Neste ano em que o Brasil completa seu bicentenário, Darcy Ribeiro completaria 100 anos de idade. É dele a frase: “Ou nos indignamos, ou nos conformamos”. Durante nossa história, nos conformamos com a escravidão, com a corrupção, com a desigualdade, com o desflorestamento, a deseducação, com a persistência da pobreza. Nos conformamos com estas tristes características da economia e da sociedade, e não construímos um país com eficiência, justiça e sustentabilidade. Por 350 anos, a escravidão das pessoas era tão aceita que o fato não era percebido como uma anormalidade moral.
Agora, no nosso bicentenário, vemos como normal a realidade que nos transmite a televisão: lado a lado a fome que maltrata e mata 20 milhões de pessoas famintas, e notícias de que somos o celeiro do mundo, o maior exportador de alimentos; ao lado também de farta propaganda de alimentos para convencer quem já come a comer mais; e também programas de culinária,novelas e reality shows onde os personagens passam parte do tempo esbanjando comida, ao redor de mesas ou em frente de geladeiras e fogões.
Diante deste quadro, Darcy diria: “Ou nos conformamos, ou nos indignamos com a simultaneidade da fome com o excesso de comida. Aparentemente, a opção brasileira continua pelo conformismo. Salvo para grupos de pessoas de boa vontade, que as televisões também mostram, exercendo a generosidade de levar comida para alguns dos que não têm. Graças a estas pessoas e empresas que não se conformam, centenas de de pessoas recebem comida uma ou outra vez, durante um dia ou outro dia. Mas estes gestos pessoais de boa vontade que alimentam alguns não são capazes de transformar o país para que a fome não ocorra em nosso território.
No conjunto, a sociedade brasileira optou pelo conformismo, que mantém as perversidades tão toleradas que nem são percebidas como imorais. Tanto quanto a escravidão era aceita, “porque os escravos são negros”, a educação de qualidade é negada porque “a criança é pobre”, a fome ao lado da gastronomia porque “uns têm, outros não”. As pessoas se conformam com a realidade injusta moralmente, até absurda logicamente, mas real e permanente porque aceita como uma opção coletiva pelo conformismo.
domingo, 23 de janeiro de 2022
Brasileiros ricos passam bem pela pandemia
Eles representam cerca de 2% da população brasileira, mas seus gastos são equivalentes a quase 20% do consumo nacional.
Em meio à pandemia, enquanto a maior parte do país sofria com perda de renda, em meio ao avanço do desemprego e da inflação, os brasileiros mais ricos se viram impedidos de gastar em viagens internacionais e em compras nas principais capitais do consumo do mundo.
Com uma "poupança forçada" pela mudança de hábitos, eles gastaram em luxos no mercado nacional e investiram volume recorde de dinheiro no exterior.
Assim, enquanto parte da população fazia fila para receber ossos no açougue, em meio aos preços recordes da carne e ao avanço da fome, outra parcela — bem menor — aguardava na fila para comprar um helicóptero.
Segundo um fabricante ouvido pela BBC News Brasil, a espera por uma aeronave nova chegou a 20 meses, dependendo do modelo, em meio a um salto de demanda.
A fabricante de carros de luxo Porsche bateu recordes de vendas no país em 2020 e 2021, enquanto o setor imobiliário de luxo e super luxo — de apartamentos acima de R$ 1 milhão e R$ 2 milhões, respectivamente — registrou um crescimento de mais de 80% nos lançamentos e de 47% nas vendas.
Segundo a empresa de pesquisa de mercado Euromonitor, a chamada "classe A" brasileira representava 2% da população em 2021.
São pessoas com renda familiar anual acima de US$ 45 mil (R$ 248 mil ao ano ou cerca de R$ 21 mil por mês, ao câmbio atual), cujos gastos equivaleram no ano passado a 19,4% do consumo nacional.
Embora a classe A tenha diminuído após dois anos de pandemia (ela representava 2,7% da população em 2019, segundo a Euromonitor), o consumo dessa parcela de maior renda foi bem menos afetado pela crise sanitária do que o restante da população.
"Os consumidores ricos acumularam reservas involuntárias importantes por conta das opções de lazer reduzidas e das limitações sociais impostas pela pandemia", observa Guilherme Machado, gerente de pesquisa da Euromonitor International.
"A maioria dos brasileiros desses grupos de maior renda está acostumada a viajar para o exterior e comprar itens de luxo nos principais centros globais de consumo, como Nova York, Paris e Londres. Mas, com o fechamento de fronteiras, esses consumidores têm buscado o prazer no mercado de luxo local, resultando em níveis de faturamento sem precedentes para algumas marcas de luxo", destaca o pesquisador.
Uma dessas marcas foi a Porsche. Enquanto a venda de automóveis de passageiros em geral no Brasil despencou 28% em 2020 e caiu mais 3,6% em 2021, em meio a paradas de produção provocadas por uma escassez global de semicondutores, a marca de luxo bateu recordes de vendas no país nos dois anos da pandemia.
Os compradores têm enfrentado filas de espera superiores aos 3 a 6 meses normalmente necessários para a customização dos carros que são sinônimo de ostentação.
"Em 2021, nós vendemos 3.079 veículos aqui no Brasil, um crescimento de 24% em relação a 2020, quando havíamos vendido 2.487 unidades", conta Leandro Rodrigues, gerente comunicação e relações públicas da Porsche no Brasil.
"2020 era o nosso recorde anterior, batemos recordes em 2020 e 2021", destaca, lembrando que a empresa passou a operar diretamente no Brasil em 2015 e tem crescido a uma média de 27% ao ano desde então. A trajetória de alta não foi abalada pela pandemia.
"Quando você tem clientes que tinham uma parcela grande de consumo no exterior e de repente esse consumo não acontece, naturalmente eles têm recursos disponíveis para a compra de produtos aqui no Brasil", avalia Rodrigues.
O executivo destaca ainda as restrições de opções de lazer mesmo dentro do país como outro fator que explica o impulso nas vendas.
"Naturalmente, alguns clientes buscaram outras maneiras de se manterem entretidos e realizarem seus sonhos e suas vontades. Isso são fatores que ajudam a explicar essa demanda", conclui o executivo.
Os consumidores não se abalaram nem com o efeito do câmbio sobre o preço dos carros. Com fábrica na Alemanha, a operação da Porsche no Brasil foi impactada pela valorização de 40% do euro em relação ao real desde o período anterior à pandemia.
"Parte dessa alta precisou ser repassada aos preços", diz o porta-voz. O Porsche 911, modelo mais vendido pela montadora, tem valores que variam de R$ 800 mil a mais de R$ 1 milhão.
Em meio a um salto de demanda, o mercado brasileiro de helicópteros e jatos executivos viu a fila de espera pelos produtos chegar a até 20 meses durante a pandemia.
"O mercado vinha represado há um tempo devido aos problemas econômicos brasileiros. Com o advento da covid e do lockdown, houve uma demanda maior, principalmente em helicópteros na área VIP e o que chamamos de 'para público', como polícia e bombeiros", diz Rubens Cortellazzo, gerente de vendas da fabricante italiana Leonardo Helicópteros.
"Área VIP são operadores civis, como empresas de grande porte, empresários e táxi aéreo", explica o executivo, sobre o sentido no mercado de helicópteros da sigla que em inglês quer dizer "very important person" (pessoa muito importante).
Segundo Cortellazzo, as vendas para o segmento privado foram impulsionadas pelo medo de contágio e pela redução na oferta de voos comerciais durante a pandemia.
Conforme o executivo, o mercado brasileiro civil de helicópteros monoturbina e biturbina de médio porte cresceu 26% em número de entregas em 2021, em relação a 2020.
"Muitos clientes ficaram com recursos represados. Com a restrição de viagens internacionais e o medo da pandemia, houve mais apetite para investir em equipamentos para utilizar no mercado local", conta o gerente.
"A espera para compra, que antes era de 12 meses, chegou a 15 ou 16 meses, dependendo do modelo. Tem modelo em que estamos falando já em 20 meses de espera."
Cortellazzo diz que os compradores usam os helicópteros principalmente para trabalho.
"A gente brinca que o helicóptero é uma 'máquina do tempo'. Você economiza muito tempo no deslocamento de uma reunião para outra, de São Paulo para o interior, de uma capital a outra. Então o helicóptero é uma ferramenta muito interessante para esses empresários."
A aeronave de entrada da Leonardo (isto é, seu modelo mais básico), chamada AW119 Koala, tem preço médio de 4,3 milhões euros (cerca de R$ 27 milhões).
Para o mercado VIP, que vai até aeronaves de médio porte, o valor pode chegar a 15 milhões de euros (cerca de R$ 94 milhões).
As vendas de apartamentos de luxo e super luxo bateram recorde nos primeiros nove meses de 2021.
São empreendimentos com três ou quatro suítes, metragens amplas acima dos 100 m², janelas e pés direitos generosos e grande número de vagas na garagem.
Em janeiro e setembro do ano passado, os lançamentos neste mercado chegaram a 7,6 mil unidades, alta de 81% em relação a igual período de 2020. No mercado imobiliário brasileiro em geral, os lançamentos cresceram 30% na mesma base de comparação.
Em vendas, o avanço do mercado de luxo e super luxo foi de 47% nos nove primeiros meses de 2021, com mais de 10 mil unidades comercializadas, superando R$ 15,4 bilhões em valor geral de vendas, segundo dados da Brain Inteligência Estratégica, consultoria especializada no mercado imobiliário.
Para Marcos Kahtalian, sócio fundador da Brain, um dos fatores que impulsionou as vendas no mercado imobiliário de alto padrão no período recente foi a taxa de juros em nível baixo — a Selic (a taxa básica, determinada pelo Banco Central) começou 2021 em 2%, menor percentual da história.
"Isso injetou uma grande liquidez no mercado e atraiu recursos ao setor imobiliário, já que outros investimentos estavam com retornos muito baixos", diz Kahtalian.
"Outro fator, foi comportamental: em função da pandemia, houve uma busca intensa — para aquelas pessoas que tinham renda, evidentemente — por moradias maiores, mais amplas, mais confortáveis, tanto nas capitais, quanto fora delas. Houve um movimento em busca de espaço e qualidade", observa o consultor.
São Paulo e Rio de Janeiro são os dois principais mercados para os empreendimentos de luxo, com destaque para bairros como Jardins, Vila Nova Conceição e Moema na capital paulista e Zona Sul e Barra da Tijuca na metrópole fluminense.
Nas cidades do interior, se destaca a busca por empreendimentos horizontais, como condomínios de lotes ou condomínios fechados de casas de alto padrão.
Em 2022, a alta de juros pode desacelerar um pouco esse mercado, acredita Kahtalian.
"Para o mercado de luxo, a alta de juros faz menos diferença do que para a classe média, mas faz alguma diferença", diz o consultor.
"Faz menos diferença porque normalmente o comprador não financia o imóvel, ou financia pouco. Mas faz alguma diferença porque há uma atratividade para o capital ser investido de outra forma", afirma, citando como exemplo os investimentos de renda fixa, como títulos públicos, que têm baixo risco e se tornam mais interessantes com a Selic próxima dos 10%.
Também esse ano, devido à forte alta recente dos preços no mercado imobiliário, a definição de luxo e super luxo deve ser revista, subindo para empreendimentos a partir de R$ 1,5 milhão e R$ 3 milhões, respectivamente.
"O mercado de luxo e super luxo é pouco representativo em unidades — cerca de 7% do total nos últimos nove meses. Mas é mais ou menos 33% do valor lançado e 40% do valor total vendido. Ou seja, é um mercado de menos volume, mas de muito valor", diz o sócio da Brain.
Por fim, um último dado que mostra como o chamado andar de cima passou com tranquilidade pela pandemia vem do mercado financeiro.
Segundo dados do Banco Central, o investimento financeiro brasileiro no exterior superou os US$ 18 bilhões (R$ 100 bilhões) entre janeiro e novembro do ano passado, alta de 76% em relação a igual período de 2020 e recorde da série histórica iniciada em 1995.
Conforme Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV (Fundação Getulio Vargas), isso se deve à maior facilidade atual para investir em produtos internacionais e à forte alta recente do dólar em relação ao real, que leva investidores a buscarem a segurança de ter parte do seu dinheiro fora dos riscos da economia brasileira.
"Esse tipo de investimento se popularizou de alguma maneira, saiu daquele cliente 'private' com milhões de reais. Mas ainda não é um produto que qualquer brasileiro tem, estamos falando das camadas mais ricas, de um segmento de varejo de alta renda", diz a professora.
"É um público que tem o dólar como uma moeda importante no seu dia a dia, em viagens de férias ou hábitos de consumo atrelados ao dólar, como itens de luxo e vinhos. Então, para essas pessoas, ter uma parte do seu investimento em moeda forte ajuda, como uma forma de diversificar e de se proteger de altas de preços", observa a especialista em finanças.
"São pessoas que em sua maioria não perderam renda na pandemia e reduziram suas despesas, porque gastam muito com restaurantes, entretenimento e viagens de férias no exterior. Com o distanciamento, essas pessoas conseguiram guardar mais dinheiro."
Para Yoshinaga, apesar de a alta do dólar deixar os investimentos no exterior mais caros e a alta de juros no Brasil tornar os investimentos locais mais atrativos, a volatilidade do ano eleitoral deve continuar estimulando brasileiros a buscar investimentos no exterior, como uma forma de diminuir sua dependência do que acontece na economia nacional.
Em meio à pandemia, enquanto a maior parte do país sofria com perda de renda, em meio ao avanço do desemprego e da inflação, os brasileiros mais ricos se viram impedidos de gastar em viagens internacionais e em compras nas principais capitais do consumo do mundo.
Com uma "poupança forçada" pela mudança de hábitos, eles gastaram em luxos no mercado nacional e investiram volume recorde de dinheiro no exterior.
Assim, enquanto parte da população fazia fila para receber ossos no açougue, em meio aos preços recordes da carne e ao avanço da fome, outra parcela — bem menor — aguardava na fila para comprar um helicóptero.
Segundo um fabricante ouvido pela BBC News Brasil, a espera por uma aeronave nova chegou a 20 meses, dependendo do modelo, em meio a um salto de demanda.
A fabricante de carros de luxo Porsche bateu recordes de vendas no país em 2020 e 2021, enquanto o setor imobiliário de luxo e super luxo — de apartamentos acima de R$ 1 milhão e R$ 2 milhões, respectivamente — registrou um crescimento de mais de 80% nos lançamentos e de 47% nas vendas.
Segundo a empresa de pesquisa de mercado Euromonitor, a chamada "classe A" brasileira representava 2% da população em 2021.
São pessoas com renda familiar anual acima de US$ 45 mil (R$ 248 mil ao ano ou cerca de R$ 21 mil por mês, ao câmbio atual), cujos gastos equivaleram no ano passado a 19,4% do consumo nacional.
Embora a classe A tenha diminuído após dois anos de pandemia (ela representava 2,7% da população em 2019, segundo a Euromonitor), o consumo dessa parcela de maior renda foi bem menos afetado pela crise sanitária do que o restante da população.
"Os consumidores ricos acumularam reservas involuntárias importantes por conta das opções de lazer reduzidas e das limitações sociais impostas pela pandemia", observa Guilherme Machado, gerente de pesquisa da Euromonitor International.
"A maioria dos brasileiros desses grupos de maior renda está acostumada a viajar para o exterior e comprar itens de luxo nos principais centros globais de consumo, como Nova York, Paris e Londres. Mas, com o fechamento de fronteiras, esses consumidores têm buscado o prazer no mercado de luxo local, resultando em níveis de faturamento sem precedentes para algumas marcas de luxo", destaca o pesquisador.
Uma dessas marcas foi a Porsche. Enquanto a venda de automóveis de passageiros em geral no Brasil despencou 28% em 2020 e caiu mais 3,6% em 2021, em meio a paradas de produção provocadas por uma escassez global de semicondutores, a marca de luxo bateu recordes de vendas no país nos dois anos da pandemia.
Os compradores têm enfrentado filas de espera superiores aos 3 a 6 meses normalmente necessários para a customização dos carros que são sinônimo de ostentação.
"Em 2021, nós vendemos 3.079 veículos aqui no Brasil, um crescimento de 24% em relação a 2020, quando havíamos vendido 2.487 unidades", conta Leandro Rodrigues, gerente comunicação e relações públicas da Porsche no Brasil.
"2020 era o nosso recorde anterior, batemos recordes em 2020 e 2021", destaca, lembrando que a empresa passou a operar diretamente no Brasil em 2015 e tem crescido a uma média de 27% ao ano desde então. A trajetória de alta não foi abalada pela pandemia.
"Quando você tem clientes que tinham uma parcela grande de consumo no exterior e de repente esse consumo não acontece, naturalmente eles têm recursos disponíveis para a compra de produtos aqui no Brasil", avalia Rodrigues.
O executivo destaca ainda as restrições de opções de lazer mesmo dentro do país como outro fator que explica o impulso nas vendas.
"Naturalmente, alguns clientes buscaram outras maneiras de se manterem entretidos e realizarem seus sonhos e suas vontades. Isso são fatores que ajudam a explicar essa demanda", conclui o executivo.
Os consumidores não se abalaram nem com o efeito do câmbio sobre o preço dos carros. Com fábrica na Alemanha, a operação da Porsche no Brasil foi impactada pela valorização de 40% do euro em relação ao real desde o período anterior à pandemia.
"Parte dessa alta precisou ser repassada aos preços", diz o porta-voz. O Porsche 911, modelo mais vendido pela montadora, tem valores que variam de R$ 800 mil a mais de R$ 1 milhão.
Em meio a um salto de demanda, o mercado brasileiro de helicópteros e jatos executivos viu a fila de espera pelos produtos chegar a até 20 meses durante a pandemia.
"O mercado vinha represado há um tempo devido aos problemas econômicos brasileiros. Com o advento da covid e do lockdown, houve uma demanda maior, principalmente em helicópteros na área VIP e o que chamamos de 'para público', como polícia e bombeiros", diz Rubens Cortellazzo, gerente de vendas da fabricante italiana Leonardo Helicópteros.
"Área VIP são operadores civis, como empresas de grande porte, empresários e táxi aéreo", explica o executivo, sobre o sentido no mercado de helicópteros da sigla que em inglês quer dizer "very important person" (pessoa muito importante).
Segundo Cortellazzo, as vendas para o segmento privado foram impulsionadas pelo medo de contágio e pela redução na oferta de voos comerciais durante a pandemia.
Conforme o executivo, o mercado brasileiro civil de helicópteros monoturbina e biturbina de médio porte cresceu 26% em número de entregas em 2021, em relação a 2020.
"Muitos clientes ficaram com recursos represados. Com a restrição de viagens internacionais e o medo da pandemia, houve mais apetite para investir em equipamentos para utilizar no mercado local", conta o gerente.
"A espera para compra, que antes era de 12 meses, chegou a 15 ou 16 meses, dependendo do modelo. Tem modelo em que estamos falando já em 20 meses de espera."
Cortellazzo diz que os compradores usam os helicópteros principalmente para trabalho.
"A gente brinca que o helicóptero é uma 'máquina do tempo'. Você economiza muito tempo no deslocamento de uma reunião para outra, de São Paulo para o interior, de uma capital a outra. Então o helicóptero é uma ferramenta muito interessante para esses empresários."
A aeronave de entrada da Leonardo (isto é, seu modelo mais básico), chamada AW119 Koala, tem preço médio de 4,3 milhões euros (cerca de R$ 27 milhões).
Para o mercado VIP, que vai até aeronaves de médio porte, o valor pode chegar a 15 milhões de euros (cerca de R$ 94 milhões).
As vendas de apartamentos de luxo e super luxo bateram recorde nos primeiros nove meses de 2021.
São empreendimentos com três ou quatro suítes, metragens amplas acima dos 100 m², janelas e pés direitos generosos e grande número de vagas na garagem.
Em janeiro e setembro do ano passado, os lançamentos neste mercado chegaram a 7,6 mil unidades, alta de 81% em relação a igual período de 2020. No mercado imobiliário brasileiro em geral, os lançamentos cresceram 30% na mesma base de comparação.
Em vendas, o avanço do mercado de luxo e super luxo foi de 47% nos nove primeiros meses de 2021, com mais de 10 mil unidades comercializadas, superando R$ 15,4 bilhões em valor geral de vendas, segundo dados da Brain Inteligência Estratégica, consultoria especializada no mercado imobiliário.
Para Marcos Kahtalian, sócio fundador da Brain, um dos fatores que impulsionou as vendas no mercado imobiliário de alto padrão no período recente foi a taxa de juros em nível baixo — a Selic (a taxa básica, determinada pelo Banco Central) começou 2021 em 2%, menor percentual da história.
"Isso injetou uma grande liquidez no mercado e atraiu recursos ao setor imobiliário, já que outros investimentos estavam com retornos muito baixos", diz Kahtalian.
"Outro fator, foi comportamental: em função da pandemia, houve uma busca intensa — para aquelas pessoas que tinham renda, evidentemente — por moradias maiores, mais amplas, mais confortáveis, tanto nas capitais, quanto fora delas. Houve um movimento em busca de espaço e qualidade", observa o consultor.
São Paulo e Rio de Janeiro são os dois principais mercados para os empreendimentos de luxo, com destaque para bairros como Jardins, Vila Nova Conceição e Moema na capital paulista e Zona Sul e Barra da Tijuca na metrópole fluminense.
Nas cidades do interior, se destaca a busca por empreendimentos horizontais, como condomínios de lotes ou condomínios fechados de casas de alto padrão.
Em 2022, a alta de juros pode desacelerar um pouco esse mercado, acredita Kahtalian.
"Para o mercado de luxo, a alta de juros faz menos diferença do que para a classe média, mas faz alguma diferença", diz o consultor.
"Faz menos diferença porque normalmente o comprador não financia o imóvel, ou financia pouco. Mas faz alguma diferença porque há uma atratividade para o capital ser investido de outra forma", afirma, citando como exemplo os investimentos de renda fixa, como títulos públicos, que têm baixo risco e se tornam mais interessantes com a Selic próxima dos 10%.
Também esse ano, devido à forte alta recente dos preços no mercado imobiliário, a definição de luxo e super luxo deve ser revista, subindo para empreendimentos a partir de R$ 1,5 milhão e R$ 3 milhões, respectivamente.
"O mercado de luxo e super luxo é pouco representativo em unidades — cerca de 7% do total nos últimos nove meses. Mas é mais ou menos 33% do valor lançado e 40% do valor total vendido. Ou seja, é um mercado de menos volume, mas de muito valor", diz o sócio da Brain.
Por fim, um último dado que mostra como o chamado andar de cima passou com tranquilidade pela pandemia vem do mercado financeiro.
Segundo dados do Banco Central, o investimento financeiro brasileiro no exterior superou os US$ 18 bilhões (R$ 100 bilhões) entre janeiro e novembro do ano passado, alta de 76% em relação a igual período de 2020 e recorde da série histórica iniciada em 1995.
Conforme Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV (Fundação Getulio Vargas), isso se deve à maior facilidade atual para investir em produtos internacionais e à forte alta recente do dólar em relação ao real, que leva investidores a buscarem a segurança de ter parte do seu dinheiro fora dos riscos da economia brasileira.
"Esse tipo de investimento se popularizou de alguma maneira, saiu daquele cliente 'private' com milhões de reais. Mas ainda não é um produto que qualquer brasileiro tem, estamos falando das camadas mais ricas, de um segmento de varejo de alta renda", diz a professora.
"É um público que tem o dólar como uma moeda importante no seu dia a dia, em viagens de férias ou hábitos de consumo atrelados ao dólar, como itens de luxo e vinhos. Então, para essas pessoas, ter uma parte do seu investimento em moeda forte ajuda, como uma forma de diversificar e de se proteger de altas de preços", observa a especialista em finanças.
"São pessoas que em sua maioria não perderam renda na pandemia e reduziram suas despesas, porque gastam muito com restaurantes, entretenimento e viagens de férias no exterior. Com o distanciamento, essas pessoas conseguiram guardar mais dinheiro."
Para Yoshinaga, apesar de a alta do dólar deixar os investimentos no exterior mais caros e a alta de juros no Brasil tornar os investimentos locais mais atrativos, a volatilidade do ano eleitoral deve continuar estimulando brasileiros a buscar investimentos no exterior, como uma forma de diminuir sua dependência do que acontece na economia nacional.
Flagelo convergente
Os seguidores de Lula e os de Bolsonaro detestam que seus respectivos chefes sejam comparados entre si. Sim, são gritantes as diferenças, mas ambos convergem em ponto crucial. Os líderes das pesquisas não apresentaram até aqui um conjunto de ideias coordenado de como tirar o País da estagnação.
Cada um ajudou a aprofundar aquilo que o professor e economista da FGV Fernando de Holanda Barbosa deu o título em recente publicação de “flagelo da economia de privilégios”. Os privilegiados, segundo o autor, são empresários obtendo subsídios, tratamento fiscal diferenciado, conjuntos de trabalhadores com tratamentos especiais, funcionários dos três Poderes com salários acima do setor privado, além de aposentadorias e pensões também especiais.
O “conflito social” entre enormes grupos de privilegiados e o resto produz as cíclicas crises fiscais das quais a atual está longe ainda de ter sido debelada. E ela precisa ser resolvida logo, sob o risco de tirar qualquer perspectiva de futuro para o País.
A manutenção do sistema de privilégios é também o pano de fundo para se entender o embate político no Brasil que, no extremo, não passa de disputa cada vez mais acirrada (pois os cofres quebraram) por extrair renda do Estado. A esfera da política, em especial a do Legislativo, reflete essas “escolhas” pelo voto, e sustenta o cenário macro no qual falta investimento pois falta poupança e falta poupança pois não há uma “escolha” política nesse sentido.
A convergência entre os personagens políticos Lula e Bolsonaro se dá, portanto, no fato de representarem a manutenção do “status quo” – algo que enfurece as respectivas claques, especialmente a acadêmica, mas que todo dia encontra exemplos no noticiário sobre a facilidade com que os grupos de privilegiados pulam de um lado para o outro do espectro político.
A rigor, as próximas eleições deveriam ser vistas como o verdadeiro choque entre as forças empenhadas em mover o País para fora do flagelo dos privilégios e o “sistema”, que dá sinais de estar confortável com Lula ou Bolsonaro (o Centrão vai mandar tanto faz qual dos dois). Mas essas forças, chamadas de “terceira via”, estão desarticuladas, ainda que tenham cabeças brilhantes, think tanks excelentes e diagnósticos precisos.
É necessário reconhecer que não se trata apenas de sucesso eleitoral em prazo historicamente muito curto. O problema maior é enfrentar a situação de um país que dá preferência a consumo em vez de poupança, e está desprovido de uma noção geral de justiça social e combate à desigualdade.
Cada um ajudou a aprofundar aquilo que o professor e economista da FGV Fernando de Holanda Barbosa deu o título em recente publicação de “flagelo da economia de privilégios”. Os privilegiados, segundo o autor, são empresários obtendo subsídios, tratamento fiscal diferenciado, conjuntos de trabalhadores com tratamentos especiais, funcionários dos três Poderes com salários acima do setor privado, além de aposentadorias e pensões também especiais.
O “conflito social” entre enormes grupos de privilegiados e o resto produz as cíclicas crises fiscais das quais a atual está longe ainda de ter sido debelada. E ela precisa ser resolvida logo, sob o risco de tirar qualquer perspectiva de futuro para o País.
A manutenção do sistema de privilégios é também o pano de fundo para se entender o embate político no Brasil que, no extremo, não passa de disputa cada vez mais acirrada (pois os cofres quebraram) por extrair renda do Estado. A esfera da política, em especial a do Legislativo, reflete essas “escolhas” pelo voto, e sustenta o cenário macro no qual falta investimento pois falta poupança e falta poupança pois não há uma “escolha” política nesse sentido.
A convergência entre os personagens políticos Lula e Bolsonaro se dá, portanto, no fato de representarem a manutenção do “status quo” – algo que enfurece as respectivas claques, especialmente a acadêmica, mas que todo dia encontra exemplos no noticiário sobre a facilidade com que os grupos de privilegiados pulam de um lado para o outro do espectro político.
A rigor, as próximas eleições deveriam ser vistas como o verdadeiro choque entre as forças empenhadas em mover o País para fora do flagelo dos privilégios e o “sistema”, que dá sinais de estar confortável com Lula ou Bolsonaro (o Centrão vai mandar tanto faz qual dos dois). Mas essas forças, chamadas de “terceira via”, estão desarticuladas, ainda que tenham cabeças brilhantes, think tanks excelentes e diagnósticos precisos.
É necessário reconhecer que não se trata apenas de sucesso eleitoral em prazo historicamente muito curto. O problema maior é enfrentar a situação de um país que dá preferência a consumo em vez de poupança, e está desprovido de uma noção geral de justiça social e combate à desigualdade.
sábado, 22 de janeiro de 2022
Estava escrito nas estrelas
A escritora e astróloga Marcia Mattos publica desde o ano 2000 o mais famoso anuário da astrologia brasileira, o Livro da Lua. Seus acertos são incontáveis e os erros quase todos justificáveis. Por isso, ela é ouvida por muita gente importante no Brasil. Claro que Marcia não fala sobre seus clientes, mas sabe-se que em anos bicudos como este, seus principais ouvintes são empresários e políticos abismados com o mar de incerteza que divisam no horizonte. Nesta semana, Marcia falou para um grupo de mais de 40 CEOs de grandes empresas nacionais reunidos pela Vistage Worldwide, uma organização especializada em “mentoria para executivos”. A palestra foi levada a sério pelos CEOs, que anotaram todas as suas previsões. Afinal, em se tratando de 2022, é bom não facilitar e ir coletando todas as dicas disponíveis no mercado.
Marcia não confirma a palestra, mas executivos presentes ao evento contam que ouviram dela a leitura dos mapas astrais do mundo e do Brasil. Já no primeiro minuto da palestra escutaram o que já sabiam, e os mapas confirmam, o mundo vai mal, mas o Brasil vai ainda pior. Segundo a astróloga, o país passa por “tensões planetárias particulares”. O fundo do poço, claro, foi em 2020, quando explodiu a pandemia de coronavírus. Para os que acham que é óbvio falar sobre o leite derramado, vale lembrar o que o mais famoso e importante astrólogo francês, Andre Barbeau, previu em 1987. Analisando astros e estrelas, Barbeau avisou que 2020 seria o pior ano do século XXI e que uma pandemia se espalharia pelo mundo matando milhões de pessoas.
Em 2021 se estabeleceu um platô na curva astral do planeta, que se apresenta visualmente como se fosse um gráfico da Bolsa. Depois da queda exponencial do ano anterior, houve certa estabilidade.
A boa notícia é que está chegando ao fim a fase dos extremos, da polarização, dos antagonismos desmedidos. Fase que não deu nenhuma chance ao centro, onde todos se sentiam obrigados a tomar uma posição contra ou a favor de alguma coisa. O esvaziamento do centro, segundo Marcia Mattos, ocorreu no mundo inteiro e, pela consulta dos mapas astrais, deve ser lido de maneira filosófica, mas também pode ser entendido politicamente. Ela explicou que o caminho do meio que se lê nos mapas é um conceito budista milenar, onde um indivíduo ou uma comunidade encontra total equilíbrio e controle sobre seus impulsos e comportamentos diários. Esta fase volta em 2023, disse Marcia aos atentos CEOs.
Ao longo do ano em curso, as tensões polarizadas seguem até outubro, que no Brasil é justamente o mês das eleições. Haverá momentos extremados pelo menos até agosto deste ano. O ano astral, disse Marcia ao seu público de executivos, será de “destronamentos”. A tendência apontada pelos astros é que países que realizarem eleições este ano, como o Brasil, mudem seus governantes. Este “destronamento” é interpretado pela astróloga como uma evocação da mitologia grega, em que o filho mata o pai rei e assume a sua dinastia. No caso concreto dos tempos modernos, significa o fim de uma era. “Em outubro, no Brasil, vai haver uma virada de jogo, uma mudança radical, a interrupção de uma direção”.
Você pode não acreditar em nada disso, tudo bem, mas tem um pouco mais. Segundo a astróloga, de 2023 a 2030 as curvas astrais subirão ininterruptamente, sobrevindo um período de forte “produção de bem estar”. Ainda assim, alguns problemas gerados na pior fase não serão resolvidos nesta época de bonança. No Brasil, por exemplo, a casa dois do mapa, que rege a economia, mostra o descontrole das finanças públicas, a derrama de dinheiro sem critério e sem acompanhamento de aplicação. A regência de Netuno indica que o dinheiro público se “dissolve” ao longo desta fase.
Pela leitura de Marcia, o pior é que “vai ficar por isso mesmo”. A mudança de direção inequívoca apontada pelos astros para 2023 não será acompanhada por cobranças e punições por erros e crimes cometidos nos anos anteriores. Márcia não pode dizer se a mudança será o “destronamento” de Bolsonaro por Lula, como indicam as pesquisas, porque Lula não tem mapa astral. A verdadeira data de seu nascimento é desconhecida, são quatro e nenhuma delas é confiável. Mas pelo que se viu, deve ser Lula mesmo. Ao final, ele vai se aliar ao Centrão para governar passando uma borracha nos desembolsos orçamentários escandalosos.
Marcia não confirma a palestra, mas executivos presentes ao evento contam que ouviram dela a leitura dos mapas astrais do mundo e do Brasil. Já no primeiro minuto da palestra escutaram o que já sabiam, e os mapas confirmam, o mundo vai mal, mas o Brasil vai ainda pior. Segundo a astróloga, o país passa por “tensões planetárias particulares”. O fundo do poço, claro, foi em 2020, quando explodiu a pandemia de coronavírus. Para os que acham que é óbvio falar sobre o leite derramado, vale lembrar o que o mais famoso e importante astrólogo francês, Andre Barbeau, previu em 1987. Analisando astros e estrelas, Barbeau avisou que 2020 seria o pior ano do século XXI e que uma pandemia se espalharia pelo mundo matando milhões de pessoas.
Em 2021 se estabeleceu um platô na curva astral do planeta, que se apresenta visualmente como se fosse um gráfico da Bolsa. Depois da queda exponencial do ano anterior, houve certa estabilidade.
A boa notícia é que está chegando ao fim a fase dos extremos, da polarização, dos antagonismos desmedidos. Fase que não deu nenhuma chance ao centro, onde todos se sentiam obrigados a tomar uma posição contra ou a favor de alguma coisa. O esvaziamento do centro, segundo Marcia Mattos, ocorreu no mundo inteiro e, pela consulta dos mapas astrais, deve ser lido de maneira filosófica, mas também pode ser entendido politicamente. Ela explicou que o caminho do meio que se lê nos mapas é um conceito budista milenar, onde um indivíduo ou uma comunidade encontra total equilíbrio e controle sobre seus impulsos e comportamentos diários. Esta fase volta em 2023, disse Marcia aos atentos CEOs.
Ao longo do ano em curso, as tensões polarizadas seguem até outubro, que no Brasil é justamente o mês das eleições. Haverá momentos extremados pelo menos até agosto deste ano. O ano astral, disse Marcia ao seu público de executivos, será de “destronamentos”. A tendência apontada pelos astros é que países que realizarem eleições este ano, como o Brasil, mudem seus governantes. Este “destronamento” é interpretado pela astróloga como uma evocação da mitologia grega, em que o filho mata o pai rei e assume a sua dinastia. No caso concreto dos tempos modernos, significa o fim de uma era. “Em outubro, no Brasil, vai haver uma virada de jogo, uma mudança radical, a interrupção de uma direção”.
Você pode não acreditar em nada disso, tudo bem, mas tem um pouco mais. Segundo a astróloga, de 2023 a 2030 as curvas astrais subirão ininterruptamente, sobrevindo um período de forte “produção de bem estar”. Ainda assim, alguns problemas gerados na pior fase não serão resolvidos nesta época de bonança. No Brasil, por exemplo, a casa dois do mapa, que rege a economia, mostra o descontrole das finanças públicas, a derrama de dinheiro sem critério e sem acompanhamento de aplicação. A regência de Netuno indica que o dinheiro público se “dissolve” ao longo desta fase.
Pela leitura de Marcia, o pior é que “vai ficar por isso mesmo”. A mudança de direção inequívoca apontada pelos astros para 2023 não será acompanhada por cobranças e punições por erros e crimes cometidos nos anos anteriores. Márcia não pode dizer se a mudança será o “destronamento” de Bolsonaro por Lula, como indicam as pesquisas, porque Lula não tem mapa astral. A verdadeira data de seu nascimento é desconhecida, são quatro e nenhuma delas é confiável. Mas pelo que se viu, deve ser Lula mesmo. Ao final, ele vai se aliar ao Centrão para governar passando uma borracha nos desembolsos orçamentários escandalosos.
O velho e o mar
É uma história maravilhosa. É um mito homérico adaptado à nossa época. O mundo está repleto de tubarões prontos para disputar os peixes-espada que os homens bons tão corajosos vão pescar longe das costas da mediocridade.
René Depestre, "Aleluia para uma mulher-jardim"
A pandemia da desigualdade
A Oxfam, organização inglesa criada há 80 anos, publicou neste mês o relatório – “Desigualdade Mata”, com um dado de contraste assustador: durante os dois anos de pandemia de covid-19 o mundo registrou um novo bilionário a cada 26 horas, ao mesmo tempo em que quase 200 milhões de indivíduos passaram a integrar as estatísticas de pobreza.
O estudo informa que as dez maiores fortunas pessoais do planeta cresceram acima de 100%, somando mais de um bilhão de dólares por dia, enquanto caíam os ganhos de 99% da humanidade, ao longo do período de pandemia.
Os dados da publicação indicam ainda que a taxa de elevação das grandes fortunas foi maior nos dois últimos anos do que nos 14 anteriores, no maior salto de riqueza desse grupo desde o início da série histórica.
Isso mostra que a ciência, o capital e o Estado foram capazes de diagnosticar, prevenir e curar doenças que dizimaram populações ao longo de eras. Até mesmo o câncer hoje registra risco de morte inferior ao de poucas décadas atrás.
Contudo, um milhão de anos de existência do ser humano não foram suficientes para sequer atenuar a pior e mais antiga doença que já assolou a nossa espécie – a desigualdade social.
A Terra de Santa Cruz, que não costuma ficar para trás quando se trata de más notícias, também deu sua cota de contribuição à pandemia da desigualdade, incorporando dez novos bilionários ao time dos abastados durante a Covid, enquanto 90% dos brasileiros sofreram redução na renda.
A humanidade vem enfrentando no curso do tempo, com muito esforço, incontáveis moléstias letais como a lepra, a peste, a gripe espanhola, Aids, ebola, varíola, cólera – e luta para controlar a covid-19.
Vale lembrar nesse contexto que o presidente Franklin Roosevelt, mesmo governando a maior potência do planeta por mais de uma década, não escapou de complicações decorrentes da poliomielite.
Ao contrário do que acontece com o coronavírus em suas diferentes versões, a pandemia da desigualdade é intencional desde sua origem. Quem sabe, suas primeiras cepas datem do princípio de tudo.
Talvez tenha passado despercebido ao autor do Gênesis que Adão já planejasse comandar o paraíso, mesmo antes de sua costela comer a maçã. Da mesma forma, Darwin não notou que a primeira ideia do pithecantrophus, ao caminhar ereto, foi passar na frente dos seus semelhantes. De lá para cá, valeu a lei do mais forte (ou mais rico).
A desigualdade é o drama primordial do ser humano. Salvo exceções (meteoros, por exemplo), os demais problemas decorrem da desigualdade, alguns como parte da causa, outros como efeito.
A desigualdade se mostrou também na distribuição de doses. Milhões de habitantes de países e regiões pobres não têm acesso nem à primeira dose para grupos de risco, enquanto países e regiões privilegiadas já adquirem a terceira dose para toda sua população.
As lideranças econômicas e políticas conhecem a vacina e o remédio contra a implacável pandemia de desigualdade social que já chega a caracterizar a humanidade, cristalizando-se como pilar da estrutura das sociedades humanas, ou como ingrediente original da nossa índole.
Não há justificativa aceitável. A culpa não foi da serpente do Éden. Negar-se a tratar com urgência a desigualdade social é uma escolha de cunho moral indisfarçável.
O estudo informa que as dez maiores fortunas pessoais do planeta cresceram acima de 100%, somando mais de um bilhão de dólares por dia, enquanto caíam os ganhos de 99% da humanidade, ao longo do período de pandemia.
Os dados da publicação indicam ainda que a taxa de elevação das grandes fortunas foi maior nos dois últimos anos do que nos 14 anteriores, no maior salto de riqueza desse grupo desde o início da série histórica.
Isso mostra que a ciência, o capital e o Estado foram capazes de diagnosticar, prevenir e curar doenças que dizimaram populações ao longo de eras. Até mesmo o câncer hoje registra risco de morte inferior ao de poucas décadas atrás.
Contudo, um milhão de anos de existência do ser humano não foram suficientes para sequer atenuar a pior e mais antiga doença que já assolou a nossa espécie – a desigualdade social.
A Terra de Santa Cruz, que não costuma ficar para trás quando se trata de más notícias, também deu sua cota de contribuição à pandemia da desigualdade, incorporando dez novos bilionários ao time dos abastados durante a Covid, enquanto 90% dos brasileiros sofreram redução na renda.
A humanidade vem enfrentando no curso do tempo, com muito esforço, incontáveis moléstias letais como a lepra, a peste, a gripe espanhola, Aids, ebola, varíola, cólera – e luta para controlar a covid-19.
Vale lembrar nesse contexto que o presidente Franklin Roosevelt, mesmo governando a maior potência do planeta por mais de uma década, não escapou de complicações decorrentes da poliomielite.
Ao contrário do que acontece com o coronavírus em suas diferentes versões, a pandemia da desigualdade é intencional desde sua origem. Quem sabe, suas primeiras cepas datem do princípio de tudo.
Talvez tenha passado despercebido ao autor do Gênesis que Adão já planejasse comandar o paraíso, mesmo antes de sua costela comer a maçã. Da mesma forma, Darwin não notou que a primeira ideia do pithecantrophus, ao caminhar ereto, foi passar na frente dos seus semelhantes. De lá para cá, valeu a lei do mais forte (ou mais rico).
A desigualdade é o drama primordial do ser humano. Salvo exceções (meteoros, por exemplo), os demais problemas decorrem da desigualdade, alguns como parte da causa, outros como efeito.
A desigualdade se mostrou também na distribuição de doses. Milhões de habitantes de países e regiões pobres não têm acesso nem à primeira dose para grupos de risco, enquanto países e regiões privilegiadas já adquirem a terceira dose para toda sua população.
As lideranças econômicas e políticas conhecem a vacina e o remédio contra a implacável pandemia de desigualdade social que já chega a caracterizar a humanidade, cristalizando-se como pilar da estrutura das sociedades humanas, ou como ingrediente original da nossa índole.
Não há justificativa aceitável. A culpa não foi da serpente do Éden. Negar-se a tratar com urgência a desigualdade social é uma escolha de cunho moral indisfarçável.
O passado do país se foi de vez
É possível derrotar Bolsonaro nas urnas e virar esta página infame da história brasileira. Mais: é provável que isso venha a acontecer em outubro que vem, embora o caminho até lá seja tudo menos tranquilo, mesmo para quem, como o desafiante Lula, desfruta de folgada dianteira nas pesquisas.
Afirmar que a derrota espreita o ex-capitão não significa ignorar que ele fará o que puder "dentro das quatro linhas constitucionais", se bastar, e além delas, se necessário, para tumultuar o processo eleitoral e desqualificar os resultados caso lhe sejam adversos a fim de continuar no Planalto a qualquer preço, tratorando as instituições democráticas.
Além disso, mesmo que o império das leis e a força dos fatos o obriguem a passar a faixa ao sucessor, continuará existindo espaço político para a extrema direita, sob sua liderança ou de outro político do gênero.
Tem razão o professor Oliver Stuenkel (FGV-SP) ao ressaltar, em artigo na edição eletrônica da revista Piauí de 11 de janeiro, que o fortalecimento político de Donald Trump, nesses 12 meses desde a malograda invasão do Capitólio, ensina que a derrota eleitoral não zera o jogo e que a aposta continuada na radicalização pode recompensar quem aspira a conduzir forças extremistas.
Na verdade, por circunstanciais que possam ter sido seus resultados, as eleições brasileiras de 2018 produziram uma liderança nacional para as falanges do ódio, da violência, da ignorância prepotente e do irremissível atraso existentes no país. Até então, tinham expressão política dispersa em organizações e indivíduos militando nas redes sociais, nos meios de comunicação, nas eleições legislativas, nutrindo assim as reservas do baixo clero, desde as câmaras municipais ao Congresso.
A prolongada crise política da década passada tirou o PT da Presidência, mas também destruiu a capacidade do PSDB de aglutinar, para fins da disputa presidencial --e só para ela--, os partidos perfilados do centro à extrema direita do espectro político.
Ativistas e eleitores sem compromisso com regras e valores democráticos, antes participantes indistinguíveis da grande fronda antipetista, adquiriram visibilidade e expressão nacional própria.
É difícil imaginar que uma possível derrota eleitoral de seu mais autêntico representante torne a colocar a escolha do titular do governo nos trilhos da competição relativamente civilizada entre candidatos dos dois lados do centro.
Com ou sem Jair Bolsonaro, o extremismo antidemocrático, embora minoritário, continuará a ser uma presença visível, atuante e ameaçadora no país.
O passado se foi de vez.
Afirmar que a derrota espreita o ex-capitão não significa ignorar que ele fará o que puder "dentro das quatro linhas constitucionais", se bastar, e além delas, se necessário, para tumultuar o processo eleitoral e desqualificar os resultados caso lhe sejam adversos a fim de continuar no Planalto a qualquer preço, tratorando as instituições democráticas.
Além disso, mesmo que o império das leis e a força dos fatos o obriguem a passar a faixa ao sucessor, continuará existindo espaço político para a extrema direita, sob sua liderança ou de outro político do gênero.
Tem razão o professor Oliver Stuenkel (FGV-SP) ao ressaltar, em artigo na edição eletrônica da revista Piauí de 11 de janeiro, que o fortalecimento político de Donald Trump, nesses 12 meses desde a malograda invasão do Capitólio, ensina que a derrota eleitoral não zera o jogo e que a aposta continuada na radicalização pode recompensar quem aspira a conduzir forças extremistas.
Na verdade, por circunstanciais que possam ter sido seus resultados, as eleições brasileiras de 2018 produziram uma liderança nacional para as falanges do ódio, da violência, da ignorância prepotente e do irremissível atraso existentes no país. Até então, tinham expressão política dispersa em organizações e indivíduos militando nas redes sociais, nos meios de comunicação, nas eleições legislativas, nutrindo assim as reservas do baixo clero, desde as câmaras municipais ao Congresso.
A prolongada crise política da década passada tirou o PT da Presidência, mas também destruiu a capacidade do PSDB de aglutinar, para fins da disputa presidencial --e só para ela--, os partidos perfilados do centro à extrema direita do espectro político.
Ativistas e eleitores sem compromisso com regras e valores democráticos, antes participantes indistinguíveis da grande fronda antipetista, adquiriram visibilidade e expressão nacional própria.
É difícil imaginar que uma possível derrota eleitoral de seu mais autêntico representante torne a colocar a escolha do titular do governo nos trilhos da competição relativamente civilizada entre candidatos dos dois lados do centro.
Com ou sem Jair Bolsonaro, o extremismo antidemocrático, embora minoritário, continuará a ser uma presença visível, atuante e ameaçadora no país.
O passado se foi de vez.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2022
Notas de um janeiro chuvoso
A chuva é o imprevisto mais rotineiro de nossas vidas. Maviosa como um adorável chuvisco, pode virar furiosa tempestade que não acaba, como a TV ou a luz, por meio do botão controlado por nossa vontade. Teimosa e inesperada, obriga a usar o guarda-chuva e impede grandes e pequenas coisas como ir à praia ou dar um passeio.
Nos bairros pobres, ela destrói e rotineiramente leva nas suas enxurradas as posses de grupos familiares inteiros. O que nos obriga a recitar a ladainha da ausência de políticas públicas...
O “tempo”, mesmo com “previsão”, tem seu imprevisível.
A Operação Lava-Jato foi morta, mas a corrupção continua viva. O sistema legalizante foi feito para ela. Seria a roubalheira um mecanismo ligado ao que chamamos de “política” no Brasil e noutros lugares? Ou seria simplesmente um hábito ou costume de certos grupos e classes sociais, um aproveitar-se de cargos — um “arranjar-se”, como no atualíssimo livro de Manuel Antônio de Almeida...
Disse e repito: roubar o que é de todos (a “verba”, o dinheiro impessoal que é de todos) não é uma fraude, é uma pilhagem suscitada por uma oportunidade ou, quem sabe, um direito. Uma cota-parte: os fiscais têm direito a uma parcela do imposto pago pela população. A questão é o controle de um velho hábito aristocrático e republicanicamente legitimado?
Ficar velho é redescobrir que certos órgãos tinham múltiplas funções...
Num filme antigo, um ditador latino-americano ensina para o mocinho (naturalmente americano e democrata, cuja ética médica obriga a operá-lo) a razão do seu autoritarismo: no seu país, explica, quando uma pessoa vê uma placa ordenando “não cuspa na calçada”, não há problema; aqui, porém, eles cospem na placa!
Como explicar que desobedecemos à lei sem compreender que, no Brasil, a lei não é feita para todos, mas para alguns grupos, categorias ou pessoas. Os negros e índios, os mestiços com cara de bandidos...
Quantas vezes você ouviu que a regra não havia sido feita para você? E quantas vezes verificou que a posição social (dada por dinheiro, cargo político, relação familiar, aparência e cor da pele — o tal “jeito”) não era coerente com a lei porque era incoerente com essa posição?
A lei, do mesmo modo que o trabalho, lido como castigo e pouco como vocação, foi feita “para negros”, como uma categoria geral que podia abrigar quem duvidasse de certos padrões e expectativas.
Você se lembra do samba carnavalesco de 1946 “Trabalhar, eu não”, cuja letra explica: Eu trabalhei como um louco / Até fiz calo na mão / O meu patrão ficou rico / E eu pobre sem tostão / Foi por isso que agora / Eu mudei de opinião? Foi composto por Aníbal Alves de Almeida. Almeidinha — sem Hegel, Marx e Engels — decifrou e carnavalizou o segredo do capitalismo nacional.
Nos bairros pobres, ela destrói e rotineiramente leva nas suas enxurradas as posses de grupos familiares inteiros. O que nos obriga a recitar a ladainha da ausência de políticas públicas...
O “tempo”, mesmo com “previsão”, tem seu imprevisível.
A Operação Lava-Jato foi morta, mas a corrupção continua viva. O sistema legalizante foi feito para ela. Seria a roubalheira um mecanismo ligado ao que chamamos de “política” no Brasil e noutros lugares? Ou seria simplesmente um hábito ou costume de certos grupos e classes sociais, um aproveitar-se de cargos — um “arranjar-se”, como no atualíssimo livro de Manuel Antônio de Almeida...
Disse e repito: roubar o que é de todos (a “verba”, o dinheiro impessoal que é de todos) não é uma fraude, é uma pilhagem suscitada por uma oportunidade ou, quem sabe, um direito. Uma cota-parte: os fiscais têm direito a uma parcela do imposto pago pela população. A questão é o controle de um velho hábito aristocrático e republicanicamente legitimado?
Ficar velho é redescobrir que certos órgãos tinham múltiplas funções...
Num filme antigo, um ditador latino-americano ensina para o mocinho (naturalmente americano e democrata, cuja ética médica obriga a operá-lo) a razão do seu autoritarismo: no seu país, explica, quando uma pessoa vê uma placa ordenando “não cuspa na calçada”, não há problema; aqui, porém, eles cospem na placa!
Como explicar que desobedecemos à lei sem compreender que, no Brasil, a lei não é feita para todos, mas para alguns grupos, categorias ou pessoas. Os negros e índios, os mestiços com cara de bandidos...
Quantas vezes você ouviu que a regra não havia sido feita para você? E quantas vezes verificou que a posição social (dada por dinheiro, cargo político, relação familiar, aparência e cor da pele — o tal “jeito”) não era coerente com a lei porque era incoerente com essa posição?
A lei, do mesmo modo que o trabalho, lido como castigo e pouco como vocação, foi feita “para negros”, como uma categoria geral que podia abrigar quem duvidasse de certos padrões e expectativas.
Você se lembra do samba carnavalesco de 1946 “Trabalhar, eu não”, cuja letra explica: Eu trabalhei como um louco / Até fiz calo na mão / O meu patrão ficou rico / E eu pobre sem tostão / Foi por isso que agora / Eu mudei de opinião? Foi composto por Aníbal Alves de Almeida. Almeidinha — sem Hegel, Marx e Engels — decifrou e carnavalizou o segredo do capitalismo nacional.
"Open Health de Queiroga atende a empresários da saúde'
O “Open Health”, como foi batizado por Queiroga, é considerado “oportunista e inconstitucional” e uma política que beneficia empresários da saúde.
“A proposta é oportunista e inconstitucional. Não tem cabimento o ministro Queiroga tentar agradar o setor empresarial, em plena nova onda da pandemia, em meio à falta de testes de Covid na rede privada, escândalo de operadora acusada pela CPI do Senado Federal, e previsão de mais um aumento das mensalidades dos planos de saúde acima da inflação. O titular da pasta da Saúde, que deveria estar à frente da condução de respostas ao recrudescimento de casos de Covid-19, registra, assim, mais um malogro de sua gestão”, afirmam a professora Ligia Bahia, da UFRJ, e o professor Mário Scheffer, da USP, em nota conjunta. Ambos coordenam grupos de estudos sobre planos de saúde em suas instituições.
O compartilhamento de dados de usuários entre essas empresas, previsto por Queiroga para “ampliar a concorrência no setor”, é duramente atacado por Bahia e Scheffer.
“Ao prever a circulação livre de dados dos pacientes entre as operadoras, a medida tem dois propósitos explícitos: permitir a seleção de risco, para que as empresas possam escolher aquelas pessoas que não têm nenhuma doença; e facilitar a venda de planos ‘customizados’, de menor cobertura, baseados no histórico passado do paciente, sem considerar a imprevisibilidade futura das necessidades de saúde das pessoas.”
Para eles, não cabe ao Ministério da Saúde definir legislação sobre o setor, e eventual medida provisória a ser baixada sobre esse assunto será contestada no Supremo Tribunal Federal (STF). Os especialistas dizem ainda que o “Open Health” do ministro viola a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e a Constituição, que protege a privacidade dos cidadãos.
“No lugar de atender aos interesses de empresários da saúde em ano de eleição, o ministro Marcelo Queiroga devia, no momento, ocupar-se da vacinação de crianças e coordenar efetivamente os esforços para o controle da nova onda de Covid, que ameaça colapsar o sistema de saúde mais uma vez.”
“A proposta é oportunista e inconstitucional. Não tem cabimento o ministro Queiroga tentar agradar o setor empresarial, em plena nova onda da pandemia, em meio à falta de testes de Covid na rede privada, escândalo de operadora acusada pela CPI do Senado Federal, e previsão de mais um aumento das mensalidades dos planos de saúde acima da inflação. O titular da pasta da Saúde, que deveria estar à frente da condução de respostas ao recrudescimento de casos de Covid-19, registra, assim, mais um malogro de sua gestão”, afirmam a professora Ligia Bahia, da UFRJ, e o professor Mário Scheffer, da USP, em nota conjunta. Ambos coordenam grupos de estudos sobre planos de saúde em suas instituições.
| Alfredo Martirena (Cuba) |
O compartilhamento de dados de usuários entre essas empresas, previsto por Queiroga para “ampliar a concorrência no setor”, é duramente atacado por Bahia e Scheffer.
“Ao prever a circulação livre de dados dos pacientes entre as operadoras, a medida tem dois propósitos explícitos: permitir a seleção de risco, para que as empresas possam escolher aquelas pessoas que não têm nenhuma doença; e facilitar a venda de planos ‘customizados’, de menor cobertura, baseados no histórico passado do paciente, sem considerar a imprevisibilidade futura das necessidades de saúde das pessoas.”
Para eles, não cabe ao Ministério da Saúde definir legislação sobre o setor, e eventual medida provisória a ser baixada sobre esse assunto será contestada no Supremo Tribunal Federal (STF). Os especialistas dizem ainda que o “Open Health” do ministro viola a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e a Constituição, que protege a privacidade dos cidadãos.
“No lugar de atender aos interesses de empresários da saúde em ano de eleição, o ministro Marcelo Queiroga devia, no momento, ocupar-se da vacinação de crianças e coordenar efetivamente os esforços para o controle da nova onda de Covid, que ameaça colapsar o sistema de saúde mais uma vez.”
Maracugina para Queiroga
Marcelo Queiroga, ex-médico e atual porta-voz do presidente e ministro da Saúde Jair Bolsonaro, está muito irritadinho no cargo. A qualquer pergunta descontrola-se, faz má-criação ou abandona a entrevista. Em setembro de 2021, em Nova York, quando ajudou a carregar as malas de Bolsonaro na visita deste à ONU para um esquete humorístico, Queiroga estomagou-se com um protesto e mostrou o dedo para as câmeras. Era caso de Maracugina na veia.
Disse há tempos que espera "um bom julgamento da história". Tarde demais. Seu antecessor Eduardo Pazuello entregou-lhe o país com 11,5 milhões de casos de Covid e 280 mil mortos. Queiroga já elevou esses números para, até agora, 23 milhões de casos e 620 mil mortos. Números, aliás, são um problema para ele. Sempre que tem de citar algum, embarafusta-se com os zeros e erra por milhares ou milhões.
Outro dia, disse que o Brasil tinha 4.000 mortos por uso da vacina antiCovid. Mas, segundo seu próprio ministério, só uma pessoa morreu disso, donde Queiroga errou por 4.000%. Quando ele anuncia que 20 milhões de testes ou 40 milhões de vacinas vão chegar no dia tal, é bom dividir os números pela metade e multiplicar os prazos por dois. Neste momento, atendendo à voz do dono, está sentado nas traseiras, tentando adiar a vacinação das crianças.
Queiroga quer ser governador ou senador por seu estado, a Paraíba. Num comício em João Pessoa, anunciou que Bolsonaro tinha "chamado outro paraibano para vencer uma pandemia". Referia-se ao presidente Epitácio Pessoa, que "governou o país na época da Gripe Espanhola". Errou. A Espanhola foi de setembro a novembro de 1918. O presidente era Wenceslau Braz. Na época, Epitácio estava na França, tomando champanhe e preparando-se para fazer figuração na Conferência de Paz, em Versalhes. "Eleito" (votos fraudados) em 13 de abril de 1919, só tomaria posse em 28 de julho.
Em "narrativa", Queiroga é doutor.
Disse há tempos que espera "um bom julgamento da história". Tarde demais. Seu antecessor Eduardo Pazuello entregou-lhe o país com 11,5 milhões de casos de Covid e 280 mil mortos. Queiroga já elevou esses números para, até agora, 23 milhões de casos e 620 mil mortos. Números, aliás, são um problema para ele. Sempre que tem de citar algum, embarafusta-se com os zeros e erra por milhares ou milhões.
Outro dia, disse que o Brasil tinha 4.000 mortos por uso da vacina antiCovid. Mas, segundo seu próprio ministério, só uma pessoa morreu disso, donde Queiroga errou por 4.000%. Quando ele anuncia que 20 milhões de testes ou 40 milhões de vacinas vão chegar no dia tal, é bom dividir os números pela metade e multiplicar os prazos por dois. Neste momento, atendendo à voz do dono, está sentado nas traseiras, tentando adiar a vacinação das crianças.
Queiroga quer ser governador ou senador por seu estado, a Paraíba. Num comício em João Pessoa, anunciou que Bolsonaro tinha "chamado outro paraibano para vencer uma pandemia". Referia-se ao presidente Epitácio Pessoa, que "governou o país na época da Gripe Espanhola". Errou. A Espanhola foi de setembro a novembro de 1918. O presidente era Wenceslau Braz. Na época, Epitácio estava na França, tomando champanhe e preparando-se para fazer figuração na Conferência de Paz, em Versalhes. "Eleito" (votos fraudados) em 13 de abril de 1919, só tomaria posse em 28 de julho.
Em "narrativa", Queiroga é doutor.
Corrupção pega, vicia e arruína
Há seis anos a república da impunidade reinante no Brasil sofreu profundo abalo com a consequência prática produzida pela adesão do País, governado em sequência por Fernando Henrique, Lula, Dilma Rousseff e, até certo ponto, Michel Temer, a acordos internacionais de combate à corrupção. A atuação de procuradores da Operação Lava Jato, juízes federais como Sérgio Moro e Marcelo Bretas e do Tribunal Federal da 4.ª Região, em Porto Alegre, levou a consequências inusitadas, como a prisão de um empresário tope (e torpe), a condenação do mais popular ex-presidente da República e penas de 400 anos para um ex-governador. A adoção da delação premiada, a permissão de condenação de réus, após a segunda instância, e uma onda de popularidade de agentes do Estado envolvidos nessa ação, contudo, não impediram a sabotagem de chefões partidários e funcionários dos altos escalões de polícias e tribunais superiores as destroçarem em três anos do desgoverno da extrema direita deficiente e delinquente. Hoje, a elite dirigente política nacional suspeita, processada, condenada e aprisionada pisa nos destroços desses esforços abandonados pela cúpula dos Três Poderes da República aviltada.
O ápice da vitória consagradora dos réus acusados e condenados em dois grandes processos julgados no Supremo Tribunal Federal (STF) é o processo eleitoral em trâmite das eleições gerais deste ano, em que se elegerá o sucessor no poder máximo. A julgar pelo que contam as pesquisas de opinião, Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente por dois mandatos e grande inspirador da titular eleita para mais dois, mas que perdeu metade do segundo num processo de impeachment baseado em mágicas fiscais de fazerem Houdini e Paulo Maluf corarem de vergonha por nunca terem chegado a tanto. O segundo candidato à reeleição propriamente dita, Jair Bolsonaro, como o oponente provável no segundo turno previsto pelas pesquisas, escapou de carregar capivara e prontuário na campanha, que promete ter nível abaixo da crítica, mercê do foro privilegiado propiciado pelo mandato presidencial. Assim como os filhos zero-zero-um, o Flávio, e zero-zero-dois, o Carlos. Mas, segundo revelou seu ex-segurança e tesoureiro, hoje deputado federal, Julian Lemos, no Nêumanne entrevista, publicado no sábado, 14 de janeiro, no Blog do Nêumanne no portal do Estadão, está longe de ter ser uma vestal grega.
Certo é que ambos estão cometendo crimes de várias espécies na disputa do pleito presidencial, a serem julgados na Justiça Eleitoral, embora seus doutos membros não pareçam muito dispostos a punir, em campanhas descaradas. Lula, por exemplo, recebeu apoiadores em jantar na semana passada, no qual um grande criminalista paulistano, o célebre Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, repetiu, só que agora de forma mais explícita e em tom mais candente, o lema que bem pode servir de base teórica, não apenas para a disputa atual, mas também para a terceira gestão dele e sexta do partido na república perpétua da corrupção legalizada: “O crime já aconteceu, de que adianta punir? (...) Que não se ache que a punição irá (sic) combater a corrupção”.
O interessante é que essa afirmação coincidiu com outra, feita pelo candidato oposto, Jair Bolsonaro, que acrescentou a suas mentiras proferidas em quantidade astronômica uma que pode ser encontrada em qualquer arquivo analógico: a de que jamais prometeu combater a corrupção. Como se houvesse outra explicação razoável para a escolha do ex-juiz da Lava Jato, Sérgio Moro, para seu governo, agora prestes a ter expelido outro apêndice, o discípulo do tirano chileno Pinochet, que anda por aí enrolando farialimers, para usar termo da moda no noticiário político e econômico da campanha, Paulo Guedes, ex-posto Ipiranga, atual calo do liberalismo fake, no qual o sindicalista do soldo de caserna jamais foi sequer vendedor de feira livre.
O interessante nessas coincidências que fazem do bolsolulismo o produto em voga do mercado eleiçoeiro da república da corrupção perpétua é que a frase aplaudida com entusiasmo no palanque-banquete da prosperidade própria em nome do socialismo dos militontos também tem usufruto a peso de ouro nas motociatas abandonadas do fascismo de botequim da direita estupefaciente, cujo mito/minto nunca passou de um capitão-terrorista. As palavras do jurista favorito dos garantistas do STF, muito ao gosto do lulismo de militantos, cabem muito bem nos votos de solta-solta do general Gilmar, do extinto tucanismo de longo bico e ventre gordo, assegurando, em teoria, a passagem pelo segundo turno da polarização conveniente para a concessão quadrienal de indulgências plenas do reino do venha a nós e o resto que se dane, em cujo trono um se senta e o outro fica esperando a vez e ocupar.
Urge compreender que a corrupção da república perpétua só tem a oferecer fome, miséria e ruínas a quem não é convidado nem para lamber as migalhas do banquete exclusivo das elites dirigentes, do qual são excluídos aqueles que os carcarás perpétuos do “pega, mata e come” renegam desde sempre. E assim não seja mais!
O ápice da vitória consagradora dos réus acusados e condenados em dois grandes processos julgados no Supremo Tribunal Federal (STF) é o processo eleitoral em trâmite das eleições gerais deste ano, em que se elegerá o sucessor no poder máximo. A julgar pelo que contam as pesquisas de opinião, Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente por dois mandatos e grande inspirador da titular eleita para mais dois, mas que perdeu metade do segundo num processo de impeachment baseado em mágicas fiscais de fazerem Houdini e Paulo Maluf corarem de vergonha por nunca terem chegado a tanto. O segundo candidato à reeleição propriamente dita, Jair Bolsonaro, como o oponente provável no segundo turno previsto pelas pesquisas, escapou de carregar capivara e prontuário na campanha, que promete ter nível abaixo da crítica, mercê do foro privilegiado propiciado pelo mandato presidencial. Assim como os filhos zero-zero-um, o Flávio, e zero-zero-dois, o Carlos. Mas, segundo revelou seu ex-segurança e tesoureiro, hoje deputado federal, Julian Lemos, no Nêumanne entrevista, publicado no sábado, 14 de janeiro, no Blog do Nêumanne no portal do Estadão, está longe de ter ser uma vestal grega.
Certo é que ambos estão cometendo crimes de várias espécies na disputa do pleito presidencial, a serem julgados na Justiça Eleitoral, embora seus doutos membros não pareçam muito dispostos a punir, em campanhas descaradas. Lula, por exemplo, recebeu apoiadores em jantar na semana passada, no qual um grande criminalista paulistano, o célebre Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, repetiu, só que agora de forma mais explícita e em tom mais candente, o lema que bem pode servir de base teórica, não apenas para a disputa atual, mas também para a terceira gestão dele e sexta do partido na república perpétua da corrupção legalizada: “O crime já aconteceu, de que adianta punir? (...) Que não se ache que a punição irá (sic) combater a corrupção”.
O interessante é que essa afirmação coincidiu com outra, feita pelo candidato oposto, Jair Bolsonaro, que acrescentou a suas mentiras proferidas em quantidade astronômica uma que pode ser encontrada em qualquer arquivo analógico: a de que jamais prometeu combater a corrupção. Como se houvesse outra explicação razoável para a escolha do ex-juiz da Lava Jato, Sérgio Moro, para seu governo, agora prestes a ter expelido outro apêndice, o discípulo do tirano chileno Pinochet, que anda por aí enrolando farialimers, para usar termo da moda no noticiário político e econômico da campanha, Paulo Guedes, ex-posto Ipiranga, atual calo do liberalismo fake, no qual o sindicalista do soldo de caserna jamais foi sequer vendedor de feira livre.
O interessante nessas coincidências que fazem do bolsolulismo o produto em voga do mercado eleiçoeiro da república da corrupção perpétua é que a frase aplaudida com entusiasmo no palanque-banquete da prosperidade própria em nome do socialismo dos militontos também tem usufruto a peso de ouro nas motociatas abandonadas do fascismo de botequim da direita estupefaciente, cujo mito/minto nunca passou de um capitão-terrorista. As palavras do jurista favorito dos garantistas do STF, muito ao gosto do lulismo de militantos, cabem muito bem nos votos de solta-solta do general Gilmar, do extinto tucanismo de longo bico e ventre gordo, assegurando, em teoria, a passagem pelo segundo turno da polarização conveniente para a concessão quadrienal de indulgências plenas do reino do venha a nós e o resto que se dane, em cujo trono um se senta e o outro fica esperando a vez e ocupar.
Urge compreender que a corrupção da república perpétua só tem a oferecer fome, miséria e ruínas a quem não é convidado nem para lamber as migalhas do banquete exclusivo das elites dirigentes, do qual são excluídos aqueles que os carcarás perpétuos do “pega, mata e come” renegam desde sempre. E assim não seja mais!
E o bolsonarismo, também se tornará endêmico?
Com a variante ômicron se espalhando cada vez mais rápido, há quem diga que a covid-19 logo pode se tornar endêmica: quer dizer, ela veio para ficar, mas como doença comum e menos agressiva. Vamos conviver com o coronavírus, que fará parte das nossas vidas. E o bolsonarismo, outro fenômeno que apareceu e se espalhou rapidamente pelo Brasil inteiro nos últimos anos? Também veio para ficar ? E em que grau?
Nos Estados Unidos, o trumpismo se mostra forte e persistente, mesmo mais de um ano depois da derrota eleitoral de Donald Trump e exatamente um ano depois da saída dele do poder. Parece que o trumpismo realmente veio para ficar, ou, melhor dizendo, para voltar ao poder. As chances de isso acontecer em 2024 parecem razoavelmente grandes. Até com uma figura principal que não seja o próprio Trump, mas um ou uma aliada como representante oficial do trumpismo.
Mas e o bolsonarismo, que surgiu como cópia tropical e tupiniquim do trumpismo? Pelas pesquisas de opinião, o próprio Jair Messias Bolsonaro pode sofrer, nas eleições do fim deste ano de 2022, uma derrota de dimensões bem maiores do que a do próprio Trump. Ou, em outras palavras: Bolsonaro pode nem chegar ao segundo turno, em outubro. Corre risco de perder no primeiro turno de Lula, seu maior rival. Bolsonaro sobreviveria a isso politicamente? Voltaria como candidato forte outra vez em 2026? Ou com um herdeiro em seu lugar?
Acontece que há uma grande e - provavelmente - decisiva diferença entre o trumpismo e o bolsonarismo. O trumpismo hoje domina o Partido Republicano quase por completo. Assim, controla metade do sistema partidário americano. No partido, quem dá as cartas é o próprio Trump. Candidatos contrários a ele quase não têm chance de serem oficializados nas próximas eleições. E com sua própria rede social, a ser lançada em fevereiro, Trump ganhará ainda mais influência.
Já o bolsonarismo nem sequer conseguiu criar um partido novo próprio. A ideia de transformar a Aliança pelo Brasil em partido não vingou, e achar uma legenda alternativa para se abrigar tem sido difícil. E ao invés de dominar um partido (como o PL, que abriga Bolsonaro agora), o Centrão se aproveita da fraqueza do presidente. Assim, é o contrário do que a gente vê com os republicanos americanos e Trump.
Bolsonaro tampouco teve êxito na criação de algum mito fundador ou unificador de um movimento. Nos Estados Unidos, a lenda das eleições roubadas tem apelo entre milhões. E mesmo sendo bilionário, Trump virou mito entre uma grande parte dos cidadãos decepcionados, como figura de vingador. Mas e no Brasil? Qual o mito criado pelo "mito" que veio para ficar? Seria a facada de setembro de 2018 e a suposta grande conspiração por trás dela o mito unificador ou criador do bolsonarismo? Improvável.
E o discurso do perigo comunista, que Bolsonaro copiou de Trump? Cola apenas nas mentes dos fanáticos, dificilmente funciona com a grande massa. E posar de político honesto fica cada vez mais difícil com tantas rachadinhas aparecendo. Qual seria, portanto, a mensagem principal do bolsonarismo? Ou seria bolsonarismo apenas uma palavra vazia?
Outra grande diferença entre o The Real Donald Trump e o Trump tropical (Bolsonaro) é o dinheiro. Trump já era rico antes de entrar para a política, e agora pode trazer sua riqueza para dentro da sua campanha. Para ele, a política parece servir à sua vaidade.
Enquanto isso, Bolsonaro e sua família enriqueceram com os cargos públicos que o sistema político brasileiro oferece aos políticos. Em outras palavras: Bolsonaro entrou na política para ficar rico. E o fez de forma pouco camuflada e muito descarada. A maioria dos brasileiros vai querer repetir a dose em 2026? Duvido.
Thomas Milz
Nos Estados Unidos, o trumpismo se mostra forte e persistente, mesmo mais de um ano depois da derrota eleitoral de Donald Trump e exatamente um ano depois da saída dele do poder. Parece que o trumpismo realmente veio para ficar, ou, melhor dizendo, para voltar ao poder. As chances de isso acontecer em 2024 parecem razoavelmente grandes. Até com uma figura principal que não seja o próprio Trump, mas um ou uma aliada como representante oficial do trumpismo.
Mas e o bolsonarismo, que surgiu como cópia tropical e tupiniquim do trumpismo? Pelas pesquisas de opinião, o próprio Jair Messias Bolsonaro pode sofrer, nas eleições do fim deste ano de 2022, uma derrota de dimensões bem maiores do que a do próprio Trump. Ou, em outras palavras: Bolsonaro pode nem chegar ao segundo turno, em outubro. Corre risco de perder no primeiro turno de Lula, seu maior rival. Bolsonaro sobreviveria a isso politicamente? Voltaria como candidato forte outra vez em 2026? Ou com um herdeiro em seu lugar?
Acontece que há uma grande e - provavelmente - decisiva diferença entre o trumpismo e o bolsonarismo. O trumpismo hoje domina o Partido Republicano quase por completo. Assim, controla metade do sistema partidário americano. No partido, quem dá as cartas é o próprio Trump. Candidatos contrários a ele quase não têm chance de serem oficializados nas próximas eleições. E com sua própria rede social, a ser lançada em fevereiro, Trump ganhará ainda mais influência.
Já o bolsonarismo nem sequer conseguiu criar um partido novo próprio. A ideia de transformar a Aliança pelo Brasil em partido não vingou, e achar uma legenda alternativa para se abrigar tem sido difícil. E ao invés de dominar um partido (como o PL, que abriga Bolsonaro agora), o Centrão se aproveita da fraqueza do presidente. Assim, é o contrário do que a gente vê com os republicanos americanos e Trump.
Bolsonaro tampouco teve êxito na criação de algum mito fundador ou unificador de um movimento. Nos Estados Unidos, a lenda das eleições roubadas tem apelo entre milhões. E mesmo sendo bilionário, Trump virou mito entre uma grande parte dos cidadãos decepcionados, como figura de vingador. Mas e no Brasil? Qual o mito criado pelo "mito" que veio para ficar? Seria a facada de setembro de 2018 e a suposta grande conspiração por trás dela o mito unificador ou criador do bolsonarismo? Improvável.
E o discurso do perigo comunista, que Bolsonaro copiou de Trump? Cola apenas nas mentes dos fanáticos, dificilmente funciona com a grande massa. E posar de político honesto fica cada vez mais difícil com tantas rachadinhas aparecendo. Qual seria, portanto, a mensagem principal do bolsonarismo? Ou seria bolsonarismo apenas uma palavra vazia?
Outra grande diferença entre o The Real Donald Trump e o Trump tropical (Bolsonaro) é o dinheiro. Trump já era rico antes de entrar para a política, e agora pode trazer sua riqueza para dentro da sua campanha. Para ele, a política parece servir à sua vaidade.
Enquanto isso, Bolsonaro e sua família enriqueceram com os cargos públicos que o sistema político brasileiro oferece aos políticos. Em outras palavras: Bolsonaro entrou na política para ficar rico. E o fez de forma pouco camuflada e muito descarada. A maioria dos brasileiros vai querer repetir a dose em 2026? Duvido.
Thomas Milz
Antes que só restem as fake news
Ainda faltam quase dez meses para as eleições, mas no deserto da política brasileira há muito pouco espaço para alguma esperança esclarecida. Nosso sistema político é um edifício em ruínas, que abriga homens sem imaginação e sem grandeza, onde, citando os versos de Yeats, o grande poeta irlandês, os melhores perderam toda a convicção, enquanto os piores estão cheios de uma intensidade apaixonada.
As instituições democráticas estão em crise em quase toda a parte, porque foram construídas para um ambiente social completamente diferente do que existe hoje. Até duas ou três décadas atrás, o fluxo das informações era centralizado.
Existia, até então, uma base comum de fatos sobre a qual se formavam as opiniões. O essencial da discussão política estava na disputa de opiniões, não nos fatos em si. Os chamados fatos alternativos não tinham meios para circular e geralmente desapareciam logo ao nascer.
Hoje todos têm seus próprios fatos e os meios para divulgá-los. Não há mais lugar para o diálogo entre opiniões, aquilo que constitui a essência do processo político. Nesse sentido, não seria absurdo dizer que estamos nos aproximando do fim da política, tal como existe pelo menos desde a Grécia clássica.
Esta seja talvez a natureza da transição que vivemos, quando o velho agoniza sem que o novo já esteja à vista.
Os dois grupos principais que parecem, pelo menos até agora, polarizar o processo eleitoral têm especialização em manobrar neste ambiente de fatos alternativos, o que ameaça tornar as eleições um confronto entre fantasias e irrealidades.
Ambos investem na manipulação da memória, procurando reescrever a história com silêncios e afirmações que se ajustem aos seus discursos. Nisso eles não inovam, pois todos os regimes totalitários do século XX tentaram a mesma coisa.
O governo Bolsonaro, conforme a maioria das pesquisas de opinião, tem a aprovação de menos de 25% da população, depois de três anos de mandato. É pouco provável que esses índices sejam revertidos para que, ao final, ele alcance uma maioria absoluta no segundo turno. Nosso presidente é homem de idéias fixas e não mostra disposição de mudar o seu discurso, muito pelo contrário.
Se as pesquisas estão certas, o favorito para ganhar as eleições é Lula e o seu partido. Lula e o PT têm um passado e não é possível esquecê-lo. Há quem os prefira justamente por este passado, mas há quem possa julgá-lo imperdoável. Por isso todo ele tem que vir à tona na sua pureza de fato histórico.
Em 1985, o PT se recusou a votar em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, que encerrava sem sangue o regime militar. O que queria o partido naquele momento? Derrubar o regime pela força? Não, apenas deixar que os outros fizessem o trabalho impuro enquanto mantinha a santidade do discurso, já sabedores do desfecho. Nos dicionários, isto se chama hipocrisia.
Na votação do Plano Real, a bancada votou em peso para derrubá-lo, porque ele acabaria com a inflação e turbinaria a candidatura oficial à Presidência, quando as pesquisas davam a Lula 41% das intenções de voto. Se na pandemia Bolsonaro ficou do lado da doença, na luta final contra a inflação Lula e o PT ficaram do lado da inflação, que os beneficiaria na luta pelo poder.
Na sua origem o PT foi o partido anti-corrupção, implacável com os adversários, quando ainda era oposição em toda a parte. No governo, comandava o país durante o maior episódio de corrupção já desvendado em toda a nossa história. Apesar dos erros dos processos judiciais, o fato é que o assalto à Petrobrás ocorreu de fato, conforme as provas e as confissões.
Em homenagem aos que desfrutam da liberdade que nasceu no Colégio Eleitoral, aos que se livraram da inflação que confiscava seus salários e aos que nunca se envolveram em tenebrosas transações, Lula e o PT precisam confessar o seu arrependimento e pedir perdão aos brasileiros. Sem isso as eleições serão a escolha entre dois infortúnios. Os brasileiros não merecem.
As instituições democráticas estão em crise em quase toda a parte, porque foram construídas para um ambiente social completamente diferente do que existe hoje. Até duas ou três décadas atrás, o fluxo das informações era centralizado.
Existia, até então, uma base comum de fatos sobre a qual se formavam as opiniões. O essencial da discussão política estava na disputa de opiniões, não nos fatos em si. Os chamados fatos alternativos não tinham meios para circular e geralmente desapareciam logo ao nascer.
Hoje todos têm seus próprios fatos e os meios para divulgá-los. Não há mais lugar para o diálogo entre opiniões, aquilo que constitui a essência do processo político. Nesse sentido, não seria absurdo dizer que estamos nos aproximando do fim da política, tal como existe pelo menos desde a Grécia clássica.
Esta seja talvez a natureza da transição que vivemos, quando o velho agoniza sem que o novo já esteja à vista.
Os dois grupos principais que parecem, pelo menos até agora, polarizar o processo eleitoral têm especialização em manobrar neste ambiente de fatos alternativos, o que ameaça tornar as eleições um confronto entre fantasias e irrealidades.
Ambos investem na manipulação da memória, procurando reescrever a história com silêncios e afirmações que se ajustem aos seus discursos. Nisso eles não inovam, pois todos os regimes totalitários do século XX tentaram a mesma coisa.
O governo Bolsonaro, conforme a maioria das pesquisas de opinião, tem a aprovação de menos de 25% da população, depois de três anos de mandato. É pouco provável que esses índices sejam revertidos para que, ao final, ele alcance uma maioria absoluta no segundo turno. Nosso presidente é homem de idéias fixas e não mostra disposição de mudar o seu discurso, muito pelo contrário.
Se as pesquisas estão certas, o favorito para ganhar as eleições é Lula e o seu partido. Lula e o PT têm um passado e não é possível esquecê-lo. Há quem os prefira justamente por este passado, mas há quem possa julgá-lo imperdoável. Por isso todo ele tem que vir à tona na sua pureza de fato histórico.
Em 1985, o PT se recusou a votar em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, que encerrava sem sangue o regime militar. O que queria o partido naquele momento? Derrubar o regime pela força? Não, apenas deixar que os outros fizessem o trabalho impuro enquanto mantinha a santidade do discurso, já sabedores do desfecho. Nos dicionários, isto se chama hipocrisia.
Na votação do Plano Real, a bancada votou em peso para derrubá-lo, porque ele acabaria com a inflação e turbinaria a candidatura oficial à Presidência, quando as pesquisas davam a Lula 41% das intenções de voto. Se na pandemia Bolsonaro ficou do lado da doença, na luta final contra a inflação Lula e o PT ficaram do lado da inflação, que os beneficiaria na luta pelo poder.
Na sua origem o PT foi o partido anti-corrupção, implacável com os adversários, quando ainda era oposição em toda a parte. No governo, comandava o país durante o maior episódio de corrupção já desvendado em toda a nossa história. Apesar dos erros dos processos judiciais, o fato é que o assalto à Petrobrás ocorreu de fato, conforme as provas e as confissões.
Em homenagem aos que desfrutam da liberdade que nasceu no Colégio Eleitoral, aos que se livraram da inflação que confiscava seus salários e aos que nunca se envolveram em tenebrosas transações, Lula e o PT precisam confessar o seu arrependimento e pedir perdão aos brasileiros. Sem isso as eleições serão a escolha entre dois infortúnios. Os brasileiros não merecem.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2022
Bolsonaro perdeu a guerra porque contrariou o bom senso
No começo do século passado, por uma série de razões, houve uma grande revolta popular no Rio de Janeiro contra a vacinação da população. O episódio, porém, é um marco contra a ignorância e o negacionismo da ciência. Àquela época, a antiga capital era uma cidade insalubre, em péssimas condições de saúde pública, na qual proliferavam doenças contagiosas: tuberculose, peste bubônica, febre amarela, varíola, malária, tifo, cólera etc. O presidente Rodrigues Alves resolveu realizar uma série de reformas urbanas para melhorar as condições de vida da então capital, a cargo do engenheiro Pereira Passo, que alargou ruas e removeu cortiços, desalojando a população; o mais miserável. Diretor-geral de Saúde Pública desde 1903, o médico Oswaldo Cruz assumiu o cargo com a missão de implementar o saneamento público e erradicar a febre amarela, a peste bubônica e a varíola, principalmente.
Com essa intenção, em 1904, o governo propôs a obrigatoriedade da vacinação, lei aprovada em 31 de outubro, apesar dos protestos, inclusive um abaixo-assinado com 18 mil assinaturas, muito para aquela época. A lei exigia comprovantes de vacinação para realizar matrículas nas escolas, assim como para obtenção de empregos, viagens, hospedagens e casamentos. Previa multas para quem não se vacinasse. O povo se revoltou, estimulado pelos políticos de oposição. A confusão começou no Largo do São Francisco e se espalhou de Copacabana ao Engenho Novo, com quebra-quebras, tiros, barricadas. O saldo foi de 945 pessoas na Ilha de Cobras, 30 mortos, 110 feridos e 461 deportações para o estado do Acre. Historiadores avaliam que a política higienista e a forma autoritária como foi imposta a vacinação causaram a revolta, além do fato de que a vacinação de mulheres era vista como uma ameaça à honra machista.
Quase 120 anos depois, a vacinação em massa no Brasil é uma política de saúde pública muito bem-sucedida. É resultado de muitas campanhas de vacinação, entre as quais se destacam: (1) a campanha contra a meningite na década de 1970, quando uma epidemia matou milhares de crianças e o então regime militar tentou escondê-la; e (2) a campanha contra a poliomielite, que praticamente erradicou a paralisia infantil, porém, na década de 1980, foi objeto de uma grande polêmica entre o general João Batista Figueiredo e o criador da vacina, Albert Sabin, por causa da subnotificação dos casos de poliomielite. Ontem, o DataFolha divulgou pesquisa de opinião amplamente favorável à vacinação contra a covid-19, inclusive das crianças. É uma vitória do Sistema Único de Saúde (SUS) e do nosso modelo federativo, que neutralizou a desastrada política do Ministério da Saúde, graças à atuação de governadores e prefeitos. Estão com vacinação completa 75% da população.
Os números também são acachapantes contra o negacionismo do presidente Jair Bolsonaro, que até hoje não se vacinou e não pretende imunizar a filha de 11 anos: 81% dos entrevistados são a favor da exigência do “passaporte de vacina” para que seja liberada a entrada em locais fechados como bares, restaurantes e órgãos públicos, entre outros. Apenas 18% são contra a exigência do comprovante, e 1% não soube responder. Os mais favoráveis ao passaporte são mulheres (87%), pessoas com mais de 60 anos (87%), com ensino fundamental completo (86%) e aqueles que ganham até dois salários mínimos por mês (85%). Os maiores grupos negacionistas estão estre os homens (24%), pessoas de 25 a 34 anos (22%) e aqueles que têm renda mensal de mais de 10 salários mínimos (28%). No Sudeste, 84% são favoráveis à medida; no Sul, 75%. As donas de casa (90%) são as mais entusiastas da vacinação; entre as empresárias, 60%.
Como a oposição a Rodrigues Alves e Oswaldo Cruz, Bolsonaro perdeu a guerra da vacina. Para 59% da população, sabotou a imunização. Esse resultado, obviamente, terá sérias consequências eleitorais, mesmo com a resiliência dos setores que apoiam tudo o que Bolsonaro propõe, inclusive quando afronta o “bom senso”. Nesse aspecto, a vacinação deve ser objeto de uma reflexão política mais ampla, que nos remete ao comportamento da maioria da população. De certo modo, na eleição de 2018, Bolsonaro explorou com muito êxito o “senso comum” da maioria dos eleitores em relação à crise ética que atingia em cheio o nosso sistema político, sobretudo os partidos.
Há uma grande diferença, porém, entre “senso comum” e “bom senso”. O primeiro é uma postura passiva e acomodada, que segue critérios, comportamentos e modos de agir tradicionais na sociedade. Bolsonaro soube usá-lo com maestria, principalmente nos temas relacionados à mudança de costumes e à defesa da família unicelular patriarcal. O “bom senso”, ao contrário, leva ao reposicionamento crítico, porque resulta de certa sabedoria popular e de uma compreensão da realidade tal como ela é, como o das donas de casa ouvidas na pesquisa. Não resulta de conclusões de caráter ideológico, por exemplo. Quando confrontou o bom senso da sociedade, Bolsonaro perdeu a guerra.
Com essa intenção, em 1904, o governo propôs a obrigatoriedade da vacinação, lei aprovada em 31 de outubro, apesar dos protestos, inclusive um abaixo-assinado com 18 mil assinaturas, muito para aquela época. A lei exigia comprovantes de vacinação para realizar matrículas nas escolas, assim como para obtenção de empregos, viagens, hospedagens e casamentos. Previa multas para quem não se vacinasse. O povo se revoltou, estimulado pelos políticos de oposição. A confusão começou no Largo do São Francisco e se espalhou de Copacabana ao Engenho Novo, com quebra-quebras, tiros, barricadas. O saldo foi de 945 pessoas na Ilha de Cobras, 30 mortos, 110 feridos e 461 deportações para o estado do Acre. Historiadores avaliam que a política higienista e a forma autoritária como foi imposta a vacinação causaram a revolta, além do fato de que a vacinação de mulheres era vista como uma ameaça à honra machista.
Quase 120 anos depois, a vacinação em massa no Brasil é uma política de saúde pública muito bem-sucedida. É resultado de muitas campanhas de vacinação, entre as quais se destacam: (1) a campanha contra a meningite na década de 1970, quando uma epidemia matou milhares de crianças e o então regime militar tentou escondê-la; e (2) a campanha contra a poliomielite, que praticamente erradicou a paralisia infantil, porém, na década de 1980, foi objeto de uma grande polêmica entre o general João Batista Figueiredo e o criador da vacina, Albert Sabin, por causa da subnotificação dos casos de poliomielite. Ontem, o DataFolha divulgou pesquisa de opinião amplamente favorável à vacinação contra a covid-19, inclusive das crianças. É uma vitória do Sistema Único de Saúde (SUS) e do nosso modelo federativo, que neutralizou a desastrada política do Ministério da Saúde, graças à atuação de governadores e prefeitos. Estão com vacinação completa 75% da população.
Os números também são acachapantes contra o negacionismo do presidente Jair Bolsonaro, que até hoje não se vacinou e não pretende imunizar a filha de 11 anos: 81% dos entrevistados são a favor da exigência do “passaporte de vacina” para que seja liberada a entrada em locais fechados como bares, restaurantes e órgãos públicos, entre outros. Apenas 18% são contra a exigência do comprovante, e 1% não soube responder. Os mais favoráveis ao passaporte são mulheres (87%), pessoas com mais de 60 anos (87%), com ensino fundamental completo (86%) e aqueles que ganham até dois salários mínimos por mês (85%). Os maiores grupos negacionistas estão estre os homens (24%), pessoas de 25 a 34 anos (22%) e aqueles que têm renda mensal de mais de 10 salários mínimos (28%). No Sudeste, 84% são favoráveis à medida; no Sul, 75%. As donas de casa (90%) são as mais entusiastas da vacinação; entre as empresárias, 60%.
Como a oposição a Rodrigues Alves e Oswaldo Cruz, Bolsonaro perdeu a guerra da vacina. Para 59% da população, sabotou a imunização. Esse resultado, obviamente, terá sérias consequências eleitorais, mesmo com a resiliência dos setores que apoiam tudo o que Bolsonaro propõe, inclusive quando afronta o “bom senso”. Nesse aspecto, a vacinação deve ser objeto de uma reflexão política mais ampla, que nos remete ao comportamento da maioria da população. De certo modo, na eleição de 2018, Bolsonaro explorou com muito êxito o “senso comum” da maioria dos eleitores em relação à crise ética que atingia em cheio o nosso sistema político, sobretudo os partidos.
Há uma grande diferença, porém, entre “senso comum” e “bom senso”. O primeiro é uma postura passiva e acomodada, que segue critérios, comportamentos e modos de agir tradicionais na sociedade. Bolsonaro soube usá-lo com maestria, principalmente nos temas relacionados à mudança de costumes e à defesa da família unicelular patriarcal. O “bom senso”, ao contrário, leva ao reposicionamento crítico, porque resulta de certa sabedoria popular e de uma compreensão da realidade tal como ela é, como o das donas de casa ouvidas na pesquisa. Não resulta de conclusões de caráter ideológico, por exemplo. Quando confrontou o bom senso da sociedade, Bolsonaro perdeu a guerra.
O animal humano
Não devemos esquecer que os humanos são animais.
A população de qualquer animal cresce enquanto houver recursos para alimento e espaço para dejetos. Esgotado um deles, a tribo migra ao encontro de novas fontes e sumidouros. Foi assim que deixamos as proximidades do Kalahari e nos espalhamos pelo mundo. Não encontrando novos recursos, a população declina, como na pandemia da Grande Peste. Então, um novo mundo foi descoberto. Depois, a energia extraída dos fósseis permitiu que a população da espécie continuasse a crescer.
Numa escala secular, alguns se adaptam. Outros juntam-se aos dinossauros. Numa escala geológica, mares se elevam ou contraem, montanhas idem, continentes se deslocam. Alguns animais se adaptam, transformando-se, outros não.
Entre humanos a relação entre aumento populacional e ambiente é importante, mas ainda mais crucial é a questão do consumo, pois – grande novidade!!! – nós humanos não somos iguais no que consumimos; alguns extrapolam, outros minguam. Um difícil problema político é definir quem extrapola, mas é aceitável propor que quem definha é a maioria mais pobre, em especial os 50% abaixo da média! E pobreza, aqui, não se limita à falta de dinheiro; há que incluir outras carências. Como disse Arnaldo Antunes: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. A gente quer comer e fazer amor”!
Quais políticas desenhar para dar aos que definham uma chance de superar suas carências, sem comprometer o habitat?
O caminho para preservar a nossa espécie exige concordar e agir conforme a frase célebre: “Há riqueza bastante no mundo para as necessidades do homem, mas não para a sua ambição”, dita por alguém que, pacificamente, conseguiu algo que a maioria julgava impossível sem violência: Gandhi.
Hoje, pode-se medir os impactos das muitas e diversas atividades humanas (viajar, trabalhar, vestir, comer, defecar…) sobre o meio ambiente e sobre a sua e outras espécies, assim como identificar quem causa o impacto: viagens intercontinentais, em jatos privados, superam em décadas a emissão anual média do animal humano; automóveis poluem mais que ônibus!
O maior desafio atual a nós humanos é reverter a degradação humana – sofrida pelos mais pobres – e a degradação ambiental, sendo que esta agrava a primeira!
O total de humanos que pode viver no planeta depende do impacto que cada um causa. Se aqui está cheio – mais em razão do diferencial de consumo do que da quantidade de indivíduos –, haverá outro planeta para onde ir? Quem poderá ir? Se houver, a recepção aos humanos imigrantes será similar à que sofrem os que se dirigirem à Europa e aos EUA?
É este o futuro que queremos?
No Brasil, o que cobrar dos candidatos, e de nós mesmos, para desenharmos e percorrermos outro caminho? Como nos adaptarmos para vencer o desafio do século e sobreviver?
A população de qualquer animal cresce enquanto houver recursos para alimento e espaço para dejetos. Esgotado um deles, a tribo migra ao encontro de novas fontes e sumidouros. Foi assim que deixamos as proximidades do Kalahari e nos espalhamos pelo mundo. Não encontrando novos recursos, a população declina, como na pandemia da Grande Peste. Então, um novo mundo foi descoberto. Depois, a energia extraída dos fósseis permitiu que a população da espécie continuasse a crescer.
Numa escala secular, alguns se adaptam. Outros juntam-se aos dinossauros. Numa escala geológica, mares se elevam ou contraem, montanhas idem, continentes se deslocam. Alguns animais se adaptam, transformando-se, outros não.
O animal humano é peculiar. Alguém já viu alguns chipanzés bilionários enquanto outros definham? Há notícia de uma ave escravizando e desprezando outra baseada na cor das penas?
Entre humanos a relação entre aumento populacional e ambiente é importante, mas ainda mais crucial é a questão do consumo, pois – grande novidade!!! – nós humanos não somos iguais no que consumimos; alguns extrapolam, outros minguam. Um difícil problema político é definir quem extrapola, mas é aceitável propor que quem definha é a maioria mais pobre, em especial os 50% abaixo da média! E pobreza, aqui, não se limita à falta de dinheiro; há que incluir outras carências. Como disse Arnaldo Antunes: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. A gente quer comer e fazer amor”!
Quais políticas desenhar para dar aos que definham uma chance de superar suas carências, sem comprometer o habitat?
O caminho para preservar a nossa espécie exige concordar e agir conforme a frase célebre: “Há riqueza bastante no mundo para as necessidades do homem, mas não para a sua ambição”, dita por alguém que, pacificamente, conseguiu algo que a maioria julgava impossível sem violência: Gandhi.
Hoje, pode-se medir os impactos das muitas e diversas atividades humanas (viajar, trabalhar, vestir, comer, defecar…) sobre o meio ambiente e sobre a sua e outras espécies, assim como identificar quem causa o impacto: viagens intercontinentais, em jatos privados, superam em décadas a emissão anual média do animal humano; automóveis poluem mais que ônibus!
O maior desafio atual a nós humanos é reverter a degradação humana – sofrida pelos mais pobres – e a degradação ambiental, sendo que esta agrava a primeira!
O total de humanos que pode viver no planeta depende do impacto que cada um causa. Se aqui está cheio – mais em razão do diferencial de consumo do que da quantidade de indivíduos –, haverá outro planeta para onde ir? Quem poderá ir? Se houver, a recepção aos humanos imigrantes será similar à que sofrem os que se dirigirem à Europa e aos EUA?
É este o futuro que queremos?
No Brasil, o que cobrar dos candidatos, e de nós mesmos, para desenharmos e percorrermos outro caminho? Como nos adaptarmos para vencer o desafio do século e sobreviver?
País poderia ter um regime de metas para a pobreza, mas Bolsonaro vetou
O Congresso aprovou no final do ano a criação de um regime de metas para a pobreza no Brasil. Inspirado no regime de metas de inflação, previa que o País deveria mirar a queda das taxas de pobreza e de extrema pobreza. Caso as metas fossem descumpridas, o governo apresentaria ao Congresso as razões para o descumprimento e que medidas deveriam ser tomadas para ajustar a rota. Bolsonaro vetou.
A proposta, originalmente do projeto de Lei de Responsabilidade Social, do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), foi incluída no projeto do Auxílio
Brasil pelo deputado Marcelo Aro (PP-MG). Previa ainda que o governo publicaria periodicamente um relatório sobre a evolução dessas taxas, as medidas que vem tomando, os riscos e o que poderia ser feito no âmbito do gasto público e do sistema tributário para melhorar.
Poderia ser um norte para as reformas e um escudo que o governo poderia usar contra variadas pressões sobre o Orçamento. Não previa nenhuma punição para os gestores nem qualquer aumento de gasto.
Mas Bolsonaro vetou. Disse que o novo regime “contraria o interesse público” e alega que aumentaria o gasto público total, simplesmente porque o governo teria de reduzir a pobreza (a um nível que ele próprio escolheria!).
O veto impressiona também porque quedas na pobreza são em boa parte causadas pelo crescimento econômico. O governo, assim, sinaliza não apenas não ter compromisso com a redução da pobreza (um objetivo expresso da Constituição) como não confiar no seu próprio taco em relação à evolução do PIB. Reforça, ademais, a imagem do Auxílio Brasil como um programa para outubro, não para o futuro.
Como se não bastante, o veto leva o padrão Pazuello de qualidade: a nova lei foi sancionada mencionando 3 vezes a existência do regime de metas, que foi vetado e então não existe.
Bolsonaro na verdade repete um feito da antecessora. Com outro sistema, metas para a pobreza já haviam sido aprovadas no Congresso em 2015. Do ex-senador Eduardo Suplicy (PT-SP), o projeto tramitou no Parlamento por 16 anos e foi vetado por Dilma.
Em diferentes formatos, metas para a redução da pobreza foram implementadas neste século por democracias desenvolvidas como a Nova Zelândia, o Canadá, o Reino Unido. No Brasil, metas existem para a inflação, para a Selic, para o nível de gastos (o teto), para a diferença entre o arrecadado e o despendido (o resultado primário). Por que não para as famílias que enfrentam privações materiais? Qual outro objetivo o Estado deve priorizar?
A proposta, originalmente do projeto de Lei de Responsabilidade Social, do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), foi incluída no projeto do Auxílio
Brasil pelo deputado Marcelo Aro (PP-MG). Previa ainda que o governo publicaria periodicamente um relatório sobre a evolução dessas taxas, as medidas que vem tomando, os riscos e o que poderia ser feito no âmbito do gasto público e do sistema tributário para melhorar.
Poderia ser um norte para as reformas e um escudo que o governo poderia usar contra variadas pressões sobre o Orçamento. Não previa nenhuma punição para os gestores nem qualquer aumento de gasto.
Mas Bolsonaro vetou. Disse que o novo regime “contraria o interesse público” e alega que aumentaria o gasto público total, simplesmente porque o governo teria de reduzir a pobreza (a um nível que ele próprio escolheria!).
O veto impressiona também porque quedas na pobreza são em boa parte causadas pelo crescimento econômico. O governo, assim, sinaliza não apenas não ter compromisso com a redução da pobreza (um objetivo expresso da Constituição) como não confiar no seu próprio taco em relação à evolução do PIB. Reforça, ademais, a imagem do Auxílio Brasil como um programa para outubro, não para o futuro.
Como se não bastante, o veto leva o padrão Pazuello de qualidade: a nova lei foi sancionada mencionando 3 vezes a existência do regime de metas, que foi vetado e então não existe.
Bolsonaro na verdade repete um feito da antecessora. Com outro sistema, metas para a pobreza já haviam sido aprovadas no Congresso em 2015. Do ex-senador Eduardo Suplicy (PT-SP), o projeto tramitou no Parlamento por 16 anos e foi vetado por Dilma.
Em diferentes formatos, metas para a redução da pobreza foram implementadas neste século por democracias desenvolvidas como a Nova Zelândia, o Canadá, o Reino Unido. No Brasil, metas existem para a inflação, para a Selic, para o nível de gastos (o teto), para a diferença entre o arrecadado e o despendido (o resultado primário). Por que não para as famílias que enfrentam privações materiais? Qual outro objetivo o Estado deve priorizar?
Bolsonaro nos debates
Como na fábula do menino pastor e o lobo, o dia chegou. Pressionado pela surra que está levando nas pesquisas, Bolsonaro disse que pretende comparecer a todos os debates da campanha presidencial. Nem a seita acreditou.
Ainda mais agora que ele arranjou uma desculpa perfeita para se ausentar: comer camarões sem mastigar, engolindo-os com cabeça e tudo, baixar no hospital e, deitado na cama, tirar aquela foto já clássica, exibindo a sonda nasogástrica.
Cada internação por dores na barriga ressuscita o atentado sofrido em 2018. Os bolsonaristas acreditam que o episódio, já virado pelo avesso do avesso pela Polícia Federal, ainda pode ter influência no eleitor de 2022. O chato da narrativa é a realidade: o candidato sobreviveu à facada e foi eleito, sendo obrigado a ocupar o cargo e a fingir que governa há mais de três anos.
As facadas que Bolsonaro desfechou no país —destruição institucional, sanitária, ambiental, econômica, educacional, cultural, moral, ética, estética— estão refletidas nele, são indissociáveis da sua imagem de hoje. Tirou a máscara o político que se vendia como outsider, revelando-se o pior presidente da história. Aquele que, com apoio de generais superalimentados, inventou um orçamento secreto para comprar o centrão.
Se participasse dos debates, o capitão não poderia impor regras. Tampouco mandar o oponente calar a boca, como faz com jornalistas. O que diria sobre os filhos, todos envolvidos em tenebrosas transações? E sobre a primeira-dama, cuja conta bancária recebe pagamentos jamais esclarecidos? Revelaria ele, diante das câmeras, os gastos do seu cartão corporativo?
A oposição nem precisaria se esforçar diante do adversário nas cordas. Bastaria apontar e dizer: o senhor é o presidente, portanto, o responsável. Longe do cercadinho, seria suficiente uma só questão —"Cite alguma coisa que deu certo no seu governo"— para o mito beijar a lona.
Ainda mais agora que ele arranjou uma desculpa perfeita para se ausentar: comer camarões sem mastigar, engolindo-os com cabeça e tudo, baixar no hospital e, deitado na cama, tirar aquela foto já clássica, exibindo a sonda nasogástrica.
Cada internação por dores na barriga ressuscita o atentado sofrido em 2018. Os bolsonaristas acreditam que o episódio, já virado pelo avesso do avesso pela Polícia Federal, ainda pode ter influência no eleitor de 2022. O chato da narrativa é a realidade: o candidato sobreviveu à facada e foi eleito, sendo obrigado a ocupar o cargo e a fingir que governa há mais de três anos.
As facadas que Bolsonaro desfechou no país —destruição institucional, sanitária, ambiental, econômica, educacional, cultural, moral, ética, estética— estão refletidas nele, são indissociáveis da sua imagem de hoje. Tirou a máscara o político que se vendia como outsider, revelando-se o pior presidente da história. Aquele que, com apoio de generais superalimentados, inventou um orçamento secreto para comprar o centrão.
Se participasse dos debates, o capitão não poderia impor regras. Tampouco mandar o oponente calar a boca, como faz com jornalistas. O que diria sobre os filhos, todos envolvidos em tenebrosas transações? E sobre a primeira-dama, cuja conta bancária recebe pagamentos jamais esclarecidos? Revelaria ele, diante das câmeras, os gastos do seu cartão corporativo?
A oposição nem precisaria se esforçar diante do adversário nas cordas. Bastaria apontar e dizer: o senhor é o presidente, portanto, o responsável. Longe do cercadinho, seria suficiente uma só questão —"Cite alguma coisa que deu certo no seu governo"— para o mito beijar a lona.
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