sexta-feira, 5 de julho de 2019

Um sindicalista fantasiado de liberal: o estelionato está nu

Não sou um dos tantos que comprou a narrativa que aventava o início de uma “nova Era” caso Jair Bolsonaro fosse eleito, tão alardeada pela sua campanha durante as últimas eleições. Portanto, não seria correto dizer que me decepcionei com a postura do presidente nas últimas horas, quando buscou a todo custo favorecer a categoria dos funcionários do setor de segurança no texto da reforma da Previdência.

No fim das contas, Bolsonaro só faz agora o que vem fazendo há 30 anos, desde o momento em que ingressou na carreira política: seguir a sua natureza de sindicalista. Assim, escancara de maneira inequívoca o autêntico estelionato eleitoral que permeou a sua vitória nas urnas, ao se fantasiar de liberal na economia — com o apoio decisivo de um Paulo Guedes ávido pelo palanque político, e um bom naco do mercado financeiro que não faz a menor ideia do que seja o Brasil.

É importante deixar isso claro.

A gestão atual não está sendo apenas calamitosa do ponto de vista moral e civilizatório. Ela redefine o conceito de despreparo ao gerar crises em série pelas razões mais amalucadas, seja por meio de faniquitos de filhos do mandatário, seja pelo amadorismo de ministros de Estado. Representa uma mentira. E a disposição da sociedade para se autossabotar.

Não está certo se merecemos tamanha bênção, mas a nossa grande sorte é que, desta vez — ao contrário da última, há 16 anos —, o populismo com viés protecionista escolhido para tocar o país encontra um cenário bem diferente. Menos alvissareiro.

Para começo de conversa, Lula era mais inteligente do que Bolsonaro. Soube ser pragmático ao ignorar o clamor dos radicais à esquerda e aperfeiçoou a política econômica que já vinha dando certo no governo Fernando Henrique. Não deu tiro no pé. Não esvaziou agendas que fossem fundamentais para o seu projeto de poder e nem fritou aliados em público.

Em segundo lugar, noves fora a inaptidão do atual governo para a tarefa que lhe foi conferida na esteira do antipetismo, não há hoje uma conjuntura internacional favorável para ser instrumentalizada, como fez o PT. Bem ao contrário, a realidade hoje aponta para uma desaceleração da economia chinesa e até mesmo recessão da americana.

Por fim, também no sentido inverso ao de quando Lula assumiu, Bolsonaro de fato recebeu uma herança maldita. Ainda que o governo Michel Temer tenha sido capaz de entregar menos pepinos do que recebeu de Dilma Rousseff, o estrago causado pelo petismo, tanto do ponto de vista ético quanto da competência, não deve ser superado tão cedo.

Enfim, a boa notícia é que, para além da lavagem cerebral sugerida pelo olavismo e a repulsa à esquerda, Jair Bolsonaro não se mostra capaz de sobreviver politicamente. Acima de tudo, porém, apesar de as chances de que o atual zeitgeist perdure, cabe estabelecer a verdade dos fatos: o atual presidente da República não é apenas ruim, mas uma farsa. E a sua existência no cargo representa um inegável estelionato eleitoral. Um autoengano do qual, arrisco-me a dizer, tão cedo não vamos nos recuperar.

A menos que passemos a prestar atenção nos sinais, na conduta e nas inconsistências já tão abundantes entre o “mito” e o presidente.

Brasil, professor de meio ambiente


Brasil ocupa 99° lugar em ranking de proteção à infância

A vida das crianças e adolescentes em todo o mundo melhorou consideravelmente nos últimos vinte anos, revelou um novo estudo da organização não governamental Save the Children. O Brasil, contudo, é um dos países que registraram avanços mais discretos desde 2000.

O país ocupa a 99ª posição em um ranking de 176 nações sobre proteção à criança elaborado pela instituição. Em relação a 2018, quando ocupava o 93º lugar, pouco mudou.

O Brasil se enquadra atualmente no grupo de países classificados pela ONG como aqueles onde “algumas crianças estão perdendo sua infância”.


Apesar de ser a maior economia da América Latina, está atrás de Cuba, Chile, Argentina, Costa Rica, Uruguai, Peru, México, Equador e outros países no ranking. Também perde para a isolada Coreia do Norte (65º) e a conflagrada Palestina (84º).

O Estado brasileiro demonstrou pouco progresso em sua capacidade de cuidar das crianças. No ranking de nações que mais melhoraram e prosperaram, ficou no 157º lugar.

“Há muitos países na região que melhoraram mais e isso se deve, em parte, à desigualdade social e aos altos índices de violência brasileiros”, explica a VEJA Victoria Ward, diretora da Save the Children para América Latina e Caribe.

O Brasil não é o único a chamar atenção pela violência contra menores. “A América Latina é a região onde as taxas de homicídio infantil são mais altas: setenta crianças ou adolescentes assassinados todos os dias”, afirma a representante da organização.

Em nível mundial, porém, o cenário é de otimismo. Atualmente, há 94 milhões de menores em situação de trabalho infantil a menos do que em 2000, segundo a Save the Children. Nesses dezenove anos, o número de crianças mortas caiu 4,4 milhões, e o de casamentos civis, 11 milhões.

Entre os países com melhores índices de proteção à infância estão Singapura, Suécia, Finlândia, Noruega e Eslovênia. Ao todo, 173 nações apresentaram progresso nos últimos dezenove anos. Apenas Síria, Venezuela e Trinidad e Tobago ficaram de fora da lista, com resultados piores do que os registrados anteriormente.

O avanço na agenda de proteção à criança não é suficiente para superar as mazelas ainda existentes. Cerca de 690 milhões de menores em todo o planeta ainda têm seus direitos mais fundamentais desrespeitados. Esse número corresponde a um quarto das crianças do mundo.

Presidente reinante

Bolsonaro não procura aliados, seleciona súditos e elege inimigos 
Josias de Souza 

O homem na Lua e muita gente nua

O cinquentenário da chegada do homem à Lua, no próximo 20 de julho, não é apenas data de festa e júbilo pelo que a ciência e a tecnologia alcançaram. O maior e mais admirável feito da História humana nos obriga, também, a uma profunda reflexão crítica sobre o comportamento e a atividade de cada um de nós, habitantes do planeta: o que aprendemos com aquela façanha de amor e dedicação à ciência, ou de que nos serve no dia a dia?

A própria ciência tem centenas de respostas, desde a antevisão de desastres naturais até as previsões da meteorologia, além do que descobre aos poucos, ao entender o universo.

Nosso humanismo, porém, pouco – ou nada, até – aproveitou para valorizar nossa vida na Terra a partir da comprovação da desolação da Lua, onde tudo é inércia e morte. Aqui, onde a água dá cor à vida, tratamos o planeta com desprezo, como se a natureza não nos protegesse e nossos semelhantes fossem indesejáveis intrusos.


Fui um dos bilhões de habitantes da Terra que, naquela madrugada do domingo 20 de julho de 1969, assistiram ao vivo, pela televisão, aquilo que mais parecia o deslumbramento de um sonho fantástico. Até então, a inatingível Lua só era perscrutada pelos telescópios. Ou era, apenas, um relato poético, um Sol noturno dos namoros apaixonados. “Levar-te-ei à Lua!”, exclamavam os namorados (assim, em mesóclise), no êxtase da paixão.

Naquele momento, a façanha da astronáutica mudava a correlação de forças na “guerra fria” e os Estados Unidos passavam à frente da União Soviética. Doze anos antes os russos haviam lançado o Sputnik e em 1961 Iuri Gagarin fizera o primeiro voo espacial. Naqueles tempos de 1950-1970, tudo se circunscrevia à disputa entre as duas superpotências e isso fez a repercussão política do feito superar a visão humana e da ciência.

Hoje, a cada dia mais sabemos da desolação lunar. As fases da Lua ganharam suportes científicos que explicam sua influência na Terra. Assim, a todo instante o universo e o Sistema Solar passam, também, a fazer parte da nossa vida. A astronomia tem nova e mais ampla dimensão. Se ainda indagamos os astrólogos para saber do amanhã, é apenas por nosso apego ao lúdico, esse atávico amor ao inesperado, originado na tradição e em nosso apego à fantasia.

Não aprendemos, porém, a grande lição de o ser humano ter pisado na Lua. Em vez de tentar entender o universo, ou em vez de nos sentirmos pequenos ante ele, a cada dia destruímos nosso planeta, obra suprema do processo da Criação.

Nos últimos cem anos, em nome do “progresso”, devastamos a Terra muito mais do que a destruição acumulada ao longo dos bilhões de anos do planeta. Sabemos que o aquecimento global é catastrófico e que as mudanças climáticas nos levarão a uma desolação comparável à da Lua, mas permanecemos praticamente inertes. Seduzidos pela cobiça e por suas prazerosas pequenezes, continuamos a desmatar imensas áreas verdes, como a Amazônia. Ou a poluir e degradar terras, águas e ar, como em Brumadinho ou em Mariana.

A extração e o uso dos combustíveis fósseis – em especial, o carvão – são apontados pela ciência como os principais responsáveis pela hecatombe do aquecimento global. Com base nessa constatação, as reuniões intergovernamentais promovidas pela ONU vêm advertindo para o horror à vista e fixando datas e metas para evitá-lo, ou acertando acordos sobre o clima. O de Paris, mais recente, ampliou o que fora acertado já em 1992 na cúpula de chefes de Estado no Rio de Janeiro. O papa Francisco aprofundou o debate na encíclica Laudato Si’, fez a teologia tocar no tema fundamental – a vida – num alerta que ele próprio renova a cada momento.

A série de intermináveis pequenezes do dia a dia, porém, desvia nosso olhar do essencial e vemos tudo sem enxergar nada. É como anoitecer ao meio-dia, à luz do Sol, e usar lanterna ou lampião para vislumbrar o próprio rosto.

Imprensa, rádio e televisão mostram, todo dia, nosso desdém pela natureza, que é vida em si. As geleiras derretem-se na Groenlândia e no Himalaia. Na Antártida, no inverno do Hemisfério Sul, a terra preta mostra que o gelo sumiu.

O desdém irresponsável torna-se criminoso também aqui, ao nosso redor. A poucos quilômetros da nascente, as águas do rio Tietê estão infestadas de espuma branca industrial, num horror antes visível apenas na cidade de São Paulo. A Petrobrás e as demais petroleiras que exploram o nosso litoral jogam no oceano (sem nenhum tratamento) o equivalente a mais de 2 mil caminhões de cascalho e areia encharcados de óleo, por ano. E o fundo marítimo se infesta de HPA, um hidrocarboneto de alto poder cancerígeno.

Como serão os segredos devastadores da exploração do nosso pré-sal?

Ao norte do País, a cobiça continua a desmatar a Amazônia. Agora o atual governo nos expõe ao ridículo espetáculo circense de que a Alemanha e a Noruega tenham de “convencer” nosso ministro do Meio Ambiente a proteger nossa floresta. Ao sul, o projeto de uma mina de carvão a céu aberto degradará, em poucos anos, o rio Guaíba, que abastece a capital gaúcha.

Somos o país que mais consome agrotóxicos, permitindo aqui até pesticidas proibidos na Europa e nos Estados Unidos. A lista de nosso irresponsabilidade é longa, sempre incompleta por ser interminável...

Faz 50 anos, ciência e tecnologia levaram o homem à Lua. Não aprendemos, porém, a viver em paz e em solidariedade. Somos difusos e complicados, ternos e brutais. As religiões e filosofias surgiram para nos emendar ou regenerar, mas o delírio da condição humana não se dissipou.

Hoje conhecemos a Lua, mas cada vez há mais gente vivendo na rua, ignorando o mundo, às vezes quase nua.
Flávio Tavares

A lua de mel 'caliente' de Bolsonaro

Em homenagem a Jair Bolsonaro, que curte metáforas amorosas para cortejar ou alfinetar, vamos fazer aqui uma cortesia ao presidente. Explicar a ele que, se deseja mesmo tentar a reeleição em 2022, precisa se despir de suas convicções mais íntimas e profundas. Porque elas “no pasarán”. Nem no Senado de Alcolumbre, nem na Câmara de Maia, nem num Supremo Tribunal Federal vitaminado por um futuro ministro evangélico. Bolsonaro terá que fingir ser uma outra pessoa.


Os primeiros seis meses de mandato costumam seguir um ritual de namoro e de esgrimas políticas. Não de chicotes, sarcasmos e sopapos em rivais e aliados. Com a cumplicidade tosca e grosseira dos filhos Carlos, Flávio e Eduardo, e daquele filósofo dos States, Bolsonaro fritou e demitiu ministros, generais, secretários e presidentes de estatais. Às vezes com humilhações públicas. Uns saíram atirando de volta, outros emudeceram. E até hoje todo mundo sabe que a pasta de Educação continua vaga – pois não há quem em sã consciência apoie Abraham Weintraub como ministro.

A primeira-dama Michelle sumiu depois daquele tour virtual nos aposentos do Alvorada, exibido pelas amigas. Pode ter sido coincidência. A ministra Damares, a que viu Jesus na goiabeira, também desapareceu. O ministro do Turismo, com seus três nomes, Marcelo Álvaro Antônio, é desconhecido de 99% dos brasileiros e pode ser convidado a catar laranjas em outro lugar. O general Augusto Heleno prova o gosto do veneno de Carlos, o filho conspirador. O ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni anda cabisbaixo depois que o chefe o tirou da articulação política. Onyx não tinha sido convidado para a semifinal da Copa América no Mineirão?

Mas esse texto não é para confrontar Bolsonaro. Nem para alertá-lo de que estádio não é lugar para fazer “arminha” e rodopiar a bandeira como caubói. Não é para lembrar que simulacros de pactos com o Legislativo e Judiciário desmoralizam o governo. Ou que não pega bem atropelar sua equipe, ofender manifestantes, fazer piadinha vulgar e peitar o Congresso. Óbvio.

Não é para torcer contra o Brasil. Ainda mais numa semana em que se começou enfim a votar uma reforma da Previdência – mesmo sem ser a do Posto Ipiranga. E comemoramos o acordo comercial histórico entre o Mercosul e a União Europeia, negociado há 20 anos.

Esse texto é propositivo. Para avisar a Bolsonaro que ele não conseguirá aprovar porte e posse de armas e fuzis para os cidadãos, não num país com recorde de homicídios. Pare de remendar e reeditar decretos, já está no sétimo. Não conseguirá acabar com os radares, nem com a multa da cadeirinha, nem com o exame toxicológico dos motoristas profissionais. Ainda mais num trânsito que mata uma pessoa a cada 15 minutos! Não conseguirá continuar a desmatar a Amazônia, senão ameaçará o acordo comercial com a Europa. Não conseguirá continuar a liberar pesticidas a rodo. Não conseguirá descriminalizar a homofobia, porque o STF já votou e o irritou. Não conseguirá fazer de Paraty uma Cancún, ainda mais agora que a Unesco pode promover a região a Patrimônio da Humanidade. Não conseguirá empurrar o nióbio como a redenção do país.

Como o presidente acha o Brasil “ingovernável”, por que tentar a reeleição? Desista ou pare com as caneladas e obsessões. Depois da lua de mel, os “conges” costumam se estranhar, se houver assédio e violência. Bolsonaro está sob pressão, fora e dentro de casa. Encurralado, pode se transformar. Há quem acredite em milagre.

Pensamento do Dia


Mudou o clima

Em 1972, na primeira conferência da ONU sobre meio ambiente, em Estocolmo, o chefe da delegação brasileira, Costa Cavalcanti, ministro do presidente Médici (1969-1974), proclamou que a política oficial era "desenvolver primeiro, e pagar os custos da poluição depois".

A lenda lhe atribui o brado retumbante: "Bem-vinda a poluição!". Com efeito, aqui se acreditava que a causa ecológica era pretexto do primeiro mundo para barrar o caminho do país ao progresso.

Desde então muita coisa mudou. Em 1987, o relatório da Comissão Brundtland da ONU, "Nosso Futuro Comum", reconhecendo a natureza global do desafio, consagrou o princípio de que o desenvolvimento não poderia se dar às custas da destruição dos recursos do planeta: teria de ser sustentável do ponto de vista ambiental.

Lentamente, por meio de árduas negociações, foram se erguendo nas instituições multilaterais as estruturas normativas —acordos, convenções, painéis— do que passaria a se chamar regime internacional de mudanças climáticas, cuja expressão mais recente é o Acordo de Paris de 2016.


Valendo-se de seu imenso patrimônio ambiental, o Brasil enfrentou os dilemas comuns. Entre eles, uma divisão de custos e responsabilidades, aceitável para sociedades menos ou mais industrializadas. Tendo sediado em 1992, no Rio, a Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, o país participou de todas as iniciativas seguintes, transformando sua atuação em recurso de "soft power" da política externa.

Em paralelo, uma ideia avançada da questão ambiental, inscrita na Constituição de 1988, permitiu que se caminhasse também no plano interno, embora sem superar a falsa antinomia entre progresso e preservação. Ela se reproduz em todo o espectro político —no caso mais notório, culminou com o divórcio entre Marina Silva e o petismo.

Agora, Jair Bolsonaro exuma o ossificado enfoque de Costa Cavalcanti. O Ministério do Meio Ambiente, em sintonia com interesses privados ávidos por ganhos imediatos, se abate sobre os instrumentos de regulação e monitoramento sem os quais nenhuma política ambiental é possível.

Mas os tempos são outros. Nos foros internacionais, declarações desatinadas dos ministros das Relações Exteriores e da Segurança Institucional, ecoando as do chefe, cobriram de reprovação e desconfiança o modo como somos vistos por países engajados no front ambiental.

O bem-vindo acordo comercial entre Mercosul e União Europeiaestabelece compromissos que incluem os do Acordo de Paris —e vão além. Para honrá-los, o governo terá de mudar o discurso e a orientação de suas políticas.
Maria Hermínia Tavares de Almeida

'Presidente oscila entre miudezas e o mundo da lua'

>Noutros tempos, os constrangimentos eram provocados por opositores. Hoje, Jair Bolsonaro é quem causa embaraços ao governo. Na articulação para aprovar a reforma da Previdência, o ministro Paulo Guedes afirma uma coisa e o presidente pratica o oposto. Em conversa com o blog, um integrante da equipe do ministro da Economia se queixou: "Numa hora em que todos se mobilizam por uma boa reforma, o presidente Bolsonaro oscila entre as miudezas e o mundo da lua".

O auxiliar de Guedes impressionou-se com o noticiário sobre um café da manhã que Bolsonaro ofereceu a deputados da bancada ruralista. O anfitrião pediu aos comensais apoio para salvar na Câmara o seu decreto sobre armas. "Quando foi para o mundo da lua, o presidente reiterou o lobby pela concessão de aposentadoria especial para policiais militares, federais e rodoviários federais, que já são privilegiados", lamentou o membro da equipe econômica.


Logo que a primeira versão do relatório da Câmara sobre reforma da Previdência veio à luz, há 20 dias, Paulo Guedes comentou o conteúdo em timbre corrosivo. Disse que os deputados renderam-se às "pressões corporativas" dos servidores do Legislativo. "Acho que houve um recuo que pode abortar a nova Previdência", declarou.

Agora, chamado pelos policiais de "traidor", Bolsonaro dobra os joelhos diante de sua corporação predileta, deixando seu ministro sem chão e sem língua. "Dizer o quê?", pergunta o auxiliar de Guedes, sob a proteção do anonimato.

Há um quê de burlesco na conjuntura brasiliense. O time de Paulo Guedes, mãos postas, reza em silêncio para que as articulações de Bolsonaro não prosperem. Na comissão especial, aprovou-se o texto-base sem o aditivo tóxico dos policiais. Mas Bolsonaro não se deu por vencido. Apela a deputados amigos que tentem desvirtuar o desejo do Posto Ipiranga por meio de emendas.

Quando a seca criou os 'campos de concentração' no sertão do Ceará

Retirantes, Cândido Portinari 
Conceição atravessava muito depressa o Campo de Concentração. Às vezes uma voz atalhava:
- Dona, uma esmolinha….
Ela tirava um níquel da bolsa e passava adiante, em passo ligeiro, fugindo da promiscuidade e do mau cheiro do acampamento.
Que custo, atravessar aquele atravancamento de gente imunda, de latas velhas e trapos sujos!








No romance O Quinze, a escritora Rachel de Queiroz (Fortaleza, 1910) narra a seca histórica de 1915 que castigou o Nordeste brasileiro e descreve parte do que foram os chamados campos de concentração da seca. Embora não fossem campos de extermínio, como logo depois seriam criados na Alemanha, os campos de concentração espalhados pelo Ceará no início do século XX tinham ao menos um objetivo equivalente ao nazista: isolar dos demais a população indesejada, a “gente imunda” que tentava sobreviver à seca do sertão fugindo para a capital.

Desses campos, que no século passado confinaram a fome, a miséria e doenças, pouca coisa sobrou. É o município de Senador Pompeu, uma cidadezinha de quase 30.000 habitantes, a 270 quilômetros de Fortaleza, o único que ainda guarda ruínas daquela época. E se antes era símbolo da pobreza, hoje o local se prepara para ser tombado como patrimônio histórico. A oficialização deve ocorrer com toda pompa e cerimônia até o final do mês na Prefeitura da cidade.

O primeiro campo surgiu em Fortaleza em 1915. Naquele momento, a capital cearense ostentava uma elite de intelectuais e empresários que ainda colhiam os frutos do boom da exportação de algodão do século anterior. Mas junto a essa eufórica burguesia, chegavam à cidade também retirantes da fome, potencializada pela grande seca de 1877. O crescimento de habitantes elevou Fortaleza à sétima maior população urbana no país na virada do século XIX para o XX. E com isso, vieram também medidas higienistas.

Na zona oeste da cidade, o governador Benjamin Liberato Barroso construiu o primeiro campo, chamado Alagadiço. Em tese, a proposta inicial era abrigar os refugiados dando-lhes mínimas condições de sobrevivência. Durou o ano todo de 1915, até ser desativado em dezembro. Mas essa não seria o fim da história. Uma nova estiagem acometeu o Nordeste em 1932 e desta vez, outros sete campos foram espalhados estrategicamente em rotas de migração pelo Estado do Ceará, impedindo assim a chegada à capital. Eram instalados próximos às linhas férreas, por onde os retirantes tentavam chegar a Fortaleza. Nas estações de trem, eles eram encaminhados para os campos, com a promessa de trabalho. Sem nenhuma outra opção, seguiam a rota.

Cemitério do 'campo de concentração' em Senador Pompeu (CE).
Cemitério do 'campo' em Senador Pompeu, porque nem mesmo
os flagelados eram enterrados junto aos demais (Henrique Kardozo)
Frederico de Castro Neves, professor de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), lembra que, além da proximidade às ferrovias, os campos eram instalados sempre ao redor de alguma obra estrutural, o que atraía a mão-de-obra. “O campo estava vinculado a uma obra pública, a uma situação de trabalho”, explica. E Senador Pompeu era um dos municípios que obedeciam a essa arquitetura. Ali, a companhia inglesa Norton Griffiths & Company se estabeleceu na década de 1920 para construir a barragem do açude Patu. As obras foram interrompidas na década seguinte e sobraram somente as construções, como a casa da administração, o ambulatório, estação de trem e a casa das máquinas, hoje, as poucas ruínas que restaram dessa história.

Era ao redor dessa estrutura que viviam, em espécies de barracas, os flagelados da seca. “Aqui nesta janela, era onde eles faziam filas por um punhado de comida”, explica Valdecy Alves, um advogado nascido em Senador Pompeu e que se autointitula "militante dos movimentos sociais", ao chegar no casarão que era a sede da antiga administração da companhia. “A comida era uma mão cheia de farinha, rapadura, sal, café torrado no sangue de boi para aumentar a quantidade de ferro e, às vezes, uma bolacha”, diz, sob um sol fortíssimo, em meio às ruínas.

Vestiam-se com sacas de farinha, os cabelos lhes eram raspados e viviam submetidos a condições de higiene e limpeza extremamente precárias. Assim, morriam aos montes, de fome, sede e doenças. Os flagelados da seca viviam tão à margem da sociedade, que nem mesmo seus cadáveres se misturavam aos demais. Por isso, a poucos quilômetros da casa da administração fora construído um cemitério somente para essas vítimas. “Não se misturavam os demais mortos da cidade”, conta Alves.

Mas, com o tempo, as almas dessas vítimas foram consideradas divinas. “Até hoje vem gente aqui no cemitério pagar promessa”, conta Alves, apontando para o muro branco de doer os olhos sob a luz do sol. “Todo ano vem uma pessoa aqui e pinta este muro em pagamento de alguma promessa". As almas da barragem, como são chamados os que morreram naquele local, são louvadas em um evento anual realizado em homenagem a elas, a Caminhada das Almas, uma romaria que ocorre todo mês de novembro desde 1982.

Imagem do Dia

U M.T. Hla (Burma, 1874 -1946)

Brasil, ainda infeliz e com medo!

Faz quatro anos, o Brasil tem medo e é infeliz como nunca, pelo menos no último quarto de século, por aí.

O Índice de Satisfação com a Vida (ISV), por exemplo, nunca foi tão baixo por tanto tempo desde que o Ibope começou a fazer tal pesquisa para a Confederação Nacional da Indústria, em 1996. O Índice de Medo do Desemprego flutua nos níveis mais altos em 20 anos desde o início de 2015.


O prestígio de Jair Bolsonaro está em patamar neutro (nível equivalente de notas “ótimo” e “péssimo”), mas fraco para um presidente em início do mandato, segundo as pesquisas CNI-Ibope. Supera os desastres de popularidade de Dilma 2 e de Michel Temer, mas equivale ao de Dilma 1 depois do colapso de junho de 2013, ao de Lula 1 no pior do mensalão e ao de fins de FHC, em 2002, desgastado por oito anos de mandato, pela desvalorização do real e pelo apagão.

O ISV e o Índice de Medo do Desemprego (IMD), também da CNI-Ibope, e outras medidas de satisfação pessoal, política e econômica deram uma melhorada depois da eleição, como costuma ocorrer depois do voto. Em fevereiro, o desânimo voltou a aumentar. Entre os mais pobres, o medo do desemprego e a satisfação com a vida não se moveram das profundezas a que desceram na recessão. Há uma notável disparidade de classe.

A confiança empresarial e dos consumidores medida pela FGV parou de piorar em junho, mas vai tão mal quanto no início de 2018. A ansiedade é maior entre micro e pequeno empresários da indústria, segundo pesquisa Datafolha para o sindicato paulista do setor, o Simpi.

Em junho de 2018, 76% desses empresários acreditavam que a “crise ainda é forte, afeta muito os negócios, e não dá para prever quando a economia vai voltar a crescer”.

Com a eleição, o ânimo melhorou. Os pessimistas eram apenas 32% em fevereiro. Em maio, voltavam a ser espantosos 64%. A expectativa de demissões voltou a crescer. Sacolejo semelhante de opinião também ocorreu no mercado financeiro.

É sempre difícil cravar motivos da piora de ânimos, mas houve notícias que costumam abalar esperanças.

Tumulto no noticiário político tende a aumentar o pessimismo econômico; não faltou balbúrdia no Planalto. Alta do preço dos alimentos abala a avaliação do governo e a confiança; houve uma carestia de comida, devida ao tempo ruim.

A polarização odienta, para o que contribui o governo de extrema direita de Bolsonaro, afasta simpatizantes, para dizer o menos. Enfim, além da promessa de aumento do Bolsa Família, o governo nada disse aos mais pobres.

A esperança no recém-eleito sustentou o prestígio de Lula 1 no ano ainda ruim de 2003.

A reeleição elevou até mesmo o prestígio de Dilma Rousseff a um patamar mais alto que o de Bolsonaro agora em junho. A avaliação da presidente logo sofreu um colapso com o estelionato eleitoral, o que derrubou os ânimos nacionais para os níveis deprimidos que vemos desde então.

É possível que a economia deixe de piorar a partir deste terceiro trimestre. A provável queda dos juros e a reforma da Previdência podem animar o terço mais rico da população, mais pelo efeito “noticiário positivo”. É muito pouco para alimentar esperanças.

A balbúrdia política é imprevisível, pois o governo não se pauta pela razão ou pela política de agregação. Pode mudar, caso não se prenda à permanente campanha eleitoral com o objetivo de manter um terço do eleitorado agitado com factoides extremistas. Não parece provável.

História do Brasil mal contada

Historiadores e cineastas vão brigar comigo, mas a literatura e o cinema devem ao Brasil mais documentos sérios e bem elaborados que contem com minúcia e paixão a sua história. Desconfio que os brasileiros conheçam melhor e com mais detalhes a Guerra Civil americana do que a Guerra do Paraguai. Também conhecem mais a saga dos povos indígenas americanos do que a tragédia das diversas nações que habitavam o Brasil em 1500. Num pequeno museu de Washington, situado em frente ao Teatro Ford, onde Abraham Lincoln foi assassinado, há uma torre de livros com mais de 500 títulos sobre o ex-presidente americano. De Getúlio Vargas, no Brasil, há um único trabalho transcendental, a biografia em três volumes publicada em 2012 pelo escritor e jornalista Lira Neto.

Por isso, vale a pena assistir à série “Guerras do Brasil.doc”, de Luiz Bolognesi, disponível na Netflix. É um documentário dividido em cinco episódios que conta momentos cruciais da história da formação do país. O primeiro episódio relata como se deu a conquista do território pelos portugueses. Trata-se de um trabalho acadêmico, repleto de dados, mas sem o ritmo do cinema. Mesmo assim, a ocupação portuguesa foi tão intensa e dramática que em alguns momentos o documentário ganha vigor de thriller. Os outros quatro episódios retratam a Guerra de Palmares, a Guerra do Paraguai, a Revolução de 30 e as guerras do crime organizado nos presídios do país.


Mas vamos ficar apenas no primeiro episódio, que até hoje é problema não resolvido no Brasil. Segundo o documentário, calcula-se que em 1500 viviam aqui entre 8 milhões e 40 milhões de índios, alguma coisa como um pouco mais do que um Paraguai ou um pouco menos do que uma Argentina. Segundo o Censo de 2010 do IBGE, 896 mil brasileiros se declararam indígenas. A distância entre esses números não deixa dúvida, eles foram dizimados. O que ocorreu no Brasil e em toda a América do Sul, onde viviam mais de 80 milhões de almas na época do Descobrimento, foi um holocausto. O maior da história.

A chegada dos portugueses à costa brasileira, segundo depoimento do líder indígena e ambientalista Ailton Krenak, não foi uma ocupação. Não houve um desembarque, nas palavras dele. Marinheiros portugueses chegaram doentes e famélicos e foram salvos pelos nativos que os receberam, abrigaram e alimentaram. Por serem povos muitas vezes nômades, que percorriam vastos territórios, os nativos das Américas eram receptivos e sabiam conviver em harmonia com etnias distintas. O que hoje se chamaria de ingenuidade, naquela época era um modo de vida. Os portugueses, por aqui, e os espanhóis, ao sul e a oeste, tinham outra personalidade e orientação diversa.

Aos poucos, os brancos primeiro escravizaram e depois eliminaram qualquer chance de convivência com os índios que não fosse pela força do chicote, da espada e do fogo. Num determinado momento da história, havia mais escravos indígenas do que negros no Brasil. Todos trabalhando para agricultores brancos que ocuparam a orla do país e aos poucos foram entrando pelo território em busca de mais terras agricultáveis.

Somente em 1910, com a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) pelo Marechal Rondon, o Estado brasileiro abriu mão de usar os poderes que detinha para subjugar aqueles povos e estabeleceu um mecanismo para a sua proteção. O SPI foi sucedido pela Fundação Nacional do Índio, a Funai, em 1967, que funciona até hoje como uma instância de proteção e reparação dos indígenas remanescentes. Com altos e baixos, o SPI cumpria, e a Funai cumpre missão importante na preservação dos que sobreviveram, de suas culturas e de sua história.

E a coisa caminhava assim até a chegada de Jair Bolsonaro. O primeiro ato do presidente, ao remodelar o Ministério, foi devolver os índios ao controle dos agricultores brancos, transferindo a demarcação de terras indígenas da Funai para o Ministério da Agricultura. A ideia prosperou até maio, quando foi barrada pelo Congresso. Bolsonaro a restabeleceu por MP, que acabou provisoriamente suspensa pelo ministro do Supremo Luís Roberto Barroso. Em agosto, a questão vai a plenário. O STF irá então decidir se índio é mesmo questão agrícola.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Infestação

Uma mentira várias vezes repetida passa a ser uma porção de mentiras
Raul Drewnick

Coerência de Bolsonaro é roleta-russa sem bala

Para Jair Bolsonaro, a coerência parece ser apenas um outro nome para oportunismo. Na reforma da Previdência, o capitão tratou a excepcionalidade dos militares num projeto à parte, entregou à Câmara uma emenda constitucional sobre o resto dos mortais e avisou: "A bola está com o Congresso". Instado a ajudar no esforço para atrair os governadores, informou que não moveria uma palha. Súbito, os policiais chiaram. Exigem tratamento especial, na linha do que foi dispensado aos militares. Percorreram Brasília gritando que Bolsonaro é "traidor".


Impressionado com a algaravia, o presidente da República dobrou os joelhos. Pôs-se a telefonar para parlamentares, entre eles o relator da Previdência, deputado Samuel Moreira. Nesta quarta-feira, ao chegar para uma solenidade do Exército, em São Paulo, deparou-se com um grupo de policiais militares. E protagonizou algo muito parecido com uma versão verbal de um cavalo de pau: "Vou resolver o caso de vocês, viu?" De repente, o que parecia um passe virou bola dividida. Bolsonaro e o seu PSL unem-se numa conspiração contra a reforma do próprio governo.

A naturalidade com que o presidente muda de convicção torna um suplício a rotina do ministro Paulo Guedes, condenado a administrar seus barulhos e seus silêncios. Quando os deputados desidrataram sua proposta, o Posto Ipiranga gritou: "Abortaram a nova Previdência". No instante em que o chefe tenta beliscar mais um pedaço, ouve-se na pasta da Economia um silêncio de velório.

Ao discursar na solenidade do Exército, Bolsonaro disse que Executivo e Legislativo devem adotar proposições que "fujam do populismo". "A reforma da Previdência atenderá a todos", declarou, antes de se dirigir aos policiais: "Fiquem tranquilos meus colegas das forças auxiliares. O sacrifício tem que ser dividido para todos, para que possamos colher os frutos lá na frente".

No mesmo discurso, Bolsonaro afirmou que "o Brasil melhor para todos" é algo que "tem que sair do discurso fácil de político". Maltratados pelo capitão, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e os líderes do centrão já não conseguem reprimir uma espécie de sorriso interior. Avaliam que o presidente discursa como quem brinca de roleta-russa movido pela certeza de que a coerência que manipula está completamente descarregada.

A Nova Amazônia

Estou sentado em um pequeno avião monomotor sobrevoando a Floresta Amazônica. O voo partiu de Jacareacanga, no sudoeste do Pará, com destino a Manaus. É o fim de uma jornada de duas semanas pela Amazônia. A nova Amazônia.

Conheci uma região que está mudando dramaticamente. Uma região sob ataque – não apenas desde que o governo Bolsonaro praticamente a liberou para exploração. Há uma dinâmica na Bacia Amazônica que parece imparável. A lógica de crescimento do capitalismo devora de todos os lados este ecossistema único e tão importante. Os sinais são explícitos.

De dentro da aeronave, olho para a floresta. Repetidamente avisto corredores, que parecem feridas no meio do dossel florestal. São valas de garimpeiros. De cima, parecem pequenas, mas seu impacto é grande.

Os garimpeiros trabalham com mercúrio, metal pesado que causa graves danos ao sistema nervoso humano. Muitos rios da Bacia Amazônica já estão contaminados com mercúrio. Por tal razão, o governo colombiano já proibiu a comercialização de certas espécies de peixes em 2017.

 Mina de ouro abandonada no meio da Floresta Amazônica
Também no Brasil, o problema é cada vez mais conhecido. Em Jacareacanga, às margens do Tapajós, missionários católicos me aconselharam a não comer peixe. Em uma aldeia dos índios Munduruku, o cacique me disse que o peixe não era mais confiável. Há casos de intoxicação por mercúrio relatados nas aldeias indígenas mais remotas, inclusive em crianças.

O paradoxo: os próprios índios Munduruku operam minas de ouro ilegais em suas terras. Eles afirmam que precisam de dinheiro para gasolina, roupas, telefones celulares, etc. Outros grupos indígenas que visitei comercializam ilegalmente madeiras nobres. São as brutais contradições da nova Amazônia.

Durante minha viagem, estive na pequena cidade de Creporizão, localizada às margens do rio Crepori, no Pará. É uma cidade de garimpeiros. Parece ter saído do Velho Oeste, com bares, prostitutas, hotéis e preços exorbitantes. Há 30 anos a região era selvagem. Hoje, 5 mil pessoas vivem em Creporizão, e todos os dias chegam novos aventureiros de todo o Brasil, fugindo da eterna pobreza e com o sonho de enriquecer rapidamente.

Visitei uma pequena mina de ouro na floresta. Cinco homens estavam num buraco de lama e lixiviavam o solo com água. Para extrair um quilo de ouro da terra, eles precisam de 100 gramas de mercúrio, dos quais dois gramas acabam no meio ambiente, afirmaram. Assim, eles contaminam milhões de litros de água. Na Bacia Amazônica existem milhares de minas como essa.

A maiora dos garimpeiros é pobre. Os trabalhadores no buraco ganham entre 4% e 5% do lucro final. Quem enriquece é o dono da mina. Mas esses pobres também são a ponta da destruição da Amazônia. Onde eles aparecem, logo são seguidos por madeireiros, fazendeiros e, por fim, a indústria agrícola, com suas monoculturas que não funcionam sem engenharia genética e centenas de pesticidas, muitos deles proibidos na Europa.

Creporizão está localizada no final de uma estrada chamada Transgarimpeira. Antigamente ela passava pela floresta densa. Hoje passa por pastos e troncos carbonizados de árvores queimadas. Nos locais onde ainda existe floresta, repetidamente, noto rastros mata adentro de veículos pesados. Eles pertencem a madeireiros.

É como em todos os lugares: onde uma estrada é construída, segue a destruição. Esse é o modelo de desenvolvimento do Brasil há 500 anos. Natureza e economia são ainda entendidas como opostas, e não como unidade.

É um pensamento fatal. Os efeitos já são claramente identificáveis. As secas recorrentes no sudeste brasileiro são fruto do desaparecimento da mata no norte. Um estudo de 2016 dos renomados pesquisadores Tom Lovejoy e Carlos Nobre chega a uma assustadora conclusão. Eles estimam que na Amazônia, com uma taxa de desmatamento de 20-25%, um ponto de ruptura poderia ser atingido. Nobre alerta: "A Amazônia não está longe de virar savana."

O presidente Jair Bolsonaro disse: "Quando estive com Donald Trump, conversei com ele que quero abrir para ele explorar a região amazônica em parceria." É o pensamento de um homem do passado. Acredita ainda num modelo de desenvolvimento destrutivo. Consequentemente, ele retirou poder do Ibama e do ICMBio e suspendeu ações punitivas contra madeireiros ilegais. No ICMBio, o comando está agora nas mãos de militares.

A Transgarimpeira encontra em seu extremo oeste a BR-163, a rodovia da soja. Nela trafegam colunas quase intermináveis de caminhões que transportam os grãos do sul para os portos fluviais no norte. Em alguns lugares, os caminhões atolam no meio da floresta.

Numa lanchonete, conheço um homem de 55 anos que veste roupas rasgadas e tem consigo uma bicicleta. Ele disse ser um pequeno agricultor do Mato Grosso indo para Itaituba, no Pará. Conta que não existem mais terras para ele no Mato Grosso, o estado está transformando-se num grande campo de soja. O homem já está pedalando há uma semana. Mais um dia e ele estaria em Itaituba, onde pretende garimpar. Muito se fala das riquezas que a soja cria; pouco dos pobres que ela deixa. Admiro a resiliência desse homem.

Às margens da BR-163 conheço também um criador de gado, que atendeu em 1975 a um chamado da ditadura militar. Na época, os militares queriam colonizar a Amazônia. Seu lema: terra sem gente para gente sem terra. Para eles, os índios não eram gente. Hoje o presidente Bolsonaro compara os índios a "animais no zoológico".

Naquela época o homem comprou 113 hectares de terra por 21 cruzeiros. A propriedade está localizada diretamente na BR-163. Me conta que existem dias em que é impossível conversar com a esposa no terraço, tamanho o barulho dos milhares de caminhões que passam por ali.

No início da minha viagem, estive em Autazes, ao sul de Manaus. É uma região onde atualmente são criados búfalos. Para suas pastagens, florestas são queimadas. E, ainda pior: os búfalos ficam nos rios. Eles arrasam o solo, urinam e defecam na água.

Os indígenas da etnia Mura que vivem na região dizem que não deixam mais seus filhos entrarem nos rios devido à poluição. Caso contrário, ficariam doentes. Eles não podem mais cozinhar com a água, e os peixes estão desaparecidos. Além disso, os búfalos pisoteiam as pequenas plantações dos Mura. "Estamos cercados", disse-me um cacique. Por lutar contra a expansão, ele já recebeu ameaças de morte de um fazendeiro.

No dia seguinte, visitei a cooperativa dos criadores de búfalos em Murutinga. Seu presidente afirmou que os índios não são índios de verdade e que são manipulados por ONGs. Além disso, eles estariam reivindicando terras às quais não teriam direito. Trata-se de argumentos usados por praticamente todos os fazendeiros no Brasil envolvidos em disputas por terras com povos indígenas.

Está comprovado que as reservas indígenas são os últimos bastiões contra a destruição da Floresta Amazônica. Bolsonaro prometeu ao agronegócio não demarcar novas reservas indígenas e abrir áreas de proteção ambiental. Ao mesmo tempo, o Brasil prometeu à União Europeia (UE) que o país cumprirá, no futuro, os rigorosos requisitos ambientais do acordo UE-Mercosul. Provavelmente, ele não sabe como conseguirá agradar a gregos e troianos. Pois não existe uma Amazônia para inglês ver.

Os números falam por si: somente em junho deste ano, o desmatamento na Amazônia cresceu quase 60% em relação ao mesmo período de 2018. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) também apontam que o primeiro semestre de 2019 supera os índices do ano passado. Os números deste ano até junho são superados somente pelos de 2016, que registrou os piores índices para o período desde 2008.

Está claro depois da minha jornada que a Bacia Amazônica não é mais um paraíso intocado, mas uma região econômica dinâmica que está se expandindo de forma imparável e agressiva. O Brasil está perdendo lentamente – mas certamente – um dos seus maiores tesouros. Todo mundo vai perder com isso.
Philipp Lichterbeck

Imagem do Dia

Ponte de pedra medieval (Inglaterra) 

Nós, o povo

Angel Boligan
O presidente Jair Bolsonaro, durante mais uma manifestação a favor de si mesmo, disse que ele está com o povo e o povo está com ele. Ele e o povo são um só. Ponderado, garantiu que até respeita as instituições, como não respeitaria?, mas que acima das instituições está o povo, “meu patrão, a quem devo lealdade”, concluiu Hugo Chávez, minto, Jair Bolsonaro.

Declarações assim traem certo analfabetismo político e flertam com o perigo antidemocrático. O sentimento de que há inimigos e traidores por todos os lados, dentro e fora do governo, que devem ser combatidos, escorraçados, calados, deportados, isso serve para instigar ânimos que teimam em se manter exaltados. Da força de expressão à expressão da força é um pulo.

O deputado que perambulou sem norte durante longos anos nos corredores do Legislativo virou presidente, mas ainda não terminou de aprender que as tais “instituições” não são coisas que atrapalham a política, que contrariam o povo. Antes, é por meio delas, e só por meio delas, que uma política razoável é possível no complexo mundo contemporâneo.

O povo, por sua vez, é uma abstração. Quem é o povo: todos os brasileiros? A maioria dos brasileiros? Apenas os que votaram no presidente? Somente os que lhe são leais? Quem votou nele e se arrependeu ainda é povo, ou perde a condição de povo? Quem concorda com a direção da economia e da infraestrutura, mas discorda dos rumos da política ambiental e de segurança, é meio-povo?

A alternativa ao sistema representativo já foi tentada, e deu errado, em muitos países. A democracia direta, popular e populista, é a menina dos olhos de todo líder autoritário. De todo líder autoritário de esquerda, a propósito. O que nós vemos hoje na Venezuela é efeito dessa concepção política. Dessa ligação direta ao ataque, do goleiro ao centroavante, sem a troca de passes da democracia.

Revolucionários de esquerda e populistas de direita apelam ao povo, à política plebiscitária, à indistinção entre representantes e representados, à confusão entre a vontade das ruas e a vontade de quem diz representar as ruas, às demandas arbitrárias em detrimento da lei e da Constituição. Por isso, as instituições são o mecanismo contra-majoritário por excelência, ou seja, elas servem de anteparo entre as massas e os indivíduos, entre a brutalidade do coletivo e fragilidade da minoria. Minoria que pode ser você, eu, o cristão, o ateu, quem quer que seja considerado inimigo público num dado momento ou contexto. Num país comunista, minoria é o cristão. Cristo e seus doze foram minoria numa Roma idólatra e decadente.

Se tomarmos o modelo americano como paradigma, aprenderemos que lá, mais do que aqui, o que funcionam são as instituições, pessoas à parte. A começar pela Constituição, mais antiga e resiliente do mundo democrático. O que há de invejável nos EUA é a solidez e a constância de seus institutos, mesmo diante de todos os baques econômicos e geopolíticos que sofreram e fizeram sofrer. Da conquista da Independência à Secessão, da Crise de 29 ao Vietnã, da Guerra Fria ao 11 de setembro, do assassinato de Kennedy à renúncia de Nixon, muitos foram os motivos para que as instituições americanas sucumbissem ao populismo imediatista. Não, obrigado, eles disseram.

Notem que nem mesmo o processo eleitoral americano é como o nosso. O sistema proporcional filtra as distorções que o voto direto nos candidatos poderia permitir. Não é curioso que a Hillary Clinton tenha vencido no dito voto popular, mas Trump tenha levado no voto que vale, o dos colégios eleitorais? Assim é e assim fica. Eis a lição de um país que, defeitos à parte, sabe que a liberdade do povo é resultado, e não causa, da solidez das instituições e da equanimidade da lei.

Jair Bolsonaro e sua militância deveriam aprender a sério como funciona a democracia com os irmãos do Norte, em vez de apenas imitá-los no que têm de pitoresco e espalhafatoso. Não adianta nada falar como os EUA e fazer como a Venezuela.

Quando perguntar ofende

É um desrespeito à criação de Chico Anysio e à nova versão comandada pelo filho dele, Bruno Mazzeo, a comparação ao programa "Escolinha do Professor Raimundo" feita pelo presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, Felipe Francischini, à sessão que ouviu o ministro Sergio Moro nesta terça-feira 2.

"Escolinha" é entretenimento, o que se viu na CCJ foi vergonha nacional. Ninguém ali esperava que Moro esclarecesse ou explicasse mais do que já havia dito no Senado sobre os diálogos divulgados pelo site The Intercept Brasil. A ideia de detratores e defensores do ministro era apenas detratar ou defender. E fizeram isso da pior maneira possível: aos desaforos, palavrões e vulgaridades a mancheias.

Para Moro, afora a perda de tempo e de mais um dia de trabalho, foi um ganho. Ganhou na manutenção da fleuma em comparação ao destempero geral, teve a oportunidade de dizer umas verdades a gente cuja cobrança por condutas éticas é no mínimo questionável e saiu ileso no tocante a esclarecimentos devidos a respeito da natureza dos diálogos com procuradores.
Já os deputados perderam ao promover um espetáculo mambembe, inútil para o desdobramento do caso em si e, sobretudo, deletério para um Congresso que busca sua recuperação junto à opinião pública sendo mais ativo, autônomo e sensível às demandas da sociedade.

Silicon Valley, onde ganhar R$ 1 milhão por ano não é suficiente para chegar ao fim do mês

Quis ser Florença e agora corre o risco de se tornar Detroit. Silicon Valley, o Vale do Silício, está morrendo. Sua morte não está sendo muito divulgada, mas a imprensa fala dela sem rodeios há meses. Inclusive o The New York Times, que já lhe dedicou uma série de artigos com pronunciado sabor necrológico. Algumas das principais empresas de tecnologia mantêm a sua sede lá, ao sul da Baía de San Francisco, ao pé da Serra de Santa Cruz, no vale de Santa Clara. Mas o que morreu é a utopia tecnológica do fim do século XX que quis ver em Silicon Valley uma concentração de talento e capacidade de inovação sem precedentes a serviço de uma nova economia capitalista e de um mundo melhor.


Nas palavras do especialista em tecnologia Rob Enderle, “o sonho acabou”. O chamado Silicon Valley agora abriga empresas decadentes, com péssima reputação, em um ambiente de crescente toxicidade. Em um artigo de vocação certamente polêmica escrito para o portal Tech News World, Enderle fala inclusive da elite empresarial do vale como uma casta de homens poderosos e desconectados da realidade que continuam embarcando em “orgias sexuais e narcóticas”, com suas mulheres e funcionárias, como se a era posterior a Harvey Weinstein e o movimento #MeToo não fosse com eles.

Para além da visão apocalíptica de detratores tão ferozes quanto Enderle, há muitas opiniões negativas, mas bem mais moderadas, como as do analista financeiro Scott Maxwell, que atribui a decadência de Silicon Valley “a que não faz mais sentido isolar e concentrar o talento”. Na era das redes sociais, dos smartphones e das videoconferências, pergunta Maxwell, “para que serve se obstinar em abrir uma nova empresa em um lugar onde a concorrência é feroz, os aluguéis muito altos, os salários astronômicos e os impostos desproporcionados?”. Instalar-se no vale é hoje mais uma questão de status do que uma decisão prática. Parece preferível ir a Boulder, no Colorado; a Portland, no Oregon; a Wilmington, em Delaware. Ou mesmo Detroit, cidade defunta até recentemente e novamente pujante. Ou para Cingapura. Maxwell tem muito claro: “Silicon Valley morreu de sucesso. Criou um mundo interconectado no qual não faz mais sentido tentar dar ao talento uma sólida base local”.

“No vale de Santa Clara eram cultivadas as melhores ameixas do mundo”, diz Sal Pizarro, editor e colunista do The Mercury News, um dos principais jornais da cidade californiana de San José, “dos mirantes da Serra de Santa Cruz, ao pé das colinas, ainda se distinguem os grandes cultivos de frutas de Monte Sereno e Los Gatos, abastecidos de água por poços artesianos até bem entrados os anos cinquenta do século passado”. Os fabricantes de computadores e microchips de silício se concentravam no início na faixa norte do condado, no triângulo formado pela Universidade de Stanford e as cidades de Palo Alto e Menlo Park.

A partir desse próspero núcleo, as empresas começaram a se espalhar como uma mancha de óleo em direção ao sul e ao leste, colonizando completamente a então lânguida cidade de San José, e os pequenos enclaves rurais ao seu redor: Sunnyvale, Saratoga, Mountain View, Cupertino... Hoje, esse ambiente densamente urbanizado é a terceira área metropolitana com maior renda per capita do mundo depois de Zurique e Oslo. Mas Pizarro diz não sentir saudade daquela Califórnia, de suas ameixas e coníferas: “Seria absurdo. Também nas colinas de Hollywood se cultivavam laranjas muito boas, mas foi muito melhor para eles quando começaram a fazer filmes”.

Nada drástico parece ter acontecido nos últimos anos. O Vale de Santa Clara continua abrigando as sedes do Google, Facebook, Wells Fargo, Visa, Chevron e muitas outras. Além disso, startups tão promissoras como Gladly, Nurx e Shippo acabam de se estabelecer nos arredores de San José, entre a Serra de Santa Cruz e o sul da Baía de San Francisco. No entanto, a imprensa internacional já considera pouco menos que indiscutível que essa área e sua próspera economia baseada na inovação e na excelência entraram em seu particular momento mórbido, quando o velho está prestes a morrer e o novo ainda não nasceu.

Um artigo do ano passado, publicado no The New York Times por Kevin Roose, fez soar o alarme proclamando categoricamente “o fim de Silicon Valley segundo Silicon Valley”. Sal Pizarro o leu, é claro. Esse e muitos outros. Daí o tom crepuscular de suas palavras. Os artigos não lhe parecem uma cantilena catastrofista. Ele pensa que, de fato, “as empresas de tecnologia mais promissoras dos EUA já não cogitam vir aqui, estão considerando alternativas como Chicago, Boston, Portland, Austin, Colorado, Detroit... em relação às internacionais, provavelmente estão pensando em Pequim, Moscou, Berlim ou Tel Aviv”.

“As coisas não acontecem de verdade até que o The New York Times fala delas em sua primeira página”, brinca o professor universitário de ciência e tecnologia Andrew L. Russell, estudioso do auge e da decadência de Silicon Valley, “mas os sinais do declínio estão aí há muito tempo para quem quiser ver”. Russell os resume com precisão e vigor: “O vale agora é o símbolo dos piores vícios do capitalismo pós-moderno. Gente que ganha verdadeiras fortunas comerciando com sua privacidade, espalhando boatos em suas redes sociais, falsamente democráticas e cada vez mais intrusivas. Quem quer fazer parte disso?”.

Russell escreveu há alguns meses um artigo na revista Fast Companyexplicando por que o Silicon Valley havia deixado de ser “a nova Florença” e estava a caminho de se tornar “a nova Detroit”. Nele recuperou alguns dos argumentos que a ensaísta e professora da Universidade de Stanford Glenna Matthews expusera em seu livro de 2002, Silicon Valley, Women and the California Dream [Silicon Valley, as Mulheres e o Sonho Californiano]. Matthews denunciou na época o desenvolvimento de uma cultura “tóxica”, elitista, patriarcal e racista, que discriminava em termos salariais as mulheres e as minorias étnicas, onde o assédio sexual e trabalhista eram práticas rotineiras e o espírito de comunidade brilhava pela ausência.

Segundo Russell, o declínio que Matthews apontou não parou de se acentuar nos últimos 15 anos. A principal novidade, diz o jornalista de tecnologia Herb Scribner, é que o emprego precário fez sua aparição nas startups do vale. “Facebook e companhia continuam pagando salários iniciais de seis cifras”, explica Scribner, “mas as novas empresas que se estabelecem em Cupertino ou San José estão recrutando jovens recém-formados atraídos pelo prestígio do vale aos quais pagam, às vezes, salários que os condenam a viver mal em um dos entornos urbanos mais caros do mundo”.

Viver mal, nesse contexto, consiste em resignar-se ao fato de que comprar uma casa no vale é impossível para quem não tem um salário astronômico. Em uma pesquisa publicada este ano pelo The Mercury News, grande parte dos moradores do condado de Santa Clara que ganhava entre 200.000 (cerca de 765.000 reais) e 300.000 dólares (cerca de 1,148 milhão de reais) por ano se definia como “classe média”. Pode parecer exagerado, mas como se considerar rico em um ambiente em que abundam bilionários e o preço médio da moradia está entre os mais altos do mundo? O preço médio de uma casa em Silicon Valley é de cerca de 4 milhões de reais e o aluguel gira em torno de 20.000 reais por mês.

O analista financeiro Scott Maxwell tem muito claro: “Silicon Valley morreu de sucesso. Criou um mundo interconectado no qual não faz mais sentido tentar dar ao talento uma sólida base local”

A questão não é quanto dinheiro você tem, mas o quanto você precisa para viver dignamente em um lugar assim. Dadas as circunstâncias, não é estranho que os recém-chegados se contentem em morar em pensões nos bairros populares de San Francisco, como Tenderloin, a uma hora de estrada de seus locais de trabalho. Os antigos antros de prostituição por hora que não faz muito tempo eram o bairro mais degradado da cidade da baía se tornaram residências improvisadas para essa nova ‘elite’ precária da qual fala Scribner.

Andrew L. Russell está intrigado com a ideia de que o Silicon Valley e Detroit possam ser, até certo ponto, vasos comunicantes. Afinal de contas, era disso que tratava o artigo de Kevin Roose no The New York Times que fez soar os alarmes. O artigo falava sobre como um grupo de investidores de tecnologia estava pensando abrir suas empresas em Detroit, atraídos pelo atual dinamismo da cidade de Michigan, que chegou ao fundo do poço nas décadas de oitenta e noventa, mas tenta se recuperar desde então. “Durante a presidência de Ronald Reagan, Detroit se tornou uma cidade fantasma, o símbolo mais eloquente dos estragos da desindustrialização dos EUA”, explica Russell. “Paralelamente, o Silicon Valley se consolidou como a sede de um capitalismo tecnológico mais humano, mais progressista e mais inovador”, acrescenta.

É paradoxal que a decadência do vale de Santa Clara coincida com o novo auge de Detroit, mas tampouco convém levar a metáfora longe demais. Na verdade, tudo aponta para entornos urbanos como Boston, Chicago, Austin ou a área de Nova York que se beneficiarão em maior medida da decadência de Silicon Valley e da iminente dispersão do talento que chegou a se concentrar nele. Para Russell, a prova eloquente do alto grau de “toxicidade” do vale é a enorme proliferação de aterros industriais no condado de Santa Clara. No final, o capitalismo de vanguarda acabou sendo tão pouco respeitoso com o meio ambiente quanto o tradicional. Ou ainda menos.