sábado, 23 de julho de 2016
Os frutos da democracia
O governo liberou quarta-feira os aumentos do Poder Judiciário acima de 41%. Primus inter pares porque é lá que se dizem os “sins’” e os “nãos” que confirmam ou anulam tudo que os outros poderes decidem, os “meritíssimos” recebem antes de todos os demais o seu pedaço do pacote de aumento do funcionalismo que, bem no meio da mais cruel crise já vivida pelo resto do Brasil, tomou mais R$ 60 bilhões da economia moribunda para garantir que as “excelências”, seus nomeados e os nomeados de seus nomeados continuem dormindo em paz no meio do pânico que grassa aqui fora.
No STF, que “dá o teto” para o salário de todo o setor público, o “por dentro” salta de R$ 33,7 mil para 39,2 mil, 16,3% a mais. É claro; todo mundo sabe que não ha um único juiz no Brasil, que dirá os do STF, que realmente vive com essa “mixaria”. Não ha cálculos publicados sobre quanto valem todos os “auxílios” e mordomias que lhes pagamos e são chamados de todos os nomes menos “salário” para que a Receita Federal que nos esfola a partir de pouco mais de dois salários mínimos se sinta juridicamente autorizada a tirar candidamente os olhos de cima deles. Por uma distração do “Sistema” na recente luta para expelir esse Eduardo Cunha que desafiou sua hierarquia interna, o país ficou sabendo, por exemplo, que o presidente da Câmara dos Deputados, computados todos os jatos, automóveis, pilotos, motoristas, combustível, hotéis, o “chef” e os tres auxiliares de cozinha, as empregadas e “valets de chambre”, os “auxílios” moradia, escola de filho, assistência médica, paletó, dentista, barbearia e o que mais se imaginar, ganha na verdade a bagatela de R$ 500 mil por mês.
Somente os R$ 60 bi que vão custar esse ultimo aumento nominal – veja bem, não estamos falando da folha de pagamentos da União mas só de quanto ela vai aumentar enquanto você se afoga – poderiam pagar 33,8 milhões de vezes o salário médio do Brasil que, em 2016, chegou a R$ 1.776, ou 68 milhões de salários mínimos de R$ 880. E no entanto, notícias como essas são dadas pelos eruditos do colunismo social da Côrte em que se transfomaram os jornalistas políticos do Brasil, quase como uma vírgula em meio às elucubrações sobre as minúcias dos passes e transações entre partidos e chefes de partidos de que o país real não sabe sequer os nomes para decidir quem vai ficar com que pedaço da pele dele. Faz-se um mero registro desacompanhado de qualquer cálculo, comparação ou reportagem sobre como é a vida dos habitantes desse mundo inimaginavel para a multidão dos brasileiros das periferias “de bloco” que espera em obsequioso silêncio, imobilizada, que as “excelências” se resolvam.
Nesta ultima safra, registrou-se burocraticamente que o governo provisório que confirmou esses aumentos foi constrangido a faze-lo porque se ousasse sequer discutir o assunto a máfia travava de vez o país e acabava de matá-lo. Feito o parentese, com essa ameaça de quase genocídio apenas sugerida, volta-se ao infindável ti-ti-ti da Corte…
Essa nossa constituição que vive sendo saudada aos quatro ventos como “democrática” é o avesso disso. Não passa de um vasto compêndio das exceções ao império da lei e dos privilégios garantidos a uns e negados a outros que abrange virtualmente todos os aspectos da vida e todas as categorias de brasileiros para garantir que nenhum possa se queixar a partir de uma posição moral não comprometida, mas que estabelece uma rígida hierarquia na privilegiatura que regulamenta até a menor das minúcias. O resultado é, sem tirar nem por, um sistema feudal em que “o rei” nomeia os seus barões e outras “nobrezas menores” que, por sua vez, criam as clientelas que “protegem”, tudo na base da distribuição de dinheiros que não são eles que produzem a quem fica dispensado de fazer por merece-lo.
Igualdade perante a lei; 1 homem, 1 voto; o direito de cada um decidir o que é melhor para si nas relações de trabalho; a proibição da representação que não seja teleguiada pelo Estado (fundo partidário, imposto sindical, etc.), nenhum dos fundamentos que definem “Democracia”, enfim, está presente neste Brasil do “regulamentismo absolutista”.
O brasileiro vive se flagelando achando que é o povo mais corrupto do mundo mas esta é só mais uma das mentiras que lhe intrujam. No mundo inteiro, em tudo que o Estado entra, rouba-se. O problema é que no Brasil o Estado entra em tudo apenas e tão somente porque se quer roubar em tudo e isso continua sendo possível aqui. No resto do mundo, não existe mais essa discussão. Não é de Estado mínimo ou máximo mas de roubalheira mínima ou máxima que se trata. Para o Estado deixa-se apenas o que não se pode evitar de deixar, porque o que for deixado será inevitavelmente roubado e ha que por essa inexorabilidade na balança. Leis anti-corrupção, por melhores que sejam, são pra enxugar gelo e os esquemas organizados para negar isso pelos que vivem do Estado são ululantemente mentirosos. Todo mundo sabe disso. Não ha exceção de Azerbaidjão a Zaire.
No meio do desemprego e da quebradeira geral, um país acostumado a ser cavalgado busca desesperadamente uma esprança em que se agarrar. Mas desanima o fato de discussões encerradas no mundo todo não terem sequer começado por aqui. É deprimente entender, antes da partida para mais uma jornada de recuperação de prejuízos, que mais uma geração de brasileiros terá o seu acesso à modernidade barrada porque insistimos na roda quadrada.
O Brasil fica sonhando com colheitas mas o fim da miséria, a prosperidade, a paz social são frutos da democracia e é preciso antes adotá-la para poder colhê-los. Enquanto não sairmos do colunismo social da Corte para a cobertura intensiva, gráfica e subversiva do custo social da Côrte; enquanto não começarmos, não apenas a dizer, mas a bradar em fúria que não ha salário para nós porque ha salário demais para eles; enquanto não houver uma só lei para todos nós só colheremos mais do que já temos colhido.
No STF, que “dá o teto” para o salário de todo o setor público, o “por dentro” salta de R$ 33,7 mil para 39,2 mil, 16,3% a mais. É claro; todo mundo sabe que não ha um único juiz no Brasil, que dirá os do STF, que realmente vive com essa “mixaria”. Não ha cálculos publicados sobre quanto valem todos os “auxílios” e mordomias que lhes pagamos e são chamados de todos os nomes menos “salário” para que a Receita Federal que nos esfola a partir de pouco mais de dois salários mínimos se sinta juridicamente autorizada a tirar candidamente os olhos de cima deles. Por uma distração do “Sistema” na recente luta para expelir esse Eduardo Cunha que desafiou sua hierarquia interna, o país ficou sabendo, por exemplo, que o presidente da Câmara dos Deputados, computados todos os jatos, automóveis, pilotos, motoristas, combustível, hotéis, o “chef” e os tres auxiliares de cozinha, as empregadas e “valets de chambre”, os “auxílios” moradia, escola de filho, assistência médica, paletó, dentista, barbearia e o que mais se imaginar, ganha na verdade a bagatela de R$ 500 mil por mês.
Somente os R$ 60 bi que vão custar esse ultimo aumento nominal – veja bem, não estamos falando da folha de pagamentos da União mas só de quanto ela vai aumentar enquanto você se afoga – poderiam pagar 33,8 milhões de vezes o salário médio do Brasil que, em 2016, chegou a R$ 1.776, ou 68 milhões de salários mínimos de R$ 880. E no entanto, notícias como essas são dadas pelos eruditos do colunismo social da Côrte em que se transfomaram os jornalistas políticos do Brasil, quase como uma vírgula em meio às elucubrações sobre as minúcias dos passes e transações entre partidos e chefes de partidos de que o país real não sabe sequer os nomes para decidir quem vai ficar com que pedaço da pele dele. Faz-se um mero registro desacompanhado de qualquer cálculo, comparação ou reportagem sobre como é a vida dos habitantes desse mundo inimaginavel para a multidão dos brasileiros das periferias “de bloco” que espera em obsequioso silêncio, imobilizada, que as “excelências” se resolvam.
Nesta ultima safra, registrou-se burocraticamente que o governo provisório que confirmou esses aumentos foi constrangido a faze-lo porque se ousasse sequer discutir o assunto a máfia travava de vez o país e acabava de matá-lo. Feito o parentese, com essa ameaça de quase genocídio apenas sugerida, volta-se ao infindável ti-ti-ti da Corte…
Essa nossa constituição que vive sendo saudada aos quatro ventos como “democrática” é o avesso disso. Não passa de um vasto compêndio das exceções ao império da lei e dos privilégios garantidos a uns e negados a outros que abrange virtualmente todos os aspectos da vida e todas as categorias de brasileiros para garantir que nenhum possa se queixar a partir de uma posição moral não comprometida, mas que estabelece uma rígida hierarquia na privilegiatura que regulamenta até a menor das minúcias. O resultado é, sem tirar nem por, um sistema feudal em que “o rei” nomeia os seus barões e outras “nobrezas menores” que, por sua vez, criam as clientelas que “protegem”, tudo na base da distribuição de dinheiros que não são eles que produzem a quem fica dispensado de fazer por merece-lo.
Igualdade perante a lei; 1 homem, 1 voto; o direito de cada um decidir o que é melhor para si nas relações de trabalho; a proibição da representação que não seja teleguiada pelo Estado (fundo partidário, imposto sindical, etc.), nenhum dos fundamentos que definem “Democracia”, enfim, está presente neste Brasil do “regulamentismo absolutista”.
O brasileiro vive se flagelando achando que é o povo mais corrupto do mundo mas esta é só mais uma das mentiras que lhe intrujam. No mundo inteiro, em tudo que o Estado entra, rouba-se. O problema é que no Brasil o Estado entra em tudo apenas e tão somente porque se quer roubar em tudo e isso continua sendo possível aqui. No resto do mundo, não existe mais essa discussão. Não é de Estado mínimo ou máximo mas de roubalheira mínima ou máxima que se trata. Para o Estado deixa-se apenas o que não se pode evitar de deixar, porque o que for deixado será inevitavelmente roubado e ha que por essa inexorabilidade na balança. Leis anti-corrupção, por melhores que sejam, são pra enxugar gelo e os esquemas organizados para negar isso pelos que vivem do Estado são ululantemente mentirosos. Todo mundo sabe disso. Não ha exceção de Azerbaidjão a Zaire.
No meio do desemprego e da quebradeira geral, um país acostumado a ser cavalgado busca desesperadamente uma esprança em que se agarrar. Mas desanima o fato de discussões encerradas no mundo todo não terem sequer começado por aqui. É deprimente entender, antes da partida para mais uma jornada de recuperação de prejuízos, que mais uma geração de brasileiros terá o seu acesso à modernidade barrada porque insistimos na roda quadrada.
O Brasil fica sonhando com colheitas mas o fim da miséria, a prosperidade, a paz social são frutos da democracia e é preciso antes adotá-la para poder colhê-los. Enquanto não sairmos do colunismo social da Corte para a cobertura intensiva, gráfica e subversiva do custo social da Côrte; enquanto não começarmos, não apenas a dizer, mas a bradar em fúria que não ha salário para nós porque ha salário demais para eles; enquanto não houver uma só lei para todos nós só colheremos mais do que já temos colhido.
Dilma, tão honesta quanto Lula
A presidente Dilma Rousseff empenhou-se em seus cinco anos e poucos meses de governo em se distinguir de Lula em pelo menos uma coisa: ela sempre foi honesta. Nunca disse que Lula fora desonesto. Mas reafirmou sua honestidade todas as vezes que a de Lula foi posta em dúvida.
Pois bem: o depoimento ao juiz Sérgio Moro do marqueteiro da segunda campanha de Lula à presidência da República e das duas campanhas de Dilma, João Santana Filho, mostrou que a honestidade de Dilma em nada fica a dever à honestidade de Lula.
O que disse Lula quando perguntando sobre o mensalão em 2005? Que ele não sabia, não sabia mesmo que uma “sofisticada organização criminosa que tentou se apoderar do aparelho do Estado” pagava a deputados federais para que votassem como mandava o governo.
João Santana Filho, tão logo foi preso pela Lava-Jato, negou que tivesse recebido dinheiro no exterior pela campanha de Dilma em 2010. Atribuiu o que recebera a campanhas que fizera em outros países. Anteontem, finalmente, confessou que mentira. E que recebera dinheiro, sim.

Como Dilma reagiu? Primeiro, calou-se. Obrigada a comentar a comentar a confissão do marqueteiro, afirmou desconhecer que despesas de sua campanha haviam sido pagas no exterior. Não, nunca soubera. Certamente fora tão enganada como Lula no caso do mensalão.
Lula nomeou para Petrobras executivos que depois saquearam a empresa, pagaram propinas a políticos de vários partidos e desviaram dinheiro para o PT. Ele já disse que nada teve a ver com isso, que as nomeações se deveram a indicações feitas por partidos. É inocente, puro.
Se Lula nada teve a ver com isso, muito menos Dilma, como ela sempre fez questão de repetir. Os nomeados por Lula administraram a Petrobras enquanto Dilma foi ministra das Minas e Energia, presidente do Conselho de Administração da empresa e depois presidente da República.
Difícil acreditar que tivemos dois presidentes seguidos que ignoravam completamente que se passava ao seu redor. Que jamais ouviram falar em pagamentos ilegais feitos no exterior ao responsável por suas campanhas. Tampouco ouviram falar do assalto à Petrobras.
A ser verdade o que disseram deveriam ser punidos por improbidade administrativa, irresponsabilidade e desleixo. Somente crianças e índios são inimputáveis. Presidente da República não é.
Pois bem: o depoimento ao juiz Sérgio Moro do marqueteiro da segunda campanha de Lula à presidência da República e das duas campanhas de Dilma, João Santana Filho, mostrou que a honestidade de Dilma em nada fica a dever à honestidade de Lula.
O que disse Lula quando perguntando sobre o mensalão em 2005? Que ele não sabia, não sabia mesmo que uma “sofisticada organização criminosa que tentou se apoderar do aparelho do Estado” pagava a deputados federais para que votassem como mandava o governo.
João Santana Filho, tão logo foi preso pela Lava-Jato, negou que tivesse recebido dinheiro no exterior pela campanha de Dilma em 2010. Atribuiu o que recebera a campanhas que fizera em outros países. Anteontem, finalmente, confessou que mentira. E que recebera dinheiro, sim.

Lula nomeou para Petrobras executivos que depois saquearam a empresa, pagaram propinas a políticos de vários partidos e desviaram dinheiro para o PT. Ele já disse que nada teve a ver com isso, que as nomeações se deveram a indicações feitas por partidos. É inocente, puro.
Se Lula nada teve a ver com isso, muito menos Dilma, como ela sempre fez questão de repetir. Os nomeados por Lula administraram a Petrobras enquanto Dilma foi ministra das Minas e Energia, presidente do Conselho de Administração da empresa e depois presidente da República.
Difícil acreditar que tivemos dois presidentes seguidos que ignoravam completamente que se passava ao seu redor. Que jamais ouviram falar em pagamentos ilegais feitos no exterior ao responsável por suas campanhas. Tampouco ouviram falar do assalto à Petrobras.
A ser verdade o que disseram deveriam ser punidos por improbidade administrativa, irresponsabilidade e desleixo. Somente crianças e índios são inimputáveis. Presidente da República não é.
O tempo como adversário
O empenho do PT em protelar o desfecho do impeachment, coadjuvado por manobras ritualísticas patrocinadas pelo STF, está saindo pela culatra. O partido apostou no desgaste de Michel Temer, na impossibilidade de apresentar bons resultados em curto prazo.
De fato, não se reverte instantaneamente um quadro de caos econômico, como o legado pelo PT, nem é possível fazê-lo sem medidas impopulares. O novo presidente estaria, portanto, fadado ao insucesso, o que abriria espaço para o retorno da velha (des)ordem.
Faltou, porém, considerar um detalhe: a Lava Jato. Enquanto o Senado consumia semanas repetindo o rito já aprovado na Câmara – a admissibilidade do processo -, e na sequência ouvindo nada menos que 40 testemunhas, a turma de Curitiba colhia mais e mais delações comprometedoras, que viriam (estão vindo) à tona antes da votação final. O tempo, ao contrário do desejado, trabalha contra.
Estão em curso, entre outras, delações da diretoria da Odebrecht, que confirmam a origem criminosa de recursos eleitorais e não eleitorais, envolvendo Lula e a própria Dilma, pela primeira vez citada diretamente – e pelo próprio dono da empresa. A íntegra dessas delações ainda virá à tona, mas a prévia já é demolidora.
Esta semana, mais uma bomba veio de Curitiba: o depoimento do casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura. Eles confirmaram ter recebido 4,5 milhões de dólares, de caixa dois, da campanha de Dilma. A confissão somou-se à do operador Zwi Skornicki, de que se tratava de dinheiro roubado da Petrobras, pago a pedido do então tesoureiro do PT, João Vaccari Neto.
Pior: estava depositado em conta no exterior. Bastam esses dois fatos, capitulados como crimes pela legislação eleitoral, para que o próprio registro partidário do PT seja cassado.
Dilma, como responsável pela campanha, pode até alegar que não sabia (inclusive, já o fez), mas não adiantará nada. A lei é implacável: o candidato é responsável pela campanha. O ex-senador Eduardo Azeredo, candidato tucano ao governo de Minas em 1998, fez a mesma alegação, diante de fatos análogos, e foi condenado a 20 anos de prisão – aliás, sob os aplausos do PT.
A diferença é que Azeredo foi derrotado e Dilma elegeu-se. O caso dele, portanto, esgotou-se nele. Já o caso Dilma a pega no curso do mandato, interrompido por razões bem mais amenas, e terá repercussão na votação final do impeachment.
O processo no Senado, graças a Eduardo Cunha, atém-se a delitos apenas administrativos, os tais crimes de responsabilidade. Mas o prontuário, como as delações premiadas e a Lava Jato têm mostrado, é bem maior e invade a esfera do Código Penal.
Cunha poupou a presidente do pior – não por amor, é claro, mas por medo de alguma bala perdida o atingir. Afinal, foi parceiro, ainda que menor, na rapina da Petrobras.
Escolheu o pedido de impeachment mais brando, mas é improvável que os senadores deixem de considerar o conjunto da obra na hora de votar. Os ainda indecisos (se é que os há) dificilmente ousarão afrontar os fatos, de pleno conhecimento do público, na hora de definir seu voto, que será aberto e transmitido pela TV. O julgamento será no final de agosto, lá pelo dia 26.
Até lá, novas delações virão à tona, novas prisões devem ocorrer, não se excluindo a hipótese da do próprio Lula.
Outro efeito colateral adverso do adiamento do impeachment são as eleições de outubro, que este ano terão praticamente um mês apenas de campanha. A dura exposição da administração petista, sobretudo a ilegalidade de algumas de suas práticas, irão repercutir fortemente no eleitorado.
O recurso terrorista ao fim do Bolsa Família, na hipótese de vitória do adversário, já não terá a eficácia de antes. Ele mudou de mãos – e Temer, não obstante os conselhos de sua equipe econômica, acaba de conceder-lhe aumento de 12,5%.
O único risco que Temer corre deriva dele próprio, se insistir em nomear para sua equipe gente carimbada por atos praticados na gestão de sua antecessora.
De fato, não se reverte instantaneamente um quadro de caos econômico, como o legado pelo PT, nem é possível fazê-lo sem medidas impopulares. O novo presidente estaria, portanto, fadado ao insucesso, o que abriria espaço para o retorno da velha (des)ordem.
Faltou, porém, considerar um detalhe: a Lava Jato. Enquanto o Senado consumia semanas repetindo o rito já aprovado na Câmara – a admissibilidade do processo -, e na sequência ouvindo nada menos que 40 testemunhas, a turma de Curitiba colhia mais e mais delações comprometedoras, que viriam (estão vindo) à tona antes da votação final. O tempo, ao contrário do desejado, trabalha contra.
Estão em curso, entre outras, delações da diretoria da Odebrecht, que confirmam a origem criminosa de recursos eleitorais e não eleitorais, envolvendo Lula e a própria Dilma, pela primeira vez citada diretamente – e pelo próprio dono da empresa. A íntegra dessas delações ainda virá à tona, mas a prévia já é demolidora.
Esta semana, mais uma bomba veio de Curitiba: o depoimento do casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura. Eles confirmaram ter recebido 4,5 milhões de dólares, de caixa dois, da campanha de Dilma. A confissão somou-se à do operador Zwi Skornicki, de que se tratava de dinheiro roubado da Petrobras, pago a pedido do então tesoureiro do PT, João Vaccari Neto.
Pior: estava depositado em conta no exterior. Bastam esses dois fatos, capitulados como crimes pela legislação eleitoral, para que o próprio registro partidário do PT seja cassado.
Dilma, como responsável pela campanha, pode até alegar que não sabia (inclusive, já o fez), mas não adiantará nada. A lei é implacável: o candidato é responsável pela campanha. O ex-senador Eduardo Azeredo, candidato tucano ao governo de Minas em 1998, fez a mesma alegação, diante de fatos análogos, e foi condenado a 20 anos de prisão – aliás, sob os aplausos do PT.
A diferença é que Azeredo foi derrotado e Dilma elegeu-se. O caso dele, portanto, esgotou-se nele. Já o caso Dilma a pega no curso do mandato, interrompido por razões bem mais amenas, e terá repercussão na votação final do impeachment.
O processo no Senado, graças a Eduardo Cunha, atém-se a delitos apenas administrativos, os tais crimes de responsabilidade. Mas o prontuário, como as delações premiadas e a Lava Jato têm mostrado, é bem maior e invade a esfera do Código Penal.
Cunha poupou a presidente do pior – não por amor, é claro, mas por medo de alguma bala perdida o atingir. Afinal, foi parceiro, ainda que menor, na rapina da Petrobras.
Escolheu o pedido de impeachment mais brando, mas é improvável que os senadores deixem de considerar o conjunto da obra na hora de votar. Os ainda indecisos (se é que os há) dificilmente ousarão afrontar os fatos, de pleno conhecimento do público, na hora de definir seu voto, que será aberto e transmitido pela TV. O julgamento será no final de agosto, lá pelo dia 26.
Até lá, novas delações virão à tona, novas prisões devem ocorrer, não se excluindo a hipótese da do próprio Lula.
Outro efeito colateral adverso do adiamento do impeachment são as eleições de outubro, que este ano terão praticamente um mês apenas de campanha. A dura exposição da administração petista, sobretudo a ilegalidade de algumas de suas práticas, irão repercutir fortemente no eleitorado.
O recurso terrorista ao fim do Bolsa Família, na hipótese de vitória do adversário, já não terá a eficácia de antes. Ele mudou de mãos – e Temer, não obstante os conselhos de sua equipe econômica, acaba de conceder-lhe aumento de 12,5%.
O único risco que Temer corre deriva dele próprio, se insistir em nomear para sua equipe gente carimbada por atos praticados na gestão de sua antecessora.
Ação da Abin contra terrorismo é arriscadíssima e pode provocar retaliações
A espalhafatosa operação do Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para evitar atos de terrorismo na Olimpíada é altamente polêmica e controversa. Os dez suspeitos presos nesta quinta-feira são claramente amadores, com baixa capacidade de organização e execução. Lembrando o genial filósofo Aristóteles, que há 2,3 mil anos já ensinava que “o bom senso é elemento central da conduta ética, uma capacidade virtuosa de achar o meio-termo e distinguir a ação correta”, pode-se dizer que, no caso do terrorismo tropical, o bom senso indicava que a estratégia mais apropriada seria simplesmente monitorar os suspeitos 24 horas por dia.
Com esse cuidado, seria evitada a concretização de atentados e seus frustrados autores poderiam ser presos em flagrante, tudo isso sem causar pânico nem marcar presença na escandalosa mídia internacional, que está esvaziando o grande evento.
Na verdade, o que a mídia tem passado para o resto do mundo é que a Olimpíada no Rio de Janeiro representa um risco crescente em termos de saúde, organização e segurança, esta é a indesmentível realidade.
Com esse cuidado, seria evitada a concretização de atentados e seus frustrados autores poderiam ser presos em flagrante, tudo isso sem causar pânico nem marcar presença na escandalosa mídia internacional, que está esvaziando o grande evento.
Na verdade, o que a mídia tem passado para o resto do mundo é que a Olimpíada no Rio de Janeiro representa um risco crescente em termos de saúde, organização e segurança, esta é a indesmentível realidade.
Primeiro, surgiram as ameças de zika, dengue, chicungunha e gripe H1N1. Depois, o atraso nas obras, a queda da ciclovia. Para agravar a crise, o incompetente governador em exercício Francisco Dornelles baixou o decreto da “calamidade pública”, provocando a devolução de 50 mil ingressos já comprados para os jogos. E para culminar, o prefeito Eduardo Paes passou a dar seguidas entrevistas dizendo que não há segurança na cidade e a Olimpíada é uma “oportunidade perdida”.
Em tradução simultânea, pode-se dizer que o Rio de Janeiro nem precisa de inimigos, porque seus próprios governantes se encarregam de destruir a imagem da cidade. E o fazem com um impressionante empenho.
Em tradução simultânea, pode-se dizer que o Rio de Janeiro nem precisa de inimigos, porque seus próprios governantes se encarregam de destruir a imagem da cidade. E o fazem com um impressionante empenho.
Na chamada undécima hora, enfim apareceu um político de gabarito para defender a cidade, embora seja tarde demais, o mal já está feito. Em discurso a militares que irão compor as forças de segurança durante a Olimpíada no Rio de Janeiro, na sexta-feira, o ministro da Defesa Raul Jungmann criticou a “paranóia exacerbada pré-Olimpíada”. Voltou a afirmar que não há qualquer “ameaça consistente” de ação durante os Jogos, destacando que as Forças Armadas terão 22 mil militares no Rio durante evento, além dos efetivos da Polícia Militar, da Polícia Civil e da Guarda Municipal.
Ressalve-se que Jungmann é um homem honrado, que está há décadas na política, já foi ministro duas vezes e não enriqueceu ilicitamente. Pelo contrário, sua declaração de renda revela que não tem casa própria, paga aluguel e seu único bem é um automóvel. Justamente por isso, merece ser ouvido com especial atenção.
Ao lançar essa operação escalafobética, as forças de segurança, sob o comando da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) , partiram do princípio de que essa iniciativa desestimulará quaisquer outros atos de terrorismo. Pode ser até que isso ocorra, mas é preciso raciocinar que se trata de fanáticos religiosos que não ligam para a vida. Pelo contrário, os islamistas têm prazer em morrer pela guerra santa, para encontrar a felicidade eterna. E se multiplicam como coelhos, quando se prende um deles, logo aparecem outros para substituí-lo.
Nesse quadro real, promover operações hollywoodianas para prendê-los com base na lei antiterrorismo, mas sem flagrante delito da tentativa de atentado (ou seja, por mero crime de opinião), não somente dificulta a acusação pelo Ministério Público, como também pode despertar, ainda mais, a ira dos mais fanáticos. É aí que mora o perigo.
Ressalve-se que Jungmann é um homem honrado, que está há décadas na política, já foi ministro duas vezes e não enriqueceu ilicitamente. Pelo contrário, sua declaração de renda revela que não tem casa própria, paga aluguel e seu único bem é um automóvel. Justamente por isso, merece ser ouvido com especial atenção.
Ao lançar essa operação escalafobética, as forças de segurança, sob o comando da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) , partiram do princípio de que essa iniciativa desestimulará quaisquer outros atos de terrorismo. Pode ser até que isso ocorra, mas é preciso raciocinar que se trata de fanáticos religiosos que não ligam para a vida. Pelo contrário, os islamistas têm prazer em morrer pela guerra santa, para encontrar a felicidade eterna. E se multiplicam como coelhos, quando se prende um deles, logo aparecem outros para substituí-lo.
Nesse quadro real, promover operações hollywoodianas para prendê-los com base na lei antiterrorismo, mas sem flagrante delito da tentativa de atentado (ou seja, por mero crime de opinião), não somente dificulta a acusação pelo Ministério Público, como também pode despertar, ainda mais, a ira dos mais fanáticos. É aí que mora o perigo.
'Não queria destruir a presidente Dilma'
O publicitário João Santana queria proteger Dilma Rousseff. Compreensível. Afinal, sua cliente já tinha pago US$ 4,5 milhões por fora a ele, o mago das campanhas enganosas do PT. Seu roteiro na TV havia pintado o Brasil de rosa, azul e o escambau. “Eu que ajudei, de certa forma, a eleição dela, não seria a pessoa que iria destruir a presidente”, disse enfim João Santana em depoimento ao juiz Sergio Moro.
Por que sua delação a destruiria? Porque apenas começava o processo de impeachment quando o publicitário e sua mulher, Mônica Moura, foram detidos. E porque esses milhões de dólares não eram apenas caixa dois. Tinham sido pagos por um lobista, em conta não declarada na Suíça, e sua origem era criminosa. Os milhões de dólares vinham de propinas em contratos da Petrobras.
Segundo a Lava Jato, esse pagamento à propaganda política de Dilma foi desviado de um contrato fechado por um estaleiro para construir uma plataforma. Nem vou listar aqui todos os coadjuvantes porque ninguém mais consegue acompanhar o novelo de nomes e números, dignos de uma saga de Gabriel García Márquez. O que importa é: o mago caiu, a mulher do mago também, e ambos mentiram para proteger Dilma e a própria pele. Agora, caíram na real e tentam passar a imagem de bonzinhos e leais.
Antes de mentir para proteger Dilma, João Santana usou seu talento de publicitário para pintar a presidente como alguém que ela nunca foi, pintar a realidade brasileira de cores que escondessem a cor de burro quando foge e, assim, mentir ao eleitorado. Publicidade sem compromisso com a realidade deveria ser crime. Mas é, não é? Na televisão, o país editado por efeitos especiais é escandaloso. Num Brasil que lê pouco, por falta de instrução e de hábito, e onde o voto é compulsório, a tal propaganda política “gratuita” deveria ser sujeita a um crivo rigoroso para ir ao ar.
Não se trata de uma caça macarthista aos publicitários. Os clientes mandam, eles fazem. É só isso? Não. No caso de políticos, eles recriam os personagens, os cenários. Eles inventam. Eles convencem. Eles mostram como manipular o voto. Não consigo achar nada disso ético. E, ainda por cima, ganham uma fortuna, em dólares, que escondem fora do país. João Santana se arrepende.
Embora não tenha admitido conivência com “uma trapaça”, como perguntou Moro, o publicitário agora se penitencia. Receber pagamento no caixa dois ou “por fora” é sim, segundo João Santana após refletir na prisão, um “constrangimento profundo”, “um risco”, “um ato ilegal”. Um crime, não é mesmo? Chamando as coisas pelo nome. Só que era difícil para o PT de Dilma anunciar publicamente quanto estava pagando a seu “construtor de imagem” para vencer a eleição.
No início, João Santana e a mulher, aquela mesma que sorriu mascando chiclete ao ser presa, em atitude debochada, combinaram dizer aos investigadores que esses milhões de dólares eram de campanhas eleitorais feitas no exterior. Queriam evitar o que chamaram de “um grave problema” para Dilma, a honesta como nunca antes na história. Aquela por quem os militantes cegos botam a mão no fogo, a que não cometeu nenhum crime, a mãe dos deserdados, dos sem-teto, dos famintos – alguém ainda alardeia isso por convicção, sem ganhar milhões de patrocínio em troca?
João Santana acha que foi apanhado como bode expiatório. Denuncia a hipocrisia que crucifica a ele e a mulher, num país em que, segundo o publicitário, 98% das campanhas políticas no Brasil usam caixa dois. Por que só o casal está preso por isso? “Eu tinha consciência de uma prática ilegal. Dinheiro sujo, jamais. Caixa dois não é necessariamente caso de corrupção”, disse Santana ao juiz Moro. Na hora de eleição, sem vigilância apropriada, “ou faz a campanha dessa forma ou não se faz”.
Caixa dois é prática disseminada não só entre políticos, mas em “todas as camadas sociais e dezenas de profissões que recebem por fora”, disse João Santana. Aí sim. É a pura verdade. O publicitário bota o dedo numa ferida gigantesca. “A fila poderia ser fotografada de satélite”, afirmou o ex-mago do PT. “Iria de Brasília a Manaus.” Em campanhas políticas eleitorais, porém, é difícil o caixa dois ser imaculado. João Santana não é iniciante nem ingênuo. Deveria saber desse detalhe ou nem se importar com a origem.
Oficialmente, o PT pagou R$ 170 milhões em campanhas entre 2006 e 2014. Se pagou milhões de dólares por fora, é porque não podia declarar. Se não podia declarar, é porque era sujo. O desvio do desvio do desvio. Mas Dilma não cometeu nenhum crime. Não sabia de nada. Tampouco sabia Lula, aliás líder, segundo as pesquisas do Datafolha, nas intenções de voto no primeiro turno da eleição presidencial de 2018. Quem será o mago do PT nessa disputa? Foram todos presos. Viraram delatores e traidores.
Por que sua delação a destruiria? Porque apenas começava o processo de impeachment quando o publicitário e sua mulher, Mônica Moura, foram detidos. E porque esses milhões de dólares não eram apenas caixa dois. Tinham sido pagos por um lobista, em conta não declarada na Suíça, e sua origem era criminosa. Os milhões de dólares vinham de propinas em contratos da Petrobras.

Antes de mentir para proteger Dilma, João Santana usou seu talento de publicitário para pintar a presidente como alguém que ela nunca foi, pintar a realidade brasileira de cores que escondessem a cor de burro quando foge e, assim, mentir ao eleitorado. Publicidade sem compromisso com a realidade deveria ser crime. Mas é, não é? Na televisão, o país editado por efeitos especiais é escandaloso. Num Brasil que lê pouco, por falta de instrução e de hábito, e onde o voto é compulsório, a tal propaganda política “gratuita” deveria ser sujeita a um crivo rigoroso para ir ao ar.
Não se trata de uma caça macarthista aos publicitários. Os clientes mandam, eles fazem. É só isso? Não. No caso de políticos, eles recriam os personagens, os cenários. Eles inventam. Eles convencem. Eles mostram como manipular o voto. Não consigo achar nada disso ético. E, ainda por cima, ganham uma fortuna, em dólares, que escondem fora do país. João Santana se arrepende.
Embora não tenha admitido conivência com “uma trapaça”, como perguntou Moro, o publicitário agora se penitencia. Receber pagamento no caixa dois ou “por fora” é sim, segundo João Santana após refletir na prisão, um “constrangimento profundo”, “um risco”, “um ato ilegal”. Um crime, não é mesmo? Chamando as coisas pelo nome. Só que era difícil para o PT de Dilma anunciar publicamente quanto estava pagando a seu “construtor de imagem” para vencer a eleição.
No início, João Santana e a mulher, aquela mesma que sorriu mascando chiclete ao ser presa, em atitude debochada, combinaram dizer aos investigadores que esses milhões de dólares eram de campanhas eleitorais feitas no exterior. Queriam evitar o que chamaram de “um grave problema” para Dilma, a honesta como nunca antes na história. Aquela por quem os militantes cegos botam a mão no fogo, a que não cometeu nenhum crime, a mãe dos deserdados, dos sem-teto, dos famintos – alguém ainda alardeia isso por convicção, sem ganhar milhões de patrocínio em troca?
João Santana acha que foi apanhado como bode expiatório. Denuncia a hipocrisia que crucifica a ele e a mulher, num país em que, segundo o publicitário, 98% das campanhas políticas no Brasil usam caixa dois. Por que só o casal está preso por isso? “Eu tinha consciência de uma prática ilegal. Dinheiro sujo, jamais. Caixa dois não é necessariamente caso de corrupção”, disse Santana ao juiz Moro. Na hora de eleição, sem vigilância apropriada, “ou faz a campanha dessa forma ou não se faz”.
Caixa dois é prática disseminada não só entre políticos, mas em “todas as camadas sociais e dezenas de profissões que recebem por fora”, disse João Santana. Aí sim. É a pura verdade. O publicitário bota o dedo numa ferida gigantesca. “A fila poderia ser fotografada de satélite”, afirmou o ex-mago do PT. “Iria de Brasília a Manaus.” Em campanhas políticas eleitorais, porém, é difícil o caixa dois ser imaculado. João Santana não é iniciante nem ingênuo. Deveria saber desse detalhe ou nem se importar com a origem.
Oficialmente, o PT pagou R$ 170 milhões em campanhas entre 2006 e 2014. Se pagou milhões de dólares por fora, é porque não podia declarar. Se não podia declarar, é porque era sujo. O desvio do desvio do desvio. Mas Dilma não cometeu nenhum crime. Não sabia de nada. Tampouco sabia Lula, aliás líder, segundo as pesquisas do Datafolha, nas intenções de voto no primeiro turno da eleição presidencial de 2018. Quem será o mago do PT nessa disputa? Foram todos presos. Viraram delatores e traidores.
Revista turbinada em aeroportos tem efeitos duvidosos
Um de meus vieses humanos favoritos é a ilusão de controle —a tendência de superestimar nossa capacidade de comandar o curso dos acontecimentos. É uma característica particularmente interessante de nossa espécie porque, apesar de nos impelir a uma avaliação objetivamente errada da realidade, em muitas situações produz consequências positivas, ao fazer com que perseveremos em vez de desistir à primeira dificuldade.
A fiscalização reforçada nos aeroportos, que o Brasil resolveu expandir para voos domésticos às vésperas da Rio-2016, me parece uma resposta mais em linha com nossa vontade de estar no controle do que com os ditames de eficácia. A maioria de nós não pensa duas vezes antes de apoiar esse tipo de medida, que, afinal, visa a nos manter vivos e em um único pedaço, como é conveniente. O problema é que não dá para pensar esse tipo de questão em termos absolutos. Tudo em sociedade é uma solução de compromisso entre o ideal e as necessidades práticas. Quantas horas-passageiro a mais na fila estamos dispostos a aguentar para evitar um ataque? E será que a revista rigorosa frustra mesmo atentados?
Para alguns especialistas, seu efeito mais notável é deslocar o local do ataque. Em vez de ocorrer a bordo do avião, ele acontece no saguão, como vimos em Istambul e Bruxelas. E por que limitar-se ao setor aéreo? Se as coisas ficam difíceis nos aeroportos, é possível mudar para alvos mais fáceis, como transportes de massa (Madrid, Londres), lugares de diversão pública (Orlando, Paris) ou mesmo aglomerações (Nice). Obviamente, não dá para revistar cada indivíduo que entra no metrô ou vai para a rua.
A melhor estratégia para evitar ataques ainda é o monitoramento de suspeitos por serviços de inteligência, que está longe de infalível. A verdade, por mais depressivo que seja reconhecê-lo, é que, fora da esfera do marketing, nosso controle é mais limitado do que imaginamos.
A fiscalização reforçada nos aeroportos, que o Brasil resolveu expandir para voos domésticos às vésperas da Rio-2016, me parece uma resposta mais em linha com nossa vontade de estar no controle do que com os ditames de eficácia. A maioria de nós não pensa duas vezes antes de apoiar esse tipo de medida, que, afinal, visa a nos manter vivos e em um único pedaço, como é conveniente. O problema é que não dá para pensar esse tipo de questão em termos absolutos. Tudo em sociedade é uma solução de compromisso entre o ideal e as necessidades práticas. Quantas horas-passageiro a mais na fila estamos dispostos a aguentar para evitar um ataque? E será que a revista rigorosa frustra mesmo atentados?
A melhor estratégia para evitar ataques ainda é o monitoramento de suspeitos por serviços de inteligência, que está longe de infalível. A verdade, por mais depressivo que seja reconhecê-lo, é que, fora da esfera do marketing, nosso controle é mais limitado do que imaginamos.
A nação precisa de um tempo para se refazer do legado lulopetista
Aos poucos, vão sendo recolhidos os escombros deixados pelo lulopetismo, que pode retornar. Um dos males está na reeleição, tal como implantada no Brasil. Ao menos, que se adotasse o critério norte-americano: quem, por dois mandatos, recebeu a maior honraria nacional deve afastar-se para sempre da luta política para servir de reserva do país, numa espécie de conselho informal da nação, nos momentos mais difíceis de sua caminhada histórica.
Aliás, nem mesmo o regime militar cogitou da reeleição, no interesse próprio de não provocar uma ruptura, no âmbito das ambições presidenciais, e, afinal, cair no cisma e na própria derrubada. Logo, do ponto de vista do proveito da aliança militar-tecnocrática-empresarial, que abominava a democracia representativa e o Estado de direito, havia coerência no repúdio à reeleição. Naquele esquema, essa peça, conquanto ameaçasse o pacto, costumava aflorar, sob o argumento de endurecer ainda mais o regime estabelecido.
Ademais, sabiamente os norte-americanos mostraram-se prudentes em analisar as distorções suscitadas pelo instituto da reeleição, sem limite no tempo, mesmo para um povo amadurecido pela dinâmica de uma democracia política já praticada há muito tempo. Quando o grande presidente Roosevelt recebeu o quarto mandato, as lideranças congressuais, assustadas com o fato, embora justificado pelos duros tempos de guerra enfrentados, cuidaram logo de revogar o permissivo constitucional que tolerava reeleições sucessivas e ilimitadas para, por meio de emenda à Constituição, restringi-las apenas ao segundo mandato.
Aliás, a história sempre ensina. Entre nós, e imprudentemente, a emenda constitucional ao texto promulgado em 1988, aprovada na ânsia ilusória de manter o PSDB pelo menos 20 anos no poder, silencia sobre a questão, o que significa consentir reeleições teoricamente sem limites, quando, entre estas, se cumpra pelo menos um mandato de outro concorrente.
Em outras palavras, reeleito uma vez, o ex-presidente não pode retornar ao cargo. Não sendo assim, os sábios do PSDB poderão ter de competir com o ex-presidente Lula em 2018. Enfatizo o comentário porque considero o sr. Lula e seu partido o maior mal que ameaça o Brasil em futuro próximo.
No quadro de absoluta ausência de lideranças políticas, até o deputado Eduardo Cunha pode renascer e quiçá voltar a presidir a Câmara dos Deputados. Está na rota das obviedades, considerando o sistema eleitoral e partidário que temos e o fácil esquecimento do corpo eleitoral dos profundos danos causados por mandatários infiéis; portanto, não surpreenderá os mais experimentados que o populismo, a incompetência e a mentira dos deslocados do poder retomem o espaço central de que se julgaram donos.
Sou realista: o campo poderá estar aberto para o narcisista Lula. Sua intensa movimentação coincide com o desejo perverso de voltar. Não creio que dele venha qualquer gesto de trégua. Nossa cambiante história é testemunha da persistência desse político cujo verdadeiro compromisso é com a satisfação de seu apetite pela manipulação do poder. Daí, não admitirá qualquer indenização pelos estragos feitos por si e por sua despreparada e incompetente sucessora. Arrasaram o país, que só ressuscitará das cinzas com um “risorgimento”. Enquanto isso, Lula, com os defeitos psíquicos, despreza os adversários. Se aparecerem, serão esmagados. É a lógica da ideologia: o primado é deles (o líder incontestável e seu partido); ao resto, a zurrapa.
Impõe-se evitar a tragédia.
Márcio Garcia Vilela
Aliás, nem mesmo o regime militar cogitou da reeleição, no interesse próprio de não provocar uma ruptura, no âmbito das ambições presidenciais, e, afinal, cair no cisma e na própria derrubada. Logo, do ponto de vista do proveito da aliança militar-tecnocrática-empresarial, que abominava a democracia representativa e o Estado de direito, havia coerência no repúdio à reeleição. Naquele esquema, essa peça, conquanto ameaçasse o pacto, costumava aflorar, sob o argumento de endurecer ainda mais o regime estabelecido.
Ademais, sabiamente os norte-americanos mostraram-se prudentes em analisar as distorções suscitadas pelo instituto da reeleição, sem limite no tempo, mesmo para um povo amadurecido pela dinâmica de uma democracia política já praticada há muito tempo. Quando o grande presidente Roosevelt recebeu o quarto mandato, as lideranças congressuais, assustadas com o fato, embora justificado pelos duros tempos de guerra enfrentados, cuidaram logo de revogar o permissivo constitucional que tolerava reeleições sucessivas e ilimitadas para, por meio de emenda à Constituição, restringi-las apenas ao segundo mandato.
Aliás, a história sempre ensina. Entre nós, e imprudentemente, a emenda constitucional ao texto promulgado em 1988, aprovada na ânsia ilusória de manter o PSDB pelo menos 20 anos no poder, silencia sobre a questão, o que significa consentir reeleições teoricamente sem limites, quando, entre estas, se cumpra pelo menos um mandato de outro concorrente.
No quadro de absoluta ausência de lideranças políticas, até o deputado Eduardo Cunha pode renascer e quiçá voltar a presidir a Câmara dos Deputados. Está na rota das obviedades, considerando o sistema eleitoral e partidário que temos e o fácil esquecimento do corpo eleitoral dos profundos danos causados por mandatários infiéis; portanto, não surpreenderá os mais experimentados que o populismo, a incompetência e a mentira dos deslocados do poder retomem o espaço central de que se julgaram donos.
Sou realista: o campo poderá estar aberto para o narcisista Lula. Sua intensa movimentação coincide com o desejo perverso de voltar. Não creio que dele venha qualquer gesto de trégua. Nossa cambiante história é testemunha da persistência desse político cujo verdadeiro compromisso é com a satisfação de seu apetite pela manipulação do poder. Daí, não admitirá qualquer indenização pelos estragos feitos por si e por sua despreparada e incompetente sucessora. Arrasaram o país, que só ressuscitará das cinzas com um “risorgimento”. Enquanto isso, Lula, com os defeitos psíquicos, despreza os adversários. Se aparecerem, serão esmagados. É a lógica da ideologia: o primado é deles (o líder incontestável e seu partido); ao resto, a zurrapa.
Impõe-se evitar a tragédia.
Márcio Garcia Vilela
'Terrir', resposta brasileira ao terrorismo
Terrorismo, óbvio, é coisa séria. Bote sério nisso. As autoridades brasileiras, porém, que levam um olé diário dos PCC's bandeirantes e dos comandos cariocas, fazem lembrar, sob os holofotes bajuladores dos telejornais, o genial subgênero do cinema tupiniquim: o terrir, a mistura de terror com humor. O mestre da parada, o cineasta Ivan Cardoso, que perdoe este pusilânime fã e cronista diante de tão irresponsável comparação. Foi mal, amigo.
Um lobisomem cobiça o ouro olímpico?, indagaria o monstruoso Ivan, diretor deO Segredo da Múmia (1982), entre outras obras-primas. Suspense. Desculpa aí, Brasil Oficial q ue se leva a sério. Só rindo, mas o circo governista, policial, jurídico e midiático montado para caçar esses meninos do WhatsApp, precisa ser mais explicadinho, trocado em miúdos de pedagógicos sarapatéis paulofreirianos. Não convence uma pá de gente, mesmo uns cidadãos assustados que conheço em ambientes familiares. Em matéria de assombração, só o chupa-cabra explica a pátria mameluca!
O mais louco é que, depois da manchete à cabidela —tipo da notícia que vende o sangue de véspera igual ao cacarejo das galinhas que minha mãe matava no Cariri— os argumentos das autoritárias e argutas autoridades pareciam desmentir o perigo: são amadores, não têm conexão real com o Estado Islâmico, não dá para mencionar o grau de risco etc etc etc. Sem se falar na contradição entre o juiz que autorizou o cárcere e os nossos carecas da lei —evidentemente sem o charme do velho Kojak do seriado americano, of course.
E essa história de levar a molecada supostamente terrorista para lugar não-dito e não-sabido? Isso me lembra, caríssimo Ivan Cardoso, não o terrir, pois não tem graça, me lembra o terror —nada virtual ou cinematográfico— dos porões militares. No mínimo um resquício no inconsciente do governo em exercício ou do golpe em andamento, como preferir o generoso leitor deste panfletário colunista.
Pedagogia da esquina
Ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis, disse, me disse certamente, ontem à noite, o amanuense Belmiro. Pobre Belmiro, um desses escravos da burocracia de um escritório do centro. Conheci o sábio Belmiro, graças ao velhíssimo camarada Cyro dos Anjos, outro que bebe conosco aqui na esquina do Príncipe de Mônaco, ai de mim Copacabana.
No que, além do terrorismo diário do Rio de Janeiro, falamos também da chatice olímpica. As tropas, daqui a pouco, nos proíbem de mirar as bundas, Copacabana é farta em bundas de todos os gêneros. A escola do "terrir" sabiamente inclui o sexo, como terceiro elemento —error, humor e sacanagem, por supuesto.
Que triste tem ficado o Rio eternamente sequestrado pelos grandes eventos. Seja a Jornada da Juventude do papa Francisco, o fofo da eucaristia (pense numa cidade cara desde essa época!), seja a Copa do Mundo, ave, seja qualquer onda. E agora só faltava essa ameaça de terrorismo para uma gente que sabe o que é isso desde a Guerra Fria, no mínimo.
Na buena, esse povo cordial brasileiro, incluindo a nossa polícia exterminadora na periferia, já mata mais gente comum todo dia do que quaisquer célula islâmica. Vocês têm certeza que vêm ao nosso país, caros terroristas de verdade?
Xico Sá
Um lobisomem cobiça o ouro olímpico?, indagaria o monstruoso Ivan, diretor deO Segredo da Múmia (1982), entre outras obras-primas. Suspense. Desculpa aí, Brasil Oficial q ue se leva a sério. Só rindo, mas o circo governista, policial, jurídico e midiático montado para caçar esses meninos do WhatsApp, precisa ser mais explicadinho, trocado em miúdos de pedagógicos sarapatéis paulofreirianos. Não convence uma pá de gente, mesmo uns cidadãos assustados que conheço em ambientes familiares. Em matéria de assombração, só o chupa-cabra explica a pátria mameluca!
E essa história de levar a molecada supostamente terrorista para lugar não-dito e não-sabido? Isso me lembra, caríssimo Ivan Cardoso, não o terrir, pois não tem graça, me lembra o terror —nada virtual ou cinematográfico— dos porões militares. No mínimo um resquício no inconsciente do governo em exercício ou do golpe em andamento, como preferir o generoso leitor deste panfletário colunista.
Pedagogia da esquina
Ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis, disse, me disse certamente, ontem à noite, o amanuense Belmiro. Pobre Belmiro, um desses escravos da burocracia de um escritório do centro. Conheci o sábio Belmiro, graças ao velhíssimo camarada Cyro dos Anjos, outro que bebe conosco aqui na esquina do Príncipe de Mônaco, ai de mim Copacabana.
No que, além do terrorismo diário do Rio de Janeiro, falamos também da chatice olímpica. As tropas, daqui a pouco, nos proíbem de mirar as bundas, Copacabana é farta em bundas de todos os gêneros. A escola do "terrir" sabiamente inclui o sexo, como terceiro elemento —error, humor e sacanagem, por supuesto.
Que triste tem ficado o Rio eternamente sequestrado pelos grandes eventos. Seja a Jornada da Juventude do papa Francisco, o fofo da eucaristia (pense numa cidade cara desde essa época!), seja a Copa do Mundo, ave, seja qualquer onda. E agora só faltava essa ameaça de terrorismo para uma gente que sabe o que é isso desde a Guerra Fria, no mínimo.
Na buena, esse povo cordial brasileiro, incluindo a nossa polícia exterminadora na periferia, já mata mais gente comum todo dia do que quaisquer célula islâmica. Vocês têm certeza que vêm ao nosso país, caros terroristas de verdade?
Xico Sá
quinta-feira, 21 de julho de 2016
Exagero do bem
Funcionários estavam roubando comida dos estoques e do restaurante estudantil da Universidade Federal de Viçosa. Isso mesmo: pacotes de arroz, sacos de batatas, latas de suco etc. E já que estavam com a mão na massa, levavam também para suas casas rolos de papel higiênico e produtos de limpeza. Mixaria, entretanto. Tudo somado, a Polícia Federal calcula que o roubo era de R$ 2 milhões ao ano, desde 2008 — logo, um assalto de R$ 16 milhões. Comparado com os números do petrolão, é dinheiro de troco. Mesmo assim, a Polícia Federal fez uma operação pesada. Às 6 da manhã de ontem, 70 agentes federais, com aquelas camionetes pretas, entraram no campus para cumprir mandados de prisão e outros de condução coercitiva. Já traziam funcionários apanhados em suas casas.
A operação, também ao estilo clássico da PF, ganhou um nome, “Recanto das Cigarras” — um aprazível lugar do campus, onde provavelmente os ladrões de comida descansavam à sombra, chupando um picolé do estoque.
Dirão: exagero da PF. Afinal, são delinquentes do baixo escalão, levando coisa pouca, não tinham como fugir, para que todo aquele espalhafato?
Mas reparem: os caras roubavam a comida subsidiada dos estudantes de uma universidade pública. Levavam dinheiro do contribuinte de duas formas, no salário e no assalto. Pagos para prestar serviço público, levavam arroz do povo para suas casas, nos porta-malas de seus carros, estacionados de graça ao lado dos depósitos.
O que pode ser mais exagerado?
Políticos sob suspeita, políticos com medo, não estão preocupados com roubo de comida. Mas estão dizendo que a força-tarefa da Lava-Jato exagera nas suas operações e vai além dos limites nos seus métodos.
E ficaram horrorizados com as Dez Medidas Contra a Corrupção, um conjunto de leis proposto pelo Ministério Público Federal e encaminhado ao Congresso Nacional com 2,5 milhões de assinaturas. O pacote tem um objetivo determinado: endurecer o combate à corrupção.
Em vez disso, o presidente do Senado, Renan Calheiros, anunciou a disposição de colocar em votação o quanto antes um outro projeto, que define e pune diversas modalidades de abuso de autoridade.
Define como abuso, por exemplo, “ofender a intimidade, a vida privada, a honra ou a imagem da pessoa indiciada em inquérito policial”.
Parece fazer sentido, mas esses tipos de ofensa já estão previstos na lei. Ninguém pode fazer aquelas coisas, muito menos sendo uma autoridade.
Ou seja, considerado o momento, aquela definição vem a calhar para criminalizar as espalhafatosas operações da PF. Setenta agentes da PF para prender dois ladrões de comida em suas casas, na frente de seus familiares? Ou para prender um ex-ministro na frente de seus filhos? Ou um pacato empresário? Ou um eleito pelo povo?
Sim, há abuso de autoridade no Brasil. Por exemplo: em greve, auditores fiscais da Receita Federal retêm mercadorias importadas e, com isso, impõem prejuízos a pessoas e empresas. Outro: deputados e senadores que usam a autoridade de seus cargos para afastar a ação da polícia e da Justiça. Se não fosse senador, Renan Calheiros conseguiria adiar por anos o desfecho dos seus vários inquéritos e processos? Até conseguiria, se tivesse dinheiro para bons advogados.
Pesquisas mostram que o criminoso, tirante os casos passionais, claro, sempre calcula a relação custo/benefício. Quanto menor a chance de o cara ser apanhado, maior a criminalidade.
O Brasil é prova disso. A corrupção vai dos bilhões da Petrobras ao roubo de comida na universidade de Viçosa. E a impunidade não é só para os casos de assalto aos cofres públicos. Leis e práticas processuais favorecem amplamente qualquer acusado ou réu que possa pagar por uma boa defesa.
Na ditadura militar, a autoridade oprimia a sociedade civil de maneira ampla e irrestrita. A polícia prendia sem mandado. O governo censurava a imprensa, fechava o Congresso, editava leis. Reclamar de qualquer agente público era uma temeridade.
Na virada para a democracia, tratou-se de garantir a liberdade e os direitos do indivíduo. O que tinha mesmo que ser feito.
Mas algo deu errado. De um lado, há flagrantes abusos de autoridade, especialmente contra os mais pobres e os desprovidos de poder. De outro, criminosos de alto escalão têm infinitos meios de escapar da Justiça.
Os exageros da Lava-Jato permitiram apanhar alguns desses criminosos e, sobretudo, expuseram as falhas do sistema.
O momento é de endurecer o combate à corrupção.
Carlos Alberto Sardenberg
A operação, também ao estilo clássico da PF, ganhou um nome, “Recanto das Cigarras” — um aprazível lugar do campus, onde provavelmente os ladrões de comida descansavam à sombra, chupando um picolé do estoque.
Dirão: exagero da PF. Afinal, são delinquentes do baixo escalão, levando coisa pouca, não tinham como fugir, para que todo aquele espalhafato?
Mas reparem: os caras roubavam a comida subsidiada dos estudantes de uma universidade pública. Levavam dinheiro do contribuinte de duas formas, no salário e no assalto. Pagos para prestar serviço público, levavam arroz do povo para suas casas, nos porta-malas de seus carros, estacionados de graça ao lado dos depósitos.
O que pode ser mais exagerado?
Políticos sob suspeita, políticos com medo, não estão preocupados com roubo de comida. Mas estão dizendo que a força-tarefa da Lava-Jato exagera nas suas operações e vai além dos limites nos seus métodos.
E ficaram horrorizados com as Dez Medidas Contra a Corrupção, um conjunto de leis proposto pelo Ministério Público Federal e encaminhado ao Congresso Nacional com 2,5 milhões de assinaturas. O pacote tem um objetivo determinado: endurecer o combate à corrupção.
Em vez disso, o presidente do Senado, Renan Calheiros, anunciou a disposição de colocar em votação o quanto antes um outro projeto, que define e pune diversas modalidades de abuso de autoridade.
Define como abuso, por exemplo, “ofender a intimidade, a vida privada, a honra ou a imagem da pessoa indiciada em inquérito policial”.
Parece fazer sentido, mas esses tipos de ofensa já estão previstos na lei. Ninguém pode fazer aquelas coisas, muito menos sendo uma autoridade.
Ou seja, considerado o momento, aquela definição vem a calhar para criminalizar as espalhafatosas operações da PF. Setenta agentes da PF para prender dois ladrões de comida em suas casas, na frente de seus familiares? Ou para prender um ex-ministro na frente de seus filhos? Ou um pacato empresário? Ou um eleito pelo povo?
Sim, há abuso de autoridade no Brasil. Por exemplo: em greve, auditores fiscais da Receita Federal retêm mercadorias importadas e, com isso, impõem prejuízos a pessoas e empresas. Outro: deputados e senadores que usam a autoridade de seus cargos para afastar a ação da polícia e da Justiça. Se não fosse senador, Renan Calheiros conseguiria adiar por anos o desfecho dos seus vários inquéritos e processos? Até conseguiria, se tivesse dinheiro para bons advogados.
O Brasil é prova disso. A corrupção vai dos bilhões da Petrobras ao roubo de comida na universidade de Viçosa. E a impunidade não é só para os casos de assalto aos cofres públicos. Leis e práticas processuais favorecem amplamente qualquer acusado ou réu que possa pagar por uma boa defesa.
Na ditadura militar, a autoridade oprimia a sociedade civil de maneira ampla e irrestrita. A polícia prendia sem mandado. O governo censurava a imprensa, fechava o Congresso, editava leis. Reclamar de qualquer agente público era uma temeridade.
Na virada para a democracia, tratou-se de garantir a liberdade e os direitos do indivíduo. O que tinha mesmo que ser feito.
Mas algo deu errado. De um lado, há flagrantes abusos de autoridade, especialmente contra os mais pobres e os desprovidos de poder. De outro, criminosos de alto escalão têm infinitos meios de escapar da Justiça.
Os exageros da Lava-Jato permitiram apanhar alguns desses criminosos e, sobretudo, expuseram as falhas do sistema.
O momento é de endurecer o combate à corrupção.
Carlos Alberto Sardenberg
A lição do papeleiro
A rua Salvador França, em Porto Alegre, forma uma rampa acentuada ao se aproximar da avenida Protásio Alves. Há poucos dias, em hora de tráfego intenso, eu andava por ali, lomba acima. A lentidão do trânsito evidenciava haver, adiante, algum obstáculo na pista. De fato, pouco além, avistei um carrinho de papeleiro, muito carregado e com volumosos excessos laterais. A carga era tão desproporcional que me interessei em ver como se fazia a tração de todo aquele peso. Um cavalo? Dois homens? Não. Era um homem só, e bem magro. Puxava sua carga caminhando de costas, fazendo o maior uso possível do próprio peso, jogando-se para trás.
Ao ultrapassá-lo, senti vontade de parar, descer e expressar àquele ser humano meu reconhecimento ao valor moral que transmitia. Mas seria impraticável em meio ao tráfego. Decidi que o faria aqui, narrando o fato e traduzindo em palavras a silenciosa lição que proporcionava.
A mesa do papeleiro é pobre e pouca. Há frestas em sua insalubre moradia. Agasalho escasso, extenuante o trabalho. Não conhece férias e não recebe hora extra. Bem perto de onde mora está o traficante com dinheiro no bolso e correntes de ouro no pescoço. Se é de justiça tratar desigualmente os desiguais, a tolerância e a indulgência, em nome da luta de classes, para com os crimes praticados por indivíduos supostamente pobres são uma ofensa ao papeleiro da Salvador França. Todo modo de ver a lei penal como lei do "opressor" contra o "oprimido", todo garantismo que assumidamente desprotege a sociedade são ofensivos ao seu trabalho honesto.
Assumindo como ganha-pão uma tarefa de tração animal, ele ensina o quanto a vida, mesmo comprometida diariamente com penosa rotina, pode ser dura sem deixar de ser humana e digna. Enquanto, naquele dia, arrastava sua carga ladeira acima, o papeleiro esbofeteava, sem saber, a face de cada corrupto e de cada corruptor. Ensinava a quantos fazem e aplicam a Lei, que a pobreza a merecer proteção social e institucional é a pobreza do homem bom, nunca - nunca! - por si mesma, a pobreza do malfeitor, do traficante, do ladrão, do homicida, do estuprador (que até estes voltam rapidamente às ruas!). Degenerado é degenerado, criminoso é criminoso, independentemente do extrato de renda. O lugar de quem vive do crime é a cadeia, senhores.
Por isso, falando em nome de muitos, de poucos ou apenas no meu próprio, gostaria de conhecer a natureza do delito que certos homens da Lei nos imputam, leitor. Ao dar liberdade a quem tem que estar preso, esses falsos justiceiros condenam todos os demais à insegurança e à restrição da liberdade. Escrevam o que pensam, senhores! Sustentem suas teses marxistas abertamente nos jornais! Venham à luz do dia com suas doutrinas! Não se escondam nas páginas dos processos, nas dissertações acadêmicas e nos conciliábulos dos que pensam igual! Afinal, desarmados pelas exigências que cercam a posse de qualquer arma, agora estamos encarcerados por grades de proteção e temos as mãos contidas pelas algemas da impotência cívica.
Percival Puggina
Ao ultrapassá-lo, senti vontade de parar, descer e expressar àquele ser humano meu reconhecimento ao valor moral que transmitia. Mas seria impraticável em meio ao tráfego. Decidi que o faria aqui, narrando o fato e traduzindo em palavras a silenciosa lição que proporcionava.
A mesa do papeleiro é pobre e pouca. Há frestas em sua insalubre moradia. Agasalho escasso, extenuante o trabalho. Não conhece férias e não recebe hora extra. Bem perto de onde mora está o traficante com dinheiro no bolso e correntes de ouro no pescoço. Se é de justiça tratar desigualmente os desiguais, a tolerância e a indulgência, em nome da luta de classes, para com os crimes praticados por indivíduos supostamente pobres são uma ofensa ao papeleiro da Salvador França. Todo modo de ver a lei penal como lei do "opressor" contra o "oprimido", todo garantismo que assumidamente desprotege a sociedade são ofensivos ao seu trabalho honesto.
Assumindo como ganha-pão uma tarefa de tração animal, ele ensina o quanto a vida, mesmo comprometida diariamente com penosa rotina, pode ser dura sem deixar de ser humana e digna. Enquanto, naquele dia, arrastava sua carga ladeira acima, o papeleiro esbofeteava, sem saber, a face de cada corrupto e de cada corruptor. Ensinava a quantos fazem e aplicam a Lei, que a pobreza a merecer proteção social e institucional é a pobreza do homem bom, nunca - nunca! - por si mesma, a pobreza do malfeitor, do traficante, do ladrão, do homicida, do estuprador (que até estes voltam rapidamente às ruas!). Degenerado é degenerado, criminoso é criminoso, independentemente do extrato de renda. O lugar de quem vive do crime é a cadeia, senhores.
Por isso, falando em nome de muitos, de poucos ou apenas no meu próprio, gostaria de conhecer a natureza do delito que certos homens da Lei nos imputam, leitor. Ao dar liberdade a quem tem que estar preso, esses falsos justiceiros condenam todos os demais à insegurança e à restrição da liberdade. Escrevam o que pensam, senhores! Sustentem suas teses marxistas abertamente nos jornais! Venham à luz do dia com suas doutrinas! Não se escondam nas páginas dos processos, nas dissertações acadêmicas e nos conciliábulos dos que pensam igual! Afinal, desarmados pelas exigências que cercam a posse de qualquer arma, agora estamos encarcerados por grades de proteção e temos as mãos contidas pelas algemas da impotência cívica.
Percival Puggina
A resistência que começou pequena sempre foi gigantesca na audácia de simplesmente existir
É preciso formalizar a instalação de Dilma – a criatura oligofrênica de um jeca, ambos novidades nefastas nascidas política e moralmente senis – entre as lembranças amargas de um passado que ainda lateja em coágulos na academia, na imprensa recalcitrante em enxergar o país real e demais consciências na cegueira incurável a respeito do modo, da profundidade e da extensão com que o lulopetismo desgraçou o Brasil.
Que assim permaneçam, não defendo a cura dessa gente toda, pois a existência do contraditório, mesmo sombrio, é importante para nos impedir de esquecer que o combate deve ser permanente e a vigilância constante, cotidianos ambos, para que o futuro se confirme e o passado seja somente memória. Um passado que ainda frutificará por muito tempo, mas, não sei se por índole, formação, escolha consciente ou tudo isso, gosto de pensar que temos mais a celebrar diante de tanto a lamentar.
A resistência – que, como quase tudo na vida, começou pequena, mas só em participantes, pois ela sempre foi gigantesca na audácia de simplesmente existir – de tão poucos foi tomando o país, multiplicou-se e obteve o que há menos de dois anos parecia impossível: mais do que o impeachment, o fortalecimento da Lava Jato, a ruína de Lula e do PT, a revelação da cornucópia de comparsas ou a prisão de muitos deles, o país parece ter se dado conta de que só pode contar consigo, que a força da indignação faz diferente quando posta em movimento. Isso educa gerações.
Não sei se tinha de ser tão doloroso, só sei que assim foi ou está sendo; e o país aprendeu mais a respeito de si e desmistificou talvez a última vertente do nefasto legado getulista numa cópula maldita e inaudita com o esquerdismo mais obscuro. Em meio à contabilidade dos danos, dos dramas pessoais que a crise econômica gerou, das imperfeições do governo Temer e de tanto que há por fazer, volto dia 31 à Paulista para continuar reivindicando, mas sobretudo para comemorar as novas luzes que, sim, revelam os vincos profundos de um país tão maltratado, mas iluminam o que era sombra até ontem.
Que assim permaneçam, não defendo a cura dessa gente toda, pois a existência do contraditório, mesmo sombrio, é importante para nos impedir de esquecer que o combate deve ser permanente e a vigilância constante, cotidianos ambos, para que o futuro se confirme e o passado seja somente memória. Um passado que ainda frutificará por muito tempo, mas, não sei se por índole, formação, escolha consciente ou tudo isso, gosto de pensar que temos mais a celebrar diante de tanto a lamentar.

Não sei se tinha de ser tão doloroso, só sei que assim foi ou está sendo; e o país aprendeu mais a respeito de si e desmistificou talvez a última vertente do nefasto legado getulista numa cópula maldita e inaudita com o esquerdismo mais obscuro. Em meio à contabilidade dos danos, dos dramas pessoais que a crise econômica gerou, das imperfeições do governo Temer e de tanto que há por fazer, volto dia 31 à Paulista para continuar reivindicando, mas sobretudo para comemorar as novas luzes que, sim, revelam os vincos profundos de um país tão maltratado, mas iluminam o que era sombra até ontem.
Lava Jato e Santo Amaro da Purificação
Santo Amaro fica na Bahia. É a cidade de Dona Canô, Caetano Velloso e Maria Bethânia. E, por isto, lhe seremos eternamente gratos.
Mas o que Santo Amaro tem a ver com Lava Jato? Nada, aparentemente. E aparentemente tudo.
Santo Amaro, como o Brasil, e sete outros municípios baianos foram, e têm sido, vítimas de fraudes e corrupções nas licitações. Estima-se que pelo menos vinte milhões de reais tenham sido desviados segundo o jornal A Tarde, de Salvador.
Nos últimos tempos, uniram-se Ministério Público estadual, Judiciário, Polícia Federal e Polícia civil e desencadearam duas operações. A primeira a Operação Adsumus e em seguida a Operação Burla.
Mas o que Santo Amaro tem a ver com Lava Jato? Nada, aparentemente. E aparentemente tudo.
Santo Amaro, como o Brasil, e sete outros municípios baianos foram, e têm sido, vítimas de fraudes e corrupções nas licitações. Estima-se que pelo menos vinte milhões de reais tenham sido desviados segundo o jornal A Tarde, de Salvador.
Nos últimos tempos, uniram-se Ministério Público estadual, Judiciário, Polícia Federal e Polícia civil e desencadearam duas operações. A primeira a Operação Adsumus e em seguida a Operação Burla.
Na primeira, cinco pessoas foram presas preventivamente e nove mandados de busca e apreensão foram cumpridos. Na segunda, três mandados de prisão e 15 mandados de busca e apreensão.
O que tudo isto quer dizer?
Pelo menos três observações são pertinentes. Primeiro, que as fraudes reveladas por Lava Jato são indicadores do que ocorre nas relações entre governos e empresas em muitos brasis.
Segundo, o tema da corrupção provavelmente vai ser municipalizado nestas eleições agora de outubro. Deve influenciar os eleitores, que serão capazes de ver a reprodução destes esquemas em suas cidades também.
Terceiro, o modelo de atuação Lava Jato, que une Ministério Público, Policias, CGU, Tribunais de Contas, e Judiciário, é replicável em todo o país. Com apoio da liberdade de imprensa e conscientização da opinião publica. O mesmo tipo de atuação.
Ou seja, Lava Jato pode acabar e deve em algum dia. Mas um novo modelo de combate à corrupção tipo Curitiba deve permanecer. É replicável. A favor da concorrência transparente entre empresas fornecedoras e prestadoras de serviços ao governo e da responsabilização de políticos, empresários e funcionários. A favor da moralidade da administração pública e da concorrência leal.
O que tudo isto quer dizer?
Pelo menos três observações são pertinentes. Primeiro, que as fraudes reveladas por Lava Jato são indicadores do que ocorre nas relações entre governos e empresas em muitos brasis.
Segundo, o tema da corrupção provavelmente vai ser municipalizado nestas eleições agora de outubro. Deve influenciar os eleitores, que serão capazes de ver a reprodução destes esquemas em suas cidades também.
Terceiro, o modelo de atuação Lava Jato, que une Ministério Público, Policias, CGU, Tribunais de Contas, e Judiciário, é replicável em todo o país. Com apoio da liberdade de imprensa e conscientização da opinião publica. O mesmo tipo de atuação.
Ou seja, Lava Jato pode acabar e deve em algum dia. Mas um novo modelo de combate à corrupção tipo Curitiba deve permanecer. É replicável. A favor da concorrência transparente entre empresas fornecedoras e prestadoras de serviços ao governo e da responsabilização de políticos, empresários e funcionários. A favor da moralidade da administração pública e da concorrência leal.
Cieps para inglês ver e estudar
Há quatro anos o governo britânico lançou o programa Building Schools for Futures (Construindo Escolas para o Futuro), que pretendia suprir o déficit de salas de aula na Inglaterra com a construção em larga escala de escolas pré-moldadas econômicas e de rápido processo construtivo. O plano do então secretário de educação, Michael Gove, gerou uma intensa polêmica entre os arquitetos ingleses, que viam com desconfiança a ideia de serem produzidas escolas padronizadas com um design inferior e despersonalizado.
Enquanto os empreiteiros se apressaram a apresentar ao governo projetos de kits pré-moldados baratos, ao custo de 1.465 libras (cerca de 1.950 dólares) o metro quadrado, o Royal Institute of British Architects (RIBA) desafiou os arquitetos ingleses a buscarem alternativas para oferecer um projeto escolar de alto padrão de design, pois os modelos até então propostos, segundo eles, equivaliam a galpões que, além de desconfortáveis, dificilmente poderiam ser adaptados a terrenos acidentados.
David Chambers e Kevin Haley, diretores do conceituado escritório londrino de arquitetura e design Aberrant Architecture, vieram, então, ao Brasil buscar inspiração nos Centros Integrados de Educação Pública, construídos no Rio de Janeiro nos anos 80 e 90, durante os dois governos de Leonel Brizola, com projeto educacional de Darcy Ribeiro e arquitetônico de Oscar Niemeyer. Para eles, aquele seria o modelo ideal de escola pública a ser adotado pelo Reino Unido.
A pesquisa realizada por eles resultou em uma impressionante apresentação, com a exibição de réplicas em miniatura dos 508 Cieps construídos no Brasil, contendo seus nomes e localizações, dentro da exposição “Venice Takeaway: Ideas to Change British Architecture” (Veneza Takeaway: Ideias para Mudar a Arquitetura Britânica), realizada pelo British Council para a Bienal de Arquitetura de Veneza de 2012.
No ano seguinte a exposição foi montada no próprio RIBA, no coração de Londres, com grande destaque na imprensa britânica, e agora a pesquisa dos dois arquitetos foi transformada em livro (Wherever You Find People: The Radical Schools of Oscar Niemeyer, Darcy Ribeiro and Leonel Brizola) a ser lançado no final deste ano.
O programa de construção de escolas do governo britânico ainda não deslanchou por conta de dificuldades políticas, mas alguns dos conceitos dos Cieps já foram aplicados em uma escola de ensino fundamental do Leste de Londres, a Rosemary Works, cujo projeto de reforma foi assinado pela Aberrant Architecture. Sabotados pelos governos que sucederam Brizola no Estado do Rio, desprezados pela mídia e pelas elites brasileiras, os Cieps conquistam, enfim, 31 anos depois de lançados, o reconhecimento internacional como um dos mais extraordinários programas educacionais já realizados no mundo.
Enquanto os empreiteiros se apressaram a apresentar ao governo projetos de kits pré-moldados baratos, ao custo de 1.465 libras (cerca de 1.950 dólares) o metro quadrado, o Royal Institute of British Architects (RIBA) desafiou os arquitetos ingleses a buscarem alternativas para oferecer um projeto escolar de alto padrão de design, pois os modelos até então propostos, segundo eles, equivaliam a galpões que, além de desconfortáveis, dificilmente poderiam ser adaptados a terrenos acidentados.
A pesquisa realizada por eles resultou em uma impressionante apresentação, com a exibição de réplicas em miniatura dos 508 Cieps construídos no Brasil, contendo seus nomes e localizações, dentro da exposição “Venice Takeaway: Ideas to Change British Architecture” (Veneza Takeaway: Ideias para Mudar a Arquitetura Britânica), realizada pelo British Council para a Bienal de Arquitetura de Veneza de 2012.
No ano seguinte a exposição foi montada no próprio RIBA, no coração de Londres, com grande destaque na imprensa britânica, e agora a pesquisa dos dois arquitetos foi transformada em livro (Wherever You Find People: The Radical Schools of Oscar Niemeyer, Darcy Ribeiro and Leonel Brizola) a ser lançado no final deste ano.
O programa de construção de escolas do governo britânico ainda não deslanchou por conta de dificuldades políticas, mas alguns dos conceitos dos Cieps já foram aplicados em uma escola de ensino fundamental do Leste de Londres, a Rosemary Works, cujo projeto de reforma foi assinado pela Aberrant Architecture. Sabotados pelos governos que sucederam Brizola no Estado do Rio, desprezados pela mídia e pelas elites brasileiras, os Cieps conquistam, enfim, 31 anos depois de lançados, o reconhecimento internacional como um dos mais extraordinários programas educacionais já realizados no mundo.
O blog Toda Palavra entrevistou com exclusividade um dos sócios da Aberrant Architecture para saber por que um projeto de mais de 30 anos, concebido para ser executado em um país tropical marcado por grandes desigualdades sociais e por um baixo padrão de educação pública seria adequado para um país europeu como a Inglaterra. Admitindo que os britânicos também possuem problemas sociais a serem enfrentados, David Chambers destaca a importância da boa arquitetura a serviço da educação.
“Ficamos fascinados ao descobrir que a padronização no Brasil teve como objetivo estender o alcance da arquitetura de alta qualidade para todos. A maioria dos Cieps ficavam em áreas pobres, onde não havia uma boa infraestrutura pública. Então eles assumiram um papel cívico maior”, diz Chambers.
“Os playgrounds cobertos, por exemplo, tornaram-se praças públicas essenciais. Era fundamental que eles fossem além do papel de uma escola: todo o programa preconizava o uso da arquitetura a favor de uma nova filosofia educacional.”
Para o arquiteto inglês não haverá dificuldades em adaptar o projeto do calor dos trópicos para o rigoroso inverno europeu. Ele lembra que isso aconteceria aqui mesmo no Brasil, caso Brizola tivesse chegado à Presidência da República e realizado o seu plano de espalhar 10 mil CIEPs pelo Brasil, pois muitas dessas escolas seriam instaladas em regiões de clima mais temperado, como o Sul do país. David Chambers prefere destacar a robustez dos edifícios, que, segundo ele, estão resistindo bravamente ao tempo e ao abandono.
“Claramente o design tem sido extremamente resistente ao longo do tempo. Construções escolares às vezes sofrem com mudanças sucessivas de administração e por falta de manutenção e de recursos. Mas a alta qualidade do design e da construção tem permitido aos Cieps manterem boa aparência e permanecerem robustos até hoje.”
Luiz Erthal
“Ficamos fascinados ao descobrir que a padronização no Brasil teve como objetivo estender o alcance da arquitetura de alta qualidade para todos. A maioria dos Cieps ficavam em áreas pobres, onde não havia uma boa infraestrutura pública. Então eles assumiram um papel cívico maior”, diz Chambers.
“Os playgrounds cobertos, por exemplo, tornaram-se praças públicas essenciais. Era fundamental que eles fossem além do papel de uma escola: todo o programa preconizava o uso da arquitetura a favor de uma nova filosofia educacional.”
Para o arquiteto inglês não haverá dificuldades em adaptar o projeto do calor dos trópicos para o rigoroso inverno europeu. Ele lembra que isso aconteceria aqui mesmo no Brasil, caso Brizola tivesse chegado à Presidência da República e realizado o seu plano de espalhar 10 mil CIEPs pelo Brasil, pois muitas dessas escolas seriam instaladas em regiões de clima mais temperado, como o Sul do país. David Chambers prefere destacar a robustez dos edifícios, que, segundo ele, estão resistindo bravamente ao tempo e ao abandono.
“Claramente o design tem sido extremamente resistente ao longo do tempo. Construções escolares às vezes sofrem com mudanças sucessivas de administração e por falta de manutenção e de recursos. Mas a alta qualidade do design e da construção tem permitido aos Cieps manterem boa aparência e permanecerem robustos até hoje.”
Luiz Erthal
quarta-feira, 20 de julho de 2016
Anos de desperdício
O Brasil não aproveita adequadamente seu capital humano, aponta estudo do Fórum Econômico Mundial. Entre 130 países, o Brasil ficou na 83.ª posição do Índice de Capital Humano, que mede como cada nação desenvolve e cultiva o potencial de seu capital humano.
Criado em 2013 para ser uma ferramenta de análise da dinâmica entre educação, emprego e força de trabalho, o índice tem a finalidade de auxiliar a tomada de decisões do poder público e dos agentes privados. Como lembra o Fórum Econômico Mundial, um adequado desenvolvimento do capital humano é decisivo não apenas para a produtividade de uma sociedade, mas também para o funcionamento de suas instituições sociais e políticas.
O estudo analisa a situação de cinco faixas etárias da população – menores de 15 anos, entre 15 e 24 anos, entre 25 e 55 anos, entre 55 e 64 anos e mais de 65 anos – a partir de indicadores de ensino, capacitação e emprego. Em 2015, o foco principal foi estudar os fatores que contribuem para o desenvolvimento de uma adequada, produtiva e saudável força de trabalho. Em 2016, o estudo concentrou seus esforços na busca por melhorar o desenho das políticas educacionais e o planejamento da força de trabalho do futuro.
O cenário global do capital humano está cada vez mais complexo e com evoluções mais rápidas, lembra o Fórum Econômico Mundial. Calcula-se que, até 2020, a cada dia entrarão 25 mil novos trabalhadores no mercado de trabalho, e, em todo o mundo, 200 milhões de pessoas estarão desempregadas. Ao mesmo tempo, estima-se que na próxima década haverá escassez de 50 milhões de trabalhadores altamente qualificados. Desafiador, o cenário impõe aos países repensar tanto a educação ofertada como a gestão do mercado de trabalho.
No topo do índice está a Finlândia, que, entre outros aspectos, conta com uma população jovem altamente qualificada, oferece a melhor educação primária e tem a maior taxa de ensino superior completo na faixa de 25 a 54 anos. Logo abaixo vêm Noruega e Suíça. Na quarta posição está o Japão, que se destaca como primeiro colocado nas duas faixas etárias mais altas – entre 55 e 64 anos e maiores de 65 anos. De acordo com o estudo, 19 países aproveitam ao menos 80% do potencial de seu capital humano.
Com o 83.º lugar no índice, o Brasil ficou em pior posição que Uruguai (60.º), Colômbia (64.º), México (65.º), Bolívia (77.º) e Paraguai (82.º). Aparece na frente de Arábia Saudita (87.º) e Venezuela (89.º), por exemplo.
Ao comentar os resultados brasileiros, o relatório destaca o contraste de ser a maior economia da América Latina e ter índices educacionais tão deficientes. O estudo lembra também que, na percepção dos empresários sobre a disponibilidade de mão de obra qualificada, o Brasil ocupa uma das piores posições. Entre as 130 nações, ficou em 114.º lugar nesse quesito.
Quando se olham os resultados por faixa etária, constata-se que o pior resultado brasileiro se dá entre os menores de 15 anos. Nessa faixa, obteve a 100.ª posição. Dessa forma, sem uma significativa mudança na educação básica, os resultados nacionais tendem a piorar ainda mais com o tempo, já que em relação aos outros países o Brasil desenvolve menos as novas gerações que as faixas etárias mais velhas.
O relatório do Fórum Econômico Mundial afirma que, entre os fatores que propiciam a longo prazo o desenvolvimento de uma nação, o capital humano talvez seja o mais importante. Pode-se, portanto, ver o Índice de Capital Humano também como uma comparação do real investimento de cada país em seu futuro.
Sob essa ótica, não surpreende a posição brasileira no ranking. Os anos de lulopetismo no governo federal foram tempos de desperdício de oportunidades, nos quais se viveu – por deliberada opção política – com os olhos atados ao presente. Característico do populismo, tal imediatismo tem um alto preço social. A população brasileira conhece bem essa conta.
Criado em 2013 para ser uma ferramenta de análise da dinâmica entre educação, emprego e força de trabalho, o índice tem a finalidade de auxiliar a tomada de decisões do poder público e dos agentes privados. Como lembra o Fórum Econômico Mundial, um adequado desenvolvimento do capital humano é decisivo não apenas para a produtividade de uma sociedade, mas também para o funcionamento de suas instituições sociais e políticas.
O cenário global do capital humano está cada vez mais complexo e com evoluções mais rápidas, lembra o Fórum Econômico Mundial. Calcula-se que, até 2020, a cada dia entrarão 25 mil novos trabalhadores no mercado de trabalho, e, em todo o mundo, 200 milhões de pessoas estarão desempregadas. Ao mesmo tempo, estima-se que na próxima década haverá escassez de 50 milhões de trabalhadores altamente qualificados. Desafiador, o cenário impõe aos países repensar tanto a educação ofertada como a gestão do mercado de trabalho.
No topo do índice está a Finlândia, que, entre outros aspectos, conta com uma população jovem altamente qualificada, oferece a melhor educação primária e tem a maior taxa de ensino superior completo na faixa de 25 a 54 anos. Logo abaixo vêm Noruega e Suíça. Na quarta posição está o Japão, que se destaca como primeiro colocado nas duas faixas etárias mais altas – entre 55 e 64 anos e maiores de 65 anos. De acordo com o estudo, 19 países aproveitam ao menos 80% do potencial de seu capital humano.
Com o 83.º lugar no índice, o Brasil ficou em pior posição que Uruguai (60.º), Colômbia (64.º), México (65.º), Bolívia (77.º) e Paraguai (82.º). Aparece na frente de Arábia Saudita (87.º) e Venezuela (89.º), por exemplo.
Ao comentar os resultados brasileiros, o relatório destaca o contraste de ser a maior economia da América Latina e ter índices educacionais tão deficientes. O estudo lembra também que, na percepção dos empresários sobre a disponibilidade de mão de obra qualificada, o Brasil ocupa uma das piores posições. Entre as 130 nações, ficou em 114.º lugar nesse quesito.
Quando se olham os resultados por faixa etária, constata-se que o pior resultado brasileiro se dá entre os menores de 15 anos. Nessa faixa, obteve a 100.ª posição. Dessa forma, sem uma significativa mudança na educação básica, os resultados nacionais tendem a piorar ainda mais com o tempo, já que em relação aos outros países o Brasil desenvolve menos as novas gerações que as faixas etárias mais velhas.
O relatório do Fórum Econômico Mundial afirma que, entre os fatores que propiciam a longo prazo o desenvolvimento de uma nação, o capital humano talvez seja o mais importante. Pode-se, portanto, ver o Índice de Capital Humano também como uma comparação do real investimento de cada país em seu futuro.
Sob essa ótica, não surpreende a posição brasileira no ranking. Os anos de lulopetismo no governo federal foram tempos de desperdício de oportunidades, nos quais se viveu – por deliberada opção política – com os olhos atados ao presente. Característico do populismo, tal imediatismo tem um alto preço social. A população brasileira conhece bem essa conta.
Tragédia e omissão
Há nove anos, às 18h50 do dia 17 de julho de 2007, o Airbus-A320 da TAM saiu da pista do aeroporto de Congonhas e explodiu ao colidir com um prédio do outro lado da avenida. Cento e noventa e nove pessoas perderam suas vidas e o Brasil se chocou com a maior tragédia aérea de sua história.
Acidentes ocorrem por falhas humanas e de equipamentos. E as circunstâncias para o voo 3054 eram totalmente desfavoráveis: chovia, a pista estava escorregadia, faltavam ranhuras para produzir mais atrito entre as rodas e o chão e evitar derrapagens.
Na época, dirigentes sindicais, pilotos e comissários declararam que o acidente “não deve e não pode ser visto como uma fatalidade e sim como um resultado do descaso das autoridades, na regulação e na fiscalização do setor aéreo, e da corrida das empresas do setor por redução de custos”.
Lula, então presidente da República, se omitiu e demorou 73 horas para se dirigir a nação e falar sobre o acidente.
Passados nove anos, o que mudou?
É mais do que evidente que não muita coisa. Na época da tragédia do Airbus da TAM, o governo Lula, numa operação de puro marketing, anunciou mundos e fundos. Que seria construído um terceiro aeroporto em São Paulo, que faria expansões e tantas outras medidas. A maioria não saiu do papel.
Nestes nove anos os aeroportos acumularam problemas.
Movido por seu ranço estatista, o governo Dilma Rousseff pouco avançou nas privatizações que poderiam levar à modernização da infraestrutura aeroportuária.
Em qualquer lugar do planeta, os investidores empregam seu capital onde estejam asseguradas duas condições: regras claras e possibilidade de retorno do investimento.
Um dos graves erros do governo Dilma foi querer definir por decreto taxas de retorno nas concessões, além de impor, em muitos casos, um sócio compulsório aos investidores: o Estado. No caso das privatizações dos aeroportos, a Infraero se transformou em sócio incômodo e, para agravar, o governo mudava as regras do jogo a toda hora.
Tudo isso para não falar na falta de investimentos na integração destes aeroportos com um sistema de transportes urbanos confortável, capaz de prestar serviços de qualidade aos brasileiros e aos milhões de turistas que virão ao Brasil para assistir as Olimpíadas.
Com a crise econômica, as turbulências no setor aéreo recrudesceram. Desequilibradas, as empresas aéreas adotaram medidas duras: corte de rotas e de número de voos, revisões e adiamentos da chegada de novos aviões já comprados, demissões e fim de licenças remuneradas a pilotos.
A lista de problemas está longe de chegar ao fim. Após mudanças das normas de inspeção impostas pela Agência Nacional de Aviação Civil-ANAC, nesta terça feira, passageiros foram obrigados a enfrentar filas enormes. Remarcaram voos ou simplesmente perderam suas viagens, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Caos renovado nos aeroportos brasileiros.
Sem informações, treinamento e o devido aumento de funcionários ou de postos de controle na inspeção, a única recomendação das autoridades foi a de que os passageiros deveriam chegar com mais de duas horas de antecedência de seus voos. E os que seguiram o conselho à risca e madrugaram em Congonhas e no Santos Dumont encontraram balcões vazios, já que o atendimento das companhias aéreas não recebeu as mesmas instruções.
Passados nove anos da tragédia que não podemos, não queremos e nem temos o direito de esquecer, a infraestrutura e os procedimentos para o transporte aéreo de passageiros continuam na pré-história.
Acidentes ocorrem por falhas humanas e de equipamentos. E as circunstâncias para o voo 3054 eram totalmente desfavoráveis: chovia, a pista estava escorregadia, faltavam ranhuras para produzir mais atrito entre as rodas e o chão e evitar derrapagens.
Havia outros agravantes: 10 meses antes, um acidente envolvendo um Boeing da Gol, escancarou uma crise no sistema aéreo do país que obrigou o Congresso Nacional a criar a CPI do Apagão Aéreo. Houve greve e prisão de controladores de voo, a falta de comando do governo ficou evidente e o despreparo das companhias parece ter se tornado constante.
Na época, dirigentes sindicais, pilotos e comissários declararam que o acidente “não deve e não pode ser visto como uma fatalidade e sim como um resultado do descaso das autoridades, na regulação e na fiscalização do setor aéreo, e da corrida das empresas do setor por redução de custos”.
Lula, então presidente da República, se omitiu e demorou 73 horas para se dirigir a nação e falar sobre o acidente.
Passados nove anos, o que mudou?
É mais do que evidente que não muita coisa. Na época da tragédia do Airbus da TAM, o governo Lula, numa operação de puro marketing, anunciou mundos e fundos. Que seria construído um terceiro aeroporto em São Paulo, que faria expansões e tantas outras medidas. A maioria não saiu do papel.
Nestes nove anos os aeroportos acumularam problemas.
Movido por seu ranço estatista, o governo Dilma Rousseff pouco avançou nas privatizações que poderiam levar à modernização da infraestrutura aeroportuária.
Em qualquer lugar do planeta, os investidores empregam seu capital onde estejam asseguradas duas condições: regras claras e possibilidade de retorno do investimento.
Um dos graves erros do governo Dilma foi querer definir por decreto taxas de retorno nas concessões, além de impor, em muitos casos, um sócio compulsório aos investidores: o Estado. No caso das privatizações dos aeroportos, a Infraero se transformou em sócio incômodo e, para agravar, o governo mudava as regras do jogo a toda hora.
Tudo isso para não falar na falta de investimentos na integração destes aeroportos com um sistema de transportes urbanos confortável, capaz de prestar serviços de qualidade aos brasileiros e aos milhões de turistas que virão ao Brasil para assistir as Olimpíadas.
Com a crise econômica, as turbulências no setor aéreo recrudesceram. Desequilibradas, as empresas aéreas adotaram medidas duras: corte de rotas e de número de voos, revisões e adiamentos da chegada de novos aviões já comprados, demissões e fim de licenças remuneradas a pilotos.
A lista de problemas está longe de chegar ao fim. Após mudanças das normas de inspeção impostas pela Agência Nacional de Aviação Civil-ANAC, nesta terça feira, passageiros foram obrigados a enfrentar filas enormes. Remarcaram voos ou simplesmente perderam suas viagens, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Caos renovado nos aeroportos brasileiros.
Sem informações, treinamento e o devido aumento de funcionários ou de postos de controle na inspeção, a única recomendação das autoridades foi a de que os passageiros deveriam chegar com mais de duas horas de antecedência de seus voos. E os que seguiram o conselho à risca e madrugaram em Congonhas e no Santos Dumont encontraram balcões vazios, já que o atendimento das companhias aéreas não recebeu as mesmas instruções.
Passados nove anos da tragédia que não podemos, não queremos e nem temos o direito de esquecer, a infraestrutura e os procedimentos para o transporte aéreo de passageiros continuam na pré-história.
É preciso anexar às más lembranças do passado a presidente que tentou dinamitar o futuro
A perda do poder, a deserção dos aliados, a diáspora dos áulicos, o sumiço dos convites e das cerimônias oficiais, a interrupção da farra aérea, os buracos na agenda agora sem serventia, a falta do que fazer no palácio assombrado — esse clima de velório que precede a queda de um governante costuma abalar o mais equilibrado dos estadistas. Era inevitável que a mente nada brilhante de Dilma Rousseff sofresse danos consideráveis, mas ninguém imaginou que o estrago chegaria às dimensões que alcançou.
Só uma cabeça severamente avariada poderia parir o falatório que atribuiu a decretação do impeachment pelo Congresso a uma conspiração urdida por deputados e senadores para submeter o Brasil a uma ditadura parlamentarista — um singularíssimo regime totalitário controlado por parlamentares eleitos diretamente pelo povo. Parece mentira? Pois releiam a sopa de letras que custou a Dilma mais uma internação no Sanatório Geral:
Se, como informa um trecho do pronunciamento de hospício, existe “uma ambição muito forte pelo parlamentarismo” por trás dos procedimentos constitucionais que Dilma insiste em chamar de golpe, a declarante está obrigada a identificar os ambiciosos fantasiados de representantes do povo. Eduardo Cunha é carta fora do baralho. Renan Calheiros é um bom companheiro da Assombração do Alvorada. Rodrigo Maia foi apoiado pelo PT no segundo turno da eleição na Câmara. Como FHC foi senador há muito tempo, Dilma acabou de inventar o complô sem comandantes.
Desde a Proclamação da República, o Executivo só não controlou o Legislativo durante os períodos de crise que precipitaram o fim de governos sem sustentação no Congresso. Foi assim com Getúlio em 1954, com Jânio Quadros em 1961, com Fernando Collor em 1982 e com Dilma Rousseff desde o início do segundo mandato. Abstraídas tais exceções — além do Estado Novo e da ditadura militar —, quem sempre deu as cartas no Brasil republicano foi o inquilino do gabinete presidencial.
O presidencialismo imperial vigorou até mesmo entre setembro de 1961, quando o Congresso aprovou a instauração do regime parlamentarista para remover o veto dos chefes militares à posse do vice-presidente João Goulart, e janeiro de 1963, quando um plebiscito devolveu a Jango os poderes desmaiados. Formalmente, o país teve três primeiros-ministros em 17 meses. É até possível que Dilma lembre que um deles foi Tancredo Neves. Perderá dinheiro quem apostar que o neurônio solitário guarda na memória os nomes de Brochado da Rocha e Hermes Lima.
O tedioso velório da mulher condenada pelo povo à morte política é o derradeiro tapa na cara do país que ela quase destruiu. As delinquências que amparam juridicamente o impeachment são quase irrelevantes se confrontadas com as anotações em tons de cinza na alentada folha de desserviços à nação. A pior chefe de governo desde o Descobrimento conseguiu o aparentemente impossível: expandir a herança maldita que Lula legou.
O legado ampliado por Dilma inclui, entre incontáveis abjeções, o aparelhamento da máquina administrativa por liberticidas gatunos, a infestação de ladrões e ineptos disfarçados de ministros, a transformação de amigas quadrilheiras a servidoras da pátria, a entrega da chave do cofre a parceiros fora-da-lei, a inflação sem controle, o mundaréu de obras abandonadas, os 12 milhões de desempregados, a política externa da canalhice, o sistema de saúde em frangalhos, o sistema de ensino reduzido a usina de idiotas com diploma, a economia putrefata, a roubalheira institucionalizada e a agonia da Petrobras devastada pelo maior esquema corrupto de todos os tempos, fora o resto.
Dilma fez o que pôde para desonrar o cargo que ocupou e dinamitar os caminhos do futuro. É preciso abreviar os gemidos da alma penada, e anexá-la o quanto antes às más lembranças do passado.
“Por trás desse golpe, tem uma ambição muito forte pelo parlamentarismo. No Brasil, todas as transformações ocorreram pelo voto majoritário para presidente. No voto proporcional, há uma imensa quantidade de filtros, oligarquias regionais, filtros de segmentos que fazem com que, na maioria das vezes, o Parlamento no Brasil seja mais conservador que o Executivo”.Como constatou o comentário de 1 minuto para o site de VEJA, o palavrório reafirma que Dilma deveria ter sido demitida já no primeiro dia do primeiro mandato, no momento em que abriu a boca para tentar juntar sujeito e predicado. Não pode ser presidente da República quem não sabe falar a língua oficial do país. Tampouco se pode entregar o Brasil a uma incapaz capaz de tudo. Assassinar a História, por exemplo. Ou torturar os fatos com perturbadora selvageria.
Se, como informa um trecho do pronunciamento de hospício, existe “uma ambição muito forte pelo parlamentarismo” por trás dos procedimentos constitucionais que Dilma insiste em chamar de golpe, a declarante está obrigada a identificar os ambiciosos fantasiados de representantes do povo. Eduardo Cunha é carta fora do baralho. Renan Calheiros é um bom companheiro da Assombração do Alvorada. Rodrigo Maia foi apoiado pelo PT no segundo turno da eleição na Câmara. Como FHC foi senador há muito tempo, Dilma acabou de inventar o complô sem comandantes.
Desde a Proclamação da República, o Executivo só não controlou o Legislativo durante os períodos de crise que precipitaram o fim de governos sem sustentação no Congresso. Foi assim com Getúlio em 1954, com Jânio Quadros em 1961, com Fernando Collor em 1982 e com Dilma Rousseff desde o início do segundo mandato. Abstraídas tais exceções — além do Estado Novo e da ditadura militar —, quem sempre deu as cartas no Brasil republicano foi o inquilino do gabinete presidencial.
O presidencialismo imperial vigorou até mesmo entre setembro de 1961, quando o Congresso aprovou a instauração do regime parlamentarista para remover o veto dos chefes militares à posse do vice-presidente João Goulart, e janeiro de 1963, quando um plebiscito devolveu a Jango os poderes desmaiados. Formalmente, o país teve três primeiros-ministros em 17 meses. É até possível que Dilma lembre que um deles foi Tancredo Neves. Perderá dinheiro quem apostar que o neurônio solitário guarda na memória os nomes de Brochado da Rocha e Hermes Lima.
O tedioso velório da mulher condenada pelo povo à morte política é o derradeiro tapa na cara do país que ela quase destruiu. As delinquências que amparam juridicamente o impeachment são quase irrelevantes se confrontadas com as anotações em tons de cinza na alentada folha de desserviços à nação. A pior chefe de governo desde o Descobrimento conseguiu o aparentemente impossível: expandir a herança maldita que Lula legou.
O legado ampliado por Dilma inclui, entre incontáveis abjeções, o aparelhamento da máquina administrativa por liberticidas gatunos, a infestação de ladrões e ineptos disfarçados de ministros, a transformação de amigas quadrilheiras a servidoras da pátria, a entrega da chave do cofre a parceiros fora-da-lei, a inflação sem controle, o mundaréu de obras abandonadas, os 12 milhões de desempregados, a política externa da canalhice, o sistema de saúde em frangalhos, o sistema de ensino reduzido a usina de idiotas com diploma, a economia putrefata, a roubalheira institucionalizada e a agonia da Petrobras devastada pelo maior esquema corrupto de todos os tempos, fora o resto.
Dilma fez o que pôde para desonrar o cargo que ocupou e dinamitar os caminhos do futuro. É preciso abreviar os gemidos da alma penada, e anexá-la o quanto antes às más lembranças do passado.
A violência por toda parte
Qualquer um que leia jornal, ouça rádio ou assista à televisão está, com certeza, apavorado com o aumento da violência no Brasil. Assim como não se passa um dia sem novo desdobramento da operação Lava Jato, também não há instante algum em que não se depare com um caso de violência contra mulheres, furtos, roubos e homicídios, praticados inclusive por menores, ou contra estes. Cresce o tráfico de drogas nas cidades – e não apenas nas grandes.
No curto período em que fui secretária executiva do Ministério do Trabalho e Emprego, no primeiro governo Lula, escutei relato que, à época, me espantou: o então secretário do Trabalho no Rio de Janeiro me confessou sua impotência para desenvolver um programa estadual de primeiro emprego porque a verba de que dispunha significava apenas poder oferecer R$ 150 a um jovem, enquanto o tráfico lhe dava facilmente R$ 1.000.
Leio agora no excelente “Cadernos IHU”, da Unisinos, instigante texto do professor Luis Flávio Sapori, publicado no dia 8 do corrente mês, o qual recomendo a quem se preocupa com o tema. Apenas gostaria de acrescentar, ao que ele aponta, a crítica que muitas pessoas fazem aos governos do PT sobre o fato de que toda a inclusão social promovida se deu pela via do consumo individual, e não pelo provimento de equipamentos sociais.
Todos devem se recordar de Lula, gabola, afirmando que tudo que o operário quer é ter seu carrinho e poder tomar sua cervejinha no fim de semana. Dilma foi pelo mesmo caminho. Hoje, aponta o professor Sapori, até casas do programa Minha Casa, Minha Vida entraram na rota dos traficantes. Equipamentos de uso coletivo, certamente, não produziriam essa consequência nefasta do estímulo ao consumismo que aparece como responsável pelo aumento do tráfico em várias partes do país. O adolescente que quer ter objetos de consumo individual – que vão desde o tênis de marca até eletroeletrônicos, e mesmo carro ou moto – faz do ganho que logra com o tráfico manter-se como usuário de droga e como indivíduo consumista. Então, segundo o professor, não se pode mais afirmar que a violência é fruto apenas da miséria em que vivem as pessoas.
Dá, então, para prever como esse quadro vai se agravar com a aplicação do ajuste fiscal. Acrescente-se a isso a herança maldita das obras das Olimpíadas no Rio, como de resto já vem acontecendo com as inúmeras arenas, padrão Fifa, que a Copa do Mundo de 2014 gerou país afora.
Além disso, causa um impacto grande na cabeça de todo mundo o conhecimento dos milhares de crimes resultantes do entrelaçamento entre empreiteiras (mas não apenas estas) e os políticos. E também não se pode esquecer o lucro exorbitante dos bancos em confronto com o endividamento generalizado das famílias.
No geral, o que se pode constatar é que os tempos andam pesados para todo lado: não apenas o Brasil, mas o mundo inteiro, passa por uma crise moral que só tem precedência em momentos históricos graves: o fim do império ateniense, o fim do Império Romano e as duas guerras mundiais. Como tudo isso dói!
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