
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
Justiça e ovos de galinha

Canadá e natureza são inseparáveis. Impossível esquecer. Em Vancouver, a natureza abraça a cidade. O planejamento urbano trata a natureza como parte do cenário. Sem que sua beleza seja subjugada, subestimada, ignorada.
Acesso fácil à natureza. É uma das razoes (ou talvez mesmo a principal) pela qual Vancouver está entre as cidades com maior qualidade de vida no planeta. A área rural esta próxima. 10 minutos de carro, no máximo. Ali estão fazendas, sítios, estufas. Pequenos e grandes agricultores. Agronegócio e agricultura familiar. Lado a lado.
Na beira das estradas, dá para comprar todo tipo de produto agrícola cultivado em pequenas propriedades. Não usam agrotóxicos. São orgânicos. Saborosos. Em particular, os ovos de galinha. Gemas avermelhadas, deliciosos e a bom preço. Mesmo se comparados com os preços de supermercado.
Compra-los é simples. Os pequenos agricultores mantem pequenas barracas na porta de suas casas. Os ovos ficam em embalagens de 12 unidades, dentro de uma caixa. Basta retira-los. O pagamento é depositado em uma pequena caixa ao lado. Se o troco for necessário, o comprador mesmo calcula e retira da caixa a diferença.
É um bom sistema. Funciona bem. E em todo lugar. Mas, para alguém vindo da América Latina, um detalhe sempre choca. Não existe supervisão. O dono da barraca está ausente e o comprador pode, em tese, não somente deixar de pagar, mas também subtrair do caixa o ganho do fazendeiro. Em geral, Latino-americanos, quando compram pelos ovos pela primeira vez, invariavelmente dizem que, em sue pais de origem, este sistema não seria possível.
Não existe, na verdade, razão concreta para este sistema não funcionar. E quando funciona, é melhor para todos. O fazendeiro não precisa incorrer em despesas adicionais para garantir a segurança do seu negocio. Portanto, os ovos são mais baratos. E o comprador se beneficia. Todos ganham.
Sistemas justos tendem a trazer benefícios coletivos. Em outras palavras, desonestidade, especialmente quando transformada em norma social, tem custo. Se a norma social é a desonestidade, desvia-se energia e recursos para controle e prevenção de condutas indesejáveis. É desperdício. Este tempo, energia e recursos seriam socialmente mais uteis se utilizados em outras áreas, produzindo, criando, ou mesmo patrocinando o ócio.
Seria perda de tempo discutir quem vem primeiro, o ovo (ovos, novamente!) ou a galinha. Não é relevante especular se a degradação ética é consequência de injustiças sistêmicas; ou se a injustiça sistêmica gera degradação ética. Basta compreender que a degradação ética gera custos. Cobra preços. Altos, alias.
No final das contas, honestidade e ética não devem ser encarados como virtude individual. É obrigação coletiva. Cultivar justiça sai barato. E é bom para todos.
É política, estúpido!
O poder do espontâneo é impressionante. Claro que não desdenho o planejamento, que tanto nos falta. Ms para certas coisas, a espontaneidade é de grande valia e de importância única. Nós, como povo, somos excepcionais mestres do improviso e desta mesma espontaneidade. Me pergunto: por que, mesmo com o alto nível de indignação com o governo, com o ambiente político e com a corrupção, precisamos agendar com três meses de antecedência nossos protestos?
Parecemos alemães quando vamos protestar e brasileiros quando vamos planejar um país ou um governo. Deveria ser exatamente o oposto. Lembro que uma vez, um argentino, alto funcionário do governo de seu país, me explicou a naturalidade com a qual protestos são realizados em Buenos Aires.
Segundo esse oficial do governo, os sentimentos que geram protestos naquele país são infinitamente mais sofisticados do que neste. De largada, a tematização do objeto contra o qual se irá protestar é de suma importância. Protestos sem foco se tornam desfiles, festivais de selfies e paraíso de vendedores ambulantes. Não podemos protestar simplesmente contra os políticos. Isso soa bobo e sem foco. É como protestar contra a maldade ou contra a mentira. O foco dá poder, dá força e realmente faz os governos tremerem na base.
O argentino prosseguiu: “O momento, ou “timing”, de um protesto é metade de sua importância. A reação deve ser imediata, e demonstrar um reflexo de que a sociedade está realmente de olho. Quando uma medida considerada ruim por segmentos da sociedade argentina é anunciada, a reação de indignação é o suficiente para que um grupo se encontre, espontaneamente na Praça de Maio. Pode estar chovendo, ser dia de semana ou no horário do futebol. Não importa. A resposta é imediata, e lá estão um grupo, pequeno, médio ou grande, batendo panelas na frente da Casa Rosada”.
Parece que faz muito tempo, mas não foi. Quando ocorreu o impeachment de Fernando Collor, a espontaneidade dos movimentos de rua foi fundamental. As pessoas saíram para derrubar o presidente porque sentiam que era a hora de ir para as ruas.
Os protestos em Paris contra os ataques terroristas, por mais que tenham sido convocados também por redes sociais, ocorreram no fim de semana seguinte aos atos. Questão de dias. Independente da convocação, todos sabiam que aquele era o momento. Estavam antenados com o ambiente respirado no país, souberam ler a situação e realmente estavam indignados na rua.
No Brasil, o primeiro grande protesto de 2013 foi o que causou maior impacto. Ele foi motivado por um sentimento de raiva, que ganhou uma proporção enorme assim como uma grande falta de foco e objetivo. O que era motivado pelo abuso dos preços das passagens, se tornou uma generalização contra tudo. Aí, começou a perder força política apesar de manter a força estética.
Política é coisa séria. Se você não gosta de política, não tem problema, mas saiba que alguém que gosta irá fazê-la por você. E isso é um dos grandes problemas do nosso país. Um processo de impeachment não é uma festa, por mais que muitos queiram e outros tantos não, trata-se de um evento associado a uma imagem de fracasso.
Não deveríamos estar preparando festejos nas ruas. Dependendo de que lado você esteja, a indignação é o combustível que move a política. A indignação deve ser a marca dos protestos, dos cânticos e estar presente nos rostos das pessoas.Sorrisinhos, beijinhos e poses para o celular retiram toda a credibilidade do que está ocorrendo.
A gravidade do momento que o país vive requer comportamentos naturais. Marcar com três meses de antecedência, com horário para começar e para terminar, fantasiar-se para um carnaval mais parece um coquetel diplomático do que um movimento para mudar os rumos de um país.
Parecemos alemães quando vamos protestar e brasileiros quando vamos planejar um país ou um governo. Deveria ser exatamente o oposto. Lembro que uma vez, um argentino, alto funcionário do governo de seu país, me explicou a naturalidade com a qual protestos são realizados em Buenos Aires.
Segundo esse oficial do governo, os sentimentos que geram protestos naquele país são infinitamente mais sofisticados do que neste. De largada, a tematização do objeto contra o qual se irá protestar é de suma importância. Protestos sem foco se tornam desfiles, festivais de selfies e paraíso de vendedores ambulantes. Não podemos protestar simplesmente contra os políticos. Isso soa bobo e sem foco. É como protestar contra a maldade ou contra a mentira. O foco dá poder, dá força e realmente faz os governos tremerem na base.
O argentino prosseguiu: “O momento, ou “timing”, de um protesto é metade de sua importância. A reação deve ser imediata, e demonstrar um reflexo de que a sociedade está realmente de olho. Quando uma medida considerada ruim por segmentos da sociedade argentina é anunciada, a reação de indignação é o suficiente para que um grupo se encontre, espontaneamente na Praça de Maio. Pode estar chovendo, ser dia de semana ou no horário do futebol. Não importa. A resposta é imediata, e lá estão um grupo, pequeno, médio ou grande, batendo panelas na frente da Casa Rosada”.
Parece que faz muito tempo, mas não foi. Quando ocorreu o impeachment de Fernando Collor, a espontaneidade dos movimentos de rua foi fundamental. As pessoas saíram para derrubar o presidente porque sentiam que era a hora de ir para as ruas.
Os protestos em Paris contra os ataques terroristas, por mais que tenham sido convocados também por redes sociais, ocorreram no fim de semana seguinte aos atos. Questão de dias. Independente da convocação, todos sabiam que aquele era o momento. Estavam antenados com o ambiente respirado no país, souberam ler a situação e realmente estavam indignados na rua.
No Brasil, o primeiro grande protesto de 2013 foi o que causou maior impacto. Ele foi motivado por um sentimento de raiva, que ganhou uma proporção enorme assim como uma grande falta de foco e objetivo. O que era motivado pelo abuso dos preços das passagens, se tornou uma generalização contra tudo. Aí, começou a perder força política apesar de manter a força estética.
Política é coisa séria. Se você não gosta de política, não tem problema, mas saiba que alguém que gosta irá fazê-la por você. E isso é um dos grandes problemas do nosso país. Um processo de impeachment não é uma festa, por mais que muitos queiram e outros tantos não, trata-se de um evento associado a uma imagem de fracasso.
Não deveríamos estar preparando festejos nas ruas. Dependendo de que lado você esteja, a indignação é o combustível que move a política. A indignação deve ser a marca dos protestos, dos cânticos e estar presente nos rostos das pessoas.Sorrisinhos, beijinhos e poses para o celular retiram toda a credibilidade do que está ocorrendo.
A gravidade do momento que o país vive requer comportamentos naturais. Marcar com três meses de antecedência, com horário para começar e para terminar, fantasiar-se para um carnaval mais parece um coquetel diplomático do que um movimento para mudar os rumos de um país.
Passemos a régua
Grande momento esse que vivemos nós, brasileiros: o dólar insistente sem querer baixar dos R$ 4,10; o desemprego ameaçando todos aqueles que às manhãs saem de casa para tentar ganhar a vida com o próprio trabalho; a inflação comendo solta o que ainda restou, depois de se pagarem as contas, os juros do cheque especial, os impostos que oneram tudo e a todos sem que se vejam ações compatíveis dos governos em retribuição a tão pesado sacrifício.
Em outro espaço a operação Lava Jato, que dá mostras de que se transformou num espetáculo midiático, indo e vindo, sem se dar conta de que o país está parado à espera de sua conclusão. Delações premiadas que todo mundo espera serem aceitas e reveladas, porque nesse angu, certamente, tem muito mais caroço do que sabemos. Por que não abrem a delação de Otávio Azevedo, presidente da Andrade Gutierrez? O que ele disse que nada ou muito acrescenta? O que se teme tanto? Um procurador federal, há quase um mês, diz que já tem provas para denunciar Lula e sua patroa, dona Marisa, por causa de um tríplex comprado no Guarujá. Mais ou menos o tipo de processo movido contra um ex-governador mineiro que deu pulseirinhas de ouro para as secretárias no dia delas, e o Tribunal de Despesas glosou a conta. O problema estava nas pulseirinhas, da mesma forma que no tríplex do Guarujá. Só isso?
Nesse mesmo diapasão, o PMDB ocupa as páginas para dizer que Leonardo Picciani é o seu escolhido para liderar a bancada, agora com o apoio de seu arquirrival, o outro Leonardo, o Quintão. Eles vão concorrer com Hugo Motta, muito conhecido e importante lá na Câmara porque tem o apoio de Eduardo Cunha, ainda solto. Quem, sério, dá confiança pra isso? Que importância tem para esse momento de miséria ampla, geral e irrestrita à vista que Michel Temer gaste seu tempo divulgando cartinhas, mantendo-se presidente de um partido sempre no poder e perfilado à ideia de ter espaços para mandar e dividir resultados, muitos os mais censuráveis, ética e politicamente? Onde está Marcela? Vai pra casa Temer, ponha o chinelo de vice, abra um bom vinho comprado com recursos do erário, que você lá faz melhor. Vá namorar.
Ninguém falou em reduzir as verbas destinadas à manutenção das câmaras de vereadores de todo país, das assembleias legislativas, da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Não se cortou na carne o orçamento do Judiciário. Não se falou em auditar despesas com assessorias, com a manutenção de fundações de mentira, de secretarias e ministérios criados para acampar interesses políticos e semear o mau exemplo da ineficiência, do descaso e da improdutividade. Não se fala mais em concessões públicas, PPPs, na redução do tamanho de um Estado gastador, burro e corrupto.
Não se veem propostas, projetos, ideias senão o blábláblá de uma oposição que, igualmente aos partidos que estão hoje com a caneta, tem apenas projetos de poder. A oposição só está preocupada com a eleição. Não é uma rima; é a mais pura realidade.
A seguirmos assim, melhor é a receita de Stanislaw Ponte Preta: “Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos”. Pelo menos tentemos, o mais democraticamente possível.

Nesse mesmo diapasão, o PMDB ocupa as páginas para dizer que Leonardo Picciani é o seu escolhido para liderar a bancada, agora com o apoio de seu arquirrival, o outro Leonardo, o Quintão. Eles vão concorrer com Hugo Motta, muito conhecido e importante lá na Câmara porque tem o apoio de Eduardo Cunha, ainda solto. Quem, sério, dá confiança pra isso? Que importância tem para esse momento de miséria ampla, geral e irrestrita à vista que Michel Temer gaste seu tempo divulgando cartinhas, mantendo-se presidente de um partido sempre no poder e perfilado à ideia de ter espaços para mandar e dividir resultados, muitos os mais censuráveis, ética e politicamente? Onde está Marcela? Vai pra casa Temer, ponha o chinelo de vice, abra um bom vinho comprado com recursos do erário, que você lá faz melhor. Vá namorar.
Ninguém falou em reduzir as verbas destinadas à manutenção das câmaras de vereadores de todo país, das assembleias legislativas, da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Não se cortou na carne o orçamento do Judiciário. Não se falou em auditar despesas com assessorias, com a manutenção de fundações de mentira, de secretarias e ministérios criados para acampar interesses políticos e semear o mau exemplo da ineficiência, do descaso e da improdutividade. Não se fala mais em concessões públicas, PPPs, na redução do tamanho de um Estado gastador, burro e corrupto.
Não se veem propostas, projetos, ideias senão o blábláblá de uma oposição que, igualmente aos partidos que estão hoje com a caneta, tem apenas projetos de poder. A oposição só está preocupada com a eleição. Não é uma rima; é a mais pura realidade.
A seguirmos assim, melhor é a receita de Stanislaw Ponte Preta: “Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos”. Pelo menos tentemos, o mais democraticamente possível.
Vou botar o meu bloco na rua

Sempre dentro do tal espírito do arco democrático, como um povo aí gosta de falar pomposo, bem que quero colaborar. Anda difícil ter opinião, no entanto. Se de um lado crítico, vira coxinha e golpista, e de outro aparecem siderados que veem perigo comunista em tudo, impressionante. Horríveis e mal informados (ou mal-intencionados, que andam pululando por aí), e de ambos os lados
Os meninos que estão gritando nas ruas disseram que querem sair todos os dias, porque o barato deles é travar a cidade. E eles andam caprichando, brincando com o fogo nas ruas de São Paulo, aspirando gases temperados, tomando borrachadas, brincando de esconde-esconde e pega-pega com os já enfezados policiais. Policiais com motivos, além de baixos salários e treinamento capenga, muitos ali podiam ser seus filhos, talvez realmente seus filhos também estejam ali, lutando pelo que eles acham ser um mudo melhor.
Do ponto de vista deles, estudantes, estão ali construindo suas histórias, participando. Quantos de nós também já não o fizemos, não fomos assim rebeldes, não desafiamos o sistema? Corremos da polícia? O problema é que esse tema agora, num momento tão crucial para o país, parece mesmo meio bobinho. Nem os caras vão baixar as tarifas, nem as tarifas serão livres – tirem suas bikes, skates e patins da chuva. O rosário tem contas mais significativas para orações.
Por isso andam mais irritando a sociedade do que ajudando a mudar, embora o chamado geral seja sonoro. “Vem. Vem pra rua, vem. Vem. Vem lutar contra o governo. Vem!” – a cantilena principal, além de, claro, as sem pé nem cabeça e as clássicas “Ei, você aí parado, também é explorado”, “Burguês, daqui a pouco será sua vez”. Isso quando não estão sentados no chão em longa assembleia de deliberação e votação fazendo um maldito e chatíssimo jogral, que não devem saber bem o que é, mas é como chamam o que na verdade é repetição, eco, brincadeira de telefone sem fio. Nós. “Nós”…Vamos. “Vamos”… falado sempre por uma esganiçada e imberbe líder fugindo do destino de patricinha.
Mas, enfim, eu também quero protestar. Achar minha turma. E continuo procurando algum grupo que me represente de forma mais completa e séria. Sei de um monte de gente na mesma situação, meio perdido, sem direção, estarrecido também, mas por causa dos vigorosos passos para trás que estamos vendo o país engatar em questões que nos são caras. Estamos querendo sair atrás de algum trio elétrico. Mas ele não passa.
Pensei, então, em propor alguns temas que, nesses dias próximos ao Carnaval, se confundirão. As letras das marchinhas das centenas de blocos que também já balançam as ruas das cidades são mais ácidas e diretas do que as dos protestos, mais contundentes do que mil manifestos, do que abaixo-assinados de redes sociais. Principalmente mais divertidas, e o japonês da federal, nosso globeleza, estará aí para provar, em música e como campeão de vendas de máscaras com sua cara e óculos.
Soma. Já é tradição aproveitar o Carnaval para lascar o pau, satirizar, fazer gaiatices. A crise na porta, bolsos vazios, dívidas para dar e vender. Assuntos jorram mais do que o petróleo. Liberdade – que isso na época negra nunca tivemos. Se fossemos um país sério, derrubaríamos esse governo que já não nos governa assim, brincando, dançando e cantando, e já nos próximos dias.

Problema é que não sou foliã, não mais. Com os anos, peguei bode de bebida, de quem bebe muito, de grupo que junta gente que bebe muito e perde a noção, peguei bode de multidões, até com uma certa fobia.
Os dengosos do ritmo, Sai zika, que eu tô pra lá de chicungunya, Os falidos do pedaço, Os sem-teto duplex, Os paranoicos do desemprego, Impostos para que não te quero não, Lava Lava Jato, seja mais exato, Corrupa, corrupa, pixuleco na mandioca, FMI, FMI, me estarrece só de te ouvir. Mais uma turma numerosa que anda por aí, assoviando, a do “Vai Vai lá, protesta por mim, vai na frente que estou chegando”.
A perversão da democracia
A perversão da democracia começa pelo (mau) uso da linguagem política. Conceitos são esvaziados do seu significado, palavras são ideologicamente utilizadas, e os discursos afastam-se de qualquer relação com a verdade. Pior do que isto, ritos e procedimentos democráticos são de tal forma deturpados, que terminam por servir à própria subversão da democracia.
O caso mais extremo, tão admirado por certos setores da esquerda brasileira, é o da Venezuela, com seu “experimento” de “socialismo do século XXI”. Na verdade, trata-se de uma mera repetição do comunismo do século XX, tendo como único elemento diferenciador o fato de se dizer democrático quando, na verdade, não respeita regras democráticas ou, melhor ditas, republicanas.
O Judiciário é totalmente dominado, até recentemente o Legislativo era completamente controlado, os meios de comunicação são severamente reprimidos e cooptados por empresários laranjas do governo, a Petrobras deles é usada para objetivos nitidamente políticos, milícias aterrorizam a população e assim por diante.
Na fachada, a “democracia” lá seguiria vigorando, pelo menos no dizer do atual governo brasileiro, que tem uma relação de cumplicidade com os bolivarianos. A ideologia tomou completamente o lugar da diplomacia. Note-se que o Itamaraty seguiu fielmente as orientações do PT, que se tornou cúmplice da subversão da democracia naquele pobre país. Curiosamente, tal política é dita defensora da “democracia”.
Em certo sentido, dá para entender. O cerne da questão reside no que eles entendem por democracia. A verdade, certamente, não é a sua preocupação. Bons exemplos têm aparecido nos últimos dias e semanas. Todos eles mostram processos de perversão da democracia, como se a corrupção partidária patrocinada pelo PT e partidos aliados sobre o Estado brasileiro encontrasse aqui uma sustentação.
Mais do que isto, tal forma de utilização da linguagem política poderia prenunciar um processo de subversão mesma da democracia. Não estamos evidentemente lá, mas há graus de uma evolução que devem ser seguidos atentamente, quando mais não seja na defesa mesma da democracia.
O ex-presidente Lula e o presidente do PT saíram em uníssono na defesa do manifesto dos advogados, comprometidos em boa parte com os envolvidos na corrupção do Estado. São os ricos “companheiros” que se aliaram neste assalto ao patrimônio público. Que advogados defendam os seus clientes, nada mais normal. Agora, que o façam dizendo defender o “estado democrático de direito” é simplesmente hilário. Nenhuma pessoa de bom senso poderia compartilhar tal disparate.
Acontece que parte destes advogados não consegue entregar aos seus clientes o que tinha prometido, a saber, a impunidade. Assim era no passado. Acostumaram-se tanto com esta situação, enriqueceram com isto, que chegaram a considerar que a exceção era a regra, ou seja, a impunidade seria a regra mesma de uma sociedade democrática.
Estão, portanto, perplexos diante de uma nova situação, em que instituições republicanas como o Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal estão cumprindo rigorosamente com suas funções institucionais. Tornam-se, agora, alvos, como se a responsabilização dos criminosos, empresários, agentes, executivos ou políticos, não devesse ser a regra. A perversão é total. Os defensores do estado de direito tornam-se, nesta visão deturpada, os algozes da democracia.
Na verdade, o ex-presidente Lula e o presidente Rui Falcão parecem estar advogando em causa própria. Não faltou nem mesmo a defesa dos seus dirigentes presos e processados. Até hoje os condenados pelo mensalão são considerados “guerreiros do povo” brasileiro e defendidos enquanto tais. Há maior desrespeito ao “estado democrático de direito”, neste claro desprezo ao Supremo Tribunal Federal e ao seu longo processo de julgamento do mensalão?
Ambos chegaram a afirmar que o Brasil viveria em um “estado de exceção”, que substituiria o “estado democrático de direito”. O presidente do PT chegou a dizer que o processo atual corresponderia ao pior período do regime militar, em que não vigorava o habeas corpus. Qual é a noção de regra que orienta tais declarações? Tudo sinaliza para a defesa do status quo de aparelhamento petista do Estado brasileiro, com a privatização partidária da própria Petrobras, hoje uma ruína de si mesma.
Para eles, valeria a exceção, a ausência de regras democráticas, pois, no entender deles, só o feito por eles, nos malfeitos que os caracterizam, poderia ser considerado democrático. Identificam, na melhor tradição comunista, o partido com o Estado.
Do mesmo tipo é o discurso governamental e petista de que o processo de impeachment seria um “golpe” contra a democracia. Desconsideram a própria Constituição, da qual este instituto faz parte. Pior ainda, o Supremo ainda recentemente afirmou a sua plena validade, embora tenha alterado alguns dos seus ritos.
Ora, tratar do impeachment como golpe nada mais é do que um desrespeito ao “estado democrático de direito”. Aliás, no passado, o PT defendeu este instituto no impeachment do ex-presidente Collor e advogou, mesmo, pelo impeachment do ex-presidente Fernando Henrique. Lá valia, agora não!
Embora o Fórum Social Mundial, que está ocorrendo em Porto Alegre, tenha perdido o seu glamour de antanho, ele não deixa de ser um termômetro do que pensa o PT e os movimentos sociais que orbitam em seu entorno. Ora, a marcha inaugural e os discursos de representantes do governo caracterizaram-se pela “denúncia do golpe”. Note-se a sincronia entre essas declarações, as declarações de Lula, o manifesto dos advogados e o pronunciamento do presidente do PT. A sua menor preocupação é a defesa do “estado democrático do direito”. Estão, na verdade, pregando a “exceção”, a eliminação das regras republicanas!
Denis Lerrer Rosenfield
Dilma precisa dialogar primeiro com o espelho
Sempre que não sabe o que fazer, Dilma Rousseff propõe o “diálogo”. Nesta semana, dialogará “com a sociedade” numa reunião com empresários, sindicalistas e brasileiros notáveis do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão. Por meio do ministro Jaques Wagner (Casa Civil), consultará lideranças do Congresso, inclusive oposicionistas, sobre a disposição de negociar uma pauta comum de votações. As iniciativas flertam com a perda de tempo.
Antes de dialogar com terceiros, Dilma precisa ter uma boa conversa com o espelho. Se a troca de ideias com seu reflexo for sincera, a presidente talvez se convença de duas coisas essenciais: 1) Sua credibilidade evaporou porque a reeleição foi obtida numa campanha baseada na empulhação; 2) Seu governo descolou-se da realidade quando se apaixonou pelas teses segundo as quais a crise é internacional e a ruína econômica, por “transitória”, será superada rapidamente no Brasil.
Em outubro de 2014, após prevalecer sobre Aécio Neves por uma diferença de pouco mais de 3 milhões de votos, Dilma declarou no discurso da vitória: “Essa presidente está disposta ao diálogo, e esse é meu primeiro compromisso no segundo mandato: o diálogo. […] O calor liberado no fragor da disputa pode e deve agora ser transformado em energia construtiva de um novo momento no Brasil.” Era lorota. A energia virou vapor.
Em dezembro de 2014, ao receber no Tribunal Superior Eleitoral o diploma de presidente reeleita, Dilma expandiu-se: “Chegou a hora de firmarmos um grande pacto nacional contra a corrupção, envolvendo todos os setores da sociedade e todas as esferas de governo.” Ela avisou: “Vou convidar todos os Poderes da República e todas as forças vivas da sociedade para elaborarmos, juntos, uma série de medidas e compromissos duradouros.” Era papo furado.
Hoje, Dilma estende a mão para a oposição num dia e chama os rivais de “golpistas” na manhã seguinte. Na área da corrupção, afora um desabafo enviesado —“não confio em delatores”— a maior contribuição de Dilma foi o recente envio ao Congresso de medida provisória que cria as condições para que empresas confessadamente corruptas voltem a firmar contratos com o governo.
Movida por verdades próprias, Dilma sustenta a fábula de que seu governo tem projeto. Entretanto, além da recriação da CPMF, suas únicas prioridades visíveis são: não cair e continuar passando a impressão de que comanda. De resto, notabiliza-se como inventora do diálogo de mão única.
Em outubro de 2014, após prevalecer sobre Aécio Neves por uma diferença de pouco mais de 3 milhões de votos, Dilma declarou no discurso da vitória: “Essa presidente está disposta ao diálogo, e esse é meu primeiro compromisso no segundo mandato: o diálogo. […] O calor liberado no fragor da disputa pode e deve agora ser transformado em energia construtiva de um novo momento no Brasil.” Era lorota. A energia virou vapor.
Em dezembro de 2014, ao receber no Tribunal Superior Eleitoral o diploma de presidente reeleita, Dilma expandiu-se: “Chegou a hora de firmarmos um grande pacto nacional contra a corrupção, envolvendo todos os setores da sociedade e todas as esferas de governo.” Ela avisou: “Vou convidar todos os Poderes da República e todas as forças vivas da sociedade para elaborarmos, juntos, uma série de medidas e compromissos duradouros.” Era papo furado.
Hoje, Dilma estende a mão para a oposição num dia e chama os rivais de “golpistas” na manhã seguinte. Na área da corrupção, afora um desabafo enviesado —“não confio em delatores”— a maior contribuição de Dilma foi o recente envio ao Congresso de medida provisória que cria as condições para que empresas confessadamente corruptas voltem a firmar contratos com o governo.
Movida por verdades próprias, Dilma sustenta a fábula de que seu governo tem projeto. Entretanto, além da recriação da CPMF, suas únicas prioridades visíveis são: não cair e continuar passando a impressão de que comanda. De resto, notabiliza-se como inventora do diálogo de mão única.
A educação dos maiores
Dia desses pensava eu sobre o quanto é querida a educação. Todo mundo é a favor dela. Nunca encontrei quem fosse contra. Nunca vi quem defendesse não ser ela fundamental para o futuro do país, ou mesmo da raça humana.
Surpreendentemente, no entanto, li que a cada sete minutos um professor é agredido lá no Reino Unido. Cataloguei casos de mestres mordidos, arranhados, chutados, socados, linchados pelos alunos e até assassinados. Na Europa, a cada ano, 1,5 milhão de professores enfrentam esta dura realidade. E ninguém resolve o problema. O Estado tão poderoso, que tanto investe em armas e segurança, não consegue impor a ordem nem nas salas de aula. É assim que se gosta da educação?
Os recursos para a educação devem ser tratados com total seriedade e honestidade. E lá está a Controladoria Geral da União denunciando irregularidades em 73% dos municípios brasileiros. Mas segue firme pelo país afora a frequente compra de equipamentos caríssimos que quase nunca serão usados porque falta nas salas de aula a estrutura mais básica necessária. É assim que se cultua a educação?
Trombeteia-se que uma escola não forma apenas estudantes - forma cidadãos. Apregoa-se que quem abre uma escola fecha uma prisão. Paradoxalmente, no entanto, noções as mais básicas da vida real passam ao largo das salas de aula. Será mais fácil uma criança nelas aprender qual o nome do navio que conduziu José Bonifácio ao exílio do que receber uma mínima noção sobre, por exemplo, o funcionamento das leis. As consequências são terríveis: 67% das empresas brasileiras enfrentam dificuldades na contratação de trabalhadores qualificados. É assim que se homenageia a educação?
Berra-se, pelas esquinas afora, que aos estudantes deve se proporcionar a saúde necessária a todo e qualquer bom desempenho escolar. Para nossa surpresa, porém, 6,8 milhões de alunos brasileiros assistem aulas em escolas desprovidas de abastecimento de água, e 5,2 milhões não tem sequer água potável para beber. Há ainda outras 20 milhões de crianças que estudam em escolas desprovidas de esgoto - milhares morrem a cada ano por conta disso, segundo o UNICEF. É assim que se ama loucamente a educação?
Grita-se, aos quatro ventos, que crianças devem estudar em um ambiente de paz e serenidade, minimamente civilizado - de outra forma, gravemente comprometido estará o aprendizado. No entanto, lá estão pelos jornais as notícias de que traficantes ordenaram o fechamento de escolas em luto por alguma morte decorrente de algum tiroteio com as forças policiais. Isto acontece pelo país afora, em uma escala tal que sequer manchete de jornais é mais. É assim que se reverencia o sagrado ensino?
Cheguei a uma conclusão: o problema das crianças são os maiores que vivem às custas delas pelo planeta afora.
Pedro Valls Feu Rosa
Surpreendentemente, no entanto, li que a cada sete minutos um professor é agredido lá no Reino Unido. Cataloguei casos de mestres mordidos, arranhados, chutados, socados, linchados pelos alunos e até assassinados. Na Europa, a cada ano, 1,5 milhão de professores enfrentam esta dura realidade. E ninguém resolve o problema. O Estado tão poderoso, que tanto investe em armas e segurança, não consegue impor a ordem nem nas salas de aula. É assim que se gosta da educação?
Nunca falta dinheiro para a educação, esta “criança mimada”. E assim pesquisadores ingleses gastaram milhões para descobrir se um pinguim olha para o céu quando passa algum avião. Na Suécia, cientistas investiram outros milhões para concluir que galinhas preferem seguir pessoas bonitas fisicamente. Nos EUA outra fortuna foi gasta para apurar a relação entre a música sertaneja e os índices de suicídio. Enquanto isso, 25% das crianças norte-americanas passam fome, e vivem ao largo dos benefícios da educação. Na Europa, são em média uma a cada sete crianças. É assim que se ama a educação?
Os recursos para a educação devem ser tratados com total seriedade e honestidade. E lá está a Controladoria Geral da União denunciando irregularidades em 73% dos municípios brasileiros. Mas segue firme pelo país afora a frequente compra de equipamentos caríssimos que quase nunca serão usados porque falta nas salas de aula a estrutura mais básica necessária. É assim que se cultua a educação?
Trombeteia-se que uma escola não forma apenas estudantes - forma cidadãos. Apregoa-se que quem abre uma escola fecha uma prisão. Paradoxalmente, no entanto, noções as mais básicas da vida real passam ao largo das salas de aula. Será mais fácil uma criança nelas aprender qual o nome do navio que conduziu José Bonifácio ao exílio do que receber uma mínima noção sobre, por exemplo, o funcionamento das leis. As consequências são terríveis: 67% das empresas brasileiras enfrentam dificuldades na contratação de trabalhadores qualificados. É assim que se homenageia a educação?
Berra-se, pelas esquinas afora, que aos estudantes deve se proporcionar a saúde necessária a todo e qualquer bom desempenho escolar. Para nossa surpresa, porém, 6,8 milhões de alunos brasileiros assistem aulas em escolas desprovidas de abastecimento de água, e 5,2 milhões não tem sequer água potável para beber. Há ainda outras 20 milhões de crianças que estudam em escolas desprovidas de esgoto - milhares morrem a cada ano por conta disso, segundo o UNICEF. É assim que se ama loucamente a educação?
Grita-se, aos quatro ventos, que crianças devem estudar em um ambiente de paz e serenidade, minimamente civilizado - de outra forma, gravemente comprometido estará o aprendizado. No entanto, lá estão pelos jornais as notícias de que traficantes ordenaram o fechamento de escolas em luto por alguma morte decorrente de algum tiroteio com as forças policiais. Isto acontece pelo país afora, em uma escala tal que sequer manchete de jornais é mais. É assim que se reverencia o sagrado ensino?
Cheguei a uma conclusão: o problema das crianças são os maiores que vivem às custas delas pelo planeta afora.
Pedro Valls Feu Rosa
Tarifa zero para todos custaria R$ 27 bi (só) em 17 capitais
Bandeira de movimentos que voltaram a protestar contra o aumento de tarifas de transporte público, o passe livre para todos os usuários em 17 capitais custaria por ano quase o mesmo valor do Bolsa Família. Levantamento feito pelo GLOBO nessas cidades mostra que as prefeituras precisariam desembolsar R$ 27 bilhões anuais — enquanto a União prevê gastos de R$ 28,8 bilhões com seu principal programa social em 2016.
O montante corresponde, ainda, a quase o dobro de todo o gasto previsto para este ano no Ministério dos Transportes (R$ 13,8 bilhões) e é maior do que o orçamento do Ministério da Fazenda (R$ 25,2 bilhões).
Leia mais
Leia mais
![]() |
| O transporte "gratuito" em ônibus de turismo |
A corrupção como escada social
Nossos escândalos de corrupção me remeteram a um livro que fala dos excessos dos anos 1920, a ruidosa década de grande prosperidade que desembocou no caos de 1929. O livro se chama O Grande Gatsby. Foi escrito por Francis Scott Fitzgerald, um norte-americano pobre fascinado pelo mundo dos milionários. Fitzgerald e Zelda, sua mulher, aparecem no filme Meia-noite em Paris, de Woody Allen, em meio a festas extravagantes, esbanjando dinheiro, querendo ser e parecer ricos a qualquer custo. Os políticos de Brasília também aparecem em meio a festas extravagantes, esbanjando dinheiro público, querendo ser ricos a qualquer custo, sobretudo às nossas custas. Seriam para essas festas as tais “verbas de representação” que recebem? Pelo visto, não bastam.
O romance foi considerado um dos melhores da literatura norte-americana do século 20, com o que não concordo, mas sem dúvida merece ser lido. Não apenas pelo mérito literário, também pelo retrato de uma época de prosperidade que parecia eterna e acabou em tragédia, a Grande Depressão, tragédia que também atingiu a vida particular do escritor Scott Fitzgerald, morto prematuramente aos quarenta e quatro anos. Morreu pobre como nasceu.
Grandes festas, grandes arroubos, grandes roubos, grandes Gatsby. A história se repete no Brasil de hoje. Dinheiro continua a mola do mundo. Há pouco, em 2008, quase trouxe outra grande depressão, como a de 1929. O mundo ainda não se recuperou. Continuamos pagando a conta do desmando e da ganância alheia. Lá fora e também aqui dentro do país, onde, além da situação econômica internacional adversa, temos um problema crônico: em muitos órgãos públicos, apesar de todas as prisões já feitas, a viúva, coitada, segue sendo saqueada. A corrupção, para muitos homens públicos, é a grande escada para a escalada social.
Luís Giffoni

O Grande Gatsby trata desses personagens do alpinismo social levado às últimas consequências. Jay Gatz, que se transformaria no grande Gatsby, é um rapaz pobre apaixonado por Daisy, moça rica. A fim de conquistar a amada, Gatsby trata de se enriquecer por meios ilícitos. Depois de ajuntar muito dinheiro, para ostentar posses e atrair Daisy, Gatsby promove festas extravagantes, nas quais esbanja fortunas. Quase conquista Daisy. Fitzgerald atrapalha o amor, provocando um morticínio digno dos grandes folhetins.
O romance foi considerado um dos melhores da literatura norte-americana do século 20, com o que não concordo, mas sem dúvida merece ser lido. Não apenas pelo mérito literário, também pelo retrato de uma época de prosperidade que parecia eterna e acabou em tragédia, a Grande Depressão, tragédia que também atingiu a vida particular do escritor Scott Fitzgerald, morto prematuramente aos quarenta e quatro anos. Morreu pobre como nasceu.
Grandes festas, grandes arroubos, grandes roubos, grandes Gatsby. A história se repete no Brasil de hoje. Dinheiro continua a mola do mundo. Há pouco, em 2008, quase trouxe outra grande depressão, como a de 1929. O mundo ainda não se recuperou. Continuamos pagando a conta do desmando e da ganância alheia. Lá fora e também aqui dentro do país, onde, além da situação econômica internacional adversa, temos um problema crônico: em muitos órgãos públicos, apesar de todas as prisões já feitas, a viúva, coitada, segue sendo saqueada. A corrupção, para muitos homens públicos, é a grande escada para a escalada social.
Luís Giffoni
A peste
E a peste cada um a traz consigo, porque ninguém, sim, ninguém no mundo, está imune. E é necessário vigiarmo-nos constantemente para não sermos levados num minuto de distração a respirar na cara de alguém e a pegar-lhe a infeção. O que é natural é o micróbio. O resto, a saúde, a integridade, a pureza, se preferirem, é um efeito da vontade, e de uma vontade que nunca deve deixar de exercer-se. O homem honesto, o que não infecta ninguém, é aquele que se distrai o menos possível.Sim, é frequente ser-se um patife. Mas é ainda mais fatigante não querer ser um patife. É por isso que toda a gente está fatigada porque toda a gente o é um pouco. Mas é por isso também que alguns conhecem tão fundo cansaço que só a morte os poderá libertar dele.Albert Camus
domingo, 24 de janeiro de 2016
A força da lei do mais forte
Há alguns dias, uma imensa pedra se desprendeu e rolou morro abaixo sobre uma comunidade em Vitória. Por sorte, não acertou ninguém, e não se perderam vidas, mas destruiu tudo o que estava em seu caminho. Além disso, abalou o equilíbrio que mantinha no lugar um conjunto de blocos de granito. Outras pedras de várias toneladas podem rolar a qualquer momento. A Defesa Civil — que já havia alertado os moradores sobre os riscos do lugar onde estavam se estabelecendo — evacuou a área e tomou providencias para que as famílias deslocadas se abrigassem em espaços provisórios enquanto durem as obras de contenção.
A partir daí, repete-se o quadro que vemos por todo o país diante de catástrofes semelhantes — sejam elas deslizamentos, enchentes ou de qualquer outra natureza. Alguns moradores têm de ser retirados quase à força e, na primeira oportunidade, voltam aos locais de onde foram obrigados a sair. Mesmo correndo grandes riscos, muitas vezes não conseguem seu objetivo: defender o que é seu, tudo o que têm na vida.
Não podem contar com um policiamento eficiente para proteger os parcos bens, adquiridos com tanta dificuldade. Os ladrões são mais rápidos. Em poucas horas, saqueadores já arrombaram e depenaram as casas, levando roupas, móveis, eletrodomésticos. O tão celebrado homem cordial brasileiro mais uma vez revela sua compaixão zero. E nisso não é diferente dos saqueadores que fizeram algo parecido em Nova Orleans após a passagem do furacão Katrina.
A partir daí, repete-se o quadro que vemos por todo o país diante de catástrofes semelhantes — sejam elas deslizamentos, enchentes ou de qualquer outra natureza. Alguns moradores têm de ser retirados quase à força e, na primeira oportunidade, voltam aos locais de onde foram obrigados a sair. Mesmo correndo grandes riscos, muitas vezes não conseguem seu objetivo: defender o que é seu, tudo o que têm na vida.

Analistas falam em refreamento da solidariedade e da empatia. Ou acirramento da competição e da hostilidade. Em terras tupiniquins, somada à mais absoluta certeza de impunidade. Até mesmo com as desculpas cínicas desse personagem bem nosso, o ladrão coitadinho, que também é carente de tudo e precisa pensar no amanhã de sua família, ou acha que nesse caso não haveria lei proibindo, já que eram bens abandonados, largados, deixados para trás, sem dono.
Em outra escala, algo disso se repete nos desvios de merenda escolar ou de doações para vítimas de enchentes, e no que agora ocorreu após o rompimento da barragem em Mariana. Chega a ser inacreditável. Antes de mais nada, roubar máquinas que trabalhavam para começar a minorar os efeitos de uma tragédia dessa dimensão é falta de compaixão e de responsabilidade cívica em grau extremo, indigna da espécie humana. Qualquer bando de cachorros vadios tem mais sentido de coletividade.
Então uma quadrilha consegue roubar do canteiro de obras as retroescavadeiras e demais máquinas que lá estavam, sendo utilizadas para começar a recuperar o terreno destruído e recoberto da lama de dejetos? Tantas assim? Tão grandes? Tão lentas? Sem deixar pistas? Ninguém se deu conta? Foram abduzidas pelo ET de Varginha, que anda atacando novamente? Não dá para imaginá-las sendo removidas de balão ou helicóptero, sem serem detectadas pela Polícia Rodoviária. Ou, como nas histórias em quadrinhos, de super-heróis e supervilões, sendo borrifadas de tinta invisível ou sofrendo os efeitos de um raio desintegrador que só iria reintegrá-las muito longe, talvez no Planeta Mongo. A não ser que estejam em algum esconderijo subterrâneo, junto com as vigas de concreto roubadas da Avenida Perimetral, nas barbas de todo mundo, e jamais localizadas.
Como ninguém percebeu algo dessa dimensão? Dá para acreditar nessa história mal contada? A ousadia de uma ação dessas só se explica se houver a certeza absoluta da impunidade. Da mesma forma que esses desvios de milhões do dinheiro publico, de que o país não para de tomar conhecimento. Tudo amparado na convicção de que a lei não é para valer, sempre pode ser burlada — experiência que se repete na vida do cidadão. Ou se repetia, o que só confirma a importância da Lava-Jato e do julgamento do mensalão.
Mas as leis físicas se impõem — nas barragens que se rompem, nas encostas que deslizam com as chuvas, nos rios assoreados que inundam cidades impermeabilizadas onde suas águas não encontram a porosidade da terra. Ou na poluição do ar pelos combustíveis fósseis ou pelo pó de minério ao longo das ferrovias de mineradoras. Ou no esgoto que emporcalha as praias brasileiras, de Santa Catarina ao Maranhão, passando pela triste Baía de Guanabara. Também as leis da economia, em sua inexorável matemática, estão mostrando no que dá gastar mais do que se ganha ou fingir que se cresce sem produzir mais.
Só que essas leis físicas ou matemáticas não cedem a argumentos, slogans ou chicanas, nem estão sujeitas a serem compradas por quem dá mais — como os depoimentos e investigações da Lava-Jato estão revelando que acontece com emendas enxertadas em medidas provisórias, às escondidas, mediante propina a políticos, uma das mais repugnantes práticas de corrupção jamais inventadas. A confirmar, para nossa desgraça, que estamos sob o domínio da Lei da Selva. Resta à população aguentar a consequência e lembrar disso na hora do voto. Se não estiver anestesiada.
Ana Maria Machado
Em outra escala, algo disso se repete nos desvios de merenda escolar ou de doações para vítimas de enchentes, e no que agora ocorreu após o rompimento da barragem em Mariana. Chega a ser inacreditável. Antes de mais nada, roubar máquinas que trabalhavam para começar a minorar os efeitos de uma tragédia dessa dimensão é falta de compaixão e de responsabilidade cívica em grau extremo, indigna da espécie humana. Qualquer bando de cachorros vadios tem mais sentido de coletividade.
Então uma quadrilha consegue roubar do canteiro de obras as retroescavadeiras e demais máquinas que lá estavam, sendo utilizadas para começar a recuperar o terreno destruído e recoberto da lama de dejetos? Tantas assim? Tão grandes? Tão lentas? Sem deixar pistas? Ninguém se deu conta? Foram abduzidas pelo ET de Varginha, que anda atacando novamente? Não dá para imaginá-las sendo removidas de balão ou helicóptero, sem serem detectadas pela Polícia Rodoviária. Ou, como nas histórias em quadrinhos, de super-heróis e supervilões, sendo borrifadas de tinta invisível ou sofrendo os efeitos de um raio desintegrador que só iria reintegrá-las muito longe, talvez no Planeta Mongo. A não ser que estejam em algum esconderijo subterrâneo, junto com as vigas de concreto roubadas da Avenida Perimetral, nas barbas de todo mundo, e jamais localizadas.
Como ninguém percebeu algo dessa dimensão? Dá para acreditar nessa história mal contada? A ousadia de uma ação dessas só se explica se houver a certeza absoluta da impunidade. Da mesma forma que esses desvios de milhões do dinheiro publico, de que o país não para de tomar conhecimento. Tudo amparado na convicção de que a lei não é para valer, sempre pode ser burlada — experiência que se repete na vida do cidadão. Ou se repetia, o que só confirma a importância da Lava-Jato e do julgamento do mensalão.
Mas as leis físicas se impõem — nas barragens que se rompem, nas encostas que deslizam com as chuvas, nos rios assoreados que inundam cidades impermeabilizadas onde suas águas não encontram a porosidade da terra. Ou na poluição do ar pelos combustíveis fósseis ou pelo pó de minério ao longo das ferrovias de mineradoras. Ou no esgoto que emporcalha as praias brasileiras, de Santa Catarina ao Maranhão, passando pela triste Baía de Guanabara. Também as leis da economia, em sua inexorável matemática, estão mostrando no que dá gastar mais do que se ganha ou fingir que se cresce sem produzir mais.
Só que essas leis físicas ou matemáticas não cedem a argumentos, slogans ou chicanas, nem estão sujeitas a serem compradas por quem dá mais — como os depoimentos e investigações da Lava-Jato estão revelando que acontece com emendas enxertadas em medidas provisórias, às escondidas, mediante propina a políticos, uma das mais repugnantes práticas de corrupção jamais inventadas. A confirmar, para nossa desgraça, que estamos sob o domínio da Lei da Selva. Resta à população aguentar a consequência e lembrar disso na hora do voto. Se não estiver anestesiada.
Ana Maria Machado
O deserto de nossas desesperanças
O país parece sem bússola. Navega ao léu. O povo começa a demonstrar receio com o que ainda está por vir. Por onde se anda, eis o tom da conversa: o fundo do poço é mais adiante. O medo ultrapassa os limites das tensões circunstanciais. A onda de desemprego cresce. O biênio 2015/2016 sinaliza mais de 2,5 milhões de trabalhadores perdendo seus postos de trabalho. Há 10 milhões de desempregados angustiados. A violência continua a fazer destroços nos centros e nos bairros periféricos, colocando as pessoas frente a um dos mais terríveis pesadelos: a possibilidade de desaparecer imediatamente, antecipando os dias de uma vida possivelmente povoada de sonhos, esperanças e a fé de que o amanhã será melhor.
Poucos se sentem seguros, como a velhinha de 86 anos que mandou fazer para sua casa um portão de ferro com oito cadeados ou o executivo de uma multinacional, de carro blindado e quatro seguranças particulares. Traumas cercam a população. Expande-se o fosso entre a esfera política e o cidadão. Políticos de todos os naipes entram no mapa da execração pública. A descrença na capacidade do Estado em assegurar a harmonia e prover os cidadãos de seus direitos básicos – saúde, alimentação, moradia, educação - transforma-os em seres desmotivados.
Nas ruas, o sentimento é de descrença. De maneira lenta e gradual, a Nação vai perdendo densidade cívica, enquanto a barbárie se expande. O Estado, que faz a provisão das coisas materiais, se distancia da Nação, aqui entendida como a Pátria espiritual, a matriz dos valores, a guardiã dos símbolos e das tradições, o berço dos sentimentos. Erva daninha brota no nosso chão, contaminando até o aparato da Justiça. Que coisa triste é constatar que os cidadãos já não têm tanto orgulho da terra em que nasceram, cresceram, constituíram família e derramaram gotas de suor. Sobra desânimo ao se perceber que a vontade coletiva amortece, quando princípios são corrompidos, quando o verbo, tão honrado por nossos antepassados, perde a expressão da verdade. Outrora, a palavra dada tinha força de contrato.
No horizonte da desilusão, emergem a pouca fé, a frágil disposição de pessoas para engajamento em causas nobres, a sensação de que a vida já não incentiva aqueles sopros de esperança que fazíamos questão de mostrar aos amigos nos reencontros. Nem a força telúrica que liga uns e outros ao torrão natal tem a mesma intensidade. Quem não lembra o retorno periódico das pessoas ao lugar de origem para reencontrar nas histórias da infância e adolescência a alegria dos tempos de ontem? O bucolismo deixa as esquinas do passado para ceder espaço ao barulho infernal da vida moderna.
Como ratos amedrontados, cada qual procura se abrigar da melhor maneira possível. A luta pela sobrevivência se torna feroz, competitiva. A chamada quarta onda – simbolizada por novas áreas, como a nanotecnologia, a robótica, a impressão 3D, as células tronco, as redes sociais – nos deixa plugados nas nessas maquininhas de ouvir e falar, transmitir dados e músicas. As cenas são hilárias: em torno de uma mesa de bar, 10 amigas e amigos se confraternizam, e cada qual, após a liturgia dos beijinhos, começa a usar o aparelho fonador para.....se comunicar com a turma distante. Se a reunião do grupo era para “por a conversa em dia”, acaba sendo um exercício de jogar a conversa fora.
No campo da política e da administração pública, o ar está purulento. Os tumores e suas metástases, sob nomes de mensalão, petrolão e quetais, escancaram corrupção desbragada envolvendo burocratas, políticos e círculos de negócios. A descoberta, a apuração e a exposição da roubalheira nas malhas do poder público comprometem a confiança popular na instituição política e no comando do Estado. O lamaçal se espraia. O processo eleitoral deste ano, voltado para escolher os atores que atuam na base do edifício político – 5.568 prefeitos e 56 mil vereadores - será influenciado por um espírito geral de descrença. Teremos a “eleição da raiva”, com a arma da indignação atirando para todos os lados.
Será mesmo uma campanha do “contra” ou, ao final, teremos mais uma vez uma eleição de caciques? Vai depender do humor das ruas. Que, por sua vez, será influenciado pelo estado da economia. Se o bolso do eleitor, em outubro, estiver vazio, dará empuxo à coisas disparatadas. Não se descarta a possibilidade de eleição de perfis à moda Brancaleone, figuras capazes de pegar um uma espingarda ou mesmo uma bengala (para dizer que não interessa a arma, se não o gesto, o sinal), candidatos que agirão em nome da mobilização do “povo de Deus”. Aventureiros se postarão diante do eleitor, expressando slogans contra a inação de antecessores e a inércia das municipalidades.
Será desse modo uma eleição na encruzilhada do país. De um lado, a opção por um caminho diferente, livre de entulhos; de outro, a larga avenida da politicagem sob a égide dos donos do poder. Os sinais apontam para o esgotamento de um ciclo, eis que o copo das mazelas transborda. O engodo, as maquinações, as máfias das máquinas administrativas, as promessas mirabolantes continuarão a receber endosso do eleitor ou a trombeta da Operação Lava Jato dará o tom maior?
Não tenhamos ilusões. O país não mudará sua cultura política por decreto e pelo impulso de uma única eleição. O que se pode dizer é que 2016 é um ano propício para abrigar a hipótese: crise é sinônimo de oportunidade. Afinal, do fundo escuro do poço é possível se enxergar o azul do céu. Do meio de uma coleção de crises – econômica, política, de gestão, moral -, vislumbra-se a chama de um novo tempo. Há razões para acreditar. Os potenciais do país, mesmo destroçados por visões erráticas e dirigentes despreparados, segurarão os pilares do amanhã. O deserto das desesperanças nacionais voltará a ser fértil com as energias de novos dirigentes, adubo necessário para fertilizar nossa democracia pela base do edifício político. Mais uma utopia? É possível. Pior é acreditar que o Brasil nunca terá jeito.
Nas ruas, o sentimento é de descrença. De maneira lenta e gradual, a Nação vai perdendo densidade cívica, enquanto a barbárie se expande. O Estado, que faz a provisão das coisas materiais, se distancia da Nação, aqui entendida como a Pátria espiritual, a matriz dos valores, a guardiã dos símbolos e das tradições, o berço dos sentimentos. Erva daninha brota no nosso chão, contaminando até o aparato da Justiça. Que coisa triste é constatar que os cidadãos já não têm tanto orgulho da terra em que nasceram, cresceram, constituíram família e derramaram gotas de suor. Sobra desânimo ao se perceber que a vontade coletiva amortece, quando princípios são corrompidos, quando o verbo, tão honrado por nossos antepassados, perde a expressão da verdade. Outrora, a palavra dada tinha força de contrato.
No horizonte da desilusão, emergem a pouca fé, a frágil disposição de pessoas para engajamento em causas nobres, a sensação de que a vida já não incentiva aqueles sopros de esperança que fazíamos questão de mostrar aos amigos nos reencontros. Nem a força telúrica que liga uns e outros ao torrão natal tem a mesma intensidade. Quem não lembra o retorno periódico das pessoas ao lugar de origem para reencontrar nas histórias da infância e adolescência a alegria dos tempos de ontem? O bucolismo deixa as esquinas do passado para ceder espaço ao barulho infernal da vida moderna.
Como ratos amedrontados, cada qual procura se abrigar da melhor maneira possível. A luta pela sobrevivência se torna feroz, competitiva. A chamada quarta onda – simbolizada por novas áreas, como a nanotecnologia, a robótica, a impressão 3D, as células tronco, as redes sociais – nos deixa plugados nas nessas maquininhas de ouvir e falar, transmitir dados e músicas. As cenas são hilárias: em torno de uma mesa de bar, 10 amigas e amigos se confraternizam, e cada qual, após a liturgia dos beijinhos, começa a usar o aparelho fonador para.....se comunicar com a turma distante. Se a reunião do grupo era para “por a conversa em dia”, acaba sendo um exercício de jogar a conversa fora.
No campo da política e da administração pública, o ar está purulento. Os tumores e suas metástases, sob nomes de mensalão, petrolão e quetais, escancaram corrupção desbragada envolvendo burocratas, políticos e círculos de negócios. A descoberta, a apuração e a exposição da roubalheira nas malhas do poder público comprometem a confiança popular na instituição política e no comando do Estado. O lamaçal se espraia. O processo eleitoral deste ano, voltado para escolher os atores que atuam na base do edifício político – 5.568 prefeitos e 56 mil vereadores - será influenciado por um espírito geral de descrença. Teremos a “eleição da raiva”, com a arma da indignação atirando para todos os lados.
Será mesmo uma campanha do “contra” ou, ao final, teremos mais uma vez uma eleição de caciques? Vai depender do humor das ruas. Que, por sua vez, será influenciado pelo estado da economia. Se o bolso do eleitor, em outubro, estiver vazio, dará empuxo à coisas disparatadas. Não se descarta a possibilidade de eleição de perfis à moda Brancaleone, figuras capazes de pegar um uma espingarda ou mesmo uma bengala (para dizer que não interessa a arma, se não o gesto, o sinal), candidatos que agirão em nome da mobilização do “povo de Deus”. Aventureiros se postarão diante do eleitor, expressando slogans contra a inação de antecessores e a inércia das municipalidades.
Será desse modo uma eleição na encruzilhada do país. De um lado, a opção por um caminho diferente, livre de entulhos; de outro, a larga avenida da politicagem sob a égide dos donos do poder. Os sinais apontam para o esgotamento de um ciclo, eis que o copo das mazelas transborda. O engodo, as maquinações, as máfias das máquinas administrativas, as promessas mirabolantes continuarão a receber endosso do eleitor ou a trombeta da Operação Lava Jato dará o tom maior?
Não tenhamos ilusões. O país não mudará sua cultura política por decreto e pelo impulso de uma única eleição. O que se pode dizer é que 2016 é um ano propício para abrigar a hipótese: crise é sinônimo de oportunidade. Afinal, do fundo escuro do poço é possível se enxergar o azul do céu. Do meio de uma coleção de crises – econômica, política, de gestão, moral -, vislumbra-se a chama de um novo tempo. Há razões para acreditar. Os potenciais do país, mesmo destroçados por visões erráticas e dirigentes despreparados, segurarão os pilares do amanhã. O deserto das desesperanças nacionais voltará a ser fértil com as energias de novos dirigentes, adubo necessário para fertilizar nossa democracia pela base do edifício político. Mais uma utopia? É possível. Pior é acreditar que o Brasil nunca terá jeito.
Lula e Dilma na bacia das almas
"Não tem, neste país, uma viva alma mais honesta do que eu”, disse Lula. Não tem. “Nem dentro da Polícia Federal, do Ministério Público, nem da igreja evangélica e do sindicato.” Nem você, leitor, nem a Dilma, muito menos o José Dirceu, agora acusado de gastar em um mês, como “consultor”, até R$ 1 milhão, provenientes de propina de contratos da Petrobras.
Ninguém é mais honesto que Lula. Você acredita nisso? “Pode ter igual, mas eu duvido”, afirmou o ex-presidente. Isso é motivo de orgulho para Lula. Natural. O ex-tesoureiro do PT Vaccari Neto não é mais honesto que Lula. O ex-líder do governo no Senado Delcídio do Amaral também não. Estão presos. Lula pede nossa solidariedade a Dirceu e Vaccari. “Não é porque um companheiro da gente cometeu um erro que temos de execrar ele.” Lula ignora o ainda senador petista Delcídio, que promete vingança nos próximos capítulos.
O problema é que as frases de efeito de Lula, antes espirituosas e aplaudidas, perderam valor. O valor da credibilidade. O valor da simpatia. Uma declaração presunçosa como essa não consegue repercussão positiva nem em seu PT nem nas bases sindicais. Lula e Dilma sofreram um tombo maior que o das ações da Petrobras, ao ficar clara para a sociedade a teia de mentiras – éticas, morais, econômicas, financeiras, sociais – usada para enredar o eleitor e jogar o país numa crise que o povo não merecia.
Lula afirmou que passará a processar jornalistas “para ver se retomamos a dignidade profissional da categoria”. Bobagem, Lula, concentre-se no essencial. Retome a dignidade do Planalto. Ajude Dilma a retomar a popularidade perdida. Retome a confiança da população, que perdeu no ano passado 1,5 milhão de empregos formais e que hoje pena nas filas do seguro-desemprego com a greve do INSS. Retome a admiração do PT, que decidiu não incluir o senhor e Dilma nos comerciais do partido para evitar panelaços.
A desculpa oficial é que o PT quer priorizar a defesa da imagem da sigla. Quando foi mesmo que Lula e Dilma passaram a ser um incômodo ou um constrangimento para a imagem do Partido dos Trabalhadores? Isso só pode ser fofoca de jornalistas. A cúpula do PT manterá ou não essa posição? Certamente, no fim, a dupla Lula e Dilma aparecerá nas “inserções comerciais” do PT nos dias 2, 4, 6, 9 e 11 de fevereiro. Ou não?
É fácil explicar o conflito. O que o PT quer, o Planalto não pretende dar. O PT quer correção da tabela do Imposto de Renda neste ano. Pelos cálculos do sindicato de auditores, chegam a 72,2% as perdas na tabela do IR entre 1996 e 2015. A correção ajudaria a minimizar os efeitos da inflação (prevista neste ano para mais de 10%) sobre a renda dos brasileiros. A intenção do governo é não corrigir.
“Nosso objetivo é o de não permitir que ninguém neste país destrua o projeto de inclusão social que começamos a fazer em 1º de janeiro de 2003, é isso que incomoda”, afirmou Lula na mesma entrevista em que posou de vítima na terceira pessoa: “Nas delações, o grande prêmio é falar o nome do Lula”.
Ora, quem tem destruído as chances reais de inclusão social nos últimos anos é o governo Dilma, que aumentou e muito os gastos públicos, inchou o Estado e hoje é cobrado pela irresponsabilidade fiscal. Por mais que Lula e Dilma busquem bodes expiatórios fora e dentro do país, a dupla sabe muito bem que as bolsas e os subsídios tinham um efeito a curto prazo.
A “mágica” da inclusão por meio do consumo virou abóbora de fim de feira, sem os investimentos necessários e a longo prazo em Educação e Saúde. Quebrado, o governo apela para a fórmula mais velha e injusta do mundo: aumento de impostos, num país que já se esfalfa para pagar tributos vários.
Ouvir o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, chamar a CPMF de “poupança necessária” explica panelaços. Ouvir Dilma dizer que a CPMF é um imposto do bem “porque ele é dissolvido” explica vaias. Ouvir Lula dizer que, “com 8% (de inflação) ao ano, dá até para guardar dinheiro embaixo do colchão” explica seu descolamento do drama dos descamisados. O único argumento de Lula para defender o PT das acusações de roubo é que não foi o único a roubar: “Tentar passar a ideia de que propina só (ocorreu com) o PT? É como se o PT fosse imbecil”.
Ninguém gosta mesmo de passar por imbecil. Talvez por isso Lula e Dilma estejam “na bacia das almas”. A expressão foi criada em tempos medievais. Era o recurso final dos que não tinham mais recursos. Numa definição anônima que consta no Dicionário Informal, a bacia das almas é o “último momento, última oportunidade oferecida como piedade, quando outras oportunidades foram esquecidas anteriormente”.
Que se aproveite a última chance com seriedade e trabalho, e não com empáfia e propaganda.
2 em 20
Juscelino Kubistchek assumiu Presidência anunciando que seus cinco anos de mandato valeriam por 50 de progresso. Ninguém se atreveu até hoje a contestar os “50 em 5”.
O Brasil deixou a “colônia” para se erguer à nação com aspirações soberanas. Enveredou pela industrialização e pela infraestrutura. Passou de “exótico” para uma pretensão de “ocidental”.
JK implantou a nova capital no seu centro geográfico, deu-se a fomentar o progresso pelo desenvolvimento econômico. Criou as premissas e as bases que permitiram passar por 20 anos de turbulências sem afundar.
Não só de café o Brasil passou a viver. Saudades de JK neste momento de fechamento do exercício de 2015 e de previsões para 2016.
Acabou-se um ano terrível, jogado fora. Um ministro com todos os poderes empunhou a faca pela lâmina e tentou cortar o queijo com o cabo. Um ministro que, para ser explicado, precisa chamar a preguiça, o bicho que, faça chuva ou faça sol, de dia ou de noite, segue com lerdeza, refratário ao clima e até à proximidade do risco que agita os demais.
No ano que precisava de dinamismo, competência, disposição na gestão dos desafios, a presidente Dilma confiou em (e insistiu em dar confiança a) um medíocre “emprestado do Bradesco”.
Resultado: 3,5% de queda do PIB, 5,6% de queda da arrecadação, 1,5 milhão de trabalhadores que se transformaram em desempregados, contas públicas detonadas.
Difícil será ter saudade dele. Ele voltou ao Bradesco, que em 2015 teve o maior lucro de sua história, com a missão cumprida. A conta ficou com a nação, que trabalha e contribui.
Apesar de Dilma, na sexta, ter ficado “estarrecida com o FMI” – cuja avaliação segue em gênero e grau a maré mundial –, o Brasil se aprofundou num descrédito sem precedentes. A persistência da presidente, contumaz em errar nas escolhas, colocou o Brasil na berlinda.
Na terça-feira (19.1) o Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, em Davos, com o mundo voltado ao Fórum de Economia, deu seu parecer cáustico:
– A política monetária brasileira (taxa de juros) estrangula a economia. Não tem como crescer praticando uma das mais altas taxas de juros do planeta (ainda bonzinho poupou a carga tributária e a burocracia);
– O modelo que pretende combater a inflação pela elevação dos juros (adotado pelo BC brasileiro) está desacreditado no mundo inteiro (menos que no Brasil de Levy e Tombini);
– Aumentar os juros serve no caso em que a inflação decorre de excesso de demanda. Caso contrário, a alta dos juros mata a economia (no Brasil agoniza);
– No Brasil dois problemas se destacam: o colapso do preço das exportações e o escândalo de corrupção. E a política monetária deveria se contrapor a esses fatores. Porém, a política de juros estratosféricos está agravando esses problemas.
A autópsia do Brasil está aí. Quer dizer que vivemos à mercê de economistas idiotas emprestados pelos banqueiros? Infelizmente, apenas um Nobel fez com que o BC tremesse.
Os bancos secularmente fabricam crises, endividam os setores produtivos, o cidadão e, como usurários da Idade Média, subjugam o sistema agravando crises até a ruptura do sistema. Uma história que se repete.
Os portentosos lucros de 2015 dos bancos brasileiros permitirão aos fartos banqueiros cobrar por 30 anos mais rolagens de dívidas e comprar ativos a preço vil, de arremate. Só em 2015 o governo pagou R$ 500 bilhões de juros (10% do PIB nacional) ao sistema financeiro. Equivale a cerca de dez vezes o que a União gastou com saúde.
O Nobel Stiglitz ainda alertou: “O desemprego, mais que a inflação, é a verdadeira causa da instabilidade social (e da queda de governos). Portanto, os países têm que colocar a geração de emprego e renda como o centro da política econômica (no Brasil o centro é banqueiro, não o emprego). E os Bancos Centrais têm também que trabalhar nessa direção”.
As teclas da política de Levy (com aplausos dos economistas nacionais e incensada pela imprensa especializada) tocaram por 12 meses, e, no limite da irresponsabilidade, ele formulou uma proposta de aumentar em 150% as contribuições das empresas. Uma condenação à morte de emprego, ainda, reeditar a CPMF, um imposto regressivo que encarece a cesta básica e acaba com o que resta da competitividade do produto nacional, ou seja, mais desemprego. De reflexo, Levy possibilitou com os “juros mais altos do mundo” que bancos tivessem ganhos absurdos.
No Brasil, rifado pelos banqueiros e pelos corruptos, não se valoriza a qualidade dos impostos. Arrecadar admite qualquer meio, por mais regressivo e destrutivo que seja.
As palavras do Nobel da Economia acertaram no peito o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini (digno parceiro de Levy em 2015), que “estrangulou a economia brasileira”. Sem carapuça, Tombini, na quarta-feira (20.1), se desmentiu depois dos reiterados lances de um aumento de 0,50% da Selic. O Copom, um coreto que ele dirige, manteve o insano nível de 14,25% da Selic, que de outra forma teria aumentado.
O fracasso brasileiro está na clareza meridiana das palavras de um Nobel, que não vive de prebendas de banqueiros do Brasil. Em 2015, o Brasil foi ferido, martirizado, sem necessidade alguma. E o pior está por vir com mais 2 milhões de desempregados previstos para 2016. Um nível de colapso e falência social.
A produção industrial no Brasil despencou em 9,5% (em Minas 12%), e a nova queda esperada do PIB é 3,6%. Para as indústrias, o fantasma da falência e volumes de queda no nível da década de 90.
Dos “50 anos de progresso em 5” de JK, vem aí que, em 2 anos, estaremos com 20 de retrocesso. Isso, sim, arrebenta um governo.
O Brasil deixou a “colônia” para se erguer à nação com aspirações soberanas. Enveredou pela industrialização e pela infraestrutura. Passou de “exótico” para uma pretensão de “ocidental”.
JK implantou a nova capital no seu centro geográfico, deu-se a fomentar o progresso pelo desenvolvimento econômico. Criou as premissas e as bases que permitiram passar por 20 anos de turbulências sem afundar.
Não só de café o Brasil passou a viver. Saudades de JK neste momento de fechamento do exercício de 2015 e de previsões para 2016.
Acabou-se um ano terrível, jogado fora. Um ministro com todos os poderes empunhou a faca pela lâmina e tentou cortar o queijo com o cabo. Um ministro que, para ser explicado, precisa chamar a preguiça, o bicho que, faça chuva ou faça sol, de dia ou de noite, segue com lerdeza, refratário ao clima e até à proximidade do risco que agita os demais.
No ano que precisava de dinamismo, competência, disposição na gestão dos desafios, a presidente Dilma confiou em (e insistiu em dar confiança a) um medíocre “emprestado do Bradesco”.
Resultado: 3,5% de queda do PIB, 5,6% de queda da arrecadação, 1,5 milhão de trabalhadores que se transformaram em desempregados, contas públicas detonadas.
Difícil será ter saudade dele. Ele voltou ao Bradesco, que em 2015 teve o maior lucro de sua história, com a missão cumprida. A conta ficou com a nação, que trabalha e contribui.
Apesar de Dilma, na sexta, ter ficado “estarrecida com o FMI” – cuja avaliação segue em gênero e grau a maré mundial –, o Brasil se aprofundou num descrédito sem precedentes. A persistência da presidente, contumaz em errar nas escolhas, colocou o Brasil na berlinda.
Na terça-feira (19.1) o Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, em Davos, com o mundo voltado ao Fórum de Economia, deu seu parecer cáustico:
– A política monetária brasileira (taxa de juros) estrangula a economia. Não tem como crescer praticando uma das mais altas taxas de juros do planeta (ainda bonzinho poupou a carga tributária e a burocracia);
– O modelo que pretende combater a inflação pela elevação dos juros (adotado pelo BC brasileiro) está desacreditado no mundo inteiro (menos que no Brasil de Levy e Tombini);
– Aumentar os juros serve no caso em que a inflação decorre de excesso de demanda. Caso contrário, a alta dos juros mata a economia (no Brasil agoniza);
– No Brasil dois problemas se destacam: o colapso do preço das exportações e o escândalo de corrupção. E a política monetária deveria se contrapor a esses fatores. Porém, a política de juros estratosféricos está agravando esses problemas.
A autópsia do Brasil está aí. Quer dizer que vivemos à mercê de economistas idiotas emprestados pelos banqueiros? Infelizmente, apenas um Nobel fez com que o BC tremesse.
Os bancos secularmente fabricam crises, endividam os setores produtivos, o cidadão e, como usurários da Idade Média, subjugam o sistema agravando crises até a ruptura do sistema. Uma história que se repete.
Os portentosos lucros de 2015 dos bancos brasileiros permitirão aos fartos banqueiros cobrar por 30 anos mais rolagens de dívidas e comprar ativos a preço vil, de arremate. Só em 2015 o governo pagou R$ 500 bilhões de juros (10% do PIB nacional) ao sistema financeiro. Equivale a cerca de dez vezes o que a União gastou com saúde.
O Nobel Stiglitz ainda alertou: “O desemprego, mais que a inflação, é a verdadeira causa da instabilidade social (e da queda de governos). Portanto, os países têm que colocar a geração de emprego e renda como o centro da política econômica (no Brasil o centro é banqueiro, não o emprego). E os Bancos Centrais têm também que trabalhar nessa direção”.
As teclas da política de Levy (com aplausos dos economistas nacionais e incensada pela imprensa especializada) tocaram por 12 meses, e, no limite da irresponsabilidade, ele formulou uma proposta de aumentar em 150% as contribuições das empresas. Uma condenação à morte de emprego, ainda, reeditar a CPMF, um imposto regressivo que encarece a cesta básica e acaba com o que resta da competitividade do produto nacional, ou seja, mais desemprego. De reflexo, Levy possibilitou com os “juros mais altos do mundo” que bancos tivessem ganhos absurdos.
No Brasil, rifado pelos banqueiros e pelos corruptos, não se valoriza a qualidade dos impostos. Arrecadar admite qualquer meio, por mais regressivo e destrutivo que seja.
As palavras do Nobel da Economia acertaram no peito o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini (digno parceiro de Levy em 2015), que “estrangulou a economia brasileira”. Sem carapuça, Tombini, na quarta-feira (20.1), se desmentiu depois dos reiterados lances de um aumento de 0,50% da Selic. O Copom, um coreto que ele dirige, manteve o insano nível de 14,25% da Selic, que de outra forma teria aumentado.
O fracasso brasileiro está na clareza meridiana das palavras de um Nobel, que não vive de prebendas de banqueiros do Brasil. Em 2015, o Brasil foi ferido, martirizado, sem necessidade alguma. E o pior está por vir com mais 2 milhões de desempregados previstos para 2016. Um nível de colapso e falência social.
A produção industrial no Brasil despencou em 9,5% (em Minas 12%), e a nova queda esperada do PIB é 3,6%. Para as indústrias, o fantasma da falência e volumes de queda no nível da década de 90.
Dos “50 anos de progresso em 5” de JK, vem aí que, em 2 anos, estaremos com 20 de retrocesso. Isso, sim, arrebenta um governo.
Justa causa para o caixa 2
Inflação e desemprego crescentes, recessão estarrecedora, roubalheira sem fim. Como se não bastasse o caos econômico, político e ético, 2016 é ano eleitoral, quando, tradicionalmente, tudo se agudiza. Na política e na economia. Época em que, costumeiramente, se gasta algum verbo e muita verba a mais, lícitas e não contabilizadas, termo imortalizado pelo gênio da arrecadação petista, o ex-tesoureiro e mensaleiro condenado Delúbio Soares.
Na campanha deste ano os problemas serão ainda maiores. Não há dinheiro nem financiadores. Empresários escaldados por mensalões e petrolões, que já ficariam ressabiados em apoiar partidos e políticos, estão impedidos de qualquer doação. Pelo menos às claras.
O dinheiro oficial para as campanhas terá de vir de três fontes: público, via fundo partidário, de promoções dos partidos e de pessoas físicas, que não têm tradição de custear campanhas. E não será agora, quando o descrédito nos políticos atinge os píncaros, que elas começarão a fazê-lo.
A fórmula é sopa no mel para os campeões de audiência, gente de mídia, comunicadores, comediantes, pastores, ases do esporte e todo tipo de celebridade que conta com exposição maciça. Até porque é difícil imaginar que alguns jantares, leilões, vendas de camisetas, shows e doações de militantes conseguirão fazer frente aos gastos milionários que as campanhas impõem.
Segundo o TSE, em 2012, últimas eleições municipais, só em São Paulo os candidatos a prefeito e a vereadores consumiram a bagatela de R$ 907 milhões, R$ 726 milhões bancados por doações empresariais. Em todo o país, os 15.100 candidatos a prefeito e os 419.900 a vereador queimaram mais de R$ 4,5 bilhões, 80% deles oriundos de CNPJs, proibidos de vez pelo Supremo e pela sanção da presidente Dilma Rousseff à minirreforma eleitoral, aprovada no Parlamento em 2015.
E de onde então virá o dinheiro? Dos impostos? Do caixa falido da presidente Dilma, que torrou tanto na campanha de sua reeleição que não tem de onde tirar nem mesmo para programas básicos de saúde e educação?
Ainda que o fim do financiamento privado seja defensável, por mais uma vez aprovou-se um dispositivo sem ter o que colocar no lugar.
Ninguém perguntou ao cidadão se ele está disposto a custear campanhas políticas com o dinheiro de seus impostos. Até porque a resposta seria um sonoro e taxativo não.
Agora, o monstro está aí. E ele ruge.
Mostrou o afio das unhas nos R$ 819 milhões fincados no Orçamento da União, quase três vezes mais do que a proposta do governo. E que Dilma sancionou, temendo agredir sua fragilíssima base e, consequentemente, fermentar o impeachment.
Sem forças para encarar um rato, quanto mais uma fera, a presidente despejou dinheiro que o país não tem nos partidos políticos. E, se necessário, derramará mais para eleger os seus.
Somados ao gasto obrigatório do TSE para realizar o pleito, algo que ultrapassa R$ 400 milhões, e ao ressarcimento da União em favor das emissoras de rádio e TV que transmitem o horário eleitoral falsamente dito gratuito - outros R$ 576 milhões -, o aporte de dinheiro público já dobrou a casa dos R$ 2 bilhões. E ainda assim será insuficiente.
Pior. Os que defenderam a mudança do financiamento, seja por razão, convicção, ideologia, credo ou oportunismo, sabem que criaram um monstrengo impossível de ser domado com o palavreado fácil de que a campanha será mais curta e mais barata, que as redes sociais serão definitivas, que o verbo será mais forte que a verba.
Criou-se a justa causa do dinheiro não contabilizado. Algo em que todos são responsáveis. Executivo, Judiciário, Legislativo. Governo e oposição.
Se a lama depositada no fim do túnel pelo PT e aliados prende a besta do lado de cá e bloqueia a entrada de qualquer feixe de luz, não há, entre os opositores, nada que resplandeça. Nem ideias, muito menos saída.
Mary Zaidan
Na campanha deste ano os problemas serão ainda maiores. Não há dinheiro nem financiadores. Empresários escaldados por mensalões e petrolões, que já ficariam ressabiados em apoiar partidos e políticos, estão impedidos de qualquer doação. Pelo menos às claras.
O dinheiro oficial para as campanhas terá de vir de três fontes: público, via fundo partidário, de promoções dos partidos e de pessoas físicas, que não têm tradição de custear campanhas. E não será agora, quando o descrédito nos políticos atinge os píncaros, que elas começarão a fazê-lo.
A fórmula é sopa no mel para os campeões de audiência, gente de mídia, comunicadores, comediantes, pastores, ases do esporte e todo tipo de celebridade que conta com exposição maciça. Até porque é difícil imaginar que alguns jantares, leilões, vendas de camisetas, shows e doações de militantes conseguirão fazer frente aos gastos milionários que as campanhas impõem.
Segundo o TSE, em 2012, últimas eleições municipais, só em São Paulo os candidatos a prefeito e a vereadores consumiram a bagatela de R$ 907 milhões, R$ 726 milhões bancados por doações empresariais. Em todo o país, os 15.100 candidatos a prefeito e os 419.900 a vereador queimaram mais de R$ 4,5 bilhões, 80% deles oriundos de CNPJs, proibidos de vez pelo Supremo e pela sanção da presidente Dilma Rousseff à minirreforma eleitoral, aprovada no Parlamento em 2015.
E de onde então virá o dinheiro? Dos impostos? Do caixa falido da presidente Dilma, que torrou tanto na campanha de sua reeleição que não tem de onde tirar nem mesmo para programas básicos de saúde e educação?
Ainda que o fim do financiamento privado seja defensável, por mais uma vez aprovou-se um dispositivo sem ter o que colocar no lugar.
Ninguém perguntou ao cidadão se ele está disposto a custear campanhas políticas com o dinheiro de seus impostos. Até porque a resposta seria um sonoro e taxativo não.
Agora, o monstro está aí. E ele ruge.
Mostrou o afio das unhas nos R$ 819 milhões fincados no Orçamento da União, quase três vezes mais do que a proposta do governo. E que Dilma sancionou, temendo agredir sua fragilíssima base e, consequentemente, fermentar o impeachment.
Sem forças para encarar um rato, quanto mais uma fera, a presidente despejou dinheiro que o país não tem nos partidos políticos. E, se necessário, derramará mais para eleger os seus.
Somados ao gasto obrigatório do TSE para realizar o pleito, algo que ultrapassa R$ 400 milhões, e ao ressarcimento da União em favor das emissoras de rádio e TV que transmitem o horário eleitoral falsamente dito gratuito - outros R$ 576 milhões -, o aporte de dinheiro público já dobrou a casa dos R$ 2 bilhões. E ainda assim será insuficiente.
Pior. Os que defenderam a mudança do financiamento, seja por razão, convicção, ideologia, credo ou oportunismo, sabem que criaram um monstrengo impossível de ser domado com o palavreado fácil de que a campanha será mais curta e mais barata, que as redes sociais serão definitivas, que o verbo será mais forte que a verba.
Criou-se a justa causa do dinheiro não contabilizado. Algo em que todos são responsáveis. Executivo, Judiciário, Legislativo. Governo e oposição.
Se a lama depositada no fim do túnel pelo PT e aliados prende a besta do lado de cá e bloqueia a entrada de qualquer feixe de luz, não há, entre os opositores, nada que resplandeça. Nem ideias, muito menos saída.
Mary Zaidan
Um tiquinho só de preju
O Brasil perdeu R$ 300 bilhões de renda e de riqueza nos últimos quatro anos em função das “medidas contracíclicas” que não surtiram os efeitos desejados, como nos tem dito a comandante-chefe da economia, a presidente Dilma. Tais perdas, de acordo com as previsões mais recentes do FMI, não haverão de ficar restritas ao ano de 2015
Monica de Bolle
Aparências e fatos
A líder estudantil tecnicamente é de esquerda; seu papel na luta de classes, segundo a boa teoria, seria servir aos deserdados da terra. Mas na prática o que ela faz é servir-se do deserdado da foto como o seu burro de carga. Olhe-se de novo para a cena: poderíamos estar diante de uma gravura de Rugendas, Debret ou Taunay, que retrataram com tanta exatidão o Brasil de 200 anos atrás, com os seus senhores e os seus escravos. Ninguém está dizendo aqui que o “movimento estudantil” é a favor da escravidão, ou coisa parecida, porque obviamente não é isso que acontece. Mas também não dá para fazer de conta que basta pegar um megafone e tirar carteirinha de membro dessa ou daquela organização “social”, “progressista” ou de “esquerda” para emigrar da elite e virar “povo”; não é assim que funciona. Como mostra a foto, certas coisas não mudam, salvo nas aparências. O resto é uma monumental conversa fiada.
“No primeiro dia nós falamos com a… a primeira coisa que nós fizemos foi falar, além de nos preparar no dia anterior, foi falar com a primeira-ministra da Noruega, que estava contribuindo para um fundo, para o nosso fundo de florestas, com 650 000 dólares, aliás, desculpa, com 650 milhões. Fiquei modesta. A Alemanha também tem uma contribuição para o fundo de 100 milhões de dólares ─ no caso da Alemanha é euros, não é? De euros.”
Nem é preciso dizer quem falou isso aí ─ ela mesma, claro, com o facho de escuridão que joga sobre quase tudo o que diz sempre que se dirige ao público sem ler uma folha de papel. No caso, o conjunto de sons transcrito acima foi emitido recentemente em Paris, durante uma dessas viagens espetacularmente inúteis que vive fazendo ao exterior. Mas tanto faz onde foi, ou quando, ou por quê. É a mesma coisa desde que entrou para o governo, especialmente depois que assumiu a Presidência ─ suas falas de improviso, nas quais vai empilhando frases sem pé nem cabeça e empulhando os ouvintes com informações incompreensíveis, num português que seria reprovado em qualquer prova de primeiro grau, tornaram-se a grande grife da sua passagem pelo comando da nação. A presidente Dilma Rousseff não ficará conhecida apenas por falar desse jeito, até porque governa ainda pior do que fala, mas jamais terá uma biografia séria que não registre com alarme a seguinte extravagância: entre os anos 2011 e 2018 (possivelmente) da era cristã o Brasil teve uma presidente da República incapaz de expressar-se no idioma oficial do país, segundo o artigo 13 da Constituição.
É possível que Dilma saiba expressar-se corretamente em português, mas não queira. É possível que queira, mas não saiba. É possível que queira e saiba, mas não consiga. O fato real é que não se expressa ─ e que o patoá utilizado por ela, tão volumoso que já rendeu até livro com a coleção das tiradas mais alucinantes, virou parte inseparável da cena brasileira de hoje. Alguém vai morrer por causa disso? É pouco provável. Mas dá para prever com razoável chance de acerto que os observadores do futuro, ao olharem para o Brasil dos nossos dias, façam a pergunta que se segue: por que os brasileiros de 2016 achavam normal aceitar na Presidência de seu país alguém que apresentava uma patente disfunção nos circuitos que ligam o cérebro às cordas vocais? É aí que o pensamento se transforma em palavra; se alguma coisa errada está acontecendo nessa engrenagem, parece claro que temos um problema, sobretudo quando a engrenagem em questão está na cabeça da presidente da República. Nossos descendentes também poderão estranhar que pouca gente, no Brasil de hoje, parecesse se importar com o cumprimento de uma regra clara: não dá para se expressar mal e pensar bem. Acharão particularmente curioso, enfim, que o mundo político discutisse com paixão o impeachment de Dilma sem jamais tocar na demência dos seus discursos de improviso. (Demência dos discursos, que fique bem claro; só dos discursos, certo?) Debatia-se a sua deposição, basicamente, por ter cometido fraude na contabilidade oficial, ou por ter mentido em excesso, ou ainda por outras razões, ao gosto de cada um. Mas e o sanatório geral de onde saem as coisas que fala ─ tudo bem aí? É complicado. Não está previsto na lei, como se sabe, impeachment de presidente por tratar a população como uma manada de idiotas, para a qual se pode dizer qualquer tipo de disparate. Uma futura Constituição talvez devesse pensar nisso.
Qual seria a reação do ex-presidente Lula, do PT e da esquerda nacional se em janeiro de 2003 alguém dissesse que treze anos depois, e já em seu quarto governo seguido, hospitais e prontos-socorros do Rio de Janeiro fechariam suas portas com tapumes de madeira para impedir a entrada da população? Foram cenas de país africano em tempo de calamidade: às vésperas do Natal, gente desesperada implorando por atendimento de urgência, macas amontoadas em corredores, cirurgias canceladas, médicos e enfermeiros sem remédios, ataduras, luvas, soro, material cirúrgico, anestesia, roupa de cama e, ainda por cima, sem salários. Nem o inimigo mais desesperado do “governo popular” que então fazia sua estreia seria capaz de imaginar um desastre desses na segunda maior cidade do Brasil. E se alguém tivesse imaginado seria logo acusado de sabotador, golpista, fascista, inimigo do povo, inconformado em ver um operário chegar pela primeira vez à Presidência da República neste país, etc. etc. Mas aí está: é exatamente o que acabamos de ver no mundo dos fatos.
Treze anos depois, é nisso que vieram dar as “políticas de saúde pública” de Lula, de Dilma Rousseff e do PT. Segundo já confessaram as próprias autoridades da área, a saúde brasileira está simplesmente em colapso ─ e não só no Rio de Janeiro, que vai organizar, daqui a seis meses, nada menos que uma Olimpíada. Há hospitais federais parcialmente paralisados em São Paulo e outras capitais. O governo vem fracassando, ano após ano, no controle de epidemias da pobreza; em vez de sair, o Brasil se afunda cada vez mais no Terceiro Mundo em matéria de saúde pública. Com todo o tempo que já teve para resolver o problema, não apenas não resolveu nada; também não tem competência, nem energia, para lidar com desgraças novas. Ainda agora, o país se vê diante de um crescente surto de microcefalia, doença típica da miséria e da inépcia dos serviços sanitários. Em suma: o “Estado Forte”, que tanto encanta a presidente e a esquerda brasileira, não tem esparadrapo para um curativo. É óbvio que alguma coisa, ou tudo, deu profundamente errado aí.
Para adicionar insulto à injúria, o governo acha que não tem culpa de nada. No primeiro grande mistério de 2016, diz que a culpada “é a oposição”, que há treze anos não manda sequer numa bica de água no mundo federal. Pior: diz que está sem dinheiro e, sinistramente, alega que a população tem de “escolher” entre pagar mais impostos ou ficar sem assistência médica ─ e, já que estamos no assunto, também sem escola, sem serviços, sem obras, sem emprego. A população brasileira não tem de “escolher” nada. Já pagou, na forma de impostos que lhe consomem 40% de tudo o que ganha, o atendimento hospitalar mais todas as obras que não foram feitas e todos os serviços que não foram prestados. Vai ter de pagar de novo? Dinheiro, como os demais corpos da natureza, não some ─ apenas muda de lugar. No caso, mudou de onde deveria estar para o bolso de empreiteiras de obras, “prestadoras de serviço”, estrelas da Operação Lava Jato, vendedores de “sondas”, empresários-companheiros e outros tantos amigos dos amigos. O que sobrou foi jogado fora pela incompetência.
Eis aí o Brasil das realidades.
J. R. Guzzo
Assinar:
Postagens (Atom)


