terça-feira, 24 de março de 2015

O lado bom da crise

A crise é boa. Nada melhor do que uma crise para nos dar a sensação de que a vida muda, que a história anda, que a barra pesa. A crise nos tira o sono e nos faz alertas. A crise nos faz importantes, nós, a opinião pública, nós, o “povo”, nós, os ex-babacas que viviam na sombra, na modorra e que de repente saíram batendo panelas nas ruas. Na crise no Brasil, a política fica visível para a população. A crise nos lembra a maldição chinesa: “que você viva em tempos interessantes” – por “tempos interessantes” se entenderia uma época de calamidade, guerras e instabilidade. A crise é boa porque acabaram as antigas crises cegas, radiofônicas, anos 50. Hoje, as crises são online, na internet, nos celulares, com todas as roubalheiras ao vivo, imediatas, na velocidade da luz. A crise é uma aula, quase um videogame. A crise é um thriller em nossas vidas. A crise nos permite ver a verdade. Mas como, se todos mentem o tempo todo? A crise nos ensina a ver a verdade de cabeça para baixo, nos ensina que a verdade é o contrário de tudo que dizem os depoentes, testemunhas e réus. A verdade está em tudo que os políticos negam.

A crise é boa para conhecer tipos humanos. Temos de tudo – uma galeria de personas, de máscaras, de bonecos de engonço, temos um reality show sobre o Brasil, temos o desfile de caras, de bocas, de mãos trêmulas, temos as vaidades na fogueira, os clamores de honradez, os falsos testemunhos, a lama debaixo das dignidades, temos os intestinos, os nós nas tripas, os miasmas que nos envenenam, sujeiras escorrendo pelas frestas da lei.


E tudo vai diplomando o povo em ciência política. A crise é boa para acabar com a crença de que um operário tem uma aura de santidade e mostra que, para ser presidente, tem, sim, que estudar e ter competência. E nos mostra também o mal que um sujeito egoísta e deslumbrado pode fazer a um país.

A crise nos mostra que o crime político não é um defeito, mas uma instituição. A crise nos espanta: como um partido consegue esquecer qualquer resquício de grandeza e contaminar as instituições? A crise nos ensina o horror do narcisismo totalitário. A crise nos ensina que os velhos “revolucionários” ficaram iguais aos piores políticos oligárquicos – ambos trabalham na sombra, na dissimulação, no cabresto dos militantes. A crise nos lembra que a burrice é uma “força da natureza’, como os ciclones e terremotos. Crise também é cultura. A crise é Brecht, Shakespeare e revista “Caras”. A crise acabou com a mistificação de que o PT era o partido dos “puros”, como muitos intelectuais acreditaram e continuam acreditando, com a fé inquebrantável do “mesmo assim” – quebraram a Petrobras e o país, mas, “mesmo assim”, continuam acreditando, como religiosos: “Credo quia absurdum” (Creio mesmo sendo absurdo). A crise nos mostra que o petismo maculou as ideias de uma verdadeira esquerda no país, sequestraram as palavras, a linguagem romântica d’antanho. A crise prova que a velha esquerda ancorada no petismo não tem programa, nem projeto; tem um sonho que vira pesadelo. A crise acaba com os fins justificando os meios. A crise acaba com o “futuro” e nos traz o doce, o essencial presente. A crise nos ensina que ninguém se define apenas como “companheiros”, “comandantes”, “aventureiros”, “guerreiros do povo brasileiro”, pois as pessoas são compulsivas, agressivas, invejosas, narcisistas, fracassadas e com problemas sexuais. A crise nos ensina mais Freud do que Marx. A crise ensina que revolução no país tem de ser administrativa, e não de ruptura e utopia.

A “contemporaneidade”, esse “faz-tudo” do novo vocabulário, inventou a “utopia da distopia”. Nada como uma boa distopia para saciar nossa fome de certezas. A crise ensina que não adianta mostrar apenas os horrores da miséria dos desvalidos; a verdadeira miséria está nos intestinos da própria política.

A crise nos mostra que existem fascistas de direita e de esquerda, que a verdadeira esquerda está em tudo que é profundo e que a direita está em tudo que é superficial – logo, o PT é de direita.
A crise nos revela que o país (e a vida) é mais complexo do que a divisão “opressores e oprimidos” e que o capitalismo não é uma pessoa malvada para conscientemente nos destruir; capitalismo não é um regime político – é um modo de produção.

A crise nos ensinou que a corrupção de hoje não é um pecado contra a lei de Deus – é um sistema, uma ferramenta de trabalho. A crise nos mostra que não há mais inocentes em Brasília – todos são cúmplices. E aprendemos que, mesmo com terríveis expectativas para 2015, as ruas provaram que a história é intempestiva (Nietzsche) e marcha no escuro quando nós dormimos. A crise nos lembra a frase de Baudrillard tão citada por mim: “O comunismo hoje desintegrado tornou-se viral, capaz de contaminar o mundo inteiro, não através da ideologia nem do seu modelo de funcionamento, mas através do seu modelo de des-funcionamento e de desestruturação da vida social”, vide o estrago do PT e o novo eixo do mal da América Latina. A crise está abrindo nossos olhos.

Ouso dizer que por vielas escuras e mal frequentadas a crise fará bem ao Brasil. A crise também é útil porque nos dá uma porrada na cara para deixarmos de ser bestas.

Cofre blindado ou caixa preta?

Nunca antes na História deste país, houve um tesoureiro de ferro. João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, também conhecido na gangue do Petrolão como “Moch”, virou réu em mais um processo. Ainda assim a malta petista continua insistindo na defesa do responsável pelo dinheiro partidário.

Estranha-se uma blindagem tão grande, nunca aplicada a Delúbio Soares, condenado e que cumpre pena pelo Mensalão. Delúbio foi o antecessor de Vaccari, mas no processo nunca foi revelado que teria um codinome para atuar na clandestinidade. Também o PT nunca fez tanta defesa assim do tesoureiro, que inclusive deixou o partido.

Por que Vaccari merece tanta consideração? A resposta é que não passa de uma caixa preta do alto escalão. Até por que, apesar de réu, não está junto com outros na penitenciária.

Falou o inglês!

 

Quando os homens são puros, as leis são desnecessárias; quando são corruptos, as leis são inúteis
Benjamin Disraeli (1804-1881) 

O jeito cangaceiro de ser


O jornalista Hélio Fernandes, que dirigiu o combativo jornal “Tribuna da Imprensa”, destacou-se com seu texto corajoso e de permanente oposição aos regimes militares. Foi o jornalista mais vezes preso e exilado, teve a sede de seu jornal empastelada, sofreu ameaças, mas nunca se intimidou ou se calou. Paralelo à sua determinação com foco na crítica à ditadura, ele era também um olho vigilante da postura de políticos, parlamentares e executivos. Certa vez escreveu uma crônica dizendo que metade da Câmara Municipal do Rio de Janeiro era de ladrões. Interpelado judicialmente pela Casa, foi obrigado a retratar-se em artigo no mesmo jornal, com espaço e destaque iguais àquele entendido como ofensivo aos nobres edis. Respondeu na “Tribuna”: “esclarecendo a opinião desse articulista e cumprindo determinação judicial, como o fim de retratar-me, afirmo que metade da Câmara Municipal do Rio de Janeiro não é de ladrões”. Não desdisse, mas a edilidade deu-se por satisfeita e encerrou-se o assunto.

Na semana passada, teve fim a rápida e desastrada passagem do ministro Cid Gomes pelo ministério de Dilma. A família Gomes, exitosa nas urnas para o comando do Ceará, não é um primor nas ideias e muito menos na forma de expressá-las. Lembram um estilo cangaceiro de relacionarem-se. Ciro, seu padrinho e irmão, também ferrenho defensor da polêmica obra de transposição das águas do Rio São Francisco para irrigar o Nordeste, traz na sua biografia marcas notáveis. Uma delas, quando perguntado se a atriz Patrícia Pilar teria sido ouvida na concepção do programa de governo com o qual pretendia chegar à Presidência da República, retrucou: “ela apenas dorme comigo”. Uma pérola, um doce de companheiro. Colheu nas urnas a admiração das eleitoras.

O nefasto episódio que motivou a demissão de Cid foi a expressão de que o Congresso brasileiro tinha em sua composição mais de quatrocentos achacadores. Foi o bastante para que o presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha, longe, longe, quilometricamente distante, da figura a quem se poderia atribuir tal pecha, tal vício ou imperfeição de caráter, comemorasse a deposição de Cid. Bem feito para o ex-ministro, que falou demais.

Não falou todavia que o governo a quem servia como Ministro da Educação, numa Pátria Educadora, mas com verbas contingenciadas, tem 39 ministérios, 128 autarquias e 140 empresas estatais, para abrigar apadrinhados, acolher conchavos e calar eventuais opositores. Não falou Cid Gomes que os encargos (juros) de sustentação da dívida pública, exorbitantemente cobrados pelos bancos ao tesouro representam em um mês apenas tudo que o orçamento nacional destina aos programas sociais. Não falou que o Congresso está sentado em cima da agenda de reformas que poderiam mudar nossa história política, econômica e social. Exemplos a que poderia alterar a lastimável composição da Câmara e do Senado, de improdutiva realidade, ambos. A reforma que reduziria em número expressivo esse debochado estoque de partidos, muitos deles instituições criadas unicamente para preencher cargos de confiança e conseguir favores.

Na folha de pagamentos da União, há 114 mil cargos de confiança. A reforma fiscal, que reduziria impostos que hoje são desperdiçados pela ineficiência do poder público e a corrupção. A reforma trabalhista, necessária para proteger o trabalhador e seu trabalho e não ser o incentivo a que hoje assistimos de uma juventude que busca emprego sem compromisso, como se fosse possível alargarmos o contingente dos que pagam para que outros, muitas vezes com condições, não produzam nem sequer o próprio sustento.

O Brasil é muito viável. Temos que acreditar nisso todos os dias. E trabalhar para tal, cobrar, brigar e indignar-se. 

Resta esperar

A forma não substitui o conteúdo, da mesma maneira que o adjetivo não pode entrar no lugar do substantivo. Nos dois casos, ambos se completam e até se complementam. A presidente da República editou, por exemplo, medidas provisórias que reduzem direitos trabalhistas em vigor. Sem discutir ainda o mérito de tais questões, comprova-se que as posições da candidata na campanha eleitoral não coincidem com os posicionamentos da presidente. Por isso mesmo, torna-se difícil articular-se sua aprovação, sobretudo pelo reflexo negativo que apresentaram através da voz das ruas. Pois uma coisa é falar sobre intenções, outra coisa é confirmá-las na prática.

As dificuldades maiores do Planalto, portanto, não começam e terminam nos diálogos com o Parlamento, mas se desenvolvem atravessando o campo das reações populares e deságuam no mar de impossibilidades. As manifestações populares tornam-se cada vez mais importantes e decisivas no encaminhamento das decisões políticas. Assim, a substituição de Mercadante apresenta um peso relativo na sequência de insucessos que se projetou ao longo de apenas dois meses e meio. Não foi a única causa, embora tenha ele reunido em torno de si fortes ondas de reação contrárias. Entretanto, a entrada em cena de Lula modificou o quadro existente em Brasília para que ele se reflita nas ruas melhor do que está acontecendo até agora. Conseguirá? Vamos esperar os fatos que vão surgir. 

Pedro do Coutto

O outono do PT

Há que se ter uma certa grandeza, mesmo no pecado,e o PT não foi elegante nem nisso
Temos que reconhecer: chegamos ao fim de uma era. O PT vive seu outono. Melhor voltar para o pátio da fábrica onde nasceu e de onde nunca deveria ter saído.

Há que se ter uma certa grandeza, mesmo no pecado (o desejo de poder é o pecado máximo de toda a política), e o PT se revelou incapaz até de pecar com elegância.

Este outono do PT não se deve apenas às manifestações contra seu governo. Essas manifestações, diferentes das patrocinadas pelo "PT e Associados", manifestações com todos os tiques de política de cabresto e mazelas sindicalistas (passeata chapa branca), trazem algo de novo para o cenário, que deixa o "PT e Associados" em pânico. A tendência é a elevação da violência por parte da militância.

O Brasil perdeu o medo do PT e da esquerdinha pseudo. As pessoas descobriram que o mal-estar com essa turminha não é coisa de "gente do mal" (não é coisa de gente do mal, é coisa de gente bem informada), como a turminha pseudo diz, mas sim que somaram 2 + 2 e deu 4: o PT é incompetente para governar. Afundou quase tudo em que tocou, seja municipal, estadual ou federal (e a Petrobras). Mas essa morte do PT significa mais do que o fim de um partido que será esquecido em cem anos.

O fim do PT significa que o ciclo pós-ditadura se fechou. No momento pós-ditadura, a esquerda detinha a reserva de virtude política e moral, assim como de toda a crítica política e social. Ainda que a história já tivesse provado que todos os regimes de esquerda quebram a economia (como o PT quebrou a nossa) ou destroem a democracia (como os setores mais militantes do partido gostariam de fazê-lo).

Vide o caso mais recente e mais próximo, a Venezuela: economia destruída (e com petróleo!) e democracia encerrada de uma vez por todas. Como será que nossa diplomacia, ridícula como quase tudo que o governo do PT toca, reagirá ao fato de ele, Maduro, ter se dado plenos poderes para matar e torturar em nome do socialismo?

Resta pouco espaço para o governo. A tendência é que a presidente fale apenas a portas fechadas para plateias seletas por medo de tomar mais uma panelada. Com a economia em frangalhos, fica difícil para a presidente enterrar o petrolão em consumo, como seu antecessor o fez durante o escândalo do mensalão.

Quando as pessoas estão felizes comprando é fácil fazer vista grossa à corrupção. Quando o bolso esvazia, o saco fica cheio.

Dizer que a corrupção da Petrobras nada tem a ver com o partido no poder é piada. A ganância do novo rico (o PT) aqui mostra seus dentes: querendo enriquecer rápido, meteu os pés pelas mãos e com isso sacrificou a imagem de redentor que o partido tinha para grande parte da classe média. Ele ainda detém o controle de parte da população mais pobre (como a Arena no final da ditadura), mas logo perderá esse trunfo.

É verdade que ainda muitos professores, estudantes, artistas, jornalistas e intelectuais permanecem sob a esfera de influência da "estrela mentirosa". Mas isso também vai passar na hora em que muitos deles perderem o medo de serem chamados de "reacionários". Reacionário hoje é quem se fecha ao fato de que a história andou e as pessoas já não têm mais medo do PT e da sua turminha.

Infelizmente, o governo, diante da história que arromba a porta, parece um grupo de náufragos num barquinho, fugindo da traição que perpetrou, xingando a água, dizendo que as ondas são fascistas e que a tempestade é mal-intencionada.

Não, quem discorda hoje do governo federal não é gente "fascista", é gente que viu que o projeto do PT para o Brasil acabou. É gente educada, bem preparada, autônoma e que está de saco cheio do tatibitate do PT. Sem líderes significativos, sem propostas que criem a credibilidade necessária para sair da lama, a melhor coisa que o PT pode fazer é pedir licença e sair de cena.

Não acho que haja justificativa (ainda) para o impeachment, e devemos preservar as instituições. Mas a água passa debaixo da ponte. Quatro anos é tempo bastante para se afogar na vergonha. E, aí, a humildade será mesmo essencial, não? Sim, mas o PT é pura empáfia.

Luiz Felipe Pondé

Para limpar a sujeira governamental



Se na história bíblica as corruptas cidades de Sodoma e Gomorra foram aniquiladas porque Deus não encontrou nelas sete homens justos, é certo que, apesar de tanta corrupção, há no Brasil não sete, mas milhões de brasileiros com as mãos e a consciência ainda limpas. Eles terminarão por devolver inclusive internacionalmente o respeito que este grande país merece. E o farão com seus protestos, com sua rejeição a uma classe política que parece ter se tornado indigna de ser guia do país. E com gestos de honradez pessoal como o do meu taxista mulato de São Paulo.

Aceitação do inaceitável

Aceitar explicações insatisfatórias pode ser conveniente. Evita o trabalho e o desastre de consertar erros do presente e do passado. Mas perpetua e multiplica os problemas

Do jeito que vai, não sobra razão para otimismo. O desfile aparentemente eterno de fatos inaceitáveis praticados por gente esquisita não cansa de desandar em show de horror. A realidade se revela em sua mais dura pele.


O cheiro é sempre ruim. Tão ruim que a gente pode acabar se acostumando. E talvez esteja aí o maior perigo. A tentação de ceder ao cansaço e aceitar ao inaceitável é forte. Pouparia indignação, energia, desgaste emocional. Mas confundiria noções muito diferentes.

Frequência não é normalidade. O número de vezes em que ações inaceitáveis são praticadas não as faz mais aceitáveis. Não as torna normais. Não as transforma em exemplo a ser seguido. Não as torna normal. Delitos são delitos. Apenas isso.

O passado também não justifica o futuro. Talvez o explique. Mas somente isso. Justificar ações presentes baseadas nos padrões passados, na melhor das hipóteses, projeta no futuro os vícios do passado sem corrigi-los. Na pior hipótese, elimina a responsabilidade ao transferi-la a outras épocas e pessoas. E, sem responsabilidade, acaba o maior incentivo para boa conduta.

Práticas aceitas podem ser de fato, práticas inaceitáveis. Espalhar lama por todos os lados não resulta na purificação dos enlameados. Gera ou revela apenas que a sujeira é grande. O que todo mundo faz não é necessariamente o certo. O tamanho da multidão que pratica delitos não é atenuante.

São explicações que mascaram o cheiro ruim. Mas não os eliminam. Anestesiam os sentidos na esperança de que seja passageiro. Ignora sem a eliminação da fonte, o cheiro continuará existindo. Narizes insensíveis colaboram para a aceitação de padrões inferiores. E futuro pior.

Ao fim e ao cabo, aceitar explicações insatisfatórias pode ser conveniente no curto prazo. Evita o trabalho e o desastre de consertar os erros do presente e do passado. Mas perpetua e multiplica os problemas. Torna o inaceitável em norma. Transforma o otimismo em coisa de quem ainda não soube das noticias.

Pacote de Dilma é a favor da corrupção

As medidas de combate à corrupção anunciadas pela presidente da República dia 18 aprofundam ainda mais a falta de credibilidade do governo, tanto no plano nacional quanto no exterior.

Em decorrência da devastadora corrupção que se alastrou no governo federal, o Brasil, outrora país emergente, hoje sofre um desprestígio no mundo parecido com os tempos da inflação galopante e dos calotes internacionais dos anos 1980.

Dilma fez careta do dentinho para Eduardo Cunha


O pacote anticorrupção, solenemente anunciado pela presidente, insere-se nesse quadro melancólico, pois não é crível que um governo marcado e devastado pela prática generalizada de apropriação de recursos públicos em benefício dos partidos no poder venha, agora, colocar-se na posição de combatente do mal que ele mesmo diariamente pratica.

Nesse quadro patético, as propostas legislativas são mais do mesmo, pois o crime do caixa 2 está previsto no vigente Código Eleitoral, de 1965, no artigo 350. Quanto ao dramático confisco de bens dos corruptos, a matéria está plenamente contemplada na lei vigente de Improbidade Administrativa, de 1992, artigos 9º, 12 e 16. As demais “providências” legislativas da presidente são objeto de projetos de lei em curso no Congresso, razão pela qual nada de novo foi traduzido pelo alardeado pacote.

Quanto ao decreto que “regulamenta” a Lei Anticorrupção, ressalta desde logo tratar-se de um monstrengo que visa, sob todas as formas possíveis, a promover a anistia ampla, geral e irrestrita das empreiteiras e fornecedoras envolvidas na Operação Lava Jato, procurando mesmo imunizá-las a qualquer outra conduta corruptiva que tenham praticado fora do âmbito da Petrobrás e ainda não reveladas.

Assim, o atual governo, na esteira dos três últimos que o precederam, demonstra que no Brasil ainda impera a república das empreiteiras, embora estas já estejam muito combalidas, em decorrência da firme atuação da Polícia Federal, do Ministério Público, da Justiça Federal, do STJ e do STF.

O referido “decreto regulamentador” da Presidência demonstra, às escancaras, a firme determinação do governo de proteger as empresas que com ele contratam, mantendo os mesmos termos viciados no futuro.

Ao invés de concentrar a competência de processar as referidas empresas corruptas na Controladoria-Geral da União, o decreto outorga esse poder aos ministros do Estado (pasmem!), que são, desde 2003, os principais atores da prática de corrupção no Brasil.

Só do último governo três deles estão sob investigação no STF e dez outros já haviam sido flagrados em atos de corrupção, só no ano de 2011. São essas as “autoridades” que vão processar as empreiteiras. Pode-se imaginar o nível de corrupção que vai surgir dessa “competência ministerial”.

Será um novo núcleo de propinas, de tráfico de influência, de advocacia administrativa e de prevaricação. Surge um novo negócio de corrupção jamais imaginado, para grande proveito dos titulares de 39 pastas e dos partidos que os indicaram.

Não bastasse, a eventual condenação das empreiteiras pelo “ministro competente” pode ser objeto de “reconsideração” com efeito suspensivo, o que encarece ainda mais o comércio de favores ilícitos que será gerado por essa instância administrativa. A Lei Anticorrupção não fala de instância de reconsideração.

Também o decreto presidencial de 18/3 cria a figura da “investigação preliminar sigilosa”, anterior à instalação do chamado Processo Administrativo de Responsabilização. Eis aí outro foco de corrupção, pois de suas conclusões secretas pode decorrer o arquivamento do pedido de instalação do processo.

Esse novo produto de corrupção obviamente não está previsto na Lei Anticorrupção de 2013 que a presidente resolveu agora “regulamentar”. Essa lei, aliás, não comporta nenhuma regulamentação, na medida em que é autoaplicável a partir de 29/1/2014, abrangendo todos os crimes continuados de corrupção, caso dos listados na Lava Jato.

Mas não para aí o “regulamento presidencial”. Em cinco artigos propositadamente confusos, o diploma do Executivo limita a multa a 5% sobre o faturamento do último exercício das empresas corruptas. A Lei Anticorrupção, todavia, fala em até 20%. Derroga, portanto, o “ato presidencial” a Lei Anticorrupção também nesse aspecto.

Ademais, os cálculos de aplicação dessas multas com teto quatro vezes reduzido são propositadamente de alta complexidade para permitir que as empreiteiras consigam suspender e, em seguida, anular no Judiciário as decisões condenatórias que muito raramente os ilibados ministros de Estado lhes aplicarão.

Outro aspecto absurdo do “regulamento presidencial” é a tentativa de alijamento do Ministério Público das iniciativas de responsabilizar judicialmente as empresas corruptas, buscando outorgar essa competência de propositura de ação civil pública de reparação de danos a órgãos jurídicos da própria administração federal. Essa tentativa é risível.

Inúmeras outras manobras de absolvição plena das empreiteiras estão espalhadas ao longo texto do decreto de 19 de março.

Por outro lado, o próprio decreto reproduz a impossibilidade de firmar acordos de leniência a não ser com a primeira empreiteira componente do cartel que opera na Petrobrás.

Diante desse impasse, socorre-se o decreto do regime de conformidade (compliance), que é um dos fatores que passam a propiciar a anistia das empreiteiras.

Se elas instituírem o regime de conformidade poderão, inclusive, ser absolvidas sem o pagamento de nenhuma multa, o que é absolutamente contrário ao texto da Lei Anticorrupção.

Seria como alguém que praticou latrocínio deixar de ser condenado a 30 anos de prisão só porque fez profissão de fé numa igreja pentecostal prometendo seguir, a partir de agora, os ensinamentos da Bíblia Sagrada.

Por todo esse absurdo, a cidadania pede socorro ao Ministério Público para que requeira imediatamente ao Judiciário a anulação desse regulamento espúrio que procura derrogar, revogar, neutralizar e tornar letra morta a Lei Anticorrupção.

Modesto Carvalhosa

segunda-feira, 23 de março de 2015

Está na hora de mudar de casa

Nem trabalhadores no partido, nem partido dos trabalhadores

A lição vem de Luis Carlos Prestes, que por sua vez a tirou de Lenin: um grupo intelectualizado, com conhecimentos profundos de política, economia, História, sociologia e congêneres, forma um partido e imprime nele diretrizes sólidas capazes de sensibilizar e conduzir o proletariado. Aos poucos, esse grupo vai traduzindo e repassando para a militância as noções básicas de seus objetivos.

O proletariado percebe serem aqueles os seus sentimentos e anseios. Esforça-se para compreender o máximo da teoria que lhe é oferecida. Deve estudar. Absorver os ensinamentos, acoplá-los à sua vida e, aos poucos, assume a direção do partido, exprimindo, pela ação, a busca da igualdade e do bem comum que representa, maioria que é.

O singular está em que o PT começou mais ou menos assim, trinta anos atrás. Um núcleo de intelectuais, inclusive da Igreja, envolveu lideranças proletárias, inclusive a maior delas, o Lula. Imaginaram aproveitar o potencial humano do metalúrgico e de seus companheiros, repassando a eles conhecimento e deles recebendo lições práticas de suas necessidades e de sua capacidade de luta e de resistência. Assim formou-se o PT, entusiasmando a juventude e assustando as elites.

O diabo é que concluímos, hoje, que o Partido dos Trabalhadores deixou de ter trabalhadores e cansou de ser partido. Ao conquistar o poder, transformou-se num aglomerado de burocratas empenhados em afastar-se do proletariado, sem falar nos aproveitadores que se aproximam dos cofres públicos. Com o passar do tempo das lutas, os intelectuais foram saindo de mansinho, depois da Igreja.

Ganha uma viagem a Cuba quem citar um pensador de renome, um intelectual do tipo Florestan Fernandes orientando o PT. Hoje, o ideal dos companheiros é alçar-se à classe média ou chegar acima dela, de preferência como funcionário público e dirigente de uma empresa estatal. O próprio Lula aburguesou-se. Encontram-se nas bancadas do partido uns poucos ex-sindicalistas, mas nenhum operário eleito nessa condição.

Quem quiser explicar o sufoco porque passa o governo Dilma deve buscar as origens na metamorfose petista. Aliás, ela nunca foi do PT, até o dia em que precisou tratar de sua carreira política. Era brizolista. Por isso faz caretas sempre que telefona alguém do PT.

Ainda agora, quando a presidente da República propôs ao Congresso a redução do seguro-desemprego ou a extinção de pensões para viúvas abaixo dos 45 anos, onde se encontrava o partido? Qual a proposta que seus ministros, seus deputados e senadores apresentaram nos últimos doze anos para ampliar direitos sociais? Fica-se apenas no programa de renda mínima do isolado Eduardo Suplicy. O resto é assistencialismo, do tipo bolsa-família, porque conquistas, mesmo, sobram as implantadas por Getúlio Vargas, muitas suprimidas ao longo das últimas décadas.

Nada como o tempo para passar, já dizia o poeta. O sonho da fundação do PT desfez-se de forma melancólica. Tornou-se um partido igual aos outros. O proletariado dá-se por feliz se mantiver o trabalho de ridícula remuneração. O operário não acredita quando o avô lembra que já houve estabilidade no emprego.

Assistimos a um novo surto de maldades, entre os sucessivos praticados com regularidade pelas elites e pelos governos. Nos tempos recentes, Eurico Dutra congelou por cinco anos o salário-minimo. Depois Castello Branco suprimiu a estabilidade e o salário-família. Fernando Henrique optou por criar empregos no estrangeiro e demissões no Brasil. Pois não é que agora, em pleno governo do PT, Dilma ameaça direitos do trabalhador? Adota o mesmo modelo neoliberal do mundo desenvolvido, ou seja, para os subdesenvolvidos superarem suas crises, nada como demissões em massa, supressão de direitos sociais, cortes de gastos públicos, endividamento externo, aumento de impostos e de preços de combustíveis, transportes, luz e gás.

Coisa ruim não presta mesmo

Quando se faz muita propaganda de um produto ruim, pior é para a venda do produto.

O Antagonista

Quem paga aos 'blogueiros progressistas'


Começou a maior batalha midiática dos últimos 14 anos. O tucanato quer ir a fundo, somente agora, na questão de quem paga aos chamados “blogueiros progressistas”, ou “do campo social” —para que defendam cegamente Dilma e Lula.

O Líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio (SP), protocolou sexta-feira (20/3) representação junto à Procuradoria da República do Distrito Federal para a abertura de inquérito civil contra o ministro Thomas Traumann (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República) por prática de improbidade administrativa. Entre as sanções, caso Traumann seja condenado, está a perda da função pública.

Segundo o tucanato, “a ação baseia-se em documento produzido pela própria Secretaria de Comunicação Social, que evidencia seu uso para promoção pessoal da presidente Dilma, bem como para viabilizá-la eleitoralmente. Nesse mesmo documento, aparecem análises sobre as estratégias das campanhas da presidente Dilma de 2010 e 2014, além de propostas para “virar o jogo” eleitoral, dividindo responsabilidades, exclusivas da Pasta, com pessoas alheias à administração pública, como o PT, o Instituto Lula e blogueiros”.

Finalmente alguém tocou na ferida.

Qualquer um que trabalha com jornalismo tem um amigo circunscrito nesse estado de coisas. Geralmente, pessoa de meia idade. Sonhadora em ser “barão de mídia”. Saiu de uma “grande redação”. Bateu na porta de ministro ou ministra. Recebeu fortunas, seja para sua ONG ou blog. Está feliz. Entra dinheiro “bagaray”, trabalha de casa. E tudo o que tem a fazer é reangular as notícias da “velha mídia” ou dos “tubarões milionários da mídia” no sentido de favorecer os interesses do governo federal.

Não vejo problema em se ganhar dinheiro no capitalismo. Não vejo problema em que blogueiros sujos mamem nas tetas do PT, para poder terem o nÍvel de vida pequeno burguês com o qual sempre sonharam. Esquerda caviar é isso aí. Josué de Castro, recifense, escreveu o seu “Geografia da Fome” e se cevava nos melhores restaurantes de Paris…

O problema é que essa gente recebe fortunas do PT para mentir. Não fazem reportagem. Não investigam. Não vão para as ruas. Tomam fortunas do PT e dão em troca mal-traçadas, cheias de advérbios de modo. O PT paga fortunas a essa gente para que devolvam ao governo uma antologia de adjetivos contra os inimigos do partido.

Basta ver o quanto midiaticamente se alinhou essa gente para atacar meu amigo Fernando Rodrigues —somente porque ele resolveu investigar a lista do HSBC, cruzar dados e não cometer injustiças… Os ditos jornalistas do “campo social” se alinharam para bater em Fernando Rodrigues, no caso do HSBC, porque o jornalista lhes expôs publicamente os cofres.

Brigar com os fatos

Agora que a inflação volta, sobem preços de alimentos e cortes na Educação estão aí, passemos por cima dos filmetes de campanha

Além da situação notória, da economia à ética, passando pela política, parte da crise de desesperança que o país atravessa tem a ver com a perda de confiança e o sentimento generalizado de que andaram mentindo muito. Ao longo do tempo, versões foram substituindo fatos. Muita gente acabou acreditando no simulacro sem perceber que não correspondia ao real. Se esse mecanismo se perpetua, a frustração é cada vez mais perigosa para o país. Para evitá-la, vale a pena não se afastar dos fatos.

Não custa lembrar. Investigação não é indiciamento — cuidado para não identificar os dois processos e depois se queixar de que houve arquivamento. Aliás, arquivar por falta de provas ou devido a investigações mal conduzidas não é engavetar geral. E manifestação de protesto não é terceiro turno, como se diz. Outra coisa: doação de empresa para campanha não é ilegal. Ilegal é esconder isso ou depois cobrar vantagens. Ou usar dinheiro que não era próprio, mas apenas repassado dos cofres públicos, vindo de um sobrepreço em serviços prestados ao governo, ou de empréstimos vantajosos vindos do Tesouro. No Japão, é lei: empresa que negocia com o governo não pode ter qualquer relação com funcionários do mesmo, nem para dar uma carona ou um presentinho. Ou seja, pode-se ter leis que controlem, sem precisar obrigar a votar na lista prévia feita pelo dirigente partidário, como tentam nos empurrar goela abaixo. E não precisa haver campanhas tão caras. Nem tantos partidos.

Leia mais o artigo de Ana Maria Machado

O Brasil é outro? Dez leituras

Uma coisa é defender o país; outra coisa, bem menor, é defender um partido
A pergunta recorrente é: o Brasil é outro, a partir do dia 15 de março? A grande mobilização, a maior desde o movimento das Diretas Já, nos idos de 1984, terá impactos sobre a vida nacional? Vamos a algumas reflexões.O que surge de uma primeira leitura é que vimos um Brasil cívico e participativo. As cores verde, amarelo e branco denotam a estética cromática da bandeira nacional. Diferentemente, por exemplo, do vermelho total da manifestação do dia 13, puxada por PT, CUT e MST. Uma coisa é defender o país; outra coisa, bem menor, é defender um partido. Quem foi às ruas?

Todas as camadas sociais estavam presentes – esta deve ser a segunda leitura. Evidente que as classes médias se fizeram representar em maior quantidade, eis que mais sensíveis e próximas aos eventos políticos. Mas não tem sustentação a hipótese de que as margens não estavam presentes. Desse modo, como se explica o fato de a presidente Dilma registrar, nesses dias turbulentos, apenas 7% na categoria bom/ótimo de avaliação positiva nas pesquisas de opinião? Portanto, o chamado povão também estava lá. O metrô de São Paulo se encheu de gente dos bairros periféricos. O que nos remete à terceira leitura, o discurso.

Qual a razão maior para puxar o cordão das manifestações? A teia de corrupção que envolve o país. Por mais que algumas entidades queiram dizer que o impeachment da presidente tenha sido o leit motiv, o arrastão das massas foi inspirado, com maior intensidade, pela ladroeira e, particularmente, pelo propinoduto no entorno da Petrobrás. É claro que as faixas pedindo impeachment também se faziam ver nas correntes das ruas. Em plano menor.

A quantidade de pessoas é outro ponto polêmico, daí a merecer a quarta leitura. Um milhão, duzentos ou seiscentos mil? Não importa muito a quantidade. Importa aduzir que foi a maior movimentação cívica desde 1984. E que se traduziu por uma participação plural da sociedade. Não apenas do eleitorado da oposição, como erradamente opinou o ministro Miguel Rossetto, esse mais próximo à presidente.

Diferentemente de mobilizações do passado, o grito do dia 15 foi convocado pelas redes sociais e por ondas formadas a partir dos círculos concêntricos. Nesta quinta leitura, percebe-se que os meios foram múltiplos: boca a boca, usuários das redes, veículos massivos de comunicação etc. Importante ressaltar que não houve convocação por meio de partidos políticos ou de centrais sindicais. Viu-se uma participação espontânea, natural, sem atendimento aos partidos ou a grupos pagos. Não houve distribuição de lanche nem passagem paga por patrocinadores.

Sexta leitura: errado também confinar o movimento a São Paulo. As regiões do país foram contaminadas pelo sangue do civismo, algumas com maior intensidade que outras. Viu-se, por exemplo, que as manifestações no Nordeste ganharam menor escala. Nem por isso pode-se dizer que a região não se tocou pela mobilização. No Rio Grande do Sul, a concentração de 100 mil pessoas em Porto Alegre deixou forte marca.

O que nos leva à sétima leitura, sobre o panelaço, que veio na sequência do evento. A tentativa dos ministros Miguel Rossetto e José Eduardo Cardozo de explicar a manifestação do dia 15 foi recebida com pancadaria nas panelas em muitas capitais. O ministro Cardozo se expressou melhor, uma fala mais política e mais certeira. O desastre ficou por conta de Rossetto, que atribuiu as manifestações aos eleitores que não votaram em Dilma. Um erro de visão. O ministro precisa tomar um banho de rua.

A oitava leitura mostra que a democracia participativa no país ganha densidade e solidez. Daí a nossa projeção de que esses movimentos deverão, doravante, se incorporar à paisagem urbana, de maneira pontual e em menores proporções. Veremos grupos e categorias profissionais indo às ruas para gritar por demandas específicas. E, ainda, acompanhar os passos do petrolão que devem seguir por todo o ano, batendo nas margens eleitorais de 2016.

O governo continua a estudar respostas. E a nona leitura é sobre os efeitos. O mais alentado é o pacote contra a corrupção, que não provocou nenhuma comoção. Afinal, normas e regras rígidas existem. Falta apenas cumpri-las. O governo responde às demandas com lero-lero, ou seja, discurso inconsequente. Deveria, isso sim, 0fazer cortes de gorduras e excessos. E, ainda, promover uma reforma ministerial para ajustar os parâmetros à realidade das ruas e a real politik.

Finalmente, a décima leitura nos leva ao amanhã, a aurora de um país passado a limpo, expurgado não de todas as mazelas, mas de alguns vícios e ilicitudes. Veremos os próximos tempos enxertados com sementes fortes: o escopo conceitual pedindo por mais ação e menos discurso; transparência; agilidade; qualidade; enxugamento; reforma política; ajustes econômicos; participação; envolvimento social; poder centrípeto ( das margens para os centros); punição; rigor e zelo.

Gaudêncio Torquato

Os 'cativos' do poder

A ruína de muitos governos é achar que o eleitorado é cativo, quando ele tem que ser conquistado muito mais pelo futuro do que pelo passado. Se o governo não tem clareza de onde está fincado e não protege esses eleitores de eventuais cortes, coloca-se num cenário perigoso. No caso da Dilma, junta-se a isso a base parlamentar fraca, a inflação e as denúncias de corrupção
Marly da Silva Motta

Projeto do PT é se perpetuar no poder

É uma distorção achar que quem recebe Bolsa Família, ganha um salário mínimo ou um pouco mais, já está incluído na sociedade, o que não lhe dá dignidade, muito menos pode fazer compras em shoppings ou viajar de avião, comprar carro, conseguir a casa própria, conforme o PT tanto apregoa.

Dito pelo Lula: “Nunca os banqueiros ganharam tanto dinheiro como no meu governo”. Numa pesquisa do IBGE, feita antes das eleições, pela primeira vez em 10 anos aumentou o número de miseráveis em 371 mil pessoas, mas esses dados só vieram a público depois das eleições, claro.

A verdade está aí, quem se deu bem no governo do PT foram as empreiteiras, as multinacionais, os banqueiros, a classe política com altos salários e mordomias. Para atender à base aliada, o governo até aumentou o número de ministérios, ampliando o empreguismo da companheirada com altos salários.

Na Petrobras, o presidente ganha R$ 183 mil por mês! Esses salários dos presidentes, diretores e conselheiros das estatais representam uma afronta à população.

O PT não é um partido comunista. Tenho dito por diversas vezes: o PT é um partido elitista, é a direita corrupta, faz o discurso em favor dos pobres, mas favorece mesmo é o enriquecimento dos poderosos. Nesses 12 anos de governo, qual o projeto de nação esboçado pelo PT, principalmente no tange a educação, saúde e segurança?

O grande projeto desse governo é se perpetuar no poder, mesmo que tenha que fazer o diabo, são capazes de tudo, nem que a vaca tussa, mentem descaradamente, tentam transferir seus erros para o governo anterior. Como dizia o Brizola: o PT cacareja para a esquerda, mas põe os ovos para a direita.

Nélio Jacob

A direita na rua

Pode-se menosprezar as multidões, assim como se pode acreditar que as avenidas Atlântica e Nossa de Copacabana são transversais. Difícil, depois, será achar o rumo de casa

Admita-se que as manifestações do dia 15 de março tiveram um conteúdo de direita, conservador, ou seja lá o que for. Vá lá. Disso resultam várias questões:

Se foi coisa da direita, ela foi para rua com um vigor que superou de longe as manifestações da esquerda. Na Avenida Paulista não havia nenhum imigrante africano carregando balão porque recebeu R$ 30. Pelo contrário, um curioso contou três manifestantes que foram para a rua em cadeiras de rodas.

Se a bandeira da luta contra a corrupção foi para as mãos da direita, a esquerda deveria se perguntar por que e como deixou-a cair no ralo.

As multidões que foram para a rua na campanha das Diretas de 1984 não eram de esquerda. A direita que defendera a ditadura foi quem deixou a bandeira do voto cair no ralo.

O argumento segundo o qual uns poucos cartazes e faixas pedindo o retorno dos militares definem o caráter das manifestações tem o mesmo valor que o dos generais e de Paulo Maluf, que em 1984 viam nas bandeiras vermelhas uma essência comunista nos comícios das Diretas.

Finalmente, houve quem comparasse depreciativamente o dia 15 com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade de 19 de março de 1964, em São Paulo. Nela havia mais gente que no comício de João Goulart na Central do Brasil, ocorrido uma semana antes.

Pode-se menosprezar as multidões, assim como se pode acreditar que as avenidas Atlântica e Nossa Senhora de Copacabana são transversais. Difícil, depois, será achar o rumo de casa.


Como ser poderoso


Tendo meios e moral nenhuma, tudo se pode ser... até poderoso
Miguel Angel Astúrias

A pressão precisa continuar

PMDB, acuado pelos indiciamentos do petrolão e assustado com as manifestações que encheram as ruas do país, pedindo impeachment e moralização, reagiu sem pestanejar durante a semana que passou. Ainda mais com a cabeça a prêmio de suas principais lideranças congressuais e de seus governadores.

Apresentou, na vigésima quinta hora da crise, propostas de austeridade que merecem ser levadas a sério. Cortar na carne dos governos e das administrações públicas despesas e gorduras.
Passou da hora de se fazer essa justiça. Soa, sem dúvida, pura demagogia saindo da boca de quem mais atuou (PMDB) para escancarar os cofres públicos ao assalto de quadrilhas. Última e recente proposta: conceder a cota de passagens para parentes de parlamentares. O acinte durou poucas horas, o suficiente para mostrar a indigência moral que assola o Congresso Nacional.
Resta entender a capacidade de um mesmo partido gerar propostas monstruosas e outras que seguem ao encontro do bom senso, tudo isso em poucos dias e sem mudar de paletó.

Aperceberam-se, com milhões de pessoas nas ruas, que falta autoridade moral aos governantes e à Corte para pedir mais sacrifícios ao contribuinte, exatamente a quem trabalha de verdade e dá sustento à nação. A sensação de ser roubado e feito de palhaço deixou de ser sentida apenas na classe média. As pesquisas apontam uma queda de popularidade do governo, que teve precedente nos piores momentos da história republicana, como foi a cassação do presidente Fernando Collor.
Os senhores parlamentares se atribuíram um aumento salarial de 50% a partir de fevereiro, outros aumentos de verbas de gabinete, ajudas de custos no mesmo índice, em cascata atingindo Assembleias estaduais e Câmaras municipais. Ainda se preparou um aumento de repasse de dinheiro público para as cotas dos partidos. Isso passando de R$ 1 bilhão a cada ano.
Pouca-vergonha.

Há de se esperar que a proposta do PMDB avance, receba emendas e se aperfeiçoe, que a sociedade civil se mobilize e exija urgência e prazo máximo de 60 dias de tramitação para os cortes propostos. Mesmo que seja um lance demagógico de quem tem pouca moral, que se leve adiante.
A proposta é que os ministérios sejam limitados por emenda constitucional ao número de 20. Já é um começo, apesar de existirem fórmulas de deixar tudo igual. As reduções deveriam ser orçamentárias e alcançar todos os Poderes e todas as instâncias.

O Poder Legislativo, que o PMDB preside no Congresso, virou um ralo por onde saem, a qualquer título entre os mais esfarrapados, salários estratosféricos, mordomias de figuras que apenas se dedicam a assaltar finanças públicas e montar mensalões.

Cortar em um terço os cargos do Legislativo e cortar pela metade seus orçamentos, a começar dos municípios, seguindo pelos Estados e subindo até o Congresso Nacional.

Cortar os cartões de crédito ou ao menos dar-lhes total transparência, assim como aos empréstimos do BNDES que vão para outros países bancar obras de infraestrutura que aqui faltam tanto quanto ou até mais que lá fora.

Obviamente não é tarefa fácil, mas a mobilização popular, apenas ela, poderá estimular a vergonha que até hoje faltou para termos um sistema mais justo.