sábado, 24 de fevereiro de 2024

Políticas para jovens são urgentes

Tem sido muito raro construir consensos no sistema político brasileiro atual. As relações entre o Executivo e o Legislativo se tornaram mais complicadas desde o segundo governo Dilma, os congressistas estão em constante embate com o STF e a sociedade está fortemente polarizada. Mesmo assim, em determinados temas o conflito dá lugar à cooperação. Esse é o caso da aprovação da poupança para alunos mais pobres do ensino médio público.

Intitulado Pé de Meia, é um programa fundamental para um grupo essencial para o presente e o futuro do país: a juventude. Trata-se de uma excelente notícia, mas ao mesmo tempo revela uma carência perigosa de ações à população mais jovem.

Não faltam prioridades num país tão complexo e desigual como o Brasil. Mas há temáticas que deveriam merecer mais atenção por conta de quatro fatores. O primeiro diz respeito ao número de pessoas de um determinado grupo que estão numa situação social complicada.

Além disso, deve-se levar em consideração o impacto sistêmico desse problema. Isto é, os vários males causados pela não resolução de determinada questão. Um terceiro ponto também é central: como este tema faz a ponte entre o presente e o futuro do país? Por fim, um aspecto prioritário é aquele que pode modificar a forma de se ver e conduzir a política, gerando um efeito bola de neve na agenda pública.

Segundo dados do IBGE, o número de jovens de 15 a 29 anos que nem estuda nem trabalha é de quase 11 milhões, totalizando cerca de 22% desse grupo populacional (mais de um quinto da população jovem). Num estudo recente da OCDE, o Brasil era o segundo país com mais jovens nem-nem entre 37 nações analisadas. A situação é muito ruim em ambos os gêneros, mas a maior parte dos nem-nem é composta por mulheres e, do ponto de vista social, pelo contingente mais pobre da população.


Esse retrato já é suficiente para apontar o tamanho do problema da juventude brasileira. É verdade que já foi pior, e a melhora teve a ver, nas últimas décadas, com a maior inclusão de jovens no sistema educacional. Mesmo assim, cerca de 35% dos jovens de 15 a 18 anos estão fora da escola, sendo o principal momento da evasão escolar brasileira.

Por que os jovens abandonam a escola? Por que essa faixa etária é aquela com as maiores taxas de desemprego e informalidade? Essas perguntas deveriam ser urgentemente enfrentadas, pois o efeito sistêmico desse problema é muito danoso à sociedade. Mais jovens fora da escola e do trabalho significa aumentar a mão de obra disponível à criminalidade - e o crescimento estrondoso do crime organizado nas últimas décadas tem muito a ver com as fragilidades da política para a população juvenil.

Bom que se diga que a juventude sofre aqui nas duas pontas do problema: ela é sujeito e também objeto da violência social, com grande número de homicídios de jovens, especialmente os mais pobres, periféricos e negros. Ouvir as músicas dos Racionais é entender como esse duplo processo perverso afetou a juventude da periferia paulistana, de onde vim.

Ter mais jovens sem perspectiva na sociedade afeta a produtividade presente e, principalmente, futura da economia brasileira. Uma boa parte desse grupo está em posições precárias, com destaque importante para a ocupação de postos na economia uberizada dos aplicativos de entrega e/ou transporte. Qual possibilidade de aprimoramento de habilidades e competências laborais mais amplas terá essa parcela da população? Qual será seu futuro, ou mesmo presente, em termos de proteção social?

Uma juventude com pouca experiência coletiva em escolas ou no trabalho tende, ainda, a ter um processo mais precário de formação de consciência cidadã. Soluções mágicas, quando não violentas, podem se tornar o mantra político dessa faixa etária. O populismo de extrema direita agradece.

Esse alijamento social facilita igualmente a criação de uma geração de homens com autoestima prejudicada, talvez mais tendente a mover-se pelo ressentimento em sua visão de mundo, ao passo que um contingente expressivo de mulheres seguirá mais o caminho perverso da mãe solo abandonada, grande chaga da sociedade brasileira, com poucas chances de mobilidade social. Eis aqui um combustível para famílias se tornarem mais instáveis e com forte potencial de se produzir violência doméstica, majoritariamente voltada contra o gênero feminino.

É grande a lista de efeitos sistêmicos derivados do fato de se ter uma ampla parcela da juventude desassistida por políticas públicas efetivas. O resultado disso não afeta apenas o presente do país. O Brasil sempre acreditou na máxima de que seríamos a nação do futuro.

Isso só é possível se crianças e jovens forem prioridade, algo que só começou a acontecer em grande escala na história brasileira a partir da Constituição de 1988 e da expansão subsequente do Estado de bem-estar social nos períodos FHC e Lula, com avanços inegáveis, mas que ainda são claramente insuficientes frente às nossas necessidades.

O maior exemplo disso é que se abriu nas últimas décadas uma janela demográfica que permitiria maior produção de riqueza. Parte dessa oportunidade foi concretizada, só que o país aproveitou, por ora, muitíssimo menos essa fortuna sociológica do que poderia. Em boa medida porque investiu pouco e de forma ineficiente na formação e qualidade de vida da população jovem.

Desse modo, aquilo que era um bônus pode se transformar naquilo que o economista Marcelo Neri tem chamado de “ônus demográfico”, um modo sutil de definir a quebra da ponte entre o presente e o futuro.

Produzir boas políticas públicas para a juventude, ademais, pode ser uma boa forma de se mudar a qualidade do debate político. É possível acompanhar as ações e resultados de programas voltados aos mais jovens, aferindo com certa rapidez o sucesso, fracasso, problemas e aprendizados nesse processo. Assim, a discussão deixa de ser orientada basicamente por argumentos ideológicos quase sempre referenciados a grupos insulados, aumentando as chances de ser uma contenda mais aberta a opiniões baseadas em evidências, com maior probabilidade inclusive de haver convencimentos e consensos entre setores diferentes da sociedade.

Além disso, discutir o presente e o futuro dos mais jovens por meio de diagnósticos e prognósticos claros é muito mais proveitoso para o país do que gastar um enorme tempo com querelas sobre valores pessoais, uma vez que o debate sobre estes últimos é quase nada efetivo na transformação da realidade social e econômica brasileira. Também vale ressaltar que o tema da juventude, pensado pelo ângulo das políticas públicas, tende a dividir menos os grupos políticos do que as grandes questões econômicas ou de cunho moral.

Colocar a juventude no centro do debate público é uma forma de envolvê-la e transformá-la. Na atual situação de carência e pouca perspectiva de melhora futura, o risco dela se alienar da participação ou de amarrar-se a posições populistas de extrema direita é muito factível e perigoso. Uma geração de jovens que vira prioridade e que se torna sujeito desse projeto transformador é uma receita importante para alterar a política presente e vindoura, gerando líderes que apontem a possibilidade de renovação do país.

A aprovação do programa Pé de Meia foi um jogo de soma positiva que envolveu múltiplos atores. Méritos devem ser divididos pelos presidentes da Câmara e do Senado, pelo ministro da Educação, pela deputada Tabata Amaral e pela ministra Simone Tebet (mães dessa ideia há algum tempo), pela racionalidade adotada pela oposição - majoritariamente bolsonarista - e pela liderança do presidente Lula, que abraçou o projeto.

Mas isso deveria ser só o começo de um processo que deve se orientar, primeiro, por uma perspectiva intersetorial e de longo prazo, dado que a melhoria das condições juvenis vai além da questão educacional, passando por temas como esporte, cultura, saúde, segurança pública e orientação para o trabalho - e aqui a educação profissional deveria ser uma prioridade máxima.

O segundo passo é adotar uma governança colaborativa das políticas para a juventude, congregando os entes federativos e atores sociais - como ONGs, igrejas, empresas etc. - porque nenhuma mudança de larga escala será realizada sem esforços amplos e conjuntos.

Terminando esse ciclo virtuoso, é necessário ter um modelo muito bem definido de implementação de políticas públicas, incluindo aí formas contínuas de avaliação e aprendizado, bem como a consulta regular dos jovens e suas famílias.

Em geral, os governos funcionam mais pela lógica setorial do que pela organização sistêmica de um problema. Uma forma efetiva de mudar a realidade - embora não seja a única e nem contrária às áreas de políticas públicas - é organizar a ação estatal por grupos sociais. Políticas para idosos, pessoas com deficiência e para mulheres, por exemplo, são essenciais e têm avançado, gradativamente, no Brasil. Porém, no campo da juventude os avanços foram muito menores em termos de organicidade e coordenação da enorme fragmentação de programas.

É urgente que tenhamos um plano integrado com uma definição de uma governança colaborativa e de longo prazo para os jovens brasileiros, antes que eles envelheçam mais pobres e vulneráveis ou morram pelo meio do caminho. Perder essa oportunidade agora é reduzir nossa estatura política e moral como construtores de um futuro melhor aos nossos filhos e netos.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Apoiamos as declarações do presidente Lula e repudiamos as ofensas sionistas

Dando um passo além nas contínuas denúncias dos crimes cometidos por Israel contra os palestinos, o presidente Lula causou furor ao fazer uma comparação entre o que ocorre hoje em Gaza e o que Hitler fez com os judeus durante o nazismo.

A comparação entre genocídios é sempre delicada pois a experiência vivenciada por cada povo afetado é inigualável. Cada um representa uma narrativa singular e dolorosa na história das comunidades vitimadas. Logo, não há como estabelecer qualquer hierarquia entre genocídios. É impossível estabelecer uma métrica objetiva para determinar o 'pior' genocídio da história. Categorizar historicamente vítimas maiores ou menores é uma perigosa armadilha de reprodução de racismo.

A contradição de o povo judaico ser ora vítima e agora algoz é palpável, tenebrosa e desalentadora. Lula externou o que está no imaginário de muitos de nós. Uma comparação que causa muita dor a judias e judeus de todo mundo, que tiveram as suas vidas cindidas pelo genocídio dos judeus na Europa, e agora veem um crime similar sendo cometido, supostamente em seu nome. Enquanto coletivo de judias e judeus, temos antepassados que foram vítimas do Holocausto nazista, e entendemos que nosso imperativo ético é nos posicionarmos contra o genocídio do povo palestino e contra a utilização da nossa defesa como justificativa.

Se a criação e fundação de um Estado judaico foi uma medida de sobrevivência num mundo sitiado, ela logo se tornou um pesadelo. O Estado de Israel não trouxe emancipação verdadeira aos judeus pois a sua existência é mantida às custas da negação da autodeterminação dos palestinos. As lideranças israelenses seguem promovendo um massacre contra palestinos e ainda ameaçam a vida de judeus e judias em todo o mundo. Israel representa hoje a maior fonte de insegurança para todos os judeus do planeta ao usar nossa identidade como fachada e justificativa para sua campanha de terror.

Por isso, defendemos e acreditamos que as palavras de Lula são de grande importância pois levantam questões relacionadas à urgência da ação, como um chamado definitivo dirigido a todos para agir diante do que ocorre em Gaza neste momento. Frente à incapacidade da ONU e de várias organizações internacionais em conter a violência perpetrada por Israel em Gaza, destaca-se a importância vital da postura demonstrada por líderes internacionais como Lula, que levantam suas vozes contra o que é já considerado por incontáveis especialistas como um genocídio contra o povo palestino.

As palavras têm poder. Se a forma como Lula se expressou na ocasião foi pouco cuidadosa – tropeçando justamente neste ninho de comparações forçadas – sua fala tem o objetivo de atingir a imaginação e provocar uma crise moral sobre Israel. O pedido de impeachment protocolado pelos deputados bolsonaristas é uma medida descabida, assim como as acusações de antissemitismo – cujo real objetivo é deslegitimar o governo e a diplomacia brasileira. Não acreditamos que judeus brasileiros estão em risco por causa de sua declaração.

Apoiamos as colocações do presidente Lula e cobramos que a radicalidade de suas palavras seja colocada em prática. Seria um gesto diplomático de relevância gigantesca romper todas as relações entre o estado brasileiro e Israel, em especial as relações militares que também fortalecem a barbárie em terras brasileiras, com a compra de armas e tecnologias de controle social que são usadas para atingir a vida do povo negro nas favelas. Convocar o embaixador brasileiro em Tel Aviv foi um passo ainda insuficiente nessa direção.

Por fim, convidamos a todas e todos, mas principalmente ao governo brasileiro a atender as demandas do movimento internacional de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), liderado pelas bases da sociedade civil palestina. O povo palestino tem pressa e nossas ações têm poder.

Vozes Judaicas por Libertação (Coletivo é formado por judeus não sionistas que tem como objetivo criar um espaço alternativo à ideologia sionista e combater o colonialismo do Estado de Israel)

'Vamos completar o trabalho'

Aqueles que querem nos impedir de operar em Rafah estão basicamente nos dizendo: 'Percam a guerra'. É verdade que há muita oposição no exterior, mas este é exatamente o momento em que precisamos dizer que não vamos fazer metade ou um terço do trabalho.
Benjamin Netanyahu

Acabar a guerra “o mais rapidamente possível” quer dizer nada

Dada à sua natureza excessivamente conservadora, como demonstrado ao longo da história, a tradicional imprensa brasileira, só agora e com bastante atraso, começa a dar-se conta de que o maior obstáculo à paz no Oriente Médio é o governo de extrema-direita do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, pela terceira vez no cargo.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, sabe disso, mas não quer admitir às vésperas de uma eleição difícil contra o ex-presidente Donald Trump. A maior colônia de judeus fora do Oriente Médio está justamente nos Estados Unidos. Israel é visto pelos americanos como seu maior porta-aviões naquela parte inóspita do mundo.

Os líderes das maiores potências ocidentais também sabem, mas suas ligações com o povo judeu, alimentadas por um antigo sentimento de culpa e negócios que interessam aos seus países, os impede de dizer com clareza que é preciso dar um basta à guerra que ameaça dizimar os palestinos. De resto, não ousam contrariar os Estados Unidos.


Em agosto de 1982, narra a jornalista Lúcia Guimarães na Folha de S. Paulo, o então presidente americano Ronald Reagan, com um telefonema, sustou o bombardeio israelense de civis no Líbano. Reagia assim a um dia de ataques que haviam deixado 100 civis mortos. Reagan ligou para o primeiro-ministro Menachem Begin e disse:

“Isto é um Holocausto”.

Begin, em tom sarcástico, respondeu, segundo Lou Canon, biógrafo de Reagan:

“Eu acho que eu sei o que é um Holocausto”.

Vinte minutos depois, Begin ligou de volta avisando que tinha suspendido o bombardeio. Biden não faz o mesmo com Netanyahu por razões que só ele e Deus conhecem. Não se passa um dia sem que Biden, pessoalmente ou por meio de porta-vozes, não diga que a matança de palestinos tem que ser interrompida.

Mas todas as resoluções apresentadas ao Conselho de Segurança que recomendavam o fim da guerra foram vetadas pelos Estados Unidos. Esta semana, mais uma foi vetada. O governo americano diz que prepara a sua, recomendando que a guerra seja cesse “o mais rapidamente possível”. Quer ambiguidade maior?

O mais rapidamente possível quer dizer o quê? Uma semana, um mês, um ano? Quem definirá o prazo para que os canhões silenciem, e os mísseis e bombas fornecidos pelos Estados Unidos deixem de ser jogados sobre palestinos em fuga dentro da Faixa de Gaza, a correrem para um lado e para outro obedecendo às ordens de Israel? É um tiro ao alvo.

Biden, e mais recentemente os líderes europeus, dizem que o fim da guerra implicará na devolução pelo Hamas dos reféns que eles fizeram, da libertação por Israel de palestinos presos em suas masmorras, e do início “o mais rapidamente possível” da criação de um Estado Palestino. É a velha tese dos dois Estados jamais implantada.

Na semana passada, por unanimidade, o governo de Netanyahu decidiu que não haverá Estado palestino. A decisão foi ratificada, anteontem, pelo Congresso de Israel. Dos 120 deputados, 99 de diferentes partidos políticos votaram de acordo com Netanyahu, e apenas nove contra, de partidos árabes.

Ahmad Tibi, líder do partido Arab Taal, interrompeu o discurso de agradecimento de Netanyahu gritando: “Será criado um Estado palestino! Apesar de suas palavras, ele será criado!” Após duas advertências do presidente da sessão, Ahmad foi expulso do plenário.

Lula falou em Holocausto para condenar a matança em Gaza. Mas ele não é o Reagan, nem o Brasil os Estados Unidos.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Pensamento do Dia

 


Fracasso moral do mundo em Gaza deveria envergonhar a todos

No momento em que o G20 se reúne no Brasil nesta semana, o número relatado de mortes nas hostilidades na Faixa de Gaza está se aproximando da marca dos 30 mil. Espero que tal fato dê motivos para que os chanceleres reunidos no Rio de Janeiro reflitam sobre o que seus países fizeram ou não fizeram para parar essa situação.

Dizer que a guerra em Gaza é cruel e constitui um exemplo de fracasso humanitário absoluto não é novidade. Não há necessidade de reafirmar o óbvio. Em vez disso, permitam-me que, em nome dos meus colegas humanitários, faça um alerta não só para o dia de hoje mas também para o que receio que aconteçerá amanhã.

O que tem ocorrido em Gaza nos últimos 137 dias é incomparável na sua intensidade, brutalidade e alcance. Dezenas de milhares de pessoas mortas, feridas ou enterradas sob os escombros. Bairros inteiros arrasados. Centenas de milhares de pessoas deslocadas, vivendo nas condições mais precárias, que foram agravadas com a chegada do inverno. Meio milhão de pessoas à beira da fome e sem acesso às necessidades mais elementares: alimentos, água, cuidados de saúde, latrinas. Uma população inteira está sendo destituída da sua humanidade.


As atrocidades que assolam o povo de Gaza —e a tragédia humanitária que estão suportando— estão à vista do mundo, documentadas por corajosos jornalistas palestinos, muitos dos quais foram mortos enquanto o faziam.

Ninguém pode fingir que não sabe o que está acontecendo.

Ninguém pode fingir também que não sabe que as agências humanitárias estão fazendo o seu melhor: Cerca de 160 dos nossos colegas foram mortos, mas as nossas equipes continuam a distribuir alimentos, material médico e água potável. Estamos fazendo tudo o que podemos, apesar dos riscos de segurança, do colapso da lei e da ordem, das restrições de acesso e das tragédias pessoais. Apesar do corte de financiamento da maior organização da ONU em Gaza. E apesar das tentativas deliberadas de nos desacreditar.

A comunidade humanitária que represento acaba de publicar um plano que descreve o que precisamos para aumentar o fluxo e a distribuição de ajuda em Gaza. Nenhum dos pontos do plano é irracional: garantias de segurança; melhoria do sistema de notificação humanitária para reduzir os riscos; equipamento de telecomunicações; remoção de munições não detonadas; utilização de todos os pontos de entrada possíveis.

Mas embora eu tenha dito muitas vezes que a esperança é a moeda do profissional de ajuda humanitária, tenho pouca esperança de que as autoridades nos forneçam o que precisamos para atuar. Quero muito que me provem que estou errado.

Sabemos, sem sombra de dúvida, que as agências humanitárias serão responsabilizadas —já estamos sendo responsabilizados— pela falta de ajuda em Gaza, apesar da coragem, do empenho e do sacrifício de todas as nossas equipes no terreno.

Mas não nos enganemos: as privações impostas à população de Gaza têm sido tão severas que nenhuma quantidade de ajuda humanitária é suficiente. Os obstáculos que estamos enfrentando a cada passo são tão grandes que só podemos fornecer o mínimo necessário.

Os ataques de 7 de outubro contra Israel são abomináveis — condenei-os repetidamente e continuarei a fazê-lo. Mas não podem justificar o que está acontecendo com todas as crianças, mulheres e homens em Gaza. Por isso, a minha mensagem aos chanceleres do G20 nesta semana é clara: temos implorado a Israel, enquanto potência ocupante em Gaza, que facilite a entrega de ajuda —com pouco ou nenhum sucesso. Temos apelado à libertação imediata e incondicional de todos os reféns, com pouco ou nenhum resultado.

Temos instado as partes a cumprirem as suas obrigações de acordo com o direito internacional humanitário e de direitos humanos, com pouco ou nenhum resultado.

Temos exortado os países que deixaram de financiar a Agência da ONU de Assistência aos Refugiados Palestinos (UNRWA) a reverterem a sua decisão —com pouco ou nenhum resultado.

Hoje, imploramos a vocês, membros do G20, que usem a liderança e influência política para ajudar a pôr fim a esta guerra e salvar a população de Gaza. Vocês têm o poder de fazer a diferença. Usem-no.

O silêncio e a falta de ação de vocês só contribuirão para que mais mulheres e crianças sejam jogadas nas valas comuns de Gaza.

As agências humanitárias estão fazendo tudo o que podem. E vocês, o que estão fazendo?

Aquecimento global e descaso impulsionando dengue no Brasil

Resistindo às dores no quadril e nas visões pelo corpo, o aposentado Aramis de Lima, de 62 anos, assistiu com ruptura a um batalhão de funcionários de limpeza pública retirando cerca de duas toneladas de lixo e entulho do terreno vizinho a sua casa. Ele acredita que, se fossem feitas duas semanas antes, já no meio da rápida expansão da dengue , teria escapado de sua primeira contaminação pela doença.

“Aqui na rua, 90% dos moradores pegaram, certamente por causa desse lixo que estava acumulado”, acredita. "Minhas redes tiveram sintomas que provavelmente foram de dengue, mas eu tenho histórico de amputação, dores em decorrência disso, aí unidos com a doença e superados em dores muito fortes, espasmos musculares. Foi complicado", conta. Como sequela temporária, comum para a doença, ocorrem as situações pelo corpo.

Pelas ruas da Vila Jaguara, na zona oeste de São Paulo, não faltam áreas e terrenos que sejam alvos da indignação de Lima e seus vizinhos. Numa área de pouco mais de dois quilômetros quadrados, as equipes de saúde mapearam ao menos seis ferro-velhos e focos de acúmulo de lixo e entulho perfeitos para a procriação do Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, do zika vírus E da chikungunya .

Paralelamente, 7.369 imóveis receberam instruções com inseticida ou assistência social para evitar os focos do mosquito entre dezembro do ano passado e janeiro deste ano.


Os esforços, porém, não tiveram sucesso e não impediram a Vila Jaguara de deter o título de epicentro da dengue no município de São Paulo. Por lá, a taxa de contaminação é 28 vezes maior que a média paulistana. No Brasil, perde apenas para o Distrito Federal, onde cerca de 2,5% da população contraiu o vírus da dengue nos últimos meses.

Em condições normais de temperatura e chuva, o ciclo de vida do Aedes aegypti, da colocação dos ovos até a formação do mosquito, é de sete a dez dias, explica o coordenador de vigilância em saúde da capital paulista, Luiz Artur Caldeira.

“Se a condição for, por exemplo, de muito calor intenso, esse período pode baixar para até quatro dias, dobrando assim o número de mosquitos em relação ao ciclo normal”, alerta. "Isso é algo que ocorre em boa parte do país desde pelo menos setembro do ano passado, muito por conta do El Niño ", afirma, referindo-se às características caracterizadas pelo aquecimento anormal e persistente da superfície do Oceano Pacífico na região da Linha do Equador.

Especialistas vem alertando que as previsões climáticas extremos de 2023 são fruto direto do aquecimento global provocado pela ação humana. No entendimento do epidemiologista e professor da USP Paulo Lotufo, o que a atual epidemia de dengue ilustra é a extensão dos impactos que as mudanças climáticas geram sobre as populações humanas.

"Quanto maior para o aquecimento do planeta, mais o mosquito vai conseguir se reproduzir. Tanto é assim que ele já está chegando a lugares onde há muito tempo não estava, como Estados Unidos e Argentina. Até bem pouco tempo seria inimaginável fazer fumigação às margens do rio Sena, em Paris, para eliminação do Aedes ”, explica.

Com o calor dos últimos meses, os brasileiros vêm sofrendo na própria saúde essa explosão da armadilha dos mosquitos. Em todo o país, o número de casos confirmados ou sob suspeita de dengue já passa de 653 mil — ou um infectado a cada 347 mil brasileiros. No mesmo período de 2023, o número de casos não chegou a 130 mil. Trata-se de um aumento de 294% de um ano para o outro, e que já provocou 113 mortes, enquanto 438 estão sendo investigadas.

Pelos dados do Ministério da Saúde, o avanço da dengue nunca foi tão rápido no Brasil, e o país pode chegar a 4,2 milhões de casos até o fim do ano.

“A taxa de letalidade da população varia de 3 a 7 por mil, ou seja, 0,3% a 0,7%. Quando eu falo que a taxa de letalidade da dengue é de cerca de 1%, o pessoal fala 'puxa, é pouco', mas não é! É o dobro do que é esperado sem a doença", ressalta Lotufo.

De todas as unidades da federação, o Distrito Federal apresenta o cenário mais complicado. Até 10 de fevereiro, dados do último boletim epidemiológico, foram registrados 23 óbitos pela doença em meio ao surto, que do ano passado para este explodiu em mais de 1.000%, atingindo quase todas as regiões com gravidade. Na capital do país, quase metade das mortes por dengue é de pessoas com mais de 60 anos.

Apesar da estimativa de que 70% da população da Vila Jaguara, em São Paulo, esteja nesse grupo, nenhuma morte foi registrada por dengue neste ano no bairro. O que não impede, entretanto, que os moradores mais velhos tenham a doença.

"Moro há 60 anos aqui e nunca vi nada parecido. Até mesmo minha filha e meus netos deixaram de me visitar nas últimas semanas por medo desse surto provocado pelo lixo espalhado. Esperamos que agora melhore, mas o repelente está sempre na mão, não desgrudamos dele", conta a aposentada Nanci Albanez, que diz aguardar ansiosamente pela vacina, que não tem prazo para chegar à maior cidade do país.

Por conta de limitações na produção da farmacêutica japonesa Takeda Pharma, o Ministério da Saúde comprou para este ano o suficiente para imunizar 2,5 milhões de pessoas com a vacina Qdenga . Por conta disso, apenas 10% de todos os municípios do país serão contemplados este ano, 11 deles em São Paulo, onde a vacinação começa nesta terça-feira, com crianças entre 10 e 11 anos na região do Alto Tietê .

A partir de 2025, entrará em campo ainda uma vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan, que ao contrário da japonesa, exige aplicação única. O epidemiologista Paulo Lotufo, porém, enfatiza que a vacina é um auxiliar e que, agora e no futuro, o fundamental é reduzir o contato da população com o mosquito.

O homem, a guerra, o desastre e o infortúnio

Que estranho bicho o homem. O que ele mais deseja no convívio inter-humano não é afinal a paz, a concórdia, o sossego coletivo. O que ele deseja realmente é a guerra, o risco ao menos disso, e no fundo o desastre, o infortúnio. Ele não foi feito para a conquista de seja o que for, mas só para o conquistar seja o que for. Poucos homens afirmaram que a guerra é um bem (Hegel, por exemplo), mas é isso que no fundo desejam. A guerra é o perigo, o desafio ao destino, a possibilidade de triunfo, mas sobretudo a inquietação em ação. Da paz se diz que é podre, porque é o estarmos recaídos sobre nós, a inatividade, a derrota que sobrevém não apenas ao que ficou derrotado, mas ainda ou sobretudo ao que venceu. O que ficou derrotado é o mais feliz pela necessidade iniludível de tentar de novo a sorte. Mas o que venceu não tem paz senão por algum tempo no seu coração alvoroçado. A guerra é o estado natural do bicho humano, ele não pode suportar a felicidade a que aspirou. Como o grupo de futebol, qualquer vitória alcançada é o estímulo insuportável para vencer outra vez.


Imaginar o mundo pacificado em aceitação e contentamento consigo é apenas o mito que justifique a continuação da guerra. A paz é insuportável como a pasmaceira. Nas situações mais vulgares, nós vemos a imperiosa necessidade de desafiar, irritar, provocar, agredir, sem razão nenhuma que não seja a de agitar a quietude, destruir a estagnação, fazer surgir o risco, a aventura. É o que leva o jogador a jogar, mesmo que não necessite de ganhar, pelo puro prazer de saborear o poder perder para a hipótese de não perder e ganhar. A excelência de nós próprios só se entende se se afirmar sobre o que o não é.

Numa sociedade de ricaços ninguém era feliz. Seria então necessário que por qualquer coisa houvesse alguns felizes sobre a infelicidade dos outros. O homem é o lobo do homem para que este possa ser o cordeiro daquele. Nenhuma luta se destina a criar a justiça, mas apenas a instaurar a injustiça. O homem é um ser sem remédio. Todo o remédio que ele quiser inventar é só para sobrepor a razão ao irracional que de fato é. Toda a história das guerras é uma parada de comédia para iludir a sua invencível condição de tragédia. A verdade dele é o crime. E tudo o mais é um pretexto para o disfarçar. A fábula do lobo e do cordeiro já disse tudo. A superioridade do homem sobre o lobo é que ele tem mais imaginação para inventar razões. A superioridade do homem sobre o lobo é que ele tem mais hábitos de educação. E a razão é uma forma de sermos educados.
Vergílio Ferreira, "Conta-Corrente IV"

Sinuca de bico

Moramos num país tropical, abençoado por Deus, bonito por natureza e dirigido, na maior parte do tempo e dos locais, por pessoas preocupadas consigo mesmas e não em construir um país melhor.

A natureza responde conforme a tratamos: semeie ventos e colha tempestades! Como os danos que lhe causamos são enormes e crescentes, suas respostas são cada vez mais severas. Tratamos muito mal também nossos semelhantes: 70% da espécie vive em desnecessária pobreza, com menos de US$10,00/dia! Esses dois resultados precisam ser revertidos, alterando aquilo que os causam: a busca permanente de “mais”! Mais poder! Mais dinheiro! Mais vendas! Mais consumo! Mais viagens! E, como resultado, menos água! Como será viver sem água?


Vimos a recente seca recorde na Amazônia. A Espanha sofre outra, inédita. Na Catalunha há campanhas intensas para que as pessoas poupem água (se o serviço de água for privado, tal tipo de campanha ocorrerá? Alguém imagina a Coca-Cola, grande consumidora de água, defendendo a redução do seu consumo?) Lá, mais de 6 milhões de pessoas sofrem restrições de consumo; os jardins não mais são molhados, as fontes estão secas, os chuveiros nas praias e piscinas fechados, hotéis encheram piscinas com água do mar e os fazendeiros, que não mais podem irrigar suas plantações, deverão reduzir em 50% o uso de água para seus rebanhos, sob pena de multas. Na Andaluzia, a seca já dura 8 anos, com danos à produção de azeite. Em 2023, a seca na Espanha ficou entre os dez mais caros desastres climáticos no mundo. Como será viver sem água?

Desde 1990, a área do Brasil coberta por água diminuiu 15% e, mantida a busca por “mais”, continuará a cair! Essa alarmante situação não mereceu atenção da imprensa, das redes sociais, dos nossos governantes! E nada de política pública capaz de impedir o agravamento do quadro. Reverter essa tendência horripilante exige políticas que implicarão sacrifícios no curto prazo, em especial dos mais ricos, para que os filhos e netos de todos nós tenham chance de viver, dentro de 20 ou 30 anos, sem sofrer respostas ainda mais drásticas da mãe natureza.

Essa desatenção dos políticos com o longo prazo não é apenas brasileira. Ela resulta de um sistema de eleições periódicas que dá mais chances aos mais ricos e induz os eleitos a se preocuparem, acima de tudo, com sua reeleição, ou seja, com o curto prazo! Não se trata, claro, de acabar com as eleições, mas de mudar as regras do jogo, tornando-o mais, muito mais democrático! Mas, como mudar tais regras nesse sentido, se elas são definidas pelos eleitos, (quase sempre) ricos, focados na próxima eleição e desejosos, cada vez mais, em mudar as regras em seu favor?

Triste situação da democracia ocidental! Como sair dessa sinuca? Não apoiar demagogos que prometem o impossível, o paraíso no curto prazo, mas sim quem diga verdades, defina objetivos viáveis e claros, aponte ganhos e perdas, hoje e amanhã, e traduza em linguagem motivadora as medidas necessárias para trilhar esse novo caminho. Alguém à vista com tais qualidades?

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Pensamento do Dia

 



Uma atração fatal

Entra para a história universal do grotesco a autodúvida escatológica do ex-presidente na reunião de 5/7/22: "Como é que eu ganho uma eleição, um fodido como eu? Deputado do baixo clero, escrotizado dentro da Câmara, sacaneado, gozado, uma porra de um deputado". De fato, um atordoante engano, que começa a desvelar-se pela notícia de que mais de mil pessoas com mandados de prisão pelo 8/1 fizeram doações por Pix à anomalia. Segundo a pesquisa Quaest, 43% das pessoas não veem dedo dele na invasão. Ele já convoca para manifestação em fevereiro.

Viável a hipótese de atração fatal. Num best-seller sobre a Guerra ("O Buraco da Agulha", de Ken Follet), os espiões alemães na Inglaterra são descritos como "gente inútil", velhas solitárias, fascistas loucos e criminosos insignificantes, com algo em comum: a atração por Hitler. Como os vândalos do 8/1, massa de manobra barata.


Nesse gênero ficcional, dados históricos costumam ser verossímeis. Exceto aquele juízo de inutilidade. Na realidade, os comandos ingleses que degolavam sentinelas alemães no deserto africano eram recrutados nessa arraia-miúda social. Os "insignificantes" tornavam-se matadores. Dada a oportunidade, pode-se viver a atração por monstro como licença para assassinar. Plenitude hobbesiana: o homem é o único animal que assassina (outra é a lógica da fera, que mata por fome ou território).

Entender o empoderamento da insignificância exige enxergar o povo real e não derivações de um proletariado idealizado como classe histórica. O povo recém-descoberto à luz das redes sociais, do gnosticismo bronco imiscuído em organizações de poder e do tropismo para a tirania não tem a ver com a ideologia do trabalho sob as formas do capital, e sim com o que a sociedade civil exclui.

Esse segmento sempre existiu como plebe, ralé, lumpen, ou seja, estratos marginalizados e investidos de rancor, abaixo do ordenamento culto que norteia a divisão social. A subjetividade política não mais se deduz da sociedade de classes. Mesmo nos surtos populistas, há surdez à linguagem popular.

A atual ultradireita tem ouvidos abertos. Em princípio, porque não há diferença emocional entre ela e a insignificância cívica: uma massa tosca em que o indivíduo, além do círculo íntimo, não sabe mais ao certo quem é ele mesmo. Mas ouve de espertalhões que é um combatente da "liberdade". De miseráveis a bem-nutridos, fica patente a atração comum por modulações caracterológicas de Hitler, emblema cívico-militar do extermínio. Ou impulsão infanto-midiática para um Godzilla arrasador. É fenômeno impermeável à razão liberal, com "monstruário" alternável: proscritos reciclando lixo político, candidatos poluindo a civilidade.

Duas raças

Acrônimos são aquelas sopas de letras maiúsculas que costumam designar entidades de nomes compridos como IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) ou Unesco (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization). Não existem para provocar emoção ou sentimento — em si, são neutros, indolores, inodoros. Exceto pelas cinco letras de WCNSF. Essas ferem, fazem chorar, causam horror e dor. Significam Wounded Child, no Surviving Family, ou Criança Ferida sem Familiares Vivos. A sigla nem existia antes do ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro e da consequente terraplenagem da Faixa de Gaza desencadeada por Israel. Nunca fizera falta, pois em nenhuma guerra anterior a orfandade infantil fora tão maciça.

De qualquer ângulo que se olhe, as crianças palestinas do enclave formam um capítulo à parte da desumanidade em curso. Estatísticas de guerras anteriores mundo afora registravam média de 20% de crianças do cômputo total de vítimas. Em Gaza, elas são 40%. Dados levantados pela Save the Children apontam para mais de dez crianças mutiladas por dia, com a perda de uma ou ambas as pernas. Isso há quatro meses. E talvez já chegue a 25 mil o número das que perderam ao menos um dos pais na guerra.


Em Gaza, as crianças WCNSF abrigadas em hospitais ou junto a agências internacionais por vezes nem sequer sabem declinar o nome. Emergem mudas de algum escombro, cobertas de pó e sangue. Não choram, não demonstram medo. Estão em choque, à deriva na devastação geral. Inicia-se então uma labiríntica procura por alguma família aparentada capaz de acolher mais uma infância em ruínas. Às que têm a sorte de continuar com algum colo de mãe ou presença de pai/tio/avô por perto, as sequelas previsíveis são inomináveis. Uma observação do chefe de comunicação do Unicef dá a dimensão do drama sentido por qualquer adulto na população cada vez mais sitiada: fazer de tudo para que a criança não perceba que você perdeu o controle. Essa talvez seja a carga mais dura de qualquer adulto em Gaza, hoje.

A pediatra americana Seema Jilani, assessora sênior do Comitê Internacional de Resgate, que atua globalmente em emergências de saúde, passou duas semanas no Hospital Al-Aqsa de Khan Yunis. Em longa entrevista a Isaac Chotiner, da New Yorker, ela relatou como foram suas primeiras horas de plantão ali. Chegara acompanhada de alguns cirurgiões, um obstetra, um anestesista e um intensivista vindos do Cairo.

Já trabalhara em emergências no Afeganistão, no Iraque, no Líbano, no Egito, na Turquia, na Líbia, no Paquistão e há 19 anos fazia pit stops na Cisjordânia e em Gaza. Ainda assim, nada a preparara para o horror que viu no enclave desta vez. A ausência de dignidade ali possível lhe pareceu abissal.

A primeira criança a cair sob seus cuidados foi um menino de 12 meses:

— Ele tinha o braço e a perna direita arrancados por uma bomba. A fralda estava ensanguentada e se mantinha no lugar, apesar de não haver mais perna. Eu o tratei primeiro no chão, pois não havia macas disponíveis (...). A seu lado havia um homem emitindo os últimos respiros. Estava ativamente morrendo havia 24 horas, com moscas por cima (...) O bebê de 1 ano sangrava profusamente no tórax... Não havia nem respirador, nem morfina, nem medidor de pressão em meio ao caos. (...) Um cirurgião ortopédico envolveu com gaze os tocos da criança e comunicou que não a levaria de imediato para o centro cirúrgico porque havia casos mais urgentes — contou com crueza a dra. Jilani.

E concluiu, com empatia, que não conseguia imaginar o que poderia haver de mais emergencial que um bebê de 1 ano sem mão nem perna, sufocando no próprio sangue. A resposta, é claro, todos sabemos, a pediatra também: algum outro estropiado da guerra, com pelo menos uma ínfima chance de ser salvo. Considerando as carências colossais, não era o caso daquele bebê.

Indagada sobre como avaliava a utilidade de sua presença no caos do Al-Aqsa, Jilani apontou para algo muito além da emergência clínica: para o corpo médico do hospital, a chegada da equipe estrangeira significou que eles não haviam sido esquecidos, evidenciava que o mundo não os deixara sozinhos.

Dias atrás, mais um complexo hospitalar em Khan Yunis foi submetido a assalto maciço por parte das tropas de Israel. Segundo o governo de Benjamin Netanyahu, o hospital abrigava integrantes do Hamas e poderia esconder os restos mortais de alguns dos 130 reféns israelenses ainda em mãos do grupo terrorista. O caos, as mortes, o desamparo de civis apenas se repetem e se avolumam. O anunciado plano israelense de ataque tous azimuts à cidade de Rafah visando a derrotar os terroristas do Hamas é uma insânia. Ali está espremido 1,5 milhão de palestinos já exauridos. Fugiram do chão que habitavam mais ao norte para escapar dos bombardeios. Estão numa ratoeira, enquanto o Egito ergue um muro de 7 metros de altura delimitando vasta área do Sinai. Talvez para recebê-los in extremis? Quem sabe o mundo acorda? Como constatou o maravilhoso psicanalista Viktor Frankl, judeu austríaco que sobreviveu a Auschwitz, no fundo existem apenas duas raças — pessoas decentes e pessoas indecentes.

A diferença entre opinião e juízo crítico

Num percurso guiado pelos testemunhos e orientações de diversos pensadores, tentamos estabelecer uma fronteira entre um pensamento autónomo e crítico, que impediria o indivíduo de se abandonar ao ânimo coletivo, e toda essa dinâmica de manifestações efusivas que usurpam a própria gramática política e política e em último caso nos entregam ao niilismo.


Há uma consciência difusa de que estamos a entrar numa fase extrema de um processo “cujo fim não podemos prever com certeza, mas cujas consequências poderão ser catastróficas”, servindo-nos aqui das palavras do filósofo italiano Giorgio Agamben, numa crónica publicada há pouco mais de uma semana. E se há um esforço hoje, e diante da instabilidade política que se vive por todo o mundo e também no nosso país, para manter uma reflexão crítica sobre os aspetos marcantes da nossa vida pública, escapando àquela tendência para um alheamento do destino político comum, o que, no entender de Eduardo Lourenço, sempre só poderia ser encarado como um sintoma de sonambulismo mental e ético, por outro lado, é difícil não se sentir atraiçoado logo de partida pelos termos com os quais se esgrimem os argumentos em confronto, recaindo estes tantas vezes em eufemismos ou trivializações. Assim, mesmo quando há uma vontade de assumir uma atividade autónoma de juízo, muitas vezes o que afasta tantos é essa perceção muito clara do quanto aqueles que se entregam à atividade política revelam, na verdade, uma menoridade intelectual e cívica confundindo-a com uma mera “participação verbal quotidiana e obsessiva, puramente imaginária ou glandular, nisso que abusivamente se chama ‘a vida política” e que é apenas o comentário gratuito e vão de um processo que de todo em todo escapa aos que o comentam” (E. Lourenço).

Na esfera pública mediática, há muito foi diagnosticado essa forma de degradação do discurso que passa pela devoração a que está sujeito por virtude do dramatismo e das afetações da opinião, esse regime de emoção induzida, de ostentação de um pathos sem substância. A substância é substituída pela guerra das virtudes, em que um conjunto de figuras se digladiam por meio de reações inflamadas, produzindo choques contínuos e fátuas demonstrações de virilidade ou vigor, e tudo isto se torna “a coisa mesma”, a própria substância da política. Assim, como nos diz Roberto Calasso, “a opinião encontra confirmação em si mesma, brota por si - a servidão tornou-se espontânea”.

Este ensaísta e prestigiado editor italiano, que morreu em 2021, notava como a totalidade da opinião constitui então um corpo, esse Grande Animal descrito num excerto memorável da República de Platão: “Cada um desses particulares mercenários, a quem o povo chama sofistas e considera seus rivais na arte, só ensinam as máximas que o próprio povo professa nas suas assembleias, e é a isso que eles chamam sabedoria; como se alguém, depois de ter aprendido a conhecer os impulsos e os desejos de um animal grande e forte, como se deve aproximar dele e tocar-lhe, quando e porquê se irrita e se acalma, os gritos que costuma emitir em cada ocasião, e qual o tom de voz que o acalma ou enfurece, depois de ter aprendido tudo isso durante muito tempo, lhe chamasse sabedoria, e, tendo-o sistematizado numa espécie de arte, embora sem saber ao certo quais desses apetites são belos ou feios, bons ou maus, justos ou injustos, e só aplicasse termos de acordo com os instintos do animal; dizendo que é bom o que lhe agrada, e mau o que o importuna, sem poder legitimar de outra forma essas qualificações; dizendo que é justo e belo o que é necessário, porque não viu e não é capaz de mostrar aos outros até que ponto a natureza do necessário difere, na realidade, da natureza do bom.”

Para Calasso, toda a rede das oposições que até hoje formavam a gramática e a sintaxe do pensamento foi usurpada pela opinião, que domina todos os regimes, sem perfil em todos os lugares e em nenhum, e “o excesso da sua presença é tal que permite apenas uma teologia negativa”. Assim o mais difícil é reconhecer quando se ultrapassou essa fronteira, como reconhecer o que não é opinião. Diz-nos Calasso que não nos podemos socorrer de nenhum mapa de opiniões, que a existir não teria qualquer utilidade, uma vez que “a opinião é acima de tudo um poder formal, um virtuosismo que aumenta constantemente, que ataca todos os materiais. A opinião troça de nós ao aceitar qualquer sentido, o que nos impede de a reconhecer pelas teses que apresenta (…), a opinião engole o pensamento e reprodu-lo em termos idênticos, apenas com ligeiras modificações”.

Estamos assim diante de uma forma de produzir juízos momentâneos, que se confundem com simples impulsos, e que sujeitam a gramática e a sintaxe de que nos servimos para enquadrar determinados aspetos ou fenómenos da vida política a uma tal volatilidade em que estamos no terreno de uma pura emoção, esvaziada de qualquer racionalidade.

Como lembra António Guerreiro, este mundo da opinião “é agonístico, isto é, alimenta-se das ilusões marciais, das virtudes heroicas, e imagina-se sempre em combate para dar provas de existência. Além disso, é quase exclusivamente reativo, parasitário e amplificador de ecos. Por isso mesmo é volátil e funciona por ondas que se formam, se agigantam e se desfazem em pouquíssimo tempo, até que uma nova onda recomeça”. Tudo recai assim num regime de maior ou menor agressividade moral, naquele sentido em que o ódio e o amor se esgrimem enquanto manifestações enganadoras, aproveitando-se de indícios ocasionais, e apenas para capturar o maior número de pessoas, gerando essas tendências coletivas em que podem exprimir-se os tais impulsos violentos reprimidos. Estas tendências são agravadas nas sociedades modernas em virtude do que Adorno denominava a “claustrofobia das pessoas no mundo administrado”, sendo este caracterizado como “rede densamente interconectada”. Basta pensar no regime pesporrente das redes sociais como um cenário que atualmente se sobrepõe a qualquer paisagem real, com os seus humores a dominarem uma imprensa que busca um reflexo e avalia o seu alcance pela distribuição que obtém dos seus artigos, ou os números de visualizações, tendo nós chegado a uma vertigem em que a quantidade impede qualquer revolta contra ela.

Robert Musil lembrava como um certo regime de agressividade moral permite essa “coerção literalmente fantástica de reagir ao próximo de uma qualquer forma veemente, derramar-se nele, ou destruí-lo, ou criar em relação a ele algumas constelações ricas em invenções interiores”. Este grande escritor austríaco nota que mesmo o imperativo categórico e aquilo que, desde ele, é tido como uma experiência moral específica, não é, no fundo, senão uma nobre intriga rabugenta visando o regresso ao sentimento. Ora, o que acontece é que aos poucos, e para satisfazer este desejo de conversão sentimental, o próprio mundo se vê convertido em fábula, isto de forma a que os seus signos possam ser manipulados sem oferecerem grande resistência, e usurpados por aqueles facínoras do bem e do mal que, num horror insonso perante a forma de um fenómeno, se recusam a tocar-lhe.

Assim, somos devolvidos à lição de Elias Canetti que explica a formação dos efeitos de massa pelo receio do contacto, pelo pavor de ser tocado pelo desconhecido. E ele refere como entre os fenómenos mais sinistros da história intelectual humana se encontra a fuga ao concreto. Deste modo, o regime da opinião serve como uma manifestação desse desejo de escapar ao confronto com tudo aquilo que nos cerca e exige de nós uma ação decisiva. “O balanço dos gestos exuberantes, o lado aventuroso e temerário das expedições a terras distantes enganam quanto aos motivos que lhes estão por detrás. Não é raro tratar-se, simplesmente, de evitar aquilo que está mais próximo, porque não estamos à sua altura. (…) Seria necessária muita tacanhez para condenar essa extravagância do espírito, embora, de vez em quando, ela resulte de manifesta fraqueza. Levou a um alargamento do nosso horizonte, de que estamos orgulhosos. Mas a situação da humanidade é hoje, como todos nós sabemos, tão séria que temos de nos voltar para aquilo que está mais próximo e é mais concreto. Nem suspeitamos sequer de quanto tempo nos resta para olhar de frente o mais penoso, e, no entanto, bem pode ser que o nosso destino dependa de determinados conhecimentos difíceis, que ainda não temos.
Diogo Vaz Pinto

Quando o líder de Israel relativizou a culpa de Hitler no Holocausto

Em outubro de 2015, já como primeiro-ministro de Israel e às vésperas de uma viagem a Alemanha, Benjamin Netanyahu relativizou a culpa de Hitler no Holocausto, que dizimou 6 milhões de judeus, ciganos, poloneses e gays durante a 2ª Guerra Mundial.

Seu discurso em um congresso sionista correu o mundo e foi alvo de duras críticas, tanto mais por ser ele filho de um historiador e saber como tudo acontecera de fato. Hitler, segundo Netanyahu, não queria exterminar os judeus, mas expulsá-los da Europa.


O pai da “Solução Final” teria sido o mufti de Jerusalém, Haj Amin Al-Husseini, um líder religioso mulçumano, mais tarde procurado pelo Tribunal de Nuremberg por crimes de guerra, e que não queria colher os judeus na Palestina, contou Netanyahu.

Hitler então perguntou ao mufti:

“E o que eu faço com eles [os judeus]?”

Ao que o mufti, reproduziu Netanyahu, teria respondido:

“Queime-os”.

A reportagem da televisão portuguesa sobre o assunto mostra Netanyahu na Alemanha ao lado da primeira-ministra Ângela Merkel e da atual presidente da Comunidade Econômica Europeia, Ursula von der Leyen, que em junho último esteve com Lula, em Brasília.

Ah, Lula, de propósito ou não, você pediu para apanhar quando comparou a matança promovida pelo governo de Israel em Gaza com a matança em escala industrial dos judeus na Alemanha de Hitler. Não poderia ter comparado com tantas outras? A história está repleta delas.

Em outubro passado, no início da guerra Israel x Hamas, com os palestinos no meio, desarmados, tangidos para lá e cá por mísseis e bombas de alta ou de pouca precisão, o presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, disse sobre Netanyahu o que Netanyahu jamais ouvira.

Disse, por exemplo, que o primeiro-ministro de Israel não é diferente do que foi Adolf Hitler, e comparou os ataques de Israel a Gaza ao tratamento dado pelos nazistas ao povo judeu. Netanyahu ficou furioso com Erdogan, mas não o declarou persona non grata a Israel.

Pelo que se vê, a crise diplomática provocada por uma fala improvisada de Lula repercute mais aqui do que em Israel, e tão cedo o barulho cessará. Os principais jornais do mundo publicaram notícias a respeito, mas por ora não editoriais ou artigos de opinião.

O governo israelense convocou o embaixador do Brasil para dar-lhe uma reprimenda pelo que disse Lula: o governo brasileiro convocou o embaixador de Israel com o mesmo objetivo. Coletivos de judeus se dividiram, uns acusando Lula de antissemitismo, outros o apoiando.

Lula pode ter arriscado sua credibilidade, mas a do Itamaraty está intacta. Não foram os diplomatas que aconselharam Lula a agir como ele agiu. Diplomatas americanos aconselharam o presidente Joe Biden a ser mais duro com Israel, e ele não é. Pode ser derrotado também por isso.

As relações do Brasil com os países democráticos não esfriaram com a fala de Lula, e não há sinais de que esfriarão. Os Estados Unidos estão às vésperas de apresentar à ONU uma resolução que, pela primeira vez, pede o cessar-fogo em Gaza “o mais rápido possível”.

Lula não pedirá desculpas pelo que disse, mas por meio de Janja, sua mulher, explicou o que quis dizer. Ela postou nas redes sociais:

“[…] Tenho certeza que se o Presidente Lula tivesse vivenciado o período da Segunda Guerra, ele teria da mesma forma defendido o direito à vida dos judeus. A fala se referiu ao governo genocida e não ao povo judeu. Sejamos honestos nas análises.”

Agora, afirmar que Israel está numa campanha de bombardeios apenas contra o Hamas, e adotou medidas para reduzir a morte de civis, é uma grossa mentira. Israel – ou melhor: seu governo de extrema-direita – pratica um genocídio; o que envergonha a maioria dos judeus.

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Pensamento do Dia

 


O fugidio deixa-se apanhar

Os deveres do cronista suportam-se bem porque é ele que decide quais são.

Um desses deveres é detectar o fugidio. À nossa volta, estão paisagens e modos de vida que ainda não sabem que estão a morrer. Temos de apanhá-los antes que morram. Não é um prazer mórbido. É uma despedida.

Sente-se quando se vai a um quiosque comprar jornais e todos os outros clientes estão a comprar boletins de apostas.

As coisas fugidias estão numa espécie de Outono tardio. Ainda há sol. Ainda há tempo. Precisamos é de lá estar. Quando uma coisa boa – ou mesmo má – desaparece de repente, é sinal de que os nossos detectores não estão a funcionar.


Todas as mortes são anunciadas. Nós é que não sabemos ler os anúncios.

Há quem se vicie em chorar o que já não existe. É quase como se esperassem pacientemente que as coisas desaparecessem, para poderem entrar em acção, como carpideiras à porta do cemitério, a pôr pingos nos olhos enquanto consultam os telemóveis, à espera que morra alguém.

É mais triste do que se pensa. O fugidio deixa-se apanhar. Precisa de nós: está a morrer. Se calhar, ainda pensa que pode sobreviver. Conta connosco para a renascença.

Não é azar, nem a maldade dos tempos sequer. As coisas vivas têm tempos de vida. Umas são borboletas e morrem muito depressa: a morte faz parte da beleza delas. Outras são tartarugas e morrem muito devagar: deixamo-nos irremediavelmente distrair, porque morremos antes delas.

O fugidio pode ser uma coisa má: um saco de plástico para transportar uma alface, uma aceleração escusada num automóvel, a pressa de despejar o lixo todo num contentor para lixo indiferenciado.

Para aproveitar enquanto se pode, primeiro é preciso detectar o que nos está a fugir.

“Já fui tarde” é o nome do nosso fado. “Quando cheguei, já tinha fechado” é sempre o primeiro verso. Não é coisa de velhos nem de saudosistas: cada vez há mais crianças que estão a deixar fugir a infância, sem saber aproveitá-la.

É preciso apanhar o fugidio.

Modo de reprodução

O Ódio casou com a Vida e tiveram muitos filhos: execração, malquerença, atiradeira, tacape, soco, arco e flecha, desgosto, inimizade, repugnância, vingança, funda, estilingue, besta, bodoque, repulsa, revolta, aversão, irritação, inveja, porrete, cassetete, espada, florete, pedra, pedaço de pau, faca, punhal, azagaia, antipatia, desamor, desafeto, desfavor, indiferença, maledicência, desprezo, lança, adaga, machado, estoque, foice, facão, martelo, canhão, fuzil, bazuca, obus, morteiro, abominação, mentira, depreciação, constrangimento, rancor, carabina, granada, dardo, espingarda, forca, guilhotina, canivete, veneno, ciúme, ganância, insulto, repúdio, desacato, adulteração, traição, desrespeito, desorientação, racismo, escárnio, pressão psicológica, intolerância, impaciência, trabuco, pau-de-arara, mosquetão, revólver, escopeta, metralhadora, garrucha, pistola, perseguição, rejeição, abandono, tolice, insensatez, violação, desatenção, torpedo, míssil, bomba A, bomba H, contrariedade, ridículo, menosprezo, terrorismo, futilidade, pistola a laser, carro-bomba, homem-bomba. E viveram infelizes para sempre.

Rui Werneck de Capistrano

Favela e democracia

Cidade colonial e Corte de um Império escravocrata, o Rio de Janeiro produz um tipo peculiar de segregação urbana, que faz das favelas uma forma racializada de configuração urbana, por isso mesmo fartamente instrumentalizada como antítese da cidade, um lugar habitado por um “outro”, contra o qual se opõe um ideal de cidade europeia e branca. A esse passivo histórico, devemos a crônica estigmatização da favela, que sustenta toda sorte de violência contra a sua população: da privação de saneamento à exposição a grupos armados paramilitares e às repetitivas incursões policiais, que em nada alteram esse quadro, mas que deixam um triste saldo de mortes e de traumas.


Para superarmos esse passado e imaginarmos um outro futuro, um primeiro passo é reconhecer que os que mais cultivam a democracia na cidade estão nas favelas e periferias. Mais especificamente, em seus coletivos e organizações que, há décadas, e cotidianamente, vêm lutando pelo direito a vida, educação, saúde, saneamento, cultura e outros direitos urbanos. Um segundo passo é reconhecer que são justamente eles os mais ameaçados pela simbiose em curso entre milícia e narcotráfico.

Diante desses grupos que controlam o acesso a bens de consumo nas favelas (inclusive a habitação) e que reúnem grande poder armamentista e penetração no sistema político, as trincheiras de defesa da cidade democrática no coração das favelas tendem a ficar cada vez mais vulneráveis. Daí que o cerco à narcomilícia não deva se reduzir ao necessário trabalho policial, que tem avançado com a bem-vinda participação da Polícia Federal. Para defender a democracia, também precisaremos conferir atenção especial aos danos que a narcomilícia produz no tecido da sociedade civil.

Historicamente, o Rio vem construindo redes envolvendo universidades, instituições de pesquisa e organizações de favelas e periferias. É relevante que, recentemente, Faperj e Fiocruz venham abrindo editais voltados para tais organizações. A isso se juntam trabalhos já sólidos de inúmeras organizações, de que são bons exemplos a Casa Fluminense, a Redes da Maré, o Grupo ECO Santa Marta, o Instituto Maria e João Aleixo e uma gama diversa de iniciativas como o Dicionário de Favelas Marielle Franco, o Plano do CPX, a Expo Favela e o recém-criado Centro de Pesquisas PUC-Rio – Rocinha (Unir).

Essas organizações e iniciativas, e muitas outras não citadas, evidenciam que o Rio dispõe de um consistente capital social e político, formado em torno de redes horizontais, que vivificam o compromisso com a universalização do direito aos bens de cidade e que contribuem para romper com a segregação urbana derivada do estigma da favela. Mas é preciso investir mais na sinergia entre essas ações e apostar em seu caráter estratégico. Fortalecidas, essas redes contribuem para a agenda antirracista e erguem barreiras simbólicas e políticas em face da expansão da narcomilícia que, com sua lógica mafiosa de extração de lucro e concentração de poder, afronta a cidade e a democracia.

Veados e caranguejos

Andrelândia é uma cidadezinha do Sul de Minas, daquelas que poderiam perfeitamente ser o cenário de uma bucólica novela das 7 (no tempo em que novelas das 7 eram bucólicas). O casario colonial se espalha, como as contas de um rosário, em torno da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Porto da Eterna Salvação (é assim que o hino municipal descreve a enorme praça ovalada, mais parecendo uma nau) no centro histórico daquela que um dia foi a Vila Bela do Turvo.

A meio caminho entre Ibitipoca e São Thomé das Letras, Andrelândia não ostenta a natureza intocada de uma nem os toques sobrenaturais da outra. Mas tem algo que a faz única: um bipartidarismo próprio, que — para o bem e, principalmente, para o mal — sobreviveu aos mais de 150 partidos políticos da nossa História.


Nas cédulas e nas urnas eletrônicas, as siglas podiam ser UDN, PR, PL, PSD, PTB, PCdoB, MDB, Arena, PSDB, Novo, PT; na cabeça do eleitor, o voto seria nos veados ou nos caranguejos.

Esta é outra peculiaridade, e remonta ao século XIX, quando um grupo se insurgiu contra a hegemonia do Partido Liberal e fundou o Partido Republicano do Turvo. Os eleitores do primeiro, tradicionalistas, perderam terreno. Andaram para trás, viraram caranguejos. Os do segundo, dando saltos adiante, se autodenominaram veados — e desde então Andrelândia deve ser o único lugar em que esse termo tem uma acepção ideológica.

Emulando as mesquinharias da política nacional (em que Bolsa Família vira Auxílio Brasil para depois voltar ao nome original — que já era um rebranding dos vários programas de transferência de renda de outro governo), as obras dos veados eram abandonadas nas administrações dos caranguejos, e vice-versa. Como a resultante das forças dos que saltavam para a frente e dos que andavam para trás é nula, a cidade estagnou.

O Brasil é uma grande Andrelândia, aprisionado no modelo binário (e eventualmente paradoxal) em que se muda o rótulo, mas os ingredientes permanecem os mesmos. Lá, os veados — outrora reformadores — se acomodaram no PMDB; e foram os tucanos que acolheram os conservadores caranguejos. Mais ou menos como, noutra escala, os “progressistas” defendem estatização, protecionismo, censura — enquanto “reacionários” propõem liberalismo econômico (e um golpe de Estado, de vez em quando).

O mais ilustre dos andrelandenses, o historiador José Murilo de Carvalho (ocupante por quase 20 anos da cadeira 5 da Academia Brasileira de Letras) escreveu que os quatro pecados capitais do Brasil eram a escravidão, o latifúndio, o patrimonialismo e o patriarcalismo. Poderia ter incluído um quinto: o maniqueísmo. Esse que faz com que, em 2024, ainda sejamos divididos entre fascistas e comunistas — categorias do início do século XX, ressuscitadas como espantalhos.

Nesta semana, o apresentador Luciano Huck foi xingado no Xuíter por compartilhar um artigo pró-democracia. Como se sabe, só quem é esquerdista desde criancinha pode — mesmo apoiando ditaduras e terroristas — se considerar um humanista, um democrata.

É o mal de pertencer a uma fauna limitada a cervídeos e crustáceos, que insiste em negar a diversidade, a nuance, a complexidade, a possibilidade de convergência.

Quem souber como superar o estágio de veados x caranguejos em Andrelândia talvez tenha a chave para destravar o Brasil.

Quem cata suas latinas é trabalhador?

Não importa como você decidiu comemorar seu Carnaval. Se decidiu cair na folia, lá serão eles e elas, os catadores de latinhas. E quem olhou com atenção para as ruas cidades das brasileiras nestes quatro dias, viu que "Carnaval é cheio de cor, mas só uma cata latinha". Essa frase do artista A Coisa Ficou Preta estampou um post que circulou muito nas redes sociais mais progressistas do país, traduzindo aquilo que já sabemos quase que "intuitivamente", mas que foi confirmado por estudos do IPEA: os catadores são, na sua maioria, homens e mulheres negras.

É isso, nem mesmo a festa momesca e a transcendência que ela provoca consegue alterar ou suspender a realidade: quem recolhe as toneladas e mais toneladas de latinas tem uma cor específica, e não usa glitter.


Em artigo publicado no portal Mundo Negro em 12 de fevereiro de 2024, Priscila Arantes sublinhou questões fundamentais que acompanham a relação intrínseca entre catar lixo, a pertença racial desses sujeitos e as péssimas condições de trabalho em que eles estão. Dois em cada três catadores se autodeclararam negros ou pardos.

A precariedade é pouco para definir as condições de trabalho a que são submetidos (tanto aqueles que se organizam em associações e cooperativas, como os que trabalham de forma autônoma) e, se isso não bastasse, nos últimos anos a renda mensal de catadoras associadas caiu significativamente . Atualmente, muitos desses trabalhadores não conseguem tirar nem R$ 300 por mês, catando a mesma quantidade de lixo que, há três anos, eles rendem um pouco mais do que um salário mínimo .

De acordo com o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis ​​(MNCR), estamos falando das condições de vida de aproximadamente 800 mil pessoas, que são diretamente responsáveis ​​por 90% da reciclagem de lixo no Brasil.

As pessoas cujo trabalho permite que o custo da reciclagem de alumínio caia pela metade, são as mesmas que, embora organizadas em cooperativas e tendo contratos celebrados com algumas prefeituras do país, não têm previsão de quanto receber, e muitas vezes estão sujeitas a condições de trabalho que coloca sua saúde em risco por causas ocasionais, como a falta de equipamento adequado para trabalhar.

O mais perverso disso tudo, é que vivemos numa era em que o princípio da sustentabilidade está em voga. Ainda bem. Afinal, é fundamental revisarmos os padrões de consumo e descarte das últimas décadas.

Mas, como sublinhado por Anita Cristina de Jesus, chefe da Divisão de Sustentabilidade, Acessibilidade e Inclusão do TRT-4 do Rio Grande do Sul, esse processo não pode simplesmente desconsiderar as questões que norteiam a vida dos catadores e catadoras, como se eles apenas fizeram parte do cenário que compõe o processo de reciclagem. Antes de mais nada é preciso enxergar esses homens e mulheres naquilo que são: trabalhadores.

Essa vem sendo a luta da maior parte dos catadores e catadoras, principalmente aqueles que atuam no MNCR, como Alexandro Cardoso, o Alex Catador, importante liderança do movimento que recentemente concluiu uma etnografia na qual analisa e humaniza a vida e o trabalho dos catadores.

Um estudo que vale a pena ser lido, para que não esqueçamos do estigma histórico que acompanha pessoas negras e pobres que trabalham com a coleta de lixo e dejetos (lembremos que por muito tempo eram escravizados que faziam tais atividades), mas também para lembrar que , embora estejamos atualizando uma coisa bacana e importante, não temos muita ideia de como e onde esse processo se dá.

Sendo bem francos: a parte mais substancial do trabalho dos catadores é invisibilizada, e aquela que parece acaba gerando compaixão, mas não nos mobiliza muito: o máximo que fazemos é sermos educados e solícitos ao entregar as latinhas nas mãos desses homens e mulheres.

Tudo isso para dizer o óbvio: um projeto sustentável que não leva em consideração o trabalho e a critério por condições minimamente dignas dos catadores é falho em sua essência. Sustentabilidade que descarta pessoas, principalmente pobres e negras, é apenas outro nome para racismo ambiental.

Antes que nosso planeta seja a ponto de tornar uma vida humana insustentável, famílias de catadores podem morrer de fome. Uma contradição trágica que diz muito sobre o nosso tempo, e que exige que as ações do Estado, mesmo quando bem-intencionadas, devam colocar os direitos dos trabalhadores em primeiro lugar na formulação de políticas públicas sobre reciclagem.

Pois é, todo Carnaval tem seu fim. E precisamos decidir para onde vai o lixo que produzimos nele e em todo o restante do ano.

A sorte é que caminhos já foram traçados. E um bom começo é enxergar, escutar e aprender com os trabalhadores que vêm coletando nosso lixo há tanto tempo.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Ataque israelense a Rafah será uma catástrofe humanitária sem precedentes

A única coisa que podemos fazer agora é pedir, implorar, chorar: não entre em Rafah. Um ataque israelita a Rafah será um ataque ao maior campo de refugiados do mundo. Irá arrastar o exército israelita para a prática de crimes de guerra de uma gravidade que nem eles próprios conseguiram alcançar. Neste momento é impossível invadir Rafah sem cometer crimes de guerra. Se as Forças de Defesa de Israel (IDF) invadirem Rafah, a cidade se tornará uma casa funerária.

Existem actualmente cerca de 1,4 milhões de pessoas deslocadas em Rafah, algumas das quais se refugiam sob sacos de plástico convertidos em tendas. A Administração dos EUA, suposto guardião da lei e da consciência israelita, condicionou a invasão de Rafah a um plano israelita para evacuar a cidade. Tal plano existe e não pode existir, mesmo que Israel consiga inventar alguma coisa.


É impossível transportar um milhão de pessoas totalmente indefesas, algumas das quais já foram deslocadas duas ou três vezes, de um lugar “seguro” para outro, lugares que sempre se tornam campos de extermínio. É impossível transportar milhões de pessoas como gado. Nem mesmo o gado pode ser transportado com tanta crueldade.

Também não há lugar para evacuar estes milhões de pessoas. Na devastada Faixa de Gaza não há mais para onde ir. Se os refugiados de Rafah forem transferidos para Al-Mawasi, como as FDI proporão no seu plano humanitário, Al-Mawasi tornar-se-á palco de um desastre humanitário como nunca vimos na Faixa.

Yarden Michaeli e Avi Scharf relatam que toda a população da Faixa de Gaza, 2,3 milhões de pessoas, deverá ser evacuada num espaço de 16 quilómetros quadrados, aproximadamente o tamanho do Aeroporto Internacional Ben-Gurion. Toda Gaza no espaço do aeroporto, imagine.

Amira Hass calculou que se um milhão de pessoas for para Al-Mawasi, a densidade populacional será de 62.500 pessoas por quilómetro quadrado. Não há nada em Al-Mawasi: nem infra-estruturas, nem água, nem electricidade, nem habitação. Só areia e mais areia, para absorver o sangue, o esgoto e as epidemias. Pensar nisto não só faz gelar o sangue, mas também mostra o nível de desumanização que Israel atingiu no seu planeamento.

Sangue será derramado em Al-Mawasi, como foi recentemente derramado em Rafah, o penúltimo porto seguro oferecido por Israel. O serviço de segurança Shin Bet encontrará um oficial afiliado ao Hamas que terá de ser eliminado lançando uma bomba de uma tonelada no novo acampamento. Vinte espectadores, a maioria crianças, morrerão. Correspondentes militares nos contarão, com olhos brilhantes, sobre o maravilhoso trabalho que as FDI estão fazendo para liquidar o alto comando do Hamas. A vitória total está próxima; Mais uma vez, os israelitas ficarão satisfeitos.

No entanto, mesmo através desta alimentação forçada, a opinião pública israelita deve despertar, e com ela a Administração Biden. Esta emergência é mais grave do que qualquer outra durante esta guerra. Os americanos devem bloquear a invasão de Rafah com acções e não com palavras. Só eles podem deter Israel.

O sector consciente da comunidade israelita procura outras fontes de informação além das estações daqui, que são “doces para os soldados” e que se autodenominam canais de notícias. Assista a imagens de Rafah em qualquer canal estrangeiro – você não verá nada em Israel – e entenderá por que ela não pode ser evacuada. Imaginem Al-Mawasi com os dois milhões de pessoas deslocadas e compreenderão como proliferam os crimes de guerra.

No sábado, o corpo de Hind Hamada, de seis anos – ou Rajab, em alguns meios de comunicação – foi encontrado. A menina ficou famosa em todo o mundo após os momentos de terror que ela e a família viveram no dia 29 de janeiro diante de um tanque israelense – momentos que foram registrados em um telefonema com o Crescente Vermelho Palestino, até que os ataques cessaram. terror de sua tia. Todos os oito membros da família morreram.

Hind foi encontrada morta no carro queimado de sua tia em um posto de gasolina em Khan Yunis. Ela ficou ferida e coberta pelos sete cadáveres de seus familiares; sangrou até a morte antes de poder sair do veículo. Hind e sua família responderam ao apelo “humanitário” de Israel para evacuar. Quem quiser mais milhares de Hinds, que invada Rafah, cuja população será evacuada para Al-Mawasi.

A cultura do celular e a morte do homem simples

O novo sujeito social e político da sociedade pós-moderna é simbolizado pelo telefone celular. Social porque a sociabilidade dos seres humanos dele depende cada vez mais. Político porque por meio dele a política deixou de se apoiar na mediação de ideias sobre o bem comum para se tornar um processo político mediado por uma coisa portátil. Um esvaziamento da política que a vem tornando um novo meio de dominação, o da mentira verossímil.

Portátil porque o usuário pode levá-lo no bolso. Mas, em vez de ser levado, é ele que leva o seu dono, dono que se tornou instrumento do objeto que usa, objeto de seu objeto.


Essa não é a única nem a mais significativa anomalia que mediatiza e demarca nossa situação social, que define os marcos de nossas condutas, que empobrece nossos horizontes, que engendra um modo social de ser em que não somos, nem pessoas nem cidadãos.

Claro que é impossível desconhecer a importância que o celular tem na vida cotidiana de todos nós. Já não podemos viver sem ele. Mas é ele, também, um dos instrumentos de um número significativo de invisibilidades desta sociedade. É por aí que somos dominados, amansados, enganados e induzidos a ser e fazer o que não queremos nem devemos.

A vacina defensiva contra ele é a consciência socialmente crítica, que não deve ser confundida com a polarização ideológica que dominou e domina a situação política brasileira. Com exceções notáveis, direita e esquerda criaram uma cumplicidade reprodutiva e imobilista no sentido de se tornarem reciprocamente úteis e necessárias. Criaram um sistema.

Historicamente, a sociedade se move para solucionar necessidades sociais conscientes, o que depende de busca de saída no objetivamente possível. O destino histórico da sociedade não sai do bolso do colete nem do militante nem do reacionário, nem do silêncio nem do berro. Daí só sai alienação e bloqueio.

O Brasil desse sistema de dominação é completamente falso.

A pós-modernidade tem o símbolo complementar no dedo indicador, que digita, mas não pensa. O cérebro já não tem prontidão para reconhecer diferenças sociais significativas e desafiadoras. As dos processos interativos que mobilizem o ser humano para que se humanize naquilo que faz e seja um construtor social da realidade.

Para confirmar o nome dos dedos de minha mão e escrever este comentário, levei menos de meio minuto e recebi de volta mais de 4 milhões de informações sobre “dedos da mão”. Para conferir o que eu já sabia.

Só que, diferente do que acontecia quando eu era criança e adolescente, em que eu colhia ideias na própria memória como colhia goiabas na goiabeira. E colhia apenas o que ia usar e comer. Na busca de uma única informação, o celular me permite colher milhões de informações inúteis em meio minuto, pelas quais eu pago.

O sistema econômico que dá sentido às funções desse instrumento se tornou um sistema produtivo de informações, mas improdutivo de realidades funcionais e mesmo materiais.

De famílias de lavradores caipiras e artesãos de fábricas, desde muito pequeno aprendi a fazer coisas úteis com minhas próprias mãos. Aos 7 anos de idade, eu já fazia meus próprios brinquedos. O primeiro presente de Natal, de que me lembro, foi um joguinho de ferramentas de carpinteiro, para criança, pois meu pai me queria carpinteiro, uma tradição de família.

Aquele brinquedo me fazia feliz. Meu celular e tudo que ele significa e pode não me fazem feliz. Eu clico na tecla para receber aquilo de que preciso e ele me traz de volta não só milhões de informações que não preciso. Mas milhões de informações que me privam das referências da consciência social e política e me dizem que o mundo em que vivo é um mundo de incerteza e perigo. Já não é um mundo de saber, esperança e alegria. O homem simples está morrendo.

A cultura do dedo indicador nos tira a alegria da dúvida criativa, o prazer de imaginar e da imaginação, ao nos tornar apenas instrumentos de um imaginário fabricado por algoritmos.

Algo pouco notado, ela libertou satanás das profundezas do inferno, o inimigo da nossa luta pelo bem, pela liberdade e pela esperança. Ela libertou o medo e o transformou num poder. Satanás tem mais presença nos púlpitos de igrejas do que o próprio Deus. Porque é em nome dele que Deus passou a existir. Os templos deixaram de ser o lugar do sagrado para ser apenas um lugar de refúgio. O mero lugar da espera apocalíptica, a negação do hoje e do atual em nome do quimérico e falso.

Ele não é um ser de fora do mundo. O deus pós-moderno é manipulador, dissimulado, satânico, que fala no bem para implantar o mal. Cuja missão é a de criar o novo sujeito social da nulificação da pessoa, a multidão sem rumo.