quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Pelo telefone

Ze dirceu preso Lula escondido recebe telefonema empregada celular

O que eles disseram...

“Passava por uma estrada e lá encontrei uma menina, chorando sobre os escombros de sua casa. Perguntei-lhe o que acontecera. ‘É o tigre da montanha, sábio. Já devorou meus pais, meus irmãos e breve voltará para devorar a mim...’ ‘E por que você não vai para a cidade? Lá não há tigre...’ ‘Isso nunca, ó sábio! Lá vocês têm governo!’”, narrou Confúcio, numa de suas fábulas.

“O PT é uma merda, mas é meu partido”, concluiu o filósofo molusco.

Acho que está passando da hora de não só lembrarmos as ideias de Roberto Campos como também de colocarmos em prática algumas delas. “O que os brasileiros desejam é um capitalismo sem risco, um socialismo sem disciplina e investimentos sem capital estrangeiro.”

Desde que me entendo por gente ouço a voz rouca do atraso afirmando que “o petróleo é nosso”. Nosso, nada! Hoje, o Brasil controla sua maior empresa com apenas 32,53% do capital. Do capital restante, quanto estará no Brasil? Está passando da hora de o Brasil se desenvolver, e não há que se falar em desenvolvimento sem capital estrangeiro”.

A maior nação do mundo hoje, os Estados Unidos, não vive na vida dos seus cidadãos. O Estado precisa sair de nós, cidadãos. Essa roubalheira na Petrobras só acontece, e só pode acontecer, em empreendimentos estatais, onde tudo é de todo mundo e nada é de ninguém em particular... Se tenho medo de ser chamado de entreguista? Tô me lixando...

Veja como pensa e se expressa a sua presidenta (sic), falando na inauguração da unidade de produção de etanol 2G, em Piracicaba: “Aqui é muito simbólico que se encontrem a tradição e a inovação. A tradição, porque essa planta se beneficia também do fato de aqui se produzir cana-de-açúcar, etanol de primeira geração e, agora, etanol de segunda geração. Essa planta se beneficia também pelo fato de que aqui também se produz energia elétrica com base na biomassa. Essa planta, portanto, é a demonstração da capacidade de integração de várias etapas da questão energética no mesmo lugar. E, por ser uma planta de etanol de segunda geração ela é, sobretudo, uma grande conquista do Brasil”.

Assim, depois da importância da conquista da mandioca, da “mulher sapiens”, da conquista da planta de etanol de segunda geração, o Brasil, como diria Kafunga, de saudosa memória, “despingolou” no espaço sideral...

Eu acho que Dona Dilma é uma pensadora grande: “Dentre todos os processos tecnológicos que a humanidade criou, dois se destacam: uma é a imensa... o imenso poder, o (sic) imensa força, a imensa capacidade de desenvolvimento que, em qualquer atividade... humana, tem um processo chamado ‘cooperação’, e o outro foi a conquista do fogo, o que é muito importante.”

É... Mas se nós não tivéssemos descoberto essa desgraça do fogo, Nero não teria queimado Roma e, pior, não haveria os enfisemáticos, pois, sem fósforos, como acender cigarros?</CW>

P.S.: Cuidado com os juros dos cartões de crédito: 372% ao ano, um verdadeiro desvario, mesmo que seja para plantar etanol...

Sepulcros caiados

Anterior ao naufrágio do Titanic, havia um ditado repetido por toda gente: "Por fora bela viola, por dentro pão bolorento". E mais antigo ainda, o anexim pode ser uma simples metáfora, dita pelo próprio Cristo, chamando os hipócritas de "sepulcros caiados". Penso nisso sempre que vejo uma embalagem nova e geralmente inexpressiva.

As caixas de fósforos da Fiat Lux tinham aquele terrível olho inventado não sei por quem, o olho severo do Criador nos olhando e fiscalizando. Aliás, o mesmo olho comparece nas notas de dólar e acho que também nas lojas maçônicas.

Alguns times de futebol mudaram seus uniformes, o do Fluminense, por exemplo, é um horror. O Vasco e outros tantos também.

Tradicionais produtos industrializados jogaram no lixo suas antigas embalagens e adotaram outras, tão enigmáticas que confundem todo mundo.

"Saco azul e cinta encarnada" era o slogan do açúcar Pérola. O tradicional Leite de Rosas vinha num elegante frasco de vidro, hoje vem num inexpressivo plástico rosa. O Chacrinha vestido de mata-mosquito não é a mesma coisa.

Essas considerações iniciais são provocadas pela recente embalagem do PT e do próprio Lula. Surgiu embrulhado num vermelho vivo significando um fato novo e necessário. Agora, depois do mensalão e da Lava Jato, é completamente diverso da embalagem original, que representava um apelo realmente novo de um partido honesto e progressista.

Lula, com aquela barba revolta de Rasputin, era uma coisa. Hoje, com a barba civilizadamente aparada e cara de burguês bem posto na vida, já não é aquele Lula sindicalista, preso várias vezes e com discurso moralista.

O PT, repetindo o anexim inicial, também é por fora bela viola, por dentro pão bolorento.

Da mesma árvore

Palácio do Planalto, janeiro de 2003. Lula degusta a primeira semana no poder em conversa com os ministros José Dirceu (Casa Civil), Antonio Palocci (Fazenda) e Miro Teixeira (Comunicações).

Preocupa-se com o novo Congresso, que toma posse no mês seguinte. Chegou à Presidência com 52 milhões de votos, mas o PT não conseguiu ir além dos 18% das cadeiras na Câmara, com 91 deputados federais.

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Discute “como é que se organiza”, nas suas palavras, a maioria no Legislativo. Dirceu sai na frente com um enunciado sobre o “Congresso burguês”, evocação dos “300 picaretas” que Lula usara anos antes ao se referir à maioria dos parlamentares federais.

O líder escuta, sorridente, a ideia de usar cargos com fatias do orçamento do governo e das empresas estatais para compor a “maior base parlamentar do Ocidente”.

A proposta esconde e mistifica, tanto quanto revela. Palocci e Miro percebem o aval de Lula a Dirceu. Em oposição, sugerem alianças a partir de projetos específicos — a começar pelo “ajuste fiscal” —, até para atrair parte da oposição, o PSDB de Fernando Henrique Cardoso, sociólogo que exibia o orgulho de ter passado a faixa presidencial ao operário transformado em símbolo da democracia industrial brasileira. Palocci e Miro insistem. Acabam atropelados.

A partir de então, houve romaria ao quarto andar do Planalto, onde o secretário-geral do PT Silvio Pereira e o tesoureiro do partido Delúbio Soares loteavam cargos entre aliados. Dirceu homologava, auxiliado por Fernando Antônio Guimarães Hourneaux de Moura, mais conhecido como “FM”. No Congresso, provocavam-se frequentadores do Planalto: “O deputado anda ouvindo muita rádio ‘FM’”.

A mecânica das negociações havia sido testada na campanha. Numa noite de junho de 2002, Lula, o vice José Alencar, Dirceu e Delúbio foram ao apartamento do deputado Paulo Rocha (PT-PA), em Brasília. Lá estava Valdemar Costa Neto, líder do PR, que contou à revista “Época” em agosto de 2005: “O Lula e o Alencar ficaram na sala; fomos para o quarto eu, o Delúbio e o Dirceu. Comecei pedindo uns R$ 20 milhões...”

Valdemar levou metade e, mais tarde, ganhou como outros a “porteira fechada” de departamentos (Dnit), delegacias (Trabalho e Receita Federal) e diretorias (Infraero, Itaipu e Correios).

O “filé” era a Petrobras, na definição de Roberto Jefferson, líder do PTB. Foi partilhado por dois Josés: Dirceu, do PT, e Janene, do PP. Logo, somaram-se líderes do PMDB.

Havia engenho na separação entre o mensalão e a reserva de até 3% nos contratos entre a Petrobras e cartéis privados — supervisionada pelo diretor Renato Duque, recrutado por Dirceu e “FM”. O mensalão viabilizava “a maior bancada parlamentar do Ocidente”. A Petrobras financiava a máquina eleitoral necessária aos “20 anos no poder”, incluindo uma espécie de folha complementar de salários para ocupantes de cargos-chave no governo.

Mensalão e corrupção na Petrobras nasceram da mesma árvore. Depois de dez invernos, evidencia-se seu cultivo com o uso sistêmico da política para crimes. Novos detalhes devem aflorar depois de amanhã, quando se define a lista de sucessão na Procuradoria-Geral da República. Como sempre, tudo foi encoberto em nome da luta “contra a exploração dos trabalhadores” — os mesmos que, hoje, estão pagando a conta.

José Casado

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Crise tripla no Brasil

O Brasil atravessa três crises: política, econômica e ética. O mais grave é que acontecem ao mesmo tempo e se alimentam mutuamente. Enquanto o país, sob o carismático Lula, viveu a euforia alimentada pela ampliação do crédito e a entrada no consumo de 30 milhões de pessoas que vinham da pobreza, tudo parecia mais fácil. Mas os problemas já vinham incubando-se; e, depois da chegada de Dilma Rousseff ao poder, o respaldo dos partidos que tinham apoiado o Governo em troca de prebendas se rompeu. A presidenta já perdeu a confiança popular —seu apoio caiu a 7,7%— e os juízes, estimulados pelo aplauso da rua, investigam a fundo o escândalo de corrupção na Petrobras, a joia da coroa empresarial do Brasil, no qual além disso estão envolvidos os diretores das maiores companhias do país e dezenas de políticos.
 
A confluência das três crises colocou em questão o modelo da última década. O Brasil sofre hoje de alta inflação, vê crescer o desemprego, tem taxas muito altas de juros, a dívida pública aumentou e o PIB está em recessão. O país empobreceu e crescem os protestos ao mesmo tempo em que se torna mais valente uma oposição que esteve eclipsada pelo poderio midiático de Lula, agora também sob suspeita de tráfico de influências. O Brasil começa a discutir a validade do presidencialismo de coalizão. É improvável que a pressão dos que exigem a saída de Rousseff devido às suspeitas de ter financiado sua campanha eleitoral com dinheiro da corrupção desemboque em um impeachment, mas a tensão é evidente e pode desencadear mudanças nas alianças políticas.

Nos próximos meses —com o desafio da realização dos Jogos Olímpicos do Rio— se verá se as reformas políticas e econômicas servem para esclarecer os escândalos de corrupção e para que este gigante regional e global encontre de novo o caminho do crescimento. É a hora da responsabilidade: para o Governo, mas também para a oposição.

El País - Editorial

Prisioneiro compulsivo

Ze dirceu Preso cadeia escreve parede estive aqui mensalao petrolao eletrolao PF

Dilma cai ou não cai?

  Minha resposta, quase diária a quem me faz essa pergunta é: "A presidência da Sra. Dilma Rousseff já acabou, c'est fini". E isso corresponde aos fatos. Temos um governo no qual muitos mandam e onde a pessoa que deveria por ordem na casa só aparece para falas em que sujeitos, predicados e complementos trocam empurrões sem saber seu lugar na frase nem qual a ideia que deveriam expressar.

 Se tudo balança, é muito improvável que algo não caia. E a presidente é, nesse sentido, a possibilidade mais viável. O presidencialismo, mesmo em tempos de normalidade, precisa de liderança. E Sua Excelência está na situação do sujeito que abriu uma empresa registrando como ativo um patrimônio que não tinha. Foi anunciada ao povo como o braço direito de Lula, a mãe do PAC, a gerentona, a mestre em economia. Conseguiu esticar a validade desse suposto legado até a contagem dos votos no dia 26 de outubro do ano passado. Já no Dia de Todos os Santos, nem Franklin Martins e João Santana, juntos, conseguiam o milagre de ocultar à opinião pública o fato de que os sucessivos governos petistas haviam construído, com caprichosa irresponsabilidade, um caos perfeito.

Luiz Inácio Lula da Silva, hoje, é um conhecido corretor da praça. Outrora exerceu a presidência da República e desde então escolheu seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, para a função de gabarito com o qual periodicamente se mede. Sempre com vantagem, desde seu ponto de vista. Pois ao sugerir um encontro reservado com o antagonista preferido, o corretor Lula emite sinais muito claros de que a casa do PT, há bom tempo instalada no Palácio do Planalto, balança perigosamente. Se Lula quer negociar é porque percebeu a depreciação. Hora de vender.

Ele sabe que Dilma será a coveira de suas ambições se continuar no cargo até 2018. Em mais três anos ela acaba com suas pretensões, com o próprio partido e com o país. Portanto, vejo como muito possível que, em algum momento, o fim da presidência de fato levará ao fim da presidência de direito. Muitos já tratam desse tema. Ele está na pauta do Congresso e é falado nos corredores do TCU e do STF. Estará na pauta das mobilizações populares, a partir do dia 16 de agosto. E entrou na pauta do corretor Lula. Ele tem consciência de que uma parcela imensa da sociedade, do clube de bridge à rinha de galo, foi afetada pela barafunda ideológica e pelos aparelhamentos que o levaram ao poder. E não terá o menor escrúpulo, o corretor Lula, em usar a seu favor o que venha a acontecer até 2018. Nesse maldito presidencialismo de compra e venda, o perigo continuará rondando o Brasil.

Percival Puggina

Descrença e impunidade

Fernando Henrique nos relata na coluna deste domingo no GLOBO seu alerta, ainda em 2013, a Dilma e aos ex-presidentes Sarney, Collor e Lula, quanto aos “perigosos limites atingidos pela descrença da sociedade no sistema político”. FHC teria já então compreendido as enormes dificuldades de promover ajustes econômicos em meio à descrença na política. Portanto, convocava as lideranças ao entendimento para “propor ao país um conjunto de reformas para fortalecer as instituições políticas. Mas a hora para agir já não é mais, de imediato, do Congresso e dos partidos, e sim da Justiça”, prescreve o tucano.

Tenho insistido que, por omissão e imprudência do Executivo e do Legislativo, que ignoraram os sucessivos escândalos de corrupção e a desenfreada roubalheira por tempo demasiado, coube agora ao Poder Judiciário uma revolucionária iniciativa em busca de aperfeiçoamento institucional. Os próximos meses serão decisivos para o desfecho da crise política. Enquanto persistir esta crise, estaremos limitados à tentativa de controle inflacionário recorrendo a juros astronômicos pela insuficiência nas doses de ajuste fiscal.

“As práticas eleitorais e partidárias do presidencialismo de cooptação estão sob julgamento. A criação de 39 ministérios é a garantia do insucesso administrativo e da conivência com a corrupção. Por que não assumimos nossa responsabilidade para mudar o sistema e sair do lodaçal que afoga a política?”, perguntava FHC há pouco mais de um ano. Poderia ser tudo bastante diferente se Dilma estivesse se reunindo com os governadores para tratar de uma abrangente reforma administrativa do Estado apoiada em pacto federativo de enxugamento do número de ministérios e descentralização de recursos fiscais. E também se os presidentes do Senado e da Câmara estivessem tratando de uma reforma fiscal e de mudanças no sistema político e na legislação eleitoral que permitissem essa troca de eixo na sustentação parlamentar.

Por que nunca antes em qualquer lugar do mundo houve um programa de combate à inflação que durasse décadas? Por que estaríamos condenados à mais longa sequência de bilionários escândalos políticos da História? “Enormes somas passando pelas mãos do Estado”, diria Marx aos tucanos e petistas. “Impunidade”, diriam Barbosa e Moro.

Paulo Guedes

Deu tudo errado


Terminava a década de cinquenta e a União Soviética empolgava a Humanidade, em especial a juventude. Os russos haviam lançado o Sputnik, primeira espaçonave da História a circundar o planeta. Depois, Yuri Gagárin descobria que a Terra era azul. Nikita Kruschev prometia que em poucos anos o mundo seria todo socialista, enquanto os primeiros foguetes americanos explodiam a poucas centenas de metros acima do solo. Entusiasmei-me, nos meus vinte anos, matriculando-me num curso de língua russa, idioma que em breve todos estariam falando.

Era repórter do Globo e passei a ser visto de viés por um dos irmãos Marinho, claro que não o dr. Roberto. Só que aquelas letras do alfabeto cirílico eram de tal maneira trocadas e confusas que não se passarem três meses até que desisti. Hoje, tantas décadas depois, pergunto-me se não deveria ter estudado chinês, ainda que supondo o mesmo resultado…



Essa historinha se conta a propósito do governo Dilma. De uns dias para cá ela se tem empenhado numa maratona de otimismo ululante. Reúne os governadores, oferece jantares para os dirigentes e líderes dos partidos que a apoiam, despacha ministros para dialogar com deputados e senadores, mobiliza as forças sindicais e tenta, de todas as formas, injetar otimismo numa nação quase posta em frangalhos. Promete que em breve o crescimento econômico será retomado, que a volta da inflação é um pesadelo inconsequente e o desemprego, mera ilusão dos derrotistas.
 

A presidente vive no limiar da frustração, sem percebê-lo, mas melhor que seja assim. Faria o quê, caso reconhecesse a derrota? Poderia precipitar a ebulição, antes que ela chegasse? Ou encontraria forças e bom senso para recomeçar no sentido oposto ao que vem percorrendo em sua bicicleta, de manhã bem cedo, ao pedalar pelos arredores do palácio da Alvorada, mais ou menos como um astronauta distribuindo bissextos acenos à garotada no rumo das escolas. Mais tarde, recebe ministros palacianos sem coragem de transmitir-lhe as más notícias do dia, para depois irritar-se com o noticiário dos jornais que teimam em desmentir suas previsões de um futuro brilhante para o país e seu governo. Vive a fantasia de estarmos apenas diante de dificuldades passageiras.

A gente se pergunta até onde irão os sonhos de Madame, se ela persiste em desmentir os postulados nos quais a população acreditou que cumpriria e por isso votou nela? É claro que também foi enganada, ou enganou-se, em função de o PT faltar-lhe na essência de um projeto desfeito nas brumas da corrupção. Ou será que desde o início desacreditava na capacidade de os companheiros mudarem o Brasil? De qualquer forma, sem o apoio deles e sem apoiá-los, entregou-se nos braços daqueles que passou a juventude combatendo, até de armas na mão. Tornou-se campeã das privatizações, da livre competição entre quantidades desiguais, da redução de direitos trabalhistas, da compressão salarial das massas, do lucro dos bancos, de maiores benefícios aos privilegiados e da inação diante do desemprego.

O resultado não demora muito e não há mais cursos de russo para ninguém matricular-se
…
Carlos Chagas

De novo

O Estado

Resultado de imagem para ministérios demais chargeSegundo informações do IBGE, o Estado brasileiro conta com 39 Ministérios (por que ainda não arredondaram para 40?) que consomem 400 bilhões de reais por ano. Só para comparar: Getúlio tinha 11 Ministros, os governos militares tinham 16 e Luiz Inácio pulou para 35. Comparando com outros países, os Estados Unidos têm 15 e a Alemanha 14... Temos também 900.000 funcionários públicos federais, dos quais 113.000 apadrinhados, a maioria rotulada de assessores (não concursados); eles consomem 214 bilhões de reais por ano em vencimentos. Muitos nem podem ir à repartição em que estão lotados, por falta de espaço; ficam em casa mesmo. Temos ainda carros oficiais de luxo com motorista que gastam 1,5 milhão de reais por ano; apartamentos de luxo, mobiliados, em Brasília; escritórios políticos nos Estados; centenas de funcionários para cortar cabelo, engraxar sapatos, servir água e cafezinho, abrir e fechar portas... etc. etc. etc. Podem estar certos: se esse quadro contém erros é para menos – a realidade é muito pior.
Que faz esse monstruoso Leviatã? Deveria dar-nos: a segurança de que necessitamos e não nos dá; dar-nos as ferrovias, hidrovias, rodovias de que também carecemos e não nos dá; os portos que nos fazem falta; aeroportos eficientes; o tratamento à saúde pública que o povo reclama com razão; a superação da falência de nossas escolas mendicantes. Em compensação, suportamos a falta d’água, de energia elétrica, de medicamentos, de hospitais, de creches e escolas. Enfrentamos a produção industrial em queda, o comércio paralisado... A economia em recessão, o PIB que cai, a dívida pública que aumenta e a balança comercial que despenca... Como consequência, o Brasil entra na faixa dos maus pagadores no mundo financeiro internacional.

Sob esse tétrico pano de fundo, no qual a inflação e o desemprego gracejam sorridentes, fala-se em projetos para superar a mais terrível crise político-econômica que enfrentamos, como nunca antes nesse País. Remédio simples e corretíssimo seria reduzir o tamanho desse Governo monstruoso e ineficiente: menos Ministérios, menos casas legislativas (por que duas?), menos Deputados e Senadores, menos assessores, menos funcionários e mordomia zero: menos apartamentos, carros, viagens, cartões de crédito... menos, muito menos! Mas não. O que fazem é paralisar os investimentos, diminuir os já paupérrimos benefícios dos aposentados, aumentar o número e os vencimentos dos funcionários, a carga tributária, os juros e o preço dos produtos administrados pelo governo. Ou seja, os mesmos políticos, que anunciam dramaticamente estarem dispostos a cortar a própria carne, só cuidam de salvar o deles e sangrar o povo; o resultado é exatamente mais inflação e mais desemprego. Nesse ambiente eles descobrem, em um círculo vicioso, a necessidade de mais crescimento do Governo; e o Leviatã satisfeito aplaude!

Que será que nos falta para a redução desse governo gigantesco? Líderes inteligentes e honestos? Seriedade e racionalidade? Parece que sim.

Jacy de Souza Mendonça

PT comprometeu a economia por, no mínimo, dez anos

O economista João Sayad, ex-ministro do Planejamento, está sendo otimista demais, esperando que haja crescimento a partir de 2018. É só lembrar que a cada ano que Dilma deixa de executar o corte de gastos correntes, sem promover, de fato, o ajuste fiscal, na prática, ela empurra para frente – o correspondente a três exercícios, ou três anos – a possibilidade de recuperação econômica.

Portanto, como em 2015 a tentativa de obtenção de Superávit Primário já é um fiasco, temos mais três exercícios – 2016, 2017 e 2018, no mínimo – comprometidos com o ajuste, que deve ser perseguido em escala crescente nesse período. Até que se obtenha o montante suficiente para cobrir os juros da dívida.

E enquanto a inflação não der trégua a taxa básica de juros brasileira não vai cair, induzindo o padrão recessivo por falta de investimento e ampliação do consumo.

Além disso, depois da inflação dominada, demandará um bom tempo até que a política de rendas dê ao brasileiro condições de retomada no crescimento do consumo, podemos dizer que esperar crescimento para 2018 é sim uma posição muito otimista do Sr. Sayad.

Na verdade, o PT já comprometeu a economia por, no mínimo, dez anos, desconsiderando, isso, os primeiros quatro anos de Dilma. Todos os fundamentos do equilíbrio econômico deterioraram, e só não estamos pior, porque ainda temos alguma reserva cambial.

Outra coisa em relação à declaração do Sr. Sayad, a perda do grau de investimento num primeiro momento é de fato a desvalorização cambial (aumento da cotação do dólar) que já está acontecendo mesmo antes da queda da gradação pelas agências de risco.

Mas, num segundo momento o perigo que está se avizinhando é o esgotamento das nossas reservas e a provável futura necessidade de termos de recorrer ao FMI e nos submeter a um arrocho fiscal e monetário muito maior, a beira do insuportável, como já vivemos no segundo período do governo de FHC, quanto tivemos que suportar um ajuste imposto pelo Fundo Monetário Internacional para preservar o real.

Só que agora o sacrifício não será por uma causa justa, como a manutenção do equilíbrio monetário, mas, pela irresponsabilidade, pelo amadorismo e mesmo pela maldade de um grupo político que está nos empurrando para o abismo econômico-social.

Wagner Pires

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Leão abatido emociona. Homem caído nos trilhos atrapalha

Cecil tinha 13 anos, pedigree raro e porte de astro-rei. Atração maior do Parque Nacional de Hwange, no Zimbábue, o esbelto felino africano trazia na juba negra o colar GPS monitorado por pesquisadores da Universidade de Oxford, atestando sua importância para o estudo da preservação da espécie.

No início do mês, o animal fora atraído para fora do parque por um guia profissional a serviço de um caçador amador, o dentista americano Walter Palmer. Depois de abatido, decapitado e esfolado, o leão teve a cabeça entregue a Palmer e a história terminaria aí. A cada ano, somente no Zimbábue, uma média de 49 leões selvagens são abatidos legalmente como troféus.

Mas Cecil jamais poderia ter sido abatido legalmente, e a descoberta de sua carcaça movimentou a comunidade ambientalista, tornou-se viral nas redes sociais, foi noticiada com destaque em jornais do mundo inteiro e enterneceu multidões.

Caso tenham lido o noticiário e visto as imagens do garboso felino quando vivo, é provável que a diretoria da SuperVia, a concessionária que opera os trens da região metropolitana do Rio, e os membros da Agetransp, a agência reguladora que fiscaliza os transportes no estado, também tenham se sensibilizado com a desumanidade cometida contra o nobre animal.

Pena que quando um ser humano recebe menos consideração do que um vira-lata morto as sensibilidades feridas respondem a outros chamados, prioridades e cálculos.

O carioca Adílio Cabral tinha 33 anos e nenhum pedigree social. Terminara de cumprir pena de prisão por tráfico de drogas seis meses antes e vendia doces como ambulante. Na terça-feira, ele levara a mãe ao médico e teria pulado o muro da estação de Madureira quando foi colhido por um trem expresso que seguiu viagem.

Seu corpo ficara sobre os trilhos, a circulação de trens não foi interrompida e a rotina da estação seguiu seu curso até a aproximação de outro trem.

É então que se inicia o impensável. Imagens captadas pelo celular de uma testemunha mostram o maquinista parar a composição a poucos metros do corpo inerte, à espera de instruções. À sua frente, ladeando os trilhos, estão meia dúzia de indivíduos. Um deles, de capacete, uniforme laranja e identificado como funcionário da SuperVia, acena para o maquinista passar com o trem por cima do corpo de Adílio depois de dar uma calculada na altura da carroceria. Outros dois parecem participar do cálculo visual. Quando a composição se afasta, o grupo se aproxima dos trilhos e parece conferir se se algo mudou em Adílio. É a vida que segue.

No entender da SuperVia, a autorização de passar com o trem pela segunda vez sobre o corpo do vendedor ambulante foi acertada para evitar o problema maior — a retenção de diversos trens lotados em horário de pico. Ademais, afirmou o comunicado da concessionária, ficara constatado que o trem tinha altura suficiente para fazê-lo sem risco de atingir e vilipendiar a vítima.

Não cabe aqui listar todas as aberrações embutidas na explicação e no procedimento dessa empresa já tão coalhada de multas, cujo contrato de operação no estado está garantido até 2048. Cabe, porém, apontar a linguagem de falsa eficiência empresarial e a delirante simulação de normalidade de um serviço instituído para atender a humanos.

A concessionária alegou que seis mil passageiros teriam sido prejudicados caso o fluxo fosse interrompido. Sem dúvida. Aliás, seria a enésima paralisação de serviço a que são rotineiramente submetidos. Com uma diferença. Desta vez, a empresa poderia arriscar submeter a seus milhares de usuários uma pergunta simples e direta: “Você prefere passar o trem por cima de um ambulante morto ou aceita chegar em casa mais tarde?” Ao contrário da concessionária, é possível que a maioria preferisse aguardar. Sem quebradeira, em respeito a uma vida que podia ser a de um deles.

No caso do leão Cecil, ocorreu um fenômeno quase oposto. O excesso de luto e militância viral foi muito além da simpatia genuína pelo felino e do interesse habitual por questões envolvendo espécies em extinção.

Desde que o caso foi noticiado, ocorreu a morte de um dos últimos cinco rinocerontes-brancos do norte existentes no planeta, restando portanto apenas quatro antes da extinção definitiva dessa subespécie. No entanto, ninguém se comoveu.

Cecil mobilizou meio mundo por ser conhecido, fotogênico e popular. E pelas circunstâncias de uma morte sob medida e um vilão ideal para mobilizar as redes sociais em torno de um justicialismo eletrônico.

Cecil morrera porque o doutor Walter Palmer pagara o equivalente a R$ 160 mil para ostentar a cabeça do animal entre seus troféus de caça. Algum dia, quem sabe, alcançaria a glória de poder ter em sua propriedade os chamados “cinco grandes” (um leão, um elefante, um búfalo do Cabo, um leopardo, um rinoceronte), espécie de Grand Slam para caçadores de luxo.

Com um vilão desses pela frente, ativistas precisaram de pouco tempo para disseminar a sua identidade, dados pessoais e profissionais de seus familiares e círculo de relacionamentos mais próximos. Casado e pai de dois filhos, Palmer teve de fechar o consultório, dispensar os funcionários, indicar clientes para outros dentistas, ter sua existência na internet invadida por hackers tanto bem-humorados quanto ameaçadores.

Alguns o mandam apodrecer no inferno, outros fazem aparecer a foto do leão Cecil quando se digita o nome do dentista, outros ainda sugerem ao Estado Islâmico cuidar de Palmer. Como é de praxe no caso de ataques em mídias sociais, eles funcionam mais para lavar a alma dos justiceiros e satisfazer a indignação dos mais exaltados.

Mas contêm um risco. Como alerta Max Fisher, diretor de conteúdo do site Vox, eles podem extravasar do mundo virtual para o real antes que a vítima seja julgada pelo sistema judiciário institucional.

Uma coisa parece certa: Walter Palmer não vai conseguir exibir o troféu conquistado tão cedo.

Dorrit Harazim

Continua-se estúpído


Todo sonho da democracia é erguer o proletariado ao nível de estupidez alcançado pela burguesia 

Gustave Flaubert

O mau pagador de promessas


Devo, não nego. Pagarei quando puder. E com a ajuda de vocês. Governadores, prefeitos, deputados, senadores. Mas apelo sobretudo a você. Você pai ou mãe de família, que perdeu seu poder de consumo, perdeu o emprego, perdeu salário e crédito, perdeu conforto e esperança, perdeu economias, perdeu sua lojinha, sua microempresa, seu apartamento, seu carro. Perdeu até as estribeiras, porque se sente intimidado por gangues das ruas e dos palácios.


Você precisa vestir minha camisa, que é a camisa do Brasil, agora em tamanho menor devido à dieta argentina. Você tem de acreditar, mesmo que o PT tenha provado ser um mau pagador de promessas. Eu e o Guido no ano passado pedalamos a mesma bicicleta, aquela de dois lugares, para atropelar todas as contas que atravessavam nosso caminho glorioso. Mesmo assim você precisa se sacrificar.

Você precisa nos ajudar a manter bem altos os lucros dos bancos, porque eles sempre se dão bem, já reparou? Com a ajuda de cortes, câmbio e juros, os grandes tiveram lucros históricos. Você precisa aceitar calado a redução do salário, você precisa cuidar de seu rombo particular. Porque o meu rombo no primeiro semestre foi inédito na história, um deficit de R$ 1,6 bilhão de janeiro a junho. Um rombão, tudo é aumentativo por aqui, mensalão, petrolão, eletrolão.

Você precisa reunir a família, assim como eu reuni os meus parentes próximos e distantes, os governadores dos Estados. Para explicar que a gastança e o desperdício têm de parar. E, claro, eles entenderam que, se eu for atingida, eles vão junto. Como se não bastasse o Brasil perder selo internacional de bom pagador, ganhará o selo de mau gastador.

Você precisa sobretudo comprar nossa “pauta-bomba”, que é a seguinte: cortaremos na carne, na sua carne, entendeu? Não falo de churrasco de fim de semana, esse já era. Falo de cortes mais nobres. Cortes de gastos públicos, que eu e o Levy prometemos. Vamos cortar no sal grosso: no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), na Saúde e na Educação. Morô? Não, esse verbo não, lembra o sobrenome daquele juiz que não larga o meu pé nem o de meus companheiros empreiteiros. Juiz posudo, metido a italiano da gema, com ternos bem cortados e essa obsessão de lavar tudo a jato, como se a água e meu governo fossem acabar amanhã.

Você sabe que tem gordura nos hospitais e nas escolas, não? Gordura no chão, nos corredores, nas salas de cirurgia e de aula. Ah, você deixa esses itens do orçamento doméstico para cortar por último? Você preserva ao máximo a saúde e a educação de sua família e prefere cortar primeiro os supérfluos? Entendi: é porque você valoriza a vida e o futuro deles e a oportunidade real de crescimento digno e sustentável.

Por isso a classe média não vai para a frente, cai no cheque especial, paga juros escorchantes no cartão de crédito. E a gente (nós e os intelectuais do PT) tem ojeriza a esse pessoal conservador, não afeito a riscos, enfim, uma classe média reacionária. Não é uma categoria politizada. Além de ser gigante, difícil de ser manobrada, a classe média cultua a ideologia do bem-estar da família. E ponto.

Você também sabe que a gente gosta de dar esmola aos pobres e de adular os ricos. É a tal governabilidade, uma receita infalível. Posar de mãe de miseráveis e se locupletar com os grandes projetos. Vimos agora que o nuclear entrou na dança premiada. Minha geladeira vive abarrotada de energéticos para aguentar o tranco de nossa House of Cards.

Graças a Deus que lá também, no Congresso, acabou a mamata. E também a proteção que dávamos ao ex-PMDB comportado de Sarney. Agora o Congresso quer me derrubar, prefere o diretor da escola, aquele que parece uma esfinge e não diz nada, você sabe quem é, só espera mais um passo meu em falso. Bota falso nisso. Agosto começou e deveria ser menor. Vou arrumar umas viagens internacionais.

Já nos livramos da Catta Preta, a advogada de delatores que se mudará para Miami por medo. Você também tem medo, não? É a lógica de gangues que impera no país. Viu as cenas no Brás, em São Paulo, com cidadãos, muitos idosos, cercados e roubados por abutres? Você se sente ameaçado por taxas e impostos, por assaltantes, golpistas e policiais, por empresas de serviço, todo mundo tascando um pedacinho seu? Tente um pacto, como eu.

Esqueçam minhas pedaladas fiscais, me ajudem a aprovar minhas contas no TCU, não deixem que a Caixa e o Banco do Brasil cobrem de mim mais de R$ 1 bilhão em taxas dos programas sociais. Reclamem menos da inflação de hoje porque ela tende a piorar amanhã. Não critiquem inaugurações de clínicas sem médicos ou fechamento de escolas sem professores. Não somos um governo-bomba.

Ruth de Aquino

Ontário e otários

Os jornais desse fim de semana trouxeram a notícia de que “centenas de mulheres de topless participaram nesse sábado de uma marcha em Waterloo, no Estado de Ontário, no Canadá, para protestar pela atitude da polícia local que reprimiu três alegres irmãs que, sem camisa e sutiã, pedalavam suas bicicletas pelas ruas do lugar.” Estavam com calor e lá o topless é permitido por lei. A polícia agiu com abuso por repreendê-las. Com cartazes, todas as manifestantes, de topless, alertavam: “eles são peitos, não são bombas”. Fontes ouvidas afirmaram que essa não era a dúvida. Sabia-se serem peitos, o que ficou definitivamente esclarecido para quem diferentemente pensasse.
 

Senti uma inveja absurda dos canadenses. Não pela fantasia da cena composta de centenas de mulheres de topless, pedalando alegres em protesto, mas por viverem num país onde um abuso da polícia, de tão frágil ordem, viria a ser objeto de densa manifestação popular. Imaginem essa mesma circunstância migrada para o Brasil, que ostenta sem solução um dos maiores quadros de insegurança pública, a par da ineficiência de sua força policial. Andaríamos pelados, no civil e no religioso.

Apenas para ilustrar o que é a vida num país onde a ordem, o direito, a justiça e a liberdade são patrimônios intocáveis e trazendo para o Brasil essa avaliação para dimensionarmos o desconforto que vivemos, brasileiros, com a instabilidade institucional que todos os dias nos ameaça, desconstrói nosso trabalho e nossas esperanças. O tempo passa e há 500 dias que vivemos do que será a operação Lava-jato (graças a Deus, produzindo bons e elogiáveis resultados), que há meses temos medidas econômicas absolutamente necessárias, ameaçadas pelo temperamento e vontade particular de um tipo como o deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara Federal. Acusado de ter recebido vultosa propina de empreiteiras hoje investigadas pela citada operação, esse senhor se opõe às investigações não com os seus argumentos de defesa, não com a sua história de parlamentar, mas com o poder que tem de obstruir a tudo para que todos nós, o país, sejamos dele dependentes ou prejudicados.

Na mesma postura vemos o presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, também investigado, que se contrapõe ao Ministério Público que o acusou das mesmas práticas de seu colega (colega em toda extensão da palavra) presidente, de haver sido beneficiado pela propina, ambos para não dificultarem o andamento de obras públicas e seus superfaturamentos. Ninguém duvidou, ninguém veio em socorro deles nem tampouco de outros acusados no Senado e na Câmara.
 

 O senador Fernando Collor, cuja ficha revela práticas igualmente capituladas no Código Penal, surpreendido com uma frota milionária de carros importados na garagem da Dinda, igualmente protestou contra o MPF e o Procurador Geral da República. Collor também foi para o confronto pessoal.

Nenhum deles se defendeu com argumentos e provas. Vociferaram, ameaçaram, vão endurecer o controle da Câmara e do Senado. Ameaçam obstruir a recondução do procurador Rodrigo Janot ao comando da PGR porque esse aceitou denunciá-los. Nós só assistimos. O que somos?
Luiz Tito 

Aproxima-se a curva do caminho

Charge O Tempo 01/08

Se de um cidadão dizemos que ele tem quase toda honra, estaremos dizendo ser um desonrado. Se de um país falamos dispor de quase toda liberdade, desnecessário concluir tratar-se de uma ditadura. Assim, se de um governo referimos estar perto de cumprir suas promessas, na verdade aceitamos que fracassou.

O governo da presidente Dilma fica devendo tirar o Brasil da miséria, pois é a miséria que gradativamente o envolve. Importa menos se a propaganda oficial divulga que milhões ingressaram na classe média. Na verdade, a classe média é que recuou até eles. Da mesma forma, não dá para aceitar a fantasia de multidões disporem de carteira de trabalho, quando se constata estarem recebendo o salário mínimo. Outra ilusão é verificar que essa merreca, ao contrário do que estabelece a Constituição, não basta para o trabalhador e sua família enfrentarem despesas de habitação, alimentação, vestuário, transporte, educação, saúde e até lazer.

Em suma, se as elites vão bem, o povo continua muito mal. Basta atentar para a multiplicação de favelas nas grandes e nas pequenas cidades. Nelas, não se aplicam as regras e as leis pretensamente válidas para a nação. Como o número dos que habitam esses conglomerados logo irá ultrapassar o das comunidades à sua volta, invertendo a equação, a conclusão será de que eles, e não os outros, constituem a próxima e verdadeira estrutura social objeto de todo e qualquer governo. Numa palavra, não se trata de ampliar programas como “bolsa família” e “minha casa, minha vida”, a título de esmola, mas de ter presente serem seus integrantes os próximos determinantes da ação do governo. Em pouco tempo serão o próprio, isto é, o governo. Hoje, estão no poder. Amanhã, serão o poder.

Essa transição é traumática. E cruel. Numa primeira etapa leva os lideres da maioria reprimida à tentação de alçar-se à minoria. O Lula surge como o melhor exemplo dessa metamorfose. Basta ver como vive, como mora e como mudou. Um milhão de Lulas, no entanto, mudarão a perspectiva, bem como as regras do jogo ainda vigente.

Não adianta, pelo advento desse processo inexorável, jogar a culpa das contradições no governo Dilma. Nem nela, pessoalmente, por maior incompetência que revele na compreensão do fenômeno social.

Dirão os ingênuos que sempre foi assim e nunca o processo se inverteu: as massas jamais conquistaram o controle da situação, ainda que aqui e ali se tivessem rebelado, balançando as estruturas dispostas acima delas. Só que agora é diferente.

Os excluídos, cada vez mais e melhor informados, tomam pacífica consciência da exclusão. Essa a grande consequência da revolução tecnológica. Não mais através da mídia comprometida e amestrada, mas diretamente, primeiro agrupadas em guetos, logo ocupando maiores espaços, as massas assumirão o controle do processo. Quanto mais demissões, fome, miséria e doença, mais se aproximará a curva do caminho.

Carlos Chagas 

Miragem?

Resultado de imagem para ajuste fiscal chargeO ajuste fiscal é uma miragem. Sempre que se está chegando perto dele, ele escapa e fica distante. É preciso devolver à sociedade a perspectiva de crescimento
Delfim Netto

Criticar o PT, agora, é fácil

Com a crise multiforme se expandindo em todas as dimensões da vida política, econômica e social, com os escândalos vindo a lume como saem os lenços, amarradinhos um ao outro, da cartola do mágico, com a crise pedindo passagem a bordoadas e deixando pelo caminho as vítimas da inflação, da recessão e do desemprego, aí, meu caro leitor, é muito fácil criticar o governo petista.

Dureza foi apontar os males do petismo quando, antes de assumir poder político real, ele era o megafone de todas as reivindicações, perante os portões das fábricas e dos palácios. Difícil era confrontá-lo quando, como grande inquisidor das condutas de seus adversários, orientava os mais candentes sermões em favor - lembram? - da moralidade e da austeridade. O petismo, então, se vestia de justiça, solidariedade, direitos humanos, superação dos desníveis sociais; e atraía multidões. Os ouvidos da CNBB, por exemplo, se encantaram para sempre. A partir de então, vá o partido para onde for, a entidade marcha ao seu lado. Até frei Betto largou o PT de mão. Mas a CNBB, não.

À luz da história, analisando partidos políticos com condutas semelhantes, era fácil perceber para onde estávamos sendo conduzidos. Ante o que acontecia no Brasil, não. Aqui, tendo em vista a fragilidade das nossas instituições e a pouca credibilidade dos partidos políticos já afeitos ao exercício do poder, era mais complicado perceber que o petismo significava o canto das sereias, atraindo a nação para os rochedos e para o naufrágio.

Em 2003, o PT chegou ao poder e em 2005, quando estourou o mensalão, tornou-se comum encontrar com leitores que me paravam na rua para afirmar que eu profetizara. Mas era bem o contrário. Bastavam as entrelinhas e o entreouvido e, principalmente, ler o passado. Aquelas ideias e aquele modo de fazer política, em toda parte, produziram o resultado que passávamos a observar por aqui. Não obstante, foram necessários outros 12 anos, um descomunal estrago, e uma crise do tamanho da que aí está, para que, finalmente, ampla maioria da população compreendesse o que já deveria estar bem sabido.

"Coxinhas! Golpistas! Lacerdinhas! Ultradireitistas! Fascistas!". É assim que argumentam, hoje, muitos defensores do governo. Xingam os que afirmam algo tão óbvio quanto que o governo, acabou e que as instituições precisam resolver a encrenca. Conduta rasteira, chã, mas eu os entendo. Não há argumento que lhes lave as mãos e lhes limpe os calçados. Outros, depois de haver preparado o caminho do petismo ao poder como esfregadores de gelo no jogo de curling, e segurado a barra ao longo de 13 anos, agora se posicionam contra. Mas não mudam de lado! Para estes, o governo não serve. E a oposição tampouco. São os mais perigosos porque se alinharão, ao fim e ao cabo, com algo ainda pior do que isso que aí está
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Percival Puggina

Dilma, leniente ou cúmplice

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O PT sempre tratou seus adversários com um solene desprezo. Lula, que exerceu um único mandato de deputado federal, disse em certa ocasião que havia no Congresso 300 picaretas. Pouco mais, portanto, que a soma de deputados e senadores.

E o que ele fez quando assumiu a presidência da República pela primeira vez? Passou a governar com os picaretas. Se bem pagos, eles dão pouco trabalho.

Comparado com Dilma, dizem que Lula é um craque. Que sempre soube fazer política. Mas que tipo de política ele fez depois de se tornar inquilino do mais prestigiado gabinete do Palácio do Planalto?

O da farinha pouca, meu pirão primeiro? O do toma lá me dá cá? O do é dando que se recebe? O que aos amigos confere tudo, e aos inimigos os rigores da lei? A resposta é sim a todas as perguntas.

Nunca antes na história deste país houve tanta corrupção. E ela deve ser debitada, de preferência, na conta de Lula e de Dilma.

Não há maior engodo do que se atribuir a descoberta da ladroagem à independência concedida pelos governos do PT à Polícia Federal. O país já está crescidinho. Suas instituições estão sólidas e suportam crises.

A reeleição para cargos majoritários aumentou o apetite dos políticos pelo poder. Ninguém mais se elege pensando em fazer um bom governo em quatro anos. Elege-se pensando em obter um novo mandato.

E aí se gasta o que não se pode, rouba-se com vista à próxima eleição, e suborna-se para atrair apoios, garantindo-se mais tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

No caso da presidência da República, mas não só, nunca antes a corrupção fez parte de um esquema tão ambicioso para a eternização no poder de um determinado partido.

É do PT, de Lula e de Dilma a responsabilidade política pelo que aconteceu. Foram eles que mais se beneficiaram de tudo. Se agora receiam que a polícia lhes bata à porta… Sabem o que fizeram.

Por cálculo político, esperteza ou porque creem, 10 entre 10 estrelas da política afirmam que Dilma é uma pessoa honrada. Que jamais roubou um tostão e que jamais roubaria.

O vilão é Lula. Foi nos governos dele que tudo começou. Fernando Henrique Cardoso defendeu essa tese em entrevista recente a uma revista alemã. Gentil homem!

 
Perguntem às estrelas se elas acreditam que Dilma é distraída a ponto de desconhecer o que se passava ao alcance dos seus olhos ou ouvidos. Dez entre 10 estrelas da política, sob a garantia de anonimato, responderão que não. É impossível que não soubesse ou que não desconfiasse.

Dou de barato que não roubou. Não a considero, porém, uma tola formidável capaz de ser enganada facilmente.

Quer dizer que Dilma nunca fez ideia que dinheiro sujo, derivado de negócios entre empreiteiras e a Petrobras, irrigou suas campanhas?

Que diretores da Petrobras, nomeados por Lula, desviaram recursos para alimentar os caixas do PT e de aliados?

E que cargos presenteados por ela a políticos sempre serviram ao roubo e continuarão servindo? Só a Petrobras perdeu algo como 19 bilhões de reais.

Dilma, ministra das Minas e Energia, chefe da Casa Civil, presidente do Conselho de Administração da Petrobras, presidente da República, não viu que a empresa estava sendo saqueada?

E que não era a única?

Se não viu deve pedir desculpas e as contas por leniência. Se viu, deve ser mandada embora.

A alternativa é a manutenção no poder de alguém sem autoridade política para governar um país conturbado.

Ricardo Noblat