quinta-feira, 4 de abril de 2019

Jair Bolsonaro precisa começar logo a governar antes que seja tarde demais


Aquele estranho vídeo que está circulando para enaltecer a ditadura militar tem tudo a ver com os tempos que vivemos agora. De repente, parece que o país retornou a uma era de trevas, de incertezas e de inseguranças. Jamais me passou pela cabeça que isso pudesse estar acontecendo, 55 anos depois. É como um sonho ruim, um pesadelo ao vivo e a cores, do qual a gente sabe que não consegue se desvencilhar. Não é à toa que a aprovação do governo Bolsonaro tenha caído 15%. Podem xingar o Ibope à vontade, mas os números são verdadeiros e a decepção se aprofunda.

Muitos eleitores votaram em Bolsonaro por não aceitarem mais o desgoverno do PT e a tentativa de impor uma república sindicalista. O arrependimento desses eleitores de Bolsonaro só não é maior, porque a opção petista se tornara algo completamente abominável. Mas agora, depois dos primeiros 100 dias de governo, a situação se mostra sinistra.


Da mesma maneira que ocorria durante os governos petistas, continuamos a viver um tempo de radicalismo. A diferença é que antigamente tínhamos de aguentar os fanáticos petistas, que adoravam – e ainda adoram – a figura abjeta de Lula da Silva. E agora somos obrigados a conviver com os fanáticos bolsonaristas, que nada ficam a dever aos seus antecessores.

De repente, o país se envolve numa discussão ideológica totalmente ultrapassada, com o chanceler e o presidente defendendo a tese exótica e surreal de que Hitler era de esquerda, sem perceberem que estão desmoralizando o país no exterior, sem a menor noção do ridículo.

É um governo se move em termos de teoria conspiratória e enxerga inimigos em toda parte, como se vivêssemos no Teatro do Absurdo, em docudramas de caráter altamente surrealista.

O presidente da República demonstra desvios de personalidade, deveria ser submetido a uma junta médica, pois se julga perseguido pelos principais órgãos de imprensa. Continua dando “entrevistas coletivas” em que proíbe a participação de jornalistas do grupo Globo, Folha, Estadão, Valor, UOL, CBN etc., algo jamais visto em qualquer democracia minimamente organizada.

E o pior é que esse comportamento paranóico tem apoio de milhares de fanáticos que saem em defesa de Bolsonaro nas redes sociais e na mídia em geral, inclusive em blog e sites. Dividem o mundo entre bolsonaristas e petistas, esquecidos de que a imensa maioria dos brasileiros pode não se encaixar nessas duas denominações, fazendo parte da maioria silenciosa que prefere trilhar o caminho do meio.

Em lembrança ao slogan anarquista espanhol “Hay gobierno? Yo soy contra”, pode-se dizer que no Brasil a situação está pior ainda, porque aqui “no hay gobierno”. O presidente se abstém de governar, reina a inércia no país, enquanto o suposto chefe do governo faz seguidas viagens ao exterior, acompanhado do filho 03, que é uma espécie de “chanceler informal”, vejam a que ponto chegamos.

Pensava-se que um governo militar eleito democraticamente significasse uma luz no fim do túnel, mas era só aparência. Os militares do Planalto não conseguem conter Bolsonaro e os três filhos, que se comportam como príncipes-regentes. A omissão e o caos rondam o governo que recentemente tomou posse, mas não governa nem a si mesmo.

Novo à beira do desemprego

Qual é a nova política? É a política da rede social? Os mais carentes vão receber as transformações pelas redes sociais? O velho é tudo que não presta? O que é que tem de novo até agora? Em três meses, muitos problemas. É isso o novo?
Arthur Lira (PP-AL)

A fuga simbólica de Bolsonaro para Israel no 55° aniversário da ditadura brasileira

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, está se acostumando a atirar a pedra e esconder a mão. Desta vez, tendo deixado o país em uma data tão significativa como o 55º aniversário da ditadura, o capitão reformado escapou por inteiro. Ele fugiu para Israel em uma visita oficial.


Essa fuga chocou. Foi ele quem provocou polvorosa ao pedir que o aniversário de uma das datas mais sombrias da história do país, manchada de mortes, perseguições e torturas, como foi o golpe militar de 1964, fosse "comemorado” nos quartéis. Depois, em seu melhor estilo de dizer e se desdizer, de afirmar e desmentir a si mesmo, ele se conformou com que tal data fosse “rememorada”. Tudo menos condenar aqueles 21 anos de terror que lhe pareceram pouco, já que ele se queixara antes de que, em vez de torturar, não tivessem matado muito mais. O Governo ainda deixou que um vídeo em defesa do golpe fosse partilhado por whatsapp por um dos números do Planalto. Nele, um homem olha para a câmera e diz que o Exército salvou o Brasil da ameaça comunista. A assessoria do Planalto disse a jornalistas que o vídeo não foi produzido pela Secretaria de Comunicação, mas não se pode disassociar do Governo a autorização para que ele fosse partilhado na data.

É possível que na fantasia de Bolsonaro e suas hostes guerreiras o Brasil tivesse aproveitado este 55º aniversário da ditadura, com um Governo como o seu coalhado de militares, para expressar sua nostalgia pelos anos de chumbo em que a democracia foi assassinada. No entanto, sua psicologia impulsiva, sua caça aos gigantes do comunismo, que confunde com simples moinhos de vento, e sua nostalgia de um passado que a grande maioria do Brasil condena, o levaram a fazer mal os cálculos.

Se acreditava que com seu pedido para que nos quartéis se comemorasse tal aniversário iria bajular os militares de hoje, que não tiveram parte na ditadura e que se têm revelado, desde o retorno à democracia, fiéis à Constituição, incluindo com Governos esquerdistas como os de Lula e Dilma, ele se enganou mais uma vez. Os quartéis não se mexeram. O jornal Folha de São Pauloentrou em contato com 50 militares hoje presentes no Governo e nenhum deles quis comentar esse aniversário.

Eles também preferem colocar sua visão no presente e no futuro e deixar o passado para a História.

Se os quartéis escolheram a discrição, as hostes bolsonaristas mais aguerridas promoveram eventos pontuais. O Brasil viveu um domingo até que pacífico. Os brasileiros fiéis à democracia, que rejeitam novas aventuras violentas, deixaram clara sua rejeição à ditadura em jornais, redes sociais e manifestações de rua. Milhares de pessoas seguiram numa marcha silenciosa pelas vítimas da ditadura no Ibirapuera. Outros atos simbólicos aconteceram nas principais capitais do país. Esses brasileiros desnudaram o regime militar para que não haja dúvida de que aquele período sinistro não admite eufemismos nem metalinguagens. Foi isso, uma ditadura, o assassinato do sistema democrático e o campo livre para que os piores instintos do ser humano pudessem se soltar impunes.

O Brasil deixou claro que não admite tergiversações linguísticas. Que foi uma ditadura, nem golpe, nem movimento, nem insurreição. Que nela se matou, corpos foram torturados e as liberdades foram sepultadas. Os que são sobreviventes de uma ditadura como a da Espanha, que me coube viver por 40 anos, sabem muito bem distinguir o que é uma insurreição social pela defesa dos direitos humanos do que é a degradação das liberdades.

Como eu, tantos jornalistas e escritores que viveram uma ditadura sabem muito bem que os capangas censores do Governo, muitas vezes incapazes de interpretar um texto, mortificavam também a inteligência, o pensamento e as ideias. Faziam isso toda vez que com suas canetas de tinta preta ou vermelha torturavam nossos escritos ou simplesmente os matavam de uma vez.

Um dia talvez saibamos por que o presidente Bolsonaro, depois de tentar reavivar aqui, em seu país, o fogo dos tristes anos da ditadura, preferiu fugir do dia que buscou transformar em uma festa. Ele foi procurar os aplausos naquela parte de Israel mais avessa ao diálogo, a mais intransigente, a das bandeiras da guerra e do desprezo pelo pacifismo com os povos e culturas que o rodeiam.

Talvez sua fuga apareça um dia como a prova de ter descoberto que o Brasil de hoje é cada vez menos o dos seus sonhos de guerra. É o que sonha com um futuro de liberdades e criatividade, de pão e trabalho para todos. Um Brasil unido, sem bravatas nem nostalgia de fantasmas autoritários do passado.

Neste 55º aniversário da ditadura brasileira, uma interrogação surge inquietante: será capaz o capitão Bolsonaro, que ainda não disse uma única vez que quer ser o presidente de todos os brasileiros, de representar o futuro de um país unido em torno de um projeto de esperança para todos? De um país que não caiu na armadilha criada pelo presidente que tentou em vão ressuscitar os fantasmas de um passado que só existe na fantasia febril dos derrotados?

Quem sabe um dia, sem necessidade de recorrer à psicanálise da linguagem de Lacan, seja possível compreender o que de simbólico e até mesmo de profético engloba essa fuga para o estrangeiro do presidente Bolsonaro, no dia em que sonhou fazer os brasileiros de hoje suspirarem por tempos que pertencem apenas aos cemitérios.

O Brasil degringolou, derrotado pelo desalento, pela apatia e pelo destino vira-lata

Fernando Gabeira escreveu na sua última coluna que não tem mais ânimo nem para dar conselhos, nem para atirar pedras. Não só ele. O desânimo é a sensação predominante no país. O Brasil degringolou, derrotado pelo desalento, pela apatia e pelo destino vira-lata que insiste em morder os calcanhares de quem, em algum momento, achou que as coisas estavam bem encaminhadas.

Mas quando? Antes da Copa? Nos meses áureos pré-Olimpíadas? Nos discursos triunfantes de Lula e de Sérgio Cabral?

Ali, naquele Brasil sorridente que decolava na capa da “The Economist”, gestava-se o tempo de hoje. Ali enchiam-se as barragens de rejeitos, ali se fazia de conta que a pobreza tinha acabado, e que ir à escola era o mesmo que aprender. Ali se formaram alguns milhões de jovens que têm diplomas mas não têm nem emprego nem empregabilidade, que votam em mitos e que sentem saudades do que não viveram.

O melhor retrato daquele Brasil confiante é a sua seleção infantilizada, entrando de mãos dadas no estádio de futebol, lágrimas escorrendo pela cara, toda trabalhada na fé, supostamente invencível, apenas para ser massacrada pela realidade da eficiência.

Não gosto nem de pensar que tempos estamos gerando agora.

Houve época em que os ministros da Educação faziam de conta que sabiam o que estavam fazendo; hoje nem isso.

Os franceses, que têm palavras para tudo, têm a definição perfeita para o que sentimos: "malaise". Uma primeira busca no Google revela que "malaise"
é “uma sensação geral de desconforto, doença ou mal-estar cuja causa exata é difícil de identificar”. Mas "malaise" se aplica também ao corpo político, e o Cambridge Dictionary explica melhor o seu significado: “um sentimento geral de se estar doente ou sem energia, ou o sentimento desconfortável de que algo está errado, especialmente com a sociedade, e que nós não podemos mudar a situação”.

Somos um país doente: quem não está cego pela ideologia está abatido com o que vê. Temos muitos motivos para isso, mas um dos principais está na inadequação de Jair Bolsonaro ao cargo que ocupa. Ele não entende que representa, ou deveria representar, todos os brasileiros; não percebe que o país está desmanchando pelas costuras, e que pôr lenha na fogueira não é uma boa política de governo.

Era de se imaginar que, tendo vencido as eleições por ficar ausente dos debates, ele fosse capaz de aprender o valor do silêncio; mas, ao contrário, ele acha que, com a presidência, ganhou carta branca para insultar quem não lhe deu o seu voto nem concorda com a sua visão do mundo.

Ao mesmo tempo, era de se esperar que a vitória nas urnas o apaziguasse e trouxesse à tona o seu lado melhor; mas a questão é que Bolsonaro não tem um lado melhor.

Ele é um homem mau que se orgulha disso.

É exaustivo viver no estado de insegurança que o seu estilo agressivo cria no país, porque o que esse estilo revela é que, em última análise, o presidente não é movido pelo desejo de fazer um Brasil melhor, mas apenas pelo prazer perverso de se vingar, seja das incontáveis categorias e setores que percebe como “inimigos”, seja do simples fiscal do Ibama que o multou por pescar em local proibido.

Um homem com 89 milhões de inimigos é o pior comandante que se pode ter.
Cora Rónai

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Só pensa naquilo!

Diz a Bíblia que a arrogância precede a ruína. Acho perigosa essa história do ‘ninguém fala a verdade’, ‘as pesquisas são mentirosas’, ‘só eu sei de tudo’.

Essa coisa de a rede social é meu Deus e ninguém mais fora dela. Precisa de um freio de arrumação. Essa queda de popularidade, essas brigas… Não seriam um sinal de que é preciso parar e pensar no Brasil por um minuto?
Silas Câmara )PRB-AM), presidente da bancada evangélica

Bolsonaro falsifica a realidade para enganar a população

Ao contestar números oficiais sobre o desemprego, Jair Bolsonaro conseguiu a façanha de ser desmentido por seu próprio governo. De Israel, o presidente distorceu dados do IBGE para tentar convencer o país de que o mercado de trabalho, na verdade, está bombando. “É uma coisa que não mede a realidade. Parecem índices que são feitos para enganar a população”, disparou.


O instituto havia calculado que o número de brasileiros desocupados subiu para 13,1 milhões em fevereiro. A conta segue padrões internacionais e leva em consideração pessoas que procuram emprego, mas não encontram. Bolsonaro não gostou.

O IBGE precisou divulgar uma nota de cinco parágrafos para explicar sua metodologia. Afirmou que adota regras semelhantes às de outros países e ainda negou a declaração do presidente de que beneficiários do Bolsa Família não são classificados como desempregados.

Bolsonaro produz falsificações que atropelam instituições consolidadas, critérios científicos, a história e o mínimo bom senso. O objetivo é adulterar a realidade a fim de reduzir desgastes e atacar opositores.

Para fustigar seus arquirrivais na política brasileira, o governo agora patrocina o delírio de que o nazismo era um regime de esquerda. O próprio Adolf Hitler deu uma entrevista em 1923 em que dissociava suas ideias do marxismo, mas Bolsonaro disse que “não há dúvida” de que o chanceler era vermelho, já que seu partido era o Nacional Socialista.

Dessa vez, quem desmentiu o presidente foi o vice Hamilton Mourão.“De esquerda é o comunismo. Não resta a mínima dúvida”, declarou.

A lógica estapafúrdia é a mesma que leva Bolsonaro a buscar um revisionismo rasteiro da ditadura militar. Ao argumentar que os fatos são deturpados por seus adversários e até por institutos oficiais, ele tenta moldar a verdade a seu gosto. Assim, nunca estará errado.

O presidente pode até contar suas histórias, mas quem olhar o passado ou as ruas do país verá quem está tentando “enganar a população”.

Paisagem brasileira

Floresta Encantada, Alter do Chão (PA )

Os Bolsonaro tuitam dez vezes antes de pensar

É preciso ver o lado bom das coisas. Mesmo que seja necessário procurar um pouco. No caso da presença da dinastia Bolsonaro nas redes sociais, o bom é a transparência. Cada vez que Jair Bolsonaro e seus filhos ficam fora de si, basta uma visita ao Twitter para ver melhor o que eles têm por dentro. A visão é aterradora. Mas ninguém pode alegar desconhecimento.

Abre parêntese: Palestinos e israelenses, como se sabe, vivem em paz no Brasil. Entretanto, alheio à tradição da diplomacia brasileira, Jair Bolsonaro achou que seria uma boa ideia descer no lado do muro ocupado por Israel. "Eu amo Israel", disse ele, na companhia do também capitão Benjamin Netanyahu.

Por mal dos pecados, a Israel que encanta Bolsonaro é a de Netanyahu, um premiê indiciado por corrupção, às voltas com uma eleição dura de roer. Tomado por suas ideias paleozoicas, o presidente brasileiro não tem o mesmo apreço pela Israel de lideranças como Golda Meir, Yitzhak Rabin e Shimon Peres. Fecha parêntese.

Pois bem, a esse ponto chegamos: no instante em que Jair Bolsonaro empurrava o Brasil para dentro de uma guerra que não é nossa, o senador Flávio Bolsonaro, que acompanhou o pai na incursão à beira do abismo, pisou no sabonete. Ao ler no site da revista Exame uma nota de repúdio do grupo terrorista Hamas à abertura de um escritório de negócios do Brasil em Jerusalém, o "Zero Um" correu para o Twitter.

Tido como o elo mais sensato do regime filhocrata, Flávio revelou-se um típico político do clã Bolsonaro. Grosso modo falando. Embora digitasse o teclado do laptop com os dedos das mãos, cutucou os jihadistas do Hamas com a ponta do pé para ver se eles mordem: "Quero que vocês explodam".

Horas depois, o primogênito apagou o post. Por sorte, as redes sociais são um inferno sem borracha. Consolidou-se uma sensação que já parecia petrificada: os Bolsonaro tuítam dez vezes antes de pensar. Inútil pedir a um Bolsonaro fora de controle que domestique os filhos. Quem sai aos seus não endireita.

Mas é preciso ver o lado bom das coisas. Mesmo que seja necessário procurar um pouco. O fato de Flávio Bolsonaro ter cultivado por um instante a ilusão de que seria possível apagar os rastros de sua insanidade virtual pode ser o embrião de uma autocrítica.

Com sorte, o senador acabará se dando conta de que o maior déficit de certos homens públicos localiza-se entre as orelhas. Com muita sorte, ele perceberá que, quando um Bolsonaro estiver nas redes sociais, deve recitar um velho brocardo com o sinal trocado: Nunca deixe para amanhã o que você pode deixar hoje.

Só comunistas torturavam?


"Comunistas prendiam e matavam seus compatriotas"
Texto do vídeo, divulgado pelo Planalto, que exalta golpe militar de 1964

Povo brasileiro não pode continuar pagando pelos crimes que não cometeu

Não, não é justo e sim extremamente injusto e cruel que o povo brasileiro pague pelo rombo, pelo desfalque, pela roubalheira que os governos das três esferas (federal, estadual e municipal), ao longo dos anos e da história, causaram e cometeram na criminosa administração do Tesouro Público (erário). Sem que antes se faça um auditoria, com auditores isentos e independentes, para identificar, processar, punir e ressarcir o dano que os administradores causaram, não se pode exigir um centavo do povo brasileiro para pagar a conta.

Nenhum imposto é para sofrer aumento, em lugar nenhum e a pretexto algum. Nenhuma mudança, mínima que seja, previdenciária, fiscal ou de qualquer outra natureza pode ser gestada e ingressar na ordem jurídica nacional com vista a “consertar” as contas e o país “progredir”.

Não será onerando os vitimados que os danos que sofreram serão minimizados, reduzidos ou reparados. Observe o leitor que nenhum governante, nenhum administrador público, de ontem e de hoje, reconhece serem eles os grandes malfeitores e culpados pelo desastre econômico que destruiu o Brasil. Pelo contrário, eles se apresentam na maior cara-de-pau como vestais, honrados e probos. E para eles a solução, de imediato, é mudar a Previdência Social, como se fosse a causa do desastre.

Essa situação tem tudo a ver com a maldade criminosa que estão fazendo com a população de cidades de Minas Gerais cercadas por barragens que acumulam resíduos da exploração de minério, que tudo arrebenta, derruba, inunda e mata, quando a barragem se rompe.

A ordem e os ensaios são para que a população se vire, se cuide, se proteja. Mas ninguém expede ordem para eliminar o perigo.

“Tenho 80 anos, nasci, cresci e sempre morei aqui. Aqui é meu lugar. Agora sou eu que tenho que sair, que tenho que correr para não perder a casa que construí e não perder a vida?”. O doloroso desabafo, raivoso e desesperador, que a TV mostrou, é de dona Maria do Rosário, moradora de Barão de Cocais, ameaçada de sumir do mapa quando a barragem de minério, que fica naquela região, estourar.

É o mesmo que estão fazendo com o povo brasileiro para superar a tal “crise”. Paguem vocês os monstruosos danos que nós causamos. Assim pensam eles, dizem eles, querem eles. Eles, os administradores públicos. Onde enfiaram e o que fizeram com a dinheirama que entrou no tesouro nacional com as privatizações da Vale do Rio Doce (3,3 bilhões), com a Telebras (22 bilhões), com a CSN (1,2 bilhão), com a Embraer (265 milhões), com os aeroportos, hidrelétricas, rodovias e muitas outras empresas federais?

 No dia 7 de fevereiro de 2019 o impostometro da Associação Comercial de São Paulo indicava que desde o 1º dia de 2019 os brasileiros pagaram 300 bilhões a título de tributos aos governos federal, estaduais e municipais. E que igual quantia (300 bilhões) foi alcançada de 1º de janeiro a 10 de fevereiro de 2018! Cadê o dinheiro? Onde foi empregado?. Quem dele se apoderou, ilicitamente?

Não, não se pode aceitar que o povo brasileiro pague a conta. Que repare o dano. Que sofra na carne, na alma, no psiquismo e no Espirito com tanta covardia. Identifiquem os ladrões, primeiro. Em seguida, puna-os e deles apanhem o dinheiro roubado a fim de devolvê-lo a seus legítimos proprietários, o povo brasileiro. Crimes de lesa-pátria são imprescritíveis.

Quando os fatos contrariam Bolsonaro, pior para os fatos

Jair Bolsonaro cultiva uma relação peculiar com a realidade. Ele não admite contestação, mesmo quando é desmentido com argumentos irrefutáveis. Se os fatos o contrariam, pior para os fatos.

Na segunda-feira, o presidente atacou o IBGE. Motivo: o instituto revelou que o desemprego voltou a subir. Em vez de encarar o problema, Bolsonaro reclamou da estatística. “Parecem índices que são feitos para enganar a população”, esbravejou.



A pesquisa seguiu parâmetros internacionais, mas foi descartada por não confirmar a propaganda. “Fui muito criticado e volto a repetir: não interessam as críticas. Eu tenho que falar a verdade”, prosseguiu o presidente. Ele deu as declarações numa data sugestiva: 1º de abril.

Ontem Bolsonaro resolveu esticar o Dia da Mentira. Em Israel, embarcou no delírio do chanceler Ernesto Araújo e disse que o nazismo foi uma ideologia de esquerda. “Não há dúvida, né? Partido Socialista… Como é que é? Partido Nacional-Socialista da Alemanha”.

O presidente despejou o besteirol em visita ao Yad Vashem, museu que lembra as vítimas do Holocausto. A instituição informa aos visitantes que o nazismo foi uma das expressões do “crescimento de grupos radicais de direita na Alemanha”. Se não leu os livros escolares, Bolsonaro poderia ter consultado as plaquinhas.
É consenso entre historiadores que o nazismo foi um movimento de extrema direita. O primeiro campo de concentração, em Dachau, foi inaugurado com o envio de comunistas e socialistas. Só depois recebeu judeus, ciganos e homossexuais.

A insistência em negar os fatos tem espantado a comunidade internacional. “Nunca ouvi uma voz séria na Alemanha argumentando que o nazismo foi um movimento de esquerda”, disse em setembro o embaixador alemão no Brasil, Georg Witschel.

Na semana passada, a emissora pública Deutsche Welle resumiu a falsa polêmica com sete palavras: “O absurdo virou discurso oficial em Brasília”. A Alemanha zela pela verdade histórica para que seu passado sombrio não se repita. Quando o Planalto exalta golpes e ditaduras, o Brasil toma o caminho oposto.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Pensamento do Dia


A mentalidade bolsonarista

Que Paulo Guedes se acautele sobre a viabilidade de um ambicioso programa de reformas liberais sob um governo que, dirigido pela lógica da ruptura, age como oposição — afluente do conflito — e opera em campanha permanente, elegendo e cevando inimigos para manter excitada a tropa.

A discussão sobre 1964 — sobre se terá sido golpe etc. — é a mais recente expressão narrativa do processo revolucionário bolsonarista; e deve ser compreendida sobretudo à luz da circunstância em que o bolsonarismo — chancelado por Jair Bolsonaro — tenta emparedar o Parlamento, aquele outrora fechado pela ditadura. Tudo calculado. Um debate anacrônico, artificial, forjado desde dentro do Planalto também para, apostando no confronto, desviar atenções, fatigar o olhar crítico e mitigar a constatação dos verdadeiros problemas brasileiros em 2019: aqueles derivados da incompetência do presidente para liderar uma agenda prática a partir da qual, reforma da Previdência como gatilho, a economia volte a crescer.

Os anestesiados que saem no braço nas ruas — engalfinhando-se acerca de versões sobre um passado que não viveram — são os mesmos que ora estão desempregados. Uma conta que não fecha; que explodirá.

Convém a Guedes, homem brilhante, folhear a história e avaliar a compatibilidade entre o projeto liberal que encarna e a dinâmica de um governo reacionário como o que integra. O ministro fala, com gosto e frequência, em “sociedade aberta”, aquela, antidogmática, cujo principal valor talvez seja o questionamento permanente e pouco mediado; mas deve atentar para como a sociedade se comprime quando, aterrada a importância da mediação, instrumentaliza-se a mobilização popular — o povo como ferramenta de pressão — em prol de um projeto de poder.



O apoio constante das massas é um fetiche do bolsonarismo, ilusão cultivada pela capacidade de mobilização bolsonarista nas redes. Tem lastro, porém, em desastres pretéritos, na trajetória das revoluções ditas populares. E sempre se materializa na necessidade elitista de ser liderado por alguém. Mas: por quem? Quem poderia assegurar a mobilização popular capaz de impulsionar a agenda rompedora da “nova era”?

Antes de responder, é preciso reconsiderar a influência do núcleo militar sobre o presidente. Estará equivocado aquele que a avaliar como grande. Não é. Ou seremos obrigados a julgar os generais governistas ou como incompetentes ou como corresponsáveis pela depauperação institucional promovida — com método — pelo governo.

Que não nos iludamos. É a mentalidade revolucionária a que dirige Bolsonaro; aquela apregoada pela ala que se nomeia antiestablishment, o grupo dos filhos Carlos e Eduardo, e que tem Filipe Martins, o intelectual do novo regime, dentro do Planalto. Segundo o próprio Martins, seria essa a única ala capaz de garantir e nortear a pressão popular sem a qual agenda alguma do governo prosperará. Inclusive a de Guedes. A reforma liberal, portanto, dependente da revolução reacionária.

Trato aqui de um processo revolucionário que se quer plantar como permanente — e cuja estratégia de enraizamento obedece ao seguinte infinito: depois de haver vencido o establishment na eleição, o bolsonarismo ora enfrenta, desde dentro do governo, a batalha por novamente vencer o mesmo establishment, desta vez em sua facção aparelhada na máquina pública, guerra de guerrilha cujo êxito dependerá de aplicação ininterrupta.

Já escrevi algumas vezes que um dos mais sólidos agentes do bolsonarismo é a criminalização da atividade política; ação que alcançou o estado da arte a partir do momento em que Bolsonaro, uma vez presidente, incorporou a Lava-Jato — na figura de Sergio Moro — ao governo, e que, na prática, manifesta-se em investimento sistemático contra a democracia representativa. A conflagração recente entre Executivo e Legislativo é simbólica desse movimento.

Foi a ala antiestablishment o centro difusor dos ataques à necessidade de o governo dialogar com o Parlamento e articular politicamente em benefício da reforma da Previdência. O conceito é objetivo — está na convenção da fábrica de algozes: não se conversa com bandido, o qual deve ser submetido. Ou o Congresso, espécie de sindicato do crime, casa de traidores da pátria, poder intermediário a ser esmagado, aprova o que deseja Bolsonaro ou se acertará com a única força legítima para além do presidente: a pressão popular.

Crer que desse modus operandi estabelecido se possa extrair alguma paz institucional duradoura será negar a natureza da mentalidade que preside o país. A regra é o choque. Que estimemos, pois, as possibilidades de um pacote reformista estrutural numa estrada cuja pavimentação é a rachadura.

Quem deve acionar a lei?

Entre a impunidade completa dos assaltantes do Estado e a total ausência de defesas contra as prisões “preventivas” sem que haja nada a prevenir; entre a omissão cúmplice e a hiperatividade jurídico-policialesca; entre o “garantismo” de uns e o “ativismo” de outros, o Brasil Real segue paralisado pelos movimentos pendulares a que tem sido empurrado pelos grupos da privilegiatura em disputa pelo poder sem que tenhamos avançado um centímetro sequer nas reformas institucionais mapeadas desde Montesquieu para por o povo no poder e cada um dos três poderes no seu devido lugar e oferecer um terreno minimamente sólido para a retomada do desenvolvimento econômico.

Uma série de ondas entrecruzadas explicam a progressiva perda de racionalidade do processo brasileiro.


O terrorismo internacional fez avançar as tecnologias de rastreamento de dinheiro e as polícias brasileiras, de carona no processo, pediram e obtiveram de políticos que sempre se imaginaram intangíveis, a aprovação de leis mais fortes contra o crime organizado que, além da curva, permitiram a um grupo divergente do padrão do Judiciário brasileiro montar quase por acidente a Operação Lava Jato que quebrou a impunidade ancestral também do crime organizado de colarinho branco.

Esse processo, excepcional e isolado, correu totalmente à margem do longo trabalho de aparelhamento do Judiciário, em especial pelo rebaixamento dos critérios de escolha de juízes do Supremo Tribunal Federal, que vinha avançando ao longo de toda a “Era PT” como preparativo para o modelo bolivariano de golpe em que o Judiciário aliado ao Executivo avança sobre o Legislativo até anular completamente qualquer instância de poder eleito pelo povo. A Lava Jato provocou, no entanto, um efeito devastador no projeto de poder do lulismo. Mas, na sequência, progressivamente instrumentalizada pela luta política, acabou por triturar um Poder Legislativo encurralado pela tática de resistência do lulismo que consistiu em igualar o país inteiro pelo seu padrão de conduta para isentar-se de culpa. “Eu sou, mas quem não é”?

A identificação entre o crime de corrupção eleitoral e o desvio de conduta do “caixa 2” foi o golpe que fechou a porta a uma reconstrução do país por dentro da política e precipitou uma luta surda pelo poder de que a cruzada contra a corrupção tornou-se mera caudatária. A crise da imprensa – traduzida no nefasto “jornalismo de acesso” a dossiês produzidos pelas partes em luta – e a polarização ideológica precipitada pelo condicionamento pavloviano contra qualquer possibilidade de aprofundamento dos raciocínios políticos nas redes sociais, completaram o desastre.

Hoje a torcida, tanto mais cega quanto mais barulhenta, divide-se apaixonadamente entre os que nos roubam com a lei institucionalizando privilégios que atribuem a si mesmos – estes tidos em muy alta conta – e os que nos roubam também contra a lei ou nos interstícios da lei dependendo de se fazem isso declarando-se “de esquerda” ou declarando-se “de direita”. Mas apesar de permanecerem mais fechadas do que nunca antes as portas da política a qualquer pessoa estranha às corporações que ordenham o estado e do vertiginoso aumento do numero de representantes eleitos oriundos do Poder Judiciário, do Ministério Público e das polícias que saltaram para a seara da política, ninguém se lembra de perguntar porque, à Lava-Jato, é vedado investigar o Poder Judiciário? Porque é interditado ao Ministério Público propor delações premiadas contra juristas? Porque um advogado propor a seu cliente que inclua um juiz na sua delação premiada equivale a condenar-se a nunca mais ganhar uma causa num tribunal brasileiro? Porque essas mesmas corporações são as que detêm os mais altos privilégios dessa privilegiatura que esgotou até à ultima gota – 97% após o ultimo golpe na semana passada – o orçamento público do país que cobra os impostos proporcionalmente mais altos do mundo?

E no entanto o tema é velho como a humanidade. “Para os amigos, tudo. Para os inimigos, a lei”. É ela o mais formidável de todos os “argumentos”. Conta com o monopólio da força para encerrar carreiras, matar biografias, cassar liberdades, confiscar bens e até tomar a vida de quem ousar enfrentá-la. Daí ser a questão central de toda a luta da humanidade contra a opressão garantir que a lei seja posta exclusivamente a serviço da justiça e não, como sempre foi desde tempos imemoriais, um mero instrumento a serviço do poder.

“Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido” é o resumo da resposta. O que remete às quatro questões subsequentes. 1) Como garantir um sistema de representação que seja efetivamente representativo? Com eleições distritais puras, as únicas que permitem saber exatamente quem é cada um dos representados de cada representante. 2) Como garantir que a lealdade dos representantes não se desvie dos seus representados? Condicionando a continuação do seu mandato ao julgamento de cada um dos seus atos por esses representados. 3) Como impedir que os representantes fiquem expostos ao uso da lei contra eles em função da luta política e não do interesse da justiça? Dando-lhes imunidade contra determinadas leis enquanto o seu representado sustentar o seu mandato o que, na prática, tira da mão de todos os outros agentes públicos a decisão de acionar a lei contra eles. Isso deixa a decisão de acionar ou não a lei contra o ladrão de dinheiro público exclusivamente aos roubados e não aos concorrentes ou aos adversários do ladrão na disputa política ou por “territórios privativos de caça”. 4) Como conseguir, finalmente, que tudo isso chegue a bom termo em tempo hábil e com penas compatíveis com os crimes cometidos? Dando aos eleitores os poderes de propor leis que os legisladores ficam obrigados a processar, recusar leis “tortas” vindas dos legislativos e fazer eleições periódicas de confirmação dos bons juizes e exclusão dos maus.

Não existe terceira via. Vai bem no mundo quem vive num sistema assim. O resto vai à brasileira…

São decisões dele...

Depois de apoiar a reeleição de Donald Trump, o presidente Jair Bolsonaro agora apoia, com gestos, mais do que palavras, a reeleição de Binyamin Netanyahu, com quem rezou ontem no Muro das Lamentações, em Israel. Nada disso é trivial em diplomacia e política externa. Bolsonaro, porém, é Bolsonaro.

Ele toma decisões e age porque dá na telha, não exatamente por embasamento teórico, científico, histórico. Para ele, Trump e os EUA são o máximo, dane-se o resto. Netanyahu e Israel são fantásticos, os palestinos e o mundo árabe a gente vê depois.

Com esse voluntarismo, o mesmo presidente que mandou desconvidar Ilona Szabó de uma mera suplência de um mero conselho não consegue demitir o ministro que transformou o MEC num vexame. A ideologia derrubou Szabó. A ideologia mantém Vélez.

É assim também que Bolsonaro assiste impassível à avalanche de impropérios e palavrões proferidos pelo guru dos seus filhos, de Vélez e do chanceler Ernesto Araújo contra os generais que ocupam os principais cargos e têm sido um contraponto de bom senso aos excessos e aos erros do governo e do próprio presidente.

Premiado com um lugar de honra à mesa de um jantar para Bolsonaro nos EUA, Olavo de Carvalho já disse que os militares são uns... Desculpem, mas não consigo repetir. E ele chamou o vice-presidente Hamilton Mourão, general da reserva, de “idiota”, “imbecil”, “vergonha para as Forças Armadas” e “charlatão desprezível”.

Ele, o guru, também já provocou o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, pelo fato de ele dar entrevistas para a mídia e conversar com jornalistas: “Você não tem vergonha, Heleno?”

A metralhadora giratória desviou-se agora para o ministro Santos Cruz, da Secretaria de Governo. Aquele que faz a cabeça dos filhos de Bolsonaro escreve para quem quiser ler que o general “não presta”, é um “monstro de auto-adoração e empáfia” e dono de “uma mediocridade invejosa”.

Na coleção de ataques, há até um de puro sarcasmo, dizendo que, a partir de agora, quando se irritar, vai reagir gritando: “Santos Cruzes!”. Um achincalhe com um ministro, um general, uma pessoa séria, que tem gabinete no Palácio do Planalto, a poucos passos do presidente da República. E Bolsonaro não diz nada? Não acha nada?

Se não se mete com Olavo de Carvalho e não toma uma providência para salvar o MEC do desastre, Bolsonaro é corajoso ao reverenciar Trump e Netanyahu, ao atacar o presidente da Câmara e ao demitir o leal amigo Gustavo Bebianno, depois de agredi-lo pelas redes sociais, com ajuda do filho.

A guerra entre “olavetes”, militares e técnicos não é exclusiva do MEC, mas sim uma realidade no governo, com algumas exceções, como Economia e Justiça. O Brasil está assistindo a essa guerra intestina a céu aberto, à luz do dia, sem que o presidente da República arbitre.

O vice Mourão já me disse que não iria rebater mais Olavo de Carvalho e explicou: “Não se polemiza com maluco”. Mas Santos Cruz cansou de ouvir calado e revidou. O guru não saiu mais do Twitter e não parou mais de xingar. Será que é isso o que ele quer? Propaganda gratuita?

Aliás, ao insistir na comemoração do 31 de Março, que virou “rememoração”, o presidente provocou um tsunami de depoimentos dolorosos contra a ditadura militar. Não satisfeito, surgiu na lista do WhatsApp do Planalto, domingo à noite, um vídeo quase anônimo enaltecendo o golpe. Sem explicação, Mourão deu de ombros: “É decisão dele”...

Brasil e seu Messias


Vídeo pró-golpe cria o setor ficcional do Planalto

Grande ideia, criar uma vida nacional paralela, para ser vivida nos canais de WhatsApp da Presidência da República. Seria um desperdício limitar a iniciativa ao vídeo pró-golpe. Por que não criar um departamento de camuflagem para gerenciar o processo de substituição da realidade?

O repórter Gustavo Maia contou no Globo que foi o ator Paulo Amaral, especialista em peças publicitárias, quem estrelou o vídeo distribuído pelo Planalto no domingo para agradecer ao Exército pelo golpe de 1964.

Paulo Amaral contou que a proposta lhe chegou no sábado: "Pago tanto, você faz?"; E o ator: "Faço". No dia seguinte, a Presidência já distribuía o vídeo que apresentou ao país uma ditadura alternativa, isenta de cassações, execuções, tortura, censura e fechamento do Congresso. Uma beleza. O ator não quis dizer quem pagou por sua performance.


Não é justo que apenas Paulo Amaral ganhe uns trocados. Muitos brasileiros, depois de ouvir os discursos e as entrevistas de Bolsonaro, gostariam de viver no Brasil que o capitão descreve com tanto entusiasmo, seja ele onde for. O que falta são bons atores para dar vida à única realidade do governo: a ficção.

Se o departamento cenográfico der certo, o Planalto pode lançar um ambicioso programa de combate ao desemprego. Milhões de brasileiros seriam transformados em atores, habilitando-se para trabalhar nos vídeos da Presidência.

Bolsonaro e sua dinastia ecoariam nas redes sociais comerciais em ie. Num, haveria um MEC sem Vélez. Noutro, um Itamaraty sem Araújo. Numa terceira peça, o país seria apresentado a um Planalto em que o presidente não fosse da cota do polemista Olavo de Carvalho.

Muitos brasileiros, influenciados pela "extrema imprensa", talvez resistissem à ideia de habitar a ficção. Nessa hipótese, Bolsonaro criaria um grupo de trabalho para conceber um segundo programa de recuperação do emprego. Nele, os desempregados que não tivessem virado atores a serviço do governo seriam treinados para se transformar em palhaços.

Assim, numa sinergia perfeita, parte dos desempregados estaria dentro dos vídeos do governo. Outro contingente estaria na plateia, acreditando piamente no Brasil paralelo da propaganda oficial.

Quem não estivesse gravando as peças promocionais estaria nas filas para receber gratuitamente seus narizes vermelhos, colarinhos folgados e sapatos grandes. Seria o maior e mais ambicioso projeto de revitalização do emprego da história.

1964, o cadáver insepulto

Neste domingo, a queda do governo João Goulart, ocorrida em 31 de março de 1964, faz 55 anos. Deveria ser um fato histórico devidamente ultrapassado, objeto de avaliação dos historiadores, sociólogos e cientistas políticos, com base em registros, documentos e depoimentos – tema, enfim, remetido ao tribunal da História.

Mas não é. É um cadáver insepulto, a assombrar gerações que nem sequer haviam nascido ou que estavam na primeira infância naqueles dias. Todos os seus protagonistas, civis e militares, estão mortos há muitos anos. Os sobreviventes, hoje mais que septuagenários, tiveram papel acessório nos acontecimentos.

O que explica então essa presença fantasmagórica, a assombrar os dias atuais? Simples: o 31 de março de 1964 (golpe, contragolpe, revolução, contrarrevolução, intervenção civil-militar ou apenas militar, seja lá o que tenha sido) transformou-se em uma espécie de mito fundador da esquerda contemporânea brasileira.

A partir dali, construiu-se uma narrativa de martírio que forja heróis de almanaque e busca dar-lhes protagonismo nos dias atuais.

Essa narrativa exclui os atos de um dos lados, o vencido, e projeta no vencedor todas as atrocidades de um embate que envolveu guerrilhas, sequestros, assaltos a banco e atos de terror. A cartilha de Marighela, não por acaso, destacava a palavra “terror”.

Alguns desses então proclamados terroristas, anistiados em 1979, viriam a ocupar postos de comando na república – Dilma, na Presidência, e outros no Congresso, ministérios e governos estaduais.

Mas a página não foi virada. A Comissão da Verdade listou, em 21 anos, 434 mortos no embate; a esquerda matou cerca de 120. No total e no prazo de vigência do regime, cerca de 20 mortos por ano.

O país, nesse período, teve uma média de 120 milhões de habitantes. Cuba, com oito milhões, relaciona 120 mil fuzilados, além de exilados e presos políticos aos milhares, ainda hoje excluídos. A Venezuela bolivariana já matou mais que o dobro no Brasil de então.

É uma história contada pelo perdedor, invertendo a lógica de que é o vencedor que impõe sua narrativa. Quem se der ao trabalho de ler os jornais e revistas da época há de constatar (pois se trata de matéria de fato, não de opinião) uma quase unanimidade da opinião pública em relação aos acontecimentos.

A mesma mídia, que hoje deplora o ocorrido, celebrou (à exceção da falecida Última Hora) o seu advento. O principal jornal de então, o Correio da Manhã, o postulou em dois editoriais (“Basta” e “Fora”); O Globo, em editorial de primeira página, estampava: “Ressurge a Democracia”. Hoje, diz o contrário. O que mudou?

O regime militar, que Lula saudou (há vídeos na internet) como responsável pela fase econômica mais próspera do país, abriu mão da narrativa. Entregou a cultura aos adversários – e não por descuido, mas por convicção: o general Golbery sustentava a teoria da “panela de pressão”, segundo a qual a esquerda precisava de uma válvula de escape – e esta era a cultura, que julgava inofensiva.

Subestimou o poder da narrativa, ainda hoje em pleno curso. A história, nesses termos, não é o que ocorre, mas o que dali se conta.

O governo Bolsonaro, ao decidir pela celebração da data, tenta reverter o fenômeno, o que só parece viável a longuíssimo prazo, quando todos estaremos mortos.

Num primeiro momento, embora a expectativa seja oposta, dá combustível a seus adversários para que reforcem seu martiriológio e mantenham vivo o seu mito fundador.

O país, no fim das contas, mantém sua vocação de centro espírita político, que mantém o passado em permanente mutação.
Ruy Fabiano

Sangria desatada

Vivemos em um país que está sangrando
Giniton Lages, delegado que presidiu investigações do caso Marielle

A tragédia social dos homicídios

O estado do Rio de Janeiro teve, no primeiro bimestre deste ano, o menor número de homicídios dolosos desde o início da série histórica, em 1991. Não que seja um índice para se aplaudir em cena aberta: foram 705 homicídios, uma média de um assassinato a cada duas horas. Mas é uma queda relevante. Em 1991, o mesmo bimestre teve 1.389 mortes; é uma queda de mais ou menos 50% em 28 anos. Nesse ritmo, o estado chegará a padrões civilizados de homicídios lá pela década de 2070.

Mas quando e onde se morre mais? E qual é o perfil da vítima de homicídio? Algumas ferramentas permitem responder a essas perguntas.

Os dados deste ano podem ser vistos no sistema de visual
ização de dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). Mata-se mais no fim da noite, entre 22 horas e meia-noite, e o panorama fica pior no fim de semana. Nos primeiros dois meses deste ano, as regiões com mais mortes foram a Baixada Fluminense e o interior do estado. Na cidade do Rio, os homicídios despencaram quase 51% na comparação com o mesmo bimestre de 2018.


O perfil da vítima pode ser analisado nos microdados fornecidos pelo ISP. Analisando-se os dados de quatro anos de mortes (2015 a 2018), é possível tirar algumas conclusões. Há mais homicídios, realmente, nos fins de semana, com predomínio do sábado. A maior quantidade de homicídios acontece de noite, seguida pela madrugada; à tarde é quando menos se mata.

Homens são mortos com maior frequência do que mulheres, numa proporção de 11 para um. Pardos e negros são mais assassinados que brancos, numa proporção de três para um. Quando a profissão da vítima é identificada, desempregados estão em primeiro lugar, seguidos por estudantes, desocupados e pedreiros. Em cerca de um quarto dos casos, não há relação entre vítima e autor. Quando existe, companheiros (ou companheiras), vizinhos, amigos e irmãos são os principais responsáveis pelo crime. Quanto à idade, estão em primeiro lugar, com folga, os jovens de 18 a 24 anos.

Homens, jovens, pardos ou negros, desempregados ou desocupados. Quando se sabe que os principais autores de homicídios, analisados em grupo, são o tráfico e a milícia, esse perfil não chega a surpreender. E não estão entrando na análise as mortes em confronto com a polícia, que acentuariam ainda mais essas características.

Em quatro anos, mais de 7 mil adolescentes e jovens até 24 anos foram mortos no Rio. Se incluirmos os adultos até 30 anos — ou seja, pessoas no início de sua idade produtiva — temos mais de 10 mil mortos entre 2015 e 2018. E apenas no Rio de Janeiro. Espalhe essa tragédia pelo país, em maior ou menor grau, e pelos últimos 20, 30 anos, e é possível vislumbrar o tamanho da desgraça humana, econômica, social e previdenciária que despencou sobre o Brasil com o peso de uma bigorna. Segundo dados do Ipea , entre 1996 e 2016, quase 574 mil jovens entre 15 e 29 anos foram mortos no país. Só 46 municípios, dos 5.570 do país, têm mais de meio milhão de habitantes.

Os jovens mortos dessa estatística não eram criminosos que trocaram tiros com a polícia. São vítimas. Meninos e meninas, rapazes e garotas cujo espectro quase infinito de possibilidades virou um monolito de certezas, todas negativas. Não terão filhos. Não trabalharão. Não vão casar nem comprar uma casa, nem carro, nem nada. Não pagarão impostos. Não envelhecerão. Somos uma sociedade que está assassinando seu futuro.