terça-feira, 20 de outubro de 2015
Adeus às ilusões
Um grupo de intelectuais e artistas se reuniu em São Paulo para fazer um manifesto contra a possibilidade de impeachment da Dilma. Estão no direito deles, claro. Ninguém sabe se o impeachment será bom ou ruim para o país. Talvez eles tenham razão. Quem sabe? Mas, por trás da luta contra o impeachment, existe uma negação clara da grande crise política que vivemos. As instituições são acusadas de serem usadas pela “direita”, como disse um deles: o TCU é um bando de políticos fracassados.
Outro escreveu há dias que as marchas populares de junho e as deste ano foram uma manifestação de “gente de direita”. Segundo ele, 1 milhão de “direitistas” querem destruir o sagrado ninho da história que é o PT. Outro autografou um livro de presente para o Maduro. Que interstícios percorrem as ideias dentro de suas mentes, para negar tudo que está acontecendo hoje? Não conseguem fazer uma reles autocrítica de suas crenças. Mudar de ideia é considerado traição. É uma visão paranoica de que o país está tomado por “fascistas” que querem tirar o PT do poder. Eu, por exemplo, não sou fascista (dirão meus inimigos: reacionário neoliberal), mas quero ver o lulopetismo fora do poder. Eles estão desmanchando tudo que era sólido em nome de uma fé paralítica. Negam-se a ver que a corrupção virou um sistema político. Não só roubaram bilhões em conluio com aliados ladrões, como também roubaram nossos mais generosos sentimentos. A crise destrói o país e muda nossas mentes e corações. Cada um leva consigo uma forma de melancolia. É a grande neurose nacional do “que fazer?”.
Os petistas têm uma visão de mundo deturpada por conceitos compartimentados e acusatórios: luta de classes, culpados e inocentes, traidores e traídos. Stálin: “A humanidade está dividida entre ricos e pobres, proprietários e explorados. Subestimar esta divisão significa abstrair-se dos fatos fundamentais”. Ou Lênin: “Qualquer cozinheiro devia ser capaz de governar um país”.
Só veem vítimas e carrascos. Preocupam-se mais com as ossadas do Araguaia do que com o futuro de nossa anomalia atual.
O filósofo João Pereira Coutinho disse outro dia na “Folha de S.Paulo” uma frase ótima: “Oprimido e opressor não esgotam as relações humanas possíveis, mesmo as desiguais. A luta de classes é uma escolha política, não um dado natural” – na mosca.
Não arredaram os pés dos velhos dogmas da era stalinista, como, aliás, os antigos comunas fizeram desde quando se recusaram a votar nos social-democratas alemães, fazendo Hitler subir ao poder. Já em 1924, Stálin chegou a afirmar: “O fascismo e a social-democracia não são inimigos, mas irmãos gêmeos”. A verdade é que os petistas nunca acreditaram na “democracia burguesa”. Eu me lembro de mim mesmo no tempo da UNE, quando usávamos a palavra “democracia” apenas como estratégia para avançar na “linha justa”. “Vamos fingir que acreditamos na democracia para depois extirpá-la”. Assim pensávamos, e eles pensam assim até hoje; como disse uma filósofa: “Hoje não vamos perder a luta, pois antes da ditadura éramos inexperientes, mas hoje não somos mais”. É “um janguismo mesclado com toques de bolivarianismo”.
Até agora governaram um país capitalista com regras e métodos anticapitalistas – dá no desastre econômico a que assistimos. Pedem a volta da nova matriz econômica que quebrou o país. Como é que pode?
Alguns intelectuais ficam “angustiadinhos”: “Ah... Eu tinha um sonho... que se esfumou...” – choram os militantes imaginários, e nada fazem. A covardia intelectual é grande. Há o medo de ser chamado de “reacionário” ou de “careta”. Continuam ativos os três tipos exemplares de “radicais”: os radicais de cervejaria, os radicais de enfermaria e os radicais de estrebaria. Os frívolos, os burros e os loucos. Uns bebem e falam em revolução; outros zurram; e os terceiros alucinam.
Acham que a complexidade é um complô contra eles, acham a circularidade inevitável da vida uma armação do neoliberalismo internacional. Para eles, “administrar” é visto como ato menor, até meio reacionário, pois administrar é manter, preservar – coisa de capitalistas.
Estamos diante de um momento histórico gravíssimo, com os dois tumores gêmeos de nossa doença: a direita do atraso e a esquerda do atraso. Como escreveu Bobbio, se há uma coisa que une esquerda e direita é o ódio à democracia.
Esta crise é tão sintomática, tão exemplar para a mudança do país, que não podia ser desperdiçada pelos pensadores livres. É uma tomografia que mostra as glândulas, as secreções do corpo brasileiro – um diagnóstico completo. Esse espasmo de verdade, essa explosão de nossas vísceras, talvez seja perdida, porque as manobras do atraso de “direita” e do atraso de “esquerda” trabalham unidos para que a mentira vença.
E intelectuais sérios, os artistas famosos e as celebridades não entendem isso, não abrem a boca.
Não veem a reestatização da economia, o inchamento maior ainda da maquina pública, a destruição das agências reguladoras, da Lei de Responsabilidade Fiscal, em busca de um getulismo tardio, uma visão do Estado como centro de tudo. Quem quiser alguma positividade é “traidor”. No Brasil, a palavra “esquerda” continua o ópio dos intelectuais.
E por cima deles, nos colóquios, nos seminários, nas universidades, flutuam os discursos de análise política límpidos, a sociologia infalível, a orgulhosa ostentação da verdade. “Nós sabemos a verdade: está tudo claro em nossas teses de doutorado. O problema é que o Brasil não se curva a nossas teses...”.
Não admitem que um “choque de capitalismo” seria a única bomba a arrebentar a casamata paralítica do Estado inchado, gastador e ineficiente e que isso seria muito mais progressista que velhas ideias finalistas, esse “platonismo” de galinheiro. Quem tem coragem?
O Brasil evolui pelo que perde, e não pelo que ganha. Sempre houve no país uma desmontagem contínua de ilusões históricas. Com a história em marcha à ré, estranhamente, andamos para a frente. Como?
O Brasil se descobre por subtração, não por soma. Chegaremos a uma vida social mais civilizada quando as ilusões chegarem ao ponto zero.
Outro escreveu há dias que as marchas populares de junho e as deste ano foram uma manifestação de “gente de direita”. Segundo ele, 1 milhão de “direitistas” querem destruir o sagrado ninho da história que é o PT. Outro autografou um livro de presente para o Maduro. Que interstícios percorrem as ideias dentro de suas mentes, para negar tudo que está acontecendo hoje? Não conseguem fazer uma reles autocrítica de suas crenças. Mudar de ideia é considerado traição. É uma visão paranoica de que o país está tomado por “fascistas” que querem tirar o PT do poder. Eu, por exemplo, não sou fascista (dirão meus inimigos: reacionário neoliberal), mas quero ver o lulopetismo fora do poder. Eles estão desmanchando tudo que era sólido em nome de uma fé paralítica. Negam-se a ver que a corrupção virou um sistema político. Não só roubaram bilhões em conluio com aliados ladrões, como também roubaram nossos mais generosos sentimentos. A crise destrói o país e muda nossas mentes e corações. Cada um leva consigo uma forma de melancolia. É a grande neurose nacional do “que fazer?”.
Os petistas têm uma visão de mundo deturpada por conceitos compartimentados e acusatórios: luta de classes, culpados e inocentes, traidores e traídos. Stálin: “A humanidade está dividida entre ricos e pobres, proprietários e explorados. Subestimar esta divisão significa abstrair-se dos fatos fundamentais”. Ou Lênin: “Qualquer cozinheiro devia ser capaz de governar um país”.
Só veem vítimas e carrascos. Preocupam-se mais com as ossadas do Araguaia do que com o futuro de nossa anomalia atual.
O filósofo João Pereira Coutinho disse outro dia na “Folha de S.Paulo” uma frase ótima: “Oprimido e opressor não esgotam as relações humanas possíveis, mesmo as desiguais. A luta de classes é uma escolha política, não um dado natural” – na mosca.
Não arredaram os pés dos velhos dogmas da era stalinista, como, aliás, os antigos comunas fizeram desde quando se recusaram a votar nos social-democratas alemães, fazendo Hitler subir ao poder. Já em 1924, Stálin chegou a afirmar: “O fascismo e a social-democracia não são inimigos, mas irmãos gêmeos”. A verdade é que os petistas nunca acreditaram na “democracia burguesa”. Eu me lembro de mim mesmo no tempo da UNE, quando usávamos a palavra “democracia” apenas como estratégia para avançar na “linha justa”. “Vamos fingir que acreditamos na democracia para depois extirpá-la”. Assim pensávamos, e eles pensam assim até hoje; como disse uma filósofa: “Hoje não vamos perder a luta, pois antes da ditadura éramos inexperientes, mas hoje não somos mais”. É “um janguismo mesclado com toques de bolivarianismo”.
Até agora governaram um país capitalista com regras e métodos anticapitalistas – dá no desastre econômico a que assistimos. Pedem a volta da nova matriz econômica que quebrou o país. Como é que pode?
Alguns intelectuais ficam “angustiadinhos”: “Ah... Eu tinha um sonho... que se esfumou...” – choram os militantes imaginários, e nada fazem. A covardia intelectual é grande. Há o medo de ser chamado de “reacionário” ou de “careta”. Continuam ativos os três tipos exemplares de “radicais”: os radicais de cervejaria, os radicais de enfermaria e os radicais de estrebaria. Os frívolos, os burros e os loucos. Uns bebem e falam em revolução; outros zurram; e os terceiros alucinam.
Acham que a complexidade é um complô contra eles, acham a circularidade inevitável da vida uma armação do neoliberalismo internacional. Para eles, “administrar” é visto como ato menor, até meio reacionário, pois administrar é manter, preservar – coisa de capitalistas.
Estamos diante de um momento histórico gravíssimo, com os dois tumores gêmeos de nossa doença: a direita do atraso e a esquerda do atraso. Como escreveu Bobbio, se há uma coisa que une esquerda e direita é o ódio à democracia.
Esta crise é tão sintomática, tão exemplar para a mudança do país, que não podia ser desperdiçada pelos pensadores livres. É uma tomografia que mostra as glândulas, as secreções do corpo brasileiro – um diagnóstico completo. Esse espasmo de verdade, essa explosão de nossas vísceras, talvez seja perdida, porque as manobras do atraso de “direita” e do atraso de “esquerda” trabalham unidos para que a mentira vença.
E intelectuais sérios, os artistas famosos e as celebridades não entendem isso, não abrem a boca.
Não veem a reestatização da economia, o inchamento maior ainda da maquina pública, a destruição das agências reguladoras, da Lei de Responsabilidade Fiscal, em busca de um getulismo tardio, uma visão do Estado como centro de tudo. Quem quiser alguma positividade é “traidor”. No Brasil, a palavra “esquerda” continua o ópio dos intelectuais.
E por cima deles, nos colóquios, nos seminários, nas universidades, flutuam os discursos de análise política límpidos, a sociologia infalível, a orgulhosa ostentação da verdade. “Nós sabemos a verdade: está tudo claro em nossas teses de doutorado. O problema é que o Brasil não se curva a nossas teses...”.
Não admitem que um “choque de capitalismo” seria a única bomba a arrebentar a casamata paralítica do Estado inchado, gastador e ineficiente e que isso seria muito mais progressista que velhas ideias finalistas, esse “platonismo” de galinheiro. Quem tem coragem?
O Brasil evolui pelo que perde, e não pelo que ganha. Sempre houve no país uma desmontagem contínua de ilusões históricas. Com a história em marcha à ré, estranhamente, andamos para a frente. Como?
O Brasil se descobre por subtração, não por soma. Chegaremos a uma vida social mais civilizada quando as ilusões chegarem ao ponto zero.
Os direitos do brasileiro deixaram de caber no orçamento do governo
Todo brasileiro tem direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. Quem nasce no Brasil também tem garantido por lei acesso à educação, à saúde, à cultura, a uma aposentadoria. Para aqueles que têm carteira assinada, os direitos são repouso semanal remunerado, seguro-desemprego em caso de demissão e um décimo terceiro salário, entre outros benefícios assegurados pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Nem tudo funciona como o planejado na legislação, mas a conta tem de ser paga mesmo assim: todos esses direitos, ainda que não atendidos, não sairão por menos de 1,43 trilhão de reais no próximo ano. O problema é que o Governo já adiantou que só terá 1,4 trilhão para gastar. De onde sairão os 30 bilhões de reais que faltam para pagar a fatura é a questão sobre a qual se debruçam as autoridades do país. Mas o buraco das contas públicas, alertam os economistas, é bem mais embaixo.
Os gastos do Governo aumentam anualmente e, por isso, dependem do crescimento constante do país, que tem fraquejado nos últimos anos. Em 2014, por exemplo, os gastos subiram 6%, enquanto o Brasil cresceu apenas 0,1%. De quem é a culpa? Para uma ala de economistas, é da Constituição de 1988. Inspirada no Estado de bem-estar social europeu, a Constituição Cidadã é reconhecida pelas garantias que protege, mas é criticada por alguns experts por, segundo eles, projetar uma sociedade irreal. Mas por que o plano funciona na Suécia, e não dá certo no Brasil? Um dos maiores críticos da Carta Magna de 1988, o finado ministro Roberto Campos dava sua explicação em números: a Constituição foi promulgada com a palavra "direito" escrita 76 vezes, mas "dever" aparece em apenas quatro momentos, enquanto "produtividade" e "eficiência" não são mencionadas mais que duas vezes.
Especialista em contas públicas, o economista Fabio Giambiagi escreve em seu Brasil: Raízes do Atraso que "um país é resultado de suas escolhas — e, em 1988, nós fizemos as escolhas erradas", como perpetuar ao longo do tempo medidas que só faziam sentido naquele momento. Giambiagi acrescenta que "mais de um membro daquela Assembleia Nacional Constituinte declarou anos depois que a Constituição teria assumido um perfil bem diferente se ela tivesse sido escrita em 1990, após a queda do mudo de Berlim", que demonstrou o ocaso do projeto soviético. "Como foi escrita antes desse episódio histórico, porém, ela foi uma espécie de 'canto do cisne' do dirigismo distributivista", finaliza.
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A blasfêmia do Porsche de Jesus.com
Como qualificar, desde um ponto de vista de sensibilidade religiosa, a união do nome de Jesus a um Porsche de luxo proporcionada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), membro da Igreja Evangélica? E a situação é ainda pior se existe a suspeita de que a frota de carros, cotados em mais de um milhão de reais, que Cunha possui poderia ser um fruto maldito da corrupção política. Para muitos cristãos deve ter parecido blasfêmia, um vocábulo que, em sua acepção original, significa um “insulto a Deus” e, em seu sentido mais amplo, representa uma irreverência em relação a algo considerado sagrado.
Cunha é, segundo sua biografia,cristão evangélico, de uma igreja que considera Jesus como o filho de Deus. E esse filho de Deus, segundo os textos sagrados, que os evangélicos conhecem e sobre os quais meditam todos os dias, “não tinha onde repousar a cabeça”, era mais um pobre entre os pobres, amigo e defensor de todos os desamparados.
Talvez o político e evangélico Cunha não seja o maior responsável por esse circo de corrupção que suja a vida pública do Brasil e deixa atônitos, com seus números milionários, os trabalhadores honrados que suam para ganhar um salário que quase não é suficiente para cobrir suas necessidades. Cunha pertence, no entanto, a uma igreja, que se inspira nos princípios cristãos, mas que não esconde suas pretensões de conquista do poder político no Brasil, chegando a sonhar com um presidente da República evangélico que se baseie mais na Bíblia do que na Constituição.
Isso faz com que os supostos escândalos de corrupção de Cunha, que poderiam ter circulado através de firmas que levam o nome sagrado de Jesus.com, adquiram um simbolismo negativo que não deixa de chocar e escandalizar duplamente.
Lendo a notícia sobre o Porsche Cayenne registrado em nome da empresa Jesus.com, propriedade da família Cunha, não pude deixar de me perguntar o que pensam essas centenas de milhares de evangélicos sinceros, que, fiéis a seus princípios religiosos, sacrificam, cada mês, de boa fé, uma parte de seus pequenos recursos para alimentar uma Igreja cujos membros mais responsáveis se revelam milionários e, o que é pior, acusados de enriquecimento ilícito.
O fato me trouxe à memória a história de um trabalhador que perfurava poços com uma ferramenta rudimentar e grandes esforços físicos. Levava ao trabalho um pedaço de pão com salsicha para não perder tempo tendo que voltar a casa. Ouvi quando ele comentou, enquanto secava as gotas de suor que escorriam por seu rosto, que aquele mês estava em apuros porque não sabia se ia a poder pagar sua parcela à Igreja evangélica à qual pertencia.
Temia a reprovação do pastor e até o castigo do bom Deus. São dois mundos, que se cruzam e que usam o nome de Jesus, para a esperança e a fé verdadeira, e também para blasfemá-lo. “Raça de víboras”, assim o manso e pobre Jesus dos Evangelhos caracterizava aqueles que, segundo sua própria expressão, “jogavam sobre os ombros dos outros pesos que eles não podiam suportar”.
Dois mil anos depois, aquelas palavras continuam a nos interrogar, enquanto seguem vivos os novos Pilatos que lavam suas mãos ostentando inocência e que ainda se perguntam: “O que é a verdade?”.
Uma questão para a qual os brasileiros honrados, que amam e sofrem seu país, gostariam de poder ter uma resposta nesses momentos difíceis, nos quais as palavras perdem seu valor, ou são degradadas como a de Jesus, com o rótulo blasfemo desse Porsche Cayenne S de luxo.
Até onde e até quando se manterá contida a ira dos mansos que contemplam, incrédulos, cada manhã, a novela de novas supostas e comprovadas desmoralizações por parte daqueles que deveriam servir de guias e exemplos da vida pública?
Jesus, não o do Porsche de Eduardo Cunha, mas o dos Evangelhos, afirmou que a verdade está sempre nas mãos dos puros de coração e dos semeadores da paz. O ódio tem sempre um sabor diabólico.
Cunha é, segundo sua biografia,cristão evangélico, de uma igreja que considera Jesus como o filho de Deus. E esse filho de Deus, segundo os textos sagrados, que os evangélicos conhecem e sobre os quais meditam todos os dias, “não tinha onde repousar a cabeça”, era mais um pobre entre os pobres, amigo e defensor de todos os desamparados.

Isso faz com que os supostos escândalos de corrupção de Cunha, que poderiam ter circulado através de firmas que levam o nome sagrado de Jesus.com, adquiram um simbolismo negativo que não deixa de chocar e escandalizar duplamente.
Lendo a notícia sobre o Porsche Cayenne registrado em nome da empresa Jesus.com, propriedade da família Cunha, não pude deixar de me perguntar o que pensam essas centenas de milhares de evangélicos sinceros, que, fiéis a seus princípios religiosos, sacrificam, cada mês, de boa fé, uma parte de seus pequenos recursos para alimentar uma Igreja cujos membros mais responsáveis se revelam milionários e, o que é pior, acusados de enriquecimento ilícito.
O fato me trouxe à memória a história de um trabalhador que perfurava poços com uma ferramenta rudimentar e grandes esforços físicos. Levava ao trabalho um pedaço de pão com salsicha para não perder tempo tendo que voltar a casa. Ouvi quando ele comentou, enquanto secava as gotas de suor que escorriam por seu rosto, que aquele mês estava em apuros porque não sabia se ia a poder pagar sua parcela à Igreja evangélica à qual pertencia.
Temia a reprovação do pastor e até o castigo do bom Deus. São dois mundos, que se cruzam e que usam o nome de Jesus, para a esperança e a fé verdadeira, e também para blasfemá-lo. “Raça de víboras”, assim o manso e pobre Jesus dos Evangelhos caracterizava aqueles que, segundo sua própria expressão, “jogavam sobre os ombros dos outros pesos que eles não podiam suportar”.
Dois mil anos depois, aquelas palavras continuam a nos interrogar, enquanto seguem vivos os novos Pilatos que lavam suas mãos ostentando inocência e que ainda se perguntam: “O que é a verdade?”.
Uma questão para a qual os brasileiros honrados, que amam e sofrem seu país, gostariam de poder ter uma resposta nesses momentos difíceis, nos quais as palavras perdem seu valor, ou são degradadas como a de Jesus, com o rótulo blasfemo desse Porsche Cayenne S de luxo.
Até onde e até quando se manterá contida a ira dos mansos que contemplam, incrédulos, cada manhã, a novela de novas supostas e comprovadas desmoralizações por parte daqueles que deveriam servir de guias e exemplos da vida pública?
Jesus, não o do Porsche de Eduardo Cunha, mas o dos Evangelhos, afirmou que a verdade está sempre nas mãos dos puros de coração e dos semeadores da paz. O ódio tem sempre um sabor diabólico.
Sem o SUS, o Brasil retrocederá ao tempo dos indigentes
Não é catastrofismo, mas, na toada em que vamos, ou o povo se levanta em defesa do Sistema Único de Saúde (SUS), ou o Brasil retrocederá ao tempo dos indigentes. O processo está em curso. As ameaças são reais.
Para Marcelo Pellegrini, o “maior sistema público de saúde do planeta, o SUS, é uma obra em demolição”. E relembra que a Agenda Brasil, proposta do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), previa “a possibilidade de cobrança diferenciada de procedimentos do SUS por faixa de renda” (“Projetos em tramitação no Congresso ameaçam a sobrevivência do sistema único”, 15.8.2015). Dilma não caiu na vigarice, mas parou por aí.
O jornalista João Paulo Cunha avalia: “Na recente reforma ministerial, a Saúde entrou como moeda de troca. Saiu um ministro identificado com o SUS e com os valores da reforma sanitária, e entrou um político profissional do mais fisiológico dos partidos, o PMDB. Pode-se argumentar que, como política de Estado, o SUS esteja preservado em sua esfera de atuação. Sabemos que não será assim” (“O SUS é maior que o governo”, 13.10.2015). No Congresso Nacional, tramitam várias propostas que visam minar o SUS, sem esquecer que a presidente sancionou a MP 656, de dezembro de 2014, que permite o capital estrangeiro na saúde!
Dá para imaginar viver num Brasil sem SUS? Sabe o que é morrer à míngua, como um cão sem dono? É um cenário de terror, “como dizia o meu avô, nos moldes do vale o que possui: ‘Quem tem um barraco, um cavalo, um jegue ou um cabrito, quando adoece, vale um barraco, um cavalo, um jegue ou um cabrito!’”. Antes do SUS, eram nossos bichos quem nos salvava na doença, então eu não troco um dia de SUS de hoje, por pior que ele seja, por um da era pré-SUS.
“Na era pré-SUS no Brasil, quem não possuía barraco ou bicho pra vender pra ‘se tratar’ era tipificado como indigente, foco da caridade das antigas Santas Casas, ou morria à míngua. O SUS acabou com a figura do indigente da saúde, mudando radicalmente 500 anos de história do Brasil, quando o doente valia o que possuía” (“O maior mérito do SUS é a extinção do indigente da saúde”, O TEMPO, 24.11.2009).
O SUS, além de ser o maior sistema público de saúde do mundo, é a maior conquista democrática do povo brasileiro! Repito: “O SUS é uma conquista que precisa ser concretizada cotidianamente. Temos problemas de gerenciamento, de incompreensão política dos governos e até de usuários que usam o pronto-socorro até para espirro.
“Outro problema: às 17h, todo lugar que faz consulta na rede pública neste país está fechado! Sou defensora intransigente do terceiro turno no setor de saúde, tanto em postos como em ambulatórios. Se eles funcionassem à noite, as pessoas não precisariam faltar ao trabalho para fazer uma consulta. Ampliaria o número de consultas e geraria mais empregos”.
E mais, a mídia sataniza o SUS. “O falar mal do SUS é muito patente. A mídia está sempre do lado do contra quando tem uma votação que prevê mais dinheiro para o SUS. Ela não quer que o SUS tenha mais dinheiro. Foi assim com a CPMF, ou com qualquer projeto, e teve também um papel decisivo na ampliação dos planos de saúde no Brasil, dourando a pílula. Os planos de saúde venderam uma coisa que não tinham. Venderam tanto que agora deu ‘crap’” (entrevista à “Gazeta do Povo”, 18.12.2011).
Como disse uma mulher numa UPA em São Luís abarrotada de gente, com apenas duas cadeiras reclináveis na sala de medicação: “Se eu visse Dilma, diria: mulher, torne o SUS aquilo que a gente precisa na hora da doença e da morte, que eu quero ver quem vai mexer contigo!”.
O jornalista João Paulo Cunha avalia: “Na recente reforma ministerial, a Saúde entrou como moeda de troca. Saiu um ministro identificado com o SUS e com os valores da reforma sanitária, e entrou um político profissional do mais fisiológico dos partidos, o PMDB. Pode-se argumentar que, como política de Estado, o SUS esteja preservado em sua esfera de atuação. Sabemos que não será assim” (“O SUS é maior que o governo”, 13.10.2015). No Congresso Nacional, tramitam várias propostas que visam minar o SUS, sem esquecer que a presidente sancionou a MP 656, de dezembro de 2014, que permite o capital estrangeiro na saúde!
Dá para imaginar viver num Brasil sem SUS? Sabe o que é morrer à míngua, como um cão sem dono? É um cenário de terror, “como dizia o meu avô, nos moldes do vale o que possui: ‘Quem tem um barraco, um cavalo, um jegue ou um cabrito, quando adoece, vale um barraco, um cavalo, um jegue ou um cabrito!’”. Antes do SUS, eram nossos bichos quem nos salvava na doença, então eu não troco um dia de SUS de hoje, por pior que ele seja, por um da era pré-SUS.
“Na era pré-SUS no Brasil, quem não possuía barraco ou bicho pra vender pra ‘se tratar’ era tipificado como indigente, foco da caridade das antigas Santas Casas, ou morria à míngua. O SUS acabou com a figura do indigente da saúde, mudando radicalmente 500 anos de história do Brasil, quando o doente valia o que possuía” (“O maior mérito do SUS é a extinção do indigente da saúde”, O TEMPO, 24.11.2009).
O SUS, além de ser o maior sistema público de saúde do mundo, é a maior conquista democrática do povo brasileiro! Repito: “O SUS é uma conquista que precisa ser concretizada cotidianamente. Temos problemas de gerenciamento, de incompreensão política dos governos e até de usuários que usam o pronto-socorro até para espirro.
“Outro problema: às 17h, todo lugar que faz consulta na rede pública neste país está fechado! Sou defensora intransigente do terceiro turno no setor de saúde, tanto em postos como em ambulatórios. Se eles funcionassem à noite, as pessoas não precisariam faltar ao trabalho para fazer uma consulta. Ampliaria o número de consultas e geraria mais empregos”.
E mais, a mídia sataniza o SUS. “O falar mal do SUS é muito patente. A mídia está sempre do lado do contra quando tem uma votação que prevê mais dinheiro para o SUS. Ela não quer que o SUS tenha mais dinheiro. Foi assim com a CPMF, ou com qualquer projeto, e teve também um papel decisivo na ampliação dos planos de saúde no Brasil, dourando a pílula. Os planos de saúde venderam uma coisa que não tinham. Venderam tanto que agora deu ‘crap’” (entrevista à “Gazeta do Povo”, 18.12.2011).
Como disse uma mulher numa UPA em São Luís abarrotada de gente, com apenas duas cadeiras reclináveis na sala de medicação: “Se eu visse Dilma, diria: mulher, torne o SUS aquilo que a gente precisa na hora da doença e da morte, que eu quero ver quem vai mexer contigo!”.
República das bananas?
A delação premiada do lobista Fernando Baiano envolve, entre os beneficiários da roubalheira na Petrobras, o presidente do Senado, Renan Calheiros, os senadores Delcídio do Amaral, do PT, e Jader Barbalho, do PMDB, o ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau e até mesmo a nora do ex-presidente Lula, por intermédio de um repasse feito por seu amigo íntimo José Carlos Bumlai. Estão expostas de forma cada vez mais nítida as vísceras da Velha Política, com suas degeneradas práticas de fisiologismo no Legislativo, encobertas pela cumplicidade do Judiciário.
Estamos construindo as instituições de uma Grande Sociedade Aberta. O choque de poderes independentes dispara um processo de aperfeiçoamento em busca das melhores práticas, desde que as instituições atuem dentro de seus limites constitucionais. Confesso que é perturbador o desembaraço com que as figuras coroadas da Velha Política criam obstáculos ao nosso aperfeiçoamento institucional. Mas o despertar do Poder Judiciário anuncia novos tempos. O Brasil não quer mais ser uma república das bananas. A hipertrofia e o aparelhamento do Estado deturparam valores morais e práticas políticas. Fabricaram escândalos, desmoralizaram partidos e derrubaram nossa taxa de crescimento. Continuamos prisioneiros do fechamento cognitivo e da amoralidade de obsoletas lideranças ante os desafios da estagflação e da corrupção.
Pedala, Lulinha
Enquanto essa imprensa golpista fica tramando o impeachment de Dilma Rousseff, Lula da Silva resolveu explicar o que aconteceu, para acabar com a conspiração: as pedaladas fiscais foram necessárias para que o governo pudesse honrar o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida. Ou seja: todo esse barulho em torno do TCU, toda essa grita por causa do rombo no Orçamento, toda essa crise político-administrativa não passam de espuma. O único fato real é que o governo popular, mais uma vez, arranjou uma maneira de ajudar os pobres. Aliás, já são quase 13 anos ajudando os pobres (a ficar mais pobres), por maneiras que até Deus duvida.
No dia em que os pobres entenderem quanto seu sofrimento foi usado por Lula para ficar no poder, o ex-presidente precisará se mudar para um triplex no Irã. O PT prostituiu o uso do dinheiro público no Brasil, arrombando as metas fiscais e de inflação, tudo embalado numa meticulosa maquiagem contábil, para poder financiar seu banquete fisiológico - do qual o mensalão e o petrolão são os pratos mais visíveis.Lula e os companheiros jogaram o Brasil numa recessão genuinamente nacional, genuinamente petista, empobrecendo democraticamente o país inteiro. Se a moda pega, assaltante apanhado com bolsa roubada vai dizer que é bolsa família.
O delator Fernando Baiano, operador do esquema do petrolão preso na Lava.Jato, afirmou à Justiça que deu R$ 2 milhões a Fabio Luis da Silva, o Lulinha. As investigações esclarecerão os detalhes do maior caso de corrupção da República, mas já está evidente que 'seu dinheiro, caro leitor, foi usado sem parcimônia para irrigar o partido governante e os heróis do povo que o integram. Eles saber disso e estão dobrando a aposta: Dilma acusou os "moralistas sem moral" de tramar sua queda. É preciso sangue-frio para falar em moral no centro de tamanha rapinagem. Ou melhor, sangue de barata - e isso não lhes falta. Depois de depenar um país com -a ajuda de cúmplices que estão presos, causando à sua nação a perda dó selo de confiança perante o mundo, você só consegue olhar nos olhos de um filho se tiver sangue de barata. E moral de barata.
Dilma Rousseff tem de sofrer o impeachment porque é a representante legal de um projeto de assalto ao Estado. Está mais do que evidente que o PT, partido que desmoralizou a bondade, instalou-se no poder para viver dele - rasgando o contrato da democracia e do princípio da representação política. Nada mais fará no Palácio diferente do que já fez, não há como. O que mais é preciso ser demonstrado? A maior empresa do país jogada na lona para, entre outras causas nobres, garantir a reeleição da presidente - como apontam todas as evidências da Lava Jato. O que mais precisa aparecer! Como disse Fernando Gabeira, o Brasil parece ter desacreditado até a imagem popular do batom na cueca: a mancha sempre pode ter vindo da lavanderia. E eles têm diversos especialistas em lavagem para assumir a culpa. São os laranjas de batom. Na cueca, só dólar.
Joaquim Barbosa deu seu pitaco. Disse que o impeachment "é um mecanismo brutal que não pode ser usado de qualquer maneira". Prezado Barbosa: o impeachment não é um mecanismo brutal, é um mecanismo legal. E ninguém com juízo quer fazer nada de qualquer maneira, como juízes que atiram adjetivos ao vento. A única vergonha nacional até o momento é a barreira venezuelana no STF,seu velho conhecido, impedindo a investigação de uma presidente que em qualquer país 100% democrático já estaria sendo investigada.
E a barreira chavista conta com a operativa patrulha dos inocentes úteis (nem sempre inocentes, mas sempre úteis), que alugam suas santas reputações à mulher sapiens para renovar seus crachás de bondade progressista. Esse estranho oba-oba petista é cada vez mais envergonhado, naturalmente, e achou uma saída genial: eleger Eduardo Cunha o inimigo público número um. Cunha é hoje praticamente o único vilão nacional, porque quem rouba com estrelinha no peito é herói.
O pequeno detalhe dessa história é que Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, tem a chave do impeachment nas mãos. E o PT desperta seus instintos mais primitivos. Enquanto o gigante dorme, alguém tem de trabalhar.
No dia em que os pobres entenderem quanto seu sofrimento foi usado por Lula para ficar no poder, o ex-presidente precisará se mudar para um triplex no Irã. O PT prostituiu o uso do dinheiro público no Brasil, arrombando as metas fiscais e de inflação, tudo embalado numa meticulosa maquiagem contábil, para poder financiar seu banquete fisiológico - do qual o mensalão e o petrolão são os pratos mais visíveis.Lula e os companheiros jogaram o Brasil numa recessão genuinamente nacional, genuinamente petista, empobrecendo democraticamente o país inteiro. Se a moda pega, assaltante apanhado com bolsa roubada vai dizer que é bolsa família.
Dilma Rousseff tem de sofrer o impeachment porque é a representante legal de um projeto de assalto ao Estado. Está mais do que evidente que o PT, partido que desmoralizou a bondade, instalou-se no poder para viver dele - rasgando o contrato da democracia e do princípio da representação política. Nada mais fará no Palácio diferente do que já fez, não há como. O que mais é preciso ser demonstrado? A maior empresa do país jogada na lona para, entre outras causas nobres, garantir a reeleição da presidente - como apontam todas as evidências da Lava Jato. O que mais precisa aparecer! Como disse Fernando Gabeira, o Brasil parece ter desacreditado até a imagem popular do batom na cueca: a mancha sempre pode ter vindo da lavanderia. E eles têm diversos especialistas em lavagem para assumir a culpa. São os laranjas de batom. Na cueca, só dólar.
Joaquim Barbosa deu seu pitaco. Disse que o impeachment "é um mecanismo brutal que não pode ser usado de qualquer maneira". Prezado Barbosa: o impeachment não é um mecanismo brutal, é um mecanismo legal. E ninguém com juízo quer fazer nada de qualquer maneira, como juízes que atiram adjetivos ao vento. A única vergonha nacional até o momento é a barreira venezuelana no STF,seu velho conhecido, impedindo a investigação de uma presidente que em qualquer país 100% democrático já estaria sendo investigada.
E a barreira chavista conta com a operativa patrulha dos inocentes úteis (nem sempre inocentes, mas sempre úteis), que alugam suas santas reputações à mulher sapiens para renovar seus crachás de bondade progressista. Esse estranho oba-oba petista é cada vez mais envergonhado, naturalmente, e achou uma saída genial: eleger Eduardo Cunha o inimigo público número um. Cunha é hoje praticamente o único vilão nacional, porque quem rouba com estrelinha no peito é herói.
O pequeno detalhe dessa história é que Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, tem a chave do impeachment nas mãos. E o PT desperta seus instintos mais primitivos. Enquanto o gigante dorme, alguém tem de trabalhar.
Dilma virá do frio pegando fogo
Mesmo no frio da Suécia e da Finlândia, a presidente Dilma pegou fogo. Teve certeza de que por trás da sugestão de Rui Falcão para demitir Joaquim Levy está o Lula. O alvo de sua resposta agressiva, de que não vai demitir, foi o ex-presidente da República, não o presidente do PT, simples acessório.
Madame ficou uma fera e deu o troco: o governo pensa diferente do partido. Não haverá que falar em rompimento, mas as relações entre o antecessor e a sucessora esfriaram mais do que as estepes geladas da Escandinávia. Ao desembarcar em Brasília, porém, ela parecerá a irmã do Tocha Humana.
Madame ficou uma fera e deu o troco: o governo pensa diferente do partido. Não haverá que falar em rompimento, mas as relações entre o antecessor e a sucessora esfriaram mais do que as estepes geladas da Escandinávia. Ao desembarcar em Brasília, porém, ela parecerá a irmã do Tocha Humana.

Para cada lado que Dilma se volte, surgem problemas. O mais agudo de todos chama-se Eduardo Cunha, capaz de surpreender dando seguimento ao pedido de impeachment da presidente, a ser reapresentado hoje pelos juristas Hélio Bicudo e Miguel Reale Júnior. Acirrará os ânimos a simples formação de uma comissão especial de deputados para examinar a proposta. Como o prazo para essa manifestação é de 90 dias, imagina-se a questão estendida para o próximo ano, a menos que o presidente da Câmara entre em desespero. Mesmo forçado a renunciar, decidiu ficar onde está e enfrentar o Conselho de Ética, onde imagina dispor de maioria. A bancada de seus seguidores é forte, não a ponto da decretação do afastamento da chefe do governo, mas bastante para incomodar o palácio do Planalto. Por isso ainda persistem tentativas de um acordo entre Dilma e Cunha, visando a preservação de seus mandatos. Aguarda-se a chegada da presidente que virá do frio pegando fogo.
Carlos Chagas
Estamos caminhando para a destruição da nossa economia
O caminho que estamos trilhando agora nos levará à perda das reservas cambiais, à hiperinflação e, por fim, à destruição do Real, com a consequente descaracterização do Banco Central como guardião da nossa moeda. O descontrole da política monetária trará de volta todas as características dos anos 80 superadas com a implantação do real.
Todo o esforço da sociedade para adquirir o equilíbrio monetário na época de Itamar e FHC será perdido. O PT e a guerra política que estamos vivendo jogarão o país no limbo, e toda a sociedade pagará o imposto inflacionário que o governo cobrará pela emissão descontrolada da moeda que está por vir para financiar o descontrole fiscal. Todos pagaremos pelo retorno da hiperinflação.
Esta é a verdadeira desgraça que está em curso e foi o PT que jogou toda a economia no buraco em função da política.
Se hoje o país se encontra travado economicamente por conta da política,não há outro culpado disso que não sejam a Dilma e o PT, que usaram toda a estrutura econômica do país para dar sustentação política à sua agremiação.
Vê-se assim que o país inteiro se tornou um mero instrumento de dominação política do partido dos trabalhadores.
A única coisa que separa a frágil democracia do país de uma ditadura petista é a guerra política estrelada agora entre o PT e o PMDB.
Se não fosse o forte compromisso de Joaquim Levy com o banco que lhe ordenou assumir o papel de Ministro da Fazenda, ele já teria abandonado o cargo há muito tempo, quando se viu isolado e escanteado no governo de Dilma.
Não sei se Levy continuará sustentando esta situação com as investidas de Lula com intenção de sua queda e substituição.
Todo o esforço da sociedade para adquirir o equilíbrio monetário na época de Itamar e FHC será perdido. O PT e a guerra política que estamos vivendo jogarão o país no limbo, e toda a sociedade pagará o imposto inflacionário que o governo cobrará pela emissão descontrolada da moeda que está por vir para financiar o descontrole fiscal. Todos pagaremos pelo retorno da hiperinflação.
Esta é a verdadeira desgraça que está em curso e foi o PT que jogou toda a economia no buraco em função da política.
Se hoje o país se encontra travado economicamente por conta da política,não há outro culpado disso que não sejam a Dilma e o PT, que usaram toda a estrutura econômica do país para dar sustentação política à sua agremiação.
Vê-se assim que o país inteiro se tornou um mero instrumento de dominação política do partido dos trabalhadores.
A única coisa que separa a frágil democracia do país de uma ditadura petista é a guerra política estrelada agora entre o PT e o PMDB.
Se não fosse o forte compromisso de Joaquim Levy com o banco que lhe ordenou assumir o papel de Ministro da Fazenda, ele já teria abandonado o cargo há muito tempo, quando se viu isolado e escanteado no governo de Dilma.
Não sei se Levy continuará sustentando esta situação com as investidas de Lula com intenção de sua queda e substituição.
A guerra diária do Brasil contra os jovens
O Brasil teve 46.881 casos de assassinato em 2014. Com 4.610 homicídios – 28 para cada 1.000 habitantes – o estado do Rio de Janeiro fica atrás apenas da Bahia (5.450). Os dados foram revelados em um balanço publicado pelo Ministério da Justiça na última semana. O quadro geral é alarmante se comparado, por exemplo, à taxa de homicídios da República Democrática do Congo, país africano assolado por uma guerra civil: 30,8 para cada 1.000 habitantes.
No Brasil, negros e pardos representaram 72% das vítimas. Emerge, assim, o fantasma do racismo num país que se debate para deixar para trás seu passado colonial. Na capital fluminense, muita gente deu de ombros às estatísticas divulgadas num ano em que todos os olhos estão voltados para a sede dos Jogos Olímpicos. Afinal, para moradores de comunidades carentes, esse retrato da violência representa uma rotina conhecida. Os números são apenas mais uma pesquisa incapaz de produzir mudanças. E uma constatação renovada da indiferença de parte da sociedade, sobretudo, quando os alvos da matança são jovens, negros e pobres.Na contramão de todos avanços sociais conquistados na última década, o Brasil ainda ocupa o terceiro lugar em homicídios de adolescentes entre 85 países, de acordo com o Mapa da Violência, estudo encomendado pelo governo federal e divulgado este ano, com dados relativos a 2013. São 54,9 homicídios para cada 100 mil jovens de 15 a 19 anos, atrás apenas de México e El Salvador. Para efeito de comparação, a taxa brasileira é 275 vezes maior do que a de países como Áustria ou Japão, que apresentam índices de 0,2 homicídios por 100 mil.
'Eles perderam a decência'
Sim, a Dilma pedalou! Pedalou, pedala, incorre em crime previsto na Constituição, mas há quem faça pouco caso do assunto. Seu tutor, o ex-presidente Lula, que o diga. Ele tripudia da acusação. Encontra até desculpas que, no seu entender, justificam as afrontas legais da pupila. Lula admitiu publicamente que Dilma pedala e pedalou para “pagar o Bolsa Família, para pagar o Minha Casa, Minha Vida”. Na visão oportunista e sem limites do líder do PT, os fins justificam os meios. Foi o que ele disse e fez ao longo de dois mandatos e repete agora como mantra.
Lula não mede consequências. Quer, inclusive, que o governo gaste mais, libere empréstimos do BNDES, crédito para a baixa renda e gere empregos. Parece fácil falar depois que seu grupo quebrou a nação com a tal “nova matriz econômica” e dilapidou os cofres públicos com benefícios e desvios para simpatizantes e apaniguados do partido.
Lula não enxerga o óbvio. Ou esconde. Joga pra plateia. Critica Dilma abertamente, sem pudores. Disse que ela adotou o discurso de quem perdeu. Que só fala em cortes e ajustes. Que se esquece de conversar com o povo. Depois, pede compreensão “por Dilminha”.
Lula distorce a realidade. Para ele o problema do País não é econômico, mas político. Pouco importa que a inflação caminhe para a casa dos dois dígitos. Que o déficit nominal ultrapasse os 8% no ano. Que a queda do PIB alcance a marca recorde de 3% negativos. Que as empresas quebrem.
Lula não emite qualquer comentário sobre as acusações que rondam dois de seus filhos. Não é tema adequado, na consideração dele, para dividir com seus seguidores. Mais fácil para Lula é acionar o PT em busca de um acordo que salve o segundo mandato de Dilma. Mesmo que em troca da blindagem do encrencado deputado Eduardo Cunha.
Foi o que ele fez. Barganhou a sobrevivência de um e do outro na base do “ajude ela que no Conselho de Ética tentamos segurar você”. A despudorada aliança mostra a que ponto chegou o jogo de conchavos dessa turma pelo poder. Às favas com a lei. Com a moral. Com o zelo pelas práticas republicanas. O Brasil está à mercê de líderes sem escrúpulos.
Lula move-se de acordo com as suas conveniências. Para retornar ao Planalto. Oscila de humor e de opinião em relação à Dilma na cadência da temperatura ambiente. Criador e criatura vivem a dança das aparências. Ela também se deixa levar nesse minueto de chantagens, do toma-lá-dá-cá, como se não tivesse mais nada a fazer. Comercializou ministérios com a raia miúda dos parlamentares. E correu ao abraço com seu arquirrival Cunha, tentando livrar-se do impeachment.
Escolhe sempre os piores pares. O ministro da saúde em vigor, empossado por ela, caiu em descrédito. Pregou a tungada da CPMF na entrada e na saída. Bitributação inaceitável. Aliás, quase nada das deliberações de Dilma e de sua equipe têm sido aceito. Nem os vetos.
Dilma invoca a prerrogativa de jamais ter cometido malfeitos na vida política. Mede os deslizes conforme sua régua. Mentir em campanha, “fazer o diabo”, leiloar o governo por um punhado de votos, largar a maior estatal do País nas mãos de saqueadores e administrar as contas públicas em benefício próprio não estão no seu radar de equívocos.
Por esses dias a pajelança política que envolve Dilma, Lula & Cia assumiu patamares inimagináveis. O Planalto adiou até a eliminação dos três mil cargos comissionados – medida anunciada como demonstração de corte na própria carne – para atender a base aliada e acomodar o clima de insatisfação no berço político. A encenação burlesca choca os brasileiros. Causa repúdio. Indignação e revolta. Com qual moral Dilma, Lula & Cia se arvoram o direito a legitimidade?
Lula não mede consequências. Quer, inclusive, que o governo gaste mais, libere empréstimos do BNDES, crédito para a baixa renda e gere empregos. Parece fácil falar depois que seu grupo quebrou a nação com a tal “nova matriz econômica” e dilapidou os cofres públicos com benefícios e desvios para simpatizantes e apaniguados do partido.
Lula não enxerga o óbvio. Ou esconde. Joga pra plateia. Critica Dilma abertamente, sem pudores. Disse que ela adotou o discurso de quem perdeu. Que só fala em cortes e ajustes. Que se esquece de conversar com o povo. Depois, pede compreensão “por Dilminha”.
Lula distorce a realidade. Para ele o problema do País não é econômico, mas político. Pouco importa que a inflação caminhe para a casa dos dois dígitos. Que o déficit nominal ultrapasse os 8% no ano. Que a queda do PIB alcance a marca recorde de 3% negativos. Que as empresas quebrem.
Lula não emite qualquer comentário sobre as acusações que rondam dois de seus filhos. Não é tema adequado, na consideração dele, para dividir com seus seguidores. Mais fácil para Lula é acionar o PT em busca de um acordo que salve o segundo mandato de Dilma. Mesmo que em troca da blindagem do encrencado deputado Eduardo Cunha.
Foi o que ele fez. Barganhou a sobrevivência de um e do outro na base do “ajude ela que no Conselho de Ética tentamos segurar você”. A despudorada aliança mostra a que ponto chegou o jogo de conchavos dessa turma pelo poder. Às favas com a lei. Com a moral. Com o zelo pelas práticas republicanas. O Brasil está à mercê de líderes sem escrúpulos.
Lula move-se de acordo com as suas conveniências. Para retornar ao Planalto. Oscila de humor e de opinião em relação à Dilma na cadência da temperatura ambiente. Criador e criatura vivem a dança das aparências. Ela também se deixa levar nesse minueto de chantagens, do toma-lá-dá-cá, como se não tivesse mais nada a fazer. Comercializou ministérios com a raia miúda dos parlamentares. E correu ao abraço com seu arquirrival Cunha, tentando livrar-se do impeachment.
Escolhe sempre os piores pares. O ministro da saúde em vigor, empossado por ela, caiu em descrédito. Pregou a tungada da CPMF na entrada e na saída. Bitributação inaceitável. Aliás, quase nada das deliberações de Dilma e de sua equipe têm sido aceito. Nem os vetos.
Dilma invoca a prerrogativa de jamais ter cometido malfeitos na vida política. Mede os deslizes conforme sua régua. Mentir em campanha, “fazer o diabo”, leiloar o governo por um punhado de votos, largar a maior estatal do País nas mãos de saqueadores e administrar as contas públicas em benefício próprio não estão no seu radar de equívocos.
Por esses dias a pajelança política que envolve Dilma, Lula & Cia assumiu patamares inimagináveis. O Planalto adiou até a eliminação dos três mil cargos comissionados – medida anunciada como demonstração de corte na própria carne – para atender a base aliada e acomodar o clima de insatisfação no berço político. A encenação burlesca choca os brasileiros. Causa repúdio. Indignação e revolta. Com qual moral Dilma, Lula & Cia se arvoram o direito a legitimidade?
Dilma faz governo de direita. Vai defender?
Gente, por favor. Dilma faz um governo marcadamente de direita. Preferiu, num contexto economicamente pior que o de seu antecessor, aliar-se e render-se à direita histórica ao invés de se unir às forças progressistas que, inclusive, garantiram sua última vitória nas urnas. Esse governo promove retrocessos absurdos – tanto quanto ou mais que o tão falado ‘congresso mais reacionário da história’ – e endossa essa mesma política nos estados.
Apoio à leis criminalizantes, aliança com agronegócio, dependência de oligarquias regionais, política econômica neoliberal e imposição de um ajuste fiscal que beneficia os ricos e pune os pobres, privatizações, apoio a políticas de segurança pública de promoção do encarceramento e do genocídio negro, retirada de direitos trabalhistas, retrocesso nas políticas de direitos humanos… É um governo indefensável.
E não me venham dizer que “falar mal do PT ajuda a direita”, afinal, falar da direita, que são canalhas, seria chover no molhado. O grupo que prometeu ser uma coisa e foi outra é o que governa o país há 4 mandatos. Um grupo que, embora eleito em nome da classe, jamais enfrentou os grandes interesses dos algozes seculares do povo brasileiro. Ao contrário, preferiu a tática da conciliação, como se nunca houvera aberto um livro de história para saber o quão impossível seria.
Alguns dirão: é a defesa aos avanços sociais dos últimos anos. Responderia: não se trata da negação daquilo que alguns consideram “avanço”, mas sim do que devia ter sido feito, em forma e conteúdo, e não se fez. Das brigas e disputas políticas e ideológicas que não se fizeram. Do enfrentamento aos interesses da classe dominante, que não se fez. E que sequer foram tentadas. E o porquê de não terem sido tentadas, mesmo com o clamor permanente dos movimentos sociais.
Essa crítica em nada tem a ver com defender impeachment ou “golpe”. E cá entre nós, não acho provável nenhum dos dois – até porque faltam elementos objetivos para tal – afinal, derrubar um governo que garante os interesses dos ricos e a opressão dos pobres tão bem quanto o governo Dilma, para que, né?!
Mas vivemos no Brasil, onde os absurdos são comuns. Então também não duvido. E num contexto de disputa “político ideológica” entre PSDB/PMDB versus PT, eu leio assim: de um lado a direita histórica, escravocrata, fascista, racista e elitista, logo, inimigos históricos da classe trabalhadora. De outro os capatazes, ex-escravos, a serviço das vontades do senhor, logo, traidores da classe trabalhadora. A “esquerda” não está, a meu ver, em meio a essa disputa.
Quando digo isso, deixemos explícito, falo dos projetos políticos e da direção de cada um dos lados, e não do povo iludido ou politicamente equivocado – na minha opinião – que as partes reúnem.
É deprimente ver gente séria, com trajetória de luta e compromisso se rebaixando em último nível para defender o indefensável. Triste, muito triste.
Sim, é preciso juntar os cacos de um vaso que nós mesmos quebramos. Não há de se negar ou demonizar o PT ou os grupos e movimentos apoiadores do governo, claro que não, até porque “os partidos são as pessoas”, e tem muita gente séria e comprometida nesses espaços.
Mas é preciso superar, construir o novo com novos atores e, caso os atores de sempre queiram colaborar, que reconheçam e limpem sua sujeira, que lavem seus pratos cuspidos e peguem a fila lá de trás. O protagonismo não deve estar com aqueles que nos conduziram à beira deste precipício. Estes, por dignidade, deveriam perceber isso.
O declínio da mineração e seu legado na América Latina
A América Latina acaba de viver uma década de bonança na mineração que despertou esperanças de riqueza como poucas vezes em sua história, embalada pelo que parecia ser uma inesgotável demanda chinesa por cobre, carvão e outros minérios. Mas a bonança terminou.
A economia da China demonstrou ser como todas as outras, ou seja, uma economia de altos e baixos. E a redução recente do apetite chinês levou a uma freada brusca nos planos de investimento e venda de projetos multimilionários de mineração em países latino-americanos.
Nesta semana, por exemplo, a Glencore, uma gigante global desta indústria, anunciou que está vendendo a mina de Lomas Bayas, no Chile. Um caso que não é único em meio ao ajuste do setor diante da queda de preços internacionais de muitos produtos básicos.
Mas qual é o legado que fica desta chuva de dólares que caiu na região nos últimos dez anos com chegada de projetos de mineração, muitas vezes diante da resistência de comunidades onde eles se instalaram?
A América Latina tornou-se neste anos um dos epicentros globais da mineração, recebendo 27% do total de investimentos em exploração, segundo o Banco Mundial.
É difícil subestimar tal volume de dinheiro. O órgão afirma que um só país, o Chile, recebeu dividendos da mineração da ordem de US$41 bilhões (R$ 155,8 bilhões) em 2011, ou 19% de seu Produto Interno Bruto (PIB). O Peru recebeu US$17 bilhões e a Bolívia, US$ 1,3 bilhão.
No Brasil e no México, as duas maiores economias da região, a contribuição desta indústria não foi tão dominante em comparação com as demais atividades, dada a maior diversificação de suas economias, mas o valor recebido por ambos estão longe de serem desprezíveis. No Brasil, por exemplo, a receita gerada pela mineração alcançou US$67 bilhões, ou 3% do PIB.
Apesar da desaceleração, o Banco Mundial espera que os novos investimentos para a região até 2020 cheguem a US$200 bilhões.
Leia mais
A economia da China demonstrou ser como todas as outras, ou seja, uma economia de altos e baixos. E a redução recente do apetite chinês levou a uma freada brusca nos planos de investimento e venda de projetos multimilionários de mineração em países latino-americanos.
Mas qual é o legado que fica desta chuva de dólares que caiu na região nos últimos dez anos com chegada de projetos de mineração, muitas vezes diante da resistência de comunidades onde eles se instalaram?
A América Latina tornou-se neste anos um dos epicentros globais da mineração, recebendo 27% do total de investimentos em exploração, segundo o Banco Mundial.
É difícil subestimar tal volume de dinheiro. O órgão afirma que um só país, o Chile, recebeu dividendos da mineração da ordem de US$41 bilhões (R$ 155,8 bilhões) em 2011, ou 19% de seu Produto Interno Bruto (PIB). O Peru recebeu US$17 bilhões e a Bolívia, US$ 1,3 bilhão.
No Brasil e no México, as duas maiores economias da região, a contribuição desta indústria não foi tão dominante em comparação com as demais atividades, dada a maior diversificação de suas economias, mas o valor recebido por ambos estão longe de serem desprezíveis. No Brasil, por exemplo, a receita gerada pela mineração alcançou US$67 bilhões, ou 3% do PIB.
Apesar da desaceleração, o Banco Mundial espera que os novos investimentos para a região até 2020 cheguem a US$200 bilhões.
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segunda-feira, 19 de outubro de 2015
Moralistas sem moral
Há uma semana, a presidente Dilma estava no chão, e a caneta de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, cheia de tinta para assinar o ato que autorizaria a abertura do processo de impeachment contra ela.
Esta semana começa depois de mais um movimento abrupto da gangorra do poder: agora é Eduardo que está no chão, atingido por novas denúncias de roubalheira. E Dilma posa de vencedora.
Amanhã fará uma semana que Dilma perguntou a sindicalistas reunidos por Lula para escutá-la em São Paulo: “Quem tem força moral, reputação ilibada e biografia limpa suficiente para atacar a minha honra? Quem?”
De fato, são “moralistas sem moral” os políticos que tratam Eduardo com brandura, interessados apenas em que ele ceda às pressões e ponha para tramitar na Câmara o processo de deposição da presidente reeleita há menos de um ano.
Mas serão “moralistas com moral” aqueles que igualmente tratam Eduardo com brandura, empenhados apenas em que ele desista de derrubar Dilma?
Na condição de investigado, Lula desembarcou em Brasília para ser ouvido por procuradores da República.
Aproveitou a viagem para negociar com Eduardo o fim do impeachment em troca da salvação do mandato dele, ameaçado de ser cassado pela Câmara.
E da boa vontade da Justiça quando fosse obrigada a julgar Eduardo por corrupção, lavagem de dinheiro e sonegação de impostos.
Como Lula, sem ser um amoral, poderia garantir a Eduardo que deputados ligados ao governo negarão seus votos para cassá-lo?
Como Lula, sem ser um amoral, poderia prometer que o governo empregará toda a sua força para que Supremo Tribunal Federal absolva Eduardo dos seus crimes? Ou pelo menos para que não lhe aplique duras penas?
Diante da mesma plateia de sindicalistas que recepcionou Dilma em São Paulo, Lula justificou as “pedaladas fiscais” do governo que resultaram na rejeição de suas contas de 2014 pelo Tribunal de Contas da União.
E o que disse? Que o governo foi obrigado a pedalar para não deixar sem dinheiro o Bolsa Família e demais programas de assistência aos mais pobres.
Mentiu – o que não pega bem para um moralista com moral. Para um sem moral não faz diferença.
As pedaladas tiveram a ver com despesas feitas pelo governo para além do que o orçamento permitia. Com isso, desrespeitou a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Quem desrespeita lei incorre em crime. Não vale a desculpa imoral usada por Dilma de que governos anteriores procederam assim também.
Quanto à pergunta que ela fez aos sindicalistas: “Quem tem força moral, reputação ilibada e biografia limpa suficiente para atacar a minha honra?”
Há muita gente que tem, sim. Talvez falte motivo para o ataque. Em compensação, há motivos de sobra para que se ponha a conduta de Dilma em dúvida.
É provável que ela não tenha roubado. Mas que sequer tenha visto que roubavam?
Seu sucessor no Ministério das Minas e Energia é suspeito de ter roubado. Sua sucessora na Casa Civil, de tráfico de influência.
Como mandachuva na Petrobras, aprovou negócios que envolveram propinas. E viu a empresa submergir em um mar de lama.
Dinheiro sujo financiou suas duas campanhas.
Se tudo isso a surpreendeu, por carecer de competência não tinha condições de presidir o país. Não tinha mesmo.
Ricardo Noblat
Esta semana começa depois de mais um movimento abrupto da gangorra do poder: agora é Eduardo que está no chão, atingido por novas denúncias de roubalheira. E Dilma posa de vencedora.
Amanhã fará uma semana que Dilma perguntou a sindicalistas reunidos por Lula para escutá-la em São Paulo: “Quem tem força moral, reputação ilibada e biografia limpa suficiente para atacar a minha honra? Quem?”
De fato, são “moralistas sem moral” os políticos que tratam Eduardo com brandura, interessados apenas em que ele ceda às pressões e ponha para tramitar na Câmara o processo de deposição da presidente reeleita há menos de um ano.
Mas serão “moralistas com moral” aqueles que igualmente tratam Eduardo com brandura, empenhados apenas em que ele desista de derrubar Dilma?
Na condição de investigado, Lula desembarcou em Brasília para ser ouvido por procuradores da República.
Aproveitou a viagem para negociar com Eduardo o fim do impeachment em troca da salvação do mandato dele, ameaçado de ser cassado pela Câmara.
E da boa vontade da Justiça quando fosse obrigada a julgar Eduardo por corrupção, lavagem de dinheiro e sonegação de impostos.
Como Lula, sem ser um amoral, poderia garantir a Eduardo que deputados ligados ao governo negarão seus votos para cassá-lo?
Como Lula, sem ser um amoral, poderia prometer que o governo empregará toda a sua força para que Supremo Tribunal Federal absolva Eduardo dos seus crimes? Ou pelo menos para que não lhe aplique duras penas?
Diante da mesma plateia de sindicalistas que recepcionou Dilma em São Paulo, Lula justificou as “pedaladas fiscais” do governo que resultaram na rejeição de suas contas de 2014 pelo Tribunal de Contas da União.
E o que disse? Que o governo foi obrigado a pedalar para não deixar sem dinheiro o Bolsa Família e demais programas de assistência aos mais pobres.
Mentiu – o que não pega bem para um moralista com moral. Para um sem moral não faz diferença.
As pedaladas tiveram a ver com despesas feitas pelo governo para além do que o orçamento permitia. Com isso, desrespeitou a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Quem desrespeita lei incorre em crime. Não vale a desculpa imoral usada por Dilma de que governos anteriores procederam assim também.
Quanto à pergunta que ela fez aos sindicalistas: “Quem tem força moral, reputação ilibada e biografia limpa suficiente para atacar a minha honra?”
Há muita gente que tem, sim. Talvez falte motivo para o ataque. Em compensação, há motivos de sobra para que se ponha a conduta de Dilma em dúvida.
É provável que ela não tenha roubado. Mas que sequer tenha visto que roubavam?
Seu sucessor no Ministério das Minas e Energia é suspeito de ter roubado. Sua sucessora na Casa Civil, de tráfico de influência.
Como mandachuva na Petrobras, aprovou negócios que envolveram propinas. E viu a empresa submergir em um mar de lama.
Dinheiro sujo financiou suas duas campanhas.
Se tudo isso a surpreendeu, por carecer de competência não tinha condições de presidir o país. Não tinha mesmo.
Ricardo Noblat
A corrupção que ameaça as instituições
Há um evidente mal-estar na sociedade brasileira. As pessoas estão saudavelmente indignadas, enojadas, saturadas com os níveis inaceitáveis de corrupção que alcançamos. Confesso meu abatimento quando outro dia, no avião, saindo de Brasília, abri o jornal e vi a manchete: “92% dos brasileiros acham que todo político é corrupto”. Para quem vai completar 40 anos de militância e 34 anos do primeiro mandato, não é fácil encarar isso. Em recente conversa com minha filha, admiti que não era esse o país que queríamos entregar às novas gerações. Um sentimento generoso e uma utopia ousada moveram minha geração. Fizemos muito. A redemocratização, o combate à miséria, a estabilização da economia. Mas o Brasil de 2015 não é portador do futuro que imaginávamos. Há uma distância abissal entre os cidadãos e o mundo político. Os laços não são de confiança, admiração, esperança, ao contrário. Mas nesse mesmo dia, na praça onde caminhava, quatro senhoras colhiam assinaturas em apoio a um Projeto de Lei de Iniciativa Popular propondo dez medidas contra a corrupção.
A corrupção não nasceu hoje nem é monopólio brasileiro. Faz parte da condição humana. Onde há burocracia, interesses, balcões de intermediação, poder, dinheiro, potencialmente está a semente da corrupção. A política carrega, como nenhuma outra atividade humana, as contradições de nossa existência, virtudes e pecados. O problema é que, no Brasil, a corrupção se tornou endêmica, sistêmica, institucionalizada, operada em escala amazônica e industrial. Não há uma cultura republicana vitoriosa. Não houve aprendizado. A crise de Collor, a CPI do Orçamento, o mensalão não produziram a mudança cultural esperada. Não é à toa que figuras como Joaquim Barbosa e Sérgio Moro se transformam em verdadeiros heróis nacionais. Essa é a vitória, as instituições estão se fortalecendo, mas ainda impera certo ceticismo, como se no fim tudo fosse acabar em pizza.
A corrupção corrói o tecido social, mina a confiança, rouba eficiência da economia, dilacera a política, dinamita a solidariedade entre as pessoas. A cruzada anticorrupção deve envolver a todos. Não há corruptos sem corruptores. O empresariado tem papel central, estancando o estabelecimento de relações promíscuas.
Maquiavel nunca disse que “os fins justificam os meios” e identificava na corrupção generalizada a razão da queda da República romana. Jamais a diferença, em Weber, entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade autorizou o assalto aos cofres públicos em nome de uma “boa causa”. Nem os assaltos e sequestros da extrema esquerda nos anos 60, nem a mentira para ganhar eleições, nem a corrupção para comprar apoio parlamentar.
Mas o pior é que hoje, no Brasil, se trata de corrupção pura e simples, enriquecimento ilícito, roubo do dinheiro de todos. Verdadeiros corruptos sem causa. Os tempos são cinzentos, mas juntos, não tenho dúvidas, reconstruiremos a esperança e a decência.
A corrupção corrói o tecido social, mina a confiança, rouba eficiência da economia, dilacera a política, dinamita a solidariedade entre as pessoas. A cruzada anticorrupção deve envolver a todos. Não há corruptos sem corruptores. O empresariado tem papel central, estancando o estabelecimento de relações promíscuas.
Maquiavel nunca disse que “os fins justificam os meios” e identificava na corrupção generalizada a razão da queda da República romana. Jamais a diferença, em Weber, entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade autorizou o assalto aos cofres públicos em nome de uma “boa causa”. Nem os assaltos e sequestros da extrema esquerda nos anos 60, nem a mentira para ganhar eleições, nem a corrupção para comprar apoio parlamentar.
Mas o pior é que hoje, no Brasil, se trata de corrupção pura e simples, enriquecimento ilícito, roubo do dinheiro de todos. Verdadeiros corruptos sem causa. Os tempos são cinzentos, mas juntos, não tenho dúvidas, reconstruiremos a esperança e a decência.
Dilma se transformou?
Dilma se transformou? Marcou sem dúvida muitos pontos na entrevista coletiva na Suécia na qual fez, talvez, as afirmações mais importantes e taxativas de seu segundo mandato.
É possível alegar que se trata de um escudo contra as tentativas de retirá-la da Presidência; ou de uma estratégia a meio caminho entre o maquiavelismo e as táticas de guerrilha que ela conhece muito bem por tê-las praticado em sua juventude.
Pode também ter sido a confissão de uma inesperada transformação. O certo é que, acossada por todos os lados, com uma popularidade pífia, falou claramente, sem rodeios, algo que não costuma ser seu forte. “Quando digo não, não há outra opção, é não e acabou”, disse aos jornalistas ao afirmar que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não só continua em seu governo como confiou a ele a política econômica do mesmo. “Se ele continua é porque nós concordamos com essa política”.
Pela primeira vez e com todas as letras, respondendo a uma declaração do presidente do PT, Rui Falcão, que pedia uma mudança da política econômica e indiretamente a saída de Levy, Dilma respondeu, quase como um desafio, que essa não será sua política. “O presidente do PT pode ter a opinião que quiser. Sua opinião não é a do Governo”. E explica que respeita suas opiniões, porque o PT “integra a base aliada” e é o partido mais importante da mesma, mas acrescenta algo de grande importância neste momento em que um de seus pontos fracos é a desagregação da base aliada que a levou ao poder. O fato do PT ser o partido mais importante da coalizão, diz Dilma, “não significa que sua opinião seja a do Governo”. Reivindica assim a força dos outros aliados.
Se o PT e os movimentos sociais até já se manifestaram nas ruas contra a política de ajustes fiscais e contra qualquer aumento de impostos, que é o ponto principal da política econômica defendida por Levy, Dilma foi de novo taxativa: defendeu a volta da odiada CPMF, o imposto sobre as transações bancárias como algo fundamental: “acreditamos que a CPMF é crucial para que o país volte a crescer”, um mantra que até o momento somente Levy havia dito.
Se existe uma notícia que esteve em todos os jornais na semana passada foi o fato de Lula pedir à Presidenta diretamente a saída de Levy do governo. Também aqui, Dilma foi taxativa, dura: “Nunca me pediu nada”. E acrescentou: Quando o Presidente Lula quer alguma coisa não tem o menor constrangimento em fazê-lo”.
Indiretamente, com todos sabendo que tanto Lula como o PT gostariam da saída de Levy, após a defesa sem rodeios sobre ele feita por Dilma, ela disse que Lula não se furta a lhe pedir alguma coisa,mas ela também não tem problemas na hora de lhe dizer não.
E por último, a Presidenta até chegou a fazer na Suécia um mea culpa sobre um dos pontos importantes da fracassada política econômica de seu primeiro mandato, que agora decidiu corrigir. Uma confissão que até sábado ela se negava a fazer. A Presidenta admitiu que um dos fatores que levaram o país a esse momento de crise econômica foi “a diminuição de tributações para setores da economia”, que ela havia concedido generosamente em seu primeiro mandato.
O leitor poderá concluir que, das graves e importantes afirmações feitas por Dilma na Suécia, é possível dizer que ela agora admite que decidiu assumir a responsabilidade de exercer em seu segundo mandato uma política econômica de cunho mais liberal, de ajuste fiscal baseado mais no crescimento do que no consumo, que se parece mais com as propostas feitas pela oposição durante a última campanha eleitoral e que é o verdadeiro programa do banqueiro Levy.
É possível.
Dilma se transformou? Decidiu, em um jogo de vida e morte, seguir seu próprio caminho justo no momento em que é acusada de ter delegado seu mandato ao seu tutor, Lula, que está governando em seu lugar?
Mistérios da emaranhada e enigmática política da qual é preciso se desligar se quiser realmente que o Brasil volte a crescer.
Logo saberemos se Dilma deu, com suas afirmações, um xeque-mate na partida que dava por perdida, ou se foi somente um salto suicida no vazio.
Uma coisa é certa: a Presidenta nunca falou tão claro e sem usar seu linguajar característico, difícil de interpretar até mesmo para os especialistas em linguística.
“Quando digo não, não há outra opção, é não e acabou” mandou dizer a gregos e troianos. E isso até os mais analfabetos entendem.
É possível alegar que se trata de um escudo contra as tentativas de retirá-la da Presidência; ou de uma estratégia a meio caminho entre o maquiavelismo e as táticas de guerrilha que ela conhece muito bem por tê-las praticado em sua juventude.
Pode também ter sido a confissão de uma inesperada transformação. O certo é que, acossada por todos os lados, com uma popularidade pífia, falou claramente, sem rodeios, algo que não costuma ser seu forte. “Quando digo não, não há outra opção, é não e acabou”, disse aos jornalistas ao afirmar que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não só continua em seu governo como confiou a ele a política econômica do mesmo. “Se ele continua é porque nós concordamos com essa política”.
Pela primeira vez e com todas as letras, respondendo a uma declaração do presidente do PT, Rui Falcão, que pedia uma mudança da política econômica e indiretamente a saída de Levy, Dilma respondeu, quase como um desafio, que essa não será sua política. “O presidente do PT pode ter a opinião que quiser. Sua opinião não é a do Governo”. E explica que respeita suas opiniões, porque o PT “integra a base aliada” e é o partido mais importante da mesma, mas acrescenta algo de grande importância neste momento em que um de seus pontos fracos é a desagregação da base aliada que a levou ao poder. O fato do PT ser o partido mais importante da coalizão, diz Dilma, “não significa que sua opinião seja a do Governo”. Reivindica assim a força dos outros aliados.
Se o PT e os movimentos sociais até já se manifestaram nas ruas contra a política de ajustes fiscais e contra qualquer aumento de impostos, que é o ponto principal da política econômica defendida por Levy, Dilma foi de novo taxativa: defendeu a volta da odiada CPMF, o imposto sobre as transações bancárias como algo fundamental: “acreditamos que a CPMF é crucial para que o país volte a crescer”, um mantra que até o momento somente Levy havia dito.
Se existe uma notícia que esteve em todos os jornais na semana passada foi o fato de Lula pedir à Presidenta diretamente a saída de Levy do governo. Também aqui, Dilma foi taxativa, dura: “Nunca me pediu nada”. E acrescentou: Quando o Presidente Lula quer alguma coisa não tem o menor constrangimento em fazê-lo”.
Indiretamente, com todos sabendo que tanto Lula como o PT gostariam da saída de Levy, após a defesa sem rodeios sobre ele feita por Dilma, ela disse que Lula não se furta a lhe pedir alguma coisa,mas ela também não tem problemas na hora de lhe dizer não.
E por último, a Presidenta até chegou a fazer na Suécia um mea culpa sobre um dos pontos importantes da fracassada política econômica de seu primeiro mandato, que agora decidiu corrigir. Uma confissão que até sábado ela se negava a fazer. A Presidenta admitiu que um dos fatores que levaram o país a esse momento de crise econômica foi “a diminuição de tributações para setores da economia”, que ela havia concedido generosamente em seu primeiro mandato.
O leitor poderá concluir que, das graves e importantes afirmações feitas por Dilma na Suécia, é possível dizer que ela agora admite que decidiu assumir a responsabilidade de exercer em seu segundo mandato uma política econômica de cunho mais liberal, de ajuste fiscal baseado mais no crescimento do que no consumo, que se parece mais com as propostas feitas pela oposição durante a última campanha eleitoral e que é o verdadeiro programa do banqueiro Levy.
É possível.
Dilma se transformou? Decidiu, em um jogo de vida e morte, seguir seu próprio caminho justo no momento em que é acusada de ter delegado seu mandato ao seu tutor, Lula, que está governando em seu lugar?
Mistérios da emaranhada e enigmática política da qual é preciso se desligar se quiser realmente que o Brasil volte a crescer.
Logo saberemos se Dilma deu, com suas afirmações, um xeque-mate na partida que dava por perdida, ou se foi somente um salto suicida no vazio.
Uma coisa é certa: a Presidenta nunca falou tão claro e sem usar seu linguajar característico, difícil de interpretar até mesmo para os especialistas em linguística.
“Quando digo não, não há outra opção, é não e acabou” mandou dizer a gregos e troianos. E isso até os mais analfabetos entendem.
Perigosa irresponsabilidade

Mais uma semana se passou de total paradeiro, de descaso com as dificuldades que o cidadão comum, as instituições, as empresas e o resto do país vivem sem que se mudasse o eixo das preocupações dos que têm a responsabilidade institucional de oferecer soluções para que se estanque a vertiginosa degradação geral que acomete o Brasil. Estamos no fundo do poço, entregues a quadrilhas que chegaram ao seu pior momento: não se entendem quanto ao que querem. Instalou-se em Brasília, de onde se espera que apareçam alternativas e propostas, a mais desordenada briga de gangues.
A presidente e seus olheiros, desde 1º de janeiro, cuidam de evitar que o deputado Eduardo Cunha, para muitos estranhamente ainda solto, leia de sua cadeira de presidente da Câmara dos Deputados o pedido de instalação de impeachment. Eduardo Cunha, de conhecida carreira, foi apanhado como titular de centenas de contas no exterior (na Suíça, nos Estados Unidos e no Panamá), de onde, comprovadamente, sem qualquer dúvida, ele e sua família tiravam dinheiro para comprar calcinha, pagar o personal, a depilação, viajar e hospedar-se nos melhores hotéis. E é nas mãos dessa figura que está a decisão de cumprir ou não o ato protocolar.
Em paralelo, mais ninguém nesse país sabe o que espera para que a Procuradoria da República e o STF enviem para a casa de Cunha, num camburão da frota, as algemas, o macacão alaranjado e a tornozeleira que a família poderá ter que usar nos próximos anos, como prêmio, por décadas, de afrontosa burla e fraude em bem urdidas ações colecionadas para pilhar o patrimônio público.
Como sugestão, que se requisite o estádio Mané Garrincha, pela sua proximidade com a Justiça, com os Tribunais Superiores e com a Polícia Federal, (por facilidade logística), e nele se organizem as celas que a Justiça precisa para receber mais rápida e economicamente, ainda que com desmerecido conforto, mas banho de sol, essa horda que está arrebentando o país. Independentemente de partido, se do PT, do PSDB, do PMDB, de qualquer outra banda podre que são quase todos os 36 partidos do Brasil.
Mas que lá se abriguem por muitos anos os que meteram a mão no caixa do tesouro. Os que em bando sempre ocuparam espaços de decisão para se enriquecerem. Os que usam ou usaram sua caneta, sua autoridade, seu cargo, seu mandato, para nomeações imorais, para furtar e mamar, sem limites, nas tetas dos governos, os privilégios que reservaram para sua satisfação. O espaço é pródigo para receber essa galera. Ladrões, muitos contando tempo para farta aposentadoria nos Estados, nos municípios, nas assembleias legislativas e câmaras municipais, em todos os poderes do Estado. Juntem todos que, sem medo de sermos injustos, poderão partir em caravanas rumo ao Planalto Central. O Mané Garrincha receberá.
O que não podemos mais é ficar onde estamos, com o povo desempregado, com fome, sentado num barril de pólvora, no limite da explosão.
A escolha de Sofia
Quem cai primeiro: Dilma ou Eduardo Cunha? Essa, para mim, é uma escolha de Sofia, a personagem que teve de decidir qual dos dois filhos seria sacrificado. Sofia queria que ambos sobrevivessem, daí a angústia de sua escolha. No caso brasileiro, gostaria que os dois caíssem e, se possível, levassem também o Renan Calheiros.
Para o ex-ministro Joaquim Barbosa, o impeachment de Dilma é uma bomba atômica. Mesmo discordando de sua conclusão, acho que a imagem é útil e nos remete ao período da Guerra Fria, no qual a ameaça de uma hecatombe nuclear se tornou um fator de equilíbrio.
Eduardo Cunha tem contas na Suíça e foi detonado por quatro delatores. Hoje, conta com a simpatia da oposição. O líder do PSDB fez um discurso nauseante de apoio a Cunha na CPI. Fiquei tão chocado que escrevi mensagem de protesto para seu gabinete.
A imagem de Barbosa serve, no entanto, para descrever o quadro. O impeachment tem valor para Cunha apenas como ameaça. Ele sabe que o impeachment de Dilma, imediatamente, levaria à sua própria queda. Dilma e Cunha necessitam um do outro e talvez evitem a guerra até que um deles caia por si próprio, derrubado pelos cupins que o consomem. Só existe um fator capaz de trazer alguma esperança: a participação popular. Sem ela, o Congresso fica perdido, os dramas vão se arrastar e reduziremos as chances de prosperidade das novas gerações.
Lula, por exemplo, escolheu um caminho de defesa: os fins justificam os meios. As pedaladas fiscais aconteceram para financiar o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida. É um argumento tenebroso porque engana os mais ingênuos e continua dando à quebra das regras do jogo um certo charme de Robin Hood.
Acontece que o governo não pedalou apenas com os gastos sociais. Fez inúmeras despesas, em torno de R$ 26 bilhões, sem consulta ao Congresso. Em qualquer democracia do mundo, isso é crime bem mais grave do que comer um bombom na mesa do delegado da PF.
Não importam Teoris e Rosas e outros juristas vestidos de preto, com uma linguagem empolada. Nessa semana fizeram o que condenamos nos juízes de futebol: apitaram perigo de gol. O governo acentuou seus erros num ano eleitoral precisamente para dizer agora: esqueçam o passado, não sou responsável por ele. E, com esse argumento, pedalou até em 2015.
Enquanto potencialmente puder acenar com o impeachment de Dilma, Cunha ficará vivo. E enquanto tiver Cunha como seu grande oponente, o governo vai propor a ele um acordo de sobrevivência. É uma dádiva para o PT que ele tenha encarnado a oposição.
Dizer que nada vai se resolver enquanto for decidido por cima não é, necessariamente, pessimismo. Milhões de pessoas rejeitam Dilma e Cunha. Mas não podem apenas esperar que um destrua o outro.
Milhões de pessoas querem mudança. Mas esperam que aconteça num universo petrificado de Brasília. As coisas se parecem um pouco como aquele poema de John Donne sobre sinos dobrando. Não pergunte por quem dobram, pois dobram por você. De uma certa maneira, não será o Cunha, Congresso ou Supremo que resolverão essa parada. Ela depende de cada um.
Enquanto os atores institucionais e seus cronistas nos reduzirem apenas a expectadores, esse filme de quinta categoria não acaba nunca. Não quero dizer com isso que precisamos fazer manifestações cada vez maiores, para os jornalistas medirem, fita métrica na mão, o nosso avanço.
Com mais de meio século de experiência nas ruas, cheguei à conclusão de que nelas, como em outros lugares, não é só a quantidade que conta. Há um grande espaço para a qualidade e invenção. Mesmo sem nenhuma garantia de que esse caminho dê certo, ele tem, pelo menos, a vantagem de estar nas nossas mãos.
Da anistia às diretas, passando pela queda de Collor, as conquistas populares foram notáveis. Mas assim como na profissão de jornalista, o passado é muito bom mas não serve de consolo para os desafios do momento. O foco é sempre a próxima tarefa.
E o Brasil parece ter empacado na próxima tarefa. Ela não se resume na troca no poder, mas também na busca de um crescimento sustentável em todos os sentidos. Não podemos mais voar como galinha nem seguir, desvairadamente, destruindo recursos naturais.
Alguns amigos sonham com a garotada que vem aí. Mas os ombros dos jovens não precisam suportar o mundo. O futuro interessa também aos que não estarão vivos para presenciá-lo.
Para o ex-ministro Joaquim Barbosa, o impeachment de Dilma é uma bomba atômica. Mesmo discordando de sua conclusão, acho que a imagem é útil e nos remete ao período da Guerra Fria, no qual a ameaça de uma hecatombe nuclear se tornou um fator de equilíbrio.
Eduardo Cunha tem contas na Suíça e foi detonado por quatro delatores. Hoje, conta com a simpatia da oposição. O líder do PSDB fez um discurso nauseante de apoio a Cunha na CPI. Fiquei tão chocado que escrevi mensagem de protesto para seu gabinete.
Mas Cunha floresceu no período do PT. Era líder de seu partido, o PMDB, comandava votações e nas questões econômicas fechava com o governo. O processo de degradação que o PT favoreceu acabou levando a uma consequência lógica na Câmara: o mais hábil e experimentado bandido acabaria ocupando a presidência.
A imagem de Barbosa serve, no entanto, para descrever o quadro. O impeachment tem valor para Cunha apenas como ameaça. Ele sabe que o impeachment de Dilma, imediatamente, levaria à sua própria queda. Dilma e Cunha necessitam um do outro e talvez evitem a guerra até que um deles caia por si próprio, derrubado pelos cupins que o consomem. Só existe um fator capaz de trazer alguma esperança: a participação popular. Sem ela, o Congresso fica perdido, os dramas vão se arrastar e reduziremos as chances de prosperidade das novas gerações.
Lula, por exemplo, escolheu um caminho de defesa: os fins justificam os meios. As pedaladas fiscais aconteceram para financiar o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida. É um argumento tenebroso porque engana os mais ingênuos e continua dando à quebra das regras do jogo um certo charme de Robin Hood.
Acontece que o governo não pedalou apenas com os gastos sociais. Fez inúmeras despesas, em torno de R$ 26 bilhões, sem consulta ao Congresso. Em qualquer democracia do mundo, isso é crime bem mais grave do que comer um bombom na mesa do delegado da PF.
Não importam Teoris e Rosas e outros juristas vestidos de preto, com uma linguagem empolada. Nessa semana fizeram o que condenamos nos juízes de futebol: apitaram perigo de gol. O governo acentuou seus erros num ano eleitoral precisamente para dizer agora: esqueçam o passado, não sou responsável por ele. E, com esse argumento, pedalou até em 2015.
Enquanto potencialmente puder acenar com o impeachment de Dilma, Cunha ficará vivo. E enquanto tiver Cunha como seu grande oponente, o governo vai propor a ele um acordo de sobrevivência. É uma dádiva para o PT que ele tenha encarnado a oposição.
Dizer que nada vai se resolver enquanto for decidido por cima não é, necessariamente, pessimismo. Milhões de pessoas rejeitam Dilma e Cunha. Mas não podem apenas esperar que um destrua o outro.
Ou supor que as instituições, por si próprias, encontrem a saída. O Brasil está vivendo, de novo, aquele dilema do personagem de Kafka que esperou anos diante da porta do castelo, para descobrir que ela sempre esteve aberta.
Nossa oposição é medíocre, o Supremo aparelhado pelo PT, que se gaba de ter pelo menos cinco ministros na mão. Os principais personagens, Dilma e Cunha se equilibram pelo terror.
Milhões de pessoas querem mudança. Mas esperam que aconteça num universo petrificado de Brasília. As coisas se parecem um pouco como aquele poema de John Donne sobre sinos dobrando. Não pergunte por quem dobram, pois dobram por você. De uma certa maneira, não será o Cunha, Congresso ou Supremo que resolverão essa parada. Ela depende de cada um.
Enquanto os atores institucionais e seus cronistas nos reduzirem apenas a expectadores, esse filme de quinta categoria não acaba nunca. Não quero dizer com isso que precisamos fazer manifestações cada vez maiores, para os jornalistas medirem, fita métrica na mão, o nosso avanço.
Com mais de meio século de experiência nas ruas, cheguei à conclusão de que nelas, como em outros lugares, não é só a quantidade que conta. Há um grande espaço para a qualidade e invenção. Mesmo sem nenhuma garantia de que esse caminho dê certo, ele tem, pelo menos, a vantagem de estar nas nossas mãos.
Da anistia às diretas, passando pela queda de Collor, as conquistas populares foram notáveis. Mas assim como na profissão de jornalista, o passado é muito bom mas não serve de consolo para os desafios do momento. O foco é sempre a próxima tarefa.
E o Brasil parece ter empacado na próxima tarefa. Ela não se resume na troca no poder, mas também na busca de um crescimento sustentável em todos os sentidos. Não podemos mais voar como galinha nem seguir, desvairadamente, destruindo recursos naturais.
Alguns amigos sonham com a garotada que vem aí. Mas os ombros dos jovens não precisam suportar o mundo. O futuro interessa também aos que não estarão vivos para presenciá-lo.
O medo que nos tribaliza
De modo que o medo se tornou o maior dos nossos problemas. Os americanos de outras datas se deram conta disso. É o país do mundo em que mais se estuda a felicidade – e seus efeitos, inclusive, sobre a economia. E também onde mais investiga os efeitos nefastos do medo, e o atentado diário que esse fenômeno faz à geração de riquezas, com tudo o que demanda dessa palavra. Pensemos em estudos como o de Barry Glassner, autor de Cultura do medo.
É curioso o que acontece no Brasil. As principais cidades estão numa zona endêmica de violência, caso lhe sejam aplicados os critérios internacionais. Nossos dados são superlativos, mas a violência e seu filhote, o medo, estão longe de mobilizar a sociedade. O número de pesquisas é insuficiente. A sociedade organizada tem um discurso a respeito, mas tropeça na hora de agir.
A explicação é evidente – lamentamos, protestamos, mas continuamos achando, impotentes, que se trata apenas de uma incumbência do Estado. Muitos diriam que não poderia ser diferente. A violência alcançou tamanho grau que o homem comum só consegue responder com silêncio. É o que qualquer um faz quando se sente impotente. Mas já são horas de romper esse círculo do vício e provocar uma cultura de sociedade da justiça e da paz, como se dizia. Ou reagimos com uma agenda positiva, ou vamos nos empobrecer ao extremo, fazendo apostas torpes na sociedade vigiada. Cabe à sociedade organizada dizer “alto lá”.
A divulgação do 9.º Anuário Brasileiro de Segurança Pública – produzido com a base de dados dos governos estaduais – nos dá elementos para iniciar a conversa. Em um ano, aumentamos os índices de violência em 5%. Em vidas, é bastante. O número de mortos de 2014 foi de 58.559 pessoas – sendo as causas homicídios dolosos, lesões corporais seguidas de morte, latrocínio e ações policiais. O cálculo beira o surreal – uma morte a cada nove minutos e índices alarmantes de 28 mortes a cada 100 mil habitantes.
Vale fazer um recorte na estatística de latrocínio, mesmo não sendo a mais alarmante. Representa menos de 5% das mortes – um total de 2.061 vítimas, seguida de 773 feridos. O efeito de um latrocínio é cruel sobre o imaginário. A violência da rua passa à porta da sala. Na clássica oposição entre casa e rua explorada por Roberto DaMatta, enquanto a “rua” cabe ao Estado, a “casa” está sob nossa custódia. É ali que, nas nossas mais sinceras crenças, fazemos a nossa parte. Esse esforço é desprezado. Violar o espaço doméstico é praticamente permitido. Diz-se por aí que não há solução para esse tipo de infração e ao que acarreta. A dizer: cada furto e roubo é a possibilidade do homicídio e da lesão corporal. Ao saber que esse temor é desprezado pelo poder público, resta ao cidadão leiloar o que lhe sobrava de confiança nas forças de segurança.
Eis o ponto. O mundo da segurança pública se rendeu à sociedade do espetáculo. Está empavonado demais para se ocupar de “miudezas”. Todos os esforços são no sentido de reprimir o crime organizado e de “manchetear” a ideia de um Estado corajoso e providente. É claro que essas ações são urgentes e necessárias, mas há um flagrante descuido com a violência às pessoas comuns. Pura burrice. Essas pessoas poderiam se tornar agentes cidadãos de segurança pública, caso se sentissem assistidas pelas polícias. Ao negligenciar a atmosfera de medo provocada pelo roubo e furto – e como esses delitos sugerem a possibilidade do latrocínio –, o poder público outra coisa não faz senão empurrar parte da população para os braços da informalidade das pequenas milícias e para a indústria de cercas elétricas, câmeras e afins.
A população fica trancafiada, enquanto quem deveria ajudar a lidar com isso defende uma hierarquia na solução dos crimes, partindo da supremacia do crime organizado. Ora, difícil sustentar que não há um alto grau de profissionalização dos assaltos a carros e residências. São sofisticados, e não ladrões de ocasião.
Olheiros, pequenas redes de informação, “sociedades anônimas” podem não precisar de helicópteros para que sejam reprimidos, mas sua dissolução é urgente. Só assim para neutralizar as raízes do medo. Há um mal que se infiltra pelas calçadas, com potencial de ser tanto mal quanto o tráfico. Tomara que o futuro não nos conte mais essa verdade.
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