respeito aos brasileiros e aos princípios republicanos. Para Bolsonaro, quem o contraria está a contrariar o povo, que ele julga encarnar, razão pela qual seu comando deve ser obedecido sem questionamentos, mesmo que viole a Constituição, a ética e a decência.

Assim será com o próximo ministro da Saúde? Em vez de organizar os esforços nacionais do combate à pandemia, que está matando quase mil brasileiros por dia e esgotando o sistema hospitalar do País, o novo titular terá de ser apenas um obsequioso serviçal, pronto a pôr em prática os devaneios de Bolsonaro e a rasgar os manuais da ciência médica, fazendo o que nenhuma autoridade de saúde no mundo civilizado faria neste gravíssimo momento? Ou seja, terá que trabalhar pela sobrevivência política do presidente em detrimento da sobrevivência de milhares de brasileiros?

Como escreveu o médico Antonio Carlos do Nascimento em artigo publicado ontem no Estado, “sem a opção do genocídio, só nos resta o isolamento e a testagem abrangente para limitar o universo de circulação do vírus”. Aparentemente, o presidente Bolsonaro já fez sua mórbida opção.

Fornecedor da morte



Quantas pessoas mais terão que morrer para atender aos caprichos do presidente?
Júnior Bozzella (PSL)

E se Bolsonaro não passar de uma grande ‘fake news’?

O presidente Jair Bolsonaro havia anunciado que no sábado passado faria um churrasco para qualquer admirador seu que quisesse aparecer. A notícia foi vista como uma provocação contra as normas de isolamento por causa da pandemia do coronavírus. Na manhã do último sábado, ele se retratou e disse que tudo não passou de fake news. E tachou de “idiotas” os jornalistas que haviam acreditado na sua palavra.

Naquela mesma manhã, o Brasil recebia a triste notícia de ter superado os 10.000 mortos pela epidemia, e o Congresso decretou três dias de luto nacional. Bolsonaro não proferiu nenhuma palavra de pêsames às vítimas. O que são 10.000 mortos para ele?

O problema não é se aquela bravata do presidente de organizar um churrasco para uma multidão enquanto a população sofria a lei da quarentena era uma brincadeira de mau gosto, uma provocação macabra, ou uma fake news. O que ocorre é que o presidente parece todo ele, mais do que uma realidade, uma grande fake news.

Não faz muito, ele mesmo questionou o resultado das eleições que lhe deram 57 milhões de votos e a vitória. Talvez tivesse razão: que a própria eleição foi uma fake news, produzida pelos robôs que ele soube dirigir tão bem durante a campanha. Talvez seja verdade que foram falsificadas e, portanto, na verdade ele não existiria hoje como presidente.


Tudo é tão irreal ao redor do ultra-autoritário populista que mais parece uma história de ficção que uma realidade. Parecem fake news boa parte de seus ministros vindos de outro planeta. Parece fake news sua política externa desastrada, sua ideia de escola sem partido, baseada nos ensinamentos da Bíblia. Parece fake news sua política ambiental de destruição da Amazônia e extermínio dos nativos, que assombra e atemoriza o mundo. Parece fake news seu rechaço aos direitos humanos mais elementares.

Tudo ao redor do presidente – que os psicólogos temem se tratar de um caso psiquiátrico – parece ser uma invenção, uma mentira, uma miragem, porque, se fosse verdade, seria uma tragédia.

Quer algo mais fake que essa novela de que seus filhos governam com ele e usam apelidos de polícia secreta, como 01, 02, 03 e agora está chegando o garoto 04, que Já aprendeu a escrever nas redes que o coronavírus é só uma gripezinha? Que se gaba de ter “comido” todas as garotas do condomínio onde vive em Rio? Era fake.

Quer algo mais fake news que o que seus filhos formarem uma dinastia, mesmo sem participarem de nada. Quer algo mais fake que alguns deles serem suspeitos de envolvimento em mutretas de corrupção, com um pai cuja bandeira era justamente exterminar os corruptos? Terem usado assessores fantasmas? Gente das perigosas milícias do Rio? Que tenham enriquecido com a história das rachadinhas e ganhado milhões vendendo chocolates? Tudo fake. E o assassinato de Marielle? Tudo irreal, inventado. Uma malícia grosseira de seus inimigos.

Pode haver algo mais fake que um homem bravo como o presidente, atleta, esportista, um homem completo, apaixonado pelas armas e pela brincadeira de tiro ao alvo, ser capaz de cair em pranto na frente dos seus ministros? Por Deus!

Tem que ser fake news essa história de que o presidente de extrema direita é um apaixonado pela tortura e tem saudades da ditadura, já que ele queria só era limpar a escória do comunismo no Brasil. Por isso se desiludiu quando a ditadura perdeu tempo torturando, pois para ele teria sido mais rápido eliminá-los. Pôs até um limite mínimo de quantos deveriam ter sido sacrificados, 30.000 comunistas. É que era pedir muito? Fake com certeza. O presidente é terno. Basta ver a delicadeza com que acaricia as armas e a paciência com que ensinava uma menina em seus braços a imitar com sua mão inocente o gesto de disparar um revólver.

Só pode ser fake news a facada que sofreu durante a campanha eleitoral, que poderia ter tido como mandante, segundo ele, alguém da esquerda que quis eliminá-lo das eleições. Quem, afinal, iria se preocupar em tirar a vida de um candidato que só buscava o bem da nação, para o que era necessário pôr os esquerdistas de joelhos? Tudo fake.

Dizem que no fundo, na intimidade, o presidente é doce e acolhedor. Um santo cheio de empatia. A única coisa que, aparentemente, o tira de si e o transforma em alguém violento são esses gays que crescem como cogumelos. O que não suporta são as mulheres feias. Não servem, diz, nem para serem estupradas. Os gays, dizem alguns em voz baixa, metem medo no presidente que se sente macho-alfa. Os negros são para ele outra grande preocupação. Deve se perguntar por que não os eliminaram antes da libertação dos escravos. Seu Brasil é branco. E os direitos humanos? Mas será que devem existir direitos? Para que servem os diferentes? Para ele, somos uma manada sob um só pastor, que sabe o que cada um necessita e o que nos faz mal. Mas não se preocupem, é só fake news.

Quem disse que o presidente não respeita as outras instituições do Estado? Tudo fake. O que ele não suporta é que os outros poderes pretendam ser independentes. Então para que serve o presidente? Quem melhor que ele sabe do que seus fiéis devotos necessitam? As leis que precisam ser aprovadas, as condenações que os tribunais devem impor? E o Supremo, com sua mania de querer interpretar a Constituição? O presidente já disse com todas as letras: “A Constituição sou eu”. Para que mais complicações? É algo que Moro, seu ex-ministro-estrela da Justiça, não tinha entendido. Se ele é a lei, por que a Polícia deve lhe esconder segredos? Até aí se podia chegar. Não podem existir segredos para ele, que é quem manda. O Brasil é dele.

Tudo isso não pode ser senão uma grande fake news. É que ainda não entenderam a que veio o capitão de reserva que vive coroado por generais como se fossem anjos, querubins e serafins que o protegem em seu governo. Eles são sua milícia celestial. Mas e se também isso fosse fake, já que os militares têm outras hierarquias além das celestiais? Sabem que podem mandar nele se quiserem. Talvez só esperem o momento melhor. E isso não será fake.

Fake ou não, louco ou são, o presidente que ri da epidemia e despreza tudo o que cheire a liberdade de expressão, embora ele a use e dela abuse diariamente, precisa ser vigiado como se faz com as crianças quando deixadas sozinhas em casa, brincando de acender fósforos. Crianças e loucos são perigosos porque um dia podem acabar incendiando a casa.

Melhor apeá-lo de seu perigoso pedestal e devolvê-lo à escola para que aprenda que a vida real, não a das fake news, é muito diferente. Para que aprenda a riqueza das diferenças, o respeito pelas ideias alheias, a força da democracia e das liberdades. E para que aprenda os horrores e as baixezas, que já conhecemos da história, em que a humanidade cai quando se esquece que precisa viver em harmonia e em liberdade, respeitando-se mutuamente, ou então voltaremos aos infernos que já conhecemos, cuja mera lembrança não só nos horroriza como também nos julga e nos condena. E isso não é fake news. É uma realidade que o Brasil não merece viver.

A pílula da vez

A cloroquina é a pílula do câncer da vez de Bolsonaro. A obsessão do presidente Bolsonaro com a cloroquina, que derrubou o ministro da Saúde Nelson Teich e já colocara o ministro anterior, Luiz Henrique Mandetta na linha de tiro, pode ser explicada pela busca de um remédio milagroso que permita dar a sensação de segurança aos cidadãos para abrir a economia. Assim como fez campanha pela pílula do câncer e, ao ser perguntado se acreditava mesmo na sua eficácia, respondeu: ” Sou Capitão do Exército. Minha especialidade é matar, não é curar ninguém. Se cura, não sei. Mas vamos dar uma chance àquele que está com dia marcado para morrer”. 

A Medida Provisória que ele editou esta semana pode ser considerada a “excludente de ilicitude” da Covid-19. Aquele instrumento, que foi rejeitado pelo Congresso, dizia que o agente público não pode ser culpado quando age sob "escusável medo, surpresa ou violenta emoção". Na Medida Provisória relacionada à Covid-19, os agentes públicos “somente poderão ser responsabilizados nas esferas civil e administrativa se agirem ou se omitirem com dolo ou erro grosseiro pela prática de atos relacionados, direta ou indiretamente, com as medidas de combate ao coronavírus (…)".

O espírito é o mesmo, isentar de culpa agentes públicos que se excederem no cumprimento do dever, até mesmo provocando mortes, como no caso da cloroquina. Inclusive o próprio presidente.


No mundo, poucos são os que defendem a cloroquina com tanta obstinação quanto Bolsonaro, que também nesse ponto se equivale a Maduro, da Venezuela. Nem mesmo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, continua nessa defesa, depois que estudos acadêmicos diversos demonstraram que a cloroquina não apenas provoca danos colaterais variados, que podem ser fatais, como não tem se mostrado eficaz no combate ao Covid-19.
Falou-se até que Trump seria sócio da farmacêutica francesa Sanofi, que produz a cloroquina, mas, mesmo existindo, essa participação na empresa é tão insignificante que não parece razão para sustentar o apoio. O dono da farmacêutica, sim, é um dos grandes financiadores eleitorais de Trump.

Já com Bolsonaro, embora haja muitos boatos nesse sentido, não há evidências de interesses comerciais para sua insistência, mas apenas o caráter autoritário de um presidente que precisa de uma desculpa para agir na contramão do mundo, encerrando o distanciamento social horizontal para implantar o vertical, protegendo apenas os grupos de risco. É um interesse eleitoreiro claro.

Há também um erro de decisão que fez com que o Brasil tenha comprado da Índia 530 quilos de insumos para a fabricação de cloroquina. Também o Laboratório Químico Farmacêutico do Exército aumentou 80 vezes sua produção, passando de 250.000 comprimidos a cada 2 anos para combate de doenças como malária e lúpus para 1,2 milhões em um mês e meio. 

O maior perigo dessa segunda demissão no ministério da Saúde, no momento em que o Brasil se aproxima dos 15 mil mortos pela pandemia da Covid-19, e ameaça chegar a mil mortos por dia, é a irresponsabilidade de Bolsonaro, que acha que, por ter sido eleito, tem o direito de decidir de acordo com sua vontade, e não com base científica.
Um governo voluntarista que coloca em risco a população que preside e tenta fugir do controle das instituições democráticas que dão os limites ao presidente da República. Esse voluntarismo está presente, por exemplo, nesse caso da reunião ministerial que é a prova material que pode definir a denúncia contra ele por interferência indevida na Polícia Federal. 

Bolsonaro já disse que poderia ter destruído o vídeo, e não poderia. Estaria cometendo um crime, pois o vídeo é um documento do governo brasileiro que, se quisesse destruí-lo, teria que preencher diversos requerimentos e protocolos e talvez nem pudesse fazê-lo se a decisão fosse tomada apenas com base na sua vontade. Pior ainda se a intenção fosse obstruir a Justiça.
E é essa mesma obsessão autoritária que faz com que considere normal querer que a Polícia Federal lhe repasse informações “ouvidas atrás da porta”. O exemplo que deu, de pais ouvindo atrás da porta para saber o que os filhos estão fazendo, mostra que o de que ele sente falta mesmo é de informações colhidas fora das normas legais.

Pensamento do Dia


Às favas os escrúpulos de consciência dos que apoiam Bolsonaro

'Aqui, a história não se repete como farsa'
Luis Fernando Verissimo

O que dirão as pessoas quando assistirem aos atos explícitos de cumplicidade da maioria dos ministros diante dos palavrões ditos pelo presidente Jair Bolsonaro na reunião de 22 de abril passado gravada em vídeo prestes a ser divulgado?

Ninguém, ali, demonstrou estranhamento – uns porque já estão a acostumados com a linguagem porca do presidente, outros porque a compartilham. Ninguém pareceu se incomodar com o comentário do ministro da Educação sobre a prisão dos juízes do Supremo.

A ministra da Mulher e dos Direitos Humanos sentiu-se tão à vontade que sugeriu a prisão de governadores e prefeitos. Ninguém a interpelou a propósito. Todos sabiam que a reunião estava sendo gravada, mas jamais imaginaram que pudesse um dia vir a público.

Da mesma forma devem ter pensado os ministros que se reuniram com o presidente Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968 para discutir a edição de mais um ato institucional – o de número 5, o mais violento. Foi quando a ditadura militar tirou a máscara.

Costa e Silva abriu a reunião dizendo: “Ou a revolução continua, ou se desagrega”, e pediu a opinião de todos. Apenas o vice-presidente, Pedro Aleixo, foi contra o ato. Ficou célebre a frase dita pelo ministro do Trabalho e da Previdência Social Jarbas Passarinho:

- Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência.

Pior que São Tomé

Há anos não me sentia constrangida assim por ser brasileira. Mas está difícil aguentar meus conterrâneos, a quem é preciso ensinar como se lavam as mãos, durante a pandemia e fora dela. São piores que São Tomé, a quem Jesus precisou mostrar as chagas, para ser reconhecido depois de ressuscitado. Não acreditam nem mesmo no que veem: as estatísticas de mortes e contaminados pelo corona vírus, as fotos sobre centenas de sepultamentos, os depoimentos de quem se curou e dos que perderam alguém.

Vivo numa cidade praiana e, com dias tão ensolarados e azuis, muitos desprezam as orientações e vão surfar, caminhar no calçadão interditado, voar de ultraleve, fazer passeatas. Há grande pressão para a reabertura do comércio. Agora usam máscaras, por causa da multa imposta pelo prefeito, mas levam às ruas crianças pequenas sem a proteção, como se estivessem isentas do mal. Vejo muitas gestantes, também, e idosos longe de suas casas, desafiando a sorte.


Fora tudo isso, convivemos com uma intensa campanha de notícias falsas e demonstrações de fanatismo. Mais uma vez, amostras de São Tomé ao contrário acreditam em tudo o que o pastor ou o mito e seus ministros falam, sem qualquer comprovação científica. Aliás, corre um boato de que até o título de mito é falso, pois se trata de uma corruptela de palmito, como Bolsonaro seria apelidado na infância, por ter pernas muito brancas e finas. Fica a dúvida.

Na outra ponta, o isolamento social é o grande álibi para a incompetência dos prestadores de serviço que permanecem em atividade. Experimente fazer contato com algum SAC – Serviço de Atendimento ao Consumidor. Sua paciência será testada ao limite, nem sempre resultando em satisfação. Espere encomendas pelos Correios, novo teste de resiliência. É melhor não ter pressa.

O comprador de agora também está sujeito a explorações de todo o tipo. Uma grande rede de supermercados, “neste momento difícil que estamos passando”, oferece entrega das compras em domicílio. Há até um ramal para atender com exclusividade quem tem acima de 60 anos. Mas são vários os senões: a entrega não é feita em qualquer ponto da cidade, demora quatro dias úteis e é cobrada uma taxa salgada que, conforme os produtos escolhidos, pode sair mais cara que a mercadoria.

Sem falar nos golpistas de plantão. Recentemente, num município vizinho, foram flagrados estudantes de informática que anunciavam máscaras, álcool em gel e outros, em site fictício. Recebiam pelos produtos e jamais os entregavam, porque não existiam. A quadrilha foi identificada, mas, misteriosamente, ninguém acabou detido…

Vergonha de ser brasileira. Dizem que tudo passa, mas quando? Nesse caso, como Tomé, tenho fé, mas só acredito vendo.
Madô Martins