terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Entronação presidencial


Em viés de baixa


A presidente Dilma Rousseff está fechando o ano de 2014 numa situação curiosa: no momento em que se prepara para começar sua segunda e última temporada no Palácio do Planalto, está em viés de baixa, como se diz – um caso raro de governo que ficou mais fraco, depois de ganhar uma reeleição, do que estava antes da vitória. Esse início de segundo tempo, normalmente, marca o ponto mais alto a que um governo pode chegar. No caso de Dilma, não está sendo assim: a presidente entrou em declínio antes de chegar ao auge, e parece destinada a passar direto da decepção que foi seu primeiro mandato à desesperança que existe em relação ao segundo.

Ao longo dos seus primeiros quatro anos, o governo Dilma nunca chegou realmente a engrenar. Nesse período, o crescimento da economia, uma necessidade absolutamente crítica para o Brasil, ficou em média na casa dos 2% ao ano, o segundo pior resultado desde a proclamação da República, em 1889. Passou do saldo para o déficit nas exportações. A indústria, que alterna períodos de marcha lenta com períodos de marcha a ré, é menor hoje do que era quando Dilma assumiu a Presidênca. Não há praticamente nada que esteja melhor agora do que estava no começo de 2011. Em suma: o desempenho do governo começou a ratear antes de ganhar velocidade, e disso não saiu mais. Hoje o Brasil roda a uma velocidade entre 0% e 1% de crescimento – seu resultado de 2014 e provavelmente de 2015.

A presidente não tem nada de bom a anunciar para o ano que começa – ao contrário, tem muita notícia ruim para dar, ou para esconder, e terá de tomar aquelas medidas amargas que, como dizia há pouco, seu adversário iria adotar se ganhasse. Mais que tudo, Dilma não sabe, simplesmente, o que fazer a partir de 1° de janeiro para sair do atoleiro onde seu governo foi se meter – se soubesse, por que raios não fez até agora o que deveria ter sido feito? A única iniciativa que tomou depois da eleição foi armar uma fraude política para falsificar a realidade numérica do orçamento de 2014; obteve do Congresso, em troca do compromisso por escrito de dar dinheiro público aos parlamentares, uma licença para desrespeitar a lei. Em matéria de mudança para o segundo mandato, teve apenas uma ideia, jamais mencionada durante a campanha: voltar a cobrar a CPMF, o imposto do cheque criado no governo Itamar Franco e extinto definitivamente pelo Senado sete anos atrás. Fora isso, nada mais lhe ocorreu de útil.
Leia mais o artigo de J. R. Guzzo

MP não é assessoria

Que degradação institucional! Nossa presidenta vai consultar órgão de persecução criminal antes de nomear um membro do seu governo! Há sinais claros de que a chefe do Estado brasileiro não dispõe de pessoas minimamente lúcidas para aconselhá-la em situações de crise. Onde estão os áulicos tidos como candidatos a uma vaga no STF, que poderiam esclarecer: Ministério Público não é órgão de assessoria!
Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF

Graça Foster e Dilma: ou crime ou incompetência


É clara a tentativa conjunta da presidente Dilma Rousseff e de Graça Foster para deixar tudo como está na Petrobras.

Deixar tudo como está significa manter Graça – ou Graciosa como prefere Dilma – na presidência da Petrobras. E mais os diretores que ela queira manter.

Dilma e Graça não são apenas queridas amigas. Não seria o bastante. São aliadas. Cúmplices em tudo que a Graça faça com o aval de Dilma.

Daí o empenho de Dilma em proteger Graça do mar de lama que ameaça afogar a Petrobras e subir a rampa do Palácio do Planalto.

De sua parte, Graça tudo tem feito para se proteger – e proteger Dilma. Nada disse até aqui que comprometa a amiga.

E outro dia, para preservar a si mesma, transferiu bens para os nomes de parentes, uma maneira de escapar de um eventual bloqueio deles.

Se Dilma mandasse Graça embora não estaria apenas pondo em risco a biografia da amiga, mas também a sua.

Afinal, o que teria havido? Dilma falhara na escolha da principal executiva da mais importante empresa do país? Ou fora traída por ela?

Num caso como no outro, errara fortemente. E logo numa área na qual se considera especialista.

Despachar Graça seria também por em risco a própria biografia de Dilma.

De resto, Graça à frente da Petrobras serve de escudo a Dilma. É uma cabeça que Dilma preserva para entregar em caso de extrema necessidade.

Paisagens Brasileiras

Augustin Salinas, São Paulo (1910)

Atos e fatos



Explicações rasas para a corrupção são tentadoras, mas têm prazo de validade limitado
Há de se convir que o clima para festas de fim do ano não é de euforia. Diante da exposição das entranhas de grandes “modelos” de negócios vazados pela corrupção, uma imensa perplexidade. Se não faltam, nem ao governo nem às empresas privadas, governança, selo de qualidade, transparência e vigilância dos órgãos internos e externos de auditorias, como evitar que os apetites mal resolvidos das classes empresariais e políticas tenham como estuário a malversação de recursos públicos?

Nas últimas décadas, o Brasil substituiu parcela considerável dos quadros burocráticos do Estado e aderiu com entusiasmo aos preceitos do gerencialismo.
Manteve, porém, apesar de alguns avanços, imensas desigualdades sociais, entre as quais, as de exposição a riscos e de acesso e utilização de serviços de saúde.

Explicações rasas para a corrupção são tentadoras, mas têm prazo de validade limitado. O “sempre foi assim” ou “isso é coisa desse governo” ou ainda as palavras dos profetas que jamais se surpreendem não dão para o gasto.

Mais saúde e a elevação das taxas de retorno para investidores são antagonismos políticos e não picuinhas pessoais ou contábeis. Não existe uma poção mágica para curar quem está borocoxô ou arrebatado por certezas, o que vem pela frente é um novo ano, no qual os adjetivos e a ilusão de tomar procedimentos administrativos por fatos concretos podem ser deslocados em favor do debate e da participação

A modernização dos métodos de governo e o rebaixamento da política ao cálculo eleitoral e aos pequenos interesses produzem efeitos contraditórios.
Recentemente, dirigentes da Secretaria estadual de Saúde de Tocantins, que recebeu um prêmio de inovação, foram acusados e presos por desvio de recursos.

Pode parecer estranho, mas é provável que ambos os processos, melhoria das formas de gerir determinados recursos e corrupção, tenham ocorrido simultaneamente. Ações enunciadas não são necessariamente coerentes com os fatos previstos.

A história da saúde é repleta de gestos e iniciativas sem finalidades de qualquer recompensa que alteraram os rumos do processo saúde-doença e inovações terapêuticas. Algumas delas são bem conhecidas e originaram biografias, estudos científicos e filmes.



segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Os ocultos


Frases de dezembro


Dezembro é o mês de uma infinidade de frases, que se repetem em todos os anos, sempre as mesmas. Vamos lembrar algumas, que estão sendo ditas, desde o dia 1º.:

"O ano passou num abrir e fechar de olhos"

"Você reparou quanta gente conhecida morreu este ano?"

"E todas quando a gente menos esperava"

"Eu espero que o ano que vem seja um pouquinho melhor"

"Pois eu, minha filha, não tenho nada que me queixar. Luís Mário passou de ano"

"Nunca houve um ano tão ruim para negócios"

"Vocês já viram quanto está custando um quilo de castanhas?"

"Minha filha, com a vida pelo preço que está, nós não vamos fazer nada. Mas, se você quiser aparecer lá em casa, com as crianças, só nos dará prazer"

"Eu tenho horror a datas... se não fossem as crianças..."

"Natal de pobre é no dia 26"

"Se o Dagoberto não estivesse tão atropelado,eu ia pedir para ir, com as crianças, passar Natal nos Estados Unidos"

"Olhe, Daniel, como eu sei que os seus negócios não vão bem, vou deixar os brincos de e esmeraldas para o ano que vem"

"Mamãe, o Luís Otávio falou que Papai Noel é o pai da gente"

"Olhe, se você não comer o ovinho todo, Papai Noel vai ficar tão triste que é capaz de não vir"

"Deixa passar esse negócio de Natal e Ano-Bom, que eu vou estudar uma maneira de ir pagando devagarzinho"

"Bom, o regime eu só vou começar depois do ano"

"Você não vai encontrar banco nenhum que desconte este título, a não ser depois do dia 1º."

"Eu quero ver se, de janeiro em diante, paro de fumar e de beber"

"Este ano só quem mandou presente foi o armazém e, assim mesmo, uma garrafinha de vinho do Porto"

"Eu já avisei a todo mundo, que não quero nada, porque não tenho para dar a ninguém"

"Logo que as crianças terminarem os exames, eu boto tudo num automóvel e levo lá para um sitiozinho que eu tenho em Thiago de Melo"

"Vocês sabiam que, no Norte, eles chamam rabanadas de fatias paridas?"

"O que é que você mais desejaria que o Ano Novo lhe trouxesse?"

"Minha filha, eu e as crianças estando com saúde, não preciso de mais nada"

"Minha mulher é uma santa. Ela falou que tudo o que eu tivesse de dar de Natal, desse às crianças"

"Falaram tanto dessas cestas! Você viu o que veio dentro?"

"Pois olhe, lá em Portugal, um quilo de castanhas custa três escudos"

"Mas, hoje em dia, qual é a diferença que existe entre o champanha nacional e o francês?"

"Com este, faz não sei quantos natais que eu não como uma fatia de peru"

"Você acha que, com as coisas como estão, este Governo aguenta até o fim do ano?"
Crônica de Antonio Maria publicada em 14/12/59

E aquela diretoria que fura poço?


Nada de mais exato foi dito até aqui para definir a pretensão dos partidos políticos na hora de lotearem o governo em nome da governabilidade.

"Aquela diretoria que fura poço” é uma expressão cunhada por Severino Cavalcanti (PP-PE), ex-presidente da Câmara dos Deputados, que renunciou ao mandato para escapar de ser cassado. Havia recebido um “mensalinho” de concessionário de restaurantes da Câmara.

Severino não queria um cargo qualquer para alguém do seu partido – de preferência, um nome escolhido por ele.

Queria algo equivalente a uma diretoria da Petrobras responsável por “furar poço”.

Um emprego desses mexe com muito dinheiro. E por mexer, permitiria a transferência de uma fatia dele para financiar campanhas eleitorais e enriquecer os mais destacados membros do PP.

Por que o espanto? Guarde seu espanto para o que lhe passo a contar.

Você já deve ter ouvido falar do ex-deputado Valdemar Costa Neto, ex-presidente do Partido da República (PR).

Sim, é aquele mesmo do processo do mensalão, condenado a sete anos e 10 meses de prisão em regime semiaberto por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Ficou preso 11 meses.

Cumpre o resto da pena em casa, em Brasília. Pode ser encontrado com frequência na sede do PR, uma sala alugada no Bloco D, Torre A do edifício Liberty Mall.

O presidente de direito do PR é Alfredo Nascimento, ex-ministro dos Transportes, demitido por Dilma em 2011 sob suspeita de corrupção.

O presidente de fato é Valdemar. Nada se faz dentro no PR sem a aprovação dele.

O PR é um partido de porte médio. Saiu da eleição deste ano com 34 deputados federais – tinha 32. E com quatro senadores, o mesmo número que tinha.

Seu apoio na eleição para presidente da República foi intensamente disputado por Dilma e Aécio Neves.

Tudo porque ele dispunha de um minuto e poucos segundos de propaganda eleitoral. Mercadoria que valia ouro.

Dilma venceu a disputa. Para tal foi obrigada por Valdemar a chafurdar na lama.

Leia mais artigo de Ricardo Noblat

Canal estatal


Fenômeno na Espanha inspira descontentes no Brasil


As jornadas de junho de 2013 evidenciaram descontentamento da população brasileira com as instituições e os partidos políticos. Na Espanha, movimento semelhante, o do 15-M ou dos Indignados de 2011, culminou três anos depois com a criação do Podemos, partido fenômeno que, com apenas dois meses de vida, conquistou cinco cadeiras no Parlamento Europeu e obteve 1.245.948 milhão de votos. Ao identificar a insatisfação com a corrupção, com a polarização partidária e com os efeitos devastadores da crise econômica, o Podemos se consolidou como a terceira maior força política no país e já inspira grupos e movimentos sociais que enxergam no Brasil os mesmos elementos para tentar emplacar uma nova forma de fazer política.

É o caso do Avante, nome provisório do projeto de partido, ainda em tubo de ensaio, que ativistas de vários movimentos sociais pretendem criar em 2015. Bastante inspirado no exemplo espanhol, o Avante reúne também um grupo de dissidentes da Rede Sustentabilidade, que abandonou o partido que Marina Silva (hoje no PSB) tenta criar desde 2013 ao se desiludir com os rumos tomados pela campanha presidencial, sobretudo com o apoio da ex-senadora, no segundo turno, ao candidato do PSDB, Aécio Neves.

“As pessoas buscam uma alternativa, os reflexos dos movimentos de junho de 2013 ainda estão aí. (…) A Rede seria essa alternativa. Ela se antecipou à isso, teve essa visão. Mas ao apoiar um dos lados na eleição, ao fazer uma campanha tradicional, ela perdeu a possibilidade de atrair esse sentimento, de realmente ser uma outra forma de fazer política”, avalia o historiador e escritor Célio Turino, que foi porta-voz da Rede em São Paulo e que foi um dos 7 dos 12 membros da Executiva paulista a deixar o sigla depois das eleições. “Estamos estudando muito a experiência espanhola, principalmente esse modelo cidadanista, horizontal, baseado no tripé do bem viver, do bem comum e do ecossocialismo. O Brasil precisa de uma reaproximação das pessoas com o poder, existe um vazio a ser ocupado”, disse.

Ainda em fase embrionária, o Avante reúne pessoas de vários Estados do Brasil, sendo um “bom tanto” de ex-militantes da Rede, além de dissidentes de partidos como o próprio PT, o PSOL e o PCdoB, e ativistas ligados aos movimentos de defesa dos indígenas, da luta dos garis do Rio de Janeiro, de movimentos culturais, de direitos humanos, entre outros. A ideia é conseguir obter o registro do partido no primeiro semestre de 2015.

Leia mais a reportagem

Entrevista da cretinice presidencial


O Brasil não vive uma crise de corrupção, como dizem alguns. Nos últimos anos, começamos a pôr fim a um largo período de impunidade. Isso é um grande avanço para a democracia brasileira.
Como já disse, é a Polícia Federal do meu governo que conduz as investigações sobre a corrupção na Petrobras. Foram essas investigações que levaram ao desmantelamento de um esquema do qual se suspeita que tem décadas de existência, com anterioridade aos governos do PT
Leia a entrevista ao jornal Mercurio, do Chile 

Cobram caro, roubam muito e querem mais


A saída que o futuro ministro da Fazenda, Joaquim Levy, vislumbra para colocar ordem no caos econômico que a presidente criou em 48 meses de Planalto é aumentar impostos

Impostos de Primeiro Mundo, serviços de Terceiro e de quinta qualidade. Uma equação insana que piorou muito na última década. Dados divulgados pela Receita Federal apontam que os tributos cobrados dos brasileiros bateram em 35,95% do PIB. É a mais alta proporção desde 2004, quando o indicador foi criado, e a 13ª maior do mundo.

O Brasil perde, pela ordem, para paraísos de excelência: Dinamarca (48%), França (45,3%), Itália (44,4%), Suécia (44,3%), Finlândia (44,1%), Áustria (43,2%), Noruega (42,2%), Hungria (38,9%), Luxemburgo (37,8%), Alemanha (37,6%), Eslovênia (37,4%) e Islândia (37,2%).

A contrapartida para o tanto que se paga é pior do que pífia. Um desequilíbrio estarrecedor, para usar uma das palavras prediletas da presidente Dilma Rousseff.

O país ocupa o 58º lugar entre os 65 que participam do Pisa, programa da OCDE que avalia jovens de 15 anos que concluíram a escolaridade básica; é o último no ranking do Instituto Bloomberg, que analisou os sistemas de saúde de 48 nações. Empata com Geórgia e Granada no 79º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), posição um ponto superior ao ano passado, comemorada com fogos de artifício pelo governo. Mas também aqui perde feio para vizinhos como Chile (41º), Argentina (49º), Uruguai (50º). Não alcança nem mesmo a empobrecida Venezuela (67º).

Leia mais o artigo de Mary Zaidan

domingo, 21 de dezembro de 2014

Sempre limpando o Brasil


Dilma chora pela Petrobras?


Queria ver as lágrimas dela por não ter impedido a roubalheira na maior estatal do país
Entendo que a presidente Dilma Rousseff chore pelo trauma da tortura e da prisão durante a ditadura militar. Queria ver a presidente chorando também, com sinceridade, pelas revelações da “outra” Comissão Nacional da Verdade. Uma verdade investigada e denunciada pelo Ministério Público e pela Polícia Federal. Quantas mentiras foram ditas pela senhora, presidente, neste ano eleitoral?

Algum dia veremos lágrimas de Dilma pela má gestão petista da Petrobras? Ninguém pede perdão no Brasil, nem os presidentes militares nem os civis. Será que, no escurinho de seus aposentos no Palácio da Alvorada, Dilma já percebeu que Graça Foster está com os dias contados, porque seu comando na Petrobras se tornou indefensável, por conivência ou desleixo?

Será que Dilma chora às escondidas ao reconhecer, para si mesma, que a Petrobras deixou de ser o orgulho nacional para se tornar a vergonha nacional, processada até no exterior? Será que Dilma chora pelas perdas de todos os pequenos investidores enganados pela empresa?

“Roubaram o orgulho dos brasileiros”, afirma o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, sobre o escândalo. Janot defende a demissão de toda a cúpula da Petrobras pelo “cenário desastroso na gestão da companhia”. Dilma escuta Lula dizer que tem de “botar o dedo na cara” da oposição.

Se Dilma chora pelas 434 vítimas do golpe militar – e nos emociona – , será que chora de tristeza, vergonha e, quem sabe, arrependimento por não ter detido a roubalheira na maior estatal do país, por não ter impedido a compra da Refinaria de Pasadena, por ter deixado rolar os desvios bilionários que sucateiam nossos serviços públicos e punem a população?

A lama já chegou ao Congresso. Logo teremos a lista de políticos no “corredor da cassação”. O deputado fanfarrão André Vargas, recém-cassado, diz ser “apenas um cisco” na Lava Jato. Sabemos que é verdade. Vargas foi um dos anéis defenestrados para o partido manter os dedos. Haverá outros. Em abril, Lula já dizia: “No final quem paga o pato (da amizade de Vargas com o doleiro preso Alberto Youssef) é o PT.” Será que um dia anistiaremos os bandidos?

É um exercício didático lembrar o que Dilma falou, em abril, em Ipojuca, Pernambuco, numa cerimônia alusiva à viagem do navio Dragão do Mar. Ela criticou a “campanha negativa” de denúncias contra a Petrobras e discursou para os operários. “Mais que uma empresa”, disse Dilma há oito meses, “a Petrobras é um símbolo da afirmação do nosso país, e um dos maiores patrimônios de cada um dos 200 milhões de brasileiros. Por isso, a Petrobras jamais se confundirá com qualquer malfeito, corrupção ou qualquer ação indevida de quaisquer pessoas, das mais às menos graduadas.” Ela chora, hoje? Ou só a gente chora?

O país quer saber


Veja 

Tomara que caia




Quem, em sã consciência, pode apostar que um grupo que se enraizou no Estado brasileiro para saqueá-lo fará tudo diferente agora?
Ao ser diplomada no TSE para o novo mandato, Dilma Rousseff propôs um pacto nacional contra a corrupção. Quase na mesma hora, a Controladoria-Geral da União afirmava que a compra da Refinaria de Pasadena não foi um mau negócio, foi má-fé. Dilma presidia o Conselho de Administração da Petrobras, responsável pela aprovação da negociata. A dúvida é se os critérios para a compra da refinaria e para o pacto anticorrupção serão os mesmos.

O Brasil precisa saber urgentemente qual será o papel do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, no pacto nacional contra a corrupção. Nas investigações da Polícia Federal, Vaccari é acusado de beneficiário do esquema do petrolão, e de injetar propinas na campanha de Dilma — essa mesma que foi reeleita e diplomada declarando guerra à corrupção. As faxinas da presidente deixariam o FBI de cabelo em pé.

Os EUA, aliás, já foram apresentados às entranhas do governo popular, com a chegada do escândalo da Petrobras à Justiça americana. O problema é que lá não tem um Lewandowski ou um Dias Toffoli para tranquilizar os companheiros na última instância. Também não tem um ministro da Justiça servindo de garoto de recados do marqueteiro petista. Como incluir os americanos, holandeses e suíços lesados pelo petrolão no pacto contra a corrupção? Será que o apoio deles custa mais do que os da UNE e do MST?

Uma das ascensões políticas mais impressionantes nos últimos anos foi a do ex-deputado André Vargas. Virou secretário de comunicação do PT e chegou a falar grosso com o STF no julgamento do mensalão — cuja transmissão televisiva ele queria embargar. Depois provocou Joaquim Barbosa publicamente, fazendo a seu lado o gesto do punho cerrado dos mensaleiros. André Vargas chegou à vice-presidência da Câmara dos Deputados, nada menos. Aos inocentes que não entendiam aquela ascensão meteórica, veio, enfim, a explicação: Vargas era comparsa do doleiro Alberto Youssef, o operador do petrolão.

Essa singela crônica de sucesso mostra que hoje, no Brasil, não há nada mais claro e seguro do que a lógica de funcionamento do PT. A qualquer tempo e lugar que você queira compreendê-la, o caminho é simples: siga o dinheiro.

Seguindo o dinheiro (farto) do doleiro, a polícia chegou a uma quadrilha instalada na diretoria da Petrobras sob o governo popular. Tinha o Paulinho do Lula, tinha o Duque do Dirceu, tinha o tesoureiro da Dilma, tinha bilhões e bilhões de reais irrigando a base de apoio do império petista. Um ou outro brasileiro mal-humorado se lembrou do mensalão e resmungou: mais um caso de corrupção no governo do PT. Acusação totalmente equivocada.

O mensalão e o petrolão não são casos de corrupção. Pertencem a um sistema de corrupção, montado sob a bandeira da justiça social e da bondade. Vamos repetir para os que seguiram o dinheiro e se perderam no caminho: trata-se de um sistema de corrupção. E as investigações já mostraram que esse sistema esteve ligado diretamente ao Palácio do Planalto nos últimos dez anos. Um deputado de oposição disse que o maior medo do PT não era perder a eleição presidencial, mas que depois Dilma fizesse a delação premiada.

Primeira lição


Na escola primária
Ivo viu a uva
e aprendeu a ler.

Ao ficar rapaz
Ivo viu a Eva
e aprendeu a amar.

E sendo homem feito
Ivo viu o mundo
seus comes e bebes.

Um dia num muro
Ivo soletrou
a lição da plebe.

E aprendeu a ver.
Ivo viu a ave?
Ivo viu o ovo?

Na nova cartilha
Ivo viu a greve
Ivo viu o povo.
Lêdo Ivo

Uma corda sobre o abismo

A vitória deu ao PT a oportunidade de corrigir erros que não foram poucos, mas não lhe garantirá salvo-conduto para continuar atentando contra a ética e a inteligência dos brasileiros
Senador Aécio Neves  

Cadeia neles!


Depois de milênios em conflito, Deus e o Capeta resolveram promover a paz universal e eterna no universo. Decidiram que para evitar a continuação de conflitos e desgraças, melhor seria construir uma ponte entre o Céu e o Inferno. Assim estariam prevenidos e garantidos. A combinação foi de que cada lado se encarregasse de metade da ponte. Logo o Capeta lançou-se na sua empreitada, mobilizando legiões de diabinhos e cumprindo rigorosamente o cronograma das obras. Quando olhava para cima, no entanto, via que nada estava sendo feito. Preocupado e tendo quase completado a sua obrigação, pediu uma audiência para reclamar. Afinal, meia ponte não resolveria nada em prol dos objetivos combinados.

O Padre Eterno ouviu calado as críticas sobre sua inação, mas no final falou: “Quer saber porque não iniciamos nossa parte da ponte? Por culpa sua! Aqui no Céu não encontramos um empreiteiro sequer, para contratar. Você levou todos para o Inferno!”

A anedota se ajusta bem à realidade que vivemos. Presos ou temerosos da prisão, não haverá um só empreiteiro, grande ou pequeno, contratado ou não pela Petrobras, que deixe de ser chamado a prestar contas, demonstrando sua lisura ou merecendo queimar até o fim dos tempos. O corpo técnico das empreiteiras é excepcional. Seus engenheiros, planejadores, mestres de obras e operários fazem milagres em matéria de hidrelétricas, portos, pontes, túneis e tudo o mais que envolva obras públicas e privadas. O diabo (com perdão de nosso personagem citado acima) são certos donos. Proprietários das empresas, pelo berço ou por malandragens, ávidos de multiplicar suas contas bancárias e seu poder. Responsáveis por uma injusta generalização.

É mentira dizer que não sabiam o que seus operadores faziam em matéria de superfaturamento, aditivos contratuais, propinas e compra de políticos e de altos funcionários do governo. Bobagem igual, só a do Lula ao proclamar que não tinha conhecimento do mensalão, ou da própria Dilma, para quem foi uma surpresa verificar a lambança na Petrobras.