sábado, 17 de junho de 2017

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Quanto tempo a democracia suportará?

O destino do PSDB não tem mais importância; a legenda demonstrou que está sincronizada com a média do sistema político nacional. Nem promessas de voltar atrás no apoio ao governo Temer são relevantes. Risíveis são as declarações de que se pautaram pela ''ética da responsabilidade'', pesando meios e fins em relação ao país. Triste fim de Max Weber, acabar como sofisma em bico de tucano.

Pedantismos sociológicos à parte, o maior problema é mesmo o Brasil, hoje um vazio de ideias e lideranças; deixado à sorte da crise, sem referências que possam contornar a situação. Tão cedo, não se constituirá um centro capaz de reestruturar seu sistema político, reformando e modernizando-o. A lacuna ao centro favorecerá a polarização e o populismo, o que traz riscos evidentes.

De imediato, o que se vê é que a crise não cessará: o governo Temer é um trem descarrilhado; admite todo o tipo de concessões para se salvar e se fortalecer de modo a atropelar o que resta de instituições. Seus desmentidos não escondem intenções de que o objetivo é desqualificar os principais agentes da Lava Jato: o ministro Edson Fachin e o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot. ''Estancar a sangria'', como disse Romero Jucá.


No quadro presente, será improvável fazer reformas estruturais e conduzir ajustes fiscais relevantes. A reforma Trabalhista, por adiantada tramitação, ainda vai; mas a da Previdência tende a ficar para as calendas — dificilmente será aprovado mais que um símbolo. Ao mesmo tempo, renegociações com estados e todo tipo de interesses que possam significar proteção política agravarão a situação das contas públicas.

À existência de um teto de gastos, é justo imaginar cortes de investimentos e na área social ou aumentos de impostos. Também a economia será incapaz de um salto significativo; a aceleração, se houver, será lenta. Para investidores estrangeiros, o país ainda é melhor caminho para ganhos elevados do que os demais BRICS; mais cautelosos, nativos olham com apreensão, colocam o pé no freio. Dificilmente, o padrão de crescimento do primeiro trimestre se repetirá.

Ao mesmo tempo, no front político não há perspectiva de paz: as denúncias contra o presidente, sua equipe e aliados não cessarão; há, sem dúvida, muito potencial de desgastes. Enterrar a Lava Jato é sonho de dez em cada dez dos mais de trezentos picaretas que, em quase todos os partidos, estão envolvidos com ela. Mas, não há força para isso: bem ou mal, a sociedade reage. No mínimo, há um empate estabelecido. Para desespero de Jucá, o sistema continuará a sangrar.

O sistema de pesos e contrapesos da democracia foi afetado: o Tribunal Superior Eleitoral deu mostras de uma Justiça incapaz de arbitrar o conflito político; houve aí o desgaste de personagens e instituições, que, pela omissão ou ação parcial, perderam credibilidade. A possibilidade de algum avanço nesse campo ficará por conta do Supremo Tribunal Federal — a última cidadela, também cercada de controvérsia.

Logo, o país não sai da sinuca tão já. As eleições do ano que vem devem ocorrer envoltas nesse ambiente — e é plausível que o país continue encalacrado mesmo depois delas. Numa atmosfera de muita incerteza, a disputa eleitoral pode ferver ao mesmo ritmo das tensões sociais, com retroalimentação de ambos. PT, Ciro Gomes, Marina Silva, Jair Bolsonaro, João Doria; nomes colocados, qual seria capaz de abrir diálogos, propor pactos e estabelecer limites às contendas? De onde menos se espera é mesmo de onde nada vem.

A pergunta que não pode ser negligenciada é: quanto tempo a democracia brasileira suportará? Nossas tradições não nos garantem. Ademais, democracia não prescinde de lideranças. O diabo é enxergar onde elas estão. A ''ética da responsabilidade'' exigirá coragem para mudar, posturas morais, propostas reformistas no campo político; comunicação, diálogo e firmeza. Não há espaço para sofismar.

Carlos Melo

Tanta pressa pode parecer confissão de culpa

A suspensão do recesso parlamentar de julho, sugerida pelo deputado Rodrigo Maia para apressar a votação no Legislativo da denúncia do procurador-geral Rodrigo Janot contra o presidente Michel Temer, conduz a duas constatações. A primeira é animadora para Temer: o presidente da Câmara não apresentaria a ideia se, na contabilidade do Planalto, a bancada governista não tivesse votos de sobra para sepultar a denúncia ─ que só será julgada pelo Supremo Tribunal Federal se aprovada por dois terços dos deputados federais.

A segunda constatação não permite que Temer durma em sossego. Tanta afobação comprova que, também aos olhos do presidente e seus aliados íntimos, a base de apoio no Congresso é perturbadoramente volátil ─ e pode derreter se a temperatura política for elevada por descobertas da Lava Jato, ou revelações decorrentes de delações premiadas, que transformem o chefe de governo em protagonista de mais histórias muito mal contadas. Vêm aí confissões de grosso calibre. E os alvos principais continuam a ser Lula, Dilma e Temer.


A pressa do presidente reforça a suspeita de que nem todos os pecados que cometeu foram desvendados. Nessa hipótese, o agravamento da crise política terá sido apenas adiado com a rejeição da denúncia. Um escândalo de bom tamanho pode levar o sempre dubitativo PSDB a redescobrir a relevância do respeito à lei, a normas éticas, à moral e aos bons costumes. Temer precisa preservar a aliança para chegar ao fim do verão perigoso. “Em setembro, a melhora dos indicadores econômicos vai inibir os que sonham com a queda do governo”, ouviu de Temer nesta quinta-feira um ministro tucano.

No Brasil com 14 milhões de desempregados, talvez o item mais perverso do legado maldito de Lula e Dilma, o governo só sobreviverá até dezembro de 2018 se a economia sair da UTI nos próximos dois meses. Tudo somado, resta a Temer convocar uma reunião do Ministério para resumir numa frase o que devem fazer tanto o presidente quanto os integrantes do primeiro escalão até a tempestade amainar:

─ Senhores ministros: oremos.

Paisagem brasileira

Paraty, Luís Cláudio Morgilli (1955)

Para o bem da humanidade, marxismo e capitalismo precisam se relacionar

Nos dias de hoje, poucas pessoas se identificam como adeptos do marxismo ou do socialismo científico, que seria a denominação mais correta. A maioria dos simpatizantes se posiciona como esquerdista ou progressista. No meu caso pessoal, continuo me considerando marxista, por acreditar que este é o caminho do futuro longínquo da humanidade – se a vida, é claro, conseguir ser preservada da insanidade dos governantes, que insistem em permitir a acelerada devastação do planeta para consumo descontrolado das riquezas naturais.

É evidente que o capitalismo, nos moldes atuais, não poderá continuar a prevalecer até o final dos tempos, porque seria grave ameaça à humanidade. Da mesma forma, não se pode conceber que se implante nos dias de hoje o comunismo idealizado em 1848 por Karl Marx e Fiedrich Engels. Se alguém defende qualquer uma das duas hipóteses, com certeza é caso de internação. Tanto o marxismo quanto o capitalismo necessitam de uma equalização, que começa a ser esboçada nos países nórdicos.

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Há mais de 7 bilhões de pessoas no mundo, das quais cerca de 30% (2,2 bilhões) vivem em estado de pobreza, 850 milhões tem dificuldades para se alimentar e 120 milhões estão morrendo de fome. O continente mais desigual é a América Latina, onde o Brasil exibe a estranha experiência de conviver a miséria absoluta e a riqueza total, tendo como resultado o recorde mundial de homicídios.

Isso significa que o modelo brasileiro de capitalismo não está dando certo. É preciso aprimorá-lo, e o equilíbrio sempre está no meio, até as paralelas se encontram no infinito, como lembrava Belchior.

Para colocar ordem na discussão, pode-se dizer que foi o comunismo (socialismo científico) que provocou a humanização do capitalismo primitivo, em que predominava a exploração do homem pelo homem, quando praticamente não havia direitos trabalhistas e sociais. O capitalismo se aperfeiçoou, não há dúvida, mas ainda é um regime altamente negativo.
Marx e Engels foram importantes pensadores, mas suas teses estão desatualizadas, claro. Não podem mais ser tomadas ao pé da letra. No entanto, ainda é preciso segui-los no que se refere à necessidade de superação das desigualdades sociais e da defesa da vida.

Os países nórdicos fizeram uma adaptação muito positiva do capitalismo, lá o Estado é forte e procura ser mais justo em relação ao interesse público. Mas esses países ainda têm de evoluir, especialmente no que se refere à questão da assistência médica à população. Lá também existe a ditadura dos planos de saúde, vejam que paradoxo.

No socialismo científico de Marx e Engels, o direito à vida seria garantido através de um sistema de saúde que contemplasse todos os cidadãos. Até hoje continua a ser uma das mais importantes metas sociais a serem alcançadas pela humanidade, há países que caminham nesse sentido, como o Reino Unido, mas há riscos de retrocesso.
Os marxistas modernos não mais defendem estatização das fontes de produção, planejamento central nem luta de classes. Mas têm certeza de que o mundo do futuro será mais marxista, em termos de proteção aos carentes, igualdade de oportunidades, sistema universal de saúde, garantia de educação de qualidade para todas as crianças, restrições ao consumismo, proteção do meio ambiente etc., metas que ainda não despertam interesse no capitalismo praticado nos dias de hoje na grande maioria dos países, sejamos francos, e nesse particular China e Estados Unidos são imbatíveis.

Se revivessem nos dias de hoje, Marx e Engels estariam revoltados com a desigualdade social que persiste no mundo. Repita-se que 30% dos habitantes do planeta (2,2 bilhões de pessoas) passam necessidades, dos quais 850 milhões têm carência alimentar e 120 milhões estão literalmente morrendo de fome. Mas quem se interessa? Marx e Engels, com toda certeza, se interessariam.

Os crimes da mala e o cadáver do Brasil

Em 1928, em São Paulo, um imigrante italiano, Giuseppe Pistone, estrangulou sua mulher Maria Mercedes, que o denunciara como trambiqueiro. O que fazer com o cadáver? Pistone serrou-o pelas pernas, espremeu-o numa mala e despachou-o para um destinatário inexistente em Bordeaux, França. Ao ser içada a bordo do navio Massilia, em Santos, a mala abriu acidentalmente e revelou-se o seu conteúdo. Pistone foi preso e condenado a 31 anos. Cumpriu 13, saiu e até se casou de novo.

O caso passou à história como “o crime da mala”, embora não fosse o primeiro nem o último com esse nome. Há cinco anos, também em São Paulo, uma mulher matou a tiros o marido, executivo de uma grande empresa fabricante de pipoca. Experiente em enfermagem, ela o esquartejou e o distribuiu por três malas com rodinha, que enfiou no carro e levou até Cotia para se desfazer. Foi apanhada e presa. E este também não será o último caso do gênero.

Um novo tipo de crime da mala está em curso no Brasil. Consiste em esquartejar os escrúpulos e rechear malas, não com o que restou deles, mas com dinheiro ilícito. O caso mais flagrante é o do ex-deputado Rodrigo Loures, destacado pelo presidente Temer como seu “homem de confiança” para se entender com os amigos da JBS — e, dali a dias, filmado ao receber uma mala numa pizzaria e, assustado, tomar um táxi com ela no colo. A mala continha R$ 500 mil em espécie e soube-se depois que ele a escondeu na casa da mãe.

Na sequência, Fred Pacheco de Medeiros, operador e primo do senador Aécio Neves, também foi filmado acomodando em malas R$ 500 mil da mesma e generosa JBS. E, antes deles, o notório ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto era tão useiro em rechear mochilas com dinheiro que seu apelido era “Mocha”.

Em todas essas malas e mochilas, vai, aos pedaços, o cadáver do Brasil. 

Ruy Castro

Sobre aquilo que muda para permanecer exatamente como está

Os partidos políticos brasileiros não figuram, nem de longe, entre as instituições mais prestigiadas e benquistas pela população e frequentemente estão entre aquelas menos confiáveis na percepção dos brasileiros. As razões são várias: acusações de fisiologismo, de incapacidade de canalizar as vontades e demandas da sociedade e traduzi-las em políticas públicas, de distância existente entre seus modos de organização e operação num mundo cada vez mais rápido e digital, de falta de identidade, de ausência de transparência e de falta de democracia interna.

Recentemente, as investigações da Lava Jato colocaram luz sobre a promiscuidade das relações público-privadas no Brasil e o atacado de algumas: dos 35 partidos políticos hoje constituídos, 28 deles possuem representação na Câmara dos Deputados e 23 deles receberam doações financeiras de empresas investigadas, sobretudo Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão e Odebrecht. Isso não significa – de modo algum – afirmar que o repasse de recursos dessas empresas tenha se dado necessariamente de maneira irregular, mas demonstra o nível de influência do poder econômico e sua capilaridade entre aqueles que detém o monopólio da representação no país.

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Num cenário em que não são sucesso nem de público e nem de crítica, temos assistido a esforços de alguns partidos políticos brasileiros para mudar a própria imagem. O primeiro exemplo recente, na esteira do que o PFL fizera em meados da década passada, vem do “antigo” PTN (Partido Trabalhista Nacional). Desde dezembro de 2016 mudou de nome e atende por “Podemos” (PODE), numa tentativa de se distanciar da rubrica “partido” e se aproximar da rubrica “movimento”.

O segundo exemplo vem do PSL (Partido Social Liberal), que conta em seu interior com o Livres, movimento de renovação que busca dar nova cara ao partido e o caracteriza como o “primeiro partido startup do Brasil”. Defende maior liberdade individual, na economia e nos costumes, e desburocratização das relações econômicas.

Em comum, os dois partidos ganharam novos sites, cores novas e adotaram linguagem mais jovem, na tentativa de atrair e despertar interesse de um público com o qual não gozam de confiança e cansado do “mais do mesmo”. São ações legítimas e que buscam novos canais de diálogo num mundo também novo.

Se a mudança na embalagem por si só já é um fenômeno interessante de ser observar, seria uma grande contribuição à sociedade brasileira se os discursos viessem acompanhados também de mudanças nas respectivas práticas.

Façamos um exercício simples: suponhamos que você, leitor e cidadão brasileiro, queira saber quanto esses dois ou qualquer outro partido brasileiro tenha recebido em doações até hoje. O primeiro passo é uma visita ao portal eletrônico do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Entre 2007 e 2009 não é possível saber quantas, quais e em que volume foram as doações de recursos para os nossos partidos, já que os dados não estão disponíveis. É somente em 2010 que tem início a preocupação em separar e deixar um pouco mais claro os recursos recebidos via doação de pessoas e empresas.

Pois bem, escolha então um ano a partir de 2010. Qualquer um. Imagine que você queira saber quais foram e em que valores aconteceram as doações de pessoas comuns (físicas), como eu e você, nesse ano. Tem paciência? Primeiramente, você vai notar que a prestação de contas dos partidos políticos não segue padrão algum. Sabe o formulário que você anualmente precisa preencher para declarar imposto de renda e que não permite que se avance para a próxima tela se tudo não estiver preenchido em detalhes e no formato exigido? Pois é, existe para você, mas não para o partido que recebe seu dinheiro.

Com exceção do período de campanha eleitoral, inexiste um sistema único e comum de prestação de contas para partidos políticos, que colete e organize esses dados de maneira inteligível. Na maioria dos casos, a prestação se resume a um documento escaneado, em formato pdf, com rasuras e de leitura quase impossível. Em muitos, não há sequer um campo destinado ao “total” dos valores e cabe ao interessado somar e calcular manualmente se quiser. Do mesmo modo, não é possível filtrar, visualizar graficamente ou sequer exportar os dados para fazer outros tipos de cruzamentos. Tudo isso precisa ser feito à mão, no melhor estilo euclidiano: “o pesquisador no Brasil é, antes de tudo, um forte”.

Convencido de que o site do TSE talvez não seja lá o melhor caminho para obtenção dessas informações, vá direito à fonte. Experimente visitar o site de um desses dois partidos, ou de qualquer outro dos nossos 33, para checar esses e outros quesitos simples relacionados à transparência. Relatórios que tragam receitas e despesas; salários daqueles que ocupam cargos de direção em qualquer uma das esferas; agenda dos dirigentes partidários ao menos na esfera nacional…

Se ainda restar um pouco de paciência, tente então descobrir, ainda no próprio site, se qualquer um dos nossos partidos aplica corretamente os recursos do Fundo Partidário a que têm direito – ao menos 20% dos recursos no Instituto ou Fundação responsável pela formação de seus quadros; 5% em atividades relacionadas à promoção da participação feminina na política e, no máximo, 50% com despesas de pessoal. E não vale um recibinho em pdf só dizendo que fez, sem detalhe algum de como e quando. Achou? Nem ao menos o recibinho em pdf? É, nem eu.

Fica a sensação, para qualquer pessoa que queira mais que cores bonitas em sites com linguagem jovem, de que a desorganização nesses casos é, no mínimo, estratégica. Enquanto boa parte dos partidos se debate com questões sobre como se aproximar da sociedade e como ganhar sua confiança, fica aqui a sugestão singela dessa que vos escreve: aproximar, primeiramente, o discurso e a prática. A vantagem do lado de cá dos trópicos é que o básico tem caráter revolucionário.

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Amsterdam
Amsterdam (Holanda)

Após o TSE, a Câmara sepultará escândalo vivo

A denúncia da Procuradoria-Geral da República contra Michel Temer ainda não chegou ao Supremo Tribunal Federal. Mas a Câmara dos Deputados, que receberá o processo para decidir se autoriza ou não o Supremo a abrir uma ação penal contra o presidente da República, já decidiu o que fazer. Rodrigo Maia, presidente da Câmara, prometeu a Temer uma tramitação rápida. Não importa o teor da denúncia. O Planalto e seus aliados organizam um enterro relâmpago para a peça.


O governo alega que o Brasil não pode perder tempo. É preciso cuidar de reformas como a da Previdência. É lorota. Deve-se a pressa de Temer ao medo do presidente de ser abalroado por novas delações. O doleiro Lúcio Funaro já exercita a língua. Rodrigo Rocha Loures, o homem da mala, é pressionado pela família. Eduardo Cunha se aconselha com um novo advogado. Sitiado pela suspeição, Temer vive a neurose do que está por vir.

Para desassossego de Temer, o procurador-geral Rodrigo Janot adiou a apresentação de sua denúncia para a última semana do mês. Se o Brasil fosse um país lógico, os deputados não se atreveriam a arquivar as acusações de corrupção, obstrução de Justiça e formação de organização criminosa. Não há lógica em sonegar ao país a oportunidade de conhecer o veredicto do Supremo Tribunal Federal sobre a reputação do presidente. Costuma-se dizer que o brasileiro não tem memória. Mas num país em que o TSE e a Câmara enterram escândalos vivos o que falta às autoridades não é memória, mas um mínimo de curiosidade.

O fim da pinguela

Se o gC dependia do PSDB para definir seu futuro, terá de se conformar com a indefinição. Os tucanos superaram a si mesmos ao levar a ambiguidade a patamares inéditos. Continuam no governo, mas já recorreram ao STF contra o próprio governo, pedindo que reveja a absolvição pelo TSE da chapa Dilma-Temer.

O partido fica onde está não pelo presidente, mas apesar dele. O compromisso, segundo o governador paulista Geraldo Alckmin, é com as reformas não com o governo.

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Não explicou como é possível dissociá-los, já que as reformas emanam dele e têm seu patrocínio, mas isso lhe pareceu secundário.

Temerosos de que novos escândalos venham a desabar sobre o presidente e seu governo, os tucanos acham mais prudente manter-se em cima do muro, prontos a saltarem para o lado de fora tão logo o Ministério Público acrescente novos itens ao prontuário presidencial. A expectativa é de que isso ocorra ainda esta semana.

As delações anunciadas do doleiro Lúcio Funaro e do ex-deputado Eduardo Cunha, além de possíveis novas denúncias da JBS, mantêm o presidente refém de si mesmo.

Os tucanos, porém, não estão em condições muito melhores. Daí a ambiguidade de sua conduta.

Unem-se ao presidente, ainda que pelo avesso, no temor da Justiça. Enquanto Temer receia por si e por seus ministros mais próximos, todos sob investigação policial, o PSDB preocupa-se com seu presidente licenciado, o senador afastado Aécio Neves, cuja prisão está sendo pedida pelo Ministério Público.

Todos temem perder o manto protetor do foro privilegiado. Estar no governo, ainda que sem meios para governar, parece mais seguro do que estar fora. Concretamente, a única reforma que, neste momento, importa a Temer e a seu governo é a de sua folha corrida.

Daí o empenho de melar a Lava Jato, tarefa a que se dedica hoje o conjunto da classe política, sem distinção de partidos ou de ideologia. O crime, afinal, não é de direta, nem de esquerda. E a ameaça comum de prisão une os seus cultores.

Lula continua a criticar Temer e seu governo, mas jamais esteve tão próximo dele. Finge que quer diretas, na certeza de que não virão – e na certeza de que, se vierem, não terá como vencê-las (dado o seu alto grau de rejeição) ou mesmo disputá-las, dada a iminência de sua condenação, ainda que responda em liberdade.

Mas a certeza predominante – e isso une todos os partidos – é de que, mesmo com a saída de Temer, a sucessão será indireta. Lula serve-se da crise – e de seu hipotético favoritismo eleitoral – para transmutar-se de infrator penal em perseguido político.

Finge estar em campanha, visitando seus redutos no Nordeste, enquanto inversamente negocia a preservação do status quo, privado da liberdade de desfilar impunemente pelas ruas do país, onde já constatou que desperta hostilidades.

Ele, Temer e PSDB buscam exorcizar o juiz Sérgio Moro e a Força Tarefa da Lava Jato. Acompanham a contagem regressiva da conclusão do mandato do procurador-geral Rodrigo Janot, que ameaça os três Poderes com uma fúria de fera ferida.

Coroando a semana, o ex-presidente Fernando Henrique confundiu a todos ao considerar que Michel Temer, embora legítimo, perdeu as condições de governar – e que, nessas condições, deveria antecipar as eleições diretas. Foi o único tucano a descer do muro, dando a impressão de que o fazia para credenciar-se ele próprio a ocupar a vaga de Temer e promover a antecipação que propôs.

Não achou, porém necessário explicar como, mas acabou por decretar o fim da pinguela que ele mesmo erigiu. Uma semana tucana, que precede outra, que se antevê turbulenta.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Mala preta aos três anos da Lava Jato

O Brasil não é para principiantes. Tantas vezes ouvimos essa frase que se tornou lugar-comum. A fase de combate à corrupção iniciada há três anos pela Lava Jato pode levar-nos a conclusões maniqueístas, do tipo bem contra o mal, republicanos contra patrimonialistas.

Olhando de perto, a frente que se coloca contra o trabalho da Lava Jato é muito mais ampla do que o grupo dos grandes partidos que articulam para destruí-la, no governo e no Congresso.

Líder entre os juízes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que absolveram a chapa Dilma-Temer, apesar das provas, Gilmar Mendes fixou-se num argumento importante: o da estabilidade. Quem a rejeita, num país com 14 milhões de desempregados? O argumento de estabilidade deveria sempre estar sobre a mesa.


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No entanto, conforme mostrou Bolívar Lamounier, em intervenção recente, um julgamento visto por todo o País no qual se enterram as provas é um fator de instabilidade. Cava um novo fosso entre a sociedade e as instituições, revelando uma Justiça Eleitoral, pouco conhecida até então, como um artefato de outra galáxia.

Em outra posição dentro da grande frente adversária estão os responsáveis, jornalistas próximos ao Planalto e o próprio PSDB, que saltou para a enganadora maciez dos cargos no governo.

Interessante classificar os que pedem a queda de Temer como irresponsáveis. Já que estamos usando a palavra, é bom lembrar que não somos presidentes nem recebemos um empresário investigado à noite, sem anotação na agenda, usando senhas no portão de entrada.

Não nos parece responsável um presidente que mantém aquele tipo de diálogo, tarde da noite, com o dono da Friboi. Tampouco parece responsável designar como interlocutor do empresário Joesley Batista um assessor especial que, horas depois, é filmado carregando a mala com R$ 500 mil.

Para ficar no universo mínimo de uma só palavra, a irresponsabilidade decisiva foi de Temer. Supor que três anos depois da Lava Jato não só tudo terminaria em pizza, como o dinheiro da propina seria pago diretamente na Pizzaria Camelo.

Foi Temer sozinho que arruinou suas chances de conduzir as reformas e jogou para fora da pinguela uma grande parte da sociedade, já constrangida com ela, mas vendo-a como a única saída momentânea. A maioria tem o direito de rejeitar um presidente que se envolve em práticas tão sospechosas. De achar que ele deva ser investigado, mas que os dados já expostos o desqualificam para o cargo.

Neste instante, a pergunta dos que defendem a instabilidade: se Temer cair, não pode ser pior, o caos não tomaria conta? A hipótese das diretas é bom tema para uma pajelança, mas não é uma proposta viável, na medida em que sua aprovação depende do Congresso.

Não tenho ilusões sobre um presidente eleito pelo atual Parlamento. Também ele seria escolhido com base numa promessa de neutralizar a Lava Jato. Independentemente de seu perfil, ele terá, de alguma forma, de comandar a frente contra as investigações.

Lula cumpriu o seu papel, a cúpula do PMDB e o presidente do PSDB também o cumpriram. Nesse particular, até o momento foram derrotados.

Temer está em guerra aberta contra a Lava Jato. Usa a mesma tática de Lula contra Moro. Agora o general a abater nas hostes adversárias é o ministro Edson Fachin. Esta semana surgiu a notícia de que Temer teria usado a Abin para investigar a vida de Fachin, descobrindo seus pontos fracos. Atribui-se a notícia a um assessor de Temer. Se isso foi mesmo assim, fico em dúvida se ele queria atingir seu chefe ou deixar no ar uma suspeita sobre Fachin.

Na Câmara, um dos veteranos da batalha Eduardo Cunha, o deputado José Carlos Marin, tornou-se vice-líder do governo. E disse que é perfeitamente legal a Abin investigar um ministro do STF.

Marin e outros veteranos da batalha de Cunha articulam uma CPI da JBS e o objetivo principal é levar Fachin para depor. Fachin é o Moro de Temer, até que Temer caia do governo nos braços do próprio Moro.

Estranha estabilidade a que nos oferecem os defensores da presença de Temer. Nos tribunais as provas não valem. Durante as investigações também pouco importam: em vez de se defenderem, os acusados passam a atacar os investigadores.

A máquina do Estado volta-se agora contra as instituições que realmente estão trabalhando com seriedade, desvelando o esquema continental de corrupção. Temer assumiu a mesma tática de Lula. E sem nenhuma combinação prévia se prepara para gastar dinheiro com um pacote de bondades que o tire do isolamento de hoje. Nem os próprios defensores da estabilidade econômica pensavam num desdobramento como esse.

Quando se desenha uma estabilidade com um presidente na corda bamba, as pretensões, mesmo legítimas, vão esbarrar a cada instante na sua própria negação. Ao invés do termo estabilidade, para conservar o que já existe, prefiro uma expressão para mudar o que está aí: equilíbrio dinâmico.

Se Temer incorreu em crime, ele precisa sair. Um novo presidente, eleito pelo Congresso, fará parte do mesmo bloco contrário ao da sociedade que apoia a Lava Jato. Mas como seria o último a tentar a batalha final, talvez tivesse algum cuidado – nessa guerra já caíram alguns dos principais expoentes da política brasileira. Num ano eleitoral existe uma chance de a sociedade controlar um pouco mais o Parlamento e o presidente escolhido por ele.

Não é um futuro dos sonhos. É um caminho difícil no rumo das mudanças, mas é o que a Constituição nos oferece. Teremos muito ainda que suportar. Mas será um fardo menor que enterro de provas nos tribunais e guerra contra investigações que podem destruir o gigantesco esquema de corrupção.

Por enquanto, vamos assistir à guerra de Temer contra a Lava Jato. Apertem, pois, os cintos: o que chamam de estabilidade nós chamamos de turbulência.

Democracia não é assim...

Dezenas de processos de recall são postos em andamento todos os dias nos EUA afetando funcionários públicos eleitos que vão de promotores e xerifes a gestores de escolas, além de representantes eleitos diversos para os poderes legislativo e executivo, de governadores e prefeitos para baixo, nos niveis municipal e estadual. Até juízes de 1a instância, em vários estados, têm de passar, a cada quatro anos, por “retention elections” onde o povo diz se devem ou não permanecer nessa função.

O filtro, lá, aplica-se de baixo para cima, ao longo da carreira, na expectativa de que até chegar ao nível federal o candidato já tenha sido testado e depurado o bastante.
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A título de exemplo, dou um resumo dos três processos que estavam para ser decididos na terça-feira passada, 13 de junho, a última data para a qual encontrei registro hoje, dia 15.

Em Homer, Alaska (5.470 hab.), três membros do City Council, que faz as vezes de prefeitura e elege 6 membros para mandatos de três anos, sobreviveram a uma votação de “recall” ou retomada de mandato convocada contra posições que assumiram em relação à construção de um oleoduto e de um projeto correlato que pretendia transformar em santuário uma área indígena que o oleoduto atravessaria. O processo foi aberto em 6 de março por iniciativa de eleitores. Eram necessárias 373 assinaturas contra cada um dos três objetos do “recall“. Nos tres casos foram obtidas mais de 430 assinaturas. Seguiu-se campanha contra e a favor, como é da lei. Os proponentes tinham arrecadado US$ 2.462 para a campanha a favor. Os contrários US$ 2470 para a campanha contra.

Em Frenchville, Maine (1.087 hab.), o chefe do Board do City Cuncil, John Ezzy, equivalente a prefeito, perdeu uma votação de “recall” onde era acusado de ter incidido em “conflito de interesses” (pessoais e financeiros) num projeto de reforma de uma avenida da cidade onde ele prório mora. Ezzy acabou renunciando ao cargo mas como o fez menos de 10 dias antes do prazo marcado para a votação ela ocorreu mesmo assim, conforme estipula a regra local, vencendo o recall por 52,88% a 47,12%. O processo tinha sido aberto em março, a coleta de assinaturas terminou em 20 de abril, a votação foi convocada em 2 de maio e ocorreu em 13 de junho.

Em Tucumcari, Novo México, a prefeita Ruth Ann Litchfield e tres outros membros da City Comission sobreviveram a uma eleição de “recall” por 75,29% a 24,71%. A acusação era de aplicação de multas indevidas e outros fatos menores. Embora o proponente tenha conseguido as assinaturas para qualificar o processo havia consenso de que ele se tinha precipitado e a questão podia ser resolvida por meio de negociação ou recurso à corte local. Nos EUA cada cidade pode ter o sistema de governo que quiser. Tucumcari tem pouco mais de 5 mil habitantes com cinco distritos eleitorais, cada um dos quais elege cinco membros para uma City Comission por quatro anos. Essa comissão elege indiretamente o prefeito.

Os três exemplos do dia registrados no site Ballotpedia que acompanha todos esses processos e outras formas de exercício da democracia americana, referem-se a casos quase prosaicos mas servem para mostrar a distância em que estamos de uma verdadeira democracia.

Lá ninguém toca num funcionário ou representante eleito senão quem o elegeu. Aqui somente os mesmos TSE e STF que tratam, neste momento, de julgar o presidente da republica, deputados federais e senadores envolvidos com a Lava Jato, alem de mais todos os 330 assuntos a que a nossa Constituição dedica artigos ou sub-artigos e acabam sendo “decididas” pelo STF, se encarrega de destituir prefeitos do Oiapoque ao Chuí que nenhum deles elegeu, com a pertinência e o conhecimento de causa que se pode esperar de tão vastas atribuições. Já em funcionários públicos que todos eles – réus e juízes – nomeiam a granel ninguém especificamente põe as mãos.

A própria “desimportância” das razões pelas quais o povo põe e despõe nos EUA mostra a diferença de sensibilidade que se adquire depois de pouco mais ou menos de 100 anos de uso dos instrumentos de democracia semidireta que eles adotaram na virada do século 19 para o 20 (“recall“, referendo, leis de iniciativa popular) quando a política por lá tinha chegado a um grau de deterioração muito semelhante ao da nossa hoje.

Isso educa os eleitores e também os políticos. Tanto que somente tres governadores de estado chegaram a sofrer “recall” nesses anos todos. Eles sabem bem de que tipo de armamento dispõem os seus representados e que jogar a favor deles é a única maneira de evitar que o usem.

Democracia mesmo é assim que se faz. Lá de cima, de uma elite de “excelências”, “eminências” e “meritíssimos” – e sem breque como podem se dar o luxo de ser aqui – só vem mesmo sobre nós, os meros “zés”, o que temos recebido.

Não ha maneira mágica de “resolver” o problema brasileiro. Democracia é uma obra que começa e não termina nunca, e que pode dar excelentes resultados comparativos desde que fique a cargo de quem precisa viver dentro dela.

As contas não dão trégua

O governo terá de podar R$ 300 bilhões das despesas obrigatórias, até 2030, para evitar o rompimento do limite de gastos, mesmo com a aprovação da reforma da Previdência. Esse é o cenário central de um novo relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão de assessoria do Senado. No melhor cenário será preciso um corte de R$ 100 bilhões. No pior, de R$ 500 bilhões. A mensagem é tão clara quanto inquietante: a aprovação de um projeto razoável de mudança previdenciária será insuficiente para garantir a eficácia do teto de gastos criado em 2016 por emenda à Constituição. Especialistas poderão discutir detalhes e pressupostos desses cálculos, mas nenhuma pessoa responsável e razoavelmente informada poderá menosprezar o alerta lançado por uma equipe respeitada.

O conserto das finanças públicas, devastadas pela mistura de incompetência e irresponsabilidade na gestão petista, ainda vai tomar muito tempo e será mais complicado, provavelmente, do que hoje supõe a maior parte das pessoas. Além disso, hoje o desafio é maior do que há pouco tempo.


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Enquanto a crise política se prolonga, aumenta a insegurança quanto ao desempenho da economia, decisões são adiadas, tempo é desperdiçado e cresce o risco de entraves ao programa de arrumação das contas governamentais. Conflitos em Brasília podem até paralisar ações importantes para a recuperação do País, mas nenhuma palavra mágica imobilizará o relógio e imporá uma pausa às necessidades do País.

Economistas do mercado continuam projetando para este ano um resultado primário – sem a conta de juros, portanto – pouco pior que o programado oficialmente. O Ministério da Fazenda publicou na terça-feira passada as estimativas coletadas até dia 5. A mediana das projeções aponta um déficit primário de R$ 142,05 bilhões em 2017 e de R$ 127,45 bilhões em 2018. O buraco previsto para este ano é maior que o fixado na lei orçamentária, de R$ 139 bilhões. O calculado para o ano seguinte continua abaixo do limite, estabelecido em R$ 129 bilhões.

O primeiro valor é menor que o publicado em maio (R$ 148,04 bilhões). Em relação ao próximo ano a previsão piorou. Em maio, a mediana para o déficit ainda estava em R$ 125,12 bilhões. Para os dois anos houve ligeiro aumento da arrecadação prevista e diminuição da despesa total esperada.

Apesar do quadro muito complicado tanto em 2017 como em 2018, o conjunto de problemas ainda parece administrável, se o governo puder manter o rumo da política orçamentária e, naturalmente, se o Brasil escapar de uma recaída na recessão. Uma semana depois da coleta desses números, economistas de instituições financeiras e de grandes consultorias baixaram suas previsões de crescimento econômico. A mediana das estimativas para 2017 passou de 0,50% para 0,41%. O ritmo de expansão esperado para 2018 caiu de 2,40% para 2,30%.

Técnicos de alguns dos maiores bancos, segundo se informou nos últimos dias, passaram a trabalhar com números piores que esses e já há quem estime crescimento zero neste ano, como consequência da insegurança política. Menor avanço da atividade comprometerá a arrecadação de tributos, mas o governo continuará forçado a realizar a maior parte da despesa prevista.

Pelas projeções coletadas no começo do mês pelo Ministério da Fazenda, a dívida bruta do governo geral, isto é, dos três níveis da administração, continuará a crescer neste e no ano seguinte como proporção do Produto Interno Bruto (PIB). Os números de junho são piores que os de maio para os dois períodos. A mediana das estimativas para 2017 passou de 75,44% para 75,47% do PIB. O número esperado para 2018 subiu de 78,50% para 78,60%. Já está bem assentada, de toda forma, a tendência de crescimento dessa relação pelo menos até 2020. Esse endividamento, é sempre útil sublinhar, é bem maior que o da maioria dos governos dos países emergentes.

Pode-se esquecer esses problemas enquanto se cuida de interesses partidários. Mas os problemas continuarão existindo e, quanto mais negligenciados, tanto mais graves se tornarão. Pior para o País.

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Igreja Remédios, Lamego, Portugal
Igreja N. Senhora dos Remédios, Lamego ( Portugal)

Sob os olhos da lógica

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Recentemente, o secretário municipal de Educação de uma importante cidade falou que se sentia como encarregado da segurança escolar, dedicando parte de seu tempo para assegurar o funcionamento de suas escolas, ameaçadas pela violência. No momento em que dizia isso, ele estava para decidir o fechamento de uma de suas melhores creches por causa da ameaça de balas perdidas, tráfico de drogas e assaltos. Sua cidade não é a única. Oitenta e três por cento dos alunos do ensino médio consideram que a segurança é o maior problema de suas escolas.

Um país que não consegue assegurar o funcionamento de suas escolas é um país em decadência: não conseguirá formar a inteligência que o mundo necessita para enfrentar os desafios do século XXI.

A decadência se mostra também dentro da escola, mesmo quando ela consegue funcionar, apesar da violência em seu exterior. Na atual civilização baseada no conhecimento, não será possível um país evoluir se cerca de 13 milhões de pessoas (8% da população adulta) são analfabetas, incapazes de ler até mesmo o lema “Ordem e Progresso” escrito em sua bandeira; se mais de 26 milhões (18%) de adultos são analfabetos funcionais; se o acesso à educação de qualidade é mantido como um privilégio para aqueles poucos cujas famílias podem pagar uma boa escola. O desprezo aos cérebros da nossa população é um claro indicador de que marchamos para uma decadência civilizatória.

A decadência está também sob os olhos do observador que percebe a falta de sentimento coletivo de nação, transformando o país numa soma de grupos corporativos que disputam entre si, da maneira mais egoísta possível, os recursos e os produtos nacionais.

Ainda mais visível está a degradação pela corrupção, tanto no roubo do dinheiro público por políticos em benefício pessoal quanto no desvio pela corrupção de dinheiro das prioridades para beneficiar apenas pequenas parcelas da população. A irracionalidade política é outra manifestação e causa de decadência: políticos, artistas, estudantes, filósofos e profissionais agem e reagem baseados em posições políticas passionais, sem compromissos com a lógica, como aconteceu em países cuja decadência decorre de disputas sectárias, cujo melhor exemplo hoje é a Síria. Fecham os olhos para a lógica da mesma maneira que fecham os olhos para não ver a decadência que suas ações provocam. E não percebem que a decadência surge com a falta de coesão social no presente e de rumo histórico para o futuro.

Não é preciso muita perspicácia nem análises sociológicas para perceber que estamos em um processo de decadência histórica, que pode nos levar à desagregação social e à condenação ao atraso em relação ao resto do mundo, talvez por décadas, no futuro.

Temer balança mas não cai, para desespero dos roteiristas de 'House of Cards'

Os roteiristas de “House of Cards” têm toda razão quando admitem que a política brasileira é muito mais criativa do que a premiada série da TV americana. Realmente, não há comparação. A crise brasileira é completamente original, tem características singulares, e os cientistas políticos estrangeiros não conseguem acompanhar nem compreender. No Brasil, reina uma esculhambação institucional verdadeiramente sui generis, os três Poderes imaginados por Montesquieu apresentam alto grau de impunidade, de forma alguma podem ser considerados independentes e harmônicos, muito pelo contrário.

Como explicar que o Congresso brasileiro cassou o mandato de uma presidente da República, mas manteve os direitos políticos dela, apesar de ter sido eleita com caixa 2 de campanha, proveniente de dinheiro sujo, oriundo da corrupção pública e privada. E depois a presidente cassada e seu sucessor foram absolvidos na Justiça Eleitoral, apesar de existirem abundantes provas de caixa 2. Como um analista estrangeiro pode entender essa situação?


Na sequência da versão brasileira de “House of Cards”, o atual foi gravado por um megaempresário corrupto, no subsolo do palácio residencial, vejam que roteiro criativo, e até agora nada lhe aconteceu. A perícia da gravação ainda não foi concluída e novo capítulo traz o presidente sendo investigado pela Polícia Federal, que tem prazo até a segunda-feira, dia 19, para finalizar o inquérito.

No mesmo capítulo, o FBI tropicalista deve encerrar o caso que relaciona a presidente Temer ao chamado “homem da mala”, ex-deputado Rocha Loures. O suspense aumenta, de matar o Hitchcock, como diria o compositor Miguel Gustavo.

Realmente, os roteiristas de “House of Cards” não têm condições de competir com a trama que a política brasileira leva diariamente ao ar, ao vivo e a cores.

O mais curioso é que no enredo à brasileira o presidente é indestrutível, uma espécie de João Teimoso, que balança, mas não cai. As leis pouco importam, porque quem manda do país é o Mercado, que no tempo da ditadura militar os jornalistas chamavam de Sistema.

E a situação do Brasil ficou semelhante à da Bélgica, que recentemente passou quase dois anos sem governo (primeiro-ministro) e vida que segue, como dizia o João Saldanha.

Aqui na Tropicália, quem governa é Henrique Meirelles, que sempre sonhou em conquistar o poder pelo voto, jamais poderia imaginar que fosse alçado de outra maneira. Mas na vida o que vale é a prática e não a teoria.

Você tem um estadista no bolso do colete?

O que um bando de malfeitores petistas fez com a jornalista Miriam Leitão a bordo de um avião da Avianca no dia 3 de junho, num voo Brasília/Rio, pode vir a ser um favor ao Brasil.

Grosseiros, violentos, ignorantes, sob o beneplácito de uma tripulação amorfa, os delegados petistas, embarcados em Brasília ao término de um Congresso do PT, ao encontrar Miriam Leitão entre os passageiros do voo que os levaria ao Rio, acharam que esse era o momento ideal para mostrar como pensam e agem os petistas diante da Imprensa.

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Comportaram-se com ódio, foram brutos em gestos, palavras e ações e demonstraram toda sua ignorância ao estender sua fúria à empresa onde Miriam trabalha há muito tempo. Crente que estavam punindo a Rede Globo, gritaram que “quando eles mataram Getúlio o povo foi lá e quebrou a Globo”. Tão politizados são os malfeitores fardados do PT que nem sabem que Getúlio Vargas matou-se em 1954. O ano do sacrifício de Getúlio Vargas não merecia ser esquecido tão depressa, logo pelo partido que se autodenomina do povo.

A Avianca já sabemos o que fez. Nada. Ficou muda e calada durante o voo e, que eu saiba, está muda até hoje. Já o PT, ah! o PT. O que fez o PT com seus encantadores delegados?

Publicou uma nota na qual lamenta o ‘constrangimento’ sofrido pela jornalista. E reclama que várias vezes “muitos integrantes do Partido dos Trabalhadores, inclusive esta senadora, já foram vítimas de semelhante agressão dentro de aviões, aeroportos e em outros locais públicos”. A nota é assinada pela senadora Gleisi Hoffmann, atual presidente do PT.

A senadora petista omite mencionar que foi denunciada por receber um milhão de reais do esquema de propinas da Petrobrás para a campanha de 2010, o que não justificaria ser agredida pela população brasileira em lugar algum, mas pelo menos fundamentaria o desagrado do povo com sua pessoa, ré que é em processo da Lava-Jato.

E por que eu acho que esse triste espetáculo dos malfeitores petistas poderia ser bom para o Brasil? Pelo simples, e talvez ingênuo motivo de que talvez assim os brasileiros não tenham medo da saída de Temer ainda este ano e que não se apavorem com a ideia de eleições antes de 2018.

Acredito que todos os partidos se reúnam para pensar em nomes para lançar como candidatos. Unidos ou desunidos, sabem que o governo Temer está por um fio. Alguns, como os tucanos, acham que antecipar eleições é torcer pela vitória do Lula, o que os deixa muito assustados.

Pois eu tenho para mim que o comportamento dos petistas nos mais variados espaços públicos – em palanques, ruas, praças e até em aviões – só faz diminuir a chance da candidatura do Lula.

Precisamos cuidar do Brasil, escolher o que seria melhor para evitar que o país definhe. Vamos defender o Brasil, lutar para que as novas gerações possam ter um futuro tranquilo, sobrevivendo em paz e segurança sob a batuta de um estadista.

Quem seria esse estadista? Aí é que está o busílis.

Gente fora do mapa

Bamiyan (Afeganistão)

Governo, oposição e a bala de prata

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Há muitos anos, em um dos shows que periodicamente apresentava na linha do "Eu sou o espetáculo", o comediante José Vasconcellos parodiava o ator Gary Cooper subitamente cercado de índios inamistosos. Eram dez mil índios à frente, dez mil à retaguarda, outros dez mil de cada lado. "O que farei?" perguntava, em inglês, simulando o astro hollywoodiano em diálogo consigo mesmo. "O melhor é tornar-me índio também!", concluía.

Lembrei-me do saudoso comediante e do impasse de Gary Cooper ao ponderar nossa situação como cidadãos no quadro político em que nos emolduraram. Nunca vivi cena assim. Ela está bem expressa na imagem que me chegou pelas redes sociais solicitando marcar com "x" a instituição em que mais se poderia confiar. Apresentava, para isso, quatro alternativas: governo, parlamento, judiciário e ... jogo do bicho. Impossível negar que estamos literalmente cercados!

Se buscarmos saídas pelo padrão universal, ou seja, dentro do binômio governo/oposição, salta aos olhos a ausência de alternativas. O que acontece no Brasil é inusitado! Sabe-se, agora, fora de qualquer dúvida, que havia uma organização criminosa dentro do governo e outra na oposição. Com o impeachment, uma parte da que estava no governo juntou-se aos quadrilheiros à espreita nas cavernas da oposição e formou o novo governo. Havia gente boa no anterior? Sim, claro; pouca, mas havia. Há gente boa no novo governo? Sim, claro, pouca, mais há. O problema é que os interesses se polarizam em torno da disputa pelo poder, fazendo com que deixe de existir uma alternativa política respeitável, na qual a nação possa confiar.

Com a cisão da organização criminosa que governava o país foi como se uma cápsula de guerra bacteriológica se rompesse. A peste se alastrou. E o fez com intensidade, atingindo os tribunais superiores, que confundem dignidade com indignação ante qualquer dedo virado para seu lado. Não, cavalheiros, arrogância nunca foi sinônimo de virtude e não é o pedestal que faz o santo.

No curto prazo, nosso rumo está traçado pelo GPS da Constituição. Seremos governados por uma quadrilha, pelo menos até 31 de dezembro de 2018. A situação também não se altera mudando-se a Constituição, como quer o PT com suas joint ventures para eleger Lula. Oportuna e felizmente, logo ali, em outubro do ano que vem, ou seja, dentro de 16 meses, o poder volta às mãos do povo viabilizando a higiênica faxina eleitoral que poderá encurtar, para muitos, a distância entre a Praça dos Três Poderes e a porta da cadeia. E saneando o quadriênio vindouro. No presidencialismo, dia de eleição é a bala de prata quadrienal. Errou, se ferrou.

Enquanto não forem melhorados, assim são os passos da democracia e do Estado de Direito dos quais este colunista não arreda pé. Quem quiser alternativa diferente vá beber noutra caneca.

Somos como Gary Cooper parodiado por José Vasconcellos. Estamos entre dois bandos que se enfrentam. Graças a Deus não precisamos aderir a um deles. Aliás, se me recuso a apontar qualquer um como merecedor de adesão, não hesito em identificar o pior. Muito resumidamente, porque a lista seria imensa, refiro-me ao bando formado por aqueles que:
• apreciam, reverenciam e apoiam financeiramente os regimes cubano e venezuelano;
• sonham com um "marco regulatório" da imprensa, com um "marco civil" da Internet e com um Conselho Federal de Jornalismo para cercear quem os incomode;
• promovem a luta de classes, conflitos raciais, conflitos de gênero, invasões de terra, violência sindical;
• são contra privatizações e responsabilidade fiscal;
• se puderem, criarão os sonhados "Conselhos populares" (sovietes) para esterilizar a representação parlamentar;
• dão refúgio a terroristas, fundaram e comandam o Foro de São Paulo;
• apoiam quaisquer políticos ou filósofos adversários da cultura e da civilização ocidental;
• chamam bandidos de "heróis do povo brasileiro", dão nomes de ruas e constroem memoriais a líderes comunistas;
• têm fobia a órgãos de segurança pública;
• dedicam preferencial atenção aos direitos humanos dos bandidos;
• promovem a ideologização da educação e defendem o direito de fazê-lo;
• são contra a redução da maioridade penal e a favor do desarmamento;
• apoiam a agenda de gênero nas escolas, criaram o kit gay, defendem a liberação do aborto, financiam a marcha da maconha;
• criaram, compreendem e utilizam movimentos sociais como milícias a serviço de suas causas políticas.
Cadeia para todos os corruptos, independentemente das letrinhas partidárias em que estejam acantonados! Toda a atenção para o esclarecimento dos eleitores com vistas ao pleito do ano que vem! Todo empenho por uma reforma institucional com parlamentarismo, voto distrital e cláusula de barreira! O poder não pode voltar às piores mãos! Estamos cercados, mas lutando o bom combate!
Percival Puggina