
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Deriva
Convém começar sempre pedindo desculpas. Seja lá qual a razão da insatisfação, certamente não pretendia ofender pessoa alguma. O diabo é que, neste ambiente tão polarizado, é inevitável não incomodar. Independentemente do assunto. E da opinião.
Nestes dias estranhos, mesmo que inconcluso, já encontra oposição. Não há interesse em ideias, opiniões, e conceitos. Tudo o que importa é a posição de quem fala. E a posição de quem fala, aparentemente, determina o lado.
Difícil mesmo é tentar não ter lado. Sobre qualquer assunto, alias. Todo começo de conversa, post na mídia social ou interação humana tem sido por definição, contaminada pela necessidade de escolher um lado. E ficar nele mesmo que o assunto mude. Evoluir a opinião, jamais. Mudar de opinião, então, virou coisa de traidor.
Não se trocam mais ideia. Somente (ainda metaforicamente) chumbo. Insanidade que se materializa diariamente em quantidades infinitas de debates entre surdos. Discussões estéreas sem qualquer proposito e cujo produto é o nada. Nada é mesmo tudo o que este tipo de situação pode gerar.
E la nave va. Em nosso caso, sempre a deriva. Ou, pior. Seus passageiros tenham a menor preocupação com o destino da embarcação. Alheios ao obvio, permitem que a embarcação corra o risco do naufrágio sem prestar atenção ao fato de que não existem botes salva-vidas. Para ninguém.
Tornamo-nos uma nação de pessoas viciadas no calor do. Falamos do passado coma paixão dos fiéis. Discutimos acaloradamente teses jurídicas, chicanas, artifícios e alegorias legais. Distribuímos culpa como ninguém. Ajuda quando dá para culpar os estrangeiros.
A gente só falha quando tem que tratar do futuro. Plantar para colher. Sacrificar hoje para viver melhor amanha. Nisso, não parece haver interesse. Faz tempo. E muito. Talvez seja hora de olhar para frente. E buscar soluções.
Estamos sempre à espera de algo. Nem se sabe mais do que. A gente fala de tudo. De todos. De qualquer coisa. Menos de como vamos fazer para sair deste buraco em que nos metemos. Em cujo fundo continuamos a escavar. Entusiasmadamente, ao que parece.
Nestes dias estranhos, mesmo que inconcluso, já encontra oposição. Não há interesse em ideias, opiniões, e conceitos. Tudo o que importa é a posição de quem fala. E a posição de quem fala, aparentemente, determina o lado.
Difícil mesmo é tentar não ter lado. Sobre qualquer assunto, alias. Todo começo de conversa, post na mídia social ou interação humana tem sido por definição, contaminada pela necessidade de escolher um lado. E ficar nele mesmo que o assunto mude. Evoluir a opinião, jamais. Mudar de opinião, então, virou coisa de traidor.
Não se trocam mais ideia. Somente (ainda metaforicamente) chumbo. Insanidade que se materializa diariamente em quantidades infinitas de debates entre surdos. Discussões estéreas sem qualquer proposito e cujo produto é o nada. Nada é mesmo tudo o que este tipo de situação pode gerar.

E la nave va. Em nosso caso, sempre a deriva. Ou, pior. Seus passageiros tenham a menor preocupação com o destino da embarcação. Alheios ao obvio, permitem que a embarcação corra o risco do naufrágio sem prestar atenção ao fato de que não existem botes salva-vidas. Para ninguém.
Tornamo-nos uma nação de pessoas viciadas no calor do. Falamos do passado coma paixão dos fiéis. Discutimos acaloradamente teses jurídicas, chicanas, artifícios e alegorias legais. Distribuímos culpa como ninguém. Ajuda quando dá para culpar os estrangeiros.
A gente só falha quando tem que tratar do futuro. Plantar para colher. Sacrificar hoje para viver melhor amanha. Nisso, não parece haver interesse. Faz tempo. E muito. Talvez seja hora de olhar para frente. E buscar soluções.
Estamos sempre à espera de algo. Nem se sabe mais do que. A gente fala de tudo. De todos. De qualquer coisa. Menos de como vamos fazer para sair deste buraco em que nos metemos. Em cujo fundo continuamos a escavar. Entusiasmadamente, ao que parece.
O maior de todos os assaltos: o assalto à inteligência
É um dos confrontos mais decisivos da história do Brasil. E terrivelmente desigual. De um lado, atuam grupos sociais espontaneamente organizados, dependentes apenas do idealismo e do civismo de seus membros. Mobilizam-se contra o uso político, ideológico e partidário do sistema de ensino. De seu sucesso depende a possibilidade de que o Brasil, num horizonte de médio prazo, possa contar com a ação livre, criativa e produtiva de sua juventude para embarcar num padrão de desenvolvimento compatível com os países que já colhem os resultados de sua opção pela Educação.
No outro lado desse confronto estão os que, ao longo de sete décadas, numa continuada ação de pirataria intelectual, se foram apropriando dos instrumentos essenciais do ensino em nosso país. Nada concederam ao acaso. Escalaram a nave educacional pela popa e pela proa, ocuparam o convés, assumiram o leme, ergueram-se pelo cordame e hastearam uma bandeira vermelha no topo do mastro maior, para que todos saibam a que e a quem serve o imenso e malbaratado investimento nacional em Educação. É uma estrutura tão danosa quanto poderosa. Ela se vale do uso abusivo da sala de aula por professores que aparentemente aprenderam com os índios jivaros a técnica de encolher cabeças; da militância dos sindicatos profissionais dos docentes; da apropriação política do Ministério da Educação, de suas verbas e programas; do controle dos conteúdos dos livros didáticos; das provas e concursos públicos, do ENEM, e por aí vai. O que acontece no setor “cultural” é um nadinha, merreca, comparado com o que acontece no “educacional”.
Mas não só isso. Se você pensa que os controladores dessa agenda nos últimos 13 anos só roubaram o nosso dinheiro, o patrimônio público, a credibilidade do país, saiba que o magno malefício da corrupção é pequeno se comparado com o assalto ao sistema de ensino, que já abocanhou as potencialidades e o futuro de mais de uma geração de brasileiros, formatados para serem massa de manobra do movimento revolucionário em curso. De milhões de brasileiros, tomaram o intelecto e a honestidade! Como calcular o valor desse dano? Mentiram-lhes tanto que já não se importam com a diferença entre verdade e mentira. Trata-se de uma atividade que se conta em décadas e que, na prática, viabilizou a chegada ao poder, em 2003, do grupo que governou o Brasil nos últimos 13 anos. A tragédia social, política e econômica que se produziu no país compõe o inevitável refrão do fracasso que se sucede a cada cantoria de quem governa sob tais ideias e sob lideranças assim em qualquer parte do planeta. Nunca fizeram algo melhor do que isso.
O que mais bem expressa esse confronto entre o Brasil que está concebido pelo sistema de ensino que temos e aquele pelo qual todo brasileiro anseia, é a atividade do movimento Escola Sem Partido. Há muitos anos, sob a liderança de Miguel Nagib, esse grupo vem denunciando a pirataria apátrida das bandeiras vermelhas, símbolos de uma revolução que nenhuma pessoa sensata poderia desejar. E se é algo que nenhum pai ou mãe há de querer para seus filhos, cabe, então, a pergunta: como conseguem, os piratas da Educação, mobilizar pessoas para algo que, em todas as suas experiências, só gerou miséria e opressão? Resposta simples: acabando com a sensatez. E é impossível acabar com a sensatez sem controlar os meios de ensino.
A UNE, União Nacional de Estudantes, há mais de meio século é comandada por jovens comunistas, estudantes profissionais, a serviço de uma agenda apátrida, de pirataria política, que nada tem a ver com o bem do Brasil. Em nome de qual interesse público a rapaziada da UNE recebe milhões de reais por ano do nosso dinheiro para queimarem em festas, bebidas e viagens e, claro, atenderem com docilidade aos estalos de dedo dos que lhes suprimiram mente e caráter?
Percival Puggina
No outro lado desse confronto estão os que, ao longo de sete décadas, numa continuada ação de pirataria intelectual, se foram apropriando dos instrumentos essenciais do ensino em nosso país. Nada concederam ao acaso. Escalaram a nave educacional pela popa e pela proa, ocuparam o convés, assumiram o leme, ergueram-se pelo cordame e hastearam uma bandeira vermelha no topo do mastro maior, para que todos saibam a que e a quem serve o imenso e malbaratado investimento nacional em Educação. É uma estrutura tão danosa quanto poderosa. Ela se vale do uso abusivo da sala de aula por professores que aparentemente aprenderam com os índios jivaros a técnica de encolher cabeças; da militância dos sindicatos profissionais dos docentes; da apropriação política do Ministério da Educação, de suas verbas e programas; do controle dos conteúdos dos livros didáticos; das provas e concursos públicos, do ENEM, e por aí vai. O que acontece no setor “cultural” é um nadinha, merreca, comparado com o que acontece no “educacional”.

O que mais bem expressa esse confronto entre o Brasil que está concebido pelo sistema de ensino que temos e aquele pelo qual todo brasileiro anseia, é a atividade do movimento Escola Sem Partido. Há muitos anos, sob a liderança de Miguel Nagib, esse grupo vem denunciando a pirataria apátrida das bandeiras vermelhas, símbolos de uma revolução que nenhuma pessoa sensata poderia desejar. E se é algo que nenhum pai ou mãe há de querer para seus filhos, cabe, então, a pergunta: como conseguem, os piratas da Educação, mobilizar pessoas para algo que, em todas as suas experiências, só gerou miséria e opressão? Resposta simples: acabando com a sensatez. E é impossível acabar com a sensatez sem controlar os meios de ensino.
A UNE, União Nacional de Estudantes, há mais de meio século é comandada por jovens comunistas, estudantes profissionais, a serviço de uma agenda apátrida, de pirataria política, que nada tem a ver com o bem do Brasil. Em nome de qual interesse público a rapaziada da UNE recebe milhões de reais por ano do nosso dinheiro para queimarem em festas, bebidas e viagens e, claro, atenderem com docilidade aos estalos de dedo dos que lhes suprimiram mente e caráter?
Percival Puggina
Metralhadora ponto 100
Se as rajadas atingirem todos os grandes partidos, como se anuncia, ficaremos com a paisagem depois da batalha, mortos caídos na estrada e feridos se arrastando na poeira. Talvez seja por isso que alguns jornalistas estrangeiros nos perguntam: o sistema político brasileiro vai implodir? É uma pergunta difícil. O sistema político brasileiro precisa implodir. Mas ao mesmo tempo não pode implodir: estamos numa profunda crise econômica, e ele é essencial para a travessia.
Depois de tantas jabuticabas, teremos de experimentar mais uma: recolocar o gigante de pé com o esforço dos mortos e feridos. Desde a saída de Dilma, o problema é nítido: precisamos saber de tudo o que aconteceu e, prioritariamente, reconstruir os caminhos da economia. Como dizia Samuel Beckett: não se passa um dia sem que algo seja acrescido ao nosso saber, desde que suportemos as dores.
O governo Temer sabia de muita coisa quando Dilma partiu. Poderia ter evitado as primeiras crises. No entanto, não conseguiu. Dois ministros caíram em 20 dias. Para descrever o futuro imediato, Sarney usou a imagem de uma metralhadora. Como arma, a delação premiada, nem sempre é tiro e queda. Há uma espécie de delay entre um e outra.
O segredo do processo de reconstrução econômica é não só utilizar, no que for possível, os feridos de guerra, mas selecionar entre os mortos aqueles que, pela sua utilidade, merecem uma curta sobrevida. Reconheço que essas projeções são sinistras. A hipótese de recomeçar do zero é inviável em plena crise econômica. A volta do PT não resolve a equação. Se a metralhadora tiver alguma pontaria, as rajadas mais potentes vão varrer o partido que mais profundamente se ligou à Odebrecht.
Mesmo sem ilusões, uma renovação virá apenas em 2018. Até lá, há uma formidável tarefa a ser executada. Oficialmente, estamos com 11,2 milhões de desempregados. Essa urgência na economia acaba impondo um atraso na política. Não dá para parar e resolver a crise política de forma satisfatória. A emergência é o dado mais claro da conjuntura. Um grupo razoável de políticos brasileiros tem experiência e capacidade para dar os passos que se exigem de profissionais do ramo.
O governo tem demitido os ministros que o comprometem abertamente. Mas não soube nem pode se antecipar a alguns passos da Operação Lava-Jato. Isso significa que o governo viverá aos sobressaltos, o que dificulta sua tarefa econômica. Além disso, há uma forte oposição que não só quer a volta do PT, mas afirma que mais consumo é a saída para o buraco em que Dilma nos meteu. Em outras palavras, o caminho da reconstrução econômica é difícil porque os atores caem como fruta madura do pé. E precisam impor medidas de austeridade diante de uma oposição que, com uma perspectiva eleitoral, propõe o contrário. Deixei de repetir que essa é a situação mais complicada que vi. Não adianta se deter nessa constatação. Não importa o tamanho da crise, a tarefa é sempre esta: o que fazer para sair dela? As gravações de Sérgio Machado revelam o fracasso do PMDB em deter a Lava-Jato. As gravações envolvendo Lula mostram também como o PT tentou, mas não conseguiu neutralizá-la.
O apocalipse das novas delações premiadas talvez seja o último capítulo da novela. Quem sabe sua proximidade não abre no front da reconstrução uma espécie de protocolo para as novas quedas? É preciso avançar por causa e apesar da Operação Lava-Jato. A reconstrução econômica é um ato de solidariedade com milhões de pessoas que sofrem. O que sobrou dos políticos, com a ajuda da sociedade, compõe a força que pode conduzir a transição. A crise é muito profunda, os agentes são muito frágeis, mas — o que fazer? — é a realidade que temos. O barulho dos tiros, o fragor das quedas, tudo isso pode nos distrair. No entanto, o foco é a reconstrução. A Lava-Jato deveria ter mais celeridade no caso dos parlamentares envolvidos. Todo esse barulho e o Eduardo Cunha solto, comandando um grupo de investigados na Câmara. É um drama muito grande para se perder em enredos secundários.
Imagino que, no exterior, observadores distantes achem cômico esse cai cai pós-impeachment. Mas, agora que se conhece o rombo na economia e a degradação de nosso sistema político, por mais grotesco e absurdo que pareça o quadro, não há outro caminho exceto enfrentá-lo. Que os outros achem graça. Os que vivem aqui têm de procurar e achar a saída.
Fernando Gabeira
Moro proferiu 105 condenações. STF, nenhuma
O cronista Nelson Rodrigues costumava dizer que o mais exasperado problema do ser humano é o medo do rapa. “Cada um de nós vive esperando que o rapa o lace, o recolha, na primeira esquina”, ele escreveu. No Brasil de hoje, Sérgio Moro virou uma espécie de rapa da oligarquia política e empresarial. Nesse meio, o juiz da Lava Jato instila pânico.
Graças à morofobia, personagens como Eduardo Cunha e Lula revelam-se capazes de tudo para que seus processos permaneçam no STF, o foro dos suspeitos privilegiados. Receiam ser presos. No intervalo de dois anos, dois meses e 19 dias, tempo de duração da Lava Jato, Sérgio Moro já proferiu 105 condenações. Juntas, somam 1.140 anos, 9 meses e 11 dias de prisão. No STF, não há vestígio de condenação. (veja no quadro abaixo os feitos que a força-tarefa da Lava Jato obteve em Curitiba)
Entre agosto e setembro de 2014, os delatores Paulo Roberto Costa e Alberto Yousseff jogaram no ventilador os nomes de 28 congressistas —sete senadores e 11 deputados federais. Esse pedaço da investigação subiu para o Supremo. Desde então, avolumaram-se as delações e os suspeitos com direito a foro privilegiado.
Hoje, correm no STF 70 processos relacionados à Lava Jato. Desse total, 59 estão na fase de inquérito. Neles, são investigados 134 acusados. Outros 11 processos foram convertidos pelo procurador-geral Rodrigo Janot em denúncias formais, envolvendo 38 políticos. Por ora, o único denunciado que o Supremo converteu em réu foi Eduardo Cunha. E não há prazo para o julgamento da ação penal protagonizada pelo deputado. (veja abaixo os dados sobre o pedaço da Lava Jato que corre em Brasília)
A pedido da Procuradoria, o STF afastou Cunha do exercício do mandato e da poltrona de presidente da Câmara. Mas ele mantém as prerrogativas de deputado, que impedem Moro de alcançá-lo. Conserva também o acesso às mordomias propiciadas pela presidência da Câmara e o controle sobre sua milícia parlamentar, que lança mão de manobras para retardar o julgamento do pedido de cassação do seu mandato, na pauta do Conselho de Ética da Câmara há sete meses.
O que há de mais alvissareiro na Lava Jato é a percepção de que o banquete da corrupção desandou. Os órgãos repressores do Estado investigam, prendem e condenam pessoas que estavam acostumados a viver num país em que, acima de um certo nível de renda e poder, ninguém era importunado.
Deve-se sobretudo à aplicação de Sérgio Moro, dos agentes federais, procuradores e técnicos que integram a força-tarefa de Curitiba a derrubada do escudo invisível que protegia os maus costumes. Montou-se uma espécie de usina trituradora de delinquentes. Foram em cana brasileiros que se julgavam invulneráveis. Em troca de favores judiciais, muitos tornaram-se delatores.
Graças à morofobia, personagens como Eduardo Cunha e Lula revelam-se capazes de tudo para que seus processos permaneçam no STF, o foro dos suspeitos privilegiados. Receiam ser presos. No intervalo de dois anos, dois meses e 19 dias, tempo de duração da Lava Jato, Sérgio Moro já proferiu 105 condenações. Juntas, somam 1.140 anos, 9 meses e 11 dias de prisão. No STF, não há vestígio de condenação. (veja no quadro abaixo os feitos que a força-tarefa da Lava Jato obteve em Curitiba)
Entre agosto e setembro de 2014, os delatores Paulo Roberto Costa e Alberto Yousseff jogaram no ventilador os nomes de 28 congressistas —sete senadores e 11 deputados federais. Esse pedaço da investigação subiu para o Supremo. Desde então, avolumaram-se as delações e os suspeitos com direito a foro privilegiado.
Hoje, correm no STF 70 processos relacionados à Lava Jato. Desse total, 59 estão na fase de inquérito. Neles, são investigados 134 acusados. Outros 11 processos foram convertidos pelo procurador-geral Rodrigo Janot em denúncias formais, envolvendo 38 políticos. Por ora, o único denunciado que o Supremo converteu em réu foi Eduardo Cunha. E não há prazo para o julgamento da ação penal protagonizada pelo deputado. (veja abaixo os dados sobre o pedaço da Lava Jato que corre em Brasília)
A pedido da Procuradoria, o STF afastou Cunha do exercício do mandato e da poltrona de presidente da Câmara. Mas ele mantém as prerrogativas de deputado, que impedem Moro de alcançá-lo. Conserva também o acesso às mordomias propiciadas pela presidência da Câmara e o controle sobre sua milícia parlamentar, que lança mão de manobras para retardar o julgamento do pedido de cassação do seu mandato, na pauta do Conselho de Ética da Câmara há sete meses.
Deve-se sobretudo à aplicação de Sérgio Moro, dos agentes federais, procuradores e técnicos que integram a força-tarefa de Curitiba a derrubada do escudo invisível que protegia os maus costumes. Montou-se uma espécie de usina trituradora de delinquentes. Foram em cana brasileiros que se julgavam invulneráveis. Em troca de favores judiciais, muitos tornaram-se delatores.
Dar dinheiro a troca de nada: ideia inevitável?
Os suíços votaram neste domingo em um referendo se o Estado deveria dar aos cidadãos cerca de 2.500 euros (10.000 reais) por mês. A troco de quê? De nada. Essa consulta é muito importante. Não porque a proposta vai ganhar [a votação já acabou e a iniciativa foi rejeitada], mas porque pode ser a precursora de uma tendência mundial. Na verdade, em vários países já está sendo testada a ideia de garantir uma renda mínima e sem pré-condições aos cidadãos. Na Finlândia, o Governo selecionou aleatoriamente 10.000 adultos a quem vai pagar 550 euros (2.200 reais) por mês durante dois anos. O objetivo é medir o impacto que essa renda terá na propensão para o trabalho e em outras decisões de vida tomadas pelos beneficiários. Se esse teste for bem-sucedido, a intenção do Governo finlandês (que é de direita!) é estender o programa a nível nacional. Experiências similares estão sendo realizadas no Canadá, na Holanda, no Quênia e em outros países.
Os defeitos e problemas dessa ideia são óbvios. Ter um rendimento garantido pode desestimular o trabalho. Dar uma compensação material para uma pessoa sem que, em troca, tenha produzido algo de valor é uma proposta questionável tanto do ponto de vista econômico quanto do social e ético. Os riscos de corrupção e clientelismo político que iniciativas desse tipo têm são elevados. Finalmente, essa não é uma ideia barata. Tais subsídios podem se tornar um fardo pesado para o Estado e criar enormes e crônicos déficits no orçamento público.
E no entanto... Pode ser uma ideia inevitável.
Não há dúvida de que a globalização e as novas tecnologias criaram imensas oportunidades para a humanidade. Da redução da pobreza em todo o mundo aos avanços da medicina e o empoderamento de grupos sociais historicamente marginalizados, o progresso é evidente. Mas é igualmente óbvio que a globalização e as tecnologias que substituem os trabalhadores por máquinas também têm efeitos nocivos. A destruição de empregos, a redução de salários e, em alguns países, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, o aumento da desigualdade, têm causas diferentes. Mas sabemos que tanto a globalização como a automação ajudam a criar condições que nutrem muito o populismo e o extremismo político tóxico que estamos vendo em muitos países.
Para muitos, a resposta é que, enquanto as novas tecnologias destroem indústrias, também criam outras que produzem tantos ou mais empregos do que os que desaparecem. E isso tem acontecido. No entanto, à medida que se acelera a mudança tecnológica e se tornam populares robôs que, a baixo custo, podem fazer muitas das tarefas que hoje desempenha um trabalhador, cresce a preocupação de que novas indústrias e novos postos de trabalho não aparecerão nem na quantidade nem no ritmo necessários para compensar as perdas de empregos e os cortes salariais. Nessa situação, são três as respostas que o mundo apresenta.
1. Mais educação e capacitação para os desempregados. Isso é uma prioridade. Mas a realidade é que, embora existam sucessos ocasionais nesse campo, o resultado de esforços de formação tem sido decepcionante. Na maioria dos países, mesmo nos mais avançados, os recursos dedicados a ajudar os trabalhadores desempregados têm sido pouco generosos, as técnicas de ensino utilizadas são pouco eficazes e as burocracias responsáveis por esses programas costumam ser ineficientes. Mudar isso é urgente.
2. Mais protecionismo. Donald Trump, por exemplo, é apenas um dos políticos que atualmente proliferam no mundo e prometem proteger os empregos reduzindo tanto o número de imigrantes competindo com os trabalhadores locais como o volume de produtos importados, que, sendo mais baratos, substituem a produção nacional. Não é difícil imaginar um desses demagogos prometendo que, se ganhar a eleição, proibirá o uso de robôs e outras tecnologias "mata-empregos". O fato de essas propostas não serem uma solução e, em muitos casos, não poderem nem mesmo ser aplicadas não parece ser obstáculo para que milhões de pessoas se entusiasmem com as promessas dos populistas. Receio que alguns países acabarão adotando essas ideias ruins.
3. Maior renda mínima garantida. É isso. Dar dinheiro em troca de nada. Pode ser uma ideia absurda. Mas um mundo onde nove robôs de baixo custo podem fazer o trabalho de 140 trabalhadores (na China!) é um mundo onde é preciso estar aberto a examinar todas as opções. Mesmo aquelas que podem parecer, ou ser, loucura. Níveis elevados e permanentes de desemprego são inaceitáveis e insustentáveis. Por isso é preciso tentar de tudo, entendendo sempre que governar raramente envolve a escolha entre uma política maravilhosa e outra terrível. O mais comum é que os que governam sejam forçados a escolher entre o ruim e o terrível.
Os defeitos e problemas dessa ideia são óbvios. Ter um rendimento garantido pode desestimular o trabalho. Dar uma compensação material para uma pessoa sem que, em troca, tenha produzido algo de valor é uma proposta questionável tanto do ponto de vista econômico quanto do social e ético. Os riscos de corrupção e clientelismo político que iniciativas desse tipo têm são elevados. Finalmente, essa não é uma ideia barata. Tais subsídios podem se tornar um fardo pesado para o Estado e criar enormes e crônicos déficits no orçamento público.
E no entanto... Pode ser uma ideia inevitável.
Para muitos, a resposta é que, enquanto as novas tecnologias destroem indústrias, também criam outras que produzem tantos ou mais empregos do que os que desaparecem. E isso tem acontecido. No entanto, à medida que se acelera a mudança tecnológica e se tornam populares robôs que, a baixo custo, podem fazer muitas das tarefas que hoje desempenha um trabalhador, cresce a preocupação de que novas indústrias e novos postos de trabalho não aparecerão nem na quantidade nem no ritmo necessários para compensar as perdas de empregos e os cortes salariais. Nessa situação, são três as respostas que o mundo apresenta.
1. Mais educação e capacitação para os desempregados. Isso é uma prioridade. Mas a realidade é que, embora existam sucessos ocasionais nesse campo, o resultado de esforços de formação tem sido decepcionante. Na maioria dos países, mesmo nos mais avançados, os recursos dedicados a ajudar os trabalhadores desempregados têm sido pouco generosos, as técnicas de ensino utilizadas são pouco eficazes e as burocracias responsáveis por esses programas costumam ser ineficientes. Mudar isso é urgente.
2. Mais protecionismo. Donald Trump, por exemplo, é apenas um dos políticos que atualmente proliferam no mundo e prometem proteger os empregos reduzindo tanto o número de imigrantes competindo com os trabalhadores locais como o volume de produtos importados, que, sendo mais baratos, substituem a produção nacional. Não é difícil imaginar um desses demagogos prometendo que, se ganhar a eleição, proibirá o uso de robôs e outras tecnologias "mata-empregos". O fato de essas propostas não serem uma solução e, em muitos casos, não poderem nem mesmo ser aplicadas não parece ser obstáculo para que milhões de pessoas se entusiasmem com as promessas dos populistas. Receio que alguns países acabarão adotando essas ideias ruins.
3. Maior renda mínima garantida. É isso. Dar dinheiro em troca de nada. Pode ser uma ideia absurda. Mas um mundo onde nove robôs de baixo custo podem fazer o trabalho de 140 trabalhadores (na China!) é um mundo onde é preciso estar aberto a examinar todas as opções. Mesmo aquelas que podem parecer, ou ser, loucura. Níveis elevados e permanentes de desemprego são inaceitáveis e insustentáveis. Por isso é preciso tentar de tudo, entendendo sempre que governar raramente envolve a escolha entre uma política maravilhosa e outra terrível. O mais comum é que os que governam sejam forçados a escolher entre o ruim e o terrível.
Jogando mal e perigosamente
Destituída Dilma Rousseff da Presidência da República, não mais se avistaram os protestos que pediam o fim das pedaladas fiscais, da corrupção, do empreguismo, do desgoverno, da descaracterização do Legislativo como poder representante da sociedade na geração do acervo legal que demonstra direitos e deveres dos cidadãos e estabelece obrigações do Estado; não se realçou mais a tão denunciada ineficiência do Poder Judiciário, frequentemente repreendido pela sua ausência ou demora no oferecimento das decisões que lhe são reclamadas, porque a justiça tardia é uma das formas mais graves de injustiça.
A Fiesp, a Fiemg, a CNI e demais entidades do gênero parecem estar acomodadas diante da apedrejada carga tributária e do poder fiscalizador do Estado, que não facilita a atividade industrial, nem o mercado interno. Nessa mesma inércia, aliás, estão igualmente penalizados todos os setores da indústria, do comércio e dos serviços. Os bancos, com o histórico de vantagens e benesses que administram, como um setor que nunca perde, também não reclamam. Esses nem poderiam.
Dilma foi tirada da Presidência depois de um longo período de desajustes, que transitavam do seu desacerto político à ampla e inequívoca incompetência para exercer-se como governante; ninguém mais duvida de que a responsabilidade de presidir os destinos de uma Nação, complexa como a brasileira, é uma tarefa muito maior do que sua capacidade. Faltaram-lhe grandeza e um entendimento mais articulado dos problemas brasileiros; faltou-lhe também maturidade política para se relacionar com um Congresso movido por motivos na sua grande maioria os mais escusos, os menos republicanos e, quase sempre, na contramão do genuíno interesse público.
Desses equívocos, muito ou quase tudo já se sabe; O Brasil está mergulhado num fosso profundo, de onde não se espera que saiamos tão cedo. Errou-se, erraram, erramos todos, e muito. A questão é: o que estão fazendo os que assumiram o poder?
Propôs-se a ampliação da meta fiscal para R$ 170,5 bilhões; em contrapartida, a redução do contingenciamento de despesas públicas de R$ 44,5 bilhões para R$ 21,5 bilhões. Deseja-se, e é justo, que o Estado possa voltar a oferecer serviços públicos de onde estava ausente. Quais são tais serviços, além dos que as camadas menos favorecidas gritam à exaustão nas portas dos postos de saúde, das escolas, dos órgãos de segurança que pouca ou nenhuma segurança geram?
União, Estados e municípios à míngua, literalmente quebrados: era o momento de se dar o aumento que foi oferecido horizontalmente ao funcionalismo federal? Que medidas o atual governo tomou para reduzir os cargos de confiança ocupados pelos deputados, senadores e partidos da sua base de apoio na Câmara e no Senado? Vai-se combater a corrupção com os serviços de um ministério cravejado de nomes que ainda respondem a suspeições porque o Judiciário e a polícia não tiveram a eficiência de seus serviços para alcançá-los? Que jogo, nós brasileiros, estamos jogando?
A Fiesp, a Fiemg, a CNI e demais entidades do gênero parecem estar acomodadas diante da apedrejada carga tributária e do poder fiscalizador do Estado, que não facilita a atividade industrial, nem o mercado interno. Nessa mesma inércia, aliás, estão igualmente penalizados todos os setores da indústria, do comércio e dos serviços. Os bancos, com o histórico de vantagens e benesses que administram, como um setor que nunca perde, também não reclamam. Esses nem poderiam.
Desses equívocos, muito ou quase tudo já se sabe; O Brasil está mergulhado num fosso profundo, de onde não se espera que saiamos tão cedo. Errou-se, erraram, erramos todos, e muito. A questão é: o que estão fazendo os que assumiram o poder?

União, Estados e municípios à míngua, literalmente quebrados: era o momento de se dar o aumento que foi oferecido horizontalmente ao funcionalismo federal? Que medidas o atual governo tomou para reduzir os cargos de confiança ocupados pelos deputados, senadores e partidos da sua base de apoio na Câmara e no Senado? Vai-se combater a corrupção com os serviços de um ministério cravejado de nomes que ainda respondem a suspeições porque o Judiciário e a polícia não tiveram a eficiência de seus serviços para alcançá-los? Que jogo, nós brasileiros, estamos jogando?
Como diria Mussum, fala Serys!
O pontapé inicial foi dado por uma senadora de nome impronunciável: Serys Slhessarenko. Envolvida com a máfia dos sanguessugas, esquema de fraudes em licitações na área da Saúde, Serys participou também da fundação do PT no Mato Grosso. Arrisco dizer que sem essas qualificações a semente que ela plantou jamais teria dado os frutos que o Moro colheu.
Seja como for, no ano de 2006, uma nuvem negra pairava sobre Brasília. O escândalo dos sanguessugas virou CPI, e a CPI recomendou a cassação de 72 parlamentares, dentre os quais a própria senadora. Um recorde que resiste até hoje.
Graças a Deus a ética dos nossos parlamentares nos salvou. Sem isso, o Brasil ainda seria o país da impunidade. Mas a nossa sorte estava mudando. Serys e todos os demais acusados foram absolvidos. Serys, inclusive, foi citada em matéria desabonadora da revista “Veja”, o que engrandeceu ainda mais a sua biografia petista.
Era maio de 2006, e nossa heroína ia de vento em popa. Com a fama que havia adquirido, como é que algum corrupto poderia imaginar que ela iria fazer o que fez?
Serys escolheu o dia 23 de maio, data em que Fidel se tornou o primeiro estrangeiro condecorado na União Soviética e que Simon Bolívar foi proclamado o Libertador da Venezuela, para agir. Na calada da noite, apresentou ao Senado o fatídico projeto de lei 150/06.
Seu objetivo? Dar efetividade jurídica ao uso da delação premiada na investigação dos crimes de corrupção no Brasil. Seus motivos? Fazer justiça? Fazer demagogia?
Seja como for, o projeto de Serys tramitou no Senado por três anos sem que nenhum dos corruptos lá presentes desconfiasse do poder destrutivo da matéria em questão, até ser enviado para a Câmara dos Deputados em 9 de dezembro de 2009, Dia Internacional da Luta contra a Corrupção.
O destino deu a dica, mas os corruptos comeram mosca. O 150/06 foi então renomeado PL 6.578/2009 e encaminhado para avaliação da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados.
A comissão se debruçou sobre o tema por três anos, sem perceber o mal que a espreitava, talvez por acreditar no DNA de sua autora. Foi assim que no dia 5 de dezembro de 2012, seis anos depois de sua criação, o projeto de Serys finalmente chegou ao plenário.
Ninguém sabe se foi suicídio ou burrice coletiva, mas o quorum e a maioria necessários para a sua aprovação foram garantidos pelo PT e pelo PMDB, a base parlamentar do governo de Dilma e de Temer.
Uma vez aprovado, o projeto retornou ao Senado, de onde foi remetido para sanção presidencial. Doze anos depois de ter nascido, no dia 1º de agosto de 2013, o projeto de Serys finalmente chegou às mãos da pessoa que Deus (ou será que foi Lula?) havia escolhido para recebê-lo: Dilma Rousseff. Não se sabe se Dilma leu ou não leu a papelada. Se leu, não entendeu, posto que sapecou-lhe o jamegão, sancionando assim a lei ordinária 12.850/2013.
Será que Serys, os senadores que aprovaram o PL 150/06, os deputados que votaram o PL 6.578/2009, e a presidenta que sancionou a lei 12.850/2013 sabiam o que estavam fazendo?
As evidências sugerem o contrário, tendo Dilma, inclusive, comparado os delatores da Lava-Jato a Joaquim Silvério dos Reis, o homem que traiu Tiradentes. Tenho certeza de que todos os corruptos da política brasileira se sentem traídos como ela, mas isso não justifica tamanha injustiça.
Não, a verdadeira traidora da classe política brasileira é a ex-senadora Serys Slhessarenko. Foi ela quem criou a lei da delação premiada, foi o pontapé dela que acertou o forevis da Dilma. A Cesar o que é de Cesar e a Serys o que é de Serys.
Que lhe sejam outorgadas as ordens do Barão do Rio Branco e do Cruzeiro do Sul. Foi ela quem nos libertou da classe política escrota que sempre nos fez de otários.
José Padilha
Seja como for, no ano de 2006, uma nuvem negra pairava sobre Brasília. O escândalo dos sanguessugas virou CPI, e a CPI recomendou a cassação de 72 parlamentares, dentre os quais a própria senadora. Um recorde que resiste até hoje.
Graças a Deus a ética dos nossos parlamentares nos salvou. Sem isso, o Brasil ainda seria o país da impunidade. Mas a nossa sorte estava mudando. Serys e todos os demais acusados foram absolvidos. Serys, inclusive, foi citada em matéria desabonadora da revista “Veja”, o que engrandeceu ainda mais a sua biografia petista.
Era maio de 2006, e nossa heroína ia de vento em popa. Com a fama que havia adquirido, como é que algum corrupto poderia imaginar que ela iria fazer o que fez?
Serys escolheu o dia 23 de maio, data em que Fidel se tornou o primeiro estrangeiro condecorado na União Soviética e que Simon Bolívar foi proclamado o Libertador da Venezuela, para agir. Na calada da noite, apresentou ao Senado o fatídico projeto de lei 150/06.
Seu objetivo? Dar efetividade jurídica ao uso da delação premiada na investigação dos crimes de corrupção no Brasil. Seus motivos? Fazer justiça? Fazer demagogia?
Seja como for, o projeto de Serys tramitou no Senado por três anos sem que nenhum dos corruptos lá presentes desconfiasse do poder destrutivo da matéria em questão, até ser enviado para a Câmara dos Deputados em 9 de dezembro de 2009, Dia Internacional da Luta contra a Corrupção.
O destino deu a dica, mas os corruptos comeram mosca. O 150/06 foi então renomeado PL 6.578/2009 e encaminhado para avaliação da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados.
A comissão se debruçou sobre o tema por três anos, sem perceber o mal que a espreitava, talvez por acreditar no DNA de sua autora. Foi assim que no dia 5 de dezembro de 2012, seis anos depois de sua criação, o projeto de Serys finalmente chegou ao plenário.
Ninguém sabe se foi suicídio ou burrice coletiva, mas o quorum e a maioria necessários para a sua aprovação foram garantidos pelo PT e pelo PMDB, a base parlamentar do governo de Dilma e de Temer.
Uma vez aprovado, o projeto retornou ao Senado, de onde foi remetido para sanção presidencial. Doze anos depois de ter nascido, no dia 1º de agosto de 2013, o projeto de Serys finalmente chegou às mãos da pessoa que Deus (ou será que foi Lula?) havia escolhido para recebê-lo: Dilma Rousseff. Não se sabe se Dilma leu ou não leu a papelada. Se leu, não entendeu, posto que sapecou-lhe o jamegão, sancionando assim a lei ordinária 12.850/2013.
Será que Serys, os senadores que aprovaram o PL 150/06, os deputados que votaram o PL 6.578/2009, e a presidenta que sancionou a lei 12.850/2013 sabiam o que estavam fazendo?
As evidências sugerem o contrário, tendo Dilma, inclusive, comparado os delatores da Lava-Jato a Joaquim Silvério dos Reis, o homem que traiu Tiradentes. Tenho certeza de que todos os corruptos da política brasileira se sentem traídos como ela, mas isso não justifica tamanha injustiça.
Não, a verdadeira traidora da classe política brasileira é a ex-senadora Serys Slhessarenko. Foi ela quem criou a lei da delação premiada, foi o pontapé dela que acertou o forevis da Dilma. A Cesar o que é de Cesar e a Serys o que é de Serys.
Que lhe sejam outorgadas as ordens do Barão do Rio Branco e do Cruzeiro do Sul. Foi ela quem nos libertou da classe política escrota que sempre nos fez de otários.
José Padilha
Diálogo sobre o monólogo
A necessidade de atormentar os outros é uma das necessidades morais da política. Tem seus códigos. Está baseada na ideia de que devemos cobrar de adversários o que não pode ser oferecido.
As imagens do político, segurando cartazes ofensivos nas costas de alguém que diz algo diferente do que ele, não reflete o desejo de mudar realidades sociais. Tenta dar valor documental à forma como enfrenta sua dificuldade de expressão; são imagens planejadas para serem vistas como limites de uma situação confusa. A correspondência com a verdade é desnecessária. Os meios de comunicação, enfeitiçados pelo acontecimento, consagram a mistura do fato com a versão.
O cartaz, uma propaganda manipuladora, é um cala a boca. Estereotipo da luta política em sua equação simplificadora: quem fala não presta, quem segura o cartaz presta. Estilisticamente, a revolta parlamentar brasileira está um horror de mau gosto. E quando a proposição simbólica dos movimentos políticos não se preocupa com a sua iconografia estamos distantes de causa que produza entusiasmo. O mero esforço físico de levantar o cartaz, para azucrinar a criatura que recebe, de um outro, atenção maior, não deveria exaurir o esforço intelectual de ter que explicar o segredo daquela grosseria. Ainda é impossível mapear a natureza desse fenômeno de insubmissão ao bom gosto. A “política cartaz” delimita território, escreve faixa, camisa, picha muro, um fato que tomou conta da expressão limitada do agente público.
A maior parte das ideias políticas em circulação segue pontos de vista corporativos, elitistas, anti-intelectuais. A ascensão das fraternidades, causas, frentes ou simples máfias, com o desaparecimento veloz do fundamento doutrinário, é mais capaz de arregimentar exércitos, do que programas, projetos e debates de caráter geral.
Como em um concurso de bandas o personagem está sempre no palco, um espetáculo que tem até propaganda no fundo e dominou as instituições da república. Como se a autoridade fosse um atleta, obrigado a dar entrevista na frente de um painel que informa que ele está devolvendo o cachê aos patrocinadores. Esse narcisismo incontrolável das instituições obriga o contribuinte a pagar para a autoridade fazer propaganda do seu dever.
Atualmente um político antiburguês de esquerda anda muito parecido com um antiburguês de direita. Mas usar retórica antipolítica para polarizar os baixos instintos que inundam a sociedade de massas é chover no molhado. Aumentou a incidência da cultura de bar, que sugere resolver todas as questões na briga ou no grito. Outra marca da vida atual é viver em gueto e só falar para quem já está convencido – uma sintonia fácil com a economia moral da multidão de minorias.
Sei que é um aparente contrassenso, mas o bom governante não deveria ter o mesmo ponto de vista do governado.
São muitas as expressões-código da luta política - e o cartaz que diz que o PT é o pior partido brasileiro é uma delas. Óh!, sabem que não é. Mas um período de silêncio de seus líderes ajudaria o momento. Como confundiu o Brasil na simpatia seria bom torcer pelos outros, ou sentir um pouco de remorso.
As imagens do político, segurando cartazes ofensivos nas costas de alguém que diz algo diferente do que ele, não reflete o desejo de mudar realidades sociais. Tenta dar valor documental à forma como enfrenta sua dificuldade de expressão; são imagens planejadas para serem vistas como limites de uma situação confusa. A correspondência com a verdade é desnecessária. Os meios de comunicação, enfeitiçados pelo acontecimento, consagram a mistura do fato com a versão.
O cartaz, uma propaganda manipuladora, é um cala a boca. Estereotipo da luta política em sua equação simplificadora: quem fala não presta, quem segura o cartaz presta. Estilisticamente, a revolta parlamentar brasileira está um horror de mau gosto. E quando a proposição simbólica dos movimentos políticos não se preocupa com a sua iconografia estamos distantes de causa que produza entusiasmo. O mero esforço físico de levantar o cartaz, para azucrinar a criatura que recebe, de um outro, atenção maior, não deveria exaurir o esforço intelectual de ter que explicar o segredo daquela grosseria. Ainda é impossível mapear a natureza desse fenômeno de insubmissão ao bom gosto. A “política cartaz” delimita território, escreve faixa, camisa, picha muro, um fato que tomou conta da expressão limitada do agente público.
A maior parte das ideias políticas em circulação segue pontos de vista corporativos, elitistas, anti-intelectuais. A ascensão das fraternidades, causas, frentes ou simples máfias, com o desaparecimento veloz do fundamento doutrinário, é mais capaz de arregimentar exércitos, do que programas, projetos e debates de caráter geral.
Como em um concurso de bandas o personagem está sempre no palco, um espetáculo que tem até propaganda no fundo e dominou as instituições da república. Como se a autoridade fosse um atleta, obrigado a dar entrevista na frente de um painel que informa que ele está devolvendo o cachê aos patrocinadores. Esse narcisismo incontrolável das instituições obriga o contribuinte a pagar para a autoridade fazer propaganda do seu dever.
Atualmente um político antiburguês de esquerda anda muito parecido com um antiburguês de direita. Mas usar retórica antipolítica para polarizar os baixos instintos que inundam a sociedade de massas é chover no molhado. Aumentou a incidência da cultura de bar, que sugere resolver todas as questões na briga ou no grito. Outra marca da vida atual é viver em gueto e só falar para quem já está convencido – uma sintonia fácil com a economia moral da multidão de minorias.
Sei que é um aparente contrassenso, mas o bom governante não deveria ter o mesmo ponto de vista do governado.
São muitas as expressões-código da luta política - e o cartaz que diz que o PT é o pior partido brasileiro é uma delas. Óh!, sabem que não é. Mas um período de silêncio de seus líderes ajudaria o momento. Como confundiu o Brasil na simpatia seria bom torcer pelos outros, ou sentir um pouco de remorso.
Ugland House e os barnabés
Você, que paga seus impostos em dia, já ouviu falar da Ugland House? Trata-se de um edifício de cinco andares situado na cidade de George Town, nas Ilhas Cayman - e que é sede, acredite, de 18.857 empresas.
Sobre este inacreditável prédio assim manifestou-se o presidente norte-americano Barack Obama: “trata-se do maior prédio do mundo ou do maior esquema de evasão de tributos do mundo”.
Fiquemos com a segunda opção, a da evasão de tributos. Será quando tomaremos contato com uma zona cinzenta da economia mundial que bate na casa dos US$ 21 trilhões.
As práticas utilizadas dentro deste mundo virtual são inúmeras - mas citemos uma delas, bem simples, apenas à guisa de exemplo: imagine-se proprietário de uma indústria que fabrica máscaras de palhaço, fazendo uso de uma dada patente também de sua propriedade.
Para fugir dos impostos, você simplesmente monta uma outra empresa em algum paraíso fiscal - pode ser lá no edifício Ugland House - e “vende” para ela a patente através da qual sua indústria fabrica máscaras de palhaço.
A partir deste momento, sua fábrica de máscaras de palhaço terá que remunerar esta outra empresa que você constituiu pelo uso da patente. E assim você pagará a si próprio pelo uso do que é seu, reduzindo seus impostos no mundo real e ganhando dinheiro praticamente livre de impostos - ou mesmo livre deles - lá no paraíso fiscal.
Esta é apenas uma das modalidades empregadas neste inacreditável mundo cinzento dos paraísos fiscais. Milhares de outras existem, no mais das vezes bem mais complexas e difíceis de detectar.
O curioso é que, quando tratamos deste tema, imediatamente pensamos em alguma ilhota lá do Caribe. Nada mais falso! Os maiores paraísos fiscais do planeta estão em endereços elegantes, frequentados por gente da mais fina cepa.
Só para começarmos a conversa, o maior paraíso fiscal do mundo está lá nos Estados Unidos da América. Trata-se do pequeno estado de Delaware, habitado por apenas 917.092 pessoas, mas que é sede de nada menos que 945.000 empresas. É como se cada habitante daquele estado tivesse uma empresa - e ainda sobrariam algumas para os que vierem a nascer...
Surpreso? Então citemos alguns outros participantes deste sinistro esquema: Luxemburgo, Suíça, Reino Unido, Irlanda, Cingapura e até a Bélgica! Como diz o povo mais humilde, “só gente fina”!
Diante deste verdadeiro “mundo paralelo”, alguns incautos se atrevem a “abrir o bico”. Um deles, por exemplo, acusou um conceituado banco europeu de colaborar com esquemas de evasão de impostos - acabou preso por policiais mascarados e amargou nada menos que seis meses em confinamento solitário, sem poder sequer receber visitas de sua família. Após este período foi solto, sem que tenha sido acusado de nada. Isto aconteceu lá na civilizada Europa.
Para encurtar a conversa, este sinistro “mundo cinzento” abriga dois milhões de empresas e responde por nada menos que 30% dos investimentos internacionais. Três quartos das 500 maiores empresas norte-americanas estão nele. Só as elites dos países em desenvolvimento - o nosso incluído - levaram para lá nada menos que US$ 9,3 trilhões. O interessante é que nossas leis quase nunca tratam os elegantes senhores que engendram tantos esquemas cavernosos como criminosos - afinal, parodiando Bernard Shaw, os pecados do ladrão são as virtudes dessa gente.
Mas mudemos de assunto: você já apresentou sua declaração de imposto de renda? Não vá esquecer!
Pedro Valls Feu Rosa
Pesquisadoras estão derrubando clichês sobre a política no Brasil
O brasileiro é racista e privilegia candidatos brancos ao votar. Políticos corruptos se mantêm no poder porque o eleitor é ignorante. Quem recebe Bolsa Família é conivente com o governo. ONGs são um ralo de dinheiro público no Brasil. Será?
A julgar pelos estudos de duas jovens pesquisadoras brasileiras em ciência política, não.
Natália Bueno e Nara Pavão, ambas de 32 anos, se destacam no meio acadêmico no exterior com pesquisas robustas que desmistificam chavões da política brasileira que alimentam debates em redes sociais e discussões de botequim.
Natural de Belo Horizonte (MG), Natália faz doutorado em Yale (EUA), uma das principais universidades do mundo. Em pouco mais de oito anos de carreira, acumula 13 distinções acadêmicas, entre prêmios e bolsas.
A pernambucana Nara é pesquisadora de pós-doutorado na Universidade Vanderbilt (EUA). Soma um doutorado (Notre Dame, EUA), dois mestrados em ciência política (Notre Dame e USP), 16 distinções.
Em comum, além da amizade e da paixão pela ciência política, está o interesse das duas em passar a limpo "verdades absolutas" sobre corrupção, comportamento do eleitor e políticas públicas no Brasil.
Eleitor é racista?
O Brasil é um país de desigualdades raciais - no mercado de trabalho, no acesso à educação e à saúde. Atraída pelo tema desde a graduação, Natália Bueno verificou se isso ocorre também na representação política.
O primeiro passo foi confirmar o que o senso comum já sugeria: há, proporcionalmente, mais brancos eleitos do que na população, e os negros são subrepresentados. Por exemplo, embora 45% da população brasileira (segundo o IBGE) se declare branca, na Câmara dos Deputados esse índice é de 80%.
E como a diferença foi mínima na comparação entre população e o grupo dos candidatos que não se elegeram, a conclusão mais rasteira seria: o brasileiro é racista e privilegia brancos ao votar.
Para tentar verificar essa questão de forma científica, Natália montou um megaexperimento em parceria com Thad Dunning, da Universidade da Califórnia (Berkeley). Selecionou oito atores (quatro brancos e quatro negros), que gravaram um trecho semelhante ao horário eleitoral. Expôs 1.200 pessoas a essas mensagens, que só variavam no quesito raça.
Resultado: candidatos brancos não tiveram melhor avaliação nem respondentes privilegiaram concorrentes da própria raça nas escolhas.
Mas se a discrepância entre população e eleitos é real, onde está a resposta? No dinheiro, concluiu Natália - ela descobriu que candidatos brancos são mais ricos e recebem fatia maior da verba pública distribuída por partidos e também das doações privadas.
A diferença média de patrimônio entre políticos brancos (em nível federal, estadual e local) e não brancos foi de R$ 690 mil. E em outra prova do poder do bolso nas urnas, vencedores registraram R$ 650 mil a mais em patrimônio pessoal do que os perdedores.
Políticos brancos também receberam, em média, R$ 369 mil a mais em contribuições de campanha do que não brancos. A análise incluiu dados das eleições de 2008, 2010 e 2014.
"Se a discriminação tem um papel (na desigualdade racial na representação política), ela passa principalmente pelas inequidades de renda e riqueza entre brancos e negros que afetam a habilidade dos candidatos negros de financiar suas campanhas", diz.
Corruptos estão no poder por que o eleitor é ignorante?
A corrupção é um tema central no debate político atual no Brasil. E se tantos brasileiros percebem a corrupção como problema (98% da população pensa assim, segundo pesquisa de 2014), porque tantos políticos corruptos continuam no poder?
A partir de dados de diferentes pesquisas de opinião - entre elas, dois levantamentos nacionais, com 2 mil e 1,5 mil entrevistados -, a recifense Nara Pavão foi buscar respostas para além do que a ciência política já discutiu sobre o tema.
Muitos estudos já mostraram que a falta de informação política é comum entre a população, e que o eleitor costuma fazer uma troca: ignora a corrupção quando, por exemplo, a economia vai bem.
"Mas para mim a questão não é apenas se o eleitor possui ou não informação sobre políticos corruptos, mas, sim, o que ele vai decidir fazer com essa informação e como essa informação vai afetar a decisão do voto", afirma a cientista política.
A pesquisa de Nara identificou um fator chave a perpetuar corruptos no poder: o chamado cinismo político - quando a corrupção é recorrente, ela passa ser vista pelo eleitor como um fator constante, e se torna inútil como critério de diferenciação entre candidatos.
Consequência: o principal fator que torna os eleitores brasileiros tolerantes à corrupção é a crença de que a corrupção é generalizada.
"Se você acha que todos os políticos são incapazes de lidar com a corrupção, a corrupção se torna um elemento vazio para você na escolha do voto", afirma Nara, para quem o Brasil está preso numa espécie de armadilha da corrupção: quão maior é a percepção do problema, menos as eleições servem para resolvê-lo.
domingo, 5 de junho de 2016
De volta ao passado
Satanizar o capital privado, o mal em si, e santificar a economia de Estado, que reúne os puros e bem-aventurados. Não importa se isso remete o país ao século passado ou ao anterior. Na cabeça dos profetas do atraso vale tudo para espicaçar o governo do interino Michel Temer e seus apoiadores. Esse é o intuito da campanha “Se é público é de todos”, a ser lançada amanhã, no Rio, tendo o ex-presidente Lula como convidado de honra.
A iniciativa nada tem de nova. Foi usada a mancheias na campanha presidencial em que Lula constrangeu o tucano Geraldo Alckmin antes de derrotá-lo. Na época, Alckmin reagiu à acusação de que seria privatista posicionando-se contra o legado de FHC e vestindo jalecos com selos da Petrobras, Caixa, etc.. Um vexame.
Agora, a reedição da pendenga é questão de sobrevivência para Lula e o PT, hoje sem qualquer bandeira crível para convencer os eleitores, seja para o pleito municipal deste ano, seja para 2018.
A ideia é usar a velha roupa dos idos de 2006 – que ainda faz sucesso no público cativo -- para se desgarrar da presidente afastada Dilma Rousseff, acrescentando algo na cantilena do “golpe”, que já perdeu força, embora Dilma, sem alternativa, continue a repeti-la.
É fato que antes de voltar ao estatismo o PT tentou outras artimanhas. Imaginou colar em Temer a ideia de que ele acabaria com os programas sociais, algo que ele, nem que tentasse, conseguiria estragar mais do que o governo Dilma estragou. Em seguida, diante das gravações envolvendo Romero Jucá e Fabiano Silveira, Renan Calheiros e José Sarney, achou que poderia inverter tudo e atribuir ao grupo de Temer a tentativa de melar a Lava-Jato. E fez isso de cara lavada, como se ministros de Dilma, ela própria e o ex Lula não tivessem sido flagrados em escutas ainda mais comprometedoras.
Nenhuma das táticas conseguiu entusiasmar o público. No máximo, colocou palavras de ordem na boca da torcida.
As chances de sucesso do neoestatismo também são limitadíssimas. Ao contrário. Deixará os pagantes da farra pública ainda mais irritados e só terá sucesso entre nomeados e abençoados e alguns grupamentos de funcionários públicos.
Para a maior parte das pessoas, o Estado é uma lástima. Está onde não devia, enche as burras de privilegiados e não se faz presente onde é imprescindível. Não está no posto de saúde, no hospital, nas escolas, na segurança, mas se impõe em negócios milionários travestidos em obras que nunca terminam ou, quando terminam, são de segunda linha. Brilha em empresas públicas sem qualquer serventia. Sustenta a corrupção.
Em oito anos de governo, Lula criou seis estatais e recriou uma, a Telebras, que cuidaria de fornecer soluções de inclusão digital, a tal banda larga para todos, que ficou na promessa. Inventou o inexistente Banco Popular do Brasil e a Ceitec, uma fábrica de semicondutores, tão moderna que, em seu site, registra online o balanço de 2013 – o de 2014 está na versão papel e tem de ser retirado pelo interessado na sede da empresa --, além da controvertida Empresa Brasil de Comunicação (EBC), hospedeira da TV Brasil, vulgo TV Lula.
Com 2.600 funcionários, a EBC já consumiu R$ 3,6 bilhões. Embora tenha independência no papel, a empresa se tornou abrigo de comunicadores alinhados. Sem audiência – em seu site confessa que em 2015 o Ibope aferiu visibilidade de 32 milhões em seis capitais, ou seja, 87.671 espectadores ao dia –, a empresa tem força no ambiente palaciano e é alvo de um cabo de guerra entre Dilma e Temer. E seja lá quem vença a batalha, o contribuinte continuará a custeá-la sem ter sido consultado se desejava ver o seu imposto investido em uma TV estatal, dita pública.
Mais estatizante ainda, Dilma criou quatro empresas em apenas 23 meses. Entre elas a fabulosa Empresa Brasileira de Planejamento e Logística, nome remodelado da Empresa de Transporte Ferroviário de Alta Velocidade (eTAV), concebida para tocar as obras do imaginário trem-bala.
Até os que insistem na cegueira sabem da falência do Estado provedor. E que as nações modernas buscam criar salvaguardas para a voracidade do capital. Ninguém precisa reinventar o equilíbrio. Mas os tempos estão tão bicudos que não há espaço para a lógica.
Pior: os mesmos que pregam que “o público é de todos” negociam entre quatro paredes com o privado e querem mesmo é que o público continue sendo de alguns.
A morte do Brasil velho
Há certas coisas que continuam mais ou menos como eram 2.500 anos atrás, ou algo parecido. Dos tempos da Grécia antiga nos vem, por exemplo, a história de Diógenes, o filósofo da escola cínica que andava pelas ruas de Atenas carregando uma lanterna em plena luz do dia. Quando alguém lhe perguntava “para que isso, Diógenes?”, ele respondia “para ver se eu encontro um homem honesto em Atenas”. Troque-se a Atenas de Diógenes pela Brasília de hoje e não vai ser preciso muito tempo para concluir que as dificuldades da vida pública não mudaram grande coisa de lá para cá. É claro que havia muita gente honesta na Grécia, como há muita gente honesta no Brasil. Mas o filósofo, com sua lanterna, estava apenas dando um aviso sobre as realidades da política — particularmente sobre o problemaço que é encontrar pessoas honestas em quantidade suficiente para construir uma vida pública de qualidade superior. Falta gente, eis aí a imensa complicação — ou melhor, falta gente que seja ao mesmo tempo impecável do ponto de vista ético e disposta a entrar de corpo e alma nas ásperas necessidades da política como ela é. No terremoto que vem devastando a existência dos políticfos brasileiros há mais de um ano, e que começou a se formar muito antes disso, está cada vez mais claro que o país vive uma extrema escassez de justos. Onde estão?
Eis aí, no clamoroso episódio do senador Romero Jucá, a última comprovação de que tudo está mesmo muito difícil. Acaba de ser colocado no olho da rua, oficialmente em caráter ainda provisório, o governo mais corrupto de toda a história do Brasil, nas modalidades ativa e passiva — não se trata de uma opinião, mas de um fato estabelecido por números, confissões públicas, perícias, documentos, gravações e toda uma coleção de acontecimentos indiscutíveis que, no conjunto, já renderam 1.000 anos de condenação a penas de prisão. Em seu lugar entra outro que, apesar de todo o pavor instalado no mundo político — e das consequentes cautelas para evitar nomes com potencial de complicações judiciárias —, não consegue atravessar seus primeiros dias sem ter de mandar embora um ministro de Estado. O nome anunciado para substituí-lo no cargo também faz parte dos grupos de risco. Outros, por suspeitas diversas, nem chegaram a ser nomeados. Outros tantos, ainda, vivem diariamente na expectativa de ser formalmente acusados de algum delito — para não falar de todos os que já foram denunciados, encontram-se sob investigação judicial ou estão sendo processados. É óbvio que há muitos homens perfeitamente íntegros no presente governo, e é óbvio que há um abismo de diferenças, em termos de moral comum, entre os governantes que acabam de entrar e os que acabam de sair. Mas é igualmente óbvio que não existe a segurança ética que deveria existir, num momento em que a paciência do Brasil com acusações de má conduta é mínima e a morte política virou mal súbito.
Isso tudo parece provar que as coisas vão muito mal, como nos tempos de Diógenes, e realmente vão. Ao mesmo tempo, podem estar indo melhor do que jamais foram. Aconteça o que acontecer, há no Brasil um fenômeno historicamente inédito e que se chama Operação Lava Jato. Em consequência direta de suas investigações e do abalo termonuclear que causou na corrupção nacional, até há pouco dada como invencível, todo um Brasil velho está morrendo, como morreram um dia o Império Romano, a colonização da África e o comunismo na Rússia — não há volta possível para nada disso. O ministro Jucá foi ejetado do governo e devolvido ao Senado Federal por causa de gravações em que aparece tentando esfriar a fornalha da Lava Jato. Não apenas foi um erro fatal — ele estava tentando fazer algo impossível. É este, na verdade, o problema sem solução para os políticos do país que está sendo desmontado — os de agora e, mais ainda, os que foram despejados. Nem eles, nem os tribunais mais supremos, nem as organizações mais poderosas têm hoje condições de “parar a Lava Jato”. Há um outro país aí.

Isso tudo parece provar que as coisas vão muito mal, como nos tempos de Diógenes, e realmente vão. Ao mesmo tempo, podem estar indo melhor do que jamais foram. Aconteça o que acontecer, há no Brasil um fenômeno historicamente inédito e que se chama Operação Lava Jato. Em consequência direta de suas investigações e do abalo termonuclear que causou na corrupção nacional, até há pouco dada como invencível, todo um Brasil velho está morrendo, como morreram um dia o Império Romano, a colonização da África e o comunismo na Rússia — não há volta possível para nada disso. O ministro Jucá foi ejetado do governo e devolvido ao Senado Federal por causa de gravações em que aparece tentando esfriar a fornalha da Lava Jato. Não apenas foi um erro fatal — ele estava tentando fazer algo impossível. É este, na verdade, o problema sem solução para os políticos do país que está sendo desmontado — os de agora e, mais ainda, os que foram despejados. Nem eles, nem os tribunais mais supremos, nem as organizações mais poderosas têm hoje condições de “parar a Lava Jato”. Há um outro país aí.
Sorte para o azar
Ninguém em sensata consciência discorda de que Dilma Rousseff tinha zerado seu estoque de condições de governar quando foi afastada da Presidência por força da abertura do processo de impeachment no Senado, em 12 de maio.
Ninguém de bom senso, portanto, ignora que a volta dela ao cargo seria a assinatura de um contrato do País com o desastre completo. Seja pela retomada dos meios e modos que nos levaram à recessão na área econômica e à depressiva convivência com a corrupção sistêmica, seja pela ameaça de soluções estranhas à Constituição como a ideia de patrocinar eleição presidencial fora do tempo. Em qualquer hipótese, dias piores virão.
Nisso, até o PT concorda, indisposto que está para segurar um rojão pronto a explodir em suas mãos. Justamente em ano de eleição municipal na qual a perspectiva do partido é ruim, mas seria muito pior na posse de uma Presidência em xeque.
Na oposição a Michel Temer, os petistas ao menos têm um discurso. Meio capenga, é verdade, pois implica a adoção de argumentos estapafúrdios. Tais como a tese do “golpe” e a indignação moral contra “tudo isso que está aí”, não obstante esse “tudo” tenha sido levado aos píncaros da exorbitância nos 13 anos do PT no poder.
É preciso, sobretudo, levar em conta a tendência da sociedade de se enganar deliberadamente. Um exercício de amnésia consentida. O escritor Ivan Lessa pontuou certa vez que a cada 15 anos o Brasil esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos e repete os equívocos. Bondade dele. Na atual conjuntura estamos nos esquecendo do ocorrido há 15 dias. Na melhor das hipóteses, dado que vivemos uma quadra em que a memória não sobrevive 15 minutos.
Nesse ambiente é que prospera a ideia de que os equívocos do governo interino de Michel Temer dão margem à sensação de que é preciso pôr ele um fim o quanto antes para restaura-se a moralidade a fim de que não nos locupletemos todos. Será, entretanto, essa a realidade fática? Gostaríamos de voltar à errática situação anterior acreditando que a soma dos erros resultariam num acerto?
Obviamente – e, de novo, aludindo ao bom senso – não seria esse o desejo das pessoas que foram para as ruas e se expressaram nas pesquisas de opinião. Queriam a saída de Dilma, mas preferiam não ter Michel Temer como substituto. Ocorre, porém, que há uma distância considerável entre o desejável, o possível e o provável. Pensassem nisso na hora de votar na candidata que o escolheu como vice.
O presidente em exercício não parece dar o devido peso às circunstâncias na tomada de certas decisões. Nomeou pessoas inquestionáveis na economia, mas não aplicou o mesmo rigor na área da boa conduta, menosprezou o indispensável pré-requesito da ficha limpa, cuja verificação não depende de nada além de uma consulta na internet.
Para quem sabia da impossibilidade de errar, da ausência de espaço para trégua, Michel Temer e sua equipe têm abusado do direito de se equivocar. Podem pagar por isso. Pior: farão com que paguemos todos se o resultado for a volta daquela que ainda não foi.
Vida Severina. Evidências não faltam sobre a impossibilidade de o deputado Waldir Maranhão continuar na presidência da Câmara. Falta, contudo, colegas que se disponham a removê-lo do posto. No caso de Severino Cavalcanti, o então deputado Fernando Gabeira teve papel fundamental ao cobrar a renúncia em pleno plenário.
Se a Câmara quiser, Maranhão terá como destino o anonimato. A questão é a Câmara “querer”, o que não parece ser da conveniência dos líderes partidários e deputados mais influentes, acomodados que estão no anômalo cenário de um presidente fantoche. Não preside. Só manobra e exige regalias.
Se é isso que o Legislativo quer, pior para o Legislativo.
Nisso, até o PT concorda, indisposto que está para segurar um rojão pronto a explodir em suas mãos. Justamente em ano de eleição municipal na qual a perspectiva do partido é ruim, mas seria muito pior na posse de uma Presidência em xeque.
Na oposição a Michel Temer, os petistas ao menos têm um discurso. Meio capenga, é verdade, pois implica a adoção de argumentos estapafúrdios. Tais como a tese do “golpe” e a indignação moral contra “tudo isso que está aí”, não obstante esse “tudo” tenha sido levado aos píncaros da exorbitância nos 13 anos do PT no poder.
É preciso, sobretudo, levar em conta a tendência da sociedade de se enganar deliberadamente. Um exercício de amnésia consentida. O escritor Ivan Lessa pontuou certa vez que a cada 15 anos o Brasil esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos e repete os equívocos. Bondade dele. Na atual conjuntura estamos nos esquecendo do ocorrido há 15 dias. Na melhor das hipóteses, dado que vivemos uma quadra em que a memória não sobrevive 15 minutos.
Nesse ambiente é que prospera a ideia de que os equívocos do governo interino de Michel Temer dão margem à sensação de que é preciso pôr ele um fim o quanto antes para restaura-se a moralidade a fim de que não nos locupletemos todos. Será, entretanto, essa a realidade fática? Gostaríamos de voltar à errática situação anterior acreditando que a soma dos erros resultariam num acerto?
Obviamente – e, de novo, aludindo ao bom senso – não seria esse o desejo das pessoas que foram para as ruas e se expressaram nas pesquisas de opinião. Queriam a saída de Dilma, mas preferiam não ter Michel Temer como substituto. Ocorre, porém, que há uma distância considerável entre o desejável, o possível e o provável. Pensassem nisso na hora de votar na candidata que o escolheu como vice.
O presidente em exercício não parece dar o devido peso às circunstâncias na tomada de certas decisões. Nomeou pessoas inquestionáveis na economia, mas não aplicou o mesmo rigor na área da boa conduta, menosprezou o indispensável pré-requesito da ficha limpa, cuja verificação não depende de nada além de uma consulta na internet.
Para quem sabia da impossibilidade de errar, da ausência de espaço para trégua, Michel Temer e sua equipe têm abusado do direito de se equivocar. Podem pagar por isso. Pior: farão com que paguemos todos se o resultado for a volta daquela que ainda não foi.
Vida Severina. Evidências não faltam sobre a impossibilidade de o deputado Waldir Maranhão continuar na presidência da Câmara. Falta, contudo, colegas que se disponham a removê-lo do posto. No caso de Severino Cavalcanti, o então deputado Fernando Gabeira teve papel fundamental ao cobrar a renúncia em pleno plenário.
Se a Câmara quiser, Maranhão terá como destino o anonimato. A questão é a Câmara “querer”, o que não parece ser da conveniência dos líderes partidários e deputados mais influentes, acomodados que estão no anômalo cenário de um presidente fantoche. Não preside. Só manobra e exige regalias.
Se é isso que o Legislativo quer, pior para o Legislativo.
Ser e estar no governo
Reinar, mas não governar. Essa é a ameaça que paira sobre a cabeça de mandatários que fazem da autossuficiência o molde de seus governos. Nas democracias modernas, governar é repartir, dividir, compartilhar com os parceiros políticos a administração pública. Pela ausência dessa prática, os governos, particularmente por estas plagas, têm perdido força. Nos anos do lulopetismo, incluindo a gestão da presidente Rousseff, os atores partidários até foram convidados a participar da administração. Mas não como parceiros; foram chamados para integrar o time governamental, sem direito, porém, a opinar sobre políticas públicas. Em termos mais concretos, o governo nomeou ministros de muitos partidos, mas estes viram seus poderes limitados. Alguns até passaram a ser monitorados por quadros petistas fincados ao seu redor.
Governos que assim agem acabam experimentando derrotas sucessivas no Congresso. E até impedimentos. O passado registra o caso de Fernando Collor de Mello. Não fazia articulação com a base política. Sem capital político, foi empurrado para fora da Presidência da República por um impeachment. Algum verniz de distanciamento entre o Executivo e o Congresso também pode ser enxergado no ciclo Dilma. Que, como se sabe, cultivou imenso desprezo pela base parlamentar.
O nosso chamado “presidencialismo de coalizão”, portanto, não se apoia em bases sólidas. Frequentemente, balança em areia movediça que gera instabilidade. A explicação é a forma de relacionamento do Executivo com os partidos que lhe dão sustentação. Adota uma forma considerada ortodoxa, unilateral, sem reciprocidade. O maior partido do país, o PMDB, por exemplo, sempre se queixou por não ser governo, mas estar no governo. Foi assim durante a era petista.
A diferença entre ser e estar conduz aos fundamentos do “presidencialismo de coalizão”, nos termos descritos pelo cientista político Sérgio Abranches em 1988, que pressupõem três momentos: a constituição pelos partidos de uma aliança eleitoral e sua união em torno de um programa mínimo; a formação do governo, a partir do preenchimento de cargos e compromissos com a plataforma política; e a transformação da aliança inicial em coalizão governativa. Ser governo significa assumir responsabilidades nesses três momentos.
Sob essa perspectiva, os governos deveriam amalgamar as posições programáticas dos partidos, contemplando-os na operação administrativa de acordo com a sua respectiva densidade política no Congresso Nacional e observando a identidade e as vocações de cada um. Mas isso não é visto no cotidiano da administração. A disparidade no atendimento das demandas partidárias abre contrariedades, organiza emboscadas, gera traições.
As disputas por espaços se acirram sob o leque do fisiologismo, mazela histórica de nossa cultura política. A crise política por que passa o país tem muito a ver com essa distorção. O PT sempre cultivou a ideia de formar sua redoma de poder, só admitindo (a fórceps) compartilhar espaços na Esplanada dos Ministérios. Nunca arredou mão do lema “nós aqui e eles lá”. Em outros termos, o PT sempre quis dizer: nós somos governo, e vocês, aliados, estão aqui de passagem. São convidados circunstanciais. Estar no governo, pois, é ocupar cargos sem a prerrogativa dos ocupantes de interferir no ideário governamental. Essa tem sido a modelagem que gera insatisfação das bases partidárias.
O resultado é um embate permanente entre alas e grupos. Ao deixar de contemplar posições e visões dos participantes da base, o Executivo faz uma interpretação enviesada do “presidencialismo de coalizão”. Qual a razão para tanta autossuficiência? Resposta: o caráter do hiper-presidencialismo. O Poder Executivo ganhou força com a Constituição federal de 1988, que dotou o governo de extraordinário instrumento legiferante (a medida provisória). Além deste, outros meios têm expandido o cacife presidencial: a adoção do regime de urgência na tramitação de projetos de lei; o mecanismo de votação simbólica de lei pelos líderes partidários; a legislação tributária centralizadora e a própria Lei de Responsabilidade Fiscal.
Com essa armação, o Palácio do Planalto, nos últimos anos, passou a enquadrar as políticas do Estado em duas bandas: uma com capacidade decisória sobre metas de câmbio, política de juros, cujos efeitos se fazem sentir nas políticas de emprego e renda; a outra, sem poder decisório central, fica repartida entre os apoiadores. Não por acaso floresce no País um autoritarismo civil sem precedentes. As tensões entre os Poderes atingem um clímax. O barão de Montesquieu (quem se lembra dele?), com seu sistema de pesos e contrapesos, vê quebrada a harmonia que pregava entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
Diante dessa moldura, cai bem a proposta do presidente em exercício, Michel Temer, de dar forças aos ministros, permitindo-lhes conduzir suas áreas com conceitos e estratégias próprias, bastando que sejam afinadas ao escopo governamental. Ou seja, ele quer ajustar a gramática do poder, começando com a declinação dos verbos ser e estar. Os integrantes da plataforma governista agora poderão dizer que são governo e, assim, participar da elaboração das regras do jogo, não apenas nele entrando como coadjuvantes. Esse é o desafio que se apresenta ao “presidencialismo de coalizão”. Sem essa condição, o que teremos é a continuidade da colisão.
É evidente que a aprendizagem na cartilha dessa feição presidencialista demandará compromisso dos entes partidários com valores éticos e princípios morais, sem os quais os domínios administrativos se tornarão feudos de caciques e interesseiros. Posições mais transparentes, articulação das forças sociais para participar da formulação das políticas e calendário de implementação dos programas ajudariam a compor uma identidade governativa homogênea. Ganharíamos, sem dúvida, uma República mais limpa.
Para resolver a crise, vontade política ou políticos com vontade?
Estrelas de primeira grandeza ganham manchetes de jornal, de quando em quando flagrados em denúncias e acusações. Políticos, de modo geral.
Fazer o quê? Prender todo mundo não dá, boa parte desses bandidos dispõem de recursos para contratar excelentes advogados. Obrigá-los a devolver aos cofres públicos as fortunas que roubaram, só por milagre. Expô-los à execração pública despertará sentimentos variados, a maioria de solidariedade.
Fechar o Congresso ofenderia as instituições e faria o Brasil retroagir. Que tal mudar a Constituição e criar penas mais duras para o crime de corrupção? Multas elevadas ao quadrado? Exílio? Banimento? Confinamento?
Soluções sempre aparecerão, desde que haja vontade política. Ou políticos com vontade. O que não dá é deixar as coisas como estão.
O fruto das fraquezas
A política nada mais é do que o fruto das fraquezas humana. O homem sensato não tem necessidade de que o dirijam. Jamais utilizará sua liberdade contra a liberdade dos outros. Infelizmente, esses homens existem em número reduzido. Em compensação, se tivermos a temeridade d dar plena liberdade a um tratante, ele a transformará instantaneamente em falta de liberdade para outrem, em coerção, violência, exploração. Aliás, não se deve crer que existe um número considerável de tratantes. Eles são simplesmente mais bem-organizados do que os homens sensatosIevguêni Ievtuchenko
Patrulha recatada e do lar
Temer deu posse a Maria Silvia na presidência do BNDES. Silêncio na patrulha progressista.
Explicando melhor: o presidente Michel Temer empossou na presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o maior orçamento público do país, a economista Maria Silvia Bastos Marques, executiva de renome consagrada no Brasil e no exterior.
Silêncio sepulcral na claque progressista, humanitária e feminista.
Tentando de outra forma: o BNDES, um dos maiores bancos de desenvolvimento do mundo, alvo de vários inquéritos sobre tráfico de influência do PT, com destaque para as tramoias do ex-ministro Fernando Pimentel para eleger Dilma Rousseff, e de Lula para alegrar suas empreiteiras de estimação, foi colocado por Michel Temer nas mãos de uma executiva séria e brilhante, que vai combater a farra com o dinheiro do contribuinte.
Outrora febril, a patrulha progressista, agora recatada e do lar, vira-se de lado e dorme. Quando alguém tenta despertá-la, ela pergunta sonolenta: mas e o Cunha?
Se já era difícil explicar o que o Cunha tem a ver com as calças, que dirá com as saias. Melhor não contrariar. Para os brasileiros da resistência democrática, irmanados à quadrilha de Dilma e Lula contra os golpistas, mulher de verdade é Erenice, Gleisi, Ideli, Rosemary, Rosário, Graça, Belchior e as demais heroínas que fizeram história na Era Rousseff. Gosto não se discute.
Melhor passar à próxima notícia: Michel Temer empossa Pedro Parente na presidência da Petrobras. Silêncio ensurdecedor na patrulha moralizadora contra o novo governo.
Em se tratando de moral, vale explicar com paciência: o governo dos abutres que vieram atacar os cordeiros indefesos do PT colocou um dos melhores executivos do país, reconhecido nacional e internacionalmente, para gerir a empresa usada por Lula e Dilma para patrocinar o maior escândalo da história da República.
Alguém cometeu de novo a indelicadeza de acordar a patrulha do bem, exausta da luta sem tréguas contra os conservadores malvados, e a reação veio na bucha: mas e o Cunha?
Aí Michel Temer demite sumariamente os suspeitos de seu governo. Um careta, conservador, que não tem noção de solidariedade. Dilma nunca fez isso. Sempre procurou manter seus picaretas de fé a salvo, como é o caso do supracitado Fernando Pimentel. E jamais negou apoio público aos companheiros mensaleiros e aos guerreiros do povo brasileiro presos no assalto à Petrobras.
É aí que mora o perigo, bravos democratas que resistem contra Temer: vocês não podem aceitar assim, de bico calado, a entrega escandalosa da Petrobras a Pedro Parente.
Vocês já pensaram nas consequências disso? Quantos doleiros e tesoureiros progressistas ficarão à míngua? Quantas eleições presidenciais e parlamentares deixarão de ser compradas, desempregando milhares de funcionários de gráficas fantasmas, agências de publicidade de fachada, marqueteiros espertos e jornalistas de aluguel, fora a crise no mercado da mortadela?
Vocês não devem estar se lembrando quem é Pedro Parente, caros gladiadores da resistência democrática. Então compreendam a gravidade da coisa: quase 20 anos atrás, Pedro Parente foi um dos principais guardiões da implantação de uma barbaridade chamada Lei de Responsabilidade Fiscal. Não estão ligando o nome à pessoa? Ora, bravos guerreiros do bem, foi essa maldita excrescência que derrubou a nossa impoluta presidenta.
Entenderam o golpe? Pedro Parente, colocado pelo governo branco, velho e conservador de Temer para tomar conta da maior empresa nacional, tramou a queda de Dilma lá atrás, nos anos 90. Esses golpistas pensam em tudo.
Junto com a gangue que fez o Plano Real (página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória), esse ardiloso previu que um dia os companheiros chegariam ao poder, e criariam uma maravilha chamada contabilidade criativa — que é você conquistar a liberdade de gastar sem culpa o dinheiro dos outros.
E foi assim que Dilma caiu. Só porque foi flagrada fraudando a responsabilidade fiscal para manter os bonzinhos no poder, isto é, roubando honestamente — o que para os brancos, velhos, chatos, bobos, feios, recatados e do lar, é crime.
Esse talvez tenha sido o golpe mais doloroso. Se você e o seu grupinho depenam a Petrobras para enriquecer a elite vermelha, a polícia descobre tudo, e você cai por causa por causa de uma fraude fiscal — praticamente um roubo de galinha perto das obras completas —, tem que reclamar mesmo. Era só o que faltava a autora de tal façanha passar à história pedalando. Mais respeito, por favor — como pediu aquele pessoal simpático em Cannes.
Também não é para desesperar. O companheiro Al Capone passou pelo mesmíssimo problema. Um dos maiores gangsteres da história, já ia passando aos livros como um reles sonegador fiscal. Mas a resistência democrática contra o golpe trabalhou bem lá em Chicago, e Capone hoje é reconhecido mundialmente em toda a sua magnitude. Isso há de acontecer também com Dilma, Lula e o PT. Não esmoreçam.
Guilherme Fiuza
Explicando melhor: o presidente Michel Temer empossou na presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o maior orçamento público do país, a economista Maria Silvia Bastos Marques, executiva de renome consagrada no Brasil e no exterior.
Silêncio sepulcral na claque progressista, humanitária e feminista.
Tentando de outra forma: o BNDES, um dos maiores bancos de desenvolvimento do mundo, alvo de vários inquéritos sobre tráfico de influência do PT, com destaque para as tramoias do ex-ministro Fernando Pimentel para eleger Dilma Rousseff, e de Lula para alegrar suas empreiteiras de estimação, foi colocado por Michel Temer nas mãos de uma executiva séria e brilhante, que vai combater a farra com o dinheiro do contribuinte.
Outrora febril, a patrulha progressista, agora recatada e do lar, vira-se de lado e dorme. Quando alguém tenta despertá-la, ela pergunta sonolenta: mas e o Cunha?
Se já era difícil explicar o que o Cunha tem a ver com as calças, que dirá com as saias. Melhor não contrariar. Para os brasileiros da resistência democrática, irmanados à quadrilha de Dilma e Lula contra os golpistas, mulher de verdade é Erenice, Gleisi, Ideli, Rosemary, Rosário, Graça, Belchior e as demais heroínas que fizeram história na Era Rousseff. Gosto não se discute.
Melhor passar à próxima notícia: Michel Temer empossa Pedro Parente na presidência da Petrobras. Silêncio ensurdecedor na patrulha moralizadora contra o novo governo.
Em se tratando de moral, vale explicar com paciência: o governo dos abutres que vieram atacar os cordeiros indefesos do PT colocou um dos melhores executivos do país, reconhecido nacional e internacionalmente, para gerir a empresa usada por Lula e Dilma para patrocinar o maior escândalo da história da República.

Alguém cometeu de novo a indelicadeza de acordar a patrulha do bem, exausta da luta sem tréguas contra os conservadores malvados, e a reação veio na bucha: mas e o Cunha?
Aí Michel Temer demite sumariamente os suspeitos de seu governo. Um careta, conservador, que não tem noção de solidariedade. Dilma nunca fez isso. Sempre procurou manter seus picaretas de fé a salvo, como é o caso do supracitado Fernando Pimentel. E jamais negou apoio público aos companheiros mensaleiros e aos guerreiros do povo brasileiro presos no assalto à Petrobras.
É aí que mora o perigo, bravos democratas que resistem contra Temer: vocês não podem aceitar assim, de bico calado, a entrega escandalosa da Petrobras a Pedro Parente.
Vocês já pensaram nas consequências disso? Quantos doleiros e tesoureiros progressistas ficarão à míngua? Quantas eleições presidenciais e parlamentares deixarão de ser compradas, desempregando milhares de funcionários de gráficas fantasmas, agências de publicidade de fachada, marqueteiros espertos e jornalistas de aluguel, fora a crise no mercado da mortadela?
Vocês não devem estar se lembrando quem é Pedro Parente, caros gladiadores da resistência democrática. Então compreendam a gravidade da coisa: quase 20 anos atrás, Pedro Parente foi um dos principais guardiões da implantação de uma barbaridade chamada Lei de Responsabilidade Fiscal. Não estão ligando o nome à pessoa? Ora, bravos guerreiros do bem, foi essa maldita excrescência que derrubou a nossa impoluta presidenta.
Entenderam o golpe? Pedro Parente, colocado pelo governo branco, velho e conservador de Temer para tomar conta da maior empresa nacional, tramou a queda de Dilma lá atrás, nos anos 90. Esses golpistas pensam em tudo.
Junto com a gangue que fez o Plano Real (página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória), esse ardiloso previu que um dia os companheiros chegariam ao poder, e criariam uma maravilha chamada contabilidade criativa — que é você conquistar a liberdade de gastar sem culpa o dinheiro dos outros.
E foi assim que Dilma caiu. Só porque foi flagrada fraudando a responsabilidade fiscal para manter os bonzinhos no poder, isto é, roubando honestamente — o que para os brancos, velhos, chatos, bobos, feios, recatados e do lar, é crime.
Esse talvez tenha sido o golpe mais doloroso. Se você e o seu grupinho depenam a Petrobras para enriquecer a elite vermelha, a polícia descobre tudo, e você cai por causa por causa de uma fraude fiscal — praticamente um roubo de galinha perto das obras completas —, tem que reclamar mesmo. Era só o que faltava a autora de tal façanha passar à história pedalando. Mais respeito, por favor — como pediu aquele pessoal simpático em Cannes.
Também não é para desesperar. O companheiro Al Capone passou pelo mesmíssimo problema. Um dos maiores gangsteres da história, já ia passando aos livros como um reles sonegador fiscal. Mas a resistência democrática contra o golpe trabalhou bem lá em Chicago, e Capone hoje é reconhecido mundialmente em toda a sua magnitude. Isso há de acontecer também com Dilma, Lula e o PT. Não esmoreçam.
Guilherme Fiuza
Devolver Dilma ao poder é debochar do Brasil
Dilma é um assombro. Um despropósito político sem precedentes. Uma hecatombe administrativa que condenou o País a anos de retrocesso. Dilma é a ausência de noção de realidade em pessoa. A negação repetida dos fatos da forma mais cínica e desavergonhada possível. Por isso mesmo, trazê-la de volta ao poder equivaleria à contratação antecipada do caos para o Brasil. Quem tiver dúvidas sobre essa hipótese que reserve ao menos alguns meros minutos do seu tempo para dar uma olhada minuciosa, e despojada de ideologias, sobre a herança que ela nos legou. Em um rápido “overview” será impossível esquecer o maior rombo das contas públicas de que se tem notícia na história republicana. Ao menos R$ 170 bilhões, com pedaladas, muitas, de toda natureza. Não dará para apagar, nem da memória de futuras gerações, a corrupção sistêmica, institucionalizada e disseminada de seu governo – em episódios que deixou o mundo inteiro estarrecido e consumiu a riqueza da estatal de ouro, “joia da coroa”, Petrobras. Os quase 12 milhões de desempregados; as vítimas de seus desmandos e barbeiragens com a inflação, os juros e as políticas tarifárias de energia e combustíveis; os políticos e empresários ignorados em seus apelos; a entourage de eleitores que nela depositaram a confiança dos votos, traídos inapelavelmente; todos, enfim, não irão perdoar qualquer possibilidade de “revival” que sua volta significaria. E desse sentimento decorre a condição de presidente mais impopular em décadas, segundo as pesquisas. Dilma mentiu e mente a cada manifestação pública. Isso fica evidente, inclusive, nos inúmeros acordos de delações que a colocam – lado a lado com o mentor, Lula – no coração dos escândalos de desvios e favorecimentos de campanha. O ex-diretor da Petrobras, Nestor Ceveró, foi apenas mais um a confirmar na semana passada, em sua delação, que Dilma mentiu também sobre a compra de Pasadena, fonte original das investigações do Petrolão. Dilma sabia dessa e de outras maracutaias, apontam os artífices do propinoduto. Dilma distorce fatos em prol de interesses pessoais. Diz que o sucessor quer desmontar a Lava Jato, quando foi ela, petistas, Lula & cia. que tramaram um sem número de vezes para driblar os avanços da operação. Dilma não admite os próprios erros. Nunca. A recessão, a inapetência para o diálogo, a prisão de seu marqueteiro e do tesoureiro do partido, o cataclismo de sua gestão são frutos de um complô das elites, dos adversários, de fatores externos. O que se evidenciou na malfadada era Dilma é o pior dos mundos em todos os sentidos.
E nesse contexto soa estranho que certos setores do próprio Congresso ainda flertem com a hipótese do seu retorno. Parecem estar mais atentos a barganhas em interesse próprio do que na inadiável e necessária busca da estabilidade e bem-estar da Nação. Pensar na absurda alternativa de eleições presidenciais antecipadas é outro despropósito. Oportunismo que macula a Constituição. Um devaneio sem lastro, cuja chance de ocorrer é tão remota quanto à possibilidade de renúncia coletiva, e acordada, do colegiado de parlamentares para que tal pacto se viabilize. Assim sendo, é fundamental a compreensão por parte dos senhores senadores do momento decisivo pelo qual passa o País e do papel que lhes cabe de restauração da ordem. O presidente da transição, Michel Temer, que dá demonstrações claras de estar movido por um real desejo de arrumar a casa, precisa de trégua para trabalhar. A missão é inglória. No posto ele está por direito constitucional e é preciso que seu trabalho ali dê certo, como precondição para o conserto da bagunça criada. Diante do complexo quadro de desafios, as dificuldades são inevitáveis. As resistências também. Mas o voto de confiança tem de prevalecer. A sabotagem é antidemocrática. Desprezível. Petistas, agora na oposição, revanchistas de carteirinha, fazem de tudo para manter o Brasil em estado de permanente instabilidade. Seus arautos e simpatizantes provocam arruaças, invadem prédios públicos, protestam amiúde – com meia dúzia de seguidores aqui e ali, parando avenidas e estradas -, contra o interesse geral. Como dar respaldo institucional, no legislativo, através de apoio pelo voto, a essa algazarra? A comparação de métodos e ações do atual governo Temer com o calamitoso modelo de gestão de Dilma Rousseff é, no mínimo, risível. Temer não tem medo de errar e de voltar atrás, quando necessário. Qualidade esperada de um líder. Exibe pulso e equipe competente para reorganizar a economia, encaminhar as reformas necessárias e ajustar interesses políticos tão distintos. Pode não ser a opção ideal de segmentos variados da sociedade. Mas é notoriamente mais habilidoso que sua antecessora. Abissal é a distância que o separa dela. O Planalto que em tempos recentes, sob Dilma, viveu dias de palanque e circo, está decerto focado agora no que importa: a condução do País, outra vez, na rota do desenvolvimento. Ninguém tem saudades do que aquela senhora nos causou.
E nesse contexto soa estranho que certos setores do próprio Congresso ainda flertem com a hipótese do seu retorno. Parecem estar mais atentos a barganhas em interesse próprio do que na inadiável e necessária busca da estabilidade e bem-estar da Nação. Pensar na absurda alternativa de eleições presidenciais antecipadas é outro despropósito. Oportunismo que macula a Constituição. Um devaneio sem lastro, cuja chance de ocorrer é tão remota quanto à possibilidade de renúncia coletiva, e acordada, do colegiado de parlamentares para que tal pacto se viabilize. Assim sendo, é fundamental a compreensão por parte dos senhores senadores do momento decisivo pelo qual passa o País e do papel que lhes cabe de restauração da ordem. O presidente da transição, Michel Temer, que dá demonstrações claras de estar movido por um real desejo de arrumar a casa, precisa de trégua para trabalhar. A missão é inglória. No posto ele está por direito constitucional e é preciso que seu trabalho ali dê certo, como precondição para o conserto da bagunça criada. Diante do complexo quadro de desafios, as dificuldades são inevitáveis. As resistências também. Mas o voto de confiança tem de prevalecer. A sabotagem é antidemocrática. Desprezível. Petistas, agora na oposição, revanchistas de carteirinha, fazem de tudo para manter o Brasil em estado de permanente instabilidade. Seus arautos e simpatizantes provocam arruaças, invadem prédios públicos, protestam amiúde – com meia dúzia de seguidores aqui e ali, parando avenidas e estradas -, contra o interesse geral. Como dar respaldo institucional, no legislativo, através de apoio pelo voto, a essa algazarra? A comparação de métodos e ações do atual governo Temer com o calamitoso modelo de gestão de Dilma Rousseff é, no mínimo, risível. Temer não tem medo de errar e de voltar atrás, quando necessário. Qualidade esperada de um líder. Exibe pulso e equipe competente para reorganizar a economia, encaminhar as reformas necessárias e ajustar interesses políticos tão distintos. Pode não ser a opção ideal de segmentos variados da sociedade. Mas é notoriamente mais habilidoso que sua antecessora. Abissal é a distância que o separa dela. O Planalto que em tempos recentes, sob Dilma, viveu dias de palanque e circo, está decerto focado agora no que importa: a condução do País, outra vez, na rota do desenvolvimento. Ninguém tem saudades do que aquela senhora nos causou.
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