sábado, 28 de dezembro de 2024

O experimento social de Elon Musk com a humanidade

O bilionário Elon Musk tem exaltado o Twitter como um bastião da liberdade de expressão desde que adquiriu a plataforma de rede social há dois anos. Mas, ao longo de 2024, o X, como agora é chamado, evoluiu do que parecia ser uma praça pública comunitária para um centro polarizado em que as opiniões e publicações parecem ainda mais controversas.

Certos perfis que compartilhavam informações enganosas sobre política e notícias — alguns dos quais foram acusados de incitar ódio — ganharam destaque recentemente.

Tudo isso é importante porque o X pode não ter tantos usuários quanto outras plataformas de rede social, mas parece ter um impacto significativo nas discussões políticas.

Além de ser um site em que alguns políticos importantes, governos e forças policiais compartilham declarações e pontos de vista, agora seu proprietário, Elon Musk, se alinhou diretamente com Donald Trump, um relacionamento que pode redefinir a forma como os donos de outras redes sociais lidam com o próximo presidente dos EUA.

Mas, afinal, o que está por trás desta nova onda de mudanças? Houve uma alteração no perfil demográfico das pessoas que usam o X no último ano — ou isso pode ser resultado de decisões deliberadas tomadas pelos que estão no comando da plataforma?


Há dois meses, o Inevitable West não existia no X. Agora, o perfil, que se autodenomina "defensor dos valores e da cultura ocidentais", conta com 131.600 seguidores (número que está crescendo rapidamente). Ele está obtendo cerca de 30 milhões de visualizações por dia entre todas as suas postagens, de acordo com seu criador. Musk até respondeu às postagens do Inevitable West no X.

Suas publicações recentes, que geralmente apresentam legendas no estilo de alertas de notícias, incluem um vídeo falso que mostra Trump dizendo ao primeiro-ministro britânico que vai "invadir seu país, e tornar a Grã-Bretanha grande novamente".

Também foram publicadas várias postagens em apoio ao ativista de direita radical Tommy Robinson, assim como algumas alegações desmentidas sobre os protestos dos agricultores no Reino Unido e um ataque a faca em Southport, no qual três crianças foram mortas durante uma oficina de dança inspirada nas músicas de Taylor Swift.

O Inevitable West nega as acusações de promover desinformação e incitar abuso ou violência. "O objetivo da minha conta no X é ser a voz da maioria silenciosa do mundo ocidental", me contou seu criador. Ele se recusou a compartilhar sua identidade comigo quando nos correspondemos, mas afirma ser da "geração Z" e diz que "não é russo".

"Informações e opiniões sem censura vão levar inevitavelmente os EUA e todo o Ocidente e a Europa a se moverem mais para a direita, o que é comprovado pela eleição de Donald Trump e pela ascensão da direita radical na Europa", ele argumentou. "Globalmente, isso significaria que políticos e líderes corruptos seriam descobertos."

Ele parece ver a ascensão da sua conta como a "morte" daquilo que chamariam de "MSM" (abreviação em inglês para mainstream media), a mídia tradicional. Isso talvez não seja nenhuma surpresa, já que, após as eleições nos EUA, o próprio Musk disse aos usuários do X: "Vocês são a mídia agora".

Quando Musk adquiriu o Twitter, enfatizou a necessidade de abrigar todas as opiniões políticas e de se opor à censura por parte das empresas de rede social e dos governos.

As mudanças — incluindo demissões em massa e alterações nas políticas de moderação em relação a questões como desinformação política — começaram imediatamente.

Também houve várias alterações na natureza dos feeds, incluindo a criação de duas timelines separadas: "Seguindo", que apresenta as contas que você segue, e "Para você", que é selecionada por algoritmos, como no TikTok.

No entanto, ao longo de 2024, houve outra onda de mudanças que parecem ter transformado ainda mais a plataforma. A função de bloqueio foi alterada, o que significa que, se você bloquear uma conta, não estará protegido de que aquele perfil veja o que você posta. As curtidas, por sua vez, se tornaram privadas.

O site ainda apresenta o recurso de notas da comunidade, uma forma colaborativa de verificar ou refutar o que as postagens dizem, e os usuários podem pagar pelo tique azul, que antes era fornecido gratuitamente como um sinal de autenticação de que a pessoa era quem dizia ser.

Agora, porém, é necessário pagar pela assinatura do X Premium para receber uma marca de verificação. Há três níveis diferentes de assinatura disponíveis.

Os perfis Premium têm direito a mais privilégios e destaque — e podem ganhar dinheiro com o engajamento que recebem de outros perfis com marca de verificação. A partir de outubro, o X alterou suas regras de modo que, em vez de basear a receita de contas individuais em anúncios, ele agora leva em conta curtidas, compartilhamentos e comentários de outras contas Premium.

É claro que outros sites de rede social permitem que os usuários ganhem dinheiro com publicações e compartilhem conteúdo patrocinado — o que não é incomum —, mas a maioria das principais plataformas tem regras que permitem a elas desmonetizar ou suspender perfis que publicam desinformação.

O X não possui regras para desmonetizar contas por conta de postagens deste tipo, embora permita que os usuários adicionem notas da comunidade a tuítes enganosos ou falsos. E não permite "mídia enganosa", como vídeos manipulados ou gerados de forma sintética que "podem resultar em confusão generalizada sobre questões públicas, afetar a segurança pública ou causar danos graves".

De acordo com o Inevitable West, o X agora pode se tornar um emprego. Ele me disse que, quando estava postando cerca de sete vezes por dia, era capaz de ganhar pelo menos "US$ 2,5 mil por mês".

Ele contou que conhece outra conta que ganha "US$ 25 mil" por mês — esta conta supostamente tem 500 mil seguidores e publica "aproximadamente 30" vezes por dia.

Às vezes, a mudança pode ocorrer quando um site altera os algoritmos (ou sistemas de recomendação) de alguma forma, por exemplo, para impulsionar e beneficiar determinadas postagens. O que não está claro é se este pode ou não ser o caso aqui.

Sem dúvida, observei uma diferença na variedade de postagens recomendadas no feed "Para você", em comparação com o ano anterior.

Isso é algo que analisei por meio do projeto "Undercover Voter", no qual criei e administrei contas de rede social pertencentes a mais de 20 personagens fictícios, baseados nos EUA e no Reino Unido, que refletem pontos de vista de todo o espectro político.

Estes personagens têm perfis nos principais sites, incluindo o X, o que me permitiu analisar as diferentes contas que eram recomendadas nas redes sociais. As contas são privadas e não enviam mensagens para pessoas reais nem têm amigos.

Independentemente das diferentes visões políticas que as contas manifestam, observei que, nos últimos seis meses deste ano, seus feeds passaram a ser dominados por postagens que geram divisão e tendem a apresentar mais apoio a Trump ou oposição a políticos e pessoas no mundo todo que não são vistos como alinhados com o presidente eleito dos EUA.

No entanto, tudo isso parece ser consequência do ambiente e das diversas alterações no site como um todo, e não apenas um simples ajuste no algoritmo.

Andrew Kaung, que foi analista de segurança do usuário no TikTok e também trabalhou na Meta, passou anos observando como esses sistemas de recomendação podem ser atualizados e alterados. "O que vimos no X não se trata apenas da mudança no algoritmo, mas também da falta de mecanismos de segurança em nome da liberdade de expressão", diz ele.

Nina Jankowicz foi diretora executiva do Conselho de Governança da Desinformação dos EUA, criado em 2022 para aconselhar o Departamento de Segurança Interna em questões como a desinformação russa e, mais tarde, dissolvido diante das críticas e temores em relação à liberdade de expressão e transparência.

Ela argumenta que os algoritmos do X agora "privilegiam a retórica controversa e enganosa", e sugere que os usuários que publicam conteúdo menos polêmico tiveram uma redução nas visualizações.

"A consequência é que a plataforma que se apresenta como uma praça pública é um ambiente extraordinariamente artificial, um verdadeiro black mirror das partes mais preocupantes da natureza humana."

Enviei mensagens para dezenas de outras contas grandes, que falaram sobre a influência cada vez maior que são capazes de ter na plataforma, muitas vezes de forma inesperada.

"Nunca tive a intenção de me tornar um influenciador", admite um perfil chamado Andi, que diz ser baseado em Nova York. "Mas achei que, como tenho esta plataforma, deveria tentar usá-la para promover minhas próprias causas."

Ele conta como compartilhou um meme de esquilo — após saber que um esquilo foi sacrificado por causa do risco de transmitir raiva — que agora tem 45 milhões de visualizações. E compara seu alcance com o do popular podcaster Joe Rogan, que tem 14,5 milhões de seguidores no X.

"Mas eu não sou nenhum Joe Rogan, então é realmente especial que algo que eu poste possa ter quase a mesma audiência."

Andi e outras contas do X com quem me correspondi acreditam que as mudanças no X são boas, uma vez que agora elas têm um alcance que jamais poderiam ter imaginado.

No início deste mês, um ataque a uma feira de Natal na Alemanha, que matou cinco pessoas e feriu mais de 200, foi amplamente debatido no X. Grande parte da discussão girava em torno do suspeito, um residente alemão que nasceu na Arábia Saudita.

Os promotores alemães disseram que a investigação está em andamento, mas sugeriram que um possível motivo para o ataque "pode ter sido a insatisfação com a forma como os refugiados da Arábia Saudita são tratados na Alemanha".

O perfil Inevitable West estava entre os que comentaram: "Invadam as mesquitas. Proíbam o Alcorão. Realizem deportações em massa. Nossa paciência oficialmente acabou".

A conta foi acusada de incitar o ódio com postagens sobre questões como imigração e religião. Outros usuários disseram que isso poderia incitar a violência. Mas o perfil respondeu dizendo que estava "incitando a segurança, na verdade".

Quando questionado sobre isso, o Inevitable West me disse que diria o mesmo sobre outras religiões. Separadamente, também afirmou que nunca excluiria suas próprias publicações, mesmo quando elas se revelassem falsas.

Enquanto isso, seu conteúdo está sendo visto por feeds em todo o mundo.

Há muito tempo, o Twitter tem sido acusado de viés nos métodos de moderação, tanto antes quanto depois que Musk adquiriu a empresa, além de alvo de questionamentos sobre se a plataforma limitava anteriormente a liberdade de expressão.

Conversei com pessoas de dentro do Twitter sobre isso para uma investigação do programa Panorama, da BBC, que foi ao ar em 2023, e eles me disseram que, na opinião deles, a empresa teria dificuldades para proteger os usuários contra trollagem, desinformação coordenada pelo Estado e exploração sexual infantil, devido, entre outras coisas, às demissões em massa.

Na ocasião, o X não respondeu às questões levantadas. Posteriormente, Musk tuitou um artigo da BBC sobre o episódio do Panorama com a legenda: "Desculpem-me por ter transformado o Twitter de um paraíso acolhedor em um lugar que tem... trolls". Ele também declarou que "os trolls são divertidos".

Separadamente, Musk havia dito que "não tinha escolha" a não ser reduzir a força de trabalho da empresa devido a perdas financeiras.

Lisa Jennings Young, ex-chefe de design de conteúdo do X, que trabalhou lá até 2022, afirma: "Sinto que estamos vivendo um grande experimento social [sobre a humanidade]".

Não tem um objetivo específico, segundo ela. "Não é um experimento de ciências sociais controlado, [mas um] do qual todos nós fazemos parte". Ninguém sabe realmente qual pode ser o resultado final, ela argumenta.

Alguns usuários do X me disseram que recentemente decidiram migrar para outras plataformas de rede social, incluindo o Bluesky, que começou em 2019 como um site experimental de mídia social "descentralizado", criado pelo ex-chefe do Twitter, Jack Dorsey. Atualmente, tem mais de 20 milhões de usuários.

É difícil determinar exatamente quantos usuários reais optaram por deixar o X — ou até mesmo se cresceu.

Elon Musk e o X não responderam às questões levantadas nesta reportagem, nem aos pedidos de entrevista.

O X diz que sua prioridade é proteger e defender a voz do usuário e tem diretrizes sobre ódio, que afirmam que os usuários "não podem atacar outras pessoas com abuso ou assédio ou incentivar outras pessoas a fazer isso".

Um porta-voz do X disse anteriormente à BBC: "O X possui uma série de políticas e recursos para proteger o debate em torno das eleições. Rotularemos o conteúdo que violar nossa política de mídia manipulada e gerada de forma sintética e removeremos contas envolvidas na manipulação da plataforma ou em outras violações graves de nossas regras".

O site também informou à Comissão Europeia em novembro: "[O X] se esforça para ser a praça pública da internet, promovendo e protegendo a liberdade de expressão".

Desde a eleição presidencial de 2024 nos Estados Unidos, o X consolidou sua posição como fonte de atualizações políticas sobre o novo governo Trump.

Musk apoiou Trump como candidato em julho. Agora, ele foi convidado a ocupar um cargo no governo, liderando uma nova equipe de consultoria chamada Departamento de Eficiência Governamental (Doge, na sigla em inglês).

Sam Freeman, ex-funcionário do Meta que agora trabalha como especialista em confiança e segurança para uma empresa chamada Cinder, acredita que isso também vai ter um efeito mais amplo sobre outros donos de plataformas de rede social.

Ele prevê que eles vão "precisar ter um relacionamento mais pessoal com o novo governo", principalmente se sentirem uma pressão maior sobre a regulamentação e a segurança online.

Mark Zuckerberg, que fundou o Facebook (agora Meta) e desde então adquiriu o Instagram, jantou recentemente com Trump em sua residência em Mar-a-Lago.

O presidente eleito já havia atacado Zuckerberg em ocasiões anteriores, acusando sua plataforma, assim como outras, de parcialidade. "O Facebook, o Google e o Twitter, sem mencionar a mídia corrupta, estão muitíssimo do lado dos democratas de esquerda radical", escreveu Trump certa vez.

Será que o jantar poderia indicar um apaziguamento na relação deles? Certamente, sugere que Zuckerberg considera que se aproximar pelo menos um pouco de Trump pode ser do seu interesse.

O mesmo parece acontecer com o CEO do TikTok, Shou Zi Chew, que também teria se encontrado com Trump em Mar-a-Lago, enquanto a empresa de rede social luta contra os planos das autoridades dos EUA de proibir o aplicativo.

O governo americano alega que a empresa controladora do TikTok, a ByteDance, tem vínculos com o Estado chinês. Tanto o TikTok quanto a ByteDance negam. A Suprema Corte deve ouvir os argumentos legais do TikTok em janeiro.

No Reino Unido, entrará em vigor, em breve, a Lei de Segurança Online, segundo a qual as empresas vão ter que assumir compromissos com o órgão regulador, a Ofcom, sobre como combater conteúdo ilegal e publicações prejudiciais às crianças.

Na Austrália, os políticos foram além e aprovaram planos para proibir o uso das redes sociais por menores de 16 anos.

Mas, em última análise, considerando que muitas das principais plataformas de rede social estão baseadas nos EUA, é a abordagem do governo e do presidente americanos que pode ter o maior impacto.

A questão que permanece é qual é realmente a visão de Trump sobre isso — e se ele vai exigir que estas plataformas assumam responsabilidades de uma maneira diferente no futuro, ou não.

Os desdobramentos, seja qual for a direção que ele tomar, sem dúvida vão ser de longo alcance.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Sobrecarga da violência


Ainda existe bondade, decência, pessoas que se esforçam para fazer o que é certo, e isso é fácil de esquecer, assim como é fácil se sentir sobrecarregado pelas notícias negativas de ódio e violência.
David Baker

Ciência a serviço do mal

Os dias duros do Pleistoceno, durante os quais era difícil conseguir as calorias necessárias para manter-se vivo, nos transformaram em máquinas de procurar gorduras e carboidratos e acumular as sobras na forma de tecido adiposo. Funcionou bem até que inventaram o baconzitos e o cheesecake. A proporção de obesos e diabéticos no planeta explodiu.

Algo parecido vale para drogas. A destilação do álcool, a biossíntese da cocaína e a produção de maconha com níveis cada vez mais altos de THC agravaram nossos problemas com essas drogas. Era difícil tornar-se alcoólatra ou cocainômano consumindo só cerveja pouco fermentada e chá de folhas de coca.


E a coisa fica pior quando, além de desenvolver produtos cada vez mais viciantes, empregamos também técnicas de propaganda cada vez mais sofisticadas para convencer as pessoas a consumi-los. É o que acontece agora no mundo das apostas. Os cassinos vieram para os bolsos dos jogadores (celulares), que ainda têm de lidar com um tipo de publicidade particularmente enganoso, que, negando o básico da matemática, sugere que as apostas são caminho seguro para o enriquecimento.

Meus pendores libertários me impedem de defender qualquer tipo de proibição. Já vimos várias vezes que isso não funciona. Mas é perfeitamente possível regular, dando ao consumidor alguma chance de defesa contra os estímulos supernormais reforçados pela publicidade.

O que escorre sob a ponte da civilidade

Para Antoine de Rivarol, polemista do século 18, a Revolução Francesa terminou quando acabaram as execuções em praça pública, e o povo já não mais cantava "ça ira, ça ira /les aristocrates on les pendra" ("vai dar certo, vai dar certo / vamos enforcar os aristocratas"). Ou seja, os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade seriam coisa de intelectuais iluministas, enquanto à massa interessava o espetáculo da vingança pela guilhotina. Essa impulsão parece intemporal, próxima ao que os alemães conhecem como "Schadenfreude", o prazer de infligir sofrimento a outros.

As noções de sociopatia e psicopatia, pertencentes ao campo cognitivo desse fenômeno, têm valência política. Mas não são exclusivas de época nem de classe social. Ajudam a explicar o comportamento da Polícia Militar de São Paulo. Uma sociopatia fardada é matriz da violência de psicopatas contra marginais pés de chinelos, exibindo estatísticas ineficazes, recuando apenas da boca para fora ante o alarme da mídia. À boca pequena, há o consenso de que isso rende votos, de que extermínio teria grande aprovação popular. O "tô nem aí" do governador é a frase mais obscena do ano.


Os alvos críticos da agenda progressista costumam ser os aparatos de Estado, a economia e as elites. É difícil sondar a alma popular, as pesquisas surfam na superfície plebiscitária dos números. Daí a surpresa quando ressoam vozes aprobatórias nos EUA para o assassinato de alto executivo da indústria da saúde. O ato frio do acusado, filho da elite americana, fica em segundo plano pela aparência e educação do jovem.

Pode-se especular que o sentimento seria outro se o assassino fosse negro. Ainda assim, o que está mesmo presente é a violência latente, em intensidade variável, numa sociedade que favorece impulsões de vingança. É possível lançar um olhar crítico para as estruturas, as diferenças de classe em termos de renda e cultura. Mas há outro lado, despercebido pelo racionalismo analítico, presente na grande literatura: "Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura" (Riobaldo, em "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa).

Entretanto amor e ódio são modos fundamentais de existência, permeáveis à passagem de um para o outro, o que se exacerba quando a incivilidade é alimentada pelo debilitamento das instituições e dos processos civilizatórios. Por isso, na percepção de desamparo ou de medo, em plena modernidade civil, o odioso sentimento de vingança ainda se acende como brasa do passado. Intemporal, ele irrompe na insegurança cidadã diante da criminalidade ou de impiedades industriais. E, claro, preside à popularidade eleitoral de sociopatas.

Sob a ponte da civilidade, escorre, surdo, o ódio, fonte do inaceitável. É o que sempre acontece nos picos de barbárie. Dirigentes que hoje o estimulam transbordam da lata de lixo da história como baratas refratárias ao espírito do tempo, que é avesso ao patológico "espírito de corpo" de tropas fardadas. O tempo vivido é de repúdio ao horror em estado puro do passado.

Muniz Sodré

Natal em Gaza: 14 meses entrincheirados na igreja

Os cristãos da Faixa prepararam-se para viver o seu segundo Natal como refugiados no meio de uma cidade “esmagada” pelas bombas. Eles foram baleados, passaram fome e viram amigos morrerem. Apesar do medo e do confinamento, eles estão determinados a fazer a pequena comunidade sobreviver

O telefone toca todos os dias às oito da tarde há pouco mais de 14 meses. Dois homens se cumprimentam calorosamente em espanhol com sotaque de Buenos Aires. Um é o Papa Francisco, o outro, Gabriel Romanelli, pároco da Igreja da Sagrada Família em Gaza, onde desde outubro de 2023 mais de 400 cristãos palestinos da Faixa se refugiaram da guerra, do deslocamento e da fome.

“Ele nos liga todos os dias, onde quer que esteja, para nos abençoar, agradecer e enviar incentivo”, explica Romanelli, nascido em Buenos Aires, há 55 anos, em entrevista por telefone a este jornal. A voz do padre ouve-se serena e até jovial, embora assegure que a vida quotidiana é uma “loucura” e que a guerra está a afectar as pessoas que partilham o pequeno espaço da paróquia. “Tudo é necessário e até as menores coisas, como pegar um copo d’água, são complicadas”, afirma.


A Sagrada Família é a única igreja católica na Faixa, onde antes da guerra havia exa
tamente 1.017 cristãos, 135 deles católicos e o resto ortodoxos gregos, numa população total de cerca de 2,2 milhões de pessoas. Esta paróquia, localizada no coração da cidade de Gaza, no bairro de Al Zeitun, acolhe hoje pouco menos de 500 pessoas, incluindo três padres, incluindo Romanelli, cinco freiras e 58 pessoas com deficiência, todos muçulmanos e a maioria crianças que necessitam de cuidados especiais.

“Os bombardeios são constantes. Dia e noite e às vezes muito próximos. Assim como o drone dos drones israelenses, sobrevoando o tempo todo. O pior é que quando não os ouvimos por uma ou duas horas, ficamos com medo porque não sabemos o que vai acontecer”, explica Romanelli.

É de se perguntar quando isso vai parar e o que virá a seguir, porque as pessoas querem permanecer em suas terras. Esta igreja, que durante anos foi um oásis de paz e espiritualidade, tornou-se um hospital, cemitério e acima de tudo um refúgio.

Todos os dias são parecidos e alguns fiéis também perdem a noção do tempo. Há pessoas, sobretudo idosos e doentes, que não põem os pés na rua desde o início da guerra, em outubro de 2023. “Só saio se for estritamente necessário. Eu me persigno e vou. Muitas vezes me sinto perdido porque muitos pontos de referência não existem mais. A cidade foi esmagada. Ontem saí por causa de um problema médico e vi um homem vendendo dois potes de azeitonas. Fazia meses que não comíamos azeitonas. O barco me custou 65 shekels (17 euros)”, afirma este sacerdote argentino, pároco em Gaza durante cinco anos.

“É estressante e angustiante. É de se perguntar quando isso vai parar e o que virá a seguir, porque as pessoas querem permanecer em suas terras. Esta igreja, que durante anos foi um oásis de paz e espiritualidade, tornou-se um hospital, cemitério e, acima de tudo, um refúgio . Mas a nossa missão continua e ajudaremos o máximo de pessoas que pudermos”, acrescenta.

A paróquia de Gaza, devido à violência cíclica que a Faixa sofre há anos, preparou-se para uma emergência antes de outubro de 2023. Tinham guardado colchões, cobertores, pilhas e alimentos não perecíveis para que ali pudessem abrigar cerca de 80 pessoas alguns dias. Mas estas disposições foram insuficientes porque nos primeiros dias da guerra já havia 200 pessoas na igreja. E então chegaram mais pessoas, convencidas de que não havia um único lugar seguro na Faixa e que queriam permanecer na igreja, apesar das ordens israelenses para evacuar a área.

“Nada é normal e tudo é muito difícil. Às vezes leva um dia para conseguir um remédio simples para uma pessoa idosa. Isto é, se você tiver sorte. Tenho a sensação de correr e correr sem descanso. Gerenciar o que falta, o que comer, se há cobertores para todos, se chega água… Corremos muitos riscos, mas estou feliz por poder fazer isso”, disse George Antone, pai que tem refugiou-se na igreja, explica por telefone.

Este grupo de cristãos viveu momentos muito difíceis, em que nem sequer podiam sair para o pátio interior devido aos bombardeamentos. Houve vários feridos por estilhaços e tiros e duas mulheres que se abrigavam na igreja foram mortas a tiros por atiradores israelenses em dezembro de 2023. Também tiveram que racionar alimentos e, se tivessem água, era graças a um antigo poço localizado dentro da paróquia. O complexo paroquial, composto por três pequenos edifícios, tem três geradores, mas a falta de combustível faz com que quase não possam ser utilizados e a energia provém de painéis solares com os quais carregam baterias. “Felizmente, faz sol em Gaza. Sem essas baterias não podemos falar ao telefone, consultar a internet ou purificar a água do poço, mas temos que nos organizar bem para que durem”, explica Romanelli, que foi preso fora da Faixa pela guerra por motivos pessoais e foi poder retornar em maio.

A guerra prolongou-se e o norte de Gaza foi atingido de forma particularmente dura por bombas, pela falta de ajuda humanitária e por deslocações em massa. “O Patriarcado Latino de Jerusalém, nossa diocese, com a ajuda do Papa Francisco e de organizações como a Ordem de Malta, obteve permissão para a entrada de alguns caminhões e pudemos ter alimentos e distribuí-los na vizinhança. A última vez que vieram foi no mês passado, trouxeram-nos mantimentos e também pudemos dar uma caixa de alimentos a 9.000 famílias da região”, detalha o sacerdote argentino.

Aos mais de 400 cristãos que se refugiaram na igreja católica, somaram-se outros 200 que procuraram abrigo na igreja ortodoxa de São Porfírio, situada a poucos metros de distância. Quase 300 membros da comunidade conseguiram sair via Egito graças a um passaporte estrangeiro ou salvo-conduto nos primeiros meses da guerra. “Existem agora cerca de 37 cristãos no sul e 46 morreram desde o início da guerra, 20 deles de forma violenta, 17 deles no bombardeamento da Igreja Ortodoxa de São Porfírio em Outubro de 2023. Para uma comunidade tão pequena, é uma figura terrível”, lembra o padre. A comunidade cristã em Gaza não parou de diminuir durante anos. Em 2007, havia cerca de 7 mil cristãos na Faixa. Em todos os territórios palestinos, a comunidade não chega a 2% da população.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Pensamento do Dia

 


A 'sombra de futuro' de um Natal memorável

O filme Joyeux Noël (Feliz Natal), de 2005, dirigido por Christian Carion, é um auto de Natal no contexto histórico da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A coprodução reuniu cinco nações europeias (França, Alemanha, Reino Unido, Bélgica e Romênia) para uma ode à paz em quatro idiomas: francês, alemão, inglês e romeno. Diane Kriger (Anna Sorensen), Benno Fürmann (Tenente Nicolau Sprink), Guilhaume Canete (Tenente Audebert), Daniel Brühl (Hostmayer) e Gary Lewis (Padre Palmer) brilham nos papéis principais.

“Joyeux Noël” é inteiramente dedicado à trégua de Natal de 1914, quando soldados franceses, britânicos e alemães, por iniciativa própria, interromperam os combates e confraternizaram espontaneamente no front. São histórias individuais e coletivas dos soldados que participam daquele momento histórico, com destaque para um cantor de ópera alemão (Nikolaus Sprink) que, ao lado de sua amada Anna Sorensen, canta para os soldados na linha de frente.

Indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, em 2006, o filme mostra como os soldados revelaram compaixão e solidariedade, contrariando as ordens de combate, a partir de um canto natalino que aproximou os dois lados inimigos. Apesar dos diferentes idiomas, havia identidade cultural entre os soldados. “Joyeux Noël” é uma reflexão sobre o poder da empatia e da paz.

Entretanto, empatia e paz fazem muita falta, 110 anos depois. Vivemos um interregno semelhante ao que antecedeu a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O mundo desaprendeu e continua sendo palco de guerras sangrentas. A crise humanitária é significativa, com 76 milhões de deslocados, a maioria por causa desses conflitos. Segundo o Índice Global da Paz, houve um pico histórico, com 56 combates registrados em 2024, o maior número desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Em fevereiro de 2022, a Rússia iniciou uma invasão em larga escala na Ucrânia, resultando em combates intensos e significativas perdas humanas, até agora, estimadas em 190 mil. Na Palestina, o conflito de Gaza, iniciado após um ataque terrorista do Hamas ao território israelense, já provocou a morte de 45 mil pessoas, a maioria mulheres e crianças, durante os bombardeios das Forças de Defesa de Israel (FDI).

No Iêmen, desde 2015, morreram 337 mil pessoas na guerra civil protagonizada por rebeldes houthis. Após o golpe militar de 2021, até hoje Mianmar enfrenta confrontos entre as forças armadas e grupos de resistência, além de tensões étnicas e religiosas. Na Etiópia, desde 2020, a região de Tigré é palco de confrontos entre o governo etíope e a Frente de Libertação do Povo Tigré, com 100 mil mortos. Em Burkina Fazo, insurgências jihadistas, desde 2016, resultaram em deslocamentos e mortes.

Na Nigéria, o Boko Haram e conflitos entre pastores e agricultores causaram 368 mil mortes e deslocamentos de milhões de nigerianos. Desde abril de 2023, o Sudão enfrenta confrontos entre forças militares rivais. Iniciada em 2011, a Síria enfrenta um conflito complexo, que já matou 500 mil pessoas e agora, com a fuga do ditador Bashar Hafez al-Assa para a Rússia, entrou numa nova etapa, também incerta.

Por tudo isso, a confraternização de Natal de 1914 foi um evento extraordinário. Na véspera de Natal e no dia 25 de dezembro de 1914, os soldados cantaram canções natalinas em suas respectivas línguas, como o famoso “Stille Nacht” (“Noite Feliz). Emergiram das trincheiras desarmados, trocaram presentes e se abraçaram. Confraternizaram a ponto de jogar futebol na chamada “terra de ninguém”. O historiador britânico Tony Ashworth conta que o episódio deu origem a um pacto de não agressão do tipo “viva e deixe viver” ao longo de todo o front, que perdurou por dois anos.

Um estudo de estado-maior do Exército britânico sobre o fenômeno, denominado “sombra de futuro”, demonstrou que os soldados dos dois lados ganhavam tempo para permanecerem vivos até a guerra acabar. No “esconde-esconde”, o outro lado sabia onde o adversário estaria e/ou atiraria. A cooperação mútua era uma estratégia “olho por olho” invertida, que alternava retaliação de baixa letalidade, indesejável para os generais, mas muito vantajosa para os soldados. Saiam até das trincheiras para urinar ou fumar.

Na segunda-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um pronunciamento de Natal na linha de um armistício político. “Todas e todos vocês que ajudam a construir esse grande país. O Natal é um bom momento para relembrarmos os ensinamentos de Cristo: a compaixão, a fraternidade, o respeito e o amor ao próximo. Meu desejo é que esses ensinamentos estejam presentes não apenas no Natal, mas em todos os dias de nossas vidas”. Sim, seria muito bom que a política voltasse à civilidade entre adversários, de parte a parte, com menos ódio e mais empatia.
Luiz Carlos Azedo

O agro e a fome: dilema brasileiro

A fome é o maior dilema brasileiro. Dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, até o fim do ano de 2023, pouco mais de 4% da população do país estava em estado de insegurança alimentar grave. Em números absolutos, 3,2 milhões de pessoas. Bem menos que os 19,1 milhões que sofreram de insegurança alimentar grave em 2020, durante a pandemia da covid-19. Ainda assim, continuamos no Mapa da Fome da ONU (2024), e o contingente de 21,6 milhões (27,6%) de brasileiros sob algum tipo de insegurança alimentar em 2023 é imenso.


Por outro lado, entre janeiro e outubro de 2024, as exportações do agronegócio brasileiro somaram US$ 140,02 bilhões, representando 49,2% da pauta exportadora total brasileira no período. No livro Direito econômico e soberania alimentar, procuro contribuir para o diagnóstico e a solução desse dilema histórico: somos uma potência na produção agrícola e alimentar convivendo com o drama da fome e dos altos preços dos alimentos. Tal situação não é aceitável. Somos e devemos ser melhores do que isso. Podemos alimentar o mundo, mas devemos alimentar os brasileiros.

A fome é inescapável à história. Josué de Castro demonstra que o problema atinge os continentes de forma desigual, determinando a organização da vida humana de modo variado, a depender da região geográfica, do meio ambiente, dos modos de vida. Em suas palavras: a fome é uma "praga fabricada pelo homem".

Desde a fome ideologicamente apresentada como "fenômeno natural" e ferramenta do equilíbrio populacional (Malthus) à expansão colonial europeia do século 19, impulsionada pela necessidade de alimentos; até as greves de fome das mulheres inglesas pelo direito de votar no início do século 20, ou de Gandhi na luta pela independência da Índia; a fome é relacionada ao poder. O livro pretende estudar e ofertar soluções a esse dilema. Imaginar e propor soluções para o Brasil que queremos.

Para desvelar a estruturação social da produção e distribuição de alimentos, temos que discutir as noções de direito humano à alimentação, segurança alimentar, soberania alimentar e soberania sobre os recursos naturais, que implicam distintas perspectivas políticas e econômicas, com formas jurídicas diversas. As relações entre Estados nacionais e a conformação do sistema alimentar mundial a partir das suas estratégias de soberania alimentar devem ser conhecidas, pois a organização e o controle da produção e comércio alimentar ocorrem no âmbito do "sistema alimentar mundial", em que os Estados centrais e suas corporações ocupam e disputam constantemente posições de soberania e poder.

Os países desenvolvidos mobilizam diversos e consideráveis recursos visando à garantia de abastecimento alimentar, preços adequados aos produtores agrícolas, controle de tecnologias estratégicas e mercados internacionais para a diversificada gama de produtos agrícolas, que vão desde commodities até insumos (sementes e fertilizantes) e equipamentos de alta complexidade.

O comando da Organização Mundial do Comércio (OMC) na regulação do comércio internacional, instrumental aos interesses dos países centrais e suas corporações produtivas e financeiras, bem como a crise da hegemonia norte-americana frente à China, são processos a serem desvendados. As tensões distributivas entre centro e periferia e internas a cada país expressam o exercício do poder em condições sociais determinadas e apenas podem ser apreendidas por análises específicas: a teoria do subdesenvolvimento de Celso Furtado nos permite decifrar as questões agrária e agrícola brasileiras, cuja solução permanece inacabada, como demonstra o complexo produtivo da soja. Para resolver nossos problemas, temos que pensar com a própria cabeça.

O direito é uma arena central dessa disputa de poder: a ordem econômica brasileira, com seus comandos finalísticos de desenvolvimento, soberania, erradicação da pobreza e redução das desigualdades sociais e regionais, determina a política agrária, agrícola e alimentar, enfatizando a simultânea dimensão ecológica e tecnológica do desenvolvimento. Os deveres com a alimentação da população pertencem e obrigam a todos os entes da federação, em cooperação. Não é aceitável haver fome em uma potência agrário-exportadora. O Brasil dará o passo político para superar esse atraso e será a generosa nação sonhada pelo fundador de Brasília, Juscelino Kubitschek.

Esta não é uma comédia natalina

A história de como se deu uma operação de ataque virtual maciça contra a atriz Blake Lively, revelada na edição de domingo do New York Times, ensina muito sobre como funciona a comunicação na internet. Sobre como as redes sociais são facilmente manipuláveis. Custa algum dinheiro construir o consenso a respeito de um tema, mas não é difícil. Por tabela, somos todos também presas fáceis dessa manipulação. As táticas usadas contra ela também não se limitam ao mundo do entretenimento. Fazem parte do arsenal de incontáveis grupos políticos pelo mundo.

Lively protagonizou, no meio do ano, o drama romântico “É assim que acaba”, dirigido pelo ator com quem contracenou, Justin Baldoni, e produzido por Jamey Heath. Os dois, vozes militantes em defesa de mulheres assediadas no movimento #MeToo, tornaram a filmagem um pequeno inferno para a atriz. Baldoni insistia em beijos não previstos, tentou inserir cenas de sexo que não estavam no roteiro. Tanto ele quanto o produtor entravam no camarim de Lively, sem bater, quando ela estava ainda se vestindo. Heath mostrou para ela fotos de sua mulher nua, no celular. O ambiente era consistentemente sexualizado por ambos. Incomodada, ela reclamou com o estúdio e exigiu a presença de alguém que gerenciasse as situações de intimidade no set de filmagem. É uma profissão recente, cada vez mais comum para evitar justamente esse tipo de constrangimento.

Quando o lançamento se aproximava, receosos de que a situação fosse tornada pública, produtor e diretor decidiram contratar uma agência de comunicação que faz esses tipos de ataque. Toda a estratégia foi montada por Melissa Nathan, especialista em “gerência de crise de imagem”.

A ação não é complexa. A agência contrata gente que lidera enxames de ataques em inúmeras redes. Um lança aqui uma teoria da conspiração, outro faz uma acusação, uma insinuação. Mas não é só isso. Os contratados controlam mais de um perfil falso e comentam também. O objetivo é construir uma onda em que, em determinado período, boa parte das postagens que se referissem a Blake Lively fosse negativa. E sempre dá certo.

A reportagem do Times não conta que essa técnica é antiga: foi desenvolvida por um ex-engenheiro da Olivetti chamado Gianroberto Casaleggio. Tudo se baseia numa descoberta que ele fez ainda no século passado. Se um pequeno número de pessoas controlando perfis falsos entra num debate on-line e toma parte da conversa levando o argumento para um dos lados, os outros usuários acompanham. Gente, no mundo digital ou no real, gosta de se colocar no lado da maioria. Casaleggio batizou a tendência de “avalanche de consenso”. Quando parece haver maioria para um lado num debate nas redes — se uma atriz é boa pessoa ou mau-caráter — um consenso se constrói.

Foi para isso que Melissa Nathan e seu time foram contratados: para construir o consenso, nas redes, de que Blake Lively era má. Traiçoeira. A onda on-line foi acompanhada de uma série de reportagens maldosas plantadas nas imprensas de fofoca americana e inglesa. Tudo, embora coordenado, parecia espontâneo aos olhos de quem via. O objetivo era esse mesmo. Caso vazassem as histórias a respeito do que ocorreu durante as filmagens de seu último filme romântico, ela seria percebida como mentirosa.

Grupos políticos apelam a esse tipo de estratégia toda hora, com militantes carregando palavras de ordem, explicação para acusações, criando situações que lhes pareçam favoráveis. Quando gente o suficiente, poucas centenas, se manifestam a respeito de um tema meio que simultaneamente numa rede, o assunto aflora. Parece ser algo que movimenta os interesses de muitos. Mas não necessariamente é — as centenas podem ser poucas dezenas operando um punhado de perfis falsos.

Redes sociais são suscetíveis a esse tipo de manipulação. E, nós, à formação de consensos nas bolhas a que pertencemos. É fácil criar um mundo preto no branco onde pessoas são ou boas ou más. Onde nos dividimos entre amigos e inimigos. A técnica de Casaleggio tem quase 30 anos e é dominante na comunicação digital faz quase dez. Se há surpresa, é uma só: que continue a ser usada sem que tenhamos um debate mais sério sobre como conversamos no mundo da internet.

Crônica de Natal (de novo)

Tenho inveja dos cronistas novos. Não porque eles não sabem que todas as crônicas de Natal já foram escritas e podem escrevê-las de novo. Mas porque podem fazer isto sem remorso.

Tem as infinitas variações sobre problemas encontrados por Papai Noel no mundo moderno (seu trenó levado num assalto, sua dificuldade em se identificar em portarias eletrônicas, protestos de ambientalistas contra o seu tratamento das renas, suspeita de exploração de trabalho escravo, suspeita de pedofilia etc.).

Tem as muitas maneiras de atualizar a história da Natividade (Maria e José em fila do SUS, os Reis Magos chegando atrasados porque foram detidos por patrulhas israelenses ou militantes palestinos, Jesus vítima de uma bala perdida).

Tem as versões diferentes da cena na manjedoura, inclusive — juro que já li esta, se não a escrevi — narrada do ponto de vista do boi.

Todas já foram feitas.

Há tantas crônicas de Natal possíveis quanto há meios de se desejar felicidade ao próximo.

Os cartões de fim de ano são outro desafio à criatividade humana. Pois todas as suas variações também já foram inventadas.

Quando eu trabalhava em publicidade, todos os anos recebia encomendas de saudações de Natal e Ano Novo “diferentes”, porque os clientes não se contentavam em apenas desejar que o Natal fosse feliz e o Ano Novo fosse próspero.

Uma vez sugeri um cartão de Natal completamente branco com a frase “Aquelas coisas de sempre…” num canto, mas acho que este foi considerado diferente demais.

E dê-lhe poesia, pensamentos inspiradores, má literatura e a busca desesperada do diferente.

Um cartão em forma de sapato, de dentro do qual saía uma meia: a meia para o Papai Noel encher de presentes e o sapato para entrar no Ano Novo de pé direito. Coisas assim.

Enfim, tudo isto é apenas para desejar a você aquelas coisas de sempre…

Luís Fernando Veríssimo

Natal dos sensíveis

“Mas mais belos do que tudo eram os olhos, os olhos claros, luminosos de solidão e de doçura. No próprio instante em que eu o vi, o homem levantou a cabeça para o céu. (…) A sua cara escorria sofrimento.”
“O Homem”, Contos Exemplares, Sophia de Mello Breyner Andresen

Não tenho a menor pretensão de possuir uma perspicácia ou sensibilidade excepcionais. O que vejo não é mais do que outros vêem. Boa parte dos meus amigos, aliás, vê muito melhor do que eu. Nesta época, tudo serve para explorar emoções e apelar à sensibilidade. Sem querer magoar alguém, creio que se tira proventos ridículos do lirismo da época, fingindo sentimentos de rara empatia. Francisco Umbral diria disto, desta maré literária hipócrita e oportunista, “a la mierda com todo”.

Nos jornais multiplicam-se as crónicas emotivas e, em pouco menos de três dias, escutei duas crónicas radiofónicas sobre a indulgência para com pobres, espoliados e desafortunados, e como pessoas dessa condição despertaram nos locutores sentimentos de enorme e sincera piedade.


Como se sabe, o Natal é uma época propícia a doutrinas conservadoras e à antropologia da família. Aqueles que se encontram fora desse enquadramento tendem a sofrer por comparação e a ver a sua solidão mais destacada: a morte de familiares, a ausência, a separação sentem-se com maior ênfase; mas também os conflitos não resolvidos, os equívocos, os mal-entendidos que 11 meses do ano foram incapazes de extinguir. O nosso interior alimenta-se do nosso exterior, cujo centro é também o nosso centro.

Como o havia dito noutro lugar, vivemos tempos em que até as emoções se tornam mercadoria. Que nos interessa saber como alguém se emocionou com o pobre que viu na rua, com a velhinha solitária do quarto andar, com o pedinte que nos fere o orgulho? A todos aqueles que escrevem sobre bonitos sentimentos de desbragada empatia aconselho o seguinte: guardai a empatia no lugar mais recôndito do vosso ser, deixai de exibir fraternidade e de a prostituir em literatura sentimental, evitai, mesmo, incomodar-nos com a vossa compreensão franciscana. Nós sabemos como sois munidos de caridade, mas não fazei dela alarde nem no-la gritai aos ouvidos. Também a bondade reclama discrição.

E lembrai-vos: não sois mais do que os outros. Se tínheis uma nota e não a entregastes ao pedinte, esse é um problema vosso. Nós não queremos saber. Já nos basta ter de encarar pobres e miseráveis, diariamente, nas ruas do Porto, de Lisboa, de Coimbra, de Braga e o diabo a sete, e ter de dissimular a raiva de nos virem testar a humanidade, de subirmos o vidro do automóvel no intervalo dos semáforos, de fingirmos olhar para o lado, de fecharmos os olhos para que um milagre nos absolva de sentir a presença do outro, de sucumbirmos à mais radical das insensibilidades, de nos embrulharmos, justificados, na racionalidade do mundo injusto com que fundamentamos a impotência de um gesto. Sim, nós conhecemos esse arquétipo de pobre, que condensa a criança, a mulher, o velho, o rapaz, o toxicômano: é o homem do conto de Sophia: O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas. Se transformámos a vida num esgoto, o difícil é não naufragar na porcaria. Por isso, calai.

Nada há a dizer sobre as pessoas que trabalham pelos outros ou pelas que evitam o sofrimento dos outros ou pelas que, sem a preocupação de não corrigir os males do mundo, não são também as que fazem mal aos outros. Cada um faz o que pode. O que me incomoda não é isso. O que me incomoda é o anúncio dos bons sentimentos, a sua publicidade, a sua comezinha partilha. Como compreendo, igualmente, os que abjuram o Natal…

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Pensamento de Natal

 


Querido Papai Noel


Em um país tão perverso, no qual o imprescindível equilíbrio das contas públicas esbarra em um Parlamento que limita o reajuste real do salário mínimo e ao mesmo tempo libera o fura-teto nos ganhos dos privilegiados de sempre, é difícil se imbuir do espírito do Natal. Nem os mais otimistas, entre os quais me encaixo, encontram ânimo diante da sucessão de escárnios perpetrados em todas as esferas e níveis de poder. Mas é Natal, então, escoro-me na ficção do bom velhinho, a quem se remetem desejos – mesmo os impossíveis.

Os pedidos na cartinha não são muitos e se concentram na nossa terra natal, ainda que a utopia maior seja tempos de paz, com o fim de guerras e de governos autocráticos, repressores e criminosos. E antecipo as desculpas por beirar a pieguice, talvez perdoável em um texto natalino. Vamos lá:

Queria que divergências não se tornassem brigas de foice e morte; que diferentes respeitassem as diferenças dos outros, fossem elas políticas, intelectuais, sociais, de crença, cor ou gênero; que os argumentos e não a imbecilidade prevalecesse no debate entre opostos.

Que tentativas de golpe como a gestada antes do Natal de 2022 fossem punidas e enterradas de vez.

Peço que os governantes governem sem sugar o pagador de impostos e quase nada devolver a ele em serviços; que as polícias prendam bandidos sem matar inocentes com balas perdidas ou em falsos confrontos; que a corrupção deixe de ser a principal cartilha de regência do país.

Que não se privilegiem alguns fidalgos acima da lei e todos possam ser iguais perante ela, seguindo a óbvia e não cumprida determinação constitucional.

Mesmo sabendo que não há qualquer chance, queria que deputados e senadores olhassem para além dos milhões que buscam (e secretamente conseguem) abocanhar para os seus quintais, para os próprios bolsos e para uns e outros que os financiam; que a chantagem com emendas pudesse ser estancada – e até as tais emendas, limitadas.

Que os eleitos não agissem no sentido inverso da expectativa de quem os elegeu; que pelo menos tentassem representar o voto a eles empenhado; que não aprovassem absurdos como a proibição de aborto para crianças estupradas, facilidades para compra de armas de fogo e munições, perdão para desmatadores e garimpeiros ilegais.

No particular, rogo que os vereadores paulistanos se arrependam da autorização para o corte de 10 mil árvores, boa parte nativas, em uma cidade que clama por verde; que a Amazônia sobreviva e com ela todos nós; que a COP 30, que acontecerá em Belém, vá além da festa e dos fogos de artifícios.

Quero ainda que o Judiciário baixe a bola, limitando-se às suas atribuições originárias. Ou seja, que o STF volte a ser Supremo, acima das peraltices da política, sem a arrogância e a persona de salvador da pátria que se auto-atribuiu.

Faço figa para que o governo consiga equilibrar as contas; que a entidade mercado compreenda que há risco, mas há ganhos (alta do PIB, quase pleno emprego); que bolsonaristas e parcela do PT que torcem contra deixem o ministro Fernando Haddad trabalhar; que o crescimento da economia ultrapasse a linha do esquentamento do consumo sustentada por programas sociais e incentivos fiscais; que a inflação não volte a nos empobrecer ainda mais.

Importantíssimo (grafado com asterisco): que Lula se renda aos textos pré-escritos, abandonando de vez o improviso alimentador do caos.

Na verdade, não se trata deste ou de outro governo. O Brasil é um país disfuncional há muitos natais. Finge tentar, cisca daqui e dali, mas até o seu repetitivo voo de galinha acaba sempre pesando sobre os mais pobres.

Por aqui, Noel, é de chorar. Enquanto alguns poucos se deliciam com mimos e regalias, milhares de crianças pobres pedem cestas básicas nas cartinhas que escrevem para você.

Frustradas em anos anteriores, desta vez elas estão sendo atendidas em um trabalho louvável da ONG Ação Cidadania. Ufa! Pelo menos existem aqueles que nos fazem crer – e emocionar – com o espírito do Natal. É na toada deste último parágrafo que desejo boas festas a todos.

O que escorre sob a ponte da civilidade

Para Antoine de Rivarol, polemista do século 18, a Revolução Francesa terminou quando acabaram as execuções em praça pública, e o povo já não mais cantava "ça ira, ça ira /les aristocrates on les pendra" ("vai dar certo, vai dar certo / vamos enforcar os aristocratas"). Ou seja, os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade seriam coisa de intelectuais iluministas, enquanto à massa interessava o espetáculo da vingança pela guilhotina. Essa impulsão parece intemporal, próxima ao que os alemães conhecem como "Schadenfreude", o prazer de infligir sofrimento a outros.

As noções de sociopatia e psicopatia, pertencentes ao campo cognitivo desse fenômeno, têm valência política. Mas não são exclusivas de época nem de classe social. Ajudam a explicar o comportamento da Polícia Militar de São Paulo. Uma sociopatia fardada é matriz da violência de psicopatas contra marginais pés de chinelos, exibindo estatísticas ineficazes, recuando apenas da boca para fora ante o alarme da mídia. À boca pequena, há o consenso de que isso rende votos, de que extermínio teria grande aprovação popular. O "tô nem aí" do governador é a frase mais obscena do ano.


Os alvos críticos da agenda progressista costumam ser os aparatos de Estado, a economia e as elites. É difícil sondar a alma popular, as pesquisas surfam na superfície plebiscitária dos números. Daí a surpresa quando ressoam vozes aprobatórias nos EUA para o assassinato de alto executivo da indústria da saúde. O ato frio do acusado, filho da elite americana, fica em segundo plano pela aparência e educação do jovem.

Pode-se especular que o sentimento seria outro se o assassino fosse negro. Ainda assim, o que está mesmo presente é a violência latente, em intensidade variável, numa sociedade que favorece impulsões de vingança. É possível lançar um olhar crítico para as estruturas, as diferenças de classe em termos de renda e cultura. Mas há outro lado, despercebido pelo racionalismo analítico, presente na grande literatura: "Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura" (Riobaldo, em "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa).

Entretanto amor e ódio são modos fundamentais de existência, permeáveis à passagem de um para o outro, o que se exacerba quando a incivilidade é alimentada pelo debilitamento das instituições e dos processos civilizatórios. Por isso, na percepção de desamparo ou de medo, em plena modernidade civil, o odioso sentimento de vingança ainda se acende como brasa do passado. Intemporal, ele irrompe na insegurança cidadã diante da criminalidade ou de impiedades industriais. E, claro, preside à popularidade eleitoral de sociopatas.

Sob a ponte da civilidade, escorre, surdo, o ódio, fonte do inaceitável. É o que sempre acontece nos picos de barbárie. Dirigentes que hoje o estimulam transbordam da lata de lixo da história como baratas refratárias ao espírito do tempo, que é avesso ao patológico "espírito de corpo" de tropas fardadas. O tempo vivido é de repúdio ao horror em estado puro do passado.

Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago

A busca pela ignorância

Aristóteles escreveu que o ser humano busca o conhecimento. Acho até que dá para avançar um pouco mais e afirmar que quase tudo de bom que a civilização nos proporciona se deve ao fato de termos esse impulso natural pelo conhecimento e sermos capazes de acumulá-lo coletivamente e transmiti-lo às próximas gerações.

Se cada pessoa que chega ao mundo tivesse de reinventar a roda e recriar a escrita por conta própria, a história de nossa espécie seria muito diferente. Talvez nem houvesse História.


Mark Lilla mostra em "Ignorance and Bliss" (ignorância e contentamento) que Aristóteles capturou apenas parte do quadro. Existem situações em que humanos fazemos uma opção preferencial pela ignorância. E existem períodos históricos em que essa tendência assume proporções epidêmicas. Vivemos numa dessas épocas.

A ignorância voluntária se manifesta das mais variadas formas. Ela pode vir como crença em falsos profetas, em rumores infundados, em pensamento mágico e outras formas de fanatismo. Em muitas dessas situações, optamos por não saber porque a busca pela verdade nos obrigaria a questionar coisas que julgamos já saber e que nos dão conforto e senso de propósito.

Lilla destrincha esse e outros mecanismos psicológicos pró-ignorância e o faz recorrendo a não apenas a situações do mundo real como também da literatura. Sófocles, Dostoiévski e Freud são grandes contribuidores do livro, o que torna sua leitura um smorgasbord intelectual.

O autor reserva palavras especialmente duras para Paulo de Tarso. Segundo Lilla, foi este santo católico que criou e deu lustro a uma ideologia anti-intelectualista que se fixou no pensamento cristão e depois vazou para sociedades seculares.

O curioso é que o próprio Paulo não era um ignorante, muito pelo contrário. Ele conhecia bem a filosofia grega e era versado na lei judaica. Mas, imbuído do espírito prosélito dos fanáticos, pensava que uma verdadeira conversão ao cristianismo passava pela destruição de crenças anteriores. Foi Paulo de Tarso que deu respeitabilidade à ignorância.

Pequeno dicionário do Brasil

Aventuro-me a apresentar o dicionário do Brasil que chega ao final de 2024, desejando a todos os meus leitores Votos de um Feliz Natal e Próspero 2025.


A

Autoridade – Essencial para o exercício do Poder e o governo do Estado. No Brasil, tornou-se sinônimo de caciquismo, coronelismo, mandonismo, familismo, filhotismo, assistencialismo, patrimonialismo.

B

Bala – É o que não falta aos grupos armados, cujo estoque de armamentos é dos mais modernos e poderosos. Balas perdidas no RJ matam crianças. Conceito de “munição” de campanha política. Exemplos de locuções: “faltou bala; o candidato tem ainda muita bala”.

Bíblia – Manual mais lido nos cárceres brasileiros, que funciona como uma espécie de “ponte” entre pastores de credos e seitas religiosas e detentos. Disponível em mesinhas de criados-mudos de hotéis do Interior do país.

C

Corrupção – Desvio amoral e aético que está impregnado na alma brasileira, decorrente de heranças coloniais.

Crise – Um dos mais recorrentes termos do vocabulário nacional. De tão constante na vida das pessoas, deixou de causar medo.

D

Deus – Uma das expressões mais usadas para designar perplexidade, espanto, indignação, admiração, incredibilidade, descrença. Vem geralmente acompanhada do termo “do céu”. Lula seria Deus.

Diabo – Imprecação comum no cotidiano dos brasileiros, geralmente destinada a mandar outra pessoa para o reino dos infernos. O mercado é diabo, Lula é Deus.

Dólar – Referência diária para interpretar a fragilidade nacional. Um dólar vale R$ 6,30.

E

Empurrar com a barriga – Adiar, protelar decisões, levar devagarzinho, dando a ideia de que a coisa está andando sem avançar, do tipo patinando numa esteira

Executivo – Expressão mais conhecida para designar profissionais bem-sucedidos e com boa remuneração no mercado. Na esfera política, o Executivo é o mais visível dos Poderes.

F

FDP – (Filho/a da…) – Imprecação mais comum contra adversários, inimigos, opositores ou pessoas que fizeram alguma maldade ao interlocutor. Expressa raiva, ódio, indignação, condenação, desprezo etc.

Futebol – Paixão nacional, motivo de alegrias e tristezas. Ao lado do carnaval, é uma das grandes alavancas de mobilização de massas.

G

Gosto – O brasileiro tem gosto para tudo. Não há homogeneidade na escala dos gostos nacionais. As diferenças não se apresentam apenas no plano estético, mas na esfera dos alimentos, da música, dos perfis admirados, das belezas naturais.

H

Hilário – O brasileiro gosta de rir. Tira motivos para rir até em velório. Entre uma coisa séria e uma hilária, esta é a preferida pela alma nacional.

Hino (Nacional) – Mais conhecido e recitado nas primeiras estrofes. Como é longo, costuma-se, ao final, balbuciá-lo, numa espécie de mentirinha para se dizer que a pessoa sabe cantar o hino todo.

I

Igreja – Historicamente, conceito associado à Igreja Católica. Ultimamente, termo mais associado às seitas religiosas ou à Igreja Universal do Reino de Deus e outros credos.

J

Jeitinho – Capacidade de driblar situações para conseguir atingir metas e objetivos.

Judiciário – Fonte de poder e mando, espaço de tradição e credibilidade. Nos últimos tempos, a identidade incólume de instituição sagrada passou a frequentar a agenda de desconfiança dos brasileiros.

L

Ladrão – Palavra muito usada do vocabulário nacional. Termo aplicado aos juízes de futebol e, com mais força, aos políticos

M

Mãe – Tronco familiar dos mais respeitados no país, servindo, paradoxalmente, ao maior conjunto de imprecações da linguagem cotidiana das ruas. “Filho de uma mãe”, intenção de dizer que o interlocutor não é bem filho de uma mãe.

Massas – Contingentes amorfos, que agregam letrados ingênuos a iletrados sofridos, bafejados pelos candidatos de quatro em quatro anos.

N

Nação – Está longe de ser implantada, quando se considera a identificação com Pátria e valores.

Natureza – O tema dos próximos tempos. Expressão que começa a tomar vulto nas consciências de grupos de classe média e entidades de defesa do meio ambiente.

O

Obrigação – O brasileiro cultiva a obrigação quase na marra.

Ordem – É uma coisa que pouco se vê nos espaços nacionais.

P

Paixão – Sentimento muito peculiar ao caráter brasileiro. Cada coração abre espaços enormes para abrigar ciúmes, casos conflituosos, pequenas raivas do cotidiano ou discursos eloquentes em defesa do time predileto.

Progresso – Ao lado da Ordem, trata-se de pedaço do ideário que povoa o imaginário nacional. Como o Progresso está demorando, a sensação é a de que o termo denota a falta de seriedade.

Q

Quase – Assim como o “mais ou menos”, o quase traduz a mania do brasileiro de querer permanecer na esfera intermediária. “Quase acertei”, “fulano quase se elegeu”, “o time quase ganhou”.

R

Razão – Fator em crescimento na ordem dos valores sociais. A taxa de racionalidade cresce.

Renda – Fator de grande disparidade social. Quase 40% da população brasileira vivem abaixo da linha de pobreza.

S

Segurança – Preocupação permanente dos brasileiros, forte determinante do PNBinf (Produto Nacional Bruto da Infelicidade). Tema central da campanha de 2026. Valor em queda no mercado de valores.

T

Terra – É o que não falta ao país. E é das coisas mais reclamadas por imensos contingentes. Um país de muita terra com muita gente sem-terra.

U

União – A união é um dos mais fortes ícones da brasilidade. No capítulo da sociedade, o abismo entre as classes sociais denuncia a intensidade da desunião e da desigualdade.

Urna – Lugar sagrado onde o eleitor guarda sua arma, o voto. Urna eletrônica, lugar considerado seguro. Mas há quem questione.

V

Valeu – Tempo verbal que funciona mais como interjeição de aprovação, quando um dos interlocutores, em agradecimento ou reconhecimento, abre a palavra para anunciar o célebre: valeu

Vício – É coisa muito comum na vida do brasileiro, a partir do vício de fumar, de andar com o braço na janela do carro, de desobedecer a leis e códigos.

X

Xingar – Mania frequente dos cidadãos. Xingar a mãe é a coisa mais comum.

Z

Zorra – Bagunça, tem muito a ver com algumas situações nas administrações públicas (esferas federal, estadual e municipal).

Os militares não estão sozinhos

Os militares estão na berlinda, sendo avaliados pela opinião pública diante das denúncias de tentativa de dar um golpe de Estado, derrubar o governo Lula, matar o presidente, seu vice, o Ministro do STF Alexandre de Moraes e rasgar a Constituição.

No governo Bolsonaro, esses militares tinham carta branca para praticar o butim do dinheiro público, ocupando ministérios e milhares de postos da administração pública para os quais não tinham nenhuma qualificação, interferindo em licitações, pressionando por propinas, contratando firmas de seus apaniguados, desviando dinheiro público, aparelhando e destruindo os órgãos de Estado, perseguindo seus opositores.

O general Eduardo Pazuello, que ocupou o cargo de ministro da Saúde, é um bom exemplo. Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, em 1984, formou-se como oficial de Intendência. Fez o curso de Comando e Estado-Maior no Exército e o curso de política e estratégia aeroespaciais, na Força Aérea Brasileira (FAB). Bolsonaro justificou sua escolha para ministro da Saúde atribuindo-lhe a formação de “especialista em logística”. Em sua gestão, a presença de militares saltou de 2,7% para 7,3% na área da saúde, e foram denunciadas várias negociatas, entre elas com a compra de vacinas.

Segundo a BBC News Brasil, Pazuello foi nomeado ministro depois que dois ex-ministros civis se recusaram a recomendar o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina. A mortandade provocada pela epidemia de Covid-19 recai também em suas mãos. Esse “especialista em logística” deixou de comprar tanto vacinas e até seringas para aplicá-las quanto respiradores.1

Cinco generais do Exército foram nomeados ministros de Estado – Braga Netto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Fernando Azevedo e Silva (Defesa) e Eduardo Pazuello (Saúde). A Marinha também foi contemplada, com a nomeação do almirante Bento Albuquerque para o Ministério de Minas e Energia, onde ele elevou a participação dos militares para 10,8% dos funcionários. Sem mencionar os oficiais em segundo escalão nos ministérios e demais órgãos públicos.

Pode-se dizer que, em aliança com empresários e com o apoio norte-americano, as Forças Armadas estiveram profundamente envolvidas no governo anterior, que privatizou, favoreceu as empresas, isentou impostos para corporações, baixou a regulação e permitiu a devastação ambiental, mas também operou abrindo espaço para a espoliação do dinheiro público em larga escala por parte dos governantes de plantão, em especial o clã Bolsonaro, notoriamente vinculado às milícias do Rio de Janeiro.


A tentativa de golpe denunciada pela Polícia Federal foi promovida pelo núcleo duro do governo anterior, mas é preciso deixar claro que não são apenas – grupos de militares que estão à frente dessa tentativa. Vários grupos econômicos do agronegócio, do setor financeiro, da mídia, dos transportes e do comércio estiveram envolvidos, muitos dos quais já identificados em inquéritos da Polícia Federal.

Essa situação, porém, não é de hoje. Em 2005, o então senador Jorge Bornhausen, presidente do PFL, já dizia: “Estou encantado com a crise política. Ela vai livrar a gente dessa raça por pelo menos trinta anos”. Banqueiro, Bornhausen se referia aos trabalhadores, sem-terra, pobres, excluídos, ou seja, todos que não pertenciam à elite. Desde então é possível reconhecer as ofensivas das forças conservadoras, que se propõem a alijar Lula e o PT do governo.

Essa defesa dos interesses da elite brasileira é uma constante. Na fase atual, ela se expressa no golpe parlamentar que depôs a presidenta Dilma Rousseff em 2016; na prisão ilegal de Lula em 2018, para impedi-lo de participar das eleições desse ano; na invasão dos prédios do governo, com o fim de impedir a posse de Lula eleito, em janeiro de 2023. Merece destaque a Lava Jato, processo de law fare, ou seja, o ataque político por meio da manipulação dos instrumentos legais, que foi de 2014 a 2021.

Não se trata de uma quartelada de iniciativa de meia dúzia de aloprados. É um amplo movimento com bases na sociedade que expressa uma aliança política que trabalha há anos pelo desgaste da imagem de Lula e do PT e de setores progressistas, pelo fim das políticas redistributivas, pelo fim da regulação democrática que limita a espoliação das maiorias e defende a “livre” atuação das empresas.

Com sólidos e majoritários blocos parlamentares de direita na Câmara dos Deputados e no Senado, temos de considerar também a participação efetiva de parlamentares na tentativa de golpe. Muitos deles são identificáveis por demandarem nas redes sociais e em outros espaços públicos o golpe e a intervenção militar. Muitos representam também os setores econômicos que se envolveram com o golpe e a tentativa de desestabilização política do governo eleito.

Pesquisas e análises sociológicas identificam vários setores profissionais, das classes média e alta, ligados a esse movimento. Advogados, juízes, promotores, médicos, engenheiros, dentistas e administradores são exemplos de categorias profissionais que se opõem ao PT e à “esquerda”, seja lá o que se entenda por ser de esquerda. Sentem-se ameaçados em seus privilégios pelas políticas redistributivas, pelo acesso dos pobres à universidade, pela presença de negros em seu ambiente profissional e pela afirmação dos direitos das empregadas domésticas, por exemplo. Segundo eles, o aeroporto não pode virar uma rodoviária…

O “Teto dos Gastos”, imposto pelo governo Temer em 2026, ou o “Arcabouço Fiscal” são demandas das classes dominantes que só cortam os gastos sociais. Querem o equilíbrio das contas nacionais sem mexer em seus privilégios, onerando apenas os pobres. Como diziam parlamentares quando da imposição do Teto, “os gastos sociais não cabem no Orçamento Público”.

Como aponta Eduardo Fagnani, “as elites financeiras nacionais e internacionais jamais aceitaram que o movimento social capturasse uma parcela do orçamento do Governo Federal (cerca de 10% do PIB), a maior parte concentrada na Previdência Social (8% do PIB)”.2 E continuam não aceitando o governo que se propõe enfrentar a fome e a pobreza.

Que fique claro: a tentativa de golpe não foi um raio em céu azul; ela vem sendo gestada há décadas. É a democracia que foi e continua sendo atacada. Como interpretar essa iniciativa, presente no Congresso, que pretende mudar a Constituição para subordinar o Supremo Tribunal Federal aos seus desígnios? Como interpretar a apropriação da receita pública por parlamentares para a doação de emendas se a atribuição da execução orçamentária é do Executivo?

Se as punições aos golpistas forem efetivas e envolverem financiadores, a mídia e parlamentares, o Brasil terá dado um passo importante para consolidar a democracia e afirmar que os benefícios do desenvolvimento não serão uma exclusividade das elites, das classes dominantes, mas favorecerão também as maiorias.
 Silvio Caccia Bava

1 André Shalders, “Quem é Eduardo Pazuello, o general que assume interinamente o Ministério da Saúde”, BBC News Brasil, 16 maio 2020.

2 Eduardo Fagnani, “As demandas sociais da democracia não cabem no orçamento?”, Plataforma Política Social, 2020.

sábado, 21 de dezembro de 2024

É isto um homem?

Vocês que vivem seguros
em suas cálidas casas,
vocês que, voltando à noite,
encontram comida quente e rostos amigos,
    pensem bem se isto é um homem
    que trabalha no meio do barro,
    que não conhece paz,
    que luta por um pedaço de pão,
    que morre por um sim ou por um não.
    Pensem bem se isto é uma mulher,
    sem cabelos e sem nome,
    sem mais força para lembrar,
    vazios os olhos, frio o ventre,
    como um sapo no inverno.
Pensem que isto aconteceu:
eu lhes mando estas palavras.
Gravem-na em seus corações,
estando em casa, andando na rua,
ao deitar, ao levantar;
repitam-nas a seus filhos.
    Ou, senão, desmorone-se a sua casa,
    a doença os torne inválidos,
    os seus filhos virem o rosto para não vê-los.

Primo Levi

A sociedade e Rubens Paiva

A prisão do general Braga Netto é o mais visível sinal de que os militares no Brasil se envolveram profundamente na política nacional. A profusão de golpes e contragolpes ocorridos ao longo do século 20 no país é um claro indicativo de que a República, criada por militares, não convive bem com civis. Os paisanos terminam sendo atropelados pelas convicções ideológicas dos fardados. Foi assim em 1964, para ficar em apenas um exemplo, e radicalizado em 1968, quando o regime mostrou sua face autoritária com a decretação do Ato Institucional nº 5, que censurou a imprensa, suspendeu o habeas corpus, acabou com o direito de reunião, fechou o Congresso, cassou parlamentares e abriu as portas da repressão política. Centenas de brasileiros foram presos, torturados e mortos pelas forças de segurança.

A Constituinte de 1988, resultado da grande mobilização popular iniciada na discussão da emenda Dante de Oliveira (Diretas já), teve por objetivo redemocratizar o país. Acabar com a prevalência dos militares nos assuntos políticos. O Brasil não enfrenta guerras desde o conflito com o Paraguai, ocorrido na metade do século 19, suas forças armadas são tecnicamente desatualizadas, não possuem equipamentos modernos e carecem de comunicação de geração mais recente. Utilizam satélites estrangeiros para estabelecer contatos dentro do vasto território nacional. Resultado dessa inércia, as Forças Armadas se transformaram em partidos políticos fardados e perderam eficiência operacional.


Mas um setor se manteve atualizado e eficiente ao longo dos últimos anos. Os serviços de repressão, de inteligência e de investigação sigilosa continuaram a funcionar normalmente mesmo depois da queda dos governos militares. O presidente Fernando Collor acabou com o Serviço Nacional de Informações (SNI), e todos dados contidos nos seus arquivos foram entregues a pesquisadores que se interessavam pelo assunto. Porém, os serviços secretos militares, de cada uma das três armas, continuaram a funcionar, pesquisar e guardar seus segredos. Seus informantes persistiram ativos. Eles comandaram a pressão contra a abertura política iniciada pelo presidente Ernesto Geisel e avançada pelo presidente Figueiredo, que, aliás, assinou o decreto da anistia política, que é, até hoje, tema de polêmica.

O governo Bolsonaro resgatou essa turma dos serviços de inteligência que, na verdade, nunca se dissolveu. Continuou a existir de maneira mais ou menos clandestina dentro das organizações militares. Os torturadores mantiveram situações excepcionais, como a Casa da Morte, em Petrópolis, estado do Rio de Janeiro, onde os prisioneiros eram torturados, mortos e depois esquartejados. Seus corpos aos pedaços, sem as falanges dos dedos nem as arcadas dentárias, eram jogados em rios, lagos e em alto mar. A questão da anistia é, portanto, mais profunda, porque perdoou torturadores que, por sua vez, não admitem que os chamados terroristas tenham sido abrangidos pela iniciativa.

Quem quiser ter mais e melhores informações sobre a ação comunista no Brasil e a violenta repressão realizada pelos militares precisa ler o impressionante relato contido no livro cujo título é Cachorros, a história do maior espião dos serviços secretos militares e a repressão aos comunistas até a Nova República, de Marcelo Godoy, editora Alameda. É um trabalho de fôlego, que consumiu 10 anos de pesquisa para que o autor chegasse às 548 páginas do livro, que recebeu vários prêmios.

Esse grupo de militares, que envolve as mais diversas patentes, se inspirou na guerra da Argélia, a guerrilha urbana que foi violentamente reprimida pelo governo francês. E também aprendeu com as ideias de Antonio Gramsci (Cadernos do cárcere), que propôs a revolução comunista por meio de tomada de poder nas universidades, no serviço público, no setor artístico, na imprensa, com objetivo de dominar a opinião pública. Com base nessa possibilidade, um grupo de militares brasileiros torturou e matou à farta.

Esse grupo, que foi distinguido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, proporcionou o vexame de conspirar contra a democracia brasileira e, no momento mais insano, planejar o assassinato do presidente da República, do vice-presidente e do então presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Tudo isso de maneira quase ingênua, mal traçada, e, pior, com o apoio de pessoal especializado do Exército. E com base no velho argumento anticomunista, quando o comunismo já saiu da vida e entrou para os livros de história.

É oportuno lembrar Ulysses Guimarães, no seu histórico discurso ao final da Constituinte: "Nosso desejo é o da Nação: que este plenário não abrigue outra Assembleia Nacional Constituinte (....) O Estado autoritário prendeu e exilou, a sociedade, com Teotônio Vilela, pela anistia, libertou e repatriou. A sociedade foi Rubens Paiva, não os facínoras que o mataram".

O mal de só se acreditar no que se quer acreditar continua matando

Bons tempos aqueles em que ainda se procurava distinguir entre a verdade e a mentira, e uma vez que isso fosse possível, exaltava-se a primeira e condenava-se a segunda. Nem sempre era uma tarefa fácil, mas pelo menos se tentava.

Hoje, na era das redes sociais e da radicalização política que põe em risco a democracia por toda parte, algo que aparenta ser verdade é muito mais importante que a própria verdade, e cada um escolhe no que quer acreditar.

Durante a pandemia da Covid-19, mais preocupado em evitar o debacle da economia do que em salvar vidas, o então presidente Jair Bolsonaro sabotou todas as medidas de isolamento social universalmente adotadas e atrasou a vacinação.

Que morressem, segundo disse Bolsonaro, os que tivessem de morrer, afinal ele não era coveiro. E receitou para os interessados em escapar do vírus drogas que no mundo inteiro eram consideradas ineficazes pelos cientistas para combater o mal.

Entre as drogas estavam a cloroquina e a hidroxicloroquina. Os dois medicamentos foram desenvolvidos para o tratamento e prevenção da malária. A diferença entre eles está na química orgânica, sendo a cloroquina o medicamento mais antigo.


Bolsonaro chegou ao ponto de, no final de julho de 2020, deixar-se fotografar exibindo uma caixa de cloroquina para as emas que vivem nos jardins do Palácio da Alvorada. Duas semanas antes, ele recebera diagnóstico de que contraíra a doença.

Em maio de 2021, ele ainda mantinha a defesa da cloroquina e da hidroxicloroquina para o que chamava de “tratamento precoce” do vírus. Não havia tratamento precoce possível. Mesmo assim, Bolsonaro insistiu em dizer durante uma live na internet:

– Aquele negócio que o pessoal usa para combater a malária, eu usei e no dia seguinte estava bom. Há poucos dias, estava me sentindo mal e, antes de procurar o médico, tomei aquele remédio, fiz exame, e não estava (doente). Mas, por precaução, tomei.

Na terça-feira, o amplamente contestado estudo que popularizou a ideia de uso da hidroxicloroquina contra a Covid foi “despublicado” pela editora Elsevier a pedido de três dos seus autores: Johan Courjon, Valérie Giordanengo, e Stéphane Honoré.

Eles alegam falhas sobre a metodologia, conclusões da pesquisa e apresentação de interpretação de seus resultados. Em seu favor, Bolsonaro não poderá dizer que se baseou no estudo e que, portanto, foi enganado.

Simplesmente porque a maioria dos governantes da época não se deixaram enganar. Bolsonaro acreditou no que quis acreditar porque lhe pareceu conveniente e estava mais de acordo com seus propósitos de salvar a economia mesmo às custas de mortes.

Dados da Organização Mundial da Saúde, em fevereiro de 2022, revelaram que o Brasil era o terceiro país com o maior número de mortes pela Covid-19, só abaixo dos Estados Unidos e da Índia, países mais populosos.

Em março do ano passado, aqui, o número de óbitos pelo vírus ultrapassou a marca dos 700 mil.

Mundo de tolerância

Somos demasiado tolerantes com a aberração moral de estadistas e burocratas.

Kenzaburo Oe 

A moral é obrigatória para os pobres

“Boa noite a todos. Sou o Lor Neves. Pai, marido, imigrante em Portugal e serralheiro de profissão”. A voz quase não lhe treme. Não vem pedir. Vem à Assembleia Municipal de Loures, com um texto na mão, que lê com dignidade e o arranhar nos ‘r’ característico dos santomenses. Veio de longe e a vida fê-lo desembarcar nas Marinhas do Tejo, em Santa Iria da Azóia, onde uma casa vazia e um terreno baldio se transformaram num pequeno bairro improvisado para 99 pessoas, 21 das quais crianças, a mais nova ainda recém-nascida. Lor diz a quem o ouve que os seus vizinhos estão consigo “neste barco”. E é uma tempestade a que enfrentam desde que, a poucas semanas do Natal, encontraram à porta das barracas um papel que lhes dava 48 horas para retirarem todas as suas coisas para que tudo fosse demolido.

Desde esse dia, há colchões, panelas e sofás debaixo de um viaduto. As máquinas não vieram na data marcada para a demolição. Mas ninguém duvida de que virão quando ninguém estiver a olhar. E é por isso que Lor e as suas vizinhas e vizinhos não se calam nem se escondem. É importante vermos os seus rostos. É importante olharmos de frente para aqueles sobre quem já paira até a ameaça de lhes serem retirados os filhos por não terem uma casa para lhes dar.

“Vim para este país à procura de um futuro melhor para minha família. Sempre soube que este caminho ia ser complicado”, confessa Lor Neves, num discurso feito para reclamar a sua humanidade. Porque ela não lhe é garantida à partida. Negro, pobre, imigrante, tem de repetir que vem por bem, que trabalha, que é humano. E é isso que faz.

“Vimos por bem”, “somos um povo trabalhador, queremos dar melhores condições aos nossos filhos, queremos viver com dignidade, trabalhamos, descontamos”, “somos seres humanos”. “Nós não vivemos nesta situação porque queremos”, “vivemos aonde vivemos porque não temos outra alternativa”, “não vimos outra alternativa se não tentar criar um lar naquelas casas abandonadas”, “queremos colaborar com o processo de arranjar casa para nós, queremos pagar rendas”. Justifica-se.

No vídeo que registou a sua intervenção, Lor Neves fala de pé junto a um microfone e, no canto inferior direito do plano, há um homem que o ouve. É apenas uma cabeça de homem branco, careca, de meia-idade, com excesso de peso. Vai franzindo o sobrolho. Levanta e baixa os olhos. Ouve e interroga-se. Em cada prega do seu rosto são visíveis as perguntas que faz em silêncio àquele negro pobre e imigrante. Não se lhe vê qualquer comoção.

Olhamos para aquele homem e ele é parecido com os que tiveram de construir cidades de chapa de zinco e lama às portas de Paris. Chamavam-lhes Bidonvilles. E lá falava-se Português. Mas não sabemos nada deste homem que ouve, com alguma impaciência indisfarçada, o apelo de Lor Neves. E por isso não temos forma de perceber se algum dia teve também de justificar a sua humanidade perante outros homens.

Exigimos muito aos pobres. É pobre, mas honrado. Pomos ali a adversativa para que fique bem claro que a honra é uma coisa que se constrói a custo, ao contrário da pobreza que vem sem esforço e tantas vezes à nascença.

Os pobres têm de ser trabalhadores, têm de ser esforçados, têm de estar acima de qualquer suspeita. Os requisitos morais para um pobre que reclame um direito ou peça uma ajuda estão muito acima do que qualquer banco pede a um milionário para lhe emprestar uma fortuna ou do que qualquer Estado requer para lhe perdoar milhões em impostos. A moral é obrigatória para os pobres. Para os ricos é opcional.

Não é difícil imaginar que Lor Neves tenha de ouvir muitas vezes um “vai para a tua terra”. O que exige muito mais imaginação é pensar que um dos 50 estrangeiros a quem o Estado português deu em 2023 uma borla fiscal de 262 milhões de euros tenha alguma vez ouvido coisa semelhante. Ao todo, estes imigrantes ricos receberam do Estado benefícios fiscais que nos custaram 1,3 mil milhões de euros no ano passado. Mas isso não causa sobressalto.

O que nos incomoda são os pobres. Incomodam-nos os que nos constroem as casas e depois as limpam, os que nos servem nos restaurantes e nos trazem comida a casa, os que nos apanham a fruta e nos fazem a vindima, os que nos tratam das crianças e nos cuidam dos mais velhos, os que nos transportam e os que com os descontos do seu trabalho nos pagam as pensões.

E é por isso que Lor Neves, serralheiro de profissão, que trabalha e paga impostos, está à beira de ficar sem o teto precário que construiu com as suas mãos, mesmo nas vésperas de Natal, perante uma indiferença quase generalizada. Ele e mais 98, dos quais 21 são crianças, que se arriscam a ser separadas de pais cujo crime é serem pobres.

Há quem exija que ao lado de cada árvore pagã e iluminada se exiba um presépio, esquecendo-se de que esse abrigo precário acolhia um pai carpinteiro e pobre, obrigado a fugir da sua terra para proteger a família. Como acolheriam eles hoje esses três?

Trump sabe que aquário não é sopa de peixe

O ex-presidente ianque Barak Obama fez um desabafo a esse respeito no documentário “The Final Year” (2017), que trata das Relações Exteriores no seu último ano de mandato. Fez um mea culpa por ter tratado Vladmir Putin como um estadista que falava em nome do interesse nacional da Rússia. Obama perceberia tarde demais que os objetivos pessoais do ex-agente da KGB predominavam sobre o Estado e o povo russo.

Neste final de 2024, o mundo se pergunta o mesmo em relação ao presidente americano eleito. Até que ponto, em um segundo mandato, Donald Trump utilizará o poderio econômico e militar dos EUA em favor da Nação, ou do seu projeto particular. Afinal, o narciso de Trump hospeda aquelas distrações terrenas que constituem o fetiche da política (com “p” minúsculo).

O que não quer dizer que ele seja incapaz de interpretar a conjuntura interna e a cena internacional, ou de enxergar as ameaças e oportunidades oferecidas pela geopolítica e pelos mercados. Muito pelo contrário, ninguém chega à Casa Branca duas vezes por ser bobo.

Sendo assim, Trump e seu braço direito Musk certamente sabem que a c
apacidade industrial americana, somada às recentes descobertas de petróleo e gás de xisto na América do Norte, trazem uma tranquilidade ao Tio Sam com relação ao que se pode chamar de Espaço Vital da nação. Inclua-se aí a vasta disponibilidade de terras habitáveis e agricultáveis, abundância de hidrovias fluviais de baixo custo, acesso a dois oceanos e a juventude da população estadunidense.


Segundo o consultor geopolítico da CIA Peter Zeihan (O Fim do Mundo É Só o Começo – 2022), essas “vantagens geográficas estratégicas” permitem que o governo americano reduza sua presença direta em crises regionais mundo afora, que foi indispensável durante a Guerra Fria. Não era à toa que ainda em 2013 Obama já dizia que os EUA não seriam mais a “polícia do mundo”.

Trump sabe que se os Estados Unidos quiserem (e eles querem) continuar sendo a potência líder global, precisarão rearrumar o tabuleiro geopolítico. O resto do mundo também já sabe disso. Aos 45 minutos do segundo tempo, Biden já é página virada do folhetim internacional.

Quem resume bem esse cenário é o analista Niall Ferguson, no seu artigo “A Mudança da Vibração Global” (The Free Press, 2024): “O eleitorado americano reelege decisivamente Donald Trump. Consequência: o governo alemão cai, o governo francês cai, o presidente sul-coreano declara lei marcial, Bashar al-Assad foge da Síria. Há uma reação em cadeia econômica também: Bitcoin sobe, o dólar sobe, ações americanas sobem, Tesla sobe. Enquanto isso, a moeda russa enfraquece, a China afunda ainda mais na deflação e a economia do Irã cambaleia. Parece que Trump já é presidente”.

Ferguson fecha a tampa do ataúde da velha ordem, concluindo: “A mudança de vibração na cultura é sobre o modo fundador versus os comitês de diversidade e inclusão; a mudança global é sobre paz através da força versus a ordem internacional liberal em desintegração. Agora é O Papai Chegou”.

O inusitado governo Trump-Musk, armado com novos computadores quânticos (e velhos mísseis), sabe também que os EUA têm que correr contra as mudanças climáticas que podem bagunçar a geopolítica (e os negócios). Também sabe que, como diziam os antigos russos, você pode transformar um aquário numa sopa de peixe, mas o contrário é impossível.