sábado, 4 de janeiro de 2020

O último ano perdido na guerra pelo clima?

Apesar dos relatórios científicos, das manifestações de jovens por todo o mundo e das cimeiras intermináveis entre países, os factos ainda são o que são: em 2019, as emissões de gases com efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global, aumentaram em relação ao ano anterior. Ou seja, o gráfico das emissões globais continuou a subir, mais uma vez, exatamente como tem sucedido desde que se iniciou o período industrial. Como se, na prática, todos continuássemos a ignorar tudo aquilo que já conhecemos, de ciência certa, sobre as consequências do aumento da temperatura média no planeta. Sabemos que estamos a “fritar” a Terra, mas continuamos a “fritá-la” mais e mais, como se não fosse nada connosco – como se bastassem uns quantos sobressaltos e umas quantas indignações, somadas a algumas práticas de reciclagem, para nos sentirmos de consciência limpa e atirarmos a culpa para cima dos “outros”.


Tentemos, no entanto, ser um bocadinho otimistas, atendendo à época de novo ano, em que são admissíveis as mais delirantes resoluções. Assim, se olharmos com atenção, até podemos encontrar alguns ligeiríssimos sinais positivos nos cálculos divulgados pelo Global Carbon Project. Um deles é o facto de o aumento das emissões, em 2019, ter sido de apenas 0,6% – um valor inferior ao registado em 2018 (2,1%) e até à média de crescimento anual ao longo da última década (0,9%). Os números também indicam que tanto a União Europeia como os Estados Unidos da América conseguiram ligeiras diminuições nas suas emissões perigosas, graças à diminuição da produção nas centrais a carvão.
Só que, na verdade, a realidade não dá muito espaço para o otimismo. No caso da União Europeia, por exemplo, registou-se um aumento do consumo de combustíveis, tanto para automóveis como para aviões. Isto significa que a redução das emissões foi conseguida apenas à custa do carvão, mas que nada foi feito para promover a transição para os veículos elétricos e que, portanto, a situação pode inverter-se novamente. Também nos EUA, o ligeiro abrandamento nas emissões não chega para compensar o aumento de 2,8% medido em 2018. Mais: sabendo o que Donald Trump pensa sobre o assunto e a forma como tem revogado muitas das medidas lançadas por Obama para o controlo das emissões, não existem quaisquer garantias de que esta diminuição se vá manter no próximo ano – até porque, convém recordar, 2020 é ano bissexto e, portanto, existe mais um dia para poluir e fazer aumentar, assim, a média final de emissões de carbono.

Tendo em conta o que se viu na última cimeira do clima, em Madrid, com os principais países a mostrarem-se incapazes de assumir compromissos ambiciosos e medidas concretas para impedir o aquecimento global, tudo indica que não se pode ser muito otimista sobre o que pode ocorrer no ano que agora começa. Embora, mais uma vez, tenhamos todos consciência da realidade e estejamos devidamente avisados sobre as consequências. As Nações Unidas alertaram, há já algum tempo, que as emissões de carbono precisam de ser reduzidas 7,6% por cada ano, entre 2020 e 2030, para se evitar a “catástrofe climática”. Por aquilo que tem sido a tendência dos últimos anos, não será ainda neste 2020 que iremos assistir a essa inversão. Quase de certeza, 2020 não será o primeiro ano em que o índice das emissões começa a descer.

Apenas nos resta, por isso, esperar que 2020 seja o último ano perdido na luta contra o aquecimento global. O último ano em que se continuaram a adiar as decisões mais importantes para o nosso futuro. É esse o único otimismo que nos resta.

Paraísos imperfeitos

A paisagem era um anúncio publicitário para óculos de sol, relógios caros ou roupa de praia. O mar azul turquesa, liso como um espelho, parecia quase irreal. A ilha, ao fundo, com um rendado debrum de areia branca e uma alta coroa de palmeiras, destacava-se contra o azul metálico do céu. Então, o barco parou e nós mergulhamos. 

Praia em Moçambique
O fundo do mar era uma lixeira imensa. Nunca cheguei a perceber como todo aquele lixo chegara até ali, uma pequena ilha deserta, perdida entre as mais de 17.000 que constituem o vastíssimo arquipélago da Indonésia.

Levantando a cabeça eu via o paraíso, baixando os olhos via o inferno. Isso hoje já não me surpreende. Aprendi, com o passar dos anos, que todo o paraíso esconde um certo inferno. Para o encontrar temos apenas de baixar os olhos, de mergulhar, ou de escavar um pouco. Essa experiência fez-me desconfiar para sempre da expressão “paraíso perfeito”.

No primeiro dia deste ano voltei a lembrar-me da Indonésia, ao mergulhar numa das praias da Ilha de Moçambique, pequena cidade histórica, no norte do país, à qual muitas vezes os visitantes também se referem como um “paraíso perfeito”. Aquela paisagem belíssima esconde, sob a superfície lisa das águas, um descuido de décadas: todo o tipo de objeto de plástico, cacos de vidro, o triste lixo que a humanidade rejeita. 

Semana sim, semana não, lemos nos jornais notícias de mais uma baleia encontrada morta, com toneladas de plástico no estômago. Há cinco enormes ilhas de lixo, uma delas do tamanho de três minas gerais, flutuando nos oceanos Pacífico, Índico e Atlântico. Ainda estarão ali depois que a humanidade tiver desaparecido, se entretanto não formos capazes de criar micro-organismos capazes de digerir o plástico.

A boa notícia é que há cada vez mais países decididos a combater o plástico. A partir do próximo ano, a venda de produtos de plástico de utilização única será proibida em todo o território da União Europeia. Curiosamente, os africanos adiantaram-se aos europeus. Em 2008, Ruanda proibiu as sacolas de plástico. Outros países africanos, como Tanzânia, Uganda, Egito e Quênia, seguiram o exemplo dos ruandeses. No Quênia, quem insistir em fabricar e comercializar sacos de plástico arrisca-se a ser condenado a quatro anos de cadeia, além de ter de pagar pesadas multas.

As políticas proibicionistas só terão sucesso se os governos desses países investirem na criação de uma consciência ecológica. Em alguns casos, as sociedades civis adiantam-se aos governos. É assim em Moçambique, onde um jovem jurista, Carlos Serra Júnior, percorre as praias do país, mobilizando multidões, que se juntam para recolher detritos de plástico e outro lixo. Carlos Serra tenta convencer as pessoas dos benefícios econômicos e sociais resultantes da implementação de boas políticas de proteção do ambiente. Se algum dia for possível descrever a Ilha de Moçambique, com justiça, como um paraíso perfeito, será graças a heróis como ele.

Brasil do ano novo jurássico


Cidades nórdicas têm a ensinar sobre viver bem

Ir ao trabalho de bicicleta, trem ou até de patins no gelo. Usar a academia ao ar livre gratuita em um parque bem cuidado ao lado do seu escritório na hora do almoço. Passar o fim de semana em uma exposição interativa de design sem sair de seu apartamento. Essas podem parecer atividades de alguma cidade do futuro, mas, para muitas pessoas que vivem nos países nórdicos (os três escandinavos — Suécia, Noruega e Dinamarca — mais Finlândia e Islândia), isso faz parte de sua realidade cotidiana, graças a uma abordagem única a planejamento urbano.

"Nos países nórdicos, há muito tempo existe uma ênfase na vida urbana das pessoas", explica David Pinder, professor de estudos urbanos na Universidade Roskilde, na Dinamarca. Por isso, os responsáveis pelo planejamento de cidades priorizaram condições de moradia, sustentabilidade, mobilidade e empoderamento dos cidadãos, criando parques verdes, espaços públicos bem iluminados, robustas malhas de transporte público e instalações acessíveis para crianças e idosos.

Também houve ênfase na construção de sociedades mais iguais, diz ele, um objetivo acompanhado por "uma forte disciplina de participação", que encoraja os tomadores de decisão a pensar em diversos grupos ao planejar novas áreas urbanas e incluí-los diretamente nas discussões.

Uma breve análise de vários índices globais de habitabilidade indica que esses métodos parecem estar funcionando. Capitais como Copenhague, Estocolmo, Oslo e Helsinque figuram bem colocadas em rankings de cidades com melhor qualidade de vida em 2019 da consultoria global Mercer e da revista internacional de estilo de vida Monocle.

Os países nórdicos têm uma rica história de planejamento assistencial,
 que visa criar sociedades igualitárias e habitáveis

Estocolmo recentemente ficou em segundo lugar na categoria sustentabilidade no Índice Arcadis de Cidades Sustentáveis. Copenhague, que tem pouco menos de 800 mil habitantes, ficou em nono lugar no ranking de habitabilidade da Economist Intelligence Unit. Embora esses estudos usem critérios ligeiramente diferentes, todos eles destacam a percepção de sucesso do modelo de planejamento urbano nórdico ao priorizar a qualidade de vida e buscar um futuro mais verde.

Alimentadas pelo crescente interesse internacional de entender porque os países nórdicos estão se saindo tão bem, três das principais universidades da região recentemente uniram forças para lançar o primeiro programa de mestrado internacional do mundo especializado em planejamento urbano nórdico.

Oferecido em inglês, ele é uma colaboração entre a equipe de Pinder na Universidade de Roskilde, a oeste de Copenhague, pesquisadores da Universidade de Malmö, no sul da Suécia, e a Universidade do Ártico da Noruega, em Tromsø, localizada dentro do Círculo Ártico. Os primeiros 32 alunos começaram o curso em setembro de 2019 e passarão pelo menos um semestre em cada local durante o programa de dois anos.

"Tenho viajado pelos países nórdicos e fiquei muito impressionado com os espaços verdes, a arquitetura que combina estética e a mobilidade nos espaços urbanos", diz Leo Couturier Lopez, de 32 anos, um urbanista de Paris. Ele se inscreveu no curso para ter um "olhar renovado" em sua profissão. Mas o curso multidisciplinar também atraiu participantes da Europa e da América do Norte de diversas origens, bem como graduados em planejamento urbano ou pessoas que passaram algum tempo trabalhando no setor.

"Há muitos lugares em que podemos aprender com as perspectivas nórdicas sobre o planejamento", afirma Camilla Boye Mikkelsen, estudante dinamarquesa de 27 anos que faz o mestrado. "Recentemente fui para os EUA e viajei pela parte sul. Em Nashville, era quase impossível se locomover sem carro e era até difícil viajar entre cidades. Ao entrar em um ônibus (nos EUA), ficou claro que eram principalmente pessoas com um perfil socioeconômico específico que usavam o transporte público."

Nos países nórdicos, uma eficiente infraestrutura ferroviária conecta a maioria das grandes cidades. Trens e ônibus de longa distância geralmente são equipados com wi-fi, oferecendo uma opção confortável para o deslocamento diário entre o trabalho e o lar. Obviamente, os países nórdicos são muito menores que a América do Norte e têm menos centros urbanos grandes, o que significa que é difícil fazer uma comparação direta.

No entanto, Mikkelsen diz que a experiência a tornou ciente dos benefícios de investir em transporte público. "Eu percebi que é muito clara a rapidez com que você se adapta a viver em uma cidade habitável. Estou muito acostumada a caminhar ou andar de bicicleta por todos os lugares", reflete ela.

Anniken Førde, professora da Universidade Ártica da Noruega em Tromsø, acredita que os estudantes internacionais têm uma ideia muito melhor dos métodos de planejamento nórdico vivendo na região enquanto estudam. Em Tromsø, por exemplo, a sustentabilidade está em foco graças à sua localização ao norte da cidade.

"É um lugar geopoliticamente 'quente' na região, com o novo interesse nas questões do Ártico — especialmente devido às mudanças climáticas — aqui no norte, onde o gelo está derretendo", diz Førde. A cidade também exibe os benefícios de priorizar o acesso à natureza, outro elemento central do planejamento urbano nórdico.

"Tromsø está localizada em uma pequena ilha e, mesmo quando você está no centro da cidade, você está perto de um fiorde, com baleias e arenques, e você pode ver as montanhas", acrescenta.
Questão de inclusão?

Mas outros que trabalham nessa área são mais céticos quanto à ideia de destacar os métodos nórdicos como um ideal global digno de seu próprio programa de pós-graduação.

"Existe um grande paradoxo entre como a Suécia, a Noruega e a Dinamarca se vendem e o que realmente são", argumenta James Taylor Foster, curador britânico do ArkDes, o Centro Sueco de Arquitetura e Design de Estocolmo.

"O planejamento urbano deve ser inclusivo e não tenho certeza de quão inclusiva a região é na realidade, em relação a como ela pode ser descrita com frequência", diz Taylor Foster, que é formado em arquitetura.

Uma questão que ele acredita merecer atenção especial é o estoque cada vez menor de moradias populares na região. Muitos dos principais centros urbanos, incluindo Copenhague, Estocolmo e até Tromsø, estão passando por um aperto em meio ao rápido crescimento populacional, gentrificação e aumento do turismo. Isso levou ao aumento da segregação, à medida que os assalariados que ganham menos são forçados a sair dos centros das cidades e exacerbaram os desafios de integração após índices recordes de imigração, especialmente na Suécia.

Em Estocolmo, por exemplo, regiões de subúrbio como Tensta e Rinkeby são em grande parte povoados por famílias de imigrantes de baixa renda. Essas áreas compreendem blocos de apartamentos, parques e áreas comerciais para pedestres bem conservados e boas conexões de metrô com o centro da cidade, mas Taylor Foster argumenta que os moradores ainda podem se sentir isolados e que a interação com os serviços da cidade é limitada.

"Se você precisar ir a um hospital especializado, eles estão em grande parte no centro da cidade. Repartições públicas, museus... eles estão em grande parte no centro", diz Taylor Foster. "Mas algumas famílias de baixa renda simplesmente não podem pagar um passe mensal do SL (transporte público de Estocolmo), que deve ficar ainda mais caro em 2020."

Ele argumenta que a mobilidade — física, cultural e social — precisa ser priorizada no futuro. "Precisamos ser capazes de pensar de uma maneira holística que permita engajamento e experimentação. Na prática, o transporte público dentro de uma cidade pode ser totalmente gratuito", diz ele.

Para Jordan Valentin Lane, arquiteto e estrategista de sustentabilidade nascido na Austrália e que trabalha em Södertälje, uma cidade ao sul da capital sueca, o planejamento urbano ali é "bastante homogêneo", com moradores de classe média tendendo a dominar o campo. Isso, ele argumenta, pode promover uma perspectiva limitada, enquanto a propensão da região a regras estritas e decisões baseadas em consenso às vezes limitam a inovação. "As cidades são obras em andamento, mas, às vezes, as coisas demoram muito. Podemos aprender muito com outros lugares que experimentam e testam ideias rapidamente".

No entanto, Valentin Lane argumenta que cursos como o programa de mestrado em planejamento urbano nórdico podem desempenhar um papel positivo na promoção da diversidade nessa campo. "Podemos aprender nos países nórdicos contratando pessoas com formação internacional", diz ele. "Essas pessoas têm maneiras diferentes de conhecer o mundo. Eles levam consigo toda uma história de criação de lugares e construção de cidades que talvez nem tenham sido consideradas nos (países) nórdicos."

Ele cita o exemplo de áreas com assentos ao ar livre em restaurantes e cafés do centro da cidade, um conceito popular em outras cidades europeias que deram "um verdadeiro empurrão" nas autoridades da cidade quando os arquitetos sugeriram introduzi-las em Estocolmo na década de 1970. Esse tipo de experiência ao ar livre se mostrou muito popular, apesar do clima mais frio da Suécia, com bares e restaurantes agora autorizados — de abril a outubro — a abrir suas áreas ao ar livre.

Valentin Lane também acredita que os estudantes internacionais tenham muito a ganhar com o trabalho na região. "Existe um bom nível de inglês, uma generosa licença parental que você não recebe em outros países e muito mais discussão e pesquisa sendo realizada sob perspectivas críticas."
Adaptando o jeito nórdico

De volta à Universidade de Roskilde, David Pinder diz estar ciente do perigo de "apresentar uma perspectiva excessivamente congratulatória do planejamento urbano nórdico". Ele diz que o curso também levanta "questões críticas" sobre projetos regionais passados ​​e presentes que podem ter um papel importante na solução de problemas futuros.

"À medida que as cidades crescem e se tornam prósperas, precisamos realmente observar as desvantagens desse desenvolvimento, especialmente questões sobre acessibilidade e crescente desigualdade", argumenta ele. "O que se entende por habitabilidade? Essa é uma agenda potencialmente exclusiva? E como ela pode resolver esses problemas de desigualdade e justiça social? (Esta) será uma área chave de debate nos próximos anos."

Os estudantes participam de discussões regulares com profissionais que já estão começando a lidar com esses desafios, incluindo municípios da região, empresas de consultoria urbana e organizações sem fins lucrativos. Pinder espera que alguns desses profissionais contratem estudantes após se formarem ou os inspirem a embarcar em seus próprios projetos de planejamento.

Enquanto isso, já há sinais de que os estudantes internacionais estão trazendo uma perspectiva crítica para o debate.

Leo Couturier Lopez argumenta que, embora aprecie morar perto de parques, as ruas largas e a tendência para edifícios baixos na Dinamarca, ele acredita que Copenhague pode se tornar mais atraente se densificar, em vez de se concentrar em criar novas áreas como Lynetteholmen — uma nova "ilha" que deve fornecer 35 mil novas casas a leste do centro da cidade.

Ele também sente falta da agitada vida cultura noturna de restaurantes e cafés de Paris. Em Copenhague, ele está "às vezes um pouco decepcionado" com a vida social em alguns bairros residenciais. "Copenhague poderia desenvolver e revitalizar suas existência na área central, com a criação de pequenos restaurantes, lojas, cafés e até casas a preços acessíveis, em vez do risco de criar novos bairros sem vida."

Essa observação reflete uma discussão que tem tido ampla repercussão no país, após estudos sugerirem que os países nórdicos são alguns dos mais desafiadores para expatriados e imigrantes fazerem amigos, e apontarem para preocupações com isolamento social e solidão entre a população local.

A estudante Camilla Boye Mikkelsen diz que um ponto importante do curso até agora é que a região talvez seja melhor usada como fonte de inspiração para outras cidades, e não como um guia direto para "copiar e colar".

"Dizer 'agora vamos transformar Londres em uma cidade bike-friendly como Copenhague' pode não ser a coisa certa a fazer", argumenta ela. "Londres é muito mais movimentada e uma cidade estressante, onde sempre há pessoas por perto."

"Se você fosse inspirado pela perspectiva nórdica do planejamento, o mais importante não seria copiá-lo diretamente na sua cidade, mas sim pensar: 'como posso adaptar o modelo nórdico à nossa cidade, da maneira como nossa cidade funciona e aos ritmos únicos dela?"

Governante só dos seus



Um presidente que transforma identidade de gênero em ideologia de gênero e altera dados da realidade é um presidente que não tem vocação para governar em nome de todos
Lilia Schwarcz

O que será da democracia brasileira em 2020?

Quando Bolsonaro assumiu a presidência, exato um ano atrás, temia-se pela democracia brasileira. Até agora, ela não só resiste, mas mostra que existem contrapesos que limitam a atuação presidencial. E em 2020?

Quando Jair Messias Bolsonaro recebeu, no dia 1º de janeiro de 2019, a faixa presidencial das mãos de Michel Temer, analistas no Brasil e no mundo se dividiram basicamente entre duas previsões.

Uns diziam que Bolsonaro se tornaria menos radical quando assumisse a presidência, e outros esperavam uma guinada forte para a direita, transformando o Brasil num país mais autoritário e menos democrático.

Mas o que aconteceu ao longo de 2019 foi diferente: não se confirmaram nem a primeira previsão, nem a segunda, avalia o cientista político Marco Aurélio Nogueira.

"A expetativa que se tinha era de que o cargo de presidente iria suavizar um pouco a postura dele. Mas isso não aconteceu, muito pelo contrário”, comenta.

Depois de muitos tuítes e falas presidenciais bem controversas, Nogueira prefere chamar 2019 de "um ano de muitas coisas bizarras e poucas coisas concretas”.

As poucas realizações, como a reforma da previdência, foram frutos do desempenho congressional. "A reforma passou porque a Câmara se movimentou de forma eficiente. Não pode ser colocado como troféu do governo. Mas o resto só foi desgraça e desastre.”

Para Nogueira, as áreas de cultura, meio ambiente e educação foram "um horror, uma pasmaceira obscurantista e reacionária”, e o desempenho do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, "caricato”.

Mas há um risco nisso para a democracia brasileira? "Não diria que a democracia brasileira está em risco, mas seguramente ela não está sendo qualificada do modo que deveria, levando em conta as caraterísticas da sociedade brasileira com seu passado autoritário.”

Graças à fraqueza do governo, o Brasil está blindado contra um avanço autoritário, avalia Nogueira. "O governo Bolsonaro não tem força suficiente para acabar com a democracia. Não vai fazer uma guinada autoritária no plano institucional.”

Mas isso não significa que não haverá danos à democracia. "Bolsonaro pode, como está sendo feito, intoxicar a ideia de democracia, de coisas que vão desvalorizando aos olhos da população.”

"É como se o governo reagisse para retirar da população uma expectativa positiva em relação à democracia: o combate à política, o esforço permanente de crítica à educação livre, as ações contra a cultura, tudo isso acaba por soltar na sociedade uma espécie de toxina que vai minando a confiança das pessoas na democracia.”

Para Nogueira, essa foi a tendência de 2019 e ela deve continuar. Mas há fatores que, de repente, podem mudar esse cenário. As as eleições municipais de 2020 seriam um deles, porque, segundo o analista, podem "trazer derrotas para o governo e aliados”, ainda mais com as incertezas que rodeiam a criação do partido bolsonarista Aliança pelo Brasil.

Um segundo fator seria a organização da oposição: "Quem sabe a mistura de democratas desarticuladas e o desempenho eleitoral não produz uma química positiva para o país. É mais uma torcida do que um diagnóstico meu", comenta.

O cientista político Jairo Nicolau lembra que muitos analistas acreditavam que o Brasil se transformaria, sob o presidente Bolsonaro, numa "grande Hungria”, com Bolsonaro como um "Viktor Orbán dos trópicos”. "Internacionalmente, ele conseguiu construir essa imagem", avalia o pesquisador do Centro de Pesquisa e História Contemporânea do Brasil, ligado à Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Mas no plano nacional, as coisas são diferentes.

"O que o presidente e os ministros falam é uma coisa. Mas na prática, temos ações muito menos antidemocráticas do que foi a promessa ou o temor da oposição. É o grande ponto positivo do governo.”

"A retórica continua terrível, antidemocrática e ameaçadora", diz Nicolau. Mas, na prática, o governo efetivamente não fez nada "para que o consideremos um governo de extrema direita ou antidemocrático".

O ano de 2019 trouxe uma surpreendente fraqueza da figura presidencial, avalia o cientista político e professor do Insper Carlos Melo. Para começar, há uma falta de base de poder do governo dentro do Congresso, tanto para aprovar leis como, também, se proteger de um eventual impeachment. "Hoje, nem um partido o presidente tem”, comenta.

"O governo está descoberto no Congresso e depende muito fortemente das lideranças do Congresso Nacional, especialmente de Rodrigo Maia", avalia Melo.

A importância do presidente da Câmara aumentou muito, enquanto a figura de Bolsonaro perdeu força. "Maia mostra uma postura reformista e de freios e contrapesos às loucuras do Poder Executivo. O que saiu de reforma, saiu por causa do Rodrigo Maia, e não do presidente da República."

A fraqueza de Bolsonaro se mostrou, segundo Melo, no grande número de medidas provisórias e vetos do presidente derrubados. O cientista vê o presidente "apático e alheio às questões do Congresso e de uma agenda econômica”. "O governo só não ficou numa situação pior porque ele acabou sendo blindado pelas lideranças do Congresso e por setores da economia também.”

Em vez de enfraquecer a democracia brasileira, avaliam analistas, o governo mergulhou em crises, fragilizando a figura forte do presidente, enquanto o Legislativo ganha força.

"As confusões são a marca do governo”, resume Melo. Ele fala de um "presidencialismo em transe”, tanto no sentido da palavra "transe” como "confusão” como, também, de "transição para algo novo, em virtude da fragilidade do Executivo”. Ao invés de um enfraquecimento democrático, principalmente do Poder Legislativo, observa-se um enfraquecimento do Poder Executivo, blindando a democracia brasileira de tendências autoritárias.

Tal enfraquecimento do Executivo se vê também na política externa, onde setores da economia pressionaram o governo a mudar a postura, como nas relações com o novo governo argentino e diante da China.

"Isso significa que a palavra do presidente não conta muito, que ele se vê obrigado a morder a língua. Não é um pragmatismo do presidente da República, mas um pragmatismo de setores da economia que forçam o presidente a voltar atrás nas suas declarações.” Assim, há algo positivo como efeito colateral de todos os erros cometidos, avalia Melo.
Deutsche Welle

Construindo uma grande nação

Três historinhas para ilustrar nossa última reflexão do ano, a primeira muito conhecida.

– Condenado à morte por corromper a juventude, o filósofo Sócrates recusou a oferta para fugir de Atenas, pois seu compromisso com a pólis não lhe permitia transgredir as regras. Os gregos cultivavam o respeito à lei.

– Lúcio Júnio Bruto, fundador da República Romana, libertou seu povo da tirania de Tarquínio, derrubando a monarquia. Depois executou os próprios filhos por conspirarem contra o regime. Pregava o poeta Horácio: “Doce e digno é morrer pela dátria”.

– Outro romano, rico e matreiro, conta Maquiavel no “Livro III sobre Tito Lívio”, deu comida aos pobres na epidemia de fome e por isso foi executado. O argumento: pretendia tornar-se tirano. Os romanos prezavam mais a liberdade do que o bem-estar social.


Emerge a pergunta: qual personagem se sairia melhor no cenário contemporâneo? O terceiro, com uma diferença: o matreiro político não seria executado por alimentar a plebe, mas glorificado, mesmo escondendo, por trás da distribuição de alimentos, seu projeto de poder. Hipótese mais provável em nossa tradição patrimonialista.

Uma leitura de dois mundos. O primeiro regrado por princípios e valores, compromisso com o bem comum, obediência às leis, defesa da moral e da ética. Combina com a utopia da ilha de Thomas Morus: “uma terra de paz e tranquilidade onde os habitantes não têm propriedade individual e absoluta”.

Esse Estado perfeito contrapõe a cidade divina e a terrestre, esta afinada ao universo de Maquiavel: “os fins justificam os meios”. Para o florentino, o povo é dotado de razão e capaz de decidir o seu destino. Sonha com a liberdade e, para conquistá-la, usa quaisquer meios necessários. Sua lógica: ideologias e valores morais cedem lugar aos instrumentos em nome da hegemonia. Aqui a ética da ação prevalece sobre a ética da consciência.

O desenho ajuda a entender nosso tempo. Protagonistas políticos e até juízes lutam para impor suas demandas, multiplicando mazelas e velhos padrões da política. Afinal, de que o Brasil necessita para fortalecer seu conceito de nação em 2020? Primeiro: democratizar sua democracia, expandir a participação do povo, com inclusão social, boas condições do trabalho, proteção ao meio ambiente, direitos humanos, qualificando serviços públicos como educação, saúde e segurança.

Impõe-se convocar a sociedade para um projeto nacional, sem conveniências eleitoreiras. O Brasil clama por planos essenciais nas áreas social, cultural, geográfica e econômica. Paredes inteiriças em vez de tijolos. E uma relação harmônica entre os Poderes, dentro da norma constitucional. 

Deve-se valorizar a meritocracia e atenuar as indicações partidárias, selecionando perfis adequados para a administração. Aristóteles dá uma pista: “Quando diversos tocadores de flauta possuem mérito igual, não é aos mais nobres que as melhores flautas devem ser dadas, pois eles não as farão soar melhor; ao mais hábil é que deve ser dado o melhor instru­mento”. Isso é mérito. Convém lembrar: uma grande democracia repousa sobre base de direitos e deveres, de ordem e harmonia, de ética e moral.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Existe um Brasil para além de Bolsonaro

Passado um ano de governo, um aspecto salta à vista: Bolsonaro criou um estilo próprio de liderança presidencial. Obviamente que ele repete certos padrões personalistas anteriores, que se apresentavam em figuras tão distintas como Vargas, Collor e Lula. Descontadas as semelhanças, o que fica é um modelo de presidente que busca a todo momento ser o centro da política brasileira, criando factoides que priorizam as críticas a pessoas, ideias e comportamentos. Trata-se de um modo basicamente negativo de construção de projeto de poder. Bolsonaro sempre precisará de um inimigo para governar o país.

A lógica bolsonarista de liderança é eficaz em vários sentidos. Primeiro, porque marca uma posição perante uma parcela do eleitorado, gerando uma forte identidade entre o líder presidencial e os seus correligionários - é o “eu contra eles”, num tom muito mais radical que o do petismo. A porção da população que vai ficar neste grupo ainda é uma incógnita. De todo modo, na pior das hipóteses, Bolsonaro consegue manter pelo menos de 15% a 20% ao seu lado, o que não garante a reeleição, mas solidifica um nicho de apoiadores que irão até o fim com o presidente, mantendo-o como um governante que tem anteparo para digladiar com outras lideranças políticas.

Selecionando inimigos e os atacando a todo momento, muitas vezes por meio de acusações e temáticas secundárias em relação às políticas governamentais, Bolsonaro obriga os criticados a se defender constantemente. O presidente se torna o dono da bola do jogo e faz com que os outros fiquem correndo atrás da pelota, sem que nunca a tenham por completo. Antigamente, isso tinha um nome: diversionismo, isto é, a capacidade de evitar o que é central na disputa do poder e nas políticas públicas. Essa estratégia dificulta ter um maior foco na crítica ao governo, pois se a cada semana há um assunto novo para se discutir, o que deve ser priorizado no debate com a população?

É interessante notar que mesmo naquilo que o bolsonarismo procura trazer de agenda positiva, isto é, de defesa de uma visão comum de país, ele o faz criticando outros ou reprimindo comportamentos ou ideias que deveriam ser extirpados. Para ficar nas simbologias religiosas, trata-se de um modo menos franciscano de pensar a política e mais baseado numa concepção cruzadista - conquistar corações significa usar a guerra como instrumento.


Bolsonaro é muito parecido com Lula em sua grande capacidade de falar a linguagem popular e de fazer campanha eleitoral permanente. Porém, ao construir seu discurso com tonalidade negativa e centrado na busca de inimigos, ele constrói um tipo de liderança cuja força está em captar o medo e a raiva das pessoas. Foi esse o espírito predominante nas eleições de 2018, depois de anos de recessão e da avalanche contra a corrupção produzida pela Lava-Jato. Ainda há muita gente ligada a esses dois sentimentos, mas em algum momento muitos desses eleitores vão querer de volta a esperança.

Se o presidente conseguir um bom resultado econômico e social até 2022, algo realmente robusto, pode estar aí uma novidade em relação ao seu padrão atual, sustentado na negatividade. Caso contrário, terá que se basear num modelo em que ele briga contra todos, torcendo principalmente para ter alguma polarização com o PT. Só que antes de pensar nas próximas eleições presidenciais, é preciso lembrar a longa travessia, de mais três anos, que teremos de enfrentar.

Há duas grandes variáveis que podem, em algum momento, inverter o clima construído pela liderança presidencial de Bolsonaro. A primeira é de cunho estratégico e a segunda capta as profundezas de um país que parece ter ficado para escanteio na agenda política. Afinal, o clima azedo do bolsonarismo disseminou-se e muitos se perguntam se há algum lugar em que isso não seja dominante hoje no Brasil.

Ao ter de criar a todo momento fatos políticos baseados no confronto, Bolsonaro abre muitas arestas e possibilidades de problemas, inclusive porque atua desse modo também no plano internacional.

Esse conjunto de inimigos e disputas vai se acumular durante quatro anos, e caso a bonança não venha logo, a tendência é que o número de adversários e eleitores insatisfeitos vai crescer mais do que o contingente de criticados (pessoas, ideias e grupos sociais) pelo presidente.

Exemplo maior disto é a postura ambiental do país, criticada recentemente pela Comissão Europeia, que disse abominar as atuais ações do governo Bolsonaro. O mais provável, conhecendo seu estilo, é que o bolsonarismo vai continuar nesta toada até que a crise vire algo muito grande. Assim, não deverá ser aprovado o acordo União Europeia/Mercosul neste quadriênio, o agrobusiness brasileiro pode perder mercados, megainvestidores institucionais reduzirão seu ímpeto e não adianta xingar a “pirralha” da Greta. No meio desse caminho, o governo pode perder apoiadores, deixando o capitão apenas com seu séquito mais fervoroso, cujo tamanho é pequeno demais para garantir a governabilidade.

Muitas outras áreas dominadas pelo discurso bolsonarista do confronto podem ter esse mesmo desfecho, como na política externa ou na educação. Portanto, talvez seja muito difícil para Bolsonaro manter esse estilo durante toda a travessia sem ter arranhões muito grandes. Mas, além disso, é preciso lembrar (quase gritar) que existe um Brasil para além de Bolsonaro. Um país que, a despeito desse caldo de cultura marcado pelo confronto permanente, está tendo sucesso em suas ações adotando outra forma de agir coletivamente.

Uma parte importante desse outro país está com políticas públicas bem-sucedidas no plano subnacional. O bolsonarismo criou o slogan “Mais Brasil, menos Brasília”, mas poucas vezes olha com a devida atenção para o que ocorre em vários entes da Federação. Em vez do ministro da Educação ficar xingando tudo que ocorreu antes dele por conta dos resultados dos alunos brasileiros no exame internacional do PISA, ele deveria conhecer e disseminar o que tem dado certo em termos de políticas educacionais estaduais e municipais.

Weintraub deveria parar de criar factoides e começar a conhecer a experiência de Sobral e, numa escala maior, do Ceará, para ver como é possível fazer uma revolução no processo de alfabetização. Existe ali um Brasil que dá muito certo e não segue a lógica bolsonarista. Ao contrário, o forte do modelo cearense é a montagem de uma governança baseada na confiança mútua e colaboração entre os mais diversos atores, inclusive de vários partidos políticos. Deveria, ainda, conhecer a experiência dos Arranjos do Desenvolvimento da Educação (ADEs), que juntam municípios num processo cooperativo para resolver problemas educacionais, seja na Chapada Diamantina, em Votuporanga (SP) ou na Grande Florianópolis. Mais uma vez, a solução aqui foi um arranjo que reúne pessoas e movimentos os mais variados, em vez de procurar inimigos em todo canto.

A cultura é um dos grandes patrimônios de qualquer país. No caso brasileiro, isso é ainda mais marcante porque somos reconhecidos internacionalmente pelas nossas obras culturais e artistas. Pois bem, e o que faz o governo Bolsonaro? Coloca em xeque a riqueza cultural e nossa diversidade em nome de um projeto de purificação de nossa arte. Onde isto deu certo? No Irã de Khomeini? Na Coréia do Norte?

Fernanda Montenegro e Chico Buarque são símbolos nacionais e internacionais de um Brasil que dá certo. Eles não precisam de Bolsonaro, mas o Brasil precisa de gente como eles. E se a nova orientação oficial é procurar a “verdadeira cultura popular brasileira”, é preciso conversar com os jovens da periferia das grandes cidades, que produziram cultura como forma de combater a desigualdade e dar visibilidade a quem não tem espaço no grande “show business”. Mas o bolsonarismo não vai dialogar com esse pessoal, nem com os seguidores de Ariano Suassuna.

Existe uma sociedade civil pujante no Brasil, com projetos coletivos em várias áreas, que melhoram a qualidade das relações sociais em vários lugares, sobretudo nos mais carentes. Há muitas parcerias entre universidades e destas com empresas produzindo inovação e desenvolvimento de longo prazo para o país, usando como principal instrumento a busca de sinergias. Também há empresas e empreendedores que obtiveram sucesso internacional porque acreditam que boas ideias e muito trabalho são mais importantes do que ficar brigando nas redes sociais.

Se quisermos sair do clima de confronto e da mediocridade impostos pelo bolsonarismo, precisamos lembrar do Brasil que vai além dessa lógica de guerra. Um país que deveria ter orgulho de Paulo Freire, porque as melhores universidades americanas o consideram um dos maiores educadores do século XX, e a Finlândia, aquele país sempre elogiado no PISA, usa claramente o seu método educativo para formar os jovens que vão compor sua sociedade do futuro.

Desejo a todos um excelente 2020, que deixe para trás a lógica do confronto permanente instalada por Bolsonaro. Temos um país em que há ainda muitos problemas e feridas, como a escravidão, mas cuja saída está em mais colaboração entre Estado e sociedade, bem como maior tolerância e negociação entre lideranças políticas diferentes.
Fernando Abrucio

Modéstia santificada

Se eu não estou fazendo a coisa bem feita, lamento.Espero apenas que se for escolher alguém diferente de nós, que seja alguém melhor
Jair Bolsonaro

Martha Rocha

O Brasil avança para trás. Tem saudade de si mesmo. O que explica o ressurgimento no noticiário nacional do movimento integralista senão uma autonostalgia? Uma organização que se denomina integralista anunciou não ter nada a ver com os coquetéis Molotov atirados contra o prédio da produtora do “Porta dos fundos”, programa humorístico da TV. O que espantou muita gente: por saber que o integralismo não apenas ainda existe como tem uma organização, e não só tem uma organização como uma dissidência que atira bombas.


O movimento integralista que deixou saudade foi o mais atuante dos movimentos filofascistas que cresceram nos anos 30, no Brasil. Ganhou alguma relevância política — e chegou a tentar um golpe — com a ascensão do Getúlio Vargas, que endossava algumas das suas pregações totalitárias, aceitou sua ajuda, mas não lhe deu nada em troca. Tinham um líder, Plínio Salgado, chamado de carismático, mas cujo carisma não sobrevivia nas fotos dos jornais mal impressos. Usavam todos camisas verdes e um signo inspirado na suástica nazista, e saudavam-se com o braço direito erguido, também como os fascistas. As manifestações dos camisas verdes atraíam multidões, na época. Era grande a simpatia pelos integralistas.

Há dias participei de uma festa de aniversário de criança em que a principal atração era uma enorme torta, saudada por todos com entusiasmo. “Oba!” exclamou alguém, “Uma Martha Rocha!”. Uma o quê? Ninguém se lembrava que chamavam a torta de Martha Rocha em honra da baiana que deixara de ser escolhida Miss Universo por ter dois centímetros a mais nos quadris, de acordo com o padrão brasileiro, o que causou uma revolta nacional. A maioria dos adultos na festa não se lembrava nem da própria Martha Rocha, que era linda, colorida, alegre e irresistível como... Bem, como uma torta. No caminho do passado que parecem estar querendo nos levar, pensei (mastigando o menor pedaço de torta que a dieta e a consciência me permitiam): que volte a Martha Rocha e que desapareça para sempre o integralismo, ou coisa parecida.

No fundo, é só uma questão de liberdade

Há escassas três décadas, a televisão ainda era de canal único, e a internet apenas uma promessa de futuro. Era natural, por isso, nesses tempos, debater o que se “servia” aos telespectadores, dentro até de uma lógica de “serviço público” e quando ainda se acreditava que a TV era um veículo de divulgação cultural. Na maior parte das vezes, como sabemos, essas discussões desenrolavam-se numa troca de argumentos irados e com muitos ódios de estimação à mistura. A televisão – ou melhor, o canal público único – era, então, o centro das atenções e até, tantas vezes, o espelho no qual se refletia o melhor e o pior da sociedade.


O mundo mudou e, hoje, não chegam todas as horas de uma vida para se conseguir visualizar tudo aquilo que passa, em simultâneo num único dia, nas centenas de canais e nas plataformas de streaming e de partilha de vídeos que nos entram pelo aparelho adentro. Há de tudo para todos os gostos e feitios. Dentro de um sistema comercial que funciona radicalmente ao contrário do dos tempos do canal único: agora, o espectador é que tem a liberdade de escolha. Ninguém lhe pode determinar o filme, a série ou o programa de informação a que está “condenado” a assistir, sem alternativas. É o espectador que decide ver aquilo que quiser, às horas que lhe apetecer e com a garantia de que, a qualquer momento, pode mudar de programa, de canal ou até desligar a televisão, o tablet, o portátil ou o telemóvel. Pode ver filmes de arte e ensaio ou blockbusters de Hollywood, como pode assistir a debates intelectualmente estimulantes ou apenas à reunião de um grupo de pessoas a insultar-se mutuamente, apenas porque elas não concordam umas com as outras. Por mais algoritmos que existam à sua volta, sempre à procura de lhe ler os pensamentos ou a condicionar as suas escolhas, ainda é o espectador que tem hoje o poder de decidir o que quer ver. Em liberdade e com as consequências que essa liberdade lhe dá: tanto pode divertir-se como ficar irado ou até ofendido com o programa que decidiu ver. A escolha, num leque quase infinito de opções, foi dele e apenas dele. Quem se sentir ofendido com o humor dos brasileiros da Porta dos Fundos tem, por isso, à sua disposição o melhor remédio de todos: a liberdade de escolher o que quer ver. Mesmo que a palavra “liberdade” ainda seja, para alguns, uma blasfémia.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Ares de boçalidade

Sou uma criatura do meu tempo, e o meu tempo, em que pesem todos os seus aspectos positivos, é um tempo estranho e depressivo, em que educação, civilidade e delicadeza são qualidades pouco reconhecidas, e um mínimo de equilíbrio político já é tido como defeito.
É difícil manter o ânimo vendo a qualidade humana de quem chega ao poder: há uma boçalidade triunfante nos palácios e nas ruas que transforma qualquer otimismo, por justificado que seja, num sentimento pueril e deslocado
Cora Rónai 

No governo Bolsonaro, crescimento e desigualdade social estarão no centro do debate

Steve Werner já votou no Partido Democrata, mas fez campanha para Donald Trump em 2016. Ele era um dos trabalhadores que, diante de dificuldades econômicas, entraram em greve numa fábrica de caminhões da Pensilvânia, em outubro. Sem ligar para os dados que indicavam um aumento da desigualdade nos EUA, o operário estava convencido de que era preciso dar mais quatro anos para o presidente americano.

Ele disse aos repórteres Marina Dias e Lalo de Almeida que, num segundo mandato de Trump, todos os americanos começariam a sentir os benefícios da melhora da economia.

Personagens da série “Os Americanos”, da Folha, mostram que o crescimento econômico e a distribuição de renda agem como vetores diferentes em determinados grupos do eleitorado. Num Brasil em recuperação, esses elementos também estarão no centro do debate político.

A oposição fez sua aposta. Lula e outros líderes de esquerda sabem que Jair Bolsonaro deve ser favorecido pela melhora gradual no PIB. Eles investem, então, na ponta da distribuição desse crescimento.

Para os rivais de Bolsonaro, a retomada sob um regime de aperto fiscal deve ser marcada pelo achatamento de gastos sociais e pela geração de empregos de menor qualidade. Os efeitos da recuperação, portanto, seriam mais lentos para os mais pobres e para a classe média.

O próprio ministro Paulo Guedes se antecipou, em entrevista à GloboNews na semana passada: “Não olhe para nós procurando o fim da desigualdade social. Nos dê um tempinho. Nossa tentativa é diferente”.

Ainda assim, o presidente pode tirar proveito de uma sensação de bem-estar quando os ponteiros da economia se mexerem com mais vigor. A comparação com a fase recente de recessão é seu principal trunfo.

Bolsonaro aprendeu com seu ídolo americano que pode mobilizar o eleitorado com pautas simbólicas enquanto os efeitos da economia não chegam a todos. Essa é sua estratégia para que os brasileiros lhe deem mais quatro anos no poder.

Fábula no MEC: A roupa nova do rei

Quem pesquisa a história do vasto reino de Santa Cruz, depara-se com um capítulo pouco convencional. O texto - totalmente apócrifo, porém não menos verossímil - nos conta sobre um rei inseguro que buscava se afirmar. Reproduzo aqui o que li.

"Numa manhã de Abril, bateu às portas do palácio real um alfaiate. Os arautos de sua majestade correram para anunciá-lo como o maior conhecedor de alta costura para monarcas. Houve quem afirmasse que o homem vinha de terras muito distantes, e por isso seu nome fora até então desconhecido; houve quem jurasse que o homem de nada entendia de agulha e linha.

Fato é que o rei apressou-se em convidar o desconhecido para ser seu costureiro real. Em troca, o homem deveria conceber até o final daquele ano as vestes mais luxuosas que um monarca poderia ter. No afã de parecer mais "real", o rei não desconfiou que o suposto alfaiate de fato nunca tocara num brocado ou cosido qualquer fio de classe. Tarde demais.

Jorge Cerqueira
Já na primeira semana, o rei deu a seu novo alfaiate palacete e poderes de ministro. Disse-lhe que pusesse para fora todo aquele que discordasse de suas criações e ideias. Ou melhor, que defenestrasse publicamente seus opositores. Passado um mês, o novo Ministro da Alfaiataria Real havia substituído grande parte dos antigos costureiros e tecelões do rei, e cancelado grandes projetos já em curso. Da tal veste que prometera, nada.

Os meses seguintes foram de destruição. Aliado ao Mago da corte - um desses rasputins que sopram ao ouvido de todo soberano - o Ministro resolveu derrubar todas as estátuas de um tal Paulo Freire, então patrono nacional da alfaiataria e falecido havia mais de duas décadas. Chamando de mau gosto o que via de mau gosto, vociferou que súditos mal vestidos só podiam ser obra do defunto em questão. Disse que o homem havia sido feio em vida, e que nem os pombos eram dignos de lhe pousar na efígie. Chamou-o de energúmeno, mas continuou sem produzir a veste que prometera.

Com mais poderes que nunca, o Ministro da Alfaiataria passou então a cortar recursos das universidades de todo o reino. Com bombons na mão, afirmava que estudantes tramavam contra o rei e usavam os campi para plantar ervas proibidas. Mérito seu, há que se admitir, o Ministro reintroduziu no reino expressões até então em desuso, como foi o caso de "balbúrdia" e "égua sarnenta", em referência à mãe de seus opositores. Entretanto, enquanto se ocupava com assuntos vocabulares, parecia não avançar nos trajes prometidos ao rei.

O caos que parecia não ter fim deu lugar à uma cerimônia solene. Em nome da moral, da ordem e do civismo, o Ministro instituiu as Alfaiatarias Militares, onde jovens aprendizes seriam tutelados por soldados da reserva. Afinal de contas, o que mais se deve aprender que não sejam os símbolos pátrios? Enquanto a ideologia grassava, nada de veste real.

Ao final daquele ano, ainda sem seus prometidos trajes, o rei resolveu convocar seu Ministro para uma audiência. Queria saber como andava a encomenda e, sobretudo, o que fora feito do ouro que havia sido empenhado. Ao chegar ao palácio, sem medo na face e carregando um imenso baú, o Ministro finalmente revelou a seu soberano a tão esperada vestimenta. Mas, a não ser por um punhado de ideologia e falação, o baú estava completamente vazio.

Sem querer provar-se ignaro, o rei apressou-se em dizer que nunca vira vestes tão estupendas, tão dignas de um monarca. E assim, como numa onda, todos os senescais, vizires e menestréis da corte de Santa Cruz passaram a ecoar as maravilhas da nova roupa do rei, feita de um tecido tão raro e por mãos tão habilidosas que apenas a gente sensível - e fiel - poderia ver. Quem nada visse, diziam, ou era rude ou rebelde.

Quando saiu em procissão pela grande esplanada da capital, o rei estava nu em pelo. Resoluto, marchava carregando um rifle e sua coroa, mas nada que lhe cobrisse as vergonhas. O povo ali presente aplaudia e gritava palavras de ordem àquele que passava então de homem a mito. O alfaiate-de-faz-de-conta já estava longe dali quando um menino, tomando coragem, resolveu gritar:

— O rei está nu! (versões alternativas, entretanto, afirmam que a fala foi "O MEC parou!").

Nunca se soube ao certo se o encanto realmente se desfez, e se o povo de Santa Cruz viu que não havia roupa qualquer a cobrir seu monarca. Há quem jure que o desfecho ainda esteja por escrever.

Moral da história: Ser rei não te desobriga a enxergar o vazio.

Pensamento do Dia


Um sonho para o Brasil de 2020

Quis, para esse final de ano e a chegada de 2020, lembrar alguma história de meu passado que, em um dia como esse, tivesse o sabor da esperança, após o ano vivido de tormento político e social, de sombras e temores e, o mais grave, de brigas entre amigos e até familiares, envenenados por ideologias sem sentido no mundo da comunicação universal, em que nunca estivemos todos tão próximos.

Encontrei a lembrança no arquivo de minha memória. Foi durante minha estadia na Itália. Em um final de ano como o que viverei novamente agora no Brasil, uma amiga me perguntou se queria acompanhá-la para visitar, em um hospital para pobres, uma jovem africana que vivia, já sem esperança de cura, com um pulmão artificial e que era um exemplo de esperança aos outros doentes.

Era em Gênova. A jovem que havia fugido da África para trabalhar na Itália tinha um sonho naquele final de ano. Um sonho pequeno, mas que a ajudava a continuar viva: que a manhã chegasse para que o sol que entrava pela janela pudesse acariciar seu corpo jovem e ferido, preso naquele pulmão de aço. Eu perguntei por que para ela era tão importante aquele raio de sol em sua pele. Me disse: “Sou africana e para nós o sol é Deus. Ele nos dá a vida e a conserva. Eu me sinto completa e viva quando o sol me abraça”.

Vou comemorar pela vigésima vez meu final de ano neste Brasil que me adotou.

E gostaria que 2020 trouxesse a todos os brasileiros, principalmente aos que mais sofrem a pobreza e a injustiça, um sonho de esperança. Aquele que permitia à jovem africana continuar viva. Não posso esquecer que pelas veias de milhões de brasileiros corre sangue africano e com ele a herança de uma cultura milenar rica em experiências de vida. O Brasil é também um país de sol, que é feliz quando deixam que viva a vida em liberdade sem impor mordaças que humilham sua história.

Tudo o que significa, como começa a acontecer no mundo, retroceder aos tempos do obscurantismo e das frustrações de esperanças e de liberdades já adquiridas é querer roubar o deus do sol ao Brasil, algo que espero ser impossível

E essa herança africana com tudo o que isso traz de luz e sombras, de elos de escravidão e de riqueza humana e espiritual, criou esse país, um dos mais multifacetados em suas crenças e mais próximo ao sol das antigas mitologias com seu simbolismo de vida e de felicidade.

Tudo o que significa, como começa a acontecer no mundo, retroceder aos tempos do obscurantismo e das frustrações de esperanças e de liberdades já adquiridas, com o perigo de recuperar os instintos mais primitivos de violência e de vingança de uns contra outros, dos horrores das guerras reais e verbais, é querer roubar o deus do sol ao Brasil, algo que espero ser impossível.

Vamos nos alegrar que no Ano Novo comecem a aparecer os primeiros sintomas de recuperação econômica dos anos difíceis de desemprego e da queda de milhões de pobres à miséria. Mas que essas melhoras da economia global cheguem também às mesas dos que mais sofreram o açoite da pobreza e não fiquem somente nas dos que menos precisam, porque eles nunca são afetados pelas crises e até as usam para crescer ainda mais.

Para que 2020 possa ser um ano diferente, em que comecem a abrir as portas da esperança de uma melhora para todos, junto com o sol desse sonho que nunca deve se perder de poder viver melhor, é preciso, com a dose de esperança, o alerta da resistência contra os bárbaros que tentam desestruturar esse país assim como contra os que, enquanto dormimos em nossa falta de reação à barbárie, constroem muros de novas escravidões sem que percebamos até nos encontrarmos presos e impotentes.

São dois alertas que vi refletidos em dois magníficos poemas de um dos maiores poetas do século XX, o grego Konstantínos Kaváfis. São os poemas Muros e Esperando os Bárbaros. O dos muros que nos levantam no silêncio da noite e o pecado de nossa falta de vigilância diante da chegada dos bárbaros que “tentam impor suas leis”. Uma boa leitura de alerta para o ano que se inicia.

No poema Muros, escreve o poeta:

Sem consideração,
sem piedade, sem
vergonha
construíram grandes e altos
muros ao meu redor…
E por que não os vi quando erguiam os muros?

E conclui:

Imperceptivelmente me trancaram fora do mundo.
No outro poema Esperando os Bárbaros, escreve:
Quando os bárbaros chegarem
eles farão as leis


E narra como no fundo as pessoas haviam se acostumado tanto a que os bárbaros decidissem sua vida, que, quando uma noite não haviam chegado porque, das fronteiras, diziam que “já não existiam bárbaros”, se sentiram perdidas. E o final do poema é uma pergunta e um alerta que balança todos nós hoje:

E o que será de
nós agora sem bárbaros?
Essas pessoas eram uma espécie de solução
Terrível nostalgia dos tempos da tirania.


A melhor resistência, efetivamente, à chegada dos bárbaros e ao perigo de acordarmos um dia encurralados sem saída é que o Brasil, como a jovem africana do pulmão de aço, não renuncie ao melhor de sua identidade e história que é o amor por esse raio de sol, símbolo da liberdade e da felicidade, aproveitada juntos, em harmonia, sem que o país possa continuar dividido. Das culturas mais antigas à cristã, a figura de Satanás sempre foi a que tenta dividir e separar os homens, de semear cizânia e impedir-lhes de viver como eles desejam e não como gostariam os bárbaros como símbolo de intolerância e divisão.

Feliz 2020, portanto, aos meus leitores. A todos. Aos que às vezes gostariam que eu partisse deste país e aos muitos mais que me acolheram e me acolhem com esse calor humano e essa capacidade de contagiar a alegria de viver, que aqui senti sobre minha pele como em nenhum outro país. A todos eles “sonhos dourados” de felicidade, como dizem os italianos. Aquele sonho que alongava a vida e fazia sorrir a jovem africana, crucificada em seu pulmão de aço.
Juan Arias

Cai apoio à democracia no Brasil

O apoio à democracia como melhor forma de governo caiu sete pontos percentuais durante o primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, revelou uma pesquisa Datafolha divulgada nesta quarta-feira.

Entre os entrevistados, 62% consideram a democracia a melhor forma de governo. Na pesquisa anterior, realizada na semana do primeiro turno das eleições em outubro de 2018, o apoio a esse sistema político era maior, com 69%.

Houve, no entanto, um aumento de nove pontos percentuais em relação ao grupo para quem tanto faz se o governo é democrático ou ditatorial, passado dos 13%, em 2018, para 22%. Já o percentual dos que preferem uma ditatura permaneceu estável em 12%.

A pesquisa também revelou que houve um aumento na parcela da população que avalia que não há nenhuma chance de ocorrer uma nova ditadura, passando de 42% para 49%. Outros 46% disseram que acreditam que pode ocorrer uma ruptura democrática, o que representa uma queda de quatro pontos percentuais em relação ao levantamento anterior.

O Datafolha também questionou a avaliação do legado da ditadura militar (1964-1985). A pesquisa mostrou um aumento de oito pontos percentuais no grupo que considera que o regime deixou mais realizações negativas do que positivas, passando dos 51%, registrados em 2018, para 59% neste ano. Já 30% dos entrevistados consideram o legado positivo, outros 12% não souberam responder.

A pesquisa revelou ainda que a maioria dos brasileiros desconhece o Ato Institucional nº 5 (AI-5), –medida considerada o maior símbolo da repressão política durante a ditadura militar no Brasil. Editado em 13 de dezembro de 1968 pelo então presidente Artur da Costa e Silva, um dos cinco generais que governaram o país durante o regime militar, o decreto resultou no fechamento do Congresso Nacional e na suspensão de direitos políticos.

Durante o primeiro ano do governo de Bolsonaro, o AI-5 foi invocado em três ocasiões por pessoas do círculo do presidente. Além do ministro da Economia, Paulo Guedes, e do general Augusto Heleno, que chefia o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), o filho de Bolsonaro, o deputado federal Eduardo, defendeu a aplicação da medida para eventualmente silenciar a oposição.

Entre os entrevistados pelo Datafolha, 65% disseram que desconhece o AI-5 e apenas 35% afirmaram ter ouvido falar do ato.

A pesquisa sobre a democracia ouviu 2.948 pessoas nos dias 5 e 6 de dezembro em 176 municípios de todas as regiões do Brasil. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Maneira de viver carece de sentido

A tecnologia nos dá a falsa impressão de que podemos controlar o mundo físico e ditar os termos de nossa própria vida. Tudo, inclusive a imortalidade, parece estar a nosso alcance, mas é falso. A realidade é que em vez de aplacar nossos desejos e temores, a tecnologia os exacerba 
Richard Powers, Prêmio Pulitzer

Os cúmplices

Nenhum autoritarismo se instala ou se mantém sem a cumplicidade da maioria. É o que a história nos ensina. Não haveria nazismo sem a conivência da maioria dos alemães, os ditos “cidadãos comuns”, nem a ditadura militar no Brasil teria durado tanto sem a conivência da maioria dos brasileiros, os ditos “cidadãos de bem”. O mesmo vale para cada grande tragédia em diferentes realidades. Os déspotas não são alimentados apenas pelo silêncio estrondoso de muitos, mas também pela pequena colaboração dos tantos que encontram maneiras de tirar vantagem da situação. Em tempos de autoritarismo, nenhum silêncio é inocente —e toda omissão é ação. Esta é a escolha posta para os brasileiros em 2020. Diante do avanço autoritário liderado pelo antidemocrata de ultradireita Jair Bolsonaro, que está corroendo a justiça, destruindo a Amazônia, estimulando o assassinato de ativistas e roubando o futuro das novas gerações, cada um terá que se haver consigo mesmo e escolher seu caminho. 2020 é o ano em que saberemos quem somos —e quem é cada um.

Há várias ações em curso. E várias mistificações. Quem viveu a ditadura militar (1964-1985) conhece bem, guardadas as diferenças, como o roteiro vai se desenhando. No final de 2019, parte da imprensa, da academia e do que se chama de mercado começou a exaltar os sinais de “melhora econômica”. A alta da bolsa, a “queda gradual” do desemprego, a indicação de aumento do PIB em 2020 são elencados entre os sinais. Ainda que se esperasse mais, afirmam, “os inegáveis avanços do ponto de vista econômico”, entre eles a reforma da Previdência, “a inflação comportada” e os juros fechando 2019 “em patamar inimaginável” permitem —e aí vem uma das expressões favoritas deste seleto grupo de players— um “otimismo moderado”. Até a pesquisa de uma associação de lojistas divulgou uma incrível alta de 9,5% nas vendas de Natal, imediatamente contestada por outra associação de lojistas. É como se a “economia” fosse uma entidade separada da carne do país, é como se houvesse uma parte que pudesse ser isolada e sobre a qual se pudesse discorrer usando palavras enfiadas em luvas de cirurgião. É como se bastasse enluvar jargões técnicos para salvar os donos das mãos de todo o sangue.


Enquanto esse diálogo empolado e bem-educado do pessoal da sala de jantar, dos que sempre estão na sala de jantar, independentemente do governo, é estabelecido, bombas explodiram no prédio da produtora do programa de humor Porta dos Fundos, policiais matam como nunca nas periferias de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, ampliando o genocídio da juventude negra, o antipresidente legaliza o roubo de terras públicas na Amazônia, ambientalistas são acusados de crimes que não cometeram, ONGs são invadidas sem nenhuma justificativa remotamente legítima, adolescentes pobres morrem pisoteados porque decidiram se divertir num baile funk numa noite de sábado, indígenas guardiões da floresta e agricultores familiares são executados, as polícias vão se convertendo em milícias como se isso fosse parte da normalidade, e são também os policiais e “agentes de segurança” condenados por crimes os únicos que são libertados no indulto de Natal. Os sinais estão por toda parte, mas membros respeitados de instituições da República que deveriam ser os primeiros a percebê-los —e combatê-los— seguem inflando a boca para assegurar que “a democracia no Brasil não está ameaçada”.

A qual Brasil se referem estes senhores bem-educados? De qual país estes luminares do presente falam? Certamente não do meu nem do de muitos, não o das favelas onde as pessoas se trancam sabendo que não há porta capaz de barrar a violência da polícia, não este em que os policiais já exterminam os pretos sem responderem por isso há muito, mas esperam mais já que o extermínio vai sendo legalizado pelas beiradas. Não este em que os templos de religiões afro-brasileiras são invadidos e destruídos apesar de o Estado ser formalmente laico. Não este em que as lideranças da floresta enxergam o Natal e o Ano-Novo como os piores momentos do ano porque é o tempo de deixar a família e fugir, pelo menos até que as capengas instituições voltem do recesso.

Neste país, pessoas da sala de jantar, há muita gente escondida neste exato momento para poder virar o ano vivo. Não esperam brindar, desejam apenas não ter o corpo atravessado por uma bala —ou por quatro na cabeça, como ocorreu com Marielle Franco, num crime não decifrado quase dois anos depois. Democracia onde? Os escondidos, os ameaçados, os parentes dos mortos querem saber. Todos nós queremos muito viver neste país em que vocês enxergaram “inegáveis avanços na economia em 2019” e “instituições que funcionam”. Não fiquem com o endereço só para vocês.

As pessoas da sala de jantar, porém, só podem seguir na sala de jantar ditando o que é a realidade porque a maioria assim permite, omitindo-se ou aproveitando-se das sobras. São as pessoas, no dizer da historiadora franco-alemã Géraldine Schwarz, “que seguem a corrente”. A questão é se você, que lê este texto, vai engrossar o rebanho dos que seguem a corrente.

Não o rebanho de ovelhas. Esta imagem evoca passividade, engano, uma obediência absolvida pela inocência. Não. Este rebanho, o dos que agem se omitindo, ou o dos que agem tirando pequenos proveitos, “porque afinal é assim mesmo e quem sou eu para mudar a realidade”, é um rebanho de lobos. Porque o ativismo de sua omissão é cúmplice do sangue das vítimas, estas que tombam, estas que vivem uma vida de terror. É cúmplice também das ruínas de um país. No caso da Amazônia, é cúmplice das ruínas da vida da nossa e de muitas espécies no único planeta disponível.

Géraldine Schwarz escreveu um premiado livro chamado Os amnésicos (Flammarion), infelizmente sem tradução no Brasil. A historiadora, cuja família foi uma dessas que obteve vantagens no nazismo, mas se considerava inocente do Holocausto, deu uma excelente entrevista ao jornalista Fernando Eichenberg, em O Globo. Ela aponta como a adesão aos déspotas do século 21 mantém a estrutura da adesão aos totalitarismos do século 20:

“No imaginário coletivo, temos tendência a dividir a sociedade em três categorias históricas no século 20: heróis, vítimas e carrascos. Na verdade, a maioria da população não se reconhece em nenhuma delas. É a via mais fácil não se incluir em nenhuma das três categorias, mas apenas seguir a corrente. Há o magnífico filme baseado no romance de Alberto Moravia [O conformista, de Bernardo Bertolucci], que mostra muito bem como o conformista acaba aceitando o que antes era inaceitável. No ensino da história, muitas vezes por meio da ficção ou de comemorações, temos uma visão um pouco distorcida do passado. Se tem a impressão de que a população não teve nenhum papel nessa história. E teve, muitas vezes, um papel de pilar e consolidador de ditaduras. É nisso que a democracia tem um papel importante, pois o povo tem os meios de impedir um golpe e a instalação de um regime criminoso. Eleger Bolsonaro, por exemplo, para mim, é brincar com o fogo, pois parece alguém capaz de tudo.”

A historiadora defende a memória como um dos principais instrumentos de defesa da democracia. “O importante é tomar consciência de nossa falibilidade e reconhecer que podemos nos transformar também em um bárbaro”, afirma. "A história não se repete, mas os métodos de manipulação, sim, porque a psicologia humana não muda. Em um contexto de crise, em meio a um grupo, o homem terá reações similares. Um dos métodos é difundir o medo, muitas vezes exagerado em relação à realidade. [...] Trata-se de confundir a fronteira entre o verdadeiro e o falso, desorientando totalmente as pessoas. Perde-se as referências, não se sabe mais no que acreditar. E, como dizia [a filósofa alemã] Hannah Arendt, quem não acredita em mais nada é manipulável à vontade. Ao ponto de inverter seus valores: o que era bom ontem já não o é mais hoje. É o que se observa em várias sociedades do mundo. As pessoas que, hoje, apoiam Jair Bolsonaro, há dez anos provavelmente defendiam os direitos humanos. Por isso que o ensino do Terceiro Reich é capital. Na história há muito poucos exemplos de uma sociedade tão civilizada, moderna, intelectual, que derivou rapidamente para a barbárie. É um ensinamento universal, que serve de alarme a todo mundo.”

O problema é que países como o Brasil não produziram a memória da ditadura justamente para absolver os assassinos, sequestradores e torturadores de Estado. A condição da retomada da democracia foi o perdão ao imperdoável. Essa política de amnésia resultou, em 2018, na eleição de um presidente que tem como herói um torturador e assassino de civis. Diante de uma população desmemoriada, ao final do primeiro ano do governo do déspota eleito vimos um roteiro semelhante se repetir, com as necessárias adaptações a uma época impactada pela Internet. Ainda que a memória no Brasil seja frágil, porém, ela existe. Não há desculpa para omissão. Nem há qualquer inocência no suposto conformismo.

O problema, no Brasil e em outros países que vivem processos políticos semelhantes, é também de memória recente. Esta que está sendo construída agora, não só nas mentiras disseminadas nas redes sociais por Bolsonaro e sua familícia, mas também nas narrativas que isolam a economia da carne que sangra. Como se a evocação do AI-5 por Paulo Guedes não tivesse nada a ver com suas escolhas econômicas, como se o Posto Ipiranga fosse radicalmente diferente do dono do posto. Está em produção uma memória falsa, o que é pior do que desmemória. Pior do que não lembrar é lembrar de um acontecido que nunca aconteceu.

Entre as tantas perversões da ditadura, uma se mostrava particularmente enlouquecedora para aqueles que escolheram lutar contra o regime de opressão. Enquanto homens e mulheres eram vigiados e perseguidos dia e noite, afastados de seus postos, demitidos de seus empregos, transformados em párias e criminalizados, enquanto livros, jornais, filmes e peças de teatro eram censurados, enquanto brasileiros precisavam deixar o país para salvar a vida ameaçada pelo Estado, enquanto os que ficavam eram sequestrados, torturados e mortos por agentes do Estado, uma maioria fingia que nada estava acontecendo. Fingia tanto que acabava acreditando que não eram gritos de dor e de terror o que ouvia. Era o cidadão de bem que apenas seguia a corrente, protegendo os próprios interesses e avaliando o que poderia ganhar com o estado das coisas.

Começamos a testemunhar hoje o mesmo mecanismo perverso. Com todas as desculpas possíveis, auxiliadas pela polarização que desloca o perigo para uma falsa oposição. Com todos os erros e os crimes do PT no poder, o antipetismo não é justificativa aceitável para alguém seguir a corrente. Não tem mais clima para se fingir de iludido. Basta ter vergonha na cara para perceber que não se trata mais do PT. Se trata da corrosão do que ainda resta de democracia no Brasil. Se trata da autorização para roubar enormes pedaços de floresta, desmatá-los e botá-los no nome dos autores do crime. Se trata da conversão das forças de segurança em milícias com autorização para matar. Se trata da criminalização de quem defende os mais frágeis, usando para isso o aparato do Estado. Se trata de genocídio de negros —e também de indígenas.

Há muita gente se fingindo de ovelha para lavar as mãos diante do que vive o Brasil. Mas há também gente angustiada perguntando o que fazer diante do que já não consegue deixar de ver. A estes, respondo que ninguém vai dar a resposta. Esta resposta terá que ser criada, coletivamente, por iniciativa dos que fazem a pergunta. Em cada profissão há o que fazer. Este é um momento em que precisamos fazer melhor o que sabemos fazer, mas também precisamos fazer bem o que não sabemos. Apenas o que sabemos já não é suficiente. O que somos já não é suficiente. Temos que ser melhores do que somos para enfrentar este tempo em que já não há tempo. E temos que ser juntos, fazendo laços e tecendo redes entre nós.

Este é o desafio de 2020. O ano novo não está dado. 2020 só será novo se nossa resistência resgatar o presente das mãos dos déspotas. Esta é a única resolução possível diante do que vivemos e do que testemunhamos. Cada um de nós precisa se responsabilizar pelo horror do nosso tempo.
Eliane Brum