
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
Presidência da República é destino
A arrogância que pontua a trajetória do PT desde a sua fundação e que agora, além de tudo, o paralisa, foi responsável pela ausência de qualquer admissão de erros no programa de televisão exibido ontem à noite. A não ser que se entenda como tal a pergunta feita pelo ator José de Abreu, o apresentador do programa:
- Não é melhor a gente não acertar em cheio tentando fazer o bem do que errar feio fazendo o mal?
Quer dizer: o PT acertou em tudo o que fez até aqui. Pode não ter acertado em cheio, mas acertou em tudo. Não foi melhor do que se errasse feio fazendo o mal? Se errou foi porque tentou fazer o bem.
Empulhação.
Outra ausência notada no programa: a palavra corrupção. Inacreditável que não se tenha dirigido uma única explicação aos brasileiros a respeito disso.
Seria pedir demais que condenassem os petistas que se envolveram com corrupção. Mas poderiam ter elogiado a Operação Lava Jatos. E reafirmado o compromisso do partido com a luta contra a corrupção.
As mentiras ditas por Dilma na última campanha eleitoral ficaram de fora do programa. Ela acusou, por exemplo, Marina Silva de preparar um ajuste que tiraria a comida do prato dos brasileiros.
Disse que Aécio, se eleito, cortaria programas sociais e causaria o desemprego de milhões de pessoas. O programa não poderia ter abordado essa questão mesm0 de passagem?
Não o fez. Repetiu supostas realizações do governo que as pessoas nem querem mais saber porque passaram a desconfiar de tudo. E ainda debochou dos paneleiros.
Debochar dos que batem em panelas para manifestar seu descontentamento equivale a provocar 7 entre 10 brasileiros que rejeitam Dilma e seu governo, de acordo com o Datafolha.
Há algo de inteligente nisso? Ou só de arrogante?
Sem discurso, sem aliados fieis, sem líderes, sem futuro promissor a curto ou médio prazo, o PT vê o governo que apoia, ou que mal apoia, desmanchar-se a cada dia.
O governo envelheceu sem sequer ter completado um ano. A presidente entregou ao seu vice o protagonismo que num regime presidencialista só a ela pertenceria.
De sua parte, Temer começa a se desgastar pelo desempenho de um papel para o qual não foi eleito. Não foi sequer votado. Arrisca-se a cair numa armadilha mortal.
Quer só socorrer a presidente a pedido dela. Mas pode parecer o ambicioso que aproveita o momento de fraqueza do titular do cargo para tentar passar-lhe a perna.
Na boca do palco desde janeiro último, Temer já deu o que poderia dar. Não domesticou o PMDB, seu partido. Nem o presidente da Câmara, seu companheiro.
O sucesso do ajuste fiscal foi para o espaço sem que Temer tivesse culpa alguma disso. A função de distribuir de cargos públicos esbarrou na sabotagem de ministros.
É tentador estar permanentemente sob os holofotes da mídia e ser bajulado pelos que desejam ou apostam em sua ascensão à presidência. Mas não é prudente. E muitos dirão que nem correto.
Aproveite o cansaço e se recolha à calmaria do Palácio do Jaburu, a poucos metros do Palácio da Alvorada. Se o destino for o de trocar de palácio, isso ocorrerá à sua revelia.
- Não é melhor a gente não acertar em cheio tentando fazer o bem do que errar feio fazendo o mal?
Quer dizer: o PT acertou em tudo o que fez até aqui. Pode não ter acertado em cheio, mas acertou em tudo. Não foi melhor do que se errasse feio fazendo o mal? Se errou foi porque tentou fazer o bem.
Empulhação.
Outra ausência notada no programa: a palavra corrupção. Inacreditável que não se tenha dirigido uma única explicação aos brasileiros a respeito disso.
Seria pedir demais que condenassem os petistas que se envolveram com corrupção. Mas poderiam ter elogiado a Operação Lava Jatos. E reafirmado o compromisso do partido com a luta contra a corrupção.
As mentiras ditas por Dilma na última campanha eleitoral ficaram de fora do programa. Ela acusou, por exemplo, Marina Silva de preparar um ajuste que tiraria a comida do prato dos brasileiros.
Disse que Aécio, se eleito, cortaria programas sociais e causaria o desemprego de milhões de pessoas. O programa não poderia ter abordado essa questão mesm0 de passagem?
Não o fez. Repetiu supostas realizações do governo que as pessoas nem querem mais saber porque passaram a desconfiar de tudo. E ainda debochou dos paneleiros.
Debochar dos que batem em panelas para manifestar seu descontentamento equivale a provocar 7 entre 10 brasileiros que rejeitam Dilma e seu governo, de acordo com o Datafolha.
Há algo de inteligente nisso? Ou só de arrogante?
Sem discurso, sem aliados fieis, sem líderes, sem futuro promissor a curto ou médio prazo, o PT vê o governo que apoia, ou que mal apoia, desmanchar-se a cada dia.
O governo envelheceu sem sequer ter completado um ano. A presidente entregou ao seu vice o protagonismo que num regime presidencialista só a ela pertenceria.
De sua parte, Temer começa a se desgastar pelo desempenho de um papel para o qual não foi eleito. Não foi sequer votado. Arrisca-se a cair numa armadilha mortal.
Quer só socorrer a presidente a pedido dela. Mas pode parecer o ambicioso que aproveita o momento de fraqueza do titular do cargo para tentar passar-lhe a perna.
Na boca do palco desde janeiro último, Temer já deu o que poderia dar. Não domesticou o PMDB, seu partido. Nem o presidente da Câmara, seu companheiro.
O sucesso do ajuste fiscal foi para o espaço sem que Temer tivesse culpa alguma disso. A função de distribuir de cargos públicos esbarrou na sabotagem de ministros.
É tentador estar permanentemente sob os holofotes da mídia e ser bajulado pelos que desejam ou apostam em sua ascensão à presidência. Mas não é prudente. E muitos dirão que nem correto.
Aproveite o cansaço e se recolha à calmaria do Palácio do Jaburu, a poucos metros do Palácio da Alvorada. Se o destino for o de trocar de palácio, isso ocorrerá à sua revelia.

Estado de exceção
Por mais de uma vez chamei a atenção de uma prática utilizada por alguns políticos e governos que é a de VITIMIZAÇÃO.
Ao invés de assumirem seus erros e corrigirem o rumo, muitos políticos e governantes tentam transferir aos outros suas culpas e erros, quando não “furtam” (para não usar outro termo), frases, pensamentos e ideias vencedoras sem dar definitivamente o crédito a quem de direito.
Não é novidade nem tampouco surpreende a atitude que o PT, o Partido dos Trabalhadores, está tendo em relação às denúncias de corrupção que envolvem não só alguns de seus militantes como também o próprio partido.
Nessa terça-feira a Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores definiu nova resolução política da legenda, ignorando a nova prisão do ex-ministro José Dirceu (que é ex-presidente do partido).
“O PT exorta todos os seus militantes a construírem uma trincheira de luta pela democracia, pelos direitos dos trabalhadores/as, pelos direitos humanos, em defesa da Petrobras e do povo brasileiro. Que ninguém se cale! Levantemo-nos juntos!”, diz o texto.
A certa altura a nota diz: “É um estado de exceção sendo gestado em afronta à Constituição e à democracia. Precisamos nos contrapor às ameaças de criminalizar o PT para destruí-lo”.
Mais uma vez o partido volta a criticar a escalada conservadora da oposição, da mídia monopolizada e de agentes públicos (PF, MPF, Justiça Federal, etc...).
No entendimento da cúpula partidária, essas ações têm o objetivo de enfraquecer o governo da presidente Dilma Rousseff, criminalizar o PT e atingir a popularidade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Vale lembrar que um partido político não é ladrão ou corrupto por si só. São seus militantes, “as pessoas” que o são. O problema é a tolerância e até mesmo incentivo à essa prática nefasta que faz com que “as pessoas de bem” cada vez mais se enojem da classe política e dos partidos.
Assim, entendo que o PT não é corrupto por si só, como também não o são o PMDB, o PP e osdemais partidos.
Digo isso porque ainda acredito que a democracia, mesmo com muitas falhas, é
o melhor regime (ou menos pior) que qualquer outro.
Fico estarrecido quando alguns membros do Partido dos Trabalhadores atribuem “a terceiros” o que acontece de ruim em nosso país, em especial à corrupção desenfreada, que alegam não ser de sua criação.
Aliás, sempre que alguém fala em corrupção, líderes petistas tentam “repassar” à FHC a conta, se isentando de maiores responsabilidades. Daqui a pouco vamos ter de investigar Dom Pedro II e, porque não, até mesmo Pedro Alvares Cabral.
Ora, como já comentei em outra oportunidade, a grande vilã é “A IMPUNIDADE, MÃE DA CORRUPÇÃO”.
Em qualquer país decente do mundo, caberia aos dirigentes partidários o incentivo a uma ampla e geral investigação para “depurar” e “livrar” o partido e a nação de tais práticas nefastas, inaceitáveis em um regime realmente democrático.
Mas isso é querer demais dos políticos brasileiros, em especial aos petistas que se usam de todos os “mecanismos de negação” para se livrarem de qualquer culpa.
Se no passado a PF e o Ministério Público “eram” instituições sérias ao investigar “outros governos e partidos”, hoje fazem parte de uma conspiração golpista para desacreditar o Partido dos Trabalhadores.
Minha decepção como brasileiro não se reduz aos dirigentes do PT, mas com grande parte da classe política também envolvida nesses escândalos sem fim.
Nos anos 80 do século passado, Jô Soares criou um personagem chamado “o General”.
Ele, o General, era amigo do então presidente João Figueiredo. O General sofrera um acidente no dia da posse de Figueiredo e passara seis anos em coma. Ao despertar, ainda enfraquecido e ligado a tubos e sondas, descobria que o Brasil havia mudado e que seu amigo não ocupava mais a presidência; pior, quem ocupava o cargo agora era José Sarney, um civil.
O General quase ia à loucura, pedia: “Me tira o tubo! Me tira o tubo!”.
Ao invés de assumirem seus erros e corrigirem o rumo, muitos políticos e governantes tentam transferir aos outros suas culpas e erros, quando não “furtam” (para não usar outro termo), frases, pensamentos e ideias vencedoras sem dar definitivamente o crédito a quem de direito.
Não é novidade nem tampouco surpreende a atitude que o PT, o Partido dos Trabalhadores, está tendo em relação às denúncias de corrupção que envolvem não só alguns de seus militantes como também o próprio partido.
Nessa terça-feira a Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores definiu nova resolução política da legenda, ignorando a nova prisão do ex-ministro José Dirceu (que é ex-presidente do partido).
No documento, o PT convoca uma “Jornada em Defesa da Democracia, dos Direitos dos Trabalhadores e Trabalhadoras e das Conquistas do Nosso Povo”.
“O PT exorta todos os seus militantes a construírem uma trincheira de luta pela democracia, pelos direitos dos trabalhadores/as, pelos direitos humanos, em defesa da Petrobras e do povo brasileiro. Que ninguém se cale! Levantemo-nos juntos!”, diz o texto.
A certa altura a nota diz: “É um estado de exceção sendo gestado em afronta à Constituição e à democracia. Precisamos nos contrapor às ameaças de criminalizar o PT para destruí-lo”.
Mais uma vez o partido volta a criticar a escalada conservadora da oposição, da mídia monopolizada e de agentes públicos (PF, MPF, Justiça Federal, etc...).
No entendimento da cúpula partidária, essas ações têm o objetivo de enfraquecer o governo da presidente Dilma Rousseff, criminalizar o PT e atingir a popularidade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Vale lembrar que um partido político não é ladrão ou corrupto por si só. São seus militantes, “as pessoas” que o são. O problema é a tolerância e até mesmo incentivo à essa prática nefasta que faz com que “as pessoas de bem” cada vez mais se enojem da classe política e dos partidos.
Assim, entendo que o PT não é corrupto por si só, como também não o são o PMDB, o PP e osdemais partidos.
Digo isso porque ainda acredito que a democracia, mesmo com muitas falhas, é
o melhor regime (ou menos pior) que qualquer outro.
Fico estarrecido quando alguns membros do Partido dos Trabalhadores atribuem “a terceiros” o que acontece de ruim em nosso país, em especial à corrupção desenfreada, que alegam não ser de sua criação.
Aliás, sempre que alguém fala em corrupção, líderes petistas tentam “repassar” à FHC a conta, se isentando de maiores responsabilidades. Daqui a pouco vamos ter de investigar Dom Pedro II e, porque não, até mesmo Pedro Alvares Cabral.
Ora, como já comentei em outra oportunidade, a grande vilã é “A IMPUNIDADE, MÃE DA CORRUPÇÃO”.
Em qualquer país decente do mundo, caberia aos dirigentes partidários o incentivo a uma ampla e geral investigação para “depurar” e “livrar” o partido e a nação de tais práticas nefastas, inaceitáveis em um regime realmente democrático.
Mas isso é querer demais dos políticos brasileiros, em especial aos petistas que se usam de todos os “mecanismos de negação” para se livrarem de qualquer culpa.
Se no passado a PF e o Ministério Público “eram” instituições sérias ao investigar “outros governos e partidos”, hoje fazem parte de uma conspiração golpista para desacreditar o Partido dos Trabalhadores.
Minha decepção como brasileiro não se reduz aos dirigentes do PT, mas com grande parte da classe política também envolvida nesses escândalos sem fim.
Mas vamos em frente...
Nos anos 80 do século passado, Jô Soares criou um personagem chamado “o General”.
Ele, o General, era amigo do então presidente João Figueiredo. O General sofrera um acidente no dia da posse de Figueiredo e passara seis anos em coma. Ao despertar, ainda enfraquecido e ligado a tubos e sondas, descobria que o Brasil havia mudado e que seu amigo não ocupava mais a presidência; pior, quem ocupava o cargo agora era José Sarney, um civil.
O General quase ia à loucura, pedia: “Me tira o tubo! Me tira o tubo!”.
O último suspiro
O que poderá ser dito agora? Nada ou quase nada além de um suspiro.
Com essa constatação melancólica, o professor Eugenio Bucci, da ECA -USP, que nos tempos em que era possível dizer alguma coisa, foi diretor da EBC- Empresa Brasileira de Comunicação- durante o governo Lula, assinou esta semana em artigo no Estadão, um dolorido testamento ideológico, uma espécie de ofício fúnebre para sepultar de vez o que restou do PT e para lamentar “aquilo que ficou para trás e para trás ficou”.
Esse generalizado “adeus às ilusões” que hoje corrói algumas almas petistas que guardam como relíquia histórica alguns resquícios dos, vá lá, ideais sobre os quais o partido foi edificado, é uma espécie de atestado de óbito de uma saga política cuja narrativa caberá agora aos historiadores.
Um veterano e experiente jornalista como Clóvis Rossi, insuspeito de simpatias antidemocráticas, também constatou, com menos dor do que Eugenio Bucci, mas com mais espanto, que ainda há gente que trata José Dirceu, condenado pelo mensalão e preso sob suspeita de participação no petrólão, como o jovem herói da rua Maria Antônia-ícone da luta contra a ditadura.
Sobre os escritores e artistas que assinaram o manifesto em defesa de José Dirceu, Rossi diz: “essa gente não conseguiu sequer sair da rua Maria Antônia, cuja simbologia antecede de muito a queda do Muro”.
Do jovem de cabelos revoltos da Maria Antônia ao provecto e abatido senhor que chegou escoltado por policiais à carceragem da Polícia Federal em Curitiba, há toda a simbologia de uma espécie de retrato de Dorian Gray da história política recente do Brasil.
Já não havia aí sequer o orgulhoso “herói do povo brasileiro” que chegou com o braço erguido ao presídio da Papuda, nem o combativo deputado federal que parecia destinado a uma gloriosa carreira quando o então presidente Collor foi enxotado do poder, em 1992.
Neste prefácio do livro “Todos os Sócios do Presidente”, de Gustavo Krieger,Luiz Antonio Novaes e Tales Faria, onde se narra a saga corrupta de Collor, José Dirceu escreve um texto que parece profético.
Mudando nomes e detalhes, José Dirceu poderia ser hoje o protagonista do seu próprio prefácio. Ele e seu partido diriam hoje que quem escreveu esse texto era um golpista ?
Eis o texto:
Com essa constatação melancólica, o professor Eugenio Bucci, da ECA -USP, que nos tempos em que era possível dizer alguma coisa, foi diretor da EBC- Empresa Brasileira de Comunicação- durante o governo Lula, assinou esta semana em artigo no Estadão, um dolorido testamento ideológico, uma espécie de ofício fúnebre para sepultar de vez o que restou do PT e para lamentar “aquilo que ficou para trás e para trás ficou”.
Esse generalizado “adeus às ilusões” que hoje corrói algumas almas petistas que guardam como relíquia histórica alguns resquícios dos, vá lá, ideais sobre os quais o partido foi edificado, é uma espécie de atestado de óbito de uma saga política cuja narrativa caberá agora aos historiadores.
Um veterano e experiente jornalista como Clóvis Rossi, insuspeito de simpatias antidemocráticas, também constatou, com menos dor do que Eugenio Bucci, mas com mais espanto, que ainda há gente que trata José Dirceu, condenado pelo mensalão e preso sob suspeita de participação no petrólão, como o jovem herói da rua Maria Antônia-ícone da luta contra a ditadura.
Sobre os escritores e artistas que assinaram o manifesto em defesa de José Dirceu, Rossi diz: “essa gente não conseguiu sequer sair da rua Maria Antônia, cuja simbologia antecede de muito a queda do Muro”.
Do jovem de cabelos revoltos da Maria Antônia ao provecto e abatido senhor que chegou escoltado por policiais à carceragem da Polícia Federal em Curitiba, há toda a simbologia de uma espécie de retrato de Dorian Gray da história política recente do Brasil.
Já não havia aí sequer o orgulhoso “herói do povo brasileiro” que chegou com o braço erguido ao presídio da Papuda, nem o combativo deputado federal que parecia destinado a uma gloriosa carreira quando o então presidente Collor foi enxotado do poder, em 1992.
Neste prefácio do livro “Todos os Sócios do Presidente”, de Gustavo Krieger,Luiz Antonio Novaes e Tales Faria, onde se narra a saga corrupta de Collor, José Dirceu escreve um texto que parece profético.
Mudando nomes e detalhes, José Dirceu poderia ser hoje o protagonista do seu próprio prefácio. Ele e seu partido diriam hoje que quem escreveu esse texto era um golpista ?
Eis o texto:
“A Comissão Parlamentar de Inquérito do caso Paulo César Farias pertence ao país, particularmente à juventude. Não teria sido possível sem a democracia.Sandro Vaia (*Agradeço a colaboração do jornalista Alexsandro Nogueira)
Pela primeira vez na história do Brasil esse sentimento de revolta contra a impunidade encontrou eco no parlamento e cresceu até tomar conta de todo o país. A CPI só saiu do papel graças à pressão da sociedade organizada e as denúncias da imprensa, que deram sustentação à luta quase quixotesca que parlamentares travavam contra a corrupção no governo federal.
A CPI revelou que o chefe da corrupção era o próprio Collor, envolvido em fatos incompatíveis com o cargo de presidente da República, recebendo vantagens econômicas ao longo do seu mandato, para si e seus familiares, através do esquema criminoso de PC. Mais grave ainda é que tudo isto foi possível porque recebeu o apoio de grande parte do empresariado brasileiro, o que revela o grau de decomposição ética das elites brasileiras, acostumadas à impunidade e ao assalto aos cofres públicos.
Por tudo isso, não basta a CPI, é preciso que seu espírito tome conta do país. A verdade é que o nosso povo novamente está caminhando. Está tecendo o fio da história, retomando a luta pela dignidade e justiça, pela cidadania.”
Mandioquilma
PresidentA Dilma andou elogiando a mandioca, e teve gente que estranhou, gente chiou, outros acharam que a mandioca não merece elogio de quem anda tão desaprovada. Mas aqui estou eu, presidentA, acorrendo em teu socorro como Quixote sem Sancho nem Rocinonte, mas com um monte de alegações em teu favor.
Primeiro, é um alívio ver que a presidentA encontra, entre tantos ministros e políticos da base “aliada”, algo elogiável.
Segundo, é alvissareiro saber que alguém no poder consegue ver os méritos dessa raiz que está nas nossas origens nutricionais e culturais. Nunca tantos deveram tanto a tão poucos, disse Churchill sobre os pilotos que, surrando a aviação alemã, evitaram a invasão da Inglaterra, que seria seguida pela invasão da América do Sul e, daí, só Deus sabe como ficaria o mundo.
Aqui entre nós, nunca tantos deveram tanto à mandioca. A batata também nasceu entre os índios daqui mas, levada para a Europa, voltou com o nome de batata-inglesa e pode ser comida frita, assada e cozida. Já a mandioca, ah, a mandioca também e muito mais: como farinha, faz a base da merenda nordestina, transforma-se em coxinha, é indispensável na feijoada e convive com o arroz-feijão cotidiano dos brasileiros de Norte a Sul.
Quem nunca comeu vaca-atolada não sabe o que é combinação perfeita entre a mais dura das carnes, a costela, cozida ao ponto de quase desmanchar, e a mais cremosa das raízes.
Vó Tiana cozinhava mandioca no meio da tarde, botava fumegante no prato, despejava melaço por cima e ficava vento o neto se lambuzar. Depois ia para o quintal com uma faquinha, cortava pontas das ramas das aboboreiras, fazia sopa de mandioca com cambuquira e pescoço e sambiquira de galinha. Podem me prender, me bater e me torturar, PresidentA, mas continuarei a dizer que é a sopa mais gostosa do mundo.
Nonna Paulina fritava mandioca até ficar dourada e crocante, o neto comia com arroz-feijão dispensando tudo mais.
E purê de mandioca então? É só amassar com o garfo na panela, misturar leite e queijo ralado, pronto, o purê de batata perde feio.
E existe café da tarde mais brasileiro e gostoso que com bolo de mandioca?
PresidentA, se pouco haverá para imortalizar teu mandato, com certeza teu elogio à mandioca é digno de uma femina-sapiens (permita-me a correção, presidentA, mas “mulher-sapiens”, como a senhora falou, não é correto pois mistura Português com Latim, como tantas misturas do seu governo: economia com política, dinheiro público com privado, administração com desorganização, assistência social com eleição etceteretal).
Se vier a Londrina, venha comer bolo de mandioca aqui na chácara, com café de coador e passarinhos no quintal. E, se um dia criarem uma Comenda da Mandioca, que a senhora seja a primeira a ser homenageada. Como disso o poeta, de tudo fica um pouco e, se de teu governo ficar o elogio da mandioca, já será muito.
Domingos Pellegrini
Primeiro, é um alívio ver que a presidentA encontra, entre tantos ministros e políticos da base “aliada”, algo elogiável.

Aqui entre nós, nunca tantos deveram tanto à mandioca. A batata também nasceu entre os índios daqui mas, levada para a Europa, voltou com o nome de batata-inglesa e pode ser comida frita, assada e cozida. Já a mandioca, ah, a mandioca também e muito mais: como farinha, faz a base da merenda nordestina, transforma-se em coxinha, é indispensável na feijoada e convive com o arroz-feijão cotidiano dos brasileiros de Norte a Sul.
Quem nunca comeu vaca-atolada não sabe o que é combinação perfeita entre a mais dura das carnes, a costela, cozida ao ponto de quase desmanchar, e a mais cremosa das raízes.
Vó Tiana cozinhava mandioca no meio da tarde, botava fumegante no prato, despejava melaço por cima e ficava vento o neto se lambuzar. Depois ia para o quintal com uma faquinha, cortava pontas das ramas das aboboreiras, fazia sopa de mandioca com cambuquira e pescoço e sambiquira de galinha. Podem me prender, me bater e me torturar, PresidentA, mas continuarei a dizer que é a sopa mais gostosa do mundo.
Nonna Paulina fritava mandioca até ficar dourada e crocante, o neto comia com arroz-feijão dispensando tudo mais.
E purê de mandioca então? É só amassar com o garfo na panela, misturar leite e queijo ralado, pronto, o purê de batata perde feio.
E existe café da tarde mais brasileiro e gostoso que com bolo de mandioca?
PresidentA, se pouco haverá para imortalizar teu mandato, com certeza teu elogio à mandioca é digno de uma femina-sapiens (permita-me a correção, presidentA, mas “mulher-sapiens”, como a senhora falou, não é correto pois mistura Português com Latim, como tantas misturas do seu governo: economia com política, dinheiro público com privado, administração com desorganização, assistência social com eleição etceteretal).
Se vier a Londrina, venha comer bolo de mandioca aqui na chácara, com café de coador e passarinhos no quintal. E, se um dia criarem uma Comenda da Mandioca, que a senhora seja a primeira a ser homenageada. Como disso o poeta, de tudo fica um pouco e, se de teu governo ficar o elogio da mandioca, já será muito.
Domingos Pellegrini
Michel Temer lá
Profissionais da política não costumam improvisar. Não apostam no acaso. Dito isso e diante da sequência de acontecimentos desta semana, dá-se por óbvio observar: Michel Temer está a um passo da cadeira de Dilma Rousseff. Por impedimento ou renúncia da presidente.
Tudo parece fruto de uma combinação elaborada, prevista para ser colocada em prática se e quando uma bomba letal fosse colocada dentro da sala dos que realmente regem o poder. O estopim teria sido a prisão de José Dirceu, o ex-ministro e ex-amigo de Lula, o ex-todo-poderoso do PT, o ex-capitão do time, o guerreiro do povo brasileiro.
De lá para cá, movimentações antagônicas e ao mesmo tempo complementares desembocaram na solução Temer.
Lula reúne-se com petistas em São Paulo e traça cenário desolador para o PT, o ministro-chefe da Casa Civil de Dilma, Aloizio Mercadante, vai à Câmara dos Deputados, admite erros do governo e elogia a oposição, o vice-presidente da República conclama por união nacional.
Na contramão do ajuste, a Câmara espreme ainda mais Dilma. Na madrugada de quinta-feira aprova a PEC que vincula os salários da Advocacia-Geral da União e de delegados a 90,25% do salário dos ministros do Supremo, incluindo ainda procuradores de estado e de municípios com mais de 500 mil habitantes. Apenas três petistas votam com o governo.
PDT e PTB, que juntos somam 44 deputados, formalizam o abandono à base. E o plenário aprova – com celeridade nunca vista - as contas dos dois governos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula. Com isso, a pauta para votar as contas de Dilma que podem vir do TCU com a indicação de rejeição está limpa. Daí para abertura do processo de impeachment é um pulo.
Ainda na quinta-feira, Temer volta a apelar pela união de todas as forças em nome do Brasil. As federações das indústrias de São Paulo e do Rio -- Fiesp e Firjan – assinam documento conjunto de apoio à união pregada pelo vice-presidente da República. Uma nota oficial de duas das maiores entidades empresariais do país, aprovada com rapidez sem igual, aponta como saída a “proposta de união apresentada pelo vice-presidente da República”. Nem por cortesia citam Dilma.
Difícil crer que tudo isso – convocação e união pelo Brasil, apoio empresarial, votação das contas de ex-presidentes para limpar a pauta abrindo-a para a possibilidade de impeachment – tenha ocorrido por capricho do destino, pelos ares de agosto ou conjunções astrais. Até porque são lances de quem entende o xadrez da política, sabe jogá-lo e dificilmente perde.
Dilma pode até não ser o cerne da crise, gestada nos tempos de Lula. Mas afastá-la tornou-se crucial para resolver a crise. Ameaçá-la com o impedimento constitucional para que ela se convença de que a renúncia é o melhor caminho pode ser parte do script. Se vai dar certo ou não, impossível prever.
País algum consegue encarar (e superar) uma crise, quanto mais da gravidade da que está instalada por aqui, com uma presidente tão frágil e impopular. E que ainda tem mais de 40 meses de mandato, quase três anos e meio.
Profissional, o vice Temer sabe muito bem disso. Tem passado todos os seus dias construindo a tal da credibilidade de que Dilma não goza e não tem mais como recuperar. Se dará certo ou não, impossível prever.
De lá para cá, movimentações antagônicas e ao mesmo tempo complementares desembocaram na solução Temer.
Lula reúne-se com petistas em São Paulo e traça cenário desolador para o PT, o ministro-chefe da Casa Civil de Dilma, Aloizio Mercadante, vai à Câmara dos Deputados, admite erros do governo e elogia a oposição, o vice-presidente da República conclama por união nacional.
Na contramão do ajuste, a Câmara espreme ainda mais Dilma. Na madrugada de quinta-feira aprova a PEC que vincula os salários da Advocacia-Geral da União e de delegados a 90,25% do salário dos ministros do Supremo, incluindo ainda procuradores de estado e de municípios com mais de 500 mil habitantes. Apenas três petistas votam com o governo.
PDT e PTB, que juntos somam 44 deputados, formalizam o abandono à base. E o plenário aprova – com celeridade nunca vista - as contas dos dois governos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula. Com isso, a pauta para votar as contas de Dilma que podem vir do TCU com a indicação de rejeição está limpa. Daí para abertura do processo de impeachment é um pulo.
Ainda na quinta-feira, Temer volta a apelar pela união de todas as forças em nome do Brasil. As federações das indústrias de São Paulo e do Rio -- Fiesp e Firjan – assinam documento conjunto de apoio à união pregada pelo vice-presidente da República. Uma nota oficial de duas das maiores entidades empresariais do país, aprovada com rapidez sem igual, aponta como saída a “proposta de união apresentada pelo vice-presidente da República”. Nem por cortesia citam Dilma.
Difícil crer que tudo isso – convocação e união pelo Brasil, apoio empresarial, votação das contas de ex-presidentes para limpar a pauta abrindo-a para a possibilidade de impeachment – tenha ocorrido por capricho do destino, pelos ares de agosto ou conjunções astrais. Até porque são lances de quem entende o xadrez da política, sabe jogá-lo e dificilmente perde.
Dilma pode até não ser o cerne da crise, gestada nos tempos de Lula. Mas afastá-la tornou-se crucial para resolver a crise. Ameaçá-la com o impedimento constitucional para que ela se convença de que a renúncia é o melhor caminho pode ser parte do script. Se vai dar certo ou não, impossível prever.
País algum consegue encarar (e superar) uma crise, quanto mais da gravidade da que está instalada por aqui, com uma presidente tão frágil e impopular. E que ainda tem mais de 40 meses de mandato, quase três anos e meio.
Profissional, o vice Temer sabe muito bem disso. Tem passado todos os seus dias construindo a tal da credibilidade de que Dilma não goza e não tem mais como recuperar. Se dará certo ou não, impossível prever.
Nada é tão absurdo quanto morrer na cadeia por Lula
Conforme as circunstâncias e as conveniências, o companheiro José Dirceu jura ter feito o que nunca fez ou nega ter sido o que comprovadamente foi. Despejado da Casa Civil em junho de 2005, por exemplo, o doutor em luta armada que só atirou com balas de festim caprichou na pose de guerrilheiro condecorado para proclamar-se “camarada de armas” de Dilma Rousseff. Em novembro de 2010, no trecho do Roda Viva reproduzido no vídeo acima, amputou um bom pedaço da biografia com a frase espantosa: “Eu não era deputado no governo Fernando Henrique”.
“Eu fui eleito em 78"?, acrescentou sem ficar ruborizado. Só se foi eleito Comerciário do Ano de Cruzeiro do Oeste, no interior do Paraná, onde se entrincheirou na caixa registradora do Magazine do Homem entre 1975 e 1979, quando a decretação da anistia animou o falso Carlos Henrique Gouveia de Mello a restaurar o nome de batismo e retomar a militância política. Elegeu-se deputado federal em 1990. Derrotado na disputa pelo governo federal em 1994, assumiu no ano seguinte a presidência do PT.
Durante o primeiro mandato de FHC, o comandante do partido fez o diabo para impedir que o inimigo vitorioso governasse. De volta à Câmara em 1998, liderou a mais raivosa bancada oposicionista da história do Congresso: todos os projetos e propostas do presidente tucano foram rejeitadas pela tropa em permanente estado de beligerância. A menos que um gêmeo univitelino tenha assumido o papel do irmão durante esse largo período, as fotos que aparecem no fim do vídeo comprovam que o ex-deputado federal José Dirceu é capaz até de negar que José Dirceu foi deputado federal.
Coerentemente, o chefe da quadrilha do mensalão continua jurando que não chefiou a quadrilha do mensalão.
Revisivelmente, o reincidente sem cura alcançado pela Operação Lava Jato agora faz de conta que conhece só de vista os diretores da Petrobras que nomeou, que nunca ouviu falar nos empresários que extorquiu disfarçado de consultor e que soube do Petrolão pelos jornais. Muita gente anda recuperando a memória em Curitiba. E se o guerreiro abandonado por oficiais e soldados rasos revogasse a opção pela amnésia?
“É mais fácil matarem Dirceu do que ele fazer uma delação”, garantiu nesta terça-feira seu advogado Roberto Podval. Aos 69 anos, José Dirceu pode descobrir que nada é mais difícil e mais absurdo que morrer na cadeia por Lula.
“Eu fui eleito em 78"?, acrescentou sem ficar ruborizado. Só se foi eleito Comerciário do Ano de Cruzeiro do Oeste, no interior do Paraná, onde se entrincheirou na caixa registradora do Magazine do Homem entre 1975 e 1979, quando a decretação da anistia animou o falso Carlos Henrique Gouveia de Mello a restaurar o nome de batismo e retomar a militância política. Elegeu-se deputado federal em 1990. Derrotado na disputa pelo governo federal em 1994, assumiu no ano seguinte a presidência do PT.
Durante o primeiro mandato de FHC, o comandante do partido fez o diabo para impedir que o inimigo vitorioso governasse. De volta à Câmara em 1998, liderou a mais raivosa bancada oposicionista da história do Congresso: todos os projetos e propostas do presidente tucano foram rejeitadas pela tropa em permanente estado de beligerância. A menos que um gêmeo univitelino tenha assumido o papel do irmão durante esse largo período, as fotos que aparecem no fim do vídeo comprovam que o ex-deputado federal José Dirceu é capaz até de negar que José Dirceu foi deputado federal.
Coerentemente, o chefe da quadrilha do mensalão continua jurando que não chefiou a quadrilha do mensalão.
Revisivelmente, o reincidente sem cura alcançado pela Operação Lava Jato agora faz de conta que conhece só de vista os diretores da Petrobras que nomeou, que nunca ouviu falar nos empresários que extorquiu disfarçado de consultor e que soube do Petrolão pelos jornais. Muita gente anda recuperando a memória em Curitiba. E se o guerreiro abandonado por oficiais e soldados rasos revogasse a opção pela amnésia?
“É mais fácil matarem Dirceu do que ele fazer uma delação”, garantiu nesta terça-feira seu advogado Roberto Podval. Aos 69 anos, José Dirceu pode descobrir que nada é mais difícil e mais absurdo que morrer na cadeia por Lula.
1984 assim começa

Era um dia frio e luminoso de abril, e os relógios davam treze horas. Winston Smith, queixo enfado no peito no esforço de esquivar-se do vento cruel, passou depressa pelas portas de vidro das Mansões Victory, mas não tão depressa que evitasse a entrada de uma lufada de poeira arenosa junto com ele.
O vestíbulo cheirava a repolho cozido e a velhos capachos de pano trançado. Numa das extremidades, um pôster colorido, grande demais para ambientes fechados, estava pregado na parede. Mostrava simplesmente um rosto enorme, com mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis. Winston avançou para a escada. Não adiantava tentar o elevador. Mesmo quando tudo ia bem, era raro que funcionasse, e agora a eletricidade permanecia cortada enquanto houvesse luz natural. Era parte do esforço de economia durante os preparativos para a Semana do Ódio. O apartamento ficava no sétimo andar e Winston, com seus trinta e nove anos e sua úlcera varicosa acima do tornozelo direito, subiu devagar, parando para descansar várias vezes durante o trajeto. Em todos os patamares, diante da porta do elevador, o pôster com o rosto enorme fitava-o da parede. Era uma dessas pinturas realizadas de modo a que os olhos o acompanhem sempre que você se move. O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ, dizia o letreiro, embaixo.
No interior do apartamento, uma voz agradável lia alto uma relação de cifras que de alguma forma dizia respeito à produção de ferro-gusa. A voz saía de uma placa oblonga de metal semelhante a um espelho fosco, integrada à superfície da parede da direita. Winston girou um interruptor e a voz diminuiu um pouco, embora as palavras continuassem inteligíveis. O volume do instrumento (chamava-se teletela) podia ser regulado, mas não havia como desligá-lo completamente. Winston foi para junto da janela: o macacão azul usado como uniforme do Partido não fazia mais que enfatizar a magreza de seu corpo frágil, miúdo. Seu cabelo era muito claro, o rosto naturalmente sanguíneo, a pele áspera por causa do sabão ordinário, das navalhas cegas e do frio do inverno que pouco antes chegara ao fim.
Fora, mesmo visto através da vidraça fechada, o mundo parecia frio. Lá embaixo, na rua, pequenos rodamoinhos de vento formavam espirais de poeira e papel picado e, embora o sol brilhasse e o céu fosse de um azul áspero, a impressão que se tinha era de que não havia cor em coisa alguma a não ser nos pôsteres colados por toda parte. Não havia lugar de destaque que não ostentasse aquele rosto de bigode negro a olhar para baixo. Na fachada da casa logo do outro lado da rua, via-se um deles. O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ, dizia o letreiro, enquanto os olhos escuros pareciam perfurar os de Winston. Embaixo, no nível da rua, outro pôster, esse com um dos cantos rasgado, adejava operosamente ao vento, ora encobrindo, ora expondo uma palavra solitária: Socing. Ao longe, um helicóptero, voando baixo sobre os telhados, pairou um instante como uma libélula e voltou a afastar-se a grande velocidade, fazendo uma curva. Era a patrulha policial, bisbilhotando pelas janelas das pessoas. As patrulhas, contudo, não eram um problema. O único problema era a Polícia das Ideias.
(George Orwell, 1984)
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
O governo Dilma está com jeito de que chegou ao fim
O governo balança, balança, e pode não chegar ao fim do ano. Só ganhará uma sobrevida com a ajuda da oposição.
Em síntese, foi isso o que disse, sem disfarçar a apreensão, o vice-presidente da República e coordenador político do governo Michel Temer (PMDB-SP).
Depois de um dia de reuniões com representantes de todos os partidos que supostamente apoiam o governo, e ministros chamados às pressas por ele,
Temer procurou os jornalistas e ditou:
- A declaração que eu quero fazer é aos vários setores da sociedade. Particularmente aos partidos políticos, aos companheiros do Congresso. (...) Nós
estamos pleiteando exata e precisamente que todos se dediquem a resolver o problema do país. Não vamos ignorar que a situação é razoavelmente grave.
Não tenho dúvida de que é grave. É grave porque há uma crise política se ensaiando, há uma crise econômica que precisa ser ajustada. Faço este apelo.
- Vocês sabem que ao longo do tempo tivemos sucesso na articulação política. Mas hoje, quando se inaugura o segundo semestre, agrava-se uma possível
crise. Precisamos evitar isso. Em nome do Brasil, do empresariado, dos trabalhadores, é preciso que alguém possa, tenha capacidade de reunificar a todos,
de unir a todos, de fazer esse apelo. Tomo a liberdade de fazer esse pedido porque, caso contrário, poderemos entrar numa crise desagradável. É preciso
pensar no país acima dos partidos, acima do governo.
O que deu em Temer? Em Temer, não, no governo? Porque ele falou pelo governo. Teve o cuidado, antes de falar, de trocar ideias a respeito com a
presidente Dilma. Ela o autorizou a falar.
Deu que Temer jogou a toalha como coordenador político do governo. Deu-se conta que não funcionará a política de distribuir cargos e sinecuras em troca
de votos no Congresso.
É a única política que o governo imaginou dispor para manter unida sua base de sustentação. Base tão ampla era uma miragem. Sempre foi desde a
reabertura do Congresso em fevereiro último.
Esfarelou-se. E por uma razão que costuma explicar o abandono de governos por aliados de ocasião: a impopularidade dos governos. Políticos e partidos
são sensíveis ao ronco das ruas.
A aprovação do governo só faz cair. Era de 7,7% na mais recente pesquisa CNI/MDA. Números frescos à disposição do governo mostram que o
percentual de aprovação caiu mais.
Pesquisa aplicada na semana passada apenas na capital paulista pelo Instituto Paraná de Pesquisas registrou que a desaprovação do governo Dilma bateu na
casa dos 90%.
Dito de outra maneira: 9 de cada 10 paulistanos rejeitam Dilma.
A declaração feita por Temer ganhou cores de desespero quando ele disse a certa altura:
- (...) é preciso que alguém possa, tenha capacidade de reunificar a todos, de unir a todos, de fazer esse apelo.
Que alguém é esse?
Num regime presidencialista, esse alguém só poderia ser o presidente da República. Mas porque a presidente deixou para Temer a tarefa de fazer o apelo?
Porque não tem mais condições de fazê-lo. Perdeu a credibilidade. Perdeu a confiança dos seus governados. Perdeu a autoridade política. Não se arrisca a
falar à Nação com medo de ser hostilizada.
Se seu apego ao poder não fosse demasiado, pediria as contas.
Talvez seja cruel afirmar que Temer, ao dizer o que disse e da maneira como disse, ofereceu-se para ocupar um espaço que está vago. Mas foi isso o que
aconteceu, mesmo contra sua vontade.
O vice-presidente no exercício improvisado e ocasional da presidência foi secundado no seu apelo pelos dois ministros mais importantes do governo –
Aloizio Mercadante, da Casa Civil, e Joaquim Levy, da Fazenda. Sintomático.
Pela primeira vez, Levy arquivou seu discurso geralmente cuidadoso para dizer que é grave a crise fiscal que o país atravessa. Alertou para o risco do ajuste
não dar certo.
Mercadante admitiu que o governo errou – sem apontar quando e como. Seria pedir demais a ele, convenhamos.
Para espanto da oposição, elogiou-a. E por fim disse que somente um acordo suprapartidário será capaz de salvar o país do pior.
Lula, Dilma e o PT sempre trataram a oposição com desprezo. Há 12 anos que a espezinham. Agora pedem arrego. De fato, é isso que pedem.
A resposta dos partidos a Temer, Levy e Mercadante começou a ser dada pouco antes da meia noite de ontem mesmo.
PDT e PTB, que juntos têm 44 deputados federais e dois ministros de Estado, anunciaram seu rompimento com o governo.
E a Câmara dos Deputados estava pronta para aprovar novos projetos que poderão comprometer de vez o ajuste fiscal.
Em síntese, foi isso o que disse, sem disfarçar a apreensão, o vice-presidente da República e coordenador político do governo Michel Temer (PMDB-SP).
Depois de um dia de reuniões com representantes de todos os partidos que supostamente apoiam o governo, e ministros chamados às pressas por ele,
Temer procurou os jornalistas e ditou:
- A declaração que eu quero fazer é aos vários setores da sociedade. Particularmente aos partidos políticos, aos companheiros do Congresso. (...) Nósestamos pleiteando exata e precisamente que todos se dediquem a resolver o problema do país. Não vamos ignorar que a situação é razoavelmente grave.
Não tenho dúvida de que é grave. É grave porque há uma crise política se ensaiando, há uma crise econômica que precisa ser ajustada. Faço este apelo.
- Vocês sabem que ao longo do tempo tivemos sucesso na articulação política. Mas hoje, quando se inaugura o segundo semestre, agrava-se uma possível
crise. Precisamos evitar isso. Em nome do Brasil, do empresariado, dos trabalhadores, é preciso que alguém possa, tenha capacidade de reunificar a todos,
de unir a todos, de fazer esse apelo. Tomo a liberdade de fazer esse pedido porque, caso contrário, poderemos entrar numa crise desagradável. É preciso
pensar no país acima dos partidos, acima do governo.
O que deu em Temer? Em Temer, não, no governo? Porque ele falou pelo governo. Teve o cuidado, antes de falar, de trocar ideias a respeito com a
presidente Dilma. Ela o autorizou a falar.
Deu que Temer jogou a toalha como coordenador político do governo. Deu-se conta que não funcionará a política de distribuir cargos e sinecuras em troca
de votos no Congresso.
É a única política que o governo imaginou dispor para manter unida sua base de sustentação. Base tão ampla era uma miragem. Sempre foi desde a
reabertura do Congresso em fevereiro último.
Esfarelou-se. E por uma razão que costuma explicar o abandono de governos por aliados de ocasião: a impopularidade dos governos. Políticos e partidos
são sensíveis ao ronco das ruas.
A aprovação do governo só faz cair. Era de 7,7% na mais recente pesquisa CNI/MDA. Números frescos à disposição do governo mostram que o
percentual de aprovação caiu mais.
Pesquisa aplicada na semana passada apenas na capital paulista pelo Instituto Paraná de Pesquisas registrou que a desaprovação do governo Dilma bateu na
casa dos 90%.
Dito de outra maneira: 9 de cada 10 paulistanos rejeitam Dilma.
A declaração feita por Temer ganhou cores de desespero quando ele disse a certa altura:
- (...) é preciso que alguém possa, tenha capacidade de reunificar a todos, de unir a todos, de fazer esse apelo.
Que alguém é esse?
Num regime presidencialista, esse alguém só poderia ser o presidente da República. Mas porque a presidente deixou para Temer a tarefa de fazer o apelo?
Porque não tem mais condições de fazê-lo. Perdeu a credibilidade. Perdeu a confiança dos seus governados. Perdeu a autoridade política. Não se arrisca a
falar à Nação com medo de ser hostilizada.
Se seu apego ao poder não fosse demasiado, pediria as contas.
Talvez seja cruel afirmar que Temer, ao dizer o que disse e da maneira como disse, ofereceu-se para ocupar um espaço que está vago. Mas foi isso o que
aconteceu, mesmo contra sua vontade.
O vice-presidente no exercício improvisado e ocasional da presidência foi secundado no seu apelo pelos dois ministros mais importantes do governo –
Aloizio Mercadante, da Casa Civil, e Joaquim Levy, da Fazenda. Sintomático.
Pela primeira vez, Levy arquivou seu discurso geralmente cuidadoso para dizer que é grave a crise fiscal que o país atravessa. Alertou para o risco do ajuste
não dar certo.
Mercadante admitiu que o governo errou – sem apontar quando e como. Seria pedir demais a ele, convenhamos.
Para espanto da oposição, elogiou-a. E por fim disse que somente um acordo suprapartidário será capaz de salvar o país do pior.
Lula, Dilma e o PT sempre trataram a oposição com desprezo. Há 12 anos que a espezinham. Agora pedem arrego. De fato, é isso que pedem.
A resposta dos partidos a Temer, Levy e Mercadante começou a ser dada pouco antes da meia noite de ontem mesmo.
PDT e PTB, que juntos têm 44 deputados federais e dois ministros de Estado, anunciaram seu rompimento com o governo.
E a Câmara dos Deputados estava pronta para aprovar novos projetos que poderão comprometer de vez o ajuste fiscal.
Um país de cabeça para baixo
Política sempre é tema de conversa entre mim e meus filhos. Procuro, na medida do possível, expor de forma clara meus pensamentos e busco analisar seus comentários. Eles exibem pontos de vista eivados de paixões, que no entanto não os cegam –eu tento assentar meus argumentos em terreno menos movediço. O resultado é que, em geral, convergimos para um equilíbrio: despejamos na mesma taça um pouco de entusiasmo juvenil, um pouco de cética utopia. Confesso, porém, que nos últimos tempos vem se tornando difícil compreender as manifestações da política brasileira. É como se, de repente, houvéssemos entrado, como Alice, dentro do espelho e estivéssemos vivendo o mundo ao contrário.
Consultado sobre a possibilidade de afastamento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, por conta das denúncias de envolvimento em corrupção na Operação Lava-Jato, o líder do PT na Casa, Sibá Machado, respondeu de forma peremptória: “Não há sentença ainda. E se ele for inocente?” Curiosamente, o partido que ele representa divulgou moção de apoio ao ex-tesoureiro João Vaccari Neto, preso desde abril, acusado de participar de desvio de dinheiro da Petrobras, prejulgando-o, assim, inocente. Seria o caso de perguntar a Sibá Machado: “Não há sentença ainda. E se ele for culpado?”
Na pesquisa na qual Sibá Machado defende o colega Eduardo Cunha, feita pelo jornal Folha de S. Paulo, a maioria dos líderes partidários se posiciona firmemente em favor do presidente da Câmara –o líder do PSDB, Carlos Sampaio, preferiu se abster, o que não deixa de ser uma atitude covarde. A advogada Beatriz Catta-Preta, umas das maiores autoridades brasileiras em jurisdição de delação premiada, que defendia alguns clientes no processo aberto pela Operação Lava-Jato, desistiu da carreira de advogada, após denunciar que está sofrendo ameaças de membros da CPI da Petrobras. Beatriz foi convocada para prestar depoimento por requerimento do deputado Celso Pansera (PMDB-RJ), acusado pelo doleiro Alberto Yousseff de ser “pau mandado” de Cunha. Além do presidente da Câmara, por enquanto outros 21 deputados de diversos partidos estão arrolados em processos de corrupção. A blindagem a Cunha, que andou ameaçando Deus e o mundo, é na verdade um movimento de autodefesa corporativa.
Os escândalos de corrupção que atingem altos dirigentes do partido corroem a imagem do governo e neutralizam os ganhos com as conquistas sociais do último decênio
As chantagens do Congresso contra a presidente Dilma Rousseff, orquestradas pelos presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha, ambos do PMDB do vice-presidente, Michel Temer, e ambos envolvidos em denúncias da Operação Lava-Jato, devem ser debitadas na conta do PT. Os escândalos de corrupção que atingem altos dirigentes do partido, como José Dirceu, ex-ministro do governo de Luiz Ignácio Lula da Silva, corroem de maneira irreversível a imagem do governo e neutralizam os ganhos com as conquistas sociais do último decênio. Somem-se a isso a incompetência na gestão econômica e a fragilidade na condução política e o resultado é a justa indignação do cidadão comum, que vem enfrentando o brutal aumento do desemprego, a forte alta da inflação e a baixa expectativa em relação ao futuro imediato, principalmente entre os jovens.
Em um momento como esse, de enfraquecimento da nossa já frágil democracia, chega a ser leviana a atitude do PSDB de convocar manifestações públicas para pedir o impeachment de Dilma Rousseff
Em um momento como esse, de enfraquecimento da nossa já frágil democracia, chega a ser leviana a atitude do PSDB de convocar manifestações públicas para pedir o impeachment de Dilma Rousseff. Ir para as ruas protestar contra a corrupção, contra a carestia, contra o encerramento de vagas no mercado de trabalho, contra o que quer que seja, é direito legítimo do cidadão. Mas quando um partido tenta apropriar-se dessas bandeiras está apenas tirando proveito da situação –no caso, o PSDB busca se fortalecer para as próximas eleições, apostando no cenário do quanto pior, melhor. Em primeiro lugar, por enquanto não há nenhum processo no qual Dilma seja ré. Em segundo, na hipótese de vacância do cargo assumiria Michel Temer, cujo partido é tão responsável pela atual situação política e econômica quanto o PT. E, em terceiro lugar, um processo de impeachment paralisaria ainda mais a economia do país, empurrando-nos para uma estrada que ninguém sabe onde vai dar. Os tucanos deveriam se espelhar no seu líder, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que em entrevista a uma revista alemã disse que considera Dilma uma pessoa honrada e que não acredita que ela esteja envolvida em corrupção. Ao dizer isso, penso que Fernando Henrique não estava defendendo a cidadã Dilma Rousseff que ora ocupa o cargo de Presidente da República. Ao dizer isso, penso que Fernando Henrique estava defendendo uma causa maior, a própria sobrevivência da nossa democracia.
Sobre exterminadores e ratos
Ano de 1934, Alemanha. Tempos difíceis, de preconceito e intolerância. Uma família judia muda-se para um condomínio após reformar o imóvel. A presença dos novos inquilinos não agrada a todos os moradores, mas não impede a mudança.
Apesar das melhorias, a nova residência tinha problemas antigos. Entre eles, a presença de ratos. Na primeira semana, a família matou um roedor e jogou no lixo do condomínio. Na segunda, eliminou mais dois, e, na seguinte, outros três. Os demais moradores, em sua maioria alemães arianos, ficaram incomodados. Reuniram-se e decidiram expulsar a família de judeus. A justificativa? Estavam levando ratos para o condomínio.
Essa história também se aplica à discriminação ao PT e a seus expoentes na atualidade.
Apesar das melhorias, a nova residência tinha problemas antigos. Entre eles, a presença de ratos. Na primeira semana, a família matou um roedor e jogou no lixo do condomínio. Na segunda, eliminou mais dois, e, na seguinte, outros três. Os demais moradores, em sua maioria alemães arianos, ficaram incomodados. Reuniram-se e decidiram expulsar a família de judeus. A justificativa? Estavam levando ratos para o condomínio.
Essa história também se aplica à discriminação ao PT e a seus expoentes na atualidade.
Há 13 anos, elegia-se presidente do Brasil um operário que não fazia parte do “condomínio do poder”: não pertencia à “raça predominante” na política nacional nem à elite branca deste país. Era um nordestino que poderia ter morrido à míngua na seca, ou, quem sabe, assassinado nas favelas onde morou. Um ex-preso, que na ditadura lutou contra o sindicalismo pelego, por melhores salários para os trabalhadores e, contra todos os prognósticos, conseguiu mudar a face do poder no Brasil.
Lula assinou o decreto de adesão do Brasil à Convenção da ONU contra a Corrupção e deu autonomia ao Ministério Público, nomeando para comandá-lo o nome mais votado pela categoria, diferentemente de seu antecessor, que costumava indicar o mais alinhado com seus interesses. Ele também fortaleceu a Polícia Federal e lhe deu independência, já que, antes, era dirigida por um delegado filiado ao PSDB, várias vezes candidato a deputado. Criou, ainda, a legislação da delação premiada e enviou ao Congresso o projeto de lei que tornava a corrupção crime hediondo.
Com sua sucessora não foi diferente. Dilma Rousseff nunca havia estado no “condomínio do poder”. Jamais tinha sido eleita para um cargo político. Era uma ex-presa política, torturada no regime de exceção. E também incomodou. Fez mudanças estruturais na Petrobras, demitiu servidores envolvidos com irregularidades e aprovou no Congresso a lei de combate à corrupção.
Lula assinou o decreto de adesão do Brasil à Convenção da ONU contra a Corrupção e deu autonomia ao Ministério Público, nomeando para comandá-lo o nome mais votado pela categoria, diferentemente de seu antecessor, que costumava indicar o mais alinhado com seus interesses. Ele também fortaleceu a Polícia Federal e lhe deu independência, já que, antes, era dirigida por um delegado filiado ao PSDB, várias vezes candidato a deputado. Criou, ainda, a legislação da delação premiada e enviou ao Congresso o projeto de lei que tornava a corrupção crime hediondo.
Com sua sucessora não foi diferente. Dilma Rousseff nunca havia estado no “condomínio do poder”. Jamais tinha sido eleita para um cargo político. Era uma ex-presa política, torturada no regime de exceção. E também incomodou. Fez mudanças estruturais na Petrobras, demitiu servidores envolvidos com irregularidades e aprovou no Congresso a lei de combate à corrupção.
Pois bem. Assim como na história, aqueles que tiveram a iniciativa de combater a “praga”, hoje, são execrados, acusados de ser os donos dos “ratos”. E, com a proposta inconstitucional de impeachment, tentam expulsar do “condomínio” uma presidente eleita legitimamente.
Fica o alerta: se não houver uma reação contundente da sociedade civil organizada, o exterminador acabará caçado como rato. Precisamos defender nossa democracia, a tão duras penas construída, a fim de que o Brasil não reproduza preconceitos históricos de uma elite para a qual somente seus membros podem morar no “condomínio do poder”.
A história que abre este texto é fictícia, mas bem que poderia ser real, na Alemanha de 1934 ou no Brasil de 2015.
Fica o alerta: se não houver uma reação contundente da sociedade civil organizada, o exterminador acabará caçado como rato. Precisamos defender nossa democracia, a tão duras penas construída, a fim de que o Brasil não reproduza preconceitos históricos de uma elite para a qual somente seus membros podem morar no “condomínio do poder”.
A história que abre este texto é fictícia, mas bem que poderia ser real, na Alemanha de 1934 ou no Brasil de 2015.
O modelo psicológico da morte do PT
Vamos a uma explicação wikipédica, antes do ponto principal.
O Modelo de Kübler-Ross propõe uma descrição de cinco estágios discretos pelo qual as pessoas passam ao lidar com a perda, o luto e a tragédia. Pelo modelo, pacientes terminais tendem a entrar em estado de auto-depreciação: e por isso necessitam se apoiar em alguns conceitos de conscientização de seu estado.
O modelo foi proposto por Elisabeth Kübler-Ross em seu livro On Death and Dying, publicado em 1969. Os estágios se popularizaram e são conhecidos como Os Cinco Estágios do Luto (ou da Dor da Morte, ou da Perspectiva da Morte).
O modelo foi proposto por Elisabeth Kübler-Ross em seu livro On Death and Dying, publicado em 1969. Os estágios se popularizaram e são conhecidos como Os Cinco Estágios do Luto (ou da Dor da Morte, ou da Perspectiva da Morte).
Os estágios são:
Negação: “Isso não pode estar acontecendo.”
Raiva: “Por que eu? Não é justo.”
Negociação: “Deixe-me viver apenas até meus filhos crescerem.”
Depressão: “Estou tão triste. Por que me preocupar com qualquer coisa?”
Aceitação: “Tudo vai acabar bem.”
Negação: “Isso não pode estar acontecendo.”
Raiva: “Por que eu? Não é justo.”
Negociação: “Deixe-me viver apenas até meus filhos crescerem.”
Depressão: “Estou tão triste. Por que me preocupar com qualquer coisa?”
Aceitação: “Tudo vai acabar bem.”
Kübler-Ross originalmente aplicou estes estágios para qualquer forma de perda pessoal catastrófica, desde a morte de um ente querido e até o divórcio. Também alega que estes estágios nem sempre ocorrem nesta ordem, nem são todos experimentados por todos os pacientes, mas afirmou que uma pessoa sempre apresentará pelo menos dois.
Alguns notaram que qualquer mudança pessoal significativa pode levar a estes estágios. Advogados criminalistas de defesa experientes estão cientes de que réus que estão enfrentando a possibilidade de punições severas com pouca possibilidade de evitá-las freqüentemente experimentam estes estágios, sendo desejável que atinjam o estágio de aceitação antes de se declararem culpados.
Alguns notaram que qualquer mudança pessoal significativa pode levar a estes estágios. Advogados criminalistas de defesa experientes estão cientes de que réus que estão enfrentando a possibilidade de punições severas com pouca possibilidade de evitá-las freqüentemente experimentam estes estágios, sendo desejável que atinjam o estágio de aceitação antes de se declararem culpados.
Agora vamos à adaptação que o PT fez desse modelo:
Negação: Dizer que não a nada provado
Raiva: Colocar a culpa na mídia e na oposição
Negociação: Propor pacotes anti-corrupção e fim de doação empresarial
Depressão: Dizer qwue todo mundo já roubou e que é culpa dos antecessores na Presidência da República
Aceitação: Habeas Corpus preventivo
Raiva: Colocar a culpa na mídia e na oposição
Negociação: Propor pacotes anti-corrupção e fim de doação empresarial
Depressão: Dizer qwue todo mundo já roubou e que é culpa dos antecessores na Presidência da República
Aceitação: Habeas Corpus preventivo
Os ex-otários
Governo fraco e o mais impopular já registrado pelo Datafolha, economia em frangalhos, instabilidade no Congresso Nacional e um infindável escândalo de corrupção. É difícil respirar num cenário desses. Mas, em meio a tudo isso, há, sim, uma boa notícia no ar. O Brasil está deixando de ser um país de otários.
Pode parecer pouca coisa agora, considerando a confusão decorrente na política e os prejuízos inevitáveis para a economia, mas o tratamento quimioterápico intensivo que começou na investigação do mensalão e prossegue no caso Petrobras está, de uma forma ou de outra, aos poucos, mostrando que a velha definição de Bezerra da Silva para o "otário" – sujeito que tem só dois direitos, o de tomar tapa e o de não dizer nada – não vale mais para o Brasil.
O procedimento em curso tem impacto profundo e abrangente. Políticos importantes foram condenados. O ministro mais poderoso de um governo popular foi preso uma, duas vezes, sendo que na última nem se sentiu mais à vontade para levantar teatralmente o braço e se dizer vítima de perseguição política. Grandes empreiteiros estão na cadeia. Um ex-presidente da República teve carros de luxo apreendidos. Envolvidos nos esquemas foram obrigados a devolver uma fortuna que gira em torno de R$ 1 bilhão.
É evidente que tudo isso não resultará no fim da corrupção, dos desmandos, dos desvios e dos superfaturamentos. Não existe solução definitiva para esse tipo de assunto. Tampouco indica que, das cinzas produzidas pelas investigações, surgirá uma classe política mais honrada.
Significa apenas que o país evoluiu e que as instituições funcionam com independência, não porque o governo atual permite, como martela o PT na sua difícil tentativa de se defender, mas pelo fato de que, 30 anos após o fim da ditadura, estão muito mais sólidas. A impunidade deixou de ser uma certeza. Corruptos e corruptores agora, ao menos, têm medo.
Pode parecer pouca coisa agora, considerando a confusão decorrente na política e os prejuízos inevitáveis para a economia, mas o tratamento quimioterápico intensivo que começou na investigação do mensalão e prossegue no caso Petrobras está, de uma forma ou de outra, aos poucos, mostrando que a velha definição de Bezerra da Silva para o "otário" – sujeito que tem só dois direitos, o de tomar tapa e o de não dizer nada – não vale mais para o Brasil.
O procedimento em curso tem impacto profundo e abrangente. Políticos importantes foram condenados. O ministro mais poderoso de um governo popular foi preso uma, duas vezes, sendo que na última nem se sentiu mais à vontade para levantar teatralmente o braço e se dizer vítima de perseguição política. Grandes empreiteiros estão na cadeia. Um ex-presidente da República teve carros de luxo apreendidos. Envolvidos nos esquemas foram obrigados a devolver uma fortuna que gira em torno de R$ 1 bilhão.
É evidente que tudo isso não resultará no fim da corrupção, dos desmandos, dos desvios e dos superfaturamentos. Não existe solução definitiva para esse tipo de assunto. Tampouco indica que, das cinzas produzidas pelas investigações, surgirá uma classe política mais honrada.
Significa apenas que o país evoluiu e que as instituições funcionam com independência, não porque o governo atual permite, como martela o PT na sua difícil tentativa de se defender, mas pelo fato de que, 30 anos após o fim da ditadura, estão muito mais sólidas. A impunidade deixou de ser uma certeza. Corruptos e corruptores agora, ao menos, têm medo.
Governo capturado, Estado desosrganizado
Esse esfolar das burras recheadas com o dinheiro público tem causado em nós tanta revolta, mas ainda não a ponto de decretarmos o estado de indignação permanente.
A República foi inventada para afugentar camarilhas, sejam familiares ou encrustadas em torno de grupamentos partidários.
É possível que no âmago, em sã consciência, estejamos todos remoendo essa nossa indignação numa mesma corrente de pensamento, a qual só tende a crescer por entre mais corações e mentes.
A República foi inventada para afugentar camarilhas, sejam familiares ou encrustadas em torno de grupamentos partidários.
A Democracia na República se afirma, por exemplo, com a alternância dos representantes das maiorias expressas nas urnas nos cargos públicos.
Essas maiorias eleitorais, no entanto, não podem resultar de tramoias muitas das quais sob o indecoroso manto consentido pelas leis que os congressistas engendram em causa própria.
Essas maiorias eleitorais, no entanto, não podem resultar de tramoias muitas das quais sob o indecoroso manto consentido pelas leis que os congressistas engendram em causa própria.
Assim, para a grande maioria deles, a melhor lei eleitoral é aquela sob a qual eles podem ganhar as eleições. De proposito, digo ganhar e não vencer porque para ganhar, no caso deles, vale o vale tudo, pois feio mesmo, para eles, é perder. Vencer, não. Tem a ver com vitória. Com competição suada sob as mesmas regras valendo para todos.
Ora, como haver equilíbrio numa competição eleitoral manchada pela dinheirama desviada dos cofres públicos em contratos superfaturados encobrindo os bilhões em propinas para o partido do poder e seus aliados.
Agora se sabe quanto custou, e ainda custa, para nós todos essa captura do Governo da República nesse domínio politico de mais de doze anos.
Agora se sabe quanto custou, e ainda custa, para nós todos essa captura do Governo da República nesse domínio politico de mais de doze anos.
Não é só um preço de nos causar náuseas. Causa também um misto de revolta e de tristeza. Quantas crianças não engrossaram as estatísticas de mortalidade infantil? Quantas não conheceram a fome pela falta da merenda escolar?
As filas nas portas dos hospitais em todo o País parecem não andar. Quem não tiver um poderoso plano de saúde que se prepare para brigar pelos seus sete palmos de terra, sete em profundidade.
No mais, os rios secando à falta de cuidados. Os portos sucateados. As ferrovias enferrujando. As estradas atraindo a morte nos buracos e lamaçais. Os preços dos alimentos subindo e alimentando a ganancia dos donos dos supermercados e voracidade dos governos por mais impostos.
No mais, o Estado inoperante ante a violência, os assaltos, as mortes, o poder dos traficantes de armas e de drogas controlando comunidades. As cidades sem ruas disponíveis e sem calçadas transitáveis porque o automóvel sendo um grande arrecadador de impostos e multas preponderando sobre as pessoas e a cidadania.
O Governo não tem nada a ver com a realidade do País. O Executivo não tem mais cargos para seguir barganhando com os partidos.
E o pior – não tem mais dinheiro em caixa. Logo mais estará parcelando os salários e atrasando mais do que tem atrasado os fornecedores e credores das dividas interna e externa.
O Legislativo segue ameaçando com uma pauta bomba para inviabilizar pra valer essa anêmica governabilidade. Regabofe para tarado nenhum botar defeito.
E o Judiciário? Os juízes em especial os do primeiro grau junto com o Ministério Publico Federal e a Policia Federal somam certezas que nos seguram a fé e estão nos dando, até aqui, grande alento.
Sucessão ou secessão
Agronegócio ou latifúndio? Ministério Público, Judiciário ou Polícia Federal? Multinacionais ou intelectualidade universitária?
Quem quiser que opine, mas pela primeira vez desde a chegada dos portugueses, com breve e limitado interregno dos holandeses, a unidade n acional encontra-se em xeque. Para sorte nossa, jamais tivemos governadores tão medíocres e incompetentes, caso contrário a secessão estaria na rua , muito antes da sucessão.
A Federação faz tempo tornou-se uma ficção, na medida da fraqueza dos Estados, mas como a União se esfacela, sobrará o quê? Um aglomerado de forças incapazes de atuar em uníssono. No máximo, cada município se tornará independente, com moeda própria, passaporte e forças armadas.
O triste nessa história de horror é não haver nem milagres. Desapareceram os salvadores da pátria, que só conturbariam o processo se aparecessem agora. Sequer sobrou o Lula, última das desesperanças a mergulhar nas profundezas. Das promessas imaginárias, ninguém emerge.
Dos lados da Operação Lava Jato delatores prometem devolver à Petrobras 247 milhões. Esse gesto deveria servir para agravar suas penas, pois se roubaram tanto, muitos mais continuará em poder de amigos e familiares. O ideal para o poder público seria confiscar-lhes todo o patrimônio, até os chinelos.
Presos na Maria Antônia
Sempre achei que a esquerda, nacional e internacional, ficou soterrada sob os escombros do Muro de Berlim. Até aí, dava para entender embora não para justificar. Afinal, a queda do Muro e o consequente fim simbólico do comunismo foram acontecimentos tão transcendentais que teriam mesmo que desnortear até quem estava do lado de cá do Muro, quanto mais os que simpatizavam com o lado derrotado.
O que surpreende, agora, com o manifesto de escritores e artistas em defesa de José Dirceu, é que esse pessoal não conseguiu sair nem sequer da rua Maria Antônia, cuja simbologia antecede de muito a queda do Muro. É inacreditável que gente que parece inteligente não perceba que José Dirceu deixou há séculos de ser o jovem idealista que lutava contra a ditadura nas barricadas estudantis de 1968.
Nem era preciso o mensalão ou, agora, o petrolão para fazer uma constatação tão óbvia.
Bastava saber, por exemplo, que Dirceu admitiu à revista "Piauí", em 2008, que prestava consultoria ao bilionário mexicano Carlos Slim, um dos três homens mais ricos do mundo, segundo a revista "Forbes".
A esquerda, inclusive muitos ou todos que assinam o manifesto, sempre denunciou a maneira como se enriquece no México (ou no Brasil).
Um idealista de verdade jamais prestaria serviços a esse tipo de empresário.
O estranhamento não é apenas meu, mas de um fundador do PT, o cientista político Rudá Ricci, que se afastou do partido desencantado.
Escreveu Rudá após a entrevista de Dirceu à "Piauí":
"O grande problema não foi se expor como um megaconsultor, homem de R$ 15 mil por consultoria, ou R$ 150 mil mensais. Esta vaidade de se expor é estranha para um ex-clandestino de esquerda. Revelar que trabalha para o homem mais rico do mundo também é estranho para um ex-presidente do maior partido de esquerda do país. Mas são idiossincrasias que acometem as melhores famílias".
À essa lucrativa "idiossincrasia" somaram-se consultorias –não devidamente comprovadas, segundo a Polícia Federal– às maiores empreiteiras do país.
No tempo em que a esquerda pensava, não deixava de denunciar a promiscuidade entre obras públicas, tocadas em geral por essas mesmas empreiteiras, e poder público.
Hoje, ao defender Dirceu, defende-se automaticamente a promiscuidade, como se houvesse maracutaia do bem (as "nossas") e do mal ("as dos outros").
Os pedidos, em voz quase inaudível, para que o PT faça um reexame de suas práticas já surgiram em 2008, na esteira do mensalão.
Rudá Ricci, por exemplo, escrevia então: "Seria fantástico se o julgamento [do mensalão] provocasse um debate franco entre petistas e toda esquerda tupiniquim. Mas já não tenho mais 20 anos. Não tenho motivos para acreditar que o brilho da utopia seja mais forte que as cores reluzentes do poder absoluto e domesticador".
Bingo, Rudá. O poder domesticou não só dirigentes do PT mas também uma fatia da intelectualidade, o que é um contrassenso: intelectual, por definição, é contestador.
O que surpreende, agora, com o manifesto de escritores e artistas em defesa de José Dirceu, é que esse pessoal não conseguiu sair nem sequer da rua Maria Antônia, cuja simbologia antecede de muito a queda do Muro. É inacreditável que gente que parece inteligente não perceba que José Dirceu deixou há séculos de ser o jovem idealista que lutava contra a ditadura nas barricadas estudantis de 1968.
Nem era preciso o mensalão ou, agora, o petrolão para fazer uma constatação tão óbvia.
Bastava saber, por exemplo, que Dirceu admitiu à revista "Piauí", em 2008, que prestava consultoria ao bilionário mexicano Carlos Slim, um dos três homens mais ricos do mundo, segundo a revista "Forbes".
A esquerda, inclusive muitos ou todos que assinam o manifesto, sempre denunciou a maneira como se enriquece no México (ou no Brasil).
Um idealista de verdade jamais prestaria serviços a esse tipo de empresário.
O estranhamento não é apenas meu, mas de um fundador do PT, o cientista político Rudá Ricci, que se afastou do partido desencantado.
Escreveu Rudá após a entrevista de Dirceu à "Piauí":
"O grande problema não foi se expor como um megaconsultor, homem de R$ 15 mil por consultoria, ou R$ 150 mil mensais. Esta vaidade de se expor é estranha para um ex-clandestino de esquerda. Revelar que trabalha para o homem mais rico do mundo também é estranho para um ex-presidente do maior partido de esquerda do país. Mas são idiossincrasias que acometem as melhores famílias".
À essa lucrativa "idiossincrasia" somaram-se consultorias –não devidamente comprovadas, segundo a Polícia Federal– às maiores empreiteiras do país.
No tempo em que a esquerda pensava, não deixava de denunciar a promiscuidade entre obras públicas, tocadas em geral por essas mesmas empreiteiras, e poder público.
Hoje, ao defender Dirceu, defende-se automaticamente a promiscuidade, como se houvesse maracutaia do bem (as "nossas") e do mal ("as dos outros").
Os pedidos, em voz quase inaudível, para que o PT faça um reexame de suas práticas já surgiram em 2008, na esteira do mensalão.
Rudá Ricci, por exemplo, escrevia então: "Seria fantástico se o julgamento [do mensalão] provocasse um debate franco entre petistas e toda esquerda tupiniquim. Mas já não tenho mais 20 anos. Não tenho motivos para acreditar que o brilho da utopia seja mais forte que as cores reluzentes do poder absoluto e domesticador".
Bingo, Rudá. O poder domesticou não só dirigentes do PT mas também uma fatia da intelectualidade, o que é um contrassenso: intelectual, por definição, é contestador.
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