quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Vandalismo isolou extrema direita, mas sociedade segue polarizada

Os atos de vandalismo ocorridos em 8 de janeiro isolaram a extrema direita, porém, a sociedade continua polarizada. A pronta resposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra os sediciosos e a dura reação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes contiveram a escalada golpista. A pesquisa divulgada ontem pelo Ipec mostra que 54% dos brasileiros confiam no petista. Por outro lado, 41% disseram que não confiam e 4% não responderam ou não opinaram.

A maior parte dos que confiam no presidente são homens (59%), com mais de 60 anos (63%), que possuem escolaridade até o ensino fundamental (65%) e que moram na região Nordeste (77%). O índice dos que não confiam é maior entre as mulheres (45%). Elas são jovens de 25 a 34 anos (46%), com ensino superior (49%) e moradoras da região Sul (53%). O dado mais positivo foi o fato de que 55% dos entrevistados acreditam que o governo Lula será bom ou ótimo. Já para 21% será ruim ou péssimo. Os que consideram que a gestão será regular são 18%. Essa expectativa não pode ser frustrada.



Será um erro confundir o isolamento da extrema-direita com o de Jair Bolsonaro (PL). Nas redes sociais, permanece o dispositivo montado para manipular a opinião pública e coordenar as ações bolsonaristas, apesar de todas as medidas tomadas até agora contra os propagadores de fake news e financiadores do que houve no domingo. As narrativas construídas nas redes bolsonaristas atribuem a depredação do Palácio do Planalto, do Congresso e do STF à ação de provocadores, desvinculando-as de Bolsonaro, que foi para Miami exatamente para que isso fosse possível. Insistem na tese da fraude eleitoral.

Entretanto, o presidente Lula saiu fortalecido, as instituições também. Duas variáveis foram decisivas para demover o ex-presidente Jair Bolsonaro de assinar o tal decreto de “estado de emergência” contra o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A primeira, foi a ostensiva atuação dos presidentes dos Estados Unidos, Joe Biden, e da França, Emmanuel Macron, contra qualquer tentativa de golpe. Os militares brasileiros são sensíveis a esse posicionamento, porque são estudiosos da geopolítica e sabem que o governo Bolsonaro se tornara uma ameaça para o mundo, por causa da questão do desmatamento da Amazônia e da aproximação de Bolsonaro com o presidente da Rússia, Vladimir Putin. A segunda, a união dos Três Poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – em repúdio ao vandalismo e defesa da democracia.

Do ponto de vista da sua legitimidade, o governo Lula está blindado. Entretanto, a governança e a governabilidade são ainda um dever de casa. A primeira depende da competência dos ministros, de suas iniciativas num cenário de escassez de recursos, que exige criatividade e ações de alto impacto e baixo custo. Os titulares das diferentes pastas, principalmente as recém-criadas, ainda estão arrumando as gavetas; aguardam a demissão dos integrantes da equipe de Bolsonaro, inclusive de 8 mil militares em cargos comissionados, prevista para o próximo dia 24 de janeiro, para organizar suas equipes.

É aí que a questão da governabilidade passará pelo primeiro teste, porque uma parte desse pessoal é ligada aos generais que garantiram a posse de Lula, outra, aos partidos que estiveram com Bolsonaro e agora se dispõem a dar sustentação a Lula no Congresso. A reeleição dos atuais presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), são favas contadas, mas o sistema de alianças que se estabelecerá como hegemônico nas duas Casas tende a ser mais conservador. Pelo andar da carruagem, Pacheco será um aliado de Lula; Lira, um adversário ladino e perigoso. O prestígio de Lula na opinião pública terá um peso igual ou superior à capacidade de cooptação da administração federal, que como se sabe é muito grande.

Não se deve invocar o nome do povo em vão. A pesquisa IPEC mostrou que a desconfiança em relação ao governo Lula está na faixa de 41% dos eleitores. Bolsonaro teve 49,1% dos votos no segundo turno. Lula venceu com 50,9%, uma margem muito estreita. Esses números mostram a resiliência dos opositores do petista e são uma tentação para os que acham, equivocadamente, que Bolsonaro é um cachorro morto.

Por exemplo, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, que assume o comando do PSDB com o firme propósito de ampliar a federação com Cidadania em direção ao eleitorado bolsonarista. O novo parceiro seria o Podemos, que incorporou ao PSC. Isso lhe garantiria uma bancada de 40 deputados na Câmara, que poderia dar muito trabalho ao governo Lula e garantir sustentação à sua candidatura.

O projeto de Leite é açodado, mas vai ao encontro de setores da opinião pública, agentes econômicos e líderes políticos frustrados pelo fato de que Marina Silva (Rede), ministra do Meio Ambiente, Geraldo Alckmin (PSB), vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, e Simone Tebet (MDB), ministra do Planejamento, estão no governo e dão a ele um caráter de ampla coalizão democrática. Os órfãos da terceira via estão em busca de um candidato para chamar de seu. Não combinaram com Bolsonaro, cuja resiliência eleitoral é maior do que alguns imaginam. Por razões políticas e até antropológicas, sua liderança carismática e reacionária continua enraizadas na sociedade.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

O sentido do golpe demente

São muitas as interrogações que o golpe frustrado de 8 de janeiro em Brasília, suscita. Estarrecidos, nós perguntamos como podemos ter chegado a esse nível de barbárie a ponto de destruir os símbolos do governo de uma nação: os três poderes, o executivo, o legislativo e o judiciário? Isso não acontece por acaso. É consequência de fatores histórico-sociais anteriores que se materializaram na vandalização dos três palácios.

Filosoficamente podemos dizer que a dimensão de demens (demência, excesso, ausência da justa medida) sufocou a outra dimensão de sapiens (de racionalidade, de equilíbrio) que sempre a acompanha, pois esta é a condição humana. Ocorre que o demens prevaleceu sobre o sapiens e inundou a consciência de numerosos grupos humanos.

Tal fato mostra o lado perverso da cordialidade descrita por Sérgio Buarque de Holanda quando em Raízes do Brasil (1936) fala do brasileiro como homem cordial. A maioria dos analistas esquece a nota de rodapé que o autor faz ao explicar que cordialidade vem de coração. Neste coração há bondade, bem-querença, hospitalidade. Mas há também ódio, maldade e violência. Ambos têm sua sede no coração dos brasileiros.

O povo brasileiro mostrou a cordialidade nestas duas dimensões, a luminosa e a tenebrosa. Em Brasília desceu o espírito da demência pura, sem qualquer laivo de racionalidade, destruindo os órgãos que representam a democracia e a República.


Por que irrompeu a demência? Ela é fruto de uma história demente que começou com o genocídio dos povos originários, se implantou na colônia, como uma feitoria, uma empresa para fazer dinheiro e não para fundar uma nação. Agravou-se desmedidamente pelos 300 anos de escravismo quando pessoas arrancadas de África foram aqui feitas coisas, animais para o trabalho, escravos submetidos a todo tipo de exploração e violência a ponto que a idade média deles, segundo Darcy Ribeiro, não passar de 22 anos, tal era a brutalidade que sofriam. A abolição os jogou ao deus-dará, na rua e na favela sem qualquer compensação. Essa dívida clama aos céus até os dias de hoje.

Terminada a colonização, o povo brasileiro, no dizer do grande historiador mulato Capistrano de Abreu, foi “capado e recapado, sangrado e resangrado”. Essa lógica não foi abolida pois está presente nos 30 milhões de famintos, nos 110 milhões com insuficiência alimentar e com mais da metade de nossa população (54% de ascendência africana) pobre vivendo nas periferias das cidades, nas favelas e em condições desumanas.

Os donos do poder, “a elite do atraso” como a denomina pertinentemente Jessé Souza, sempre controlaram o poder político mesmo nas várias fases da República e nos poucos períodos de democracia representativa. As classes endinheiradas, fizeram entre si a política de conciliação, jamais de reformas e de inclusão. Logicamente se construíram várias constituições, mas quando foi que elas regularam e limitaram a ganância dos poderosos?

O nosso capitalismo é um dos mais selvagens do mundo, a ponto de Noam Chomsky dizer: “O Brasil é uma espécie de caso especial; raramente vi um país onde elementos da elite têm tanto desprezo e ódio pelos pobres e pelo povo trabalhador”. Ele nunca se deixou civilizar. Mal houve luta de classes porque eles com violência (secundada pelo braço militar) a esmagou impiedosamente.

Tivemos e temos democracia, mas sempre foi frágil e foi e é continuamente ameaçada, como se viu em vários golpes, contra Getúlio Vargas, Jango, Dilma Rousseff e no dia 8 de janeiro do corrente ano. Mas ela sempre ressurgiu.

Tudo isso deve ser tomado em consideração para termos um quadro que nos permite entender o recente golpe demente e frustrado. Vale a observação de Veríssimo num twitter: “O antipetismo não é de agora, o antipovo está no DNA da classe dominante. Ela nunca permitiu que alguém vindo do andar de baixo, subisse a outro, ocupando o centro do poder, como ocorreu com Lula/Dilma e novamente com Lula em 2023. Fez-lhe todo tipo de oposição e manobras golpistas, apoiadas pelo braço ideológico da grande imprensa corporativa”.

Há um outro ponto a ser considerado: a cultura do capital exacerbou o individualismo, a busca de bem-estar individual ou corporativo, nunca para todo um povo. Tal ethos impregnou a sociedade, os processos de socialização, as escolas, as mentes e os corações das pessoas menos críticas. Todos, de certa forma, somos reféns da cultura do capital pois nos obriga a consumir bens supérfluos e se implantou no mundo inteiro, gerando a desgraça planetária, jogando grande parte da humanidade na marginalização e pondo em risco a vida sobre o planeta Terra. Ela criou consumidores e não cidadãos.

A ditadura deste individualismo levou a muitos, a milhares a não quererem viver juntos. Preferem suas Alfa Villes e seus bairros restritos a endinheirados e especuladores. Ora, uma sociedade não existe nem se sustenta sem um pacto social. Ele se expressa por certa ordem social, materializada numa Constituição e nas leis que todos se comprometem a aceitar. Mas tanto a Constituição quanto as leis são continuamente violadas, posto que o individualismo solapou o sentido do respeito às leis, às pessoas e à ordem convencionada.

Os que estão por trás da intentona de Brasília, são tais tipos de pessoas que se consideram acima da ordem existente. Há pessoas de todas as classes, mas principalmente, representantes do grande capital. Não esqueçamos do último relatório da revista Forbes que trouxe os dados dos opulentos do Brasil: 315 bilionários, grande parte vivendo do rentismo e não da produção de bens de consumo.

O principal fator que criou as condições para este golpe frustrado, foi a atmosfera criada por Jair Bolsonaro que suscitou a dimensão demente em milhões, tomados por ódio, truculência, discriminações de todo tipo e desprezo covarde de pobres e marginalizados. A eles cabe a responsabilidade principal pelo envenenamento de nossa sociedade com traços de desumanidade, regressão a modelos sociais antiquados e não contemporâneos. Nem a religião escapou desta pestilência, especialmente em grupos de igrejas neopentecostais e também em grupo de católicos conservadores e reacionários.

Graças à rápida determinação dos Ministros do STF e do TSE nomeadamente do ministro Alexandre de Moraes e no caso do golpe a atuação rápida e inteligente do Ministro da Justiça Flávio Dino que indicou ao presidente Lula, face à gravidade da questão, a necessidade de ordenar uma intervenção federal em termos de segurança no Distrito Federal. Assim, de última hora, se conseguiu abortar um golpe. A estupidez dos invasores das três casas do governo e a destruição que lá perpetraram, freou a junta militar que, segundo o plano revelado do golpe, assumiria o poder na forma de uma ditadura com a prisão de todos os ministros, fechamento do Congresso e atos de repressão já conhecidos em nossa história.

Pode a democracia ter seus defeitos e limites, mas é ainda a melhor forma de nos permitir viver juntos, como cidadãos participativos e com garantia de direitos. Sem ela resvalamos fatalmente para a barbárie e a desumanização nas relações pessoais e sociais. Essa democracia tem que ser construída dia a dia, ser cotidiana, aberta a enriquecimentos e a se transformar numa verdadeira cultura permanente.

O sonho murcho na padaria de Bolsonaro

Uma padaria não é mais uma simples padaria cercada de pão doce por todos os lados. Uma padaria agora é uma prova do crime, uma cena inesperada do grande escândalo nacional, e sexta-feira passada, curioso pela própria natureza, fui até aquela de Copacabana onde Bolsonaro tinha tentado esconder sob sigilo de 100 anos uma despesa de R$ 55 mil.

“O sonho do Bolsonaro acabou?”, eu provoquei o funcionário assim que sentei à mesa para fazer os pedidos do lanche.


O Rio tem um roteiro atualizado de pães de fermentação natural, mas de um modo geral as padarias sofreram um processo cafona de gentrificação. Perderam a identidade. Misturaram-se com pizzarias, lanchonetes, supermercados, todas envergonhadas em apresentar ao distinto público o balcão tradicional onde dormitava inesquecível a gloriosa bisnaga fumegante de tantas infâncias.

Você saía da padaria com a bisnaga embaixo do braço, carregadinha de amor e pronta para ser barrada de manteiga Aviação. Já no caminho de casa, no entanto, sem resistir à gula, devorava os dois bicos dela que, salientes, provocavam a libido gustativa para fora do papel do embrulho. Melhor, naquele período, só o primeiro beijo.

Na hora do lanche, essa hora tão feliz, Bolsonaro jamais escalaria a Casa Cavé, há 162 anos na esquina da Uruguaiana com Sete de Setembro, para torrar seus pedidos de padaria inconstitucional, todos fura-bolos e acima do teto de gastos. A Cavé é pura poesia dos confeitos cariocas.

O ex-presidente, fã de frango frito, desprezaria seu cardápio lírico de toucinho do céu, travesseiro de amêndoas, papo de anjo, almofada, alunete, brisa, Dom Rodrigo, Margarida, lamego, pingo de tocha e trouxa d’ovos. Por mais corporativo que lhe fosse o cartão, Bolsonaro não gastaria aqui um níquel dos R$ 361.998,80 que durante os quatro anos de governo despejou na insossa padaria-lanchonete-restaurante de Copacabana.

No lanche de sexta-feira passada, eu e meus dois netos, senhor Eduardo e senhora Vera, gastamos um total de R$ 41,80, saídos em espécie do bolso do colunista. Foram sete itens: um café expresso (R$ 6,90), um pão de queijo (R$ 9,90), um suco de caju (R$ 11,90), um pão na chapa (R$ 4,90), um suco de melancia (R$ 10,90), um ovo mexido (R$ 5,90) e, sim, ele não tinha acabado, o sonho (R$ 7,80).

Ainda não se sabe exatamente o que o ex-presidente consumiu na padaria. Pela quantia espetacular num comércio relativamente barato é provável que tenha experimentado cada produto da casa, e em algum momento passou pelo mesmo tal sonho, murcho e triste, que me chegou à mesa.

O serviço demorou. Foi preciso acionar um segundo garçom (o primeiro estava atarantado com um rádio que trazia por baixo do uniforme e de onde, enquanto ele anotava o pedido, uma voz gritava “padaria! padaria!”, num tom de “socorro! socorro!” que assustava as mesas do salão).

Ao fim, veio um sonho gorduroso, que se caracterizava pela falta absoluta de delicadeza na proposta. A massa do pão e o recheio de creme amarelo uniram-se para dar ao sonho de Bolsonaro a mais radical falta de gosto. Fiquei em duas dentadas protocolares.

Na saída, perguntei ao caixa se tinha visto o ex-presidente por ali. Embora bem-humorado, o rapaz fez mais uma denúncia às muitas que agora se juntam contra o ex-cliente das despesas panificadoramente milionárias:

“Se ele deixasse os 10% dos funcionários a gente tava é bem!”

domingo, 15 de janeiro de 2023

Pensamento do Dia

 


A guerrilha de extrema direita desafia o governo

O governo Lula atribui ao governo de Brasília o ônus sobre a falha e/ou omissão na contenção dos golpistas em 8 de janeiro. Permanece a dúvida se o governo Lula não podia ter previsto que o governo de Brasília era cúmplice do golpe. O serviço de inteligência desde cedo no domingo avisou que a Praça dos Três Poderes e os prédios públicos seriam atacados. E o Planalto não checou qual defesa estava efetivamente sendo organizada. Poderia exigir do governador uma contenção à altura. Caso contrário, por motivos óbvios, decretaria a intervenção federal preventiva na segurança, antes da invasão, e a teria impedido.

Hábito de psicanalista é notar incoerências em narrativas, mesmo fora do divã (psicanálise aplicada). Com efeito, perguntado se “o governo federal não confiou demais nas informações do governo do DF”, o interventor federal em Brasília — aliás um sujeito sério e competente —, Ricardo Capelli, respondeu:


— Você desconfia quando te dão motivos para desconfiar... As relações interfederativas se pautam pela confiança. A gente jamais imaginou que haveria uma operação desmonte da Secretaria de Segurança Pública. O que nos chegava eram informações dizendo que estava tudo bem, tudo certo, que a manifestação seria tranquila, que as tropas iriam garantir.

Ok. Mas isso em condições normais de temperatura e pressão, pois não? Sua explicação entra em contradição com o que o ministro Flávio Dino vem afirmando: que estamos vivendo um período excepcional, no qual as próprias instituições, inclusive militares, estão divididas e atravessadas por ideologias pessoais interferindo na atuação profissional dos funcionários públicos e militares.

Em tempo, nada contra Capelli, que está fazendo um excelente trabalho. E nada especificamente contra o governo recém-empossado, que ainda luta para se organizar. Aliás, o PT, por motivos políticos, é ruim de autocrítica, e ainda não fez um cálculo correto sobre o que lhe é mais danoso: reconhecer erros ou negá-los. O partido ainda deve à sociedade a diminuição de sua taxa de paranoia. Mas o governo não pode se permitir ter o mesmo sintoma, convém aceitar críticas — e aprender com a experiência, sem se sentir atacado e ameaçado por elas.

Não é preciso listar exemplos da guerrilha de extrema direita que atuou durante a ditadura militar, com uma série de violentos atentados, especialmente contra a cultura, cometidos por integrantes das próprias Forças Armadas. Deste subterrâneo emergiu o capitão Bolsonaro —ele próprio suspeito de planejar um atentado terrorista nos idos da década de 1980 — a pretexto de defender aumento dos soldos militares — e que veio a se eleger presidente da República, responsável por intimidações e ataques à democracia, e por milhares de mortes ao se omitir no combate à pandemia.

A sociedade brasileira permanece gravemente dividida após as eleições nas quais as forças democráticas venceram o obscurantismo. Dessa divisão, entre os inconformados do lado perdedor, há um braço estratégico e armado — civil e militar — disposto a prejudicar e derrubar o governo Lula e a democracia. Sua tática não será a guerra convencional, linear, anunciada. Nada de tanques ou sublevação de quartéis, mas uma guerra assimétrica. O elemento surpresa, como vimos no desmonte da defesa de Brasília, usará a tática de guerrilha, com cúmplices ocultos nas instituições oficiais e ataques inesperados e sorrateiros de toda espécie. O objetivo será tumultuar a vida dos cidadãos e aterrorizar toda a sociedade, prejudicar ainda mais a economia, criar o caos, para ensejar, agora sim, no fim da linha, uma intervenção militar.

O cenário descrito acima faz parte de conjeturas que usam elementos presentes em nossa História recente e calcula probabilidades lógicas. É suficiente para alertar as forças democráticas e advertir o governo para se preparar para uma guerra não convencional, assimétrica — uma guerra de guerrilha de extrema direita.

Bolsonarismo e estética do suicídio

Em seus dias de dor causam-me os homens
Tal pena, que nem posso atormentá-los
Johann Wolfgang von Goethe, "Fausto".

Todos nós vimos, durante a pandemia, um aspecto do bolsonarismo que não pode ser classificado de outra coisa senão de suicida. Ao militar pela liberdade irrestrita – uma distopia sem respaldo no real –, o séquito militava pelo seu direito de morrer. Semelhante ocorreu no 08 de janeiro, uma pulsão niilista pela morte, a destruição tornada estética. E isso não é coincidência.


A essa altura, poucos discordam das aproximações do bolsonarismo com o nazi-fascismo. Caso não no plano programático, ao menos no estético. Entre vários elementos em comum, um se destaca: a tanatofilia. São movimentos que têm, em seu âmago, uma pulsão pela morte. E isso se aplica não apenas aos inimigos desumanizados, mas até mesmo à sua própria seita. A morte se torna tão estetizada quanto a política em si, desejável, um passo natural para alcançar o imaginário clássico do guerreiro mítico. Uma morte em favor do que é visto como um bem maior, o que aparece no lema dos Squadristi, “Me ne frego” ou, em tradução livre, “Não me importo”; ou, ainda mais, no dos falangistas “Viva la muerte!”.


Em sua doutrina, publicada dez anos depois da Marcha Sobre Roma, Benito Mussolini diz com todas as palavras que morrer pela Itália é um mal necessário para levá-la à grandeza. O belicismo é tão fundamental ao regime que afirma que a paz “é hostil ao fascismo”.

Assim como o bolsonarismo, o nazi-fascismo surgiu como uma religião capaz de mobilizar um séquito, mobilizado por um ressentimento melancólico, ao suicídio coletivo. O líder, como um messias – coincidência fortuita e sintomática este ser o segundo nome de Jair – atua contra o vácuo e fornece um sentido, uma causa em comum, uma explicação para frustrações e ressentimentos. Grupos específicos, aquilo que Hannah Arendt denominou “inimigos objetivos”, são escolhidos como culpados para as frustrações dessa massa de ressentidos, que se tornam progressivamente agressivos e dogmáticos. Não importa o inimigo – podem ser judeus, comunistas, LGBTQ+ –, importa apenas que existam, que se tenha um alvo para mobilizar paixões e ódio. Tanto pior se houver uma crise econômica e um desejo de retorno a um passado idealizado.

O nazi-fascismo não somente não encontra seu fim junto de Hitler e Mussolini, como evolui para novas vestes e se mantém, ainda que enfraquecido, mesmo na era da democracia liberal do pós-guerra. E aflora quando as condições se mostram favoráveis. Adorno e seu grupo de pesquisa já haviam percebido e tratado disso no livro Personalidade autoritária, quando apontaram que “fascismo não era um episódio isolado, mas estava presente de forma latente em amostras da população norte-americana”. Como um animal preso em uma coleira, que reage agressivamente quando solto. Ou, como diz Rob Riemen, o “filho bárbaro da democracia de massas”.

Mesmo o maior dos autoritários sempre se afirmará democrata. Qualquer trabalho que lide com pessoas e se relacione com democracia, como se sabe, deve evitar questões diretas sobre apoio a democracia. A parcela de antidemocratas assumidos é ínfima, quando comparada aos com uma personalidade autoritária adormecida, capazes de aderir ao autoritarismo se as condições se mostrarem favoráveis.

Por mais que explicitamente autoritários para nós, os bolsonaristas que invadiram Brasília no último dia 08 de janeiro se veem como os verdadeiros defensores da democracia. É paradoxal, e certamente demagógico, mas Jair Bolsonaro e seus súditos se enxergam não como autoritários em si, mas como paladinos responsáveis por resgatar uma democracia tomada por forças autoritárias e degeneradas. Um autoritarismo para acabar com o autoritarismo, portanto. A violência do real, contra uma violência do ficcional. Para isso, o messias, que se afirma perseguido, desloca seus soldados para marchar ao som de “Viva la muerte!”. Dos falangistas a Benito Mussolini, o bolsonarismo evidenciou ser herdeiro direto de uma tradição política messiânica e suicida.

Em 1938, os integralistas, enxergando o Estado Novo como traição, organizaram um levante contra Getúlio Vargas. Plínio Salgado afirmou, pelo resto de sua vida, não ter sido responsável pela manifestação. Acusou o movimento de ter sido contaminado e infiltrado por parcelas da esquerda. Permaneceu submisso ao Estado Novo, mesmo depois de preso e de seu autoexílio. Da mesma forma, os Bolsonaro negam qualquer participação, e chegam ao ápice de apontar, sem provas, uma suposta infiltração da esquerda. Enquanto os peões se movem para o abate, o pastor permanece em sua torre, em segurança, negando qualquer responsabilidade sobre suas ovelhas, mesmo após soltá-las e alimentá-las.

Terrorismo é crime bárbaro, não ato político

Os invasores das sedes dos três poderes republicanos no domingo 8 de janeiro não podem ser tratados por seus defensores no parlamento, no Supremo Tribunal Federal (STF) ou nas mídias clássicas de comunicação ou da internet como manifestantes em protesto. Todos os que participaram da barbárie de 2023, inédita na história das democracias no mundo inteiro, são reles terroristas, praticantes de crimes comuns contra as instituições e a cidadania. Com a autoridade de quem julgou crimes da Máfia italiana, cujo histórico revelou no livro Máfia, Poder e Antimáfia, premiado no Jabuti deste ano, o desembargador aposentado de São Paulo Walter Maierovski escreveu artigo em sua coluna no UOL desmascarando os quadrilheiros que tentam esconder-se nas togas da Justiça da própria democracia, que tentaram e ainda não desistiram de derrubar, para se dizerem mártires da agressão à liberdade de expressão, o que não tem nenhuma razão de ser. São marginais a essa lei e têm de ser tratados com direito de defesa, mas com rigor, para não continuarem disseminando ódio, terror e desídia.


O então e sempre capitão Jair Messias Bolsonaro é uma espécie de falso santo padroeiro dessa desordem bárbara. Em 1986, publicou artigo na revista semanal Veja reclamando dos baixos soldos constantes das folhas de pagamento do nada glorioso Exército Nacional. Em seguida, procurou a repórter Cássia Maria, intermediária na publicação do texto, para dar conta de um atentado que planejava conjuntamente com o capitão Fábio Passos plantando bombas em quartéis e num aqueduto do Guandu, pelo qual o Rio de Janeiro é abastecido de água potável para a população. A revista publicou a história com os nomes dos candidatos a seguidores de Netchaiev. Como relata no excelente livro O Cadete e o Capitão, o grande jornalista Luiz Maklouf de Carvalho, mesmo tendo o atentado sido frustrado pelas autoridades militares, o ex-presidente, condenado a 30 anos de prisão no quartel, terminou absolvido pelo Superior Tribunal Militar (STM) com oito votos egressos da ditadura o inocentando ao aceitarem o argumento de que uma perícia teve dúvidas sobre a autoria dos croquis dos atentados, embora outro laudo a confirmasse. O acórdão surrealista da Justiça Militar lhe permitiu seguir carreira política por 30 anos como vereador e deputado federal por município e Estado do Rio. Chegou à Presidência da República, na qual passou quatro anos, prazo durante o qual trocou a denúncia da baixa remuneração pela pregação mentirosa da falsidade das contagens de votos das eleições democráticas pelas urnas eletrônicas.

A dois dias da posse da chapa vitoriosa da aliança PT-PSD, fugiu para a Flórida para escapar de possíveis implicações suas no atentado contra a lei e a ordem praticado por extremistas de direita fascinados por seu discurso e suas decisões toscas, a que se convencionou chamar de “bolsonaristas”. Antes disso, faltou ao expediente no Palácio do Planalto em prazo considerado mais do que suficiente para ser enquadrado pelos comandos militares no crime de deserção, conforme depoimento reiterado de seu ex-secetário de seu governo, o general Santos Cruz. Que também se lembrou da caracterização do abandono de serviço de qualquer emprego privado, justificando no caso demissão por justa causa.

Ainda livre do alcance da lei, na companhia de seu ex-ministro da Justiça, Anderson Torres, observa ações similares à que não conseguiu realizar com o colega Fábio Passos na invasão bárbara, escatológica e injustificável do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e da sede do STF. Enquanto usa o visto de entrada nos Estados Unidos pela falta de atitude do democrata Joe Biden e de iniciativa do Itamaraty sob nova administração, arrisca a chance de que algum atentado mafioso como o do dia 8 dê resultado positivo, já que o malogro deste ainda não resultou em pena pesada para seus financiadores, participantes e propagadores de sua canalhice, tratada como manifestação heroica de liberdade de seus sequazes. No mínimo, ao seu lado, Torres, já condenado à prisão por nove dos onze ministros do STF, ainda se beneficia da atitude de cautela excessiva do presidente Lula e de seus ministros José Múcio Monteiro, da Defesa, e Flávio Dino, da Justiça e da Segurança Pública. Sem falar na omissão indisciplinada do comandante das tropas do Exército, encarregadas de protegerem os próprios do alto poder republicano, general Gonçalves Dias, que do poeta romântico só tem mesmo a repetição do sobrenome.

A ainda tíbia, embora suficiente para abortar o golpe propriamente dito, reação do governo eleito, diplomado e empossado pelo TSE, sob o comando felizmente firme e corajoso do ministro do STF Alexandre de Moraes, deixa no ar impressões preocupantes. A demora em assumir atitude sobre os foragidos na Flórida autoriza quem defende o “sem anistia” para eles a não contar com o processamento legal da responsabilidade de ambos do malogrado pronunciamiento. A Polícia Federal encontrou um projeto de consequências golpistas lavrado em português e forma jurídica deficientes e basbaques. Seu estilo porco, sem culpar os suínos por suas loucuras, utilizado na destruição das sedes dos poderes da República, não nos deve convencer que tudo não passou de uma aventura de terroristas alucinados, sujos e malvados. O documento se insere na tradição de destruição do aparelho estatal, praticada de forma infame em ministérios fundamentais, como os da Saúde e Educação, que pode ser investigada com um mínimo de capacidade operacional para se chegar aos autores com meros exames grafológicos de melhor qualidade do que os empregados pelo STM no fim do século passado.

A gentalha que transformou a republiqueta num chiqueiro fedorento e infestado de miasmas e micróbios deve ser apenada. Tudo precisa, pelo menos deveria, ser saneado com a competência e a ousadia de Oswaldo Cruz e com a transformação de Lula da Silva num novo Pereira Passos e num Rodrigues Alves revivido. Alguém que saiba ler neste governo precisa tomar conhecimento imediato da primorosa biografia do ex-presidente paulista, escrita pelo gênio do mineiro Afonso Arinos de Melo Franco. Li-a na adolescência e a considero um autêntico vade mecum da boa gestão pública e da competente e republicana utilização da política do povo, pelo povo, para o povo e com o povo.

A patologia brasileira e seus remédios

Sem doutrina, sem partido e com aversão à política, aí está o fascismo à brasileira dando as caras nesse infausto 8 de janeiro com seus personagens decaídos, vindos de acampamentos nas proximidades de quartéis militares confiando que contariam com sua adesão ao seu movimento. Convictos em suas crenças mágicas, acreditavam que a promoção do caos com a tomada pela força da praça dos Três Poderes e das instalações físicas do poder republicano bastariam, mesmo que sem plano, aos seus propósitos de instalar um governo de exceção, que lhes cairia nas mãos por efeitos do jogo de dominó em que o caos se difundiria irresistivelmente até a ascensão ao poder do personagem a quem atribuíam qualidades míticas, que, aliás, não deu as caras nesse levante de pátio dos milagres.

Tais eventos, inéditos aqui e em toda parte do mundo conhecido, não duraram mais que poucas horas, contidos os tresloucados, homens e mulheres de todas as idades, vindos de todos os cantos do território nacional, conduzidos à prisão sem maiores resistências, mas deixando em seus rastros uma ação destrutiva que segue doendo na autoestima dos brasileiros com a profanação de obras da sua cultura e da sua civilização.

Tjeerd Royaards (Holanda)

Resta desse desastre humano um patrimônio a ser penosamente reconstruído, e bem mais que isso, identificar as raízes imediatas e as profundas a que se prendem a fim de remover a insânia e as marcas e do mal que se abriga em nossa sociedade que ainda conserva as marcas quasímodas da nossa formação a partir da grande propriedade rural escravista. Os acontecimentos extraordinários que nos abalaram, e ainda abalam, devem ser estudados pela ciência social, brasileira e estrangeira, para o que se conta não só com abundante material, mas também por uma detida investigação nas motivações dos autores, boa parte nas prisões, que se enredaram em suas práticas.

Como se diz, não se deve passar um pano nesse tétrico episódio e seguir adiante. A história do país doravante, para seguir seu curso ou decifra corretamente o que acaba de lhe ocorrer ou sucumbirá as flores do mal que germinam em seu ventre. Apuração implacável de suas causas, responsabilização dos que insuflam por palavras e atos a pregação fascista e a recusa da democracia como projeto de país, deve ser o compromisso inegociável de todos os que se opõem à barbárie que ronda a nossa vida em comum.

As altas cortes do Judiciário têm dado respostas adequadas aos crimes que foram praticados, mas isso não basta, somente da política podem proceder as ações que tenham em mira o ovo da serpente que se esconde numa sociedade de massas fragmentária, desorganizada e com seus integrantes isolados uns dos outros. A ênfase na questão social que tem caracterizado os inicios do governo Lula- Alkmin certamente é positiva, mas não pode, como se tem reparado até aqui, permanecer restrita a intenções reparadoras do Estado diante de uma sociedade absenteísta, esperando de cima que seus direitos lhe sejam concedidos. Sem partidos que a representem, sem sindicatos e movimentos sociais ativos, sem lugar e meios por onde possa experimentar seus atos de fala, arriscamo-nos a reiterar o perverso itinerário que foi a base de partida para a tragédia política que ora temos de superar.

Durante quatro anos, dia a dia, fomos testemunhas de ações liberticidas que intencionavam abater quaisquer laços orgânicos em nossa vida comum, negando-se realidade fática à existência dessa coisa chamada de sociedade. O fascismo e sua pregação neoliberal das hostes bolsonaristas só admitiam o indivíduo isolado, mônada de interesses privados somente postos em ordem pela intervenção mítica do chefe da nação. Nesse sentido, havia algo de misticismo no chienlit brasileiro de 8 de janeiro, em que uma massa de indivíduos ignaros, à falta física do seu chefe, tentou baixar o seu espírito como num culto religioso a fim de realizar a obra que lhe cabia no sentimento de todos. Bolsonaro encarnou, assim em unção mística, a depredação em que cada manifestante em êxtase destruía um ícone nacional.

Os alemães, depois de 1945, solenemente prometeram que sua tragédia nacional não mais se repetiria, e conseguiram. Seremos capazes do mesmo?

sábado, 14 de janeiro de 2023

Pensamento do Dia

 


Fedem igualmente


Os políticos e a as fraldas são semelhantes, possuem o mesmo conteúdo
Eça de Queirós

Pela democracia, é preciso desbolsonarizar o Brasil

O destino da democracia depende também de um processo de desbolsonarização. O bolsonarismo tem vários aspectos, mas trata-se aqui da sua frente político-institucional. Isto é, de dar cabo do projeto de solapar ou suprimir a república (eleições livres, separação e autonomia de Poderes, direitos civis e políticos).

O bolsonarismo é também uma seita fanática, messiânica, não raro adepta da violência política. É um ressentimento sociocultural reacionário (machistas e inimigos em geral da diversidade humana, aversão ao debate público racional e às instituições da ciência etc.).

É ainda um modo pelo qual certos grupos sociais procuram obter mais poder: líderes do partido religioso e militar, empresários "liberais", o agro ogro. É um meio para grupos criminosos se enraizarem politicamente (garimpeiros, grileiros, desmatadores, milícias, exterminadores de indígenas e de lideranças populares); meio de suprimir movimentos sociais.


É fácil perceber que nem todo eleitor de Jair Bolsonaro é bolsonarista.

Os bolsonarismos pareciam instrumentos úteis para projetos de poder de elites em geral, que normalizaram o monstro desde 2017. A partir de 2020, em especial em agosto de 2022, a elite mais civilizada acordou. Foi pouco e tarde.

De interesse mais prático, desbolsonarizar significa o fim da tolerância com o projeto golpista. Parece banalidade. Mas um motivo do levante de domingo ou do risco de coisa ainda pior foi a aceitação desapercebida ou interessada da campanha subversiva.

Não houve processo de impeachment de Bolsonaro nem punição para seus generais. Quase nenhum golpista foi processado, afora figuras menores ou caricatas. A desídia da Procuradoria-Geral da República ficou sem punição —há tempo ainda de submeter Augusto Aras e colaboradores a impeachment. A contenção judicial da subversão ocorre por meio de gambiarras no Supremo.

A tolerância com o projeto subversivo incentivou a adesão à causa e a infiltração institucional. A polícia do Distrito Federal é apenas um exemplo, agora mais do que escandaloso.

Não se tomou atitude em relação a intervenções políticas das Forças Armadas. Oficiais participaram dos ataques de domingo. Muitos fazem propaganda em rede social do golpismo. É preciso dar um fim, com punição pesada, a qualquer manifestação militar sobre política.

Empresários financiam faz anos os comícios autoritários. Até anteontem, expoentes do empresariado de institutos liberais incentivavam ajuntamentos golpistas de porta de quartel, agora terroristas. Líderes de entidades de classe de elites profissionais apoiaram o motim.

Em resumo, é preciso estabelecer que a propaganda da violência política é um crime constitucional, por assim dizer, com penas pesadas. Jamais foi assim e, portanto, a este ponto chegamos.

Leis, instituições de investigação e vigilância, organizações militares, o Ministério Público, tudo deve ser revisto para que se contenha o projeto subversivo, com atenção especial para o funcionalismo armado ou com posição de relevo institucional. Vale para a violência política de qualquer cor ideológica, hoje amarela, amanhã sabe-se lá qual.

A democracia depende de muito mais do que a desbolsonarização (depende inclusive da estabilidade social, econômica e da reforma do sistema partidário repulsivo). É insuficiente condenar os responsáveis imediatos pelo levante de domingo. É preciso lidar com a negligência mais escandalosamente evidente: ser golpista não custa quase nada.

Manifestos, repúdios ou reuniões simbólicas de autoridades da República não bastam. Precisamos de reforma institucional profunda. Quem vai leva-la adiante é o problema.

O Bolsonarismo estava bem vivo, agora está morto-vivo

A principal nota das presidenciais brasileiras não foi a vitória de Lula, foi a força do bolsonarismo que, com 49 milhões de votos, mudou a paisagem política brasileira. Mas a insistência em imitar Trump – desconfiança nos resultados, ausência na posse do sucessor, alimentação de uma base negacionista – colocaram Bolsonaro no comando de uma marcha de mortos-vivos demasiado perigosa que dificilmente terá um apoio sólido.

Dois anos e dois dias depois, a história repetiu-se como tragédia e farsa de uma assentada. O Capitólio de 6 e janeiro de 2021 e a Praça dos Três Poderes de 2023 serão recordados em conjunto por muito tempo. Já sabemos que o assalto de Washington não liquidou Trump, bem pelo contrário, e que o seu poder sobre o Partido Republicano só começou a ser posto em causa quando a sua estrela eleitoral brilhou pouco ou nada nas intercalares do ano passado. Ainda sabemos pouco sobre o triplo assalto de Brasília, mas hoje Bolsonaro cruzou o Rubicão e os partidos de centro e direita começarão a tentar limitar o seu raio de ação.

O sistema político brasileiro é uma cópia aproximada do americano. Mas tem uma enorme diferença no número de partidos – nascem como cogumelos e caem como tordos –, que conseguem eleger representantes ao nível municipal, estadual ou federal. Na ressaca do impeachment de Dilma e da Operação Lava Jato (que varreu tudo, do PT ao centro-direita), Jair Bolsonaro conseguiu facilmente caminhar sobre as águas e surgir como aglutinador de todos os que queriam afastar o PT do poder.

Os seus defeitos, excessos, bizarrias, casos de indigência ou de simpatia declarada pela ditadura militar e pela tortura eram imensos. Mas a corrupção no PT era tão descarada que a promessa de limpeza do sistema foi facilmente conseguida. Quatro anos depois, em 2022, foi bem diferente. Quando se apresentou a votos Bolsonaro era o político mais detestado do Brasil. Perdeu para o segundo mais detestado do Brasil, Luiz Inácio Lula da Siva.

Lula era o político com mais capacidade agregar uma frente contra Bolsonaro, mas também o mais fácil de atacar. No fim da sengunda volta ficou claro que o bolsonarismo estava bem vivo e que tinha mudado a paisagem política brasileira, revolucionando o tradicional centro-direita brasileiro, nas ideias, nos valores e na prática. Mas ficou também claro que na enorme massa de 49 milhões de eleitores existia um grupo mais pequeno que se recusava a acreditar no resultado. Isso não acontecia por acaso; a ideia foi sistemática e laboriosamente trabalhada por Jair Bolsonaro desde o verão de 2021, quando começou a pôr em causa a seriedade do apuramento de votos.

A desconfiança do sistema eleitoral, somada à guerra aberta com o poder judicial foram seladas com o silêncio e ambiguidade do Presidente derrotado. Esteve calado dias e dias depois das eleições, deixou que o país fosse paralisado por cortes de estradas, nunca felicitou o opositor, deixou que a ideia de golpe eleitoral galopasse nos grupos de WhatsApp dos seus apoiantes, ao mesmo tempo que cresciam os pedidos de uma intervenção militar. Faltou à posse, saiu do país dois dias antes e rumou aos EUA de férias, onde estará pelo menos até ao final do mês.

Tendo o poder de, com poucas palavras, desmobilizar os acampamentos que os seus apoiantes fizeram junto aos quartéis, nunca o usou. Sabendo que podiam marchar sobre Brasília, nunca os travou. Quando escrevo este artigo – cinco horas depois do assalto – continua em silêncio. Talvez o rompa, provavelmente com a ambiguidade de sempre, de quem precisa de alimentar a sua base mais militante nem que seja à distância, no exílio temporário na Flórida. O problema de Bolsonaro é que essa base – que nunca o abandonará – cruzou uma linha demasiado perigosa.

Os militares, que alinham com Bolsonaro, estarão declaradamente contra isto. As policias dificilmente poderão contemporizar com mais selfies ao lado de vândalos. Os governadores terão que defender a sua lei e ordem. Os empresários, que têm horror ao caos e à desordem, não vão alinhar em mais nada. Os mercados detestaram as primeiras medidas de Lula, algumas com tiques venezuelanos. Mas ainda detestam mais a anarquia no poder.

Em três meses o bolsonarismo passou de movimento bem vivo a uma marcha de mortos-vivos que se arrastam pelos jardins de Niemeyer para partir vidros, destruir quadros e arrancar portas em delírio. Uma imitação demasiado grotesca e fraca da partitura de Trump e que dificilmente conseguirá manter a força durante muito tempo.

O Estado policial de Bolsonaro

Diz a velha frase que o pior de uma ditadura não é o ditador, mas o guarda da esquina. Não caia nessa. O ditador pode tudo, inclusive nomear os guardas da esquina —os delegados, investigadores e comandantes das forças policiais que o ajudarão a implantar a ditadura. E é impressionante como, em todos os escândalos criminais, financeiros ou institucionais do governo Bolsonaro, sempre houve alguém da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária ou da Polícia Militar envolvido.

Enquanto não se fizer a completa desratização, continuará a haver. Mesmo com Bolsonaro fora do Planalto, os ataques em Brasília denunciam a ação ou omissão de policiais, escoltando os terroristas pela rua ou lhes dando passe livre para invadir e depredar. Não por acaso, um dos acusados pela conspiração, iniciada já na diplomação de Lula, é um policial, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro e que acabara de ser nomeado para o cargo-chave de secretário de Segurança do DF.


Escalar delegados para este ou aquele posto é uma função que um presidente normal confia a seus subordinados da Justiça. Mas, dia após dia, por quatro anos, Bolsonaro desceu da cadeira para cuidar disso em pessoa. Era como se a presença de tal policial, não outro, mesmo nos cafundós, fosse fundamental para a condução do país —e, no caso, era. Bolsonaro trocou dezenas de delegados em cargos de chefia, bastando que um deles relaxasse na proteção de um seu familiar ou acólito ou insinuasse algo que significasse menos do que submissão total (e nada deixava de chegar aos seus ouvidos).

Enquanto nos ocupávamos do seu ostensivo processo de corrupção do Exército, Bolsonaro, em surdina, estava implantando um Estado policial. Teve tempo para infiltrar as polícias de todos os estados com elementos de sua confiança ou identificados com ele.

E não necessariamente para atacar, mas para garantir os levantes civis que não se limitarão aos de Brasília.

Ataques mostram que mais uma vez a pátria está em perigo

O tumulto insurrecional da turba bolsonarista, de 8 de janeiro, não se explica por si mesmo como ação de baderneiros pura e simplesmente. Há por trás dela uma trama sabida, mais do que óbvia, que vem sendo tecida desde muito antes das eleições de 2018.

O tumulto tem, também, motivações subjetivas de categoria social com mentalidade identificável e causas sociologicamente explicáveis.

À primeira vista os terroristas, inclusive os de aluguel, foram e têm sido manipulados e têm estado disponíveis para a baderna por meio da ação de agentes de visibilidade notória em decorrência de fatores de classe social. São os da baixa classe média raivosa, que vem acumulando frustrações sociais, manipuladas para se expressarem como frustrações políticas e ódio ideológico.

De um lado, em decorrência das crescentes limitações da possibilidade de ascensão social num cenário de crise, incerteza e medo, de desemprego intermitente e reemprego cada vez mais demorado.


Cenário que se reflete nas dificuldades de sobrevivência de pequenas e médias empresas de comércio e de serviços. Uma grande crise de capitalismo sem destino próprio, cujos empresários expressam essa marginalidade econômica e sem autonomia. Politicamente administrado, como se viu no governo que acabou, com base em teoria imprópria, estranha à realidade e às limitações da economia do país.

Um capitalismo de cópia malfeita, que não veio acompanhada da bula sobre os efeitos colaterais e a medicação apropriada para resolver e superar os problemas do desencontro entre o teórico e o real.

Paralelamente ao real fantasioso de um poder prepotente que governa contra o que a sociedade é e em nome do que não é nem pode ser, uma outra sociedade brasileira, legítima e verdadeira, dos que ficaram à margem da História, vem se desenvolvendo, lenta e sofridamente, ao longo dos séculos.

Povos indígenas, pretos de diferentes etnias, mestiços dos vários encontros raciais e étnicos e até mestiços de brancos com brancos, que nos fazem o que somos, mulheres de diferentes idades e condições sociais, operários e trabalhadores rurais e mesmo filhos da diversificação de identidades que surgiram com a originalidade própria da modernidade, ganharam perfil e identidade.

Todos esses seres humanos historicamente marginalizados tornaram-se visíveis ao abrigo da cultura alternativa e da sociedade alternativa que nela se expressa, durante a ditadura militar e sua repressão em nome de uma identidade brasileira de quartel, sem passado nem futuro.

Os movimentos sociais deram-lhe vitalidade social, mas também política. Tiveram o discernimento de agruparem-se sobretudo num novo e diferente partido, o dos Trabalhadores. E, afinal, elegeram e reelegeram um operário como presidente da República. Os grupos e as categorias sociais com mais discernimento, como empresários, intelectuais, artistas e religiosos de diferentes confissões, deram-lhe a mediação das conexões de sentido, as de um projeto pluralista e democrático de nação.

E, agora, numa reação explícita e politicamente construtiva contra as estreitezas e intolerâncias do legado ditatorial, reagruparam-se numa Frente Democrática e elegeram o operário, novamente, presidente da República. A composição do governo expõe de modo apoteótico a pluralidade dos democraticamente simples e da gestão pluralista do destino do povo.

A epopeia cívica do dia 1º de janeiro mostrou ao mundo a cara de um novo Brasil, o verdadeiro, de uma nova concepção de poder, de uma nova e civilizada concepção de desenvolvimento econômico com desenvolvimento social.

A baixa classe média raivosa que no dia 8 invadiu os recintos dos poderes do Estado democrático, o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, moveu-se, perambulou, depredou em nome da ignorância. Aquilo foi o doloroso retrato do que é o poder invisível legado pela ditadura e mantido na ingenuidade de uma tolerância imprudente dos que se omitiram em nome da democracia.

O patrimônio da memória brasileira e da identidade brasileira, bens culturais da nação, obras de arte, objetos históricos, móveis e instalações foram mutilados e mesmo destruídos. Um relógio, trazido por Dom João, em 1808, foi destroçado.

As imagens permitiram testemunhar ao vivo e em cores cada gesto, cada ato da ignorância metamorfoseada em retorno de um poder, o poder bolsonarista, o outro lado do espetáculo de barbárie da reunião ministerial de 22 de abril de 2020.

A baderna insana que a nação viu é crime conexo com os crimes contra a pátria sintetizados na mentalidade exposta naquela reunião e no conjunto de atos antissociais que marcaram o governo recém-encerrado. Mais uma vez a pátria está em perigo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Pensamento do Dia

 


A batalha pela democracia não acabou

A invasão dos prédios dos Três Poderes por terroristas bolsonaristas foi o maior ataque à democracia brasileira desde sua restauração, em 1985. O país vive o momento democrático mais longo de sua história, mas tendências políticas e sociais autoritárias ainda são relevantes, representadas principalmente pelo bolsonarismo e por grupos extremistas que orbitam em torno dele. Embora a tentativa de golpe de Estado tenha fracassado, e as instituições tenham reagido fortemente contra os vândalos fascistas, o perigo continua rondando o Brasil.

A batalha pela democracia não acabou com o Capitólio à brasileira. Três frentes deverão ser enfrentadas para garantir o regime democrático nos próximos anos. A primeira envolve fortalecer as instituições contra ameaças autoritárias. Isso passa, de início, pela recuperação dos órgãos que, de algum modo, colaboraram com o bolsonarismo. O Ministério Público Federal (MPF), sobretudo a cúpula, as polícias Federal e Rodoviária e, com grande destaque, as Forças Armadas e as PMs têm de ser direcionadas a um comportamento republicano e democrático.


O MPF terá de atuar mais firmemente nos diversos processos que surgirão contra os terroristas e seus financiadores, incluindo atuações que atingirão a família Bolsonaro. A PF e a PRF terão de se guiar pela defesa da ordem democrática e serão essenciais na investigação e controle de grupos de extremistas que agem subterraneamente na sociedade. Mas o maior desafio será desbolsonarizar as Forças Armadas. Nos últimos anos, vários de seus integrantes, da reserva e da ativa, compraram o modelo golpista bolsonarista.

A culpa da verdadeira barbárie que tomou conta de Brasília não foi somente da PM do Distrito Federal. As Forças Armadas foram cúmplices neste processo. O problema é que o episódio causou uma enorme reação na sociedade brasileira e, sobretudo, das principais nações do mundo. Desse modo, ao flertar com o golpismo, as Forças Armadas podem perder a legitimidade interna e externa, neste caso principalmente dos Estados Unidos. Seria a maior desmoralização de sua história, o que dificultaria o exercício de seu papel essencial para a manutenção da ordem nacional. Caxias deve estar se remexendo no túmulo de revolta e vergonha com a instituição que criou.

A frente institucional também passa pela ação firme do Legislativo, do Judiciário e da Federação contra os golpistas e terroristas que seguem o bolsonarismo. É preciso dizer em alto e bom som: a vitória desses extremistas seria a destruição da legitimidade de toda a classe política e dos membros do sistema de Justiça. O STF e o TSE foram os guardiões da democracia nos últimos meses, e agora precisarão muito da atuação conjunta com a Câmara, o Senado, os governadores e o presidente da República. Aliás, o Executivo federal tem de se abrir mais para grupos políticos e sociais mais diversos do que o petismo se quiser evitar o caos autoritário.

Uma segunda frente da batalha pela democracia é a investigação e a punição de todos os responsáveis pela construção do mais amplo movimento de complô contra o regime democrático brasileiro. Há uma liderança clara aqui: é o bolsonarismo que alimentou nos últimos anos a visão golpista da política, cujo resultado último foi a mobilização de terroristas financiados por agentes econômicos. O 8 de janeiro foi o dia da infâmia contra os valores mais profundos da civilização brasileira e, por isso, é fundamental punir sua principal liderança: o ex-presidente Bolsonaro.

Por fim, há uma luta de mais longo prazo para garantir a solidez da democracia brasileira. É a batalha social pelos corações e mentes dos brasileiros em torno de ideais e práticas democráticas. Muitos parentes e amigos dos terroristas estão desesperados neste momento e precisam de ajuda. Muitos dos que votaram em Bolsonaro estão sem chão no momento e precisam de apoio. As escolas, igrejas, empresas e as padarias da esquina precisam conversar sobre democracia. O extremismo é mais profundo do que as mobilizações dos terroristas em Brasília. É fundamental ouvir especialistas como Michele Prado e Guilherme Casarões, que estão acompanhando as redes de ódio montadas nos últimos anos. Para se livrar do autoritarismo e da desgraça econômica, social e internacional que adviria de sua vitória, o país terá de semear flores democráticas que tragam esperança a todo o povo brasileiro.

Bolsonarismo: uma doença messiânica que envergonha a direita

Não suportamos o pensamento discordante. Não gostamos do contraditório. A oposição de ideias causa desconforto no fundo da nossa alma. O sangue corre mais rápido, o coração bate mais depressa e a pupila dilata. A temperatura do corpo sobe, sentimos náusea e nos afastamos de quem trouxe o pensamento diferente. O sentimento é de repulsa por aquela pessoa. Passamos a não gostar dela. O nosso egocentrismo narcisista nos distancia de sermos confrontados por pensamentos diferentes.

O mundo dividido, gravemente, por divergência de ideias é insustentável para a evolução humana. Os pensamentos de José Saramago sempre me incomodaram sobre o papel da religião na divisão do nosso mundo: as religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos, e sim, para dividir (…) o mundo seria mais pacífico se todos fôssemos ateus. (As Palavras de Saramago, Cia das Letras, 2010).


Saramago pode estar certo, em parte. Explico. Os dogmas de uma religião são estabelecidos com base em um sistema de princípios, de ideias que não podem ser questionadas. Esses princípios não aceitam o contraditório (a origem do mundo, a existência de Deus, a Imaculada Conceição). Não há pensamentos diferentes para os dogmas: eles têm unicidade, verdades absolutas e inquestionáveis, são imutáveis, irrevogáveis e definitivos (Hebreus 13,8).

No último dia do ano de 2022, Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI, morreu e deixou um legado de “Opera Omnia” (Obras Completas) de 21 volumes. Quando Prefeito da Congregação pela Doutrina da Fé, o então Cardeal Ratzinger estabeleceu intensos debates contra a Teologia da Libertação, dos padres Gustavo Gutiérrez e Leonardo Boff. Essa teoria defendia o repensar sobre os dogmas para aproximar igreja e política com o objetivo de resolver o problema da injustiça social. Porém, não há debate sobre os dogmas, já que não existe espaço para o contraditório. E mais, não se pode confundir a vida material da política com a vida espiritual da religião. Por isso, os padres foram condenados por intermédio da Instrução aprovada em reunião ordinária da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé aos 06 de agosto de 1984.

Dessa maneira, o Papa Bento XVI deixou uma lição histórica para a humanidade, de que não há espaço para o debate sobre os dogmas que fundam uma religião. Portanto, como envolver a religião no discurso político? Haja vista que a essência do discurso político é o debate entre pensamentos diferentes, o contraditório dos plurais em busca da decisão do possível. Como envolver religião e política? Não se envolve. Não se pode e não se deve envolver. Só oportunistas confundem o mundo material e o espiritual. Tudo pelo poder.

Nos últimos anos, vimos um homem, Jair Messias Bolsonaro, e seus aliados, pseudos defensores do ideário de direita, escolherem o caminho mais fácil para chegar ao poder de um país: o da religião. São impostores, oportunistas. Quando o pensamento religioso dogmático, que não admite o contraditório (essência da política), é inserido em um discurso político, o resultado é a construção de uma divisão na sociedade que passa a definir a luta pelo poder político entre o bem e o mal, entre Deus e o diabo.

O discurso fácil, emotivo, religioso dogmático, que não admite a existência de pensamentos diferentes, leva parte da sociedade, composta por pessoas de bem, a cenas deprimentes de histeria coletiva e ruptura do tecido social, como presenciamos no último domingo (a depredação da Capital Federal do Brasil aos 08 de janeiro de 2023). O mundo já viveu isso.

Não faz muito tempo, vimos uma sociedade apaixonada seguir um líder com o símbolo de uma cruz de 5 mil anos atrás, símbolo esse que pertenceu a várias culturas e religiões, dos celtas aos budistas. Sob o manto dessa cruz milenar, assistimos a tal sociedade apaixonada ser enganada por métodos de psicologia comunicacional invasiva de religiosidade dogmática: o bem contra o mal, Deus e o diabo, a luta contra os vermelhos e contra o comunismo, a defesa dos escolhidos pela raça, a salvação de Deus, e, literalmente, Deutschland über alles, expressão que ainda consta na primeira estrofe do hino alemão, mas difícil de cantar, por vergonha de um tempo que “Alemanha acima de tudo” era o principal slogan nazista.

E tudo isso para qual objetivo? A ideia era justamente que o discurso messiânico de um Fuhrer oportunista capturasse a mente, alma e espírito de uma sociedade de boa-fé que hoje sente vergonha desse passado que jamais pode ser esquecido, mas sim evitado.

No nosso país, nos tempos de hoje, aqueles que se autodenominam de direita andaram mal. Fizeram um desserviço ao país quando apoiaram e aceitaram os impostores e oportunistas do bolsonarismo a trazer a religião para o discurso político. Vergonhosamente, trocaram o alto nível dos debates de conceitos e ideias entre a direita e a esquerda, pelo pobre e demagógico discurso do medo messiânico, do bem contra o mal. Abandonaram a história de grandes nomes do liberalismo de direita que construíram reputações sólidas na política e nunca se escusaram de debater seus pensamentos com grandes quadros da esquerda. Os mais antigos lembrarão do célebre debate entre Roberto Campos e Luís Carlos Prestes sobre Capitalismo e Socialismo, transmitido pela TVE, em 1985.

Os bons pensadores da direita precisam urgentemente recuperar o protagonismo, parar e refletir sobre tudo o que aconteceu e repensar o caminho, sem religião, sem discursos, enganosamente, emotivos messiânicos. Os verdadeiros líderes políticos, homens públicos, estadistas da direita não podem e não devem se restringir apenas a ganhar uma eleição a qualquer preço, apropriando-se da religião para um projeto de poder. É urgente a reconstrução de uma Nação plural, de direita e esquerda, com diálogo, com respeito, sob valores e princípios, justa e, principalmente, laica, de todas as cores, raças, credos, culturas e religiões.

O legado messiânico do bolsonarimo é uma doença que envergonha a história da nossa direita. Constrange, ameaça e agride pessoas, leva uma sociedade de bem à cegueira coletiva de um “messias” que salvará o Brasil do diabo, do comunismo, quando, na verdade, tais fariseus, impostores, bolsonaristas, querem a manutenção de um poder autocrático.

Sendo governo constituído ou não, a direita é responsável por um país de paz, de descendentes de índios, europeus e africanos, de orientais, uma pátria mãe que acolhe em harmonia judeus e árabes, sem conflitos históricos religiosos, uma nação de imigrantes, nativos e refugiados; um país de um povo e de todos os povos ao mesmo tempo, que acolhe o contraditório, o diferente, a diversidade, sob o manto principiológico do respeito. Somos uma única pátria Brasil. Uma pátria universal. E não uma pátria de doentes bolsonaristas.

O cerco a Bolsonaro começa a se fechar

Nunca antes na história do Brasil democrático um ministro da Justiça, ou ex-ministro, teve sua prisão decretada. Nunca antes um presidente fugiu do país para não passar a faixa ao seu sucessor. E nunca antes manifestantes invadiram ao mesmo tempo as sedes dos três Poderes da República, destruindo o que puderam.

Está bom ou quer mais? Nunca antes o Exército forneceu abrigo a golpistas que pediam a anulação de eleições por discordarem dos seus resultados. Nunca antes portas de quartéis viraram incubadoras de terroristas, como bem observou recentemente o novo ministro da Justiça, Flávio Dino (PSB-MA).


A pedido da Advocacia-Geral da União, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, ordenou a prisão de Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro. Um dia depois de assumir a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal, Torres voou ao encontro de Bolsonaro em Orlando.

Antes de fazê-lo, demitiu ocupantes de cargos-chave da Secretaria e não nomeou seus substitutos. Dessa forma, a Secretaria estava acéfala no dia da tentativa do golpe insinuado há mais de ano pelo ex-presidente que se evadiu. Torres anunciou sua volta ao Brasil para não ter que entrar na lista dos procurados pela Interpol.

Quer ele colabore ou não com as investigações sobre o golpe, a memória do seu celular poderá ajudar a esclarecer muitas coisas. Por saber disso, ele antecipou que o celular foi clonado e que alguém em seu nome teria enviado mensagens. É a construção de um álibi para defender-se de possíveis acusações.

Bolsonaro já construiu o dele para desvincular-se da suspeita de que sabia do golpe. Dirá que condenou os bloqueios de estradas por caminhoneiros, a invasão por vândalos do Palácio do Planalto, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, e que estava fora do país quando isso aconteceu. Convincente?

Quanto à memória do seu celular… Uma vez, pediram ao Supremo a apreensão do celular de Bolsonaro. Ele revoltou-se, disse que jamais o entregaria, antes mesmo de o Supremo julgar o pedido improcedente. Mas à época, ele era o presidente. Agora, não é mais nada, e responde a quatro inquéritos no Supremo.

Se o único problema de Bolsonaro fosse o celular, ele não teria problema algum. Poderia jogá-lo no mar da Flórida, onde se refugiou, e alegar depois que o perdeu ou que ele lhe foi roubado. Mais dia menos dia, Bolsonaro será forçado a retornar ao Brasil; teme ser mandado embora pelo governo americano.

Se pensa em exilar-se na Itália, terra dos seus avós, fique sabendo que por lá não será bem-vindo. O governo da Itália é de extrema-direita, embora finja que é só de direita. Sob pressão de chefes de Estado da Comunidade Europeia, a primeira-ministra italiana criticou o movimento golpista do último dia 8 no Brasil.

Bolsonaro arrisca-se a ficar parecido com o antigo porta-aviões São Paulo, da Marinha brasileira. Posto à venda, ele foi comprado por uma empresa turca para ser desmontado e transformado em sucata. Sua entrada na Turquia, porém, foi proibida pelo governo porque o navio contém materiais tóxicos em sua estrutura.

Desde então, o navio vaga pelo mundo sem encontrar um país que o aceite.

Veneno bolsonarista em corações e mentes surte efeito

Os danos materiais devem chegar aos milhões, que agora terão de ser pagos pelos contribuintes brasileiros graças aos fanáticos bolsonaristas. Atearam fogo, quebraram janelas e móveis, destruíram obras de arte extremamente valiosas, urinaram em móveis e jogaram aparelhos eletrônicos como impressoras, computadores, micro-ondas, monitores e televisores no chão. O Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto estão em ruínas.

Mas maior é o dano à democracia brasileira e à psique coletiva do país. Uma minoria fanática e violenta cometeu crimes em série na frente das câmeras ao longo do dia na capital. Enquanto grande parte da mídia liberal passou a dar nome aos bois ​​– golpistas, criminosos, terroristas – outros ainda cativam a simpatia do bolsonarismo. Trata-se aqui de índices de audiência, cliques, curtidas e claro: dinheiro!

A maior porta-voz do bolsonarismo, a emissora Jovem Pan, deu incríveis piruetas retóricas para de alguma forma justificar os criminosos como cidadãos preocupados. Falou-se de "o povo" mostrando sua vontade. Como se o povo não tivesse manifestado sua vontade ao eleger Lula como presidente.

Precursor e cúmplice de Bolsonaro, Sergio Moro minimizou falando de "invasores" que "precisam se retirar". E o blogueiro foragido Allan dos Santos, contra quem há um mandado de prisão, pediu que os escalões inferiores das forças militares e policiais desobedecessem às ordens e, assim, convocou abertamente um golpe de Estado.


Allan é um bom exemplo de como ganhar muito dinheiro com conteúdo fanático. Ele pertence a uma legião de influencers, políticos, empresários e pastores evangélicos extremistas que lucram espalhando o veneno bolsonarista de mentiras e meias-verdades, delírios pseudorreligiosos, intolerância, ignorância, arrogância, violência e pura estupidez na mente e no coração de milhões de brasileiros. O veneno contaminou, sobretudo, as forças de segurança, como ficou mais uma vez evidente em Brasília. É um desenvolvimento ameaçador.

Com o bolsonarismo, surgiu no Brasil um movimento de base extremista de direita, cujos integrantes se consideram os salvadores da pátria – sem, claro, nunca terem perguntado aos outros brasileiros. Defendem a civilidade, a verdade e a liberdade contra os comunistas – sem realmente saber o que significa comunismo. Parece quase impossível trazer essas pessoas de volta à realidade

Há pelo menos quatro anos, são alimentados e incitados com desinformação. Hoje acreditam que estão legitimamente resistindo a um governo ilegítimo. Em muitos casos, falam abertamente de uma "necessária guerra civil". A esquizofrenia do movimento, que quer salvar a pátria mergulhando-a primeiro no abismo, é evidente no fato de que muitos bolsonaristas estão agora orgulhosos da destruição em Brasília; enquanto outros afirmam que a destruição foi perpetrada por esquerdistas infiltrados. Decidam-se!

A invasão do centro do poder brasileiro é, portanto, um sinal de alerta. Existem hoje no Brasil grupos extremamente radicalizados que são financiados e apoiados logisticamente por empresários. Eles estão prontos para espalhar o terror e desfrutam de certa compreensão e apoio no aparato de segurança.

Por ser difícil ensiná-los novamente algo como práticas civis e democráticas, eles e os articuladores destes atos devem primeiro ser retirados de circulação e punidos. Para o bem e segurança dos reais cidadãos do bem.