quarta-feira, 17 de abril de 2024

Que tamanho terá esse monstro amanhã?

"Davam duas horas para suspender uma conta, ou teríamos multas pesadas". Antes do surgimento das tecnologias digitais, podia-se falar livremente, em qualquer lugar, sobre pessoas e coisas. As palavras despareciam no ar. Hoje, entretanto, não é bem assim. Os olhos e ouvidos das redes sociais registram tudo. As intenções são detectadas, decodificados ou reproduzidos rapidamente por cidadãos conectados pela tecnologia digital. Eles superam, no mundo, a casa dos 5 bilhões de pessoas . No Brasil são mais de 100 milhões. Nesse universo, os discursos não só ganham sentidos, como instigam ações. O filósofo francês Michel Foucault, não propriamente um usuário da internet, advertia: palavras são símbolos vivos, geram ação e criam realidades.


A consideração é elucidativa para essa contenda entre Elon Musk, proprietário do Twitter (X), e Alexandre de Moraes, um ministro do Supremo Tribunal, do Brasil. O embate entre os dois reverbera ideias expandidas digitalmente na consciência dos cidadãos . Vêm da livre circulação das palavras e das armadilhas discursivas que nelas se escondem. Pela dimensão que alcançam, o que está no submundo da etimologia não fica ignorado das redes digitais , sobretudo os enunciados absurdos .

A burrice não é tão generalizada como se quer acreditar. A reação ampla e imediata nas redes chega a assustar os emissores empoderados da esfera do Estado. Fragilizados diante do cidadão digital, não conseguem se esquivar da tentação de cercear a liberdade de informar e de pensar . O alargamento das reverberações contestatórias nas redes sociais , chegam a desqualificar sujeitos, autoridades e ideias tidas como impróprias ou "fakes" .

No campo da política , há no mundo uma disputa hegemônica para apropriação das novas tecnologias que alargaram competências e a compreensão do cidadão comum. Vista como virtude, ao mesmo tempo, constituiria uma ameaça. Os militares brasileiros chegaram a recusar a entrada da internet no Brasil, hoje controlada na China - nosso pretenso modelo político -, na Rússia, em Cuba e países com perfil similar . Criaram uma secretaria de tecnologia vinculada à Presidência da República para gerar e administrar uma política tecnológica exclusivamente nacional, até então algo rudimentar.

Digitalmente, o Brasil parara no tempo. Não havia por aqui massa crítica capaz de erigir aqueles propósitos de cunho nacionalista. Nesse ínterim, as novas tecnologias expandiram-se, e o uso da internet evoluíu num ambíguo confronto entre o controle e a proibição, dentro do escopo da liberdade de pensamento e de informação . As pesquisas e tecnologias fortaleceram a tal ponto a sociedade civil, que ela terminou derrubar governos, como aconteceu nos países árabes do norte da África.

Nosso atual destemido Presidente da República e sua "entourage" parece deglutir a questão, como um Macunaíma, ao pretender retomar essa linha autoritária. "O País não precisa da inteligência artificial", porque é suficientemente inteligente para dar resposta ao que necessita. Anunciou que irá assinar nos próximos dias um ato de regulação da IA no Brasil, e que o governo já cogita de algo digital próprio.

Tudo bem, mas certamente um conteúdo com essa origem pode significar o controle da informação. Para começar, o Presidente vê no Brasil apenas dois polos políticos : "Esquerda e Direita", que chamou de "Nós e Eles". Os substratos aderem naturalmente . Difícil acreditar que isso seja fruto de confusões mentais discursivas ou de insuficiência intelectual . O "Nós e Eles" não é uma declaração apenas intempestiva, surgida no calor da hora. Nela brota o futuro de um governo centralizado perene, um partido único proletarizado, conforme explicou José Dirceu.

O problema é como essa futurologia vai se materializar? A democracia nunca conseguirá construir um regime desses no Brasil. O "Nós e Eles" é uma espécie de mantra que alimenta, infelizmente, um ódio, uma linha demarcatória das diferenças entre as pessoas na sociedade voltadas para o bem ou para o mal . Uma mensagem dessas ignora a história, e não se preocupa com as consequências .

É complicado explicar o ódio gerado por uma aparente e ingênua declaração, que induz a um distanciamento entre as pessoas de uma comunidade , produzindo facções de amigos e inimigos. O ódio, como método, é o sentido oculto no enunciado, contido até em desleixadas declarações sobre a busca pela paz e a democracia. A introdução dessa diferença social exige um emissor com coragem e desfaçatez para mentir e agir. Instalado carismaticamente tende a se perpetuar, como o peronismo, na Argentina; o maoísmo, na China; ou o stalinismo, na Rússia. São realidades , segundo Foucault, criadas pela palavra . Caminha-se, portanto, em direção a uma nova ética na gestão pública.

Nem Nietsche suportaria tanta ousadia .Todos os que mentem estão conscientes de que o fazem. São perfis recorrentes. Insistem em fazê-lo também por dois motivos : um patológico e o outro, porque , nas suas fantasias existenciais, vem nesse caminho uma forma de se estabelecer no cenário. A mentira e o ódio juntos trazem também em sua própria configuração matrizes do contraditório, identificadas e exploradas pelas redes sociais . Na verdade, é tudo grosseiramente óbvio nesse politicamente correto.

Se o ódio e a mentira, simbolizados nas palavras, desmascaradas nas redes digitais , não são suficientes para sepultar narrativas, resta a censura que surge na cabeça de ineptos governantes . E é assim que a Nação assiste estupefata , essa discussão entre um ministro do STF e o dono de uma plataforma digital, sentenciada a apagar opiniões de políticos e jornalistas . Musk expande seus negócios explorando a liberdade de informação. O cidadão ministro à busca de legitimidade para suas belicosas atitudes anticonstitucionais. São verdadeiras monstruosidades em curso . A persistirem, resta a pergunta: de que tamanho será esse monstro amanhã?

Este é Elon Musk

Um empresário estrangeiro bilionário, comanda aqui no Brasil a oposição à democracia e à soberania popular e busca aliados estrangeiros, em países próximos, para fazer sua guerra contra a soberania do Estado, a República e a ideia de nação, que esteve na raiz do nosso processo constituinte. E o faz apoiado por uma malta fascista, aliada ao que tem de pior no neoliberalismo autoritário, inimigo dos direitos fundamentais e da soberania popular. Este é Elon Musk.

A ideia de Elon Musk é instituir um novo tipo de Estado, através de uma estrutura privada de poder soberano, que possa corroer os valores democráticos – por dentro e por fora da estrutura normativa do Estado instituído – privando-o do seu poder soberano legitimado pelas eleições democráticos, para criar um sistema criminoso de poder privado que controle a República, de fora para dentro, sem ocupação territorial de caráter militar.


Erik Olin Wright busca, na parte conclusiva do seu livro Análise de classe –abordagens, uma resposta para o dilema “se a classe é a resposta, qual é a questão?” – formulando a pergunta específica: “como as pessoas, individual e coletivamente, situam subjetivamente a si e aos outros, dentro de uma estrutura de desigualdade.” É uma pergunta axial para nos situar hoje na nova estrutura de classes e “não-classes” do capitalismo financeiro turbinado pelas novas tecnologias, globalizado pelo consumismo desigual e exasperado.

Elon Musk e Karl Marx percorreriam o mesmo caminho com propósitos de dar respostas com sentidos e ideais diferentes. Marx diria que pela luta política entre as classes – pacífica ou armada, segundo o Marx que se lê – deveríamos conquistar um estado de extinção das classes, numa sociedade pautada pela igualdade com o reconhecimento das diferenças. Elon Musk diz – como Javier Milei – que é preciso uma geleia geral, sem Estado e sem classes estruturadas, para que a sociedade só reconheça os sujeitos como indivíduos em luta para meritoriamente serem mais desiguais.

Parece irônico colocar num mesmo texto a influência na realidade, de dois práticos e pensadores tão diferentes. Mas não será, se pensarmos que Marx é o principal herdeiro do iluminismo do século XVIII e Elon Musk é hoje o principal agitador e “influencer” do fim do humanismo burguês. Este, ao mesmo tempo em que destrói as heranças humanistas ilustradas, promove uma estética da decadência, que encarna – com a sua idiotia provocativa e o seu talento pervertido – a ideia de monetizar a canalhice como valor agregado à sua ousadia performática.

A experiência de Elon Musk como CEO, chanceler e líder de um novo poder soberano global, que se ergue no horizonte da história contemporânea, não é apenas o novo traçado de uma epopeia fascista libertina, hoje apelidada de “libertária”, mas é, sobretudo, a promessa de uma nova etapa – na época da dissolução do projeto imperial-colonial tradicional – que se encaminha para outro patamar de poder do capital financeiro global, no atual sistema-mundo.

Elon Musk concebe uma linha política, como um agente especial das mudanças tecnológicas e informacionais da grande pirataria do capitalismo, como representação informal de novos entes soberanos. Diferentes e distantes dos estados modernos, formados até agora, o Estado de Musk é o “estados-fluxo”, sem pátria e sem pruridos humanistas: Estado total global de natureza privada, que esmaga as agências públicas que fizeram as normas de poder do Estado de direito.

Estes Estados desafiam a genética do Estado de direito – nacional e social – pela captura da opinião na ditadura do mercado e que tem no seu limite tanto a guerra quanto a ditadura militar como seu recurso derradeiro. A naturalização da violência, o fim de qualquer proteção social e a multiplicação do Estado-polícia, face ao rebaixamento do que resta das funções públicas do Estado, são o seu caminho.

Elon Musk encarna o fato de que há uma outra realidade em marcha, onde os conceitos de pátria, nação e solidariedade, serão soterrados por estes novos gerentes, pilantras do capitalismo em crise, cheios de “brilho” nos momentos mais excitantes da sua vida, para quais não importa nada: miséria, famílias destruídas, crianças assassinadas, jovens mortos de fome, trabalho precário e noites de inverno sem calor. Nada lhes importa.

O que lhes importa é a próxima cotação das bolsas e como os idiotas e patéticos editoriais da desumanidade dos grandes órgãos de imprensa verão sua conduta desafiadora da ordem democrática, para negociar com eles os resultados da monetização da mentira industrialmente produzida nas catacumbas das redes.

A alarmante naturalidade com que a grande imprensa trata a pirataria de Elon Musk contra as democracias do continente, na Bolívia dizendo que seria ótimo um golpe de Estado para que o país possa ser colonizado para entregar seu lítio, no Brasil atacando os poderes da República, o presidente do Supremo e subvertendo a luta política para transformá-la num canil raivoso de protagonistas da direita fascista, ele, Elon Musk, passeia um oceano de delírios como um agente estrangeiro de um Estado sem pátria.

A síntese que Elon Musk representa é a seguinte: seu poder deixado “livre” terá como resultado a implementação de uma soberania de “novo tipo”, cuja ordem normativa será apenas um fluxo digital e comunicacional, combinados numa sequência de redes de empresas – reais e virtuais – em cujos “nós” inteligentes estarão os comandos da nova soberania privada, aceita como se fosse um Estado Nacional invasor que já dominou o território.

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Relatório liga crimes no Cerrado a gigantes da moda europeus

Até chegarem nas vitrines de gigantes como Zara e H&M, calças, bermudas, camisetas e meias de algodão deixam para trás um rastro de desmatamento, grilagem de terras e violação de direitos humanos no Brasil. Para o consumidor, as peças parecem acima de qualquer suspeita: a maioria estampa um selo de produção sustentável.

A denúncia faz parte do relatório Fashion Crimes da organização Earthsight, publicado na quinta-feira. Ao longo de um ano, uma investigação detalhada focou nos negócios que conectam as lavouras do Brasil, quarto maior produtor da commodity no globo, às marcas europeias.

A ONG analisou o caminho percorrido por 816 mil toneladas de algodão com a ajuda de imagens de satélite, registros de envios de mercadoria, arquivos públicos e visitas às regiões produtoras.

Segundo o relatório, essa matéria-prima foi destinada especialmente a oito empresas asiáticas que, entre 2014 e 2023, fabricaram cerca de 250 milhões de itens para as lojas. Muitos deles, alega a investigação, abasteceram marcas como H&M e Zara, entre outras.

"É chocante ver estas ligações entre marcas globais muito reconhecidas, mas que, ao que tudo indica, não se esforçam o suficiente para ter controle sobre estas cadeias de fornecimento, para saber de onde vem o algodão e quais tipos de impacto ele provoca", diz Rubens Carvalho, chefe de Pesquisa sobre Desmatamento da Earthsight, à DW.


O problema, afirma a ONG baseada no Reino Unido, está na origem da matéria-prima. O algodão exportado sai principalmente do oeste da Bahia, região imersa no Cerrado brasileiro muitas vezes desmatado ilegalmente para ampliar o cultivo. Em alta, o corte desta vegetação dobrou nos últimos cinco anos, segundo monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Dentre os casos analisados no relatório, está o grupo SLC Agrícola. Fundado em 1977 no Rio Grande do Sul, o grupo diz ser responsável por 11% do algodão brasileiro exportado (safra 2019/2020).

O estudo da Earthsight também diz que, nos últimos 12 anos, estima-se que 40 mil campos de futebol de Cerrado tenham sido destruídos dentro das fazendas do SLC. Em 2020, a empresa, que também planta soja, foi apontada como a maior desmatadora do bioma, calculam pesquisadores do Chain Reaction Research.

Em 2021, o SLC se comprometeu junto a fornecedores com uma política de desmatamento zero. Um ano após a promessa, um relatório da Aidenvironment identificou o corte de 1.365 hectares de Cerrado dentro das propriedades que cultivam algodão, o equivalente a 1.300 campos de futebol. Quase metade estava dentro da reserva legal.

Uma consulta feita pela Earthsight no banco de dados do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostra mais de R$ 1,2 milhão de multas aplicadas por infrações ambientais desde 2008 nas fazendas do grupo no oeste da Bahia.

Uma das acionistas da SLC é a britânica Odey Asset Management. Em 2020, em uma entrevista para o diário britânico Financial Times, o fundador da empresa disse que arcar com as penalidades ambientais no Brasil era algo corriqueiro como "pagar multas de trânsito".

Questionado, o grupo afirmou por meio de nota à DW que "todas as conversões de área com vegetação nativa da SLC seguiram os limites estabelecidos por lei". Especificamente sobre a área desmatada em 2022 apontada no relatório da Aidenvironment, a empresa diz que a destruição se deu por "um incêndio natural, não ocasionado para a abertura de novas áreas para produção".

Sobre as multas aplicadas pelo Ibama, a SLC Agrícola diz ter recorrido administrativamente de todas as autuações. "As multas que foram objeto de recurso estão em tramitação e não houve, até o momento, um julgamento definitivo", diz a nota.

Outro grupo analisado em detalhes é o Horita, original do Paraná e atuante na Bahia desde a década de 1980. Dentre as várias denúncias feitas pela Earthsight está a chamada grilagem verde: imposição de reservas legais, ou áreas de preservação de propriedade privada, em zonas onde vivem comunidades tradicionais. A manobra impede que famílias realizem atividades de subsistência e, nos piores casos, permaneçam nas terras.

O conflito fundiário entre as famílias geraizeiras, como se identificam essas comunidades tradicionais na região, e fazendeiros data de 1970. Na década seguinte, a companhia Delfin Rio compra terras e registra o empreendimento como Agronegócio Condomínio Cachoeira do Estrondo. Segundo a Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais do estado (AATR), o grupo Horita é um dos sócios do complexo de fazendas.

Em 2017, as famílias geraizeiras da zona rural de Formosa do Rio Preto, no oeste baiano, ajuizaram uma ação contra a Estrondo por grilagem de terra e ganharam, em caráter liminar, a posse coletiva de 43 mil hectares que o empreendimento dizia ter comprado. A maior parte está no coração da Matopiba, zona de expansão do agronegócio que integra os estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, habitada há mais de 200 anos pelos geraizeiros.

Issa Gira, de 67 anos, planta algodão há vários anos em Burkina Faso, mas continua lucrando menos de um dólar por dia. Toda a família tem de ajudá-lo na lavoura, inclusive o garoto da foto. O consumidor final nem toma conhecimento das precárias condições em que vivem essas pessoas.

Após a colheita, os agricultores de Burkina Faso trazem o produto para os postos de coleta na vila mais próxima. Antes disso, uns ajudam os outros a comprimir o algodão em grandes fardos, para pesá-lo. "Ninguém se preocupa com o cultivo, o primeiro elo da cadeia de produção de roupas", adverte o fotógrafo.

Mais de quatro milhões de pessoas trabalham na produção de algodão em Burkina Faso. O algodão é a segunda matéria-prima burquinense mais valiosa, depois do ouro. A Sofitex é uma das três empresas no país que compram o algodão dos agricultores e lhes dá empréstimos. A Sofitex exporta cerca de 540 mil toneladas de algodão por ano. 

"Os subsídios do Ocidente para a produção de algodão levam a dumping nos preços, causando altos prejuízos aos países pobres", afirma Franko. Para ele, a produção de algodão e de roupas nos países pobres é só outra forma de colonialismo. "As pequenas empresas muitas vezes trabalham como contratadas de empresas maiores. O aluguel é caro para os trabalhadores, por isso eles também dormem no local."

Trabalhadoras cortam tecido em uma fábrica em Daca, Bangladesh, coração mundial da indústria têxtil barata, onde elas ganham em média 2,20 euros por dia. Empresas como H&M, Walt Disney e Lidl têm seus produtos fabricados aqui. A região foi manchete em 24 de abril de 2013, quando o prédio Rana Plaza desabou, causando a morte de 1.129 pessoas.

"É difícil falar de condições justas de produção mesmo em marcas caras", diz Franko sobre esta foto, que mostra trabalhadores romenos. "As condições de trabalho nas fábricas de roupas da Romênia são muito melhores que na maioria dos países asiáticos e africanos, mas os salários, de no máximo 200 euros, ainda são extremamente baixos, em certos casos menores que na China. E essa é a União Europeia!".

A indústria da moda passa por uma estagnação em termos de tendências. Por isso, muitas peças de roupa podem ser usadas por mais tempo. Mesmo assim, a cada ano são vendidas mais de 80 bilhões de peças em todo o mundo. A má qualidade e o baixo preço facilitam o descarte. Só nos Estados Unidos surgem a cada ano mais de 15 milhões de toneladas de lixo têxtil.

"O algodão tem uma história obscura, e, na minha opinião, os problemas decorrentes de seu comércio nunca foram resolvidos", lamenta o fotógrafo Jost Franko. Embora se fale muito disso, os consumidores parecem não se preocupar: "Acho que é mais fácil fechar os olhos. Os problemas têm raízes profundas e não são só da indústria têxtil."

Fashion Revolution é um movimento global que exige maior transparência, sustentabilidade e ética na indústria da moda. A semana em que se lembra o desabamento do Rana Plaza em Bangladesh foi declarada Semana da Revolução da Moda, com a campanha #whomademyclothes, em que o consumidor é encorajado a questionar "Quem fez minhas roupas" e exigir maior transparência na cadeia de produção de têxteis.Foto: www.fashionrevolution.org.

Em 2019, a Operação Faroeste da Polícia Federal revelou um conluio do alto escalão do magistrado baiano para favorecer fazendeiros na mesma região. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), um esquema de compra de sentenças teria movimentado cifras bilionárias em disputas de terras e tinha participação de magistrados, empresários, advogados e servidores públicos. Walter Horita, um dos fundadores do grupo, é um dos réus no processo, ainda em julgamento.

Um dos magistrados acusado de vender sentença para grileiros, segundo a Operação Faroeste, atuou na ação que julgava a posse coletiva dos geraizeiros. Segundo a AATR, a liminar a favor das comunidades só passou a ser cumprida após o afastamento e prisão do juiz.

Procurado pela DW, o Grupo Horita declarou nesta quarta-feira que "aguardará a divulgação do relatório para qualquer nova manifestação, para além das que já foram proferidas pelo seu departamento jurídico, em resposta às acusações da ONG".

"Todas as alegações negativas contra o Grupo Horita constantes da Carta da Earthsight, datada de 23/08/2023, como supostos 'achados', não correspondem à verdade", diz um trecho da resposta enviada à ONG.

Durante a investigação, a Earthsight seguiu a rota de 816 mil toneladas de exportações de algodão que saíram da SLC Agrícola e Grupo Horita entre 2014 e 2023 para os principais destinos: China, Vietnã, Indonésia, Turquia, Bangladesh e Paquistão. Com base em dados que permitem rastreio – o que não ocorre no caso chinês –, as pistas levaram a oito fabricantes de roupas na Ásia.

Todas as intermediárias identificadas (PT Kahatex, na Indonésia; Noam Group e Jamuna Group, em Bagladesh; Nisha, Interloop, YBG, Sapphire, Mtmt, no Paquistão) fornecem produtos acabados a marcas como Zara e H&M, segundo aponta a ONG.

"O algodão que associamos aos abusos de direitos à terra e ambientais na Bahia tem certificação Better Cotton. Essa iniciativa falhou em impedir que este algodão chegasse aos consumidores preocupados", afirma o relatório da Earthsight.

Criada em 2009 pela indústria e outras organizações, incluindo a WWF, a iniciativa criou um selo para atestar a origem da matéria-prima no intuito de garantir qualidade e respeito ao meio ambiente. No Brasil, segundo dados da Better Cotton, há 370 fazendas certificadas em parceria com a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

Em 2018, uma análise feita pela Changing Markets Foundation, organização que visa alinhar mercados a padrões de sustentabilidade com sede na Holanda, sobre certificadoras apontou problemas na Better Cotton. "Em geral, os padrões para o algodão certificado são baixos e aplicam-se apenas ao início da cadeia de abastecimento de algodão. Considerar o certificado uma garantia de sustentabilidade é enganoso", dizia o levantamento.

A Better Cotton, sediada em Genebra, disse à DW que acaba de concluir uma auditoria aprimorada feita por terceiros das fazendas envolvidas e que precisa de tempo para analisar as conclusões e implementar mudanças, caso sejam necessárias. "As questões levantadas [pelo relatório] demonstram a necessidade premente de apoio governamental na abordagem das questões trazidas à luz e na garantia de uma implementação justa e eficaz do Estado de direito", diz o e-mail da iniciativa.

À DW, a H&M afirmou que "as conclusões do relatório são altamente preocupantes" e que encaram a questão com muita seriedade. "Estamos em estreito diálogo com a Better Cotton para acompanhar o resultado da investigação e os próximos passos que serão dados para fortalecer e revisar seu padrão", respondeu a varejista, também por e-mail.

A Zara disse à DW que leva "as acusações contra a Better Cotton extremamente a sério" e exige que a certificadora compartilhe o resultado de sua investigação o mais rápido possível.

"Além disso, solicitamos com urgência as providências tomadas pela Better Cotton para garantir a certificação de algodão sustentável nos mais altos padrões", disse a varejista por meio de nota.

Na quarta-feira, a Inditex, proprietária da Zara, exigiu mais transparência da Better Cotton após anúncio da divulgação do relatório para esta quinta. A Inditex enviou uma carta à iniciativa com data de 8 de abril, pedindo esclarecimentos sobre o processo de certificação e progressos em práticas de rastreamento de cadeias produtivas. A Inditex não compra o algodão diretamente dos fornecedores, mas as empresas produtoras são auditadas por certificadoras como a Better Cotton.

Para Rubens Carvalho, da Earthsight, responsabilizar os europeus é parte da solução para acabar com o desmatamento e violações de direitos nos centros produtores de commodities, como o Brasil.

"O algodão ainda é pouco regulamentado nos mercados europeus. Eles precisam regular seu consumo e desvinculá-lo de impactos negativos ambientais e humanos. É preciso uma regulamentação séria, que puna em caso de descumprimento. Isso aumenta a pressão sobre os produtores", defende Carvalho.
Nádia Pontes

Musk é o garoto-propaganda da taxação global dos super-ricos

No livro "Power and Progress", Daron Acemoglu e Simon Johnson mostram como a excessiva confiança de empresários em suas próprias visões pode produzir grandes desastres. Citam o caso de Ferdinand de Lesseps, diplomata francês responsável pela construção do canal de Suez.

Com a confiança inflada, Lesseps convenceu investidores a construir o canal do Panamá no fim do século 19, apesar das condições adversas e perigosas do novo terreno. O projeto falhou sob sua supervisão, com muitos trabalhadores feridos ou mortos.

Esse parece ser o caso de Elon Musk. Reportagem do jornal The New York Times de 2022 retrata-o como um magnata que "age por impulso e acreditando que está absolutamente certo". Sua fortuna o torna ainda mais perigoso.

Ao adquirir a plataforma Twitter, ao final de 2022, Musk fechou o capital da empresa para evitar a pressão que sofre dos acionistas na Tesla (fora o elevado número de mortes registradas nos veículos "autônomos"). Empresas de capital fechado não precisam divulgar resultados trimestrais nem se sujeitam à regulação ostensiva de autoridades.

Sem essas amarras, Musk fez do Twitter um passatempo que lhe custou US$ 44 bilhões, sendo US$ 12,5 bilhões em dívida bancária. Musk demitiu metade dos funcionários e deu passe livre ao discurso de ódio e à desinformação na plataforma. A queda na captação de novos usuários e no faturamento da empresa levou o fundo de investimento Fidelity —que investiu US$ 300 milhões na operação— a estimar perda de 71% do valor da X Holding desde sua aquisição.

Bilionário falastrão e engajado politicamente em causas próprias, Musk tem usado seu novo brinquedo para ameaçar governos, promover criptomoedas e desafiar anunciantes no X. De onde vem tanto poder?

A fortuna de Elon Musk —estimada em US$ 195 bilhões— é maior que o PIB de mais de 130 países em 2023. Ademais, ele detém um complexo industrial em setores estratégicos: transportes terrestre e aeroespacial, telecomunicações e inteligência artificial. Tais poder e influência geram preocupações.

A Nasa alertou sobre a exposição de tecnologia e informação críticas ao controle da SpaceX e da Starlink. Outros países já emitiram alertas similares e estão trabalhando para substituir o sistema de posicionamento global (GPS) dos EUA por similares nacionais (na Rússia, Glonass; na União Europeia, Galileo; na Índia, IRNSS; na China, Beidou/BDS). Até quando o Brasil vai dormir no ponto?

Além disso, a Tesla já perdeu a liderança no mercado de veículos elétricos, com a implacável avalanche de carros chineses. Musk agora pede proteção tarifária e se esbalda nos pesados subsídios e incentivos do governo dos EUA, que permitiram à Tesla reduzir seus preços.

Se somarmos a tudo isso a promessa de taxação global dos lucros das grandes corporações —a Tesla não paga um centavo de tributo federal, por registrar seus lucros em paraísos fiscais—, há motivos de sobra para Musk salivar pelo retorno de Donald Trump.

É nesse contexto que se dão os ataques contra Alexandre de Moraes. O Brasil vem fechando portas às suas investidas —com a revisão dos contratos que beneficiavam a Starlink e a perda da mineradora canadense Sigma Lithium para a chinesa BYD, o país se torna o lugar ideal para testar um mote da campanha presidencial de Trump. Lá, como aqui, a morosidade do Legislativo em definir o marco regulatório das redes sociais deixa à Suprema Corte a deliberação sobre o tema. Daí nasce a alegação de que o Judiciário viola a liberdade de expressão.

Além da regulação das mídias digitais, o caso Musk revela a necessidade de os Estados nacionais desenvolverem suas tecnologias críticas (como satélites e outras tecnologias da informação) e, sobretudo, a urgência de limitar o acúmulo de riqueza dos bilionários.

Musk é o garoto-propaganda do imposto mínimo global. Que seus ataques ao Judiciário brasileiro unam as nações em torno dessa inadiável agenda.
André Roncaglia

Algoritmo da morte: IA gerou 36 mil alvos humanos a eliminar na Faixa de Gaza

Até pouco tempo atrás o jornalismo independente da revista on-line +972, com sede em Tel Aviv, era pouco conhecido fora das fronteiras do Oriente Médio. Publicada em língua inglesa desde sua fundação, em 2010, ela tem direção e corpo editorial composto de israelenses e palestinos. Seu nome esdrúxulo deriva do código de telefonia usado tanto para Israel como para a Cisjordânia ocupada. No espectro ideológico que estraçalha a profissão, a +972 pode ser definida como francamente de esquerda. É respeitadíssima junto a entidades internacionais de jornalismo investigativo e inversamente incômoda para o governo de extrema direita de Benjamin Netanyahu. Sobretudo em tempos de guerra.

Em novembro último, quando a +972 publicou um inquietante relato sobre o afrouxamento das normas militares que permitiam o bombardeio de alvos não militares por parte das Forças de Defesa de Israel (FDI), houve pouco alvoroço mundial. Uma lástima, pois a investigação, assinada pelo veterano Yuval Abraham, se baseava no depoimento inédito sob sigilo de sete integrantes da ativa e da reserva dos serviços de inteligência israelenses — todos com atuação direta na campanha contra Gaza.



Agora, nos primeiros dias de abril, Abraham e a +972 voltaram à carga, em conjunto com o site em hebraico Sichá Mekomit (Chamada Local). Sempre alicerçado no testemunho de oficiais das FDI, a investigação detalha o funcionamento de dois sistemas de inteligência artificial usados na retaliação militar ao traumático ataque terrorista sofrido em 7 de outubro. O primeiro, batizado “Lavender” (Lavanda), elabora listas de alvos inimigos a ser assassinados na Faixa de Gaza, praticamente sem verificação humana. De que forma? O software analisa informações recolhidas sobre a maioria da população de Gaza (2,3 milhões), monitorada em permanência por Israel, e avalia a probabilidade de cada um ser agente do Hamas. Ao mastigar características de agentes terroristas conhecidos por Israel, o programa busca semelhanças na população. Disso brota a lista de alvos potenciais para assassinatos, produzida pelo algoritmo. As autorizações para o bombardeio passaram a ser quase automáticas, roubando em média 20 segundos de atenção humana.

O segundo programa desenvolvido para a ação militar contra Gaza tem nome com interrogação: “Onde está papai?”. Destina-se a rastrear alvos para bombardeá-los especificamente em casas, apartamentos ou propriedades rurais familiares. “Não estávamos interessados em matar agentes do Hamas apenas quando estivessem em instalação militar ou em confronto”, explicou um dos entrevistados. “Ao contrário. Como primeira opção e sem hesitação, as FDI bombardeavam o alvo em família.” O que explica o altíssimo índice de mulheres e crianças despedaçadas e o apagamento de famílias inteiras.

Segundo entrevistados ouvidos na reportagem, o comando militar de Israel tomou a decisão fatal de tolerar a morte de 15 a 20 civis palestinos para a eliminação de cada militante de pouca relevância. O “dano colateral”. Quando o alvo inimigo fosse um oficial graduado do Hamas, a tolerância aumentava para cem civis mortos. Ou mais. Para eliminar o comandante da Brigada Central de Gaza, Ayman Nofal, o Exército autorizou, segundo a reportagem, um dano colateral de 300 pessoas. Foi uma carnificina e tanto no campo de refugiados de Al-Bureij naquele 17 de outubro. “As regras naquela fase inicial e feroz da campanha eram muito lenientes”, contou um dos informantes. “Arrasavam-se quatro edifícios inteiros, mesmo sabendo que o alvo estava em apenas um — se é que estava. Era muito louco.”

Tão louco que, antes da pressão mundial para a matança ser suspensa, as FDI trabalhavam com margem de erro de 10% nos alvos humanos marcados para morrer. Um horror. Os critérios da “Lavender” eram fluidos, mudavam a toda hora. Funcionários da Defesa Civil de Gaza ou pequenos burocratas deveriam ser considerados militantes do Hamas? Ou simpatizantes? E quem já pertenceu ao grupo, mas se desligou? Um único denominador comum foi mantido com rigor: os alvos primários sempre deveriam ser homens, pois nem a ala militar do Hamas nem o grupo terrorista Jihad Islâmica Palestina tem mulheres em suas fileiras.

Foi nessa toada que a inteligência artificial gerou um catatau de 36 mil alvos humanos a ser eliminados na Faixa de Gaza, o que explica a criminosa mortandade indiscriminada das seis primeiras semanas da guerra: mais de 15 mil palestinos mortos, quase metade do total de 33 mil vítimas computadas até agora. Sem falar no uso maciço das “bombas burras” de arrasa-quarteirão (sem componentes de precisão), responsáveis por danos colaterais infinitamente mais graves que mísseis guiados. “Não é aconselhável desperdiçar bombas caras com pessoas sem importância”, explica um dos ouvidos na investigação.

Recomenda-se a leitura na íntegra dessa investigação. Um Estado militarizado e de vanguarda tecnológica, em que algoritmos calculam em escala industrial quem deve morrer, precisa ser chamado à razão. A sorte de Israel é ter cidadãos dispostos a jogar luz sobre a desumanidade.

Fascismo e democracia: o verme na maçã

Em 1967, em uma conferência realizada em Viena, Theodor W. Adorno apresentou ao seu público observações de uma notável relevância para o nosso tempo, apesar das enormes diferenças que nos separam daquela época. Embora o fascismo oficialmente tivesse colapsado, as condições para os movimentos fascistas, ele afirmou, ainda estavam ativas na sociedade. O principal culpado era a tendência de concentração de capital, uma tendência ainda prevalente, que continua a criar “a possibilidade de desclassificação, de degradação, de camadas sociais que, de acordo com sua consciência subjetiva de classe, eram totalmente burguesas e desejavam manter seus privilégios e status social, e até mesmo reforçá-los”. São os mesmos grupos burgueses que estão caindo de categoria os que desenvolvem um “ódio ao socialismo ou ao que eles chamam de socialismo, ou seja, não culpam a sua potencial desclassificação a todo o aparato que o provoca, mas sim àqueles que adotaram uma posição crítica em relação ao sistema em que, em outra época, os membros desses grupos possuíam um certo status, em todo caso, de acordo com concepções tradicionais”.

Nessas breves linhas, Adorno condensou várias ideias-chave da teoria crítica. Para ele, o fascismo não é um acidente da história, nem uma aberração; ao contrário, opera dentro da democracia e é contíguo a ela. É, usando uma metáfora comum, um verme dentro da maçã, que apodrece a fruta por dentro, invisível a olho nu. Como uma antologia sobre a Escola de Frankfurt diz: “Um dos temas principais da primeira Escola de Frankfurt era que era impossível traçar uma linha clara entre os extremos do fascismo político e as patologias sociais mais cotidianas do capitalismo burguês no Ocidente”. Isso também significa que o fascismo não precisa ser um regime completo. Na verdade, poderia ser uma tendência, um conjunto de orientações e ideias pragmáticas que funcionam dentro das democracias. Nas observações de Adorno também está contida a afirmação de que o capitalismo desdobra tendências para a concentração de capital e poder (uma ideia pouco surpreendente para um marxista, que até mesmo os não marxistas teriam dificuldade em refutar). Adorno ainda não tinha testemunhado a forma espetacular como o capital concentrado conseguiria capturar processos eleitorais democráticos. Ele se referia, portanto, à dinâmica de classes que a concentração de capital criava dentro das sociedades liberais. Essa dinâmica ameaçava constantemente degradar as mesmas classes burguesas que antes tinham contribuído para o sistema capitalista e se beneficiado dele.

É importante notar que Adorno enfoca a burguesia (uma mistura de segmentos das classes alta e média) e não o proletariado como agente desse novo fascismo. Ecoando uma tradição da sociologia que considerava o fascismo como a expressão do medo da “mobilidade descendente”, Adorno sugere que a mesma classe que tinha e ainda tem privilégios é a que apoiará quando esses privilégios estiverem ameaçados. Assim, a perda de privilégios parece ser uma motivação-chave para apoiar líderes antidemocráticos. (Nas eleições de 2016, o apoio a Donald Trump foi maior entre os grupos de alta e média renda. As pessoas com renda muito baixa eram mais propensas a apoiar Hillary Clinton.) O desejo de manter o privilégio ou o medo de perdê-lo é, como sugere Adorno, uma força motriz da política em geral e da política fascista em particular.

O terceiro ponto – talvez o mais significativo (pelo menos para o meu argumento) – contido nas sucintas observações de Adorno sugere que a identificação com o fascismo tem suas raízes em certos modos de pensar sobre as causas (como pensamos sobre por que as coisas são como são) e em certos modos de atribuir culpas e responsabilidades. A classe burguesa degradada não culpará o próprio sistema capitalista pela concentração econômica que mina sua perda de status e privilégio. Em vez disso, atribuirá a culpa àqueles que criticam esse mesmo sistema. Mesmo em sua concisão, Adorno nos faz entender que tentar dar sentido ao seu mundo social é como estar dentro de uma câmara escura, uma imagem invertida do mundo exterior. Continuando com a tradição marxista da crítica à ideologia, Adorno identifica aqui um processo cognitivo muito importante em ação no protofascismo: a incapacidade de compreender a cadeia de causas que explicam a própria situação social. A percepção do mundo social, sugere Adorno, pode ser distorcida de forma fundamental. Os burgueses (e provavelmente outras classes) não podem identificar corretamente as causas de suas perdas e, portanto, não podem se unir àqueles que, mesmo não defendendo exatamente seus interesses, ao menos questionam o sistema responsável por sua degradação.

Em poucas palavras, então, Adorno avança uma hipótese sobre a persistência das tendências fascistas em nossas sociedades, devido tanto aos processos econômicos de acumulação e concentração de capital quanto a certos modos de pensamento distorcidos ou incompletos, que são encontrados especialmente nas maneiras como construímos a causalidade, nas formas como tornamos inteligíveis os eventos e como atribuímos as culpas, apontando para o que, em outro contexto, Jason Stanley chamou de uma ideologia viciada. Uma ideologia viciada, como Stanley a define em How Propaganda Works [Como a propaganda funciona], priva os grupos do conhecimento de seus próprios estados mentais, escondendo sistematicamente seus interesses. Quais são os verdadeiros interesses de uma classe ou grupo de pessoas, é claro, não são autoevidentes. Todo juízo a este respeito será feito com base em certos pressupostos por parte do pesquisador que distingue entre interesses verdadeiros e falsos, reivindicando para si uma certa autoridade epistêmica. Quando se tenta compreender o mundo social, assumir essa posição de autoridade epistêmica parece inevitável. Como cidadã, não acredito nas teorias divulgadas por QAnon e outros grupos conspiratórios; fazer de conta que sua visão de mundo é equivalente àquela apresentada em um jornalismo investigativo é uma forma de má fé. O pensamento, qualquer tipo de pensamento, contém apagamentos, deslocamentos, erros e negações. Recuperar essas negações e esses apagamentos ainda é a vocação da análise crítica da sociedade.


A ideia da Ideologiekritik tem sido criticada abundantemente, mas os acontecimentos políticos recentes sugerem que não podemos facilmente renunciar a ela. Há aqueles que argumentam que a Ideologiekritik frequentemente é realizada de má fé (criticando os outros mas não a si mesmo), ou que concede demasiada autoridade ao pesquisador, ou que, qualquer que seja a escolha que uma pessoa faça, sempre será racional porque seu pensamento reflete seus objetivos. De fato, a análise sociológica deveria respeitar as razões que os cidadãos têm para manter suas opiniões e escolhas: não deveria zombar ou desconsiderar, mas em uma época em que florescem teorias conspiratórias extravagantes que obstruem os processos democráticos de formação de opinião, não podemos mais nos permitir supor que todos os pontos de vista são iguais ou igualmente informados; tampouco podemos nos permitir ignorar as manipulações da opinião que são urdidas por uma classe política cada vez mais sofisticada, extraordinariamente versada nas diversas artes de manipulação da opinião e do boato. O poder dessas artes de manipulação se desacoplou graças à rápida transmissão de informação nas redes sociais. Assim, contra nossa vontade, devemos retornar à ideia da Ideologiekritik: quando se trata de dar conta da realidade, nem todas as ideias são iguais.

Uma ideologia estará viciada se cumprir as seguintes condições: se contradiz os princípios básicos da democracia enquanto os cidadãos realmente desejam que as instituições políticas os representem; se suas políticas concretas (por exemplo, ao pretender representar as pessoas comuns e, no entanto, favorecer políticas que dificultam enormemente o acesso à propriedade habitacional) entram em conflito com seus princípios ideológicos ou objetivos declarados; se desloca e distorce as causas do descontentamento de um grupo social; e se é alheia ou cega para os defeitos do líder (por exemplo, para a corrupção em benefício próprio ou sua indiferença ao bem-estar da nação). No entanto, deve ficar claro que não são apenas os apoiadores dos protofascistas populistas que caem nesta armadilha cognitiva, neste ponto cego. Existem muitos exemplos de casos assim. Jerome McGann argumentou, por exemplo, que a poesia romântica negou as condições materiais em que foi produzida através de evasões ou apagamentos. Os comunistas franceses que acreditavam no regime comunista soviético durante a década de 1950, quando já podiam conhecer a capacidade assassina de Stalin, são um exemplo não menos contundente de uma ideologia viciada.

Seguindo o pensamento de Adorno, o fascismo continua operando no seio das sociedades democráticas porque aqueles que são prejudicados pela lógica da concentração econômica não conseguem unir os pontos de sua cadeia causal e, de fato, podem se opor àqueles que trabalham para desmascará-la, criando assim um antagonismo curioso entre aqueles que se propõem a denunciar desigualdades e injustiças e aqueles que as sofrem. Esse antagonismo tornou-se uma característica-chave de muitas democracias ao redor do mundo. A questão da ideologia viciada é especialmente relevante atualmente porque em todos os lugares, e especialmente em Israel, a democracia está sob o assalto do que Francis Fukuyama chama de populismo nacionalista, uma forma política que mina as instituições democráticas por dentro e que, portanto, permite que os atores mais poderosos da sociedade – as corporações e os grupos de pressão – usem o Estado para satisfazer seus próprios interesses em detrimento do demos, que se sente curiosamente alienado das instituições que historicamente garantiram sua soberania. Como afirmam os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, as democracias não morrem apenas por golpes militares ou outros eventos tão dramáticos. Elas também morrem lentamente.

O populismo é uma das formas políticas que assume essa morte lenta. O populismo não é fascismo em si, sim uma tendência fascista, uma linha de força que exerce pressão sobre o campo político e o empurra em direção a tendências regressivas e predisposições antidemocráticas. Uma enorme quantidade de pesquisas tem tentado explicar o surgimento dessas tendências fascistas. Alguns o explicam pela globalização da mão de obra, que deixou a classe trabalhadora em uma situação precária; outros apontam para uma mudança nos valores culturais à qual o populismo é uma reação. A falsa consciência ou ideologias viciadas também são explicadas pela transformação dos meios de comunicação, que em muitos países foram consolidados e comprados com a intenção explícita de mudar a “agenda liberal” da imprensa dominante.

Na França, por exemplo, o empresário multimilionário Vincent Bolloré é proprietário de várias redes de televisão, incluindo a Cnews, canal de notícias 24 horas que promove uma agenda decididamente de direita. Bolloré foi apontado como o promotor da campanha do populista de extrema-direita Éric Zemmour. Outro exemplo é o bilionário norte-americano de origem australiana Rupert Murdoch, que possui centenas de meios de comunicação em todo o mundo – incluindo a máquina de propaganda que é a Fox News nos Estados Unidos – e foi acusado de usá-los para apoiar seus aliados políticos. Em Israel, por sua vez, o jornal gratuito Israel Hayom, financiado por um magnata do cassino já falecido, exerce uma enorme influência política. Portanto, a concentração de capital em todo o mundo teve o efeito de criar armas formidáveis para distorcer a consciência.

Junto com esse crescente controle da informação, a globalização da economia deixou as classes trabalhadoras em uma situação precária. As políticas globalistas de Bill Clinton, como a assinatura do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), provocaram a ira de muitos eleitores da classe trabalhadora; o presidente do sindicato dos trabalhadores de energia foi citado dizendo: “Clinton nos ferrrou e não vamos esquecer disso”. As classes trabalhadoras não se sentem mais representadas pela esquerda e até questionam a capacidade desta de articular seus interesses, um fato que reflete a implosão da ideologia social-democrata em todo o mundo, e talvez até o esgotamento do liberalismo. A combinação desses fatores explica por que, em alguns lugares, estamos testemunhando o surgimento de tendências fascistas; ainda não é um fascismo pleno, mas uma mentalidade que certamente o predispõe.

Foco aqui em um aspecto desse complexo cenário: a percepção do mundo social através de quadros causais sociais defeituosos, ou seja, explicações viciadas dos processos sociais e econômicos. As palavras “defeituoso” ou “viciado” podem parecer desconfortavelmente próximas de “falso” e podem parecer nos levar de volta às armadilhas epistemológicas e morais da Ideologiekritik. No entanto, “viciado” deve ser diferenciado de “falso” porque não exclui ou nega o pensamento e o sentimento dos cidadãos. Contém a possibilidade de que, embora não seja perfeito, o pensamento não seja falso, mas apenas viciado. Não é falso no sentido de que contém a marca de uma experiência social real que o analista deve recuperar. Essas marcas produzem razões que precisam ser compreendidas e reconhecidas.

Presto muita atenção a essas razões, como fica evidente nas várias entrevistas que conduzi com pessoas que aderem a visões de direita, populistas e ultranacionalistas, nas quais tentei compreender a coerência interna de seus pontos de vista para questionar onde e como os pensamentos sobre nosso ambiente social são distorcidos. Concentro-me nos quadros causais (como explicamos nosso mundo social) e nos modos como afetam profundamente a cognição e o comportamento político.

Se quisermos entender por que motivo alguns quadros podem chegar a distorcer nossa percepção do mundo social, por que motivo somos incapazes de nomear corretamente um mal-estar real, devemos levar o pensamento de Adorno a novos patamares e captar mais firmemente do que ele a interconexão do pensamento social com as emoções. Apenas as emoções têm o poder multifacetado de negar a evidência empírica, moldar a motivação, transcender o próprio interesse e responder a situações sociais específicas. Assim, sigo a sugestão da socióloga sueca Helena Flam, de investigar a influência das emoções na macropolítica e “mapear as emoções que sustentam as estruturas sociais e as relações de dominação”. A política está repleta de estruturas afetivas sem as quais não seríamos capazes de entender os modos como ideologias viciadas se infiltram nas experiências sociais dos atores e moldam seu significado.

domingo, 14 de abril de 2024

Idiotice mata!


Um gênio não convence ninguém, o idiota sim
Nelson Rodrigues |

Mídias sociais produzem geração ansiosa

Acaba de sair nos Estados Unidos o novo livro do psicólogo social Jonathan Haidt, “The anxious generation”, pela editora Penguin. No livro, Haidt argumenta que o uso intensivo de mídias sociais rouba das crianças e dos jovens tempo de experimentação e de convívio, causa imediata da atual epidemia de ansiedade e depressão. Mas as raízes do problema, segundo ele, estão nas mudanças culturais que levaram os pais da Geração X a superproteger os filhos.

O livro de Haidt começou como blog na plataforma Substack. Lá, ele propôs a tese —naquele momento controversa —de que o grande aumento nos indicadores de depressão, ansiedade, automutilação e suicídio entre os jovens nos anos 2010 estava ligado ao uso de mídias sociais.

No blog, Haidt nota que, na literatura anterior correlacionando a incidência de problemas mentais ao uso de telas pelos jovens, as evidências eram fracas e contraditórias. Propõe então que não olhássemos para telas em geral (incluindo televisão, computador e videogame), mas apenas para as mídias sociais. Com o novo recorte, a correlação que surge é muito mais forte, especialmente se os dados forem filtrados por gênero, evidenciando o tamanho do problema entre as meninas.

No livro, Haidt desenvolve o argumento, sugerindo relação causal entre uso de mídias sociais nos smartphones e a epidemia de doenças mentais entre os jovens. Essa causalidade é reforçada pela coincidência temporal entre a difusão do uso de smartphone e a explosão nos indicadores de problemas mentais, pela forte correlação entre uso de mídias sociais e a incidência de depressão e ansiedade e pela ausência de uma explicação alternativa. Para Haidt, o uso intensivo de mídias sociais limita as interações sociais presenciais que produzem laços afetivos fortes e estimula comparações com padrões estéticos inalcançáveis, gerando ansiedade e depressão.

A segunda parte do livro tem como ponto de partida a inquietação explorada noutra obra de Haidt, escrita em parceria com Greg Lukianoff, “The coddling of the American mind” (Penguin, 2018). Nela, Lukianoff observa a consolidação de certa cultura universitária “segurista”. Por um lado, diz ele, a proibição nos campi de literatura acadêmica considerada ofensiva (por ser racista ou machista) e a criação de espaços seguros superprotegem os jovens, que não são mais expostos à diversidade e à pluralidade de pensamento. Além disso, a valorização de pequenas ofensas e microagressões pelos movimentos sociais funciona como uma espécie de terapia reversa — enquanto a função da terapia é minorar o trauma, os movimentos sociais terminam supervalorizando ofensas menores e, com isso, involuntariamente, amplificam traumas. É essa última intuição que instiga Haidt a investigar as raízes mais antigas deste etos superprotetor.

Haidt aponta uma mudança cultural significativa: os pais da Geração X (como o autor desta coluna) criaram seus filhos de maneira diferente daquela como eles mesmos foram educados. Nos anos 1980 e 1990, fomos criados com muita liberdade, brincando livremente, sem supervisão, desde os 7 ou 8 anos. Nossos filhos, porém, são superprotegidos, permanecem sob cuidadosa supervisão adulta praticamente até a adolescência.

Isso faz com que as crianças de hoje não desenvolvam a autonomia e não aprendam a lidar com riscos e perigos — habilidade essencial para enfrentar desafios maiores que surgem na vida adulta. Dados mostram que crianças mais velhas e adolescentes pararam de quebrar braços e pernas — pararam de explorar seus limites, desenvolvendo autonomia e senso de perigo. Qualquer um de nós consegue lembrar como jogávamos bola, brincávamos de pega e saíamos à rua sem a presença de adultos a partir da segunda infância. Nossos filhos, porém, só podem brincar e se locomover sob a supervisão constante de um adulto, ou nos sentimos negligentes.

O tempo que os adultos dedicam ao cuidado das crianças disparou na segunda metade dos anos 1990. Outros dados mostram acentuado declínio desde os anos 1990 na experimentação de atividades adultas pelos adolescentes — coisas como sexo, trabalho, consumo de álcool e direção de veículos. As mídias sociais viciantes que prendem os adolescentes à tela do celular e limitam suas interações sociais e afetivas são, para Haidt, apenas o apogeu da tendência anterior e mais profunda de superproteção e fragilização das crianças.

Ele propõe no final do livro um conjunto de ações ou reformas que poderiam minorar o problema. Por um lado, sugere proibir smartphones nas escolas e proibir o uso de qualquer mídia social até os 16 anos. Talvez sua proposta mais desafiadora seja o convite para que deixemos nossos filhos brincar sem supervisão adulta, exatamente como fazíamos até os anos 1980 e 1990.

Falta de saneamento mata e atrasa a educação de crianças no Brasil

 Pais feio, sujo e fedido que ninguém vê ou finge que não existe

Vale a pena ler

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Pensamento do Dia

 


As carpideiras que choram por Bolsonaro querem provar que ele vive

As carpideiras que choram o fracasso do golpe de dezembro de 2022 planejado por Bolsonaro, e do seu refluxo em 8 de janeiro, valem-se de qualquer coisa para provar que seu líder continua vivinho da silva, bulindo e forte, e não à beira do precipício que parece cada vez mais próximo.

A mais recente pesquisa do instituto Quaest, divulgada ontem, mostra que os governadores de São Paulo (Tarcísio de Freitas), do Paraná (Ratinho Júnior), de Goiás (Ronaldo Caiado) e de Minas Gerais (Romeu Zema) estão mais bem avaliados nos seus Estados do que Lula.

Mas por que não deveriam estar? Dos quatro estados, Lula só venceu em um (Minas Gerais), e por um sopro. Salvo Tarcísio, os demais são governadores reeleitos. De onde se concluiu que devem ter feito uma boa ou razoável administração no seu primeiro mandato; elementar, meus caros.

Lula saiu direto da prisão por 580 dias para se eleger presidente. Embora desgastado, tinha a seu favor a memória dos governos Lula 1 e Lula 2, nem sempre lembrada pelos que votaram nele desta vez. No mais, oposição não ganha eleição, é o governo que perde, ensina a história.


De Fernando Henrique Cardoso para cá, todos os presidentes se reelegeram, menos Bolsonaro. É um feito inesquecível do capitão inativo, a levar-se em conta que seu governo gastou o que podia e o que não podia para vencer. Foi a eleição mais comprada desde o fim da ditadura militar de 64.

Zema, Ratinho e Caiado não devem sua reeleição a Bolsonaro como as carpideiras querem fazer crer. Zema nem apoiou Bolsonaro no primeiro turno, preferindo ser votado por bolsonaristas e petistas. Caiado fingiu que apoiou, mas manteve-se distante dele para não se contaminar.

Tarcísio, sim, deve sua eleição a Bolsonaro, de quem foi ministro. Não queria candidatar-se ao governo de São Paulo onde sequer tinha domicílio eleitoral, mas a senador. Foi Bolsonaro quem o convenceu a ser. A capital de São Paulo pode votar no PT como já fez, mas o estado não vota.

Presidente algum desde 1989 governou o país amparado por uma coligação tão ampla de partidos como Lula governou entre 2003 e 2010, quando cedeu o lugar a Dilma que, apesar dos pesares, se elegeu e se reelegeu. Lula, agora, enfrenta um Congresso majoritariamente hostil.

Nunca o Congresso foi tão conservador e de direita como este é. Jamais foi tão poderoso como este é. Pode dar-se ao luxo de governar junto com Lula sem o ônus de quem governa. É o tal do semipresidencialismo. Vinde a mim todos os bônus do exercício do poder; debite-se o ônus ao governo Lula.

Os brasileiros estão alarmados com a falta de segurança pública? Então o Congresso aprova uma lei que proíbe a saída temporária da cadeia de presos menos perigosos para visitar as famílias nos feriados ou em datas especiais. É um convite para que eles se rebelem, além de ferir a Constituição.

Lula vetou a proibição. O Congresso derrubará o veto, e quando o fizer, se dirá que Lula perdeu mais uma batalha, enfraquecendo-se. Diz-se desde já. Mas quem não sabe que Lula governa com o apoio da minoria do Congresso? Qual é a novidade? É chover no molhado. A culpa não é de Lula.

Assim como o Congresso nem sempre lhe diz sim, por que Lula haveria de dizer sim ao Congresso todas as vezes que os dois discordam? A direita terá seu candidato a presidente, ou os seus candidatos, para enfrentar Lula ou um preposto dele em 2026; acalmem-se, pois, as carpideiras.

O candidato, ou os candidatos, dizem, hoje, sonhar com o apoio de Bolsonaro. Mas não de um Bolsonaro preso e condenado por atentar contra a democracia, roubar joias dadas de presente ao Estado brasileiro por governos de outros países, falsificar certificados de vacina.

Sonham com o apoio de um Bolsonaro limpinho ou no máximo enodoado. Sabem que não terão. Isso faz com que Tarcísio pense em renovar seu mandato, Ratinho e Zema em se eleger senador. Caiado quer terminar a carreira disputando a presidência pela segunda vez. Perdeu feio a primeira.

Pensar dá trabalho

De fato, estou aqui matutando para ver se consigo passar pra vocês o que estou pensando. Essas últimas pesquisas da Quaest sobre o governo Lula e os governos estaduais de São Paulo, Goiás, Paraná e Minas Gerais me fizeram refletir. Ao mesmo tempo em que a avaliação do Governo Lula cresceu nesses estados, a avaliação dos governos estaduais foi muito acima do que eu imaginava. Lá o resultado das eleições foi extremamente favorável à direita. Venceu a ideologia da não ideologia, a demonização da política, a evangelização do pensamento. O resultado se vê. Mas foi o governo Lula que fez o salário durar mais, os preços ficarem mais acessíveis, a inflação diminuir a o ar mais respirável. Nada ideológico à primeira vista. A ideologia ficou com os governadores e só. Pouco foi feito nesses estados, mas muito foi dito e isso fica.

O caso de Maricá, aqui no estado do Rio, é um exemplo. Maricá sempre foi administrada pela esquerda. Lá você anda de ônibus gratuitamente, tem acesso aos livros, a educação e a saúde são exemplos de boa gestão. Em Maricá o Bolsonaro venceu. É a diferença entre o dia a dia, a administração da prefeitura que passa por atitudes, decisões concretas e surgem quase que como obrigações naturais e a ideologia da não ideologia que a eleição presidencial pregava.


Somos um rebanho com direito a transporte de graça? Acho que não. As pessoas não sabem que esse transporte de graça faz parte de uma política de esquerda que prioriza a população. A ideologia da esquerda é a que cria essas soluções. Por isso não existe em todo o Brasil.

As pesquisas mostram que Lula cresceu nesses rincões bolsonaristas porque faz um governo voltado e trabalhando pelo povo. Já os governos estaduais, que nada fazem de concreto além de reagirem com violência contra a população, dar apoio ao genocídio do Netanyahu, ou ignorar o meio ambiente como em Minas, recebe a chamada aprovação espontânea, quase religiosa, dogmática e automática.

É a população que não precisa refletir nem pensar para reagir. Recebe a informação e não questiona. Como tudo o que é comunicado hoje em dia. Com pressa, sem tempo para pensar. Ouve e vai em frente. Tarcísio, Zema, Ratinho Jr. e Caiado são dessa turma. Do mesmo jeito que temos que aprender a conviver com esta realidade dos estados eles também têm que aprender a conviver com as realizações do Governo Lula. Não temos que adotar a doutrinação deles, a linguagem impositiva e não reflexiva. Temos que continuar fazendo o que sabemos. Talvez comunicar melhor o que fizemos, mas nunca substituir a realização pela comunicação. Se não temos nada a dizer, acabamos mentindo e é isso o que eles fazem.os que adotar a doutrinação deles, a linguagem impositiva e não reflexiva. Temos que continuar fazendo o que sabemos. Talvez comunicar melhor o que fizemos, mas nunca substituir a realização pela comunicação. Se não temos nada a dizer, acabamos mentindo e é isso o que eles fazem.

'General' da direita


Nós daremos golpe em quem quisermos. Lide com isso
Elon Musk, durante crise que resultou na renúncia de Evo Morales, na Bolívia, de olho no lítio usado na fabricação de baterias da  sua empresa Tesla

A ameaça - ainda - sem nome

Nos anos 1930, o mundo tremia ao ouvir falar do Comintern, a Internacional Comunista. Hoje, sem nome, há uma Internacional da Extrema Direita, e o mundo ainda não se tocou. Ela já detém o governo na Itália, Polônia, Hungria e Holanda. Integra ou apoia o governo na Finlândia, Suécia e Grécia. Cresce a galope na França. Chegou perto nas eleições em Portugal e Espanha. Pândega ou trágica, venceu na Argentina. Promove o terror na Alemanha, no Canadá e na Nova Zelândia. E os EUA podem ter Trump de volta.

No Brasil, Bolsonaro tem processos e acusações suficientes para enjaulá-lo por 500 anos. Isso ainda não aconteceu porque a Justiça tem de seguir o seu curso "normal" —embora se trate de um anormal que, vitorioso na eleição ou no golpe, implantaria uma ditadura que nos faria sentir saudade dos militares. Daí, Bolsonaro continua à solta, arrotando ameaças e pautando a imprensa.

A extrema direita tem uma receita universal. Populismo, nacionalismo, discurso moral e religioso. Xenofobia, repúdio a imigrantes e racismo. Desprezo pelos partidos e pregação da antipolítica. Domesticação ou fechamento do Judiciário. População armada. Antiliberalismo. Negacionismo. Rejeição às teses identitárias e rancor contra artistas e intelectuais. E, com o apoio de seus zumbis nas redes sociais, disseminação de fake news, discurso de ódio com ameaças físicas e inversão de conceitos —falam de "liberdade", "democracia" e "eleições limpas" e, quando no poder, esses valores são os primeiros a serem cancelados.

Elon Musk, o Führer das plataformas digitais, encarna esse programa. Seu desacato ao Brasil poderia ter sido ditado por Bolsonaro. Mais cedo do que pensamos, o mundo pagará caro por essa tecnologia sem pátria e sem freios.

O Comintern fracassou em tudo e acabou em 1943. A Internacional da Extrema Direita apenas começou e, aos poucos, vai ganhando todas.

A amizade com o mandão é a chave que abre portas

É uma palavra afetuosa e uma importante categoria cultural, num sistema movido a oposições de classe, cor e poder político, graças a um complicado pacote hierárquico de prerrogativas e privilégios. Numa sociedade cuja vida doméstica reproduz quase literalmente uma velha e abominável servidão escravocrata, amigos e amizade são, como cargos públicos, diplomas e alianças matrimoniais, mecanismos capazes de eventualmente desbaratar os abismos de cor, instrução, residência, dinheiro e poder.

Amigo — esse sujeito e objeto da amizade —, um instrumento precioso num sistema em que se diz sem pensar que a gente faz tudo pelos amigos e despacha os inimigos e desconhecidos para a indigna desconsideração do anonimato e da impessoalidade dos infindáveis e barrocos processos legalísticos nem sempre legais...


Na sociedade que enlaça o universal e o pessoal e não enxerga a ambiguidade como sintoma de dúvida, mentira, má-fé ou dilema, a amizade é certeza, afeto e obrigação que muitas vezes perturba, porque implica fidelidades que ultrapassam o parentesco, a filiação partidária e ideológica e até o bom senso.

Ter a coragem para tudo, menos a coragem de resistir aos amigos é, como elabora magistralmente Oliveira Vianna em seu ignorado “Pequenos estudos de psychologia social” (publicado em 1923!), “talvez a síntese de toda nossa psicologia política: é a incapacidade moral de cada um de nós para resistir às sugestões da amizade e da gratidão, para sobrepor às contingências do personalismo os grandes interesses sociais, que caracterizam nossa índole cívica e definem as tendências mais íntimas da nossa conduta no poder”.

É justamente a amizade que, em seu personalismo, demanda a reciprocidade que obriga a inventar um castelo mal-assombrado de procedimentos e foros legais cuja ambiguidade tem a função de “acomodar” a ética relacional da “pessoa”, contrariando a impessoalidade e a universalidade igualitária da cidadania.

Caberia questionar tanto os limites da amizade quanto o rigor exagerado das leis, tendo como base não o pragmatismo elitista de nossa esfera jurídico-política, mas nosso real estilo de vida. Só assim seremos capazes de compreender o poder da amizade como instrumento de ascensão política e social e, muito especialmente, de corrupção estrutural como traço inevitável e funcional do sistema.

Dessa perspectiva, a popularidade do poema de Manuel Bandeira está no fato de, em Pasárgada, e sobretudo no Brasil, ser amigo do rei! Lá, como aqui, a amizade com o mandão é a chave que abre portas e promove todos os absurdos legais que nos revoltam neste maravilhoso, dilemático e, pelo visto, imutável Brasil.

Nada melhor, pois, do que ser amigo do supremo magistrado; do vingativo coroado — e do também generoso e misericordioso que perdoa e anistia os conhecidos.

Tal como nas ordenações Manuelinas e Filipinas em que a sentença de morte era abundante — ao lado das súplicas que perdoavam. Tal como ocorre até hoje na esfera da política mais densa (apelidada pelo vulgo de politicagem ou politicalha), vemos que os amigos de hoje foram os inimigos de ontem. Perderam o senso, como diz outro poeta? Nada disso, apenas complacentemente mudaram de lado, como faziam os homens quando as mulheres o tinham e ele era mais um véu de aprisionamento feminino.

Ter o rei como amigo é o máximo. Mas, e se o rei promete lhe foder? Fazer o quê? Sair de Pasárgada? Solicitar residência em Miami, esse santuário dos bem de vida?

Não sei o que pensar quando acompanho perplexo o destino da Operação Lava-Jato. Investigação comparada ao movimento tenentista, hoje ilegal e comandada por bandidos. Quem sabe se Pasárgada não é um xadrez que comanda o crime e, de lambuja, tornou-se uma eficiente pós-graduação do crime?

quarta-feira, 10 de abril de 2024

Promotores apuram envolvimento de agentes públicos no megaesquema de lavagem de dinheiro do PCC

Um espectro ronda o Brasil: o espectro do crime organizado. Trabalhadores, policiais, empresários, religiosos, ateus, brancos, negros ou índios têm vivido uma guerra ininterrupta ora franca ora disfarçada; uma guerra que sempre terminou pela derrota de uma das partes nesse conflito: o Estado ou a criminalidade organizada.

O acento deslocado aqui das lutas sociais para a paz e segurança pública não significa renúncia à civilização em defesa de soluções de força. Poder não se confunde com violência, como ensinava Hannah Arendt; ela só se estabelece onde o poder é fraco ou está em crise. É o que vivemos na Segurança Pública do País. O alerta agora vem da Operação Fim da Linha, executada ontem pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e pela Receita Federal. Ela mostra o grau da captura do sistema público de transporte pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Foram cumpridos dezenas de mandados de busca e decretado bloqueio de bens até o limite de R$ 680 milhões, além de prisões.


Mas não deve parar por aí. Um esquema assim não se circunscreve à maior cidade do País. Ele se espraia como uma metástase pelo interior, por municípios sem estrutura para lidar com a sofisticação cada vez maior dos esquemas de fraudes e lavagem de dinheiro de organizações criminosas, que, evidentemente, não teriam se estabelecido sem a incompetência e a desídia de quem devia combatêlas ou simplesmente sem a corrupção de agentes públicos. Essa é a certeza compartilhada pelos promotores responsáveis pela operação: há ainda um longo caminho para desentocar do Legislativo e do Executivo os que foram corrompidos pelo dinheiro das organizações criminosas.

A lição que Gaeco e Receita deixam aos adeptos do estilo Rambo de policiamento é a do fracasso de quem acha que vai derrotar o crime organizado na base da bala. O coronel José Vicente da Silva Filho usa o exemplo da comunidade do Jacarezinho, no Rio, ao tratar do fiasco dessa tática. “De 2007 a 2020 foram feitas ali 289 operações com 186 mortes. Não era para ter resolvido o problema de segurança nas primeiras ações?” A pergunta é pertinente. Ações como a Operação Escudo não arranharam a unha do PCC.

Normalmente, truculência da polícia só encarece o acerto e a venda de segurança privada. Os suspeitos de sempre são baleados pelo populismo policial, que só interessa aos deputados policiais e aos que aplaudem a barbárie como se estivessem no coliseu romano. Não faltará bandido pé de chinelo para substituir os mortos. Enquanto isso, o crime se enriquece nas barbas de políticos que, atrás dos tiros, enxergam apenas votos.

Para onde vai Israel?

O chef espanhol José Andrés, fundador da World Central Kitchen (WCK), especializada em distribuir ajuda alimentar a vítimas de conflitos armados, acusou o Exército israelense de ter assassinado deliberadamente sete funcionários da organização. Segundo Andrés, o atual governo de Israel trava uma guerra contra a Humanidade.

Andrés não é a única pessoa a pensar assim. Um pouco por todo o mundo cresce a percepção de que Israel está em vias de se transformar num estado terrorista.

Nos últimos dias, além do assassinato dos funcionários da WCK, Israel atacou a embaixada iraniana em Damasco, causando 11 mortes. Por outro lado, em mais uma manobra que confirma a deriva totalitária em curso, o Knesset, parlamento israelense, aprovou legislação que visa a silenciar a Al-Jazeera e outros canais noticiosos internacionais críticos do regime. Tudo isto enquanto prossegue a matança em Gaza.


Mais tarde ou mais cedo, a pressão interna e externa culminará no afastamento de Benjamin Netanyahu e do seu governo extremista. A grande questão não é saber se o primeiro-ministro cairá, mas quando. Muito mais importante: quem o substituirá?

Dezenas de milhares de judeus israelenses que vêm exigindo nas ruas a saída de Netanyahu não parecem muito incomodados com o dramático destino da população palestina. Os judeus israelenses estão zangados com o atual governo porque este não foi capaz de prever e de se antecipar ao ataque terrorista do Hamas, a 7 de outubro de 2023. Estão zangados porque Netanyahu é indiferente ao destino dos reféns. Estão zangados com a incompetência política, diplomática e militar dos seus governantes, que não conseguem nem eliminar o Hamas, nem contrariar o processo de isolamento do país.

A crueldade e a arrogância dos dirigentes israelenses — muitos dos quais defendem, sem o menor vestígio de vergonha, a expulsão dos palestinos de Gaza — horrorizam o mundo, e uma larga parte das comunidades judaicas fora de Israel. Contudo, dentro das fronteiras do país são raras as vozes judias que se erguem para se solidarizar com o sofrimento do povo palestino.

Aprendi a amar Israel através da sua literatura, lendo as obras de escritores lúcidos e corajosos, capazes de olhar o outro, como quem se olha ao espelho, e de erguer pontes de afeto e de empatia entre as diferentes comunidades. Não sei onde estão agora esses escritores. Não sei onde estão as pessoas, os movimentos, as instituições, que possam servir de referência moral, em meio à tempestade de ódio e de bruta irracionalidade que varre o país.

Sim, Netanyahu cairá. Já está caindo. Cairão com ele, muito provavelmente, algumas das personalidades mais repugnantes que constituem o atual governo israelense. Nessa altura, ficaremos a conhecer todo o horror em curso na Faixa de Gaza. O pouco que sabemos hoje já nos permite intuir a imensidão do desastre. Israel levará gerações para reconquistar a simpatia do mundo.

Este é o vaticínio otimista. Implicaria uma insurgência pacifista, um amplo movimento de reflexão da sociedade civil israelense, que se atrevesse a colocar em causa muitos dos fundamentos do próprio estado de Israel. Infelizmente, não vejo sinais de que essa insurgência venha algum dia a emergir.

O declínio e a questão da razão

Em seu discurso de 1838 no Young Men’s Lyceum, o jovem Abraham Lincoln demonstrou preocupação com o fato de que, à medida que as lembranças da Revolução ficavam para trás, a liberdade da nação era ameaçada por um desprezo pelas instituições governamentais, que protegiam as liberdades civis e religiosas deixadas como legado pelos Fundadores. Para preservar o Estado de direito e evitar a ascensão de um pretenso tirano que poderia “surgir entre nós”, seria necessária uma razão sóbria — “uma razão fria, calculada, imparcial”. Para permanecer “livre até o último dos homens”, ele incitou o povo norte-americano a abraçar a razão, junto com uma “moralidade sólida e, em particular, uma reverência pela constituição e pelas leis”.

Como Lincoln sabia, os fundadores dos Estados Unidos haviam baseado sua jovem república nos princípios iluministas da razão, da liberdade, do progresso e da tolerância religiosa. E a estrutura constitucional que haviam arquitetado se fundamentava num sistema racional de separação dos poderes para evitar a possibilidade, nas palavras de Alexander Hamilton, do surgimento de “um homem sem princípios em sua vida privada”, “de temperamento insolente”, que talvez “viesse montado no cavalinho de pau da popularidade” e “exaltasse e se alinhasse com o disparate propagado pelos extremistas de sua era”, de modo a constranger o governo, “lançando ainda mais coisas nessa confusão para dominar a tempestade e direcionar o furacão”.


Esse sistema estava longe de ser perfeito, mas resistiu por mais de dois séculos graças à sua resiliência e à capacidade de acomodar mudanças essenciais. Líderes como Lincoln, Martin Luther King Jr. e Barack Obama viam os Estados Unidos como uma obra em progresso — um país em processo de autoaperfeiçoamento. E eles tentaram acelerar essa obra, cientes, nas palavras do Dr. King, de que “o progresso não é automático nem inevitável”, mas algo que necessita de esforços e dedicação contínuos. O que fora conquistado desde a Guerra Civil e o movimento dos direitos civis eram lembretes do trabalho que ainda havia por fazer, mas também um tributo à crença do presidente Obama de que os norte-americanos “podem se reinventar constantemente para se adaptar a sonhos cada vez maiores”, e à crença iluminista no que George Washington chamou de “o grande experimento confiado às mãos do povo norte-americano”.

Junto a essa visão otimista dos Estados Unidos como uma nação que poderia se tornar uma reluzente “cidade edificada sobre um monte” também existe uma contranarrativa irracional e sombria na história do país, que se reafirmou com uma vingança — a tal ponto que a razão não apenas está sendo minada, mas ao que parece foi simplesmente defenestrada junto com os fatos, com o debate bem informado e com a criação de políticas deliberativas. A ciência está sendo atacada, bem como a autoridade de especialistas de todos os campos — seja em política internacional, segurança nacional, economia ou educação.

Philip Roth chamou essa contranarrativa de “selvageria nativa americana”, e o historiador Richard Hofstadter notoriamente a descreveu como “estilo paranoide” — uma visão alimentada por “fervorosos exageros, desconfiança e fantasia conspiratória” e focada na percepção de ameaças a “uma nação, uma cultura, um modo de vida”. O ensaio de 1964 de Hofstadter foi inspirado pela campanha de Barry Goldwater e pelos movimentos de direita ao seu redor, assim como seu livro de 1963, Anti-Intellectualism in American Life, concebido em resposta à notória caça às bruxas promovida pelo senador Joseph McCarthy e também ao panorama político e social mais amplo dos anos 1950.

Goldwater perdeu a eleição presidencial, e o macarthismo se autodestruiu depois que um advogado do Exército norte-americano, Joseph Welch, teve a coragem de enfrentar McCarthy: “Afinal de contas, o senhor não tem nenhum senso de decência?”, perguntou Welch. “Não lhe sobrou nenhum senso de decência?”

O malicioso McCarthy, que havia acusado pessoas de deslealdade por todos os cantos de Washington (“o Departamento de Estado abriga um ninho de comunistas e simpatizantes dos comunistas”, avisou ao presidente Truman em 1950), foi admoestado pelo senado em 1954. E, com o lançamento do Sputnik pelos soviéticos, em 1957, o alarmante movimento antirracionalista começou a recuar, dando lugar a uma corrida espacial e a uma série de esforços orquestrados para aprimorar os programas científicos dos Estados Unidos.

Hofstadter notou que o estilo paranoico tende a se manifestar em “ondas episódicas”. O movimento anticatólico e anti-imigrante Know Nothing atingiu seu auge em 1855, quando 43 membros do Congresso admitiram abertamente defender suas próprias ideias. A força do movimento começou a se dissipar rapidamente no ano seguinte, depois que o partido se fragmentou em várias dissidências. No entanto, a intolerância que ele incorporava permaneceu, como um vírus, incubado no sistema político esperando para emergir outra vez.

Hofstadter argumenta que a direita moderna tende a ser mobilizada por um sentimento de ressentimento e desapropriação: “Os Estados Unidos, em grande parte, foram tomados dessas pessoas”, escreveu ele, e elas podem acabar achando que “não têm acesso à barganha política ou à tomada de decisões”.

No caso dos Estados Unidos dos millenials (e de grande parte da Europa Ocidental também), esse ressentimento é exacerbado pelas mudanças demográficas e pelos costumes sociais que fizeram alguns membros da classe operária branca se sentirem cada vez mais marginalizados; por conta de desigualdades de renda cada vez maiores, aceleradas pela crise financeira de 2008; e por forças como a globalização e a tecnologia, que estão acabando com os trabalhos de manufatura e injetando uma nova dose de incerteza e angústia na vida cotidiana.

Trump e outros líderes nacionalistas e anti-imigrantes da direita europeia, como Marine Le Pen na França, Geert Wilders na Holanda e Matteo Salvini na Itália, inflamavam esses sentimentos de medo, ódio e privação de direitos, oferecendo bodes expiatórios em vez de soluções; enquanto liberais e conservadores, preocupados com a ascensão do nativismo e de agendas políticas preconceituosas, alertaram para o fato de que as instituições democráticas estavam cada vez mais ameaçadas. “A segunda vinda”, poema que Yeats escreveu em 1919 em meio aos escombros da Primeira Guerra Mundial, passou por um tremendo revival em 2016 — citado mais vezes em matérias na imprensa durante o primeiro semestre do que ao longo das últimas três décadas, uma vez que articulistas políticos evocaram seus famosos versos: “Tudo se parte, o centro não sustenta./ Mera anarquia avança sobre o mundo.”

O ataque à razão e à verdade atingiu seu ápice nos Estados Unidos durante o primeiro ano de mandato do presidente Trump, mas vinha sendo incubado havia anos pela extrema direita. Durante a campanha de 2016, opositores de Clinton que fabricavam acusações delirantes sobre a morte de Vince Foster na década de 1990 se uniram a membros paranoicos do Tea Party que afirmaram que os ambientalistas queriam controlar a temperatura das casas e as cores dos carros. A eles se juntaram blogueiros do Breitbart e trolls da direita alternativa. Quando Trump ganhou a indicação dos republicanos para concorrer à presidência, as ideias extremistas dos seus apoiadores mais radicais — sua intolerância racial e religiosa, seu ódio pelo governo anterior e sua aceitação das teorias da conspiração e das notícias falsas — chegaram ao grande público.

De acordo com um levantamento feito em 2017 pelo The Washington Post, 47% dos republicanos erroneamente acreditam que Trump venceu no voto popular; 68% acreditam que milhões de imigrantes ilegais votaram em 2016; e mais da metade dos republicanos afirmaram não ver problemas em adiar as eleições presidenciais de 2020 até que se resolvam problemas como a votação dos imigrantes ilegais.19 Outro estudo, conduzido por cientistas políticos na Universidade de Chicago, demonstrou que 25% dos norte-americanos acreditam que a quebra da bolsa em 2008 foi secretamente orquestrada por um pequeno grupo de banqueiros; 19% acreditam que o governo tem algum envolvimento com os ataques terroristas do 11 de Setembro; e 11% acreditaram numa teoria que os próprios pesquisadores inventaram, que dizia que lâmpadas fluorescentes faziam parte de um plano do governo para tornar as pessoas mais passivas e fáceis de serem controladas.

Trump, que lançou sua carreira política promovendo descaradamente o nascimentismo (birtherism) e já falou positivamente sobre o radialista e teórico da conspiração Alex Jones, preside uma administração que se tornou, em seu primeiro ano, a própria personificação dos princípios anti-iluministas, repudiando os princípios do racionalismo, da tolerância e do empirismo tanto nas políticas quanto no modus operandi — um reflexo do estilo impulsivo e errático de seu comandante em chefe em tomar decisões, baseado não em conhecimento, mas no instinto, em caprichos e em ideias preconcebidas (e frequentemente delirantes) a respeito do funcionamento do mundo.

Trump não fez nenhum esforço para acabar com sua ignorância a respeito das políticas interna e externa quando se mudou para a Casa Branca. Seu ex-estrategista chefe, Stephen Bannon, disse que o presidente só “lê o que reafirma suas crenças” e sempre negou, minimizou ou desconsiderou qualquer informação a respeito da interferência russa nas eleições de 2016. Como menções a esse assunto costumavam provocar a ira do presidente e podiam atrapalhar o andamento dos relatórios diários de inteligência, funcionários do governo contaram em entrevista ao The Washington Post que, às vezes, incluíam esse tipo de material somente na versão impressa do PDB (President’s Daily Brief, o relatório diário do presidente), que todos sabiam que ele raramente lia.

Em vez disso, ao que parece o presidente prefere obter suas informações na Fox News, sobretudo no programa matinal bajulador Fox & Friends e em veículos como o Breitbart News e o National Enquirer. De acordo com relatos, ele costuma passar até oito horas por dia vendo TV — um hábito que deve fazer com que muitos leitores se recordem de Chauncey Gardiner, o jardineiro viciado em TV que virou celebridade e estrela política em ascensão no romance O Videota, de Jerzy Kosiński, publicado em 1970. A Vice News também relatou que Trump recebe, duas vezes por dia, uma pasta contendo um clipping elogioso, incluindo “tuítes de admiradores, trechos de entrevistas bajuladoras na TV, matérias jornalísticas repletas de elogios e, de vez em quando, apenas fotos de Trump na TV parecendo poderoso”.

Esse tipo de detalhe absurdo é mais preocupante do que apenas cômico, porque não estamos falando de um mero episódio de Além da imaginação sobre um lunático morando numa enorme casa branca em Washington. A propensão de Trump para o caos não só não foi contida pelos mais próximos a ele, como contaminou toda a sua administração. Ele garante ser “o único que importa” quando o assunto é a criação de políticas e, dado o seu desprezo pelo conhecimento institucional, ignora com frequência os conselhos de membros do gabinete e de agências, isso quando não os exclui por completo da discussão.
Michiko Kakutani, "A morte da verdade"