segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

O mundo paralelo dos que não respeitam a própria bandeira que vestem

Nunca se viu algo igual às micaretas bolsonaristas dispersas há mais de mês pelo Sul-Sudeste do País: chacrinhas sebastianistas, a clamar pela volta da ditadura militar, entre outras quimeras abomináveis, como a anulação do pleito que levou o ídolo da seita à derrocada nas urnas, a prisão de ministros, e até mesmo o impedimento da posse de Lula.

Vi a pantomima dos patriotários neofascistas apenas pela internet. Onde eu circulo elas não acampam, e portanto não se expõem a chacotas, aguaceiros e outras doenças além do fanatismo. Nossos telenoticiosos, sabiamente, não lhes dão bola. Estrangeiros ainda riram de algumas imagens inusitadamente absurdas, com os bozoloides implorando a pneus, ETs e às forças armadas que nos livrem de imaginários demônios e recuperem o que afinal já temos – liberdade e democracia – e eles, paradoxalmente, almejam destruir.

Não sei direito o que são, se apenas ingênuos e boçais, se agentes provocadores ideologicamente identificados com a ultradireita, vadios sexualmente descompensados ou baderneiros com pulsão de morte. Suspeito que já constituam uma nova subespécie de homo sapiens: o homo zapiens, mentalmente limitado pela dieta de fake news e teorias conspiratórias de que se empanturram pelas redes sociais.

Embrulhados no “lábaro estrelado”, suas palavras de ordem insurrecionais, suas ameaças (“É guerra!”) e seus refrões (“Deus! Pátria! Família! Liberdade!”) já têm cerca de um século de vacuidade e bolor. Proferidas com o erre retroflexo caipira, perdem todo o vigor que o alemão e o italiano lhes asseguravam.


Curioso por entender um pouco mais do comportamento desses vivandeiros golpistas, consultei o estudo de Michael Shermer sobre os motivos que levam seres racionais a acreditar no irracional, Conspiracy: Why the Rational Believe the Irrational. Aprendi o que pude e não foi muito. O assunto é complexo e em seu índice remissivo Jesus, Maomé, Noé, Nero, Hitler, Freud e QAnon têm lugar cativo.

Sim, Nero. O quinto César protagonizou uma das mais antigas teorias da conspiração. No incêndio que praticamente reduziu Roma a um monte de cinzas, 1958 anos atrás, Nero jogou a culpa nos cristãos, inaugurando um ardil diversionista que os nazistas ressuscitariam ao incendiarem o Reichstag e os milicos daqui no malogrado atentado do Riocentro, ambos ardilosamente atribuídos a subversivos comunistas.

Os soviéticos ainda estavam longe do poder quando na Rússia czarista surgiu e difundiu-se a “mãe” de todas as teorias conspiratórias do século passado, os apócrifos Protocolos dos Sábios do Sião, dando conta da dominação do mundo pelos judeus. Dessa fraudulenta cascata Hitler extraiu sua bíblia ideológica, Minha Luta, e a partir dela criou o nazismo, este sim, não o comunismo, um fantasma mais do que à espreita.

Já suportamos duas ditaduras justificadas pela paranoia anticomunista, também a seiva de tantos outros golpes de Estado e processos inquisitoriais cujo exemplo mais notório continua sendo o macarthismo. Não é de se estranhar que os patriotários do Bolsonaristão tenham ideia fixa no “perigo vermelho”. Sem ele, o presidente prestes a ir embora não teria sido eleito. Nem, por conseguinte, seu vice, que, dia desses, voltou a insistir naquela lorota de que, no levante comunista de 1935, soldados do Exército foram “covardemente assassinados enquanto dormiam”, falsidade jamais comprovada pelos estudiosos do período. E uma de nossas maiores contribuições ao futuro "Livro Guinness de Fake News Históricas".

O racista que denunciou um genocídio

Numa aula em que contou sobre como foi realizar a tradução para o alemão do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, o professor Berthold Zilly disse que teve receio de como seria a reação dos leitores do seu país, escaldados com a tragédia do Holocausto, ao se depararem com um livro que, logo na primeira página, abria falando em “esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes”.

O temor do professor se mostrou infundado, já que a versão alemã do livro, publicada em 1994, acabou sendo bem recebida pela crítica local. Foi na condição de tradutor celebrado que Zilly deu a aula que vi na adolescência, em 1997, durante uma edição da Semana Euclidiana, evento de estudos sobre a obra de Euclides da Cunha realizado anualmente em São José do Rio Pardo (SP), onde nasci. A afirmação do professor alemão ficou na minha cabeça desde então e penso que diz muito sobre o Brasil de ontem, hoje e sempre que uma das obras literárias mais celebradas do país, que em dezembro de 2022 completa 120 anos, esteja repleta de declarações tão racistas que um de seus tradutores tenha pensado duas vezes antes de verter esses trechos para a língua de um povo que até hoje carrega a culpa de ter sido responsável por um dos maiores genocídios da história.

E diz muito sobre o Brasil que esse mesmo livro, escrito por um militar branco que acreditava na vitória inevitável de uma civilização moderna de inspiração europeia sobre o atraso representado por povos racializados, tenha se tornado uma das mais poderosas denúncias sobre os monstros gerados pelo sonho dessa mesma civilização, um retrato da violência praticada pelas elites brasileiras em nome de um projeto modernizador.

Por isso, nesse momento de rescaldo do governo Jair Bolsonaro, que expôs com uma clareza rara o quanto o ódio de classe, raça e gênero está presente entre nós e como estamos longe de ser o povo pacífico e cordial que a branquitude durante muito tempo acreditou que fôssemos, pode ser uma boa ideia aproveitar o aniversário de Os Sertões para retornar a um dos livros que melhor retratou, inclusive em suas contradições, as dimensões da violência brasileira.
Um livro esquecido pelas fogueiras

Pensando no quanto de racismo existe no texto euclidiano, chama atenção que Os Sertões ainda não tenha sido posto para queimar nas fogueiras dos debates sempre inflamados das redes sociais. Mesmo a escolha de Euclides da Cunha como autor homenageado da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, em 2019, foi recebida quase sem controvérsias — com exceção de algumas vozes dissonantes, como as dos escritores Marilene Felinto e Dodô Azevedo. Curiosamente, a homenageada do ano seguinte, a poeta norte-americana Elizabeth Bishop, recebeu uma onda de questionamentos muito maior, por causa do conteúdo de cartas pessoais em que a autora defendia o golpe de 1964. Se algumas cartas, que nem faziam parte da obra literária de Bishop, puderam gerar tantas e tão duras críticas, é de se estranhar que o debate que hoje busca derrubar homenagens, em pedra ou em palavras, a figuras da branquitude ligadas ao legado da escravidão ou do autoritarismo, tenha até hoje poupado uma obra como Os Sertões.

Afinal, é um livro que afirma com todas as letras a superioridade da raça branca sobre todas as demais e a necessidade de evitar a mestiçagem, já que a mistura de seres superiores e inferiores estaria destinada a produzir indivíduos “desequilibrados”, sempre em busca de embranquecer sua descendência por meio de “cruzamentos que apaguem na sua prole o estigma da fronte escurecida”, uma vez que “a raça superior torna-se o objetivo remoto para onde tendem os mestiços deprimidos”. Com declarações como essas, não é de se estranhar que Euclides da Cunha ainda não tenha se tornado um alvo de repúdio tanto quanto Bishop, Gilberto Freyre ou Monteiro Lobato?


Penso em duas explicações. Uma, talvez um tanto pessimista, é a de que talvez Euclides não seja mais odiado apenas por ser pouco lido. Publicado em 1902, Os Sertões foi elaborado numa linguagem que, mesmo para a época, já soava cheia de “termos técnicos, de um boleio de frase como quer que seja arrevesado, de arcaísmos e sobretudo de neologismos, de expressões obsoletas ou raras”, como observou o crítico literário José Veríssimo na época do lançamento. É um daqueles livros que costuma repelir leitores desavisados. Uma vez que o leitor ultrapasse a barreira da linguagem estranha, que mistura ciência e literatura, vai se ver jogado numa guerra feroz de contradições — e aí levanto uma segunda hipótese para Euclides não ter ainda entrado na lista de autores cujas estátuas devem ser derrubadas. É que o autor faz tantas afirmações opostas, uma em seguida da outra, que mesmo a sua visão racista, afirmada de maneira aparentemente inequívoca em diversas páginas, é constantemente desmentida em meio ao turbilhão da narrativa que Euclides constrói em seguida. É muito mais simples aplicar o rótulo de racista às obras de Lobato, ou mesmo de Freyre, que apresentam uma visão de mundo exposta de modo claro e coerente, do que ao livro de Euclides da Cunha, todo feito de antíteses e contradições.

Na raiz dessas contradições, que fazem de Os Sertões um livro tão único, estava a posição social de Euclides da Cunha. Os Sertões é uma obra que faz a denúncia de um crime, escrita por um autor que pertencia de corpo e alma ao grupo dos assassinos.

Nascido em 1866, em Cantagalo, no Rio de Janeiro, Euclides da Cunha foi um defensor ardoroso da República desde a juventude. Em 1888, quando estudava na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, então capital federal, protagonizou um protesto contra a monarquia, ao atirar um sabre aos pés do ministro da Guerra do imperador Dom Pedro II. O gesto rebelde — e solitário — em favor da República o obrigou a deixar o Exército. No ano seguinte, após os militares derrubarem o governo monárquico e proclamarem a República, Euclides pode ser reintegrado e concluir os estudos na Escola Superior de Guerra. Atuou como engenheiro e jornalista, abandonando a farda em 1896.

No ano seguinte, participou do debate público em torno do assunto que dominava todas as conversas na capital do país: as notícias sobre uma suposta rebelião monarquista instalada no arraial de Canudos, no interior da Bahia, comandado pelo líder religioso Antônio Conselheiro. Os “jagunços” de Canudos, como eram chamados, já haviam rechaçado três expedições do Exército enviadas contra eles, o que espalhou o pânico entre as elites do Sudeste e deu origem a todo tipo de boataria. Em No Calor da Hora: A Guerra de Canudos nos Jornais, a pesquisadora Walnice Nogueira Galvão mostra que Canudos foi retratada pelos jornais da época com um nível de desinformação digno dos dos atuais grupos de Whatsapp. Entre as mamadeiras de piroca que os jornais publicavam como se fossem notícias, estavam as informações de que os rebelados de Canudos usariam armamento de último tipo e teriam ligações com grupos monarquistas estrangeiros, instalados em Nova York, Paris e Buenos Aires, com o objetivo de derrubar a recém proclamada República brasileira.

A respeito de Canudos, Euclides publicou dois artigos no jornal O Estado de S.Paulo, que não diferiam da maneira como a maioria dos jornalistas tratava o tema. Com o título A Nossa Vendeia, os artigos comparavam Canudos com uma rebelião levada a cabo pela aliança entre nobres e camponeses da região de Vendeia, na França, contra a Revolução Francesa, no século XVIII, e concluía dizendo: “A República sairá triunfante desta última prova”.

Para Euclides, a vitória inevitável da República era como um dado científico, assentado na crença positivista de que a história seguia um caminho evolutivo natural. A elite intelectual branca da qual Euclides fazia parte via a República como uma oportunidade para o Brasil se tornar uma nação moderna, aos moldes europeus. Após se livrar da escravidão e dos reis que nos prendiam ao atraso, o país agora rumava para o futuro, com apoio de seus militares, a quem deveria caber um papel decisivo na atividade política. Num tempo em que o racismo tinha status de verdade científica, um passo importante rumo à modernidade, defendida por praticamente todos os intelectuais, era o branqueamento da população por meio do fluxo migratório de europeus. Dentro de uma visão determinista, esse plano era encarado como um processo histórico inevitável. Uma vez que a história anda para a frente, era o destino da República e da civilização, brancas e de inspiração europeia, triunfarem sobre os povos e costumes de raças inferiores. “Estamos condenados à civilização: ou progredimos ou desaparecemos”, escreveria Euclides, anos mais tarde, numa conhecida passagem do seu livro Os Sertões. Símbolo do atraso e da barbárie, Canudos estava destinada a desaparecer.

Convidado a atuar como correspondente do Estadão em Canudos, Euclides foi até o sertão baiano conhecer de perto o triunfo dos belos ideais da República que ele celebrava. Sua proximidade com o Exército era tanto ideológica como física: o jornalista viajou em companhia do ministro da Guerra, comissionado como seu adido, acompanhando a quarta expedição militar enviada contra o arraial de Canudos. O que viu no campo de batalha, porém, mudou a vida de Euclides da Cunha. Descobriu que os canudenses não eram os perigosos monarquistas que ameaçavam sua querida República, mas uma gente pobre que apenas lutava pela própria sobrevivência, combatendo com coragem milhares de militares enviados até ali para destruí-los sem qualquer motivo justificável. E que o Exército da República, portadora do sonho de civilização almejado pela intelectualidade da época, era responsável pela verdadeira barbárie do conflito.

As carnificinas cometidas pelo Exército apareceram nas reportagens de alguns dos repórteres que cobriam o conflito, apesar da censura prévia imposta pelos militares. Eram narradas sem escândalo pelos jornalistas. “A hora em que partimos vimo-los seguir para a caatinga, a fim de receberem a gravata vermelha. O leitor sabe o que significa esta gravata vermelha? A morte”, escreveu, com naturalidade, Lelis Piedade, do Jornal de Notícias, sobre a degola de prisioneiros. Alguns repórteres se identificavam tanto com o lado dos militares que chegavam a declarar simpatia pela matança de mulheres e crianças em incêndios provocados por dinamites do Exército. “E o incêndio lavrava desesperado e violento, devorando com suas labaredas, casas, homens, mulheres e crianças, nada poupando, nada respeitando. (…) E assim passaram-se uns 50 minutos de uma expectativa ansiosa, de um desespero simpático para nós e de agonia para eles, os relapsos da lei e de ordem, os desagregados da sociedade”, descreve Favila Nunes, da Gazeta de Notícias.

A rebelião chegou ao fim em outubro de 1897, quando o valoroso Exército brasileiro matou até o último combatente, degolou todos os prisioneiros, arrasou o arraial com querosene e dinamite e levou mulheres e crianças que sobraram para serem dadas de presente ou vendidas como trabalhadoras domésticas para pessoas de bem. Estima-se que o massacre tenha deixado 25 mil mortos, o que faria de Canudos um dos maiores assassinatos em massa cometidos por um governo contra seu próprio povo na América Latina.

Se não chegou a defender em suas reportagens as matanças cometidas pelos militares, Euclides também não as denunciou. Seus textos de correspondente omitiram os abusos cometidos pelos militares, não se sabe se por decisão própria ou por efeito da censura militar sobre os repórteres correspondentes. Levou cinco anos para o jornalista relatar os crimes cometidos pela República em Canudos, por meio do livro Os Sertões, que publicou em dezembro de 1902. Era o seu “livro vingador”, como Euclides o chamava.

Uma obra contraditória desde a primeira página. Logo após o trecho em que enuncia a regra universal e inevitável do esmagamento das raças fracas pelas fortes, que tanto incomodaria o seu tradutor alemão nove décadas depois, o autor afirma que, embora a destruição de Canudos pela civilização republicana tenha seguido essa norma universal, “foi, na significação integral da palavra, um crime”. De cara, delineia o principal embate do livro. Do seu lugar de fala de homem branco, republicano, urbano, habitante do litoral, ex-militar e fruto de uma educação europeizada, Euclides enxergava o mundo por meio de instrumentos ideológicos que eram incapazes de darem conta do que havia visto no sertão de Canudos. O escrúpulo jornalístico de Euclides o levou a descrever os fatos como haviam se apresentado a ele e a denunciar todo o horror que havia apurado, mas não conseguiu abrir mão do racismo científico tão em moda na época, e que havia sido criado justamente para justificar o imperialismo, a escravidão e a prática de massacres como o de Canudos.

Obrigado pelo seu senso de pesquisador e repórter a contar como foi o massacre de Canudos, mas incapaz de abandonar a visão de mundo racista que essa mesma narrativa desmentia, Euclides abre mão de qualquer tentativa de síntese e faz da contradição a base da sua obra. Ao mesmo tempo em que lamenta o desequilíbrio gerado pela mestiçagem no país reclama da falta de “unidade de raça” entre os brasileiros, destaca a força dos habitantes do sertão (“O sertanejo é, antes de tudo, um forte”), a quem chama de “rocha viva da nossa raça” e que transforma nos heróis de seu livro. Já os militares, também mestiços, porém representantes da civilização branca, racional e científica em que Euclides acreditava, vão se revelar, no campo de batalha, tão fanatizados quanto seus inimigos:

“A luta pela República, e contra os seus imaginários inimigos, era uma cruzada. Os que daquele modo se abatiam à entrada de Canudos tinham todos, sem excetuar um único, colgada ao peito esquerdo em medalhas de bronze, a efígie do marechal Floriano Peixoto e, morrendo, saudavam a sua memória — com o mesmo entusiasmo delirante, com a mesma dedicação incoercível e com a mesma aberração fanática com que os jagunços bradavam pelo Bom Jesus misericordioso e milagroso…”

Pior. Os mais chocantes atos de selvageria retratados no livro não são praticados pelos canudenses, mas pelos representantes armados da República, como a degola de prisioneiros, que, agora sim, Euclides descreve em detalhes.

Chegando à primeira canhada encoberta, realizava-se uma cena vulgar. Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República, que era poucas vezes satisfeito. Era o prólogo invariável de uma cena cruel. Agarravam-na pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço; e, francamente exposta a garganta, degolavam-na. Não raro a sofreguidão do assassino repulsava esses preparativos lúgubres. O processo era, então, mais expedito: varavam-na, prestes, a facão.

Um golpe único, entrando pelo baixo ventre. Um destripamento rápido…

Tínhamos valentes que ansiavam por essas cobardias repugnantes, tácita e explicitamente sancionadas pelos chefes militares. Apesar de três séculos de atraso, os sertanejos não lhes levavam a palma no estadear idênticas barbaridades.

Sem nunca abrir mão do próprio racismo e da crença positivista na República e na civilização, Euclides faz de Os Sertões uma poderosa denúncia sobre os crimes provocadas em nome de tudo o que acreditava. Como afirma Walnice Nogueira Galvão:

“A verdade é impossível: a verdade do livro está em suas contradições. A ideias vão e voltam, o argumento que se expõe num dado passo é seguido de seu contrário, logo depois ou centenas de páginas adiante. Tudo isso mostra, no seu movimento de vaivém, a impossibilidade vivida pela inteligência brasileira de entender o fenômeno e de tomar um e um só partido. Essa dificuldade é de ontem e é de hoje. O livro narra o movimento da inteligência, que, no caso, é de seu autor, em demanda da sínteses impossível reveladora da verdade.”
Uma acusação sem acusados

Não há qualquer ambiguidade ou contradição, porém, quando Euclides da Cunha afirma que a campanha de Canudos “foi, na significação integral da palavra, um crime”. Suas vítimas? A população de Canudos. Seus algozes? Bom, aí a coisa fica um pouco mais complicada.

Euclides em nenhum momento indica os responsáveis pelo crime que denuncia. O presidente da República, Prudente de Morais, responsável em última instância pelo massacre, e que havia feito a promessa de que “em Canudos não ficará pedra sobre pedra”, nem ao menos é mencionado no livro. O ministro da Guerra, marechal Carlos Machado de Bittencourt, que comandou as operações do Exército no local, é mencionado de passagem, descrito como “um homem frio, eivado de um ceticismo tranquilo e inofensivo”.

O autor do crime denunciado em Os Sertões é um sujeito coletivo e sem nome, referido na primeira pessoa do plural: “Eram, realmente, fragílimos aqueles pobres rebelados… Requeriam outra reação. Obrigavam-nos a outra luta. Entretanto enviamos-lhes o legislador Comblain; e esse argumento único, incisivo, supremo e moralizador — a bala”. Além de vago, é um sujeito que não tem consciência do mal que praticou: “tivemos na ação um papel de mercenários inconscientes”. É verdade que não se trata apenas de um plural majestático usado em nome da modéstia. Há algo, sim, de autocrítica, nesse uso do “nós”, especialmente se a gente pensar no papel de Euclides da Cunha como republicano, ex-militar e autor de “A Nossa Vendeia”. Seja como for, escrevendo da elite branca para a elite branca, sem a menor pretensão de ser lido para além desse círculo, Euclides estava dizendo aos seus leitores: todos nós somos culpados.

E, quando todos são, ninguém é.

A postura do “livro vingador” de Euclides contrasta com outra denúncia realizada por um escritor, três meses após o massacre de Canudos, do outro lado do Atlântico: a carta aberta enviada ao presidente da República pelo autor francês Émile Zola, em que denunciava o antissemitismo do Exército francês contra o oficial judeu Alfred Dreyfus, injustamente acusado de traição e espionagem. Publicado na primeira página do jornal L’Aurore, em 13 de janeiro de 1898, sob o título em letras garrafais “Eu acuso”, a carta se encerrava com oito parágrafos começados por essas duas palavras, em que Zola nomeia cada um dos oficiais responsáveis pela injustiça.

Ao denunciar o “caso Dreyfus”, Zola se tornou o protótipo do intelectual europeu dedicado a lutar por causas sociais. Na mesma época, Os Sertões fez de Euclides da Cunha um protótipo de intelectual branco à brasileira, com consequências bem mais tranquilas para sua vida. Enquanto Eu acuso fez Zola ser condenado por difamação e obrigado a se exilar na Inglaterra, Os Sertões transformou Euclides da Cunha em uma celebridade literária instantânea, elogiado por todos os críticos, que em menos de um ano entrou para o Instituto Histórico e Geográfico Nacional e para a Academia Brasileira de Letras. Tanto que, em 1909, quando foi morto ao tentar assassinar o amante da sua esposa, a opinião pública em peso ficou ao lado de Euclides, embora o responsável pela sua morte, o militar Dilermando de Assis, tivesse claramente agido em legítima defesa.

“Não gosto do clima de festa”, diria Mano Brown, e é de fato muito estranho pensar no clima de celebração com que Os Sertões foi recebido, por conta dos méritos literários da obra. “Com tudo isso, nem é tanto de admirar a tramitação rápida do canto do bode expiatório entoado pelo verdugo para o bode exultório em que se tornou o livro e, com ele, seu autor”, aponta Walnice Nogueira Galvão. Retrato de um genocídio, Os Sertões virou um motivo de comemoração. O massacre de Canudos virou algo a ser celebrado por conta do talento artístico de Euclides, sem qualquer consequência real para os seus algozes. O livro não foi capaz de motivar uma única investigação, nem mesmo um processo administrativo. Parece que nem era essa a intenção do autor, que nunca mencionou se ressentir da ausência de impactos reais de sua denúncia. Afinal, Euclides estava apontando o dedo para pessoas que eram como ele. Tudo indica que a intenção do “livro vingador” era apenas fazer com que a elite branca se sentisse um pouco culpada pelo crime que havia cometido: não era o caso de punir alguém de verdade.

Principal alvo da denúncia de Os Sertões, os militares nunca se desculparam pelo que fizeram em Canudos. Ao contrário. A Polícia Militar do Estado de São Paulo, força reserva e auxiliar do Exército, faz questão de celebrar uma suposta ligação mítica com os autores do massacre, tanto em um Monumento aos Heróis de Canudos, instalado no Quartel da Luz, no centro da capital paulista, como em seu Brasão de Armas, adornado com 18 estrelas que homenageiam ações de militares em momentos históricos variados, a maioria em golpes e ataques a movimentos sociais. O massacre de Canudos é homenageado pela 8ª estrela. O golpe de 1964, pela 18ª.

Levou décadas para que Os Sertões recebesse as primeiras resposta por parte dos militares, geralmente em textos contidos, respeitosos e sem traço de autocrítica. Uma resposta mais dura veio em 1958, com livro A verdade sobre “Os Sertões” (análise reivindicatória da Campanha de Canudos), de Dante de Melo, publicado pela Biblioteca do Exército. Mesmo escrito mais de meio século depois, o livro-resposta do militar consegue ser mais racista do que qualquer página de Euclides da Cunha. Veja só esse trecho em que Dante sugere que Euclides teria escrito um livro muito diferente se os canudenses houvessem vencido o conflito e que até o poeta Castro Alves teria ficado contra a abolição da escravidão se conhecesse o comportamento dos negros das favelas cariocas dos dias atuais.

Se a 4ª Expedição resultasse no fracasso das anteriores, ou se entravasse ela em situação indecisa como esteve a pique de acontecer, e a conflagração sertaneja se estendesse, alentando a força moral do monarquismo assim fortalecido; se, de volta de Canudos, Euclides da Cunha ficasse para escrever seu livro, enquanto no interior continuassem a resistência fanática espalhada e crescente, outro, muito outro por certo teria sido o tom e o teor de “Os Sertões”.

Assim também o cantar de Castro Alves, se hoje viesse à vida e criado fosse assistindo à liberdade solta em que se exercitam o nosso negroide comum e o negro das favelas cariocas, geralmente labrego e repontão.

Que sentimentos despertariam as gafieiras e futebolices, as molecadas ou a chavasqueira de tanto malandroide fula, gandaieiro por tineta, ou mazombo por força de mefíticos recalques?…

Certo ficaria indiferente o genial condoreiro, se não orientasse à ré da direção tomada, a proa do seu estro.

Sem nunca ter recebido qualquer acusação pelos crimes de Canudos, o Exército pode seguir ignorando críticas e por fim celebrando sua atuação no episódio. O mesmo comportamento que os militares adotariam ao longo dos séculos seguintes, cometendo crimes e sendo anistiados por eles. Prudente de Morais também teve sorte: o primeiro presidente civil do Brasil costuma ser chamado de muita coisa, até de “Abraham Lincoln brasileiro”, mas poucos se lembrariam de chamá-lo de genocida ou de colocar sua figura ao lado de governantes como Augusto Pinochet, Alfredo Stroessner ou Jorge Videla, apesar de seu governo ter comandado um dos maiores massacres da história latino-americana. E ainda tem gente que acredita em “julgamento da história”.

Nesse sentido, a trajetória Os Sertões, com sua acusação sem acusados, se filia à tradição conciliatória das elites, que sempre anistia os crimes dos que estão por cima, enquanto promove massacres e genocídios contra os de baixo. Ao mesmo tempo, como parte de mais uma das contradições que são sua marca, o livro se destaca, entre as obras dos autores da branquitude que se dedicaram a buscar “interpretar o Brasil”, como a que melhor retratou o caráter genocida do projeto de país executado por essas elites.
No coração das trevas

Nos últimos quatro anos, muita gente se perguntou que desvio ocorreu na história do Brasil para desembocar em um movimento de extrema-direita que celebra a violência com tanto orgulho que parece refletir o lema “Viva la muerte” dos fascistas espanhóis. A violência, contudo, sempre foi um traço estrutural da sociedade brasileira, por mais que a intelectualidade branca preferisse ignorá-la.

Dos autores famosos por suas obras que buscavam compreender o Brasil, poucos se deram conta disso, mas é porque escreviam a partir do conforto de suas vivências nos lugares tranquilos do privilégio branco. Interpretando o país a partir da sua condição de filho influente da elite cafeeira paulista, Paulo Prado enxergava no Brasil um país anêmico, a quem faltava o sangue de uma guerra ou de uma revolução para poder evoluir — ignorando o quanto de sangue negro e indígena derramado havia nessa história. Gilberto Freyre, por sua vez, ao pensar na questão racial cercado de empregados negros, dóceis e uniformizados, na sua bela casa no bairro nobre de Apicucos, no Recife, como aponta a jornalista Fabiana Moraes, só podia concluir que o Brasil vivia uma linda “democracia étnica”.

Diferente de todos esses, contudo, Euclides da Cunha baseou sua interpretação do Brasil não na sua realidade de homem branco, mas no mergulho que fez no “coração das trevas” de um massacre comandado nos sertões pela elite de que fazia parte, em nomes de ideais que também eram os seus.

Os conflitos que vemos em Os Sertões — a gente pobre massacrada por homens fardados, a destruição de vidas provocada em nome de uma ideia de modernização implantada de cima para baixo, a heróica resistência dos pobres contra o massacre cotidiano, o racismo, o culto à morte — permanecem muito atuais porque são os mesmos que a gente denuncia na Ponte Jornalismo. Todos os dias, falamos de policiais militares, orgulhosos herdeiros simbólicos dos matadores de Canudos, cometendo massacres nos territórios chamados de favelas, uma palavra que se espalhou pelo Brasil justamente a partir do conflito ocorrido no sertão baiano. É que, com o fim da guerra, muitos soldados temporários que o Estado usou para fazer seu trabalho sujo em Canudos se viram sem salário nem moradia e acabaram erguendo barracos improvisados no Morro da Providência, na então capital federal do Rio de Janeiro, e apelidaram o lugar de favela, pela semelhança com um monte chamado de Morro da Favela, que havia junto ao arraial baiano onde haviam combatido.

E permanece muito atual, ainda, a perplexidade, na forma de vertigem, que acomete o narrador ao final de Os Sertões, quando falha ao tentar descrever os momentos finais de Canudos.

Fechemos este livro.

Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.

Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem brilhos.

Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto, a par de uma perspectiva maior, a vertigem…

É a vertigem de quem se depara com a realidade do genocídio e não encontra em suas teorias, crenças ou vivências nada capaz de explicar tanto derramamento de sangue. A perplexidade de Euclides da Cunha com a violência da República é a mesma de quem olha para o Brasil de hoje, democrático e republicano, e constata que o Estado segue matando nas favelas atuais do mesmo jeito que fazia junto ao Morro da Favela em Canudos, com a mesma crueldade e igual garantia de impunidade.

Chega ao fim o reinado da primeira família presidencial brasileira

O primeiro diploma superior que Lula recebeu na vida foi de presidente da República em 2002. O segundo, em 2006, de presidente. E o terceiro, logo mais à tarde, outra vez de presidente da República. Ele diz que não será candidato à reeleição daqui a quatro anos. Mas se fizer um bom governo, poderá ser.

O de hoje é o segundo dos três atos magnos do rito democrático no Brasil. O primeiro aconteceu em 30 de outubro passado, quando foi eleito no segundo turno o 39º presidente da República do Brasil. Lula ganhou com 50,9% dos votos válidos. O terceiro ato magno será no próximo dia 1º de janeiro quando ele tomará posse.

Desde a redemocratização do país em 1985, somente um presidente negou-se a transferir a faixa ao seu sucessor, escafedendo-se pela porta dos fundos do Palácio do Planalto – João Baptista de Oliveira Figueiredo, o último do ciclo dos generais da ditadura militar de 64 que suprimiu a democracia por 21 anos.

A democracia foi suprimida sob a esfarrapada desculpa de que o comunismo a ameaçava. O presidente eleito Tancredo Neves baixou ao hospital na véspera de ser empossado. Figueiredo recusou-se a passar a faixa ao vice, José Sarney, porque não gostava dele. Na verdade, foi embora por uma porta lateral.


Filhote da ditadura, afastado do Exército por ter planejado atentados terroristas a quartéis, Bolsonaro quer repetir o gesto de Figueiredo que não fez nenhuma diferença para Sarney. O general recolheu-se ao seu sítio em Petrópolis, reformado de graça por empreiteiras que prestaram serviços ao governo.

Bolsonaro terá melhor sorte: a seu pedido, o PL, partido ao qual se filiou para disputar a reeleição, pagará o aluguel da mansão onde ele pretende morar em Brasília, a montagem de um amplo escritório de trabalho, e suas despesas com viagens. Figueiredo pediu para ser esquecido, e foi. Bolsonaro quer ser lembrado.

Figueiredo deve ser lembrado por três importantes decisões que tomou: deu continuidade à abertura política inaugurada por seu antecessor, o general Ernesto Geisel; proclamou a anistia que permitiu a volta ao país de exilados políticos; e respeitou o resultado da eleição pelo Congresso da dupla Tancredo-Sarney.

Pelo que Bolsonaro quer ser lembrado? Por legar um país com o triplo das armas que tinha no início de 2019? Por receitar cloroquina contra uma pandemia que matou quase 700 mil brasileiros? Por enfraquecer a democracia como nenhum presidente o fez? Por estimular um golpe às vésperas de sair?

O Brasil escapou de uma nova era de obscurantismo ao impedir a reeleição de Bolsonaro. Como estaríamos a essa altura? Com ele a cobrar do Congresso o expurgo de ministros do Supremo Tribunal Federal? “O patriotismo é o último refúgio do patife”, disse no século XVIII o poeta e ensaísta inglês Samuel Johnson.

Na semana passada, ao quebrar um silêncio de quase 40 dias, Bolsonaro exaltou os golpistas acampados à porta de quartéis à espera da fala das armas. Depois, ao chorar abraçado a um menino e diante de devotos que cantavam o Hino Nacional, Bolsonaro não chorou pelo Brasil, mas por ele mesmo e seus filhos.

Chega ao fim o turbulento reinado da primeira família presidencial brasileira, capítulo imprevisto da nossa história que não deixará saudades, só lições.

sábado, 10 de dezembro de 2022

O estranho espetáculo dos bolsonaristas

Um amigo meu, dono de um condomínio horizontal, disse que não dorme desde as eleições porque tem certeza de que o condomínio dele será invadido e seus lotes serão tomados para o assentamento dos menos favorecidos. Transtornado, ele acredita piamente nisto. No Paraná, um grupo entoa o hino nacional para um pneu, de caminhão. No Pernambuco, um manifestante se agarra na frente de um caminhão para tentar impedir o seu percurso. Em Santa Catarina, infantes estendem os braços em uma alusão nazista na esperança sabe-se lá do quê. No Rio Grande do Sul, manifestantes apontam seus celulares para os céus com mensagens de SOS, no anseio de que luzes não identificadas em Porto Alegre sejam Ovnis que venham salvar o país sabe-se lá do quê. Na frente dos quarteis, grupos se aglomeram pedindo intervenção militar, inócua atitude, posto ser o Exército, em sua maioria, legalista. Alguns assassinatos de cunho político se vão, vidas que se vão pelo nada do amanhã. Que país é esse? Este é o Brasil?

Em Pesquisas Mundiais da Sensus, o Brasil é avaliado positivamente por 74% como um país bom para se viver, alegre e hospitaleiro para 89% da população mundial. O que aconteceu por aqui?


Qual legado Bolsonaro deixou? Na economia, o PIB caiu de US$ 1,9 trilhões para US$ 1,6 trilhões. Somente 25% acham que seu governo estava no rumo. Mais de 60% da população desaprova a política que foi conduzida na saúde, educação, meio ambiente, relações internacionais. Não muito deixou.

Bolsonaro tem por base as classes medias iliteratas, base social do fascismo, tão bem descrito nos trabalhos de Hannah Arendt. Este grupo, antes sem voz na sociedade, se soltou das amarras tradicionais para a violência, pautados que são pelo mal exemplo de seu líder. Acham que podem fazer o que quiserem, na ofensa e agressão contínua a cidadãos e personalidades nas ruas, restaurantes, hotéis, estádios, aeroportos. Enquanto isto, seus líderes urgem para compor com o novo governo, na tentativa do resguardo de suas pessoas físicas e quem sabe a manutenção de seus privilégios.

Ainda, mais bizarro que possa parecer, parte dos bolsonaristas torcem hoje contra a seleção brasileira, sabe-se lá por quê. Como cita Roberto Damatta em” O que faz do brasil, Brasil!”, o primeiro Brasil com b minúsculo da questão social, e o segundo com B maiúsculo do nosso ufanismo, no Brasil a música, o futebol e o carnaval são símbolos de nossa cultura, que nos igualam e nos unem em uma amalgama social. Torcer contra a seleção brasileira é agredir os nossos valores. Na Mitologia Grega, não se deve abrir a Caixa de Pandora, onde estão contidos todos os males que afligem a humanidade. Bolsonaro deteriorou a economia e atacou a cultura ao mesmo tempo, o que foi fatal para os seus propósitos políticos. Bolsonaro liberta a violência e o ódio, verdadeiro legado de sua existência.

Tempos estranhos.

Pensamento do Dia

 


O segredo da volta por cima

"Entre o Exército e o militarismo, vai um despenhadeiro. O militarismo é a canceração do Exército. Está para o Exército como o clericalismo para a religião, o demagogismo para o governo popular, o egoísmo para o eu. O militarismo pode trazer vantagens a militares esquecidos do voto profissional. Mas, para o Exército, é o descrédito, a ruína, o ódio público. Ora, a política no Exército leva fatalmente ao militarismo. Entre o Exército e a política se deve, portanto, levantar a mais alta muralha."


Quem disse isso? Um solerte esquerdista? Não —Rui Barbosa, em 21 de junho de 1893, no Jornal do Brasil. Se vivesse em nosso tempo, o baiano ficaria estarrecido ao ver como o Exército brasileiro entregou-se a um presidente que militarizou a política e politizou as Forças Armadas a grau jamais concebido. E, mais incrível, como esse presidente foi um elemento que, entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990, era persona non gratissima na corporação —militar expulso por terrorismo e, já como político, proibido por ela de entrar nos quartéis.

O longo caminho de Jair Bolsonaro para reverter tamanho opróbrio e tornar-se chefe supremo dessas mesmas Forças Armadas, com poder para acoelhar generais, tratá-los como recrutas e insuflá-los ao golpismo, está no livro "Poder Camuflado", de Fabio Victor, de que falei aqui na quinta-feira. Os detalhes de como isso se deu não cabem neste espaço. É ler para crer como um sujeito aparentemente tão tosco pôs a seus pés homens que se pretendem estudiosos, responsáveis e justos.

Talvez Bolsonaro não fosse tão tosco. Talvez tenha aprendido a ler a cabeça dos militares que, no passado, estabanadamente desafiara. Talvez os tenha convencido de que, no poder, botaria em prática as ideias deles. Talvez por isso os militares passassem a ver nele o messias cuja volta esperavam.

Não tem como errar. Todas as opções acima estão corretas.

A máquina está crescendo

O homem foi programado por Deus para resolver problemas. Mas começou a criá-los em vez de resolvê-los. A máquina foi programada pelo homem para resolver os problemas que ele criou. Mas ela, a máquina, está começando também a criar problemas que desorientam e engolem o homem. A máquina continua crescendo. Está enorme. A ponto de que talvez o homem deixe de ser uma organização humana. E como perfeição de ser criado, só existirá a máquina. Deus criou um problema para si próprio. Ele terminará destruindo a máquina e recomeçando pela ignorância do homem diante da maçã. Ou o homem será um triste antepassado da máquina; melhor o mistério do paraíso.

Clarice Lispector,  "Todas as crônicas"

Os idiotas da objetividade

Sou da imprensa anterior ao copy desk. Tinha treze anos quando me iniciei no jornal, como repórter de polícia. Na redação não havia nada da aridez atual e pelo contrário: — era uma cova de delícias. O sujeito ganhava mal ou simplesmente não ganhava. Para comer, dependia de um vale utópico de cinco ou dez mil-réis. Mas tinha a compensação da glória. Quem redigia um atropelamento julgava-se um estilista. E a própria vaidade o remunerava. Cada qual era um pavão enfático. Escrevia na véspera e no dia seguinte viase impresso, sem o retoque de uma vírgula. Havia uma volúpia autoral inenarrável. E nenhum estilo era profanado por uma emenda, jamais.

Durante várias gerações foi assim e sempre assim. De repente, explodiu o copy desk. Houve um impacto medonho. Qualquer um na redação, seja repórter de setor ou editorialista, tem uma sagrada vaidade estilística. E o copy desk não respeitava ninguém. Se lá aparecesse um Proust, seria reescrito do mesmo jeito. Sim, o copy desk instalou-se como a figura demoníaca da redação.

Falei no demônio e pode parecer que foi o Príncipe das Trevas que criou a nova moda. Não, o abominável Pai da Mentira não é o autor do copy desk. Quem o lançou e promoveu foi Pompeu de Sousa. Era ainda o Diário Carioca, do Senador, do Danton. Não quero ser injusto, mesmo porque o Pompeu é meu amigo. Ele teve um pretexto, digamos assim, histórico, para tentar a inovação.

Havia na imprensa uma massa de analfabetos. Saíam as coisas mais incríveis. Lembro-me de que alguém, num crime passional, terminou assim a matéria: — “E nem um goivinho ornava a cova dela”. Dirão vocês que esse fecho de ouro é puramente folclórico. Não sei e talvez. Mas saía coisa parecida. E o Pompeu trouxe para cá o que se fazia nos Estados Unidos — o copy desk.

Começava a nova imprensa. Primeiro, foi só o Diário Carioca; pouco depois, os outros, por imitação, o acompanharam.

Rapidamente, os nossos jornais foram atacados de uma doença grave: — a objetividade. Daí para o “idiota da objetividade” seria um passo. Certa vez, encontrei-me com o Moacir Werneck de Castro. Gosto muito dele e o saudei com a mais larga e cálida efusão. E o Moacir, com seu perfil de lord By ron, disse para mim, risonhamente: — “Eu sou um idiota da objetividade”.

Também Roberto Campos, mais tarde, em discurso, diria: — “Eu sou um idiota da objetividade”. Na verdade, tanto Roberto como Moacir são dois líricos. Eis o que eu queria dizer: — o idiota da objetividade inunda as mesas de redação e seu autor foi, mais uma vez, Pompeu de Sousa. Aliás, devo dizer que o copy desk e o idiota da objetividade são gêmeos e um explica o outro.

E toda a imprensa passou a usar a palavra “objetividade” como um simples brinquedo auditivo. A crônica esportiva via times e jogadores “objetivos”. Equipes e jogadores eram condenados por falta de objetividade. Um exemplo da nova linguagem foi o atentado de Toneleros. Toda a nação tremeu. Era óbvio que o crime trazia, em seu ventre, uma tragédia nacional. Podia ser até a guerra civil. Em menos de 24 horas o Brasil se preparou para matar ou para morrer. E como noticiou o Diário Carioca o acontecimento? Era uma catástrofe. O jornal deu-lhe esse tom de catástrofe? Não e nunca. O Diário Carioca nada concedeu à emoção nem ao espanto. Podia ter posto na manchete, e ao menos na manchete, um ponto de exclamação. Foi de uma casta, exemplar objetividade. Tom estrita e secamente informativo. Tratou o drama histórico como se fosse o atropelamento do Zezinho, ali da esquina.

Era, repito, a implacável objetividade. E, depois, Getúlio deu um tiro no peito. Ali estava o Brasil, novamente, cara a cara com a guerra civil. E que fez o Diário Carioca? A aragem da tragédia soprou nas suas páginas? Jamais. No princípio do século, mataram o rei e o príncipe herdeiro de Portugal. (Segundo me diz o luso Álvaro Nascimento, o rei tinha o olho perdidamente azul). Aqui, o nosso Correio da Manhã abria cinco manchetes. Os tipos enormes eram um soco visual. E rezava a quinta manchete: “HORRÍVEL EMOÇÃO!”. Vejam vocês: — “HORRÍVEL EMOÇÃO!”.

O Diário Carioca não pingou uma lágrima sobre o corpo de Getúlio. Era a monstruosa e alienada objetividade. As duas coisas pareciam não ter nenhuma conexão: — o fato e a sua cobertura.

Estava um povo inteiro a se desgrenhar, a chorar lágrimas de pedra. E a reportagem, sem entranhas, ignorava a pavorosa emoção popular. Outro exemplo seria ainda o assassinato de Kennedy.

Na velha imprensa as manchetes choravam com o leitor. A partir do copy desk, sumiu a emoção dos títulos e subtítulos. E que pobre cadáver foi Kennedy na primeira página, por exemplo, do Jornal do Brasil. A manchete humilhava a catástrofe. O mesmo e impessoal tom informativo. Estava lá o cadáver ainda quente. Uma bala arrancara o seu queixo forte, plástico, vital. Nenhum espanto da manchete. Havia um abismo entre o Jornal do Brasil e a tragédia, entre o Jornal do Brasil e a cara mutilada. Pode-se falar na desumanização da manchete.

O Jornal do Brasil, sob o reinado do copy desk, lembrame aquela página célebre de ficção. Era uma lavadeira que se viu, de repente, no meio de uma baderna horrorosa. Tiro e bordoada em quantidade. A lavadeira veio espiar a briga. Lá adiante, numa colina, viu um baixinho olhando por um binóculo. Ali estava Napoleão e ali estava Waterloo. Mas a santa mulher ignorou um e outro; e veio para dentro ensaboar a sua roupa suja. Eis o que eu queria dizer: — a primeira página do Jornal do Brasil tem a mesma alienação da lavadeira diante dos napoleões e das batalhas.

E o pior é que, pouco a pouco, o copy desk vem fazendo do leitor um outro idiota da objetividade. A aridez de um se transmite ao outro. Eu me pergunto se, um dia, não seremos nós 80 milhões de copy desks? Oitenta milhões de impotentes do sentimento. Ontem, falava eu do pânico de um médico famoso. Segundo o clínico, a juventude está desinteressada do amor ou por outra: — esquece antes de amar, sente tédio antes do desejo. Juventude copy desk, talvez.

Dirá alguém que o jovem é capaz de um sentimento forte. Tem vida ideológica, ódio político. Não sei se contei que vi, um dia, um rapaz dizer que dava um tiro no Roberto Campos. Mas o ódio político não é um sentimento, uma paixão, nem mesmo ódio. É uma pura, vil, obtusa palavra de ordem.
Nelson Rodrigues

A meritocracia, de Confúcio a Sandel

Tzu-chang perguntou a Confúcio: “Como um cavalheiro deve ser para que digam que ele conseguiu distinguir-se?”. O Mestre disse: “Que diabos você quer dizer com ‘distinguir-se’?”.

Tzu-chang respondeu: “O que tenho em mente é um homem que tem certeza de ser conhecido, sirva ele em um reino ou em uma família nobre”. O Mestre disse: “Isso é ser conhecido, não se distinguir. O termo ‘distinguir-se’ descreve um homem que é correto por natureza e que gosta do que é certo, sensível às palavras das outras pessoas e observador da expressão nos rostos delas e que sempre se preocupa em ser modesto. Por outro lado, o termo ‘ser conhecido’ descreve um homem que não tem dúvidas de que é benevolente, quando tudo o que ele está fazendo é mostrar uma fachada de benevolência que não condiz com suas ações”.


Ao palmilhar os caminhos de Confúcio, o norte-americano Michael J. Sandel, em seu livro “A Tirania do Mérito”, vai cuidar dos valores que inspiram a meritocracia. O autor contrapõe delicadamente a virtude e o vício no mesmo movimento de constituição dos comportamentos dos indivíduos nas sociedades contemporâneas. “Se meu sucesso é obra minha, algo que ganhei por meio do talento e trabalho duro, posso me orgulhar disso, confiante de que mereço as recompensas que minhas conquistas trazem. Uma sociedade meritocrática, então, é duplamente inspiradora: afirma uma poderosa noção de liberdade e dá às pessoas o que ganharam para si mesmas e, portanto, merecem. Embora seja inspirador, o princípio do mérito pode tomar um rumo tirânico, não apenas quando as sociedades não permitem que seja cumprido, mas também - especialmente - quando o fazem. O lado negro do ideal meritocrático está embutido em sua promessa mais sedutora, a promessa de autorrealização pessoal. Essa promessa vem com um fardo difícil de suportar. O ideal meritocrático coloca grande peso na noção de responsabilidade pessoal”.

Ao escolher essa forma de tratamento da meritocracia, Sandel evita os caminhos dos pensadores binários que separam o vício da virtude, o bem do mal. Ele mergulha esses dois conceitos nas profundezas do espírito que anima a vida concreta dos indivíduos-habitantes das sociedades contemporâneas, sempre enredadas na maldição de negar o que afirmam e de afirmar o que negam.

A busca pelo enriquecimento, pela diferenciação do consumo e dos estilos de vida é a marca registrada da concorrência na sociedade de massa. Os impulsos para acompanhar os hábitos, gostos e gozos dos bem aquinhoados esboroam-se nas angústias da desigualdade. A maioria não consegue realizar seus desígnios.

Sandel reconhece que, em sua configuração atual, as sociedades escancaram a incapacidade de entregar o que prometem aos cidadãos. A celebração do sucesso colide com a exclusão social promovida pela transformação tecnológica e pela migração dos empregos para as regiões de baixos salários.

A pressão competitiva-aquisitiva desencadeia transtornos psíquicos nos indivíduos-utilitaristas consumidores. Os trabalhos de destruição da subjetividade são realizados por uma sociedade que precisa exaltar o sucesso econômico e abolir o conflito. Nesse ambiente competitivo, algozes e vítimas das promessas irrealizadas de felicidade e segurança assestam seus ressentimentos contra os “inimigos” imaginários, produtores do seu desencanto. Os inimigos são os outros: os imigrantes, os pobres preguiçosos que preferem o Bolsa Família e recusam a vara de pescar, comunistas imaginários etc.

Aqui caberia recorrer a Freud para tratar do narcisismo dos ressentidos. Sigmund observa: “O narcisista parece ter realmente retirado sua libido das pessoas e das coisas no mundo exterior, sem tê-las substituído por outras em sua fantasia. Qual é o destino da libido retirada dos objetos na esquizofrenia? A megalomania, característica desses estados, indica a resposta... A libido subtraída do mundo exterior foi trazida para dentro do eu, emergindo assim um estado ao qual podemos dar o nome de narcisismo”.

Minhas deambulações curiosas me levaram à leitura do artigo dos psicanalistas Camila de Araujo Reinert e Matias Strass burger: “Um, Nenhum, Cem Mil” - Uma breve compreensão do narcisismo em Green através de um personagem literário de Pirandello e de um caso clínico”. Green é o psicanalista André Green, considerado um dos mais criativos herdeiros de Sigmund Freud. O artigo traz uma epígrafe copiada do Livro III das metamorfoses de Ovídio, o grande poeta romano.

“O adolescente (Narciso), cansado pelo esforço da caça e pelo calor, estendeu-se no chão, atraído pelo aspecto do lugar e pela fonte. Mas, logo que procura saciar a sede, uma outra sede surge dentro dele. Enquanto bebe, arrebatado pela imagem de sua beleza que vê, apaixona-se por um reflexo sem substância, toma por corpo o que não passa de uma sombra. Fica extático diante de si mesmo, imóvel, o rosto parado, como se fosse uma estátua de mármore de Paros. Deitado no chão, contempla dois astros, seus olhos, os cabelos dignos de Baco e de Apolo, o rosto imberbe, o pescoço ebúrneo, a linda boca e o rubor que cobre a cútis branca como a neve. Admira tudo, pelo que é admirado ele próprio. Deseja a si mesmo, em sua ignorância, e, louvando, é a si mesmo que louva. Inspira a paixão que sente, e, ao mesmo tempo, acende e arde. Quantas vezes beijou em vão a água enganosa! Quantas vezes, para abraçar o pescoço que via, mergulhou os braços na água, sem conseguir abraçar-se”.

Na aurora do século XXI, Elisabeth Roudinesco ausculta os rumores narcísicos cochichados nos bastidores da sociedade contemporânea. Diz ela que estamos sempre nos indagando o que preferimos: as figuras mais puras, as maiores, as mais medíocres, os maiores charlatães, as mais criminosas?

O sexo não é experimentado como o companheiro do desejo, mas como um desempenho, uma ginástica, como a higiene para os órgãos, o que só pode levar à confusão afetiva. “Qual é o tamanho ideal da vagina, o comprimento correto do pênis? Com que frequência? Quantos parceiros em uma vida, em uma semana, em um único dia, minuto a minuto?”. O avanço exasperado da “quantidade” encolhe o espaço de fruição da experiência amorosa. Não por acaso, estamos assistindo a um aumento nas queixas de todos os tipos.

Como enfrentar o surgimento da nova extrema direita?

Cada vez mais o mundo gira em uníssono. Tudo acaba sendo universal, a começar pela política. Vemos, por exemplo, o ressurgimento da nova extrema-direita com as suas várias matizes, não excluindo as de matiz nazi e fascista. Começou como algo isolado e até antiquado, mas logo tomou forma e incendiou o planeta. E já está chegando a todos os cantos.


Pensar que esse novo fenômeno que preocupa a todos pode se limitar a alguns países é pura utopia. Veio para ficar e se multiplicar como um vírus. Aqui no Brasil, essa nova direita dominou tudo com graves consequências, não só políticas, mas também econômicas, que levaram 30 milhões a passar fome.

Lula, o novo presidente que em semanas tomará posse como chefe de Estado, entendeu isso de imediato com a acuidade política que o caracteriza. Ele reconheceu que em seu terceiro mandato as coisas vão ser diferentes do que no passado, já que a extrema-direita de Bolsonaro continuará não se conformando com a derrota e fará de tudo para impedi-lo de governar. Desta vez, não se trata de uma simples mudança de poder, mas de ter que enfrentar aqueles que negam os valores da democracia, demonizam as liberdades e perseguem os valores democráticos.

A questão que os analistas políticos dos continentes onde esta nova extrema direita está se enraizando começam a enfrentar é como lidar com ela, já que ela se apresenta como uma nova bactéria resistente a todos os seus antídotos. Talvez estejamos diante de algo novo e ainda não decifrado. De nada adiantaria enfrentá-lo com força e até agradaria seus anfitriões e seguidores , amantes da violência e do olho por olho. Para essa nova ultradireita, o discurso do diálogo soa obsoleto. Ela prefere o confronto e até a violência. A coisa do diálogo soa como algo de outros tempos desprezíveis.


Em meio à preocupação com esta ascensão repentina da extrema direita mundial – com seus líderes medíocres sob todos os pontos de vista, mas corajosos e que acreditam firmemente na violência-, os analistas políticos começam a estudar qual poderia ser o melhor antídoto contra esta nova praga política que está a envenenar a própria essência da democracia, que é o diálogo, a liberdade e o pluralismo de ideias.

Alguns dizem que ainda não existe, como em outros momentos da história, um verdadeiro profeta capaz de entender o novo fenômeno político e analisá-lo em sua própria essência, pois nada, nem mesmo na natureza, nasce por acaso.

É verdade que a obra How Democracies Die , de Steven Lewitsky e Daniel Zibblatt, aborda com inteligência a questão das democracias ameaçadas pelo novo populismo. No entanto, desde então as coisas mudaram rapidamente e a nova ultradireita escapou aos cânones do passado. Estamos diante de um fenômeno novo que só conseguiremos entender e enfrentar se aceitarmos que é uma forma inédita de atacar as próprias raízes dos valores da liberdade.

O caso do bolsonarismo no Brasil, talvez mais do que o do trumpismo nos Estados Unidos, poderia servir para tentar entender a possível “novidade” dessa nova direita radical e extrema, violenta e alérgica a todas as liberdades e inovações oferecidas pelos tempos modernos, e isso supõe a antipolítica em estado puro.

Dito isto, o que ainda não foi abordado com seriedade é por que esse fenômeno nasceu agora e com tanta força que parece um incêndio difícil de apagar. Sem dúvida, muito disso está diretamente relacionado à crise, também global, dos valores da democracia e da política como tal que, para dizer em palavras simples, que todos entendem, empobreceu e deixou de ser uma maneira de organizar de forma justa e plural o modo de convivência e organização da sociedade e dos povos, para se tornar aos olhos de todos um negócio econômico e de privilégios pessoais. Entra-se na política, ou assim parece, para ganho pessoal, um jogo feito à luz do sol e que já não embaraça quem se vale dele.

Essa mercantilização da política e o abuso dela para ganho pessoal não é mais escondido, é visível para todos e é feito até no nível do Congresso Nacional, como acaba de acontecer aqui no Brasil com o vergonhoso e descarado “orçamento secreto”, graças ao qual os deputados recebem milhões de um fundo para aplicar em obras com fins claramente eleitorais. E é secreto porque ninguém deve saber quem recebe e quanto. O STF está tentando anular esse orçamento e até Lula já admitiu que se continuasse em vigor teria que contar com ele se quisesse governar.

Essa situação de degeneração da democracia que permanece como uma noz vazia de seu verdadeiro significado inicial poderia explicar por que existem milhões de pessoas, hoje, em todos os países que votam na nova extrema direita não porque sejam fascistas, inimigos da liberdade, violentos por natureza ou desconhecem as novidades que a ciência está preparando. Muitos o fazem, como já aconteceu aqui no Brasil, não porque sejam naturalmente contrários às liberdades. É algo mais.


Analisando o resultado das últimas eleições brasileiras que levaram à vitória de Lula , o que espanta é que houve milhões de pessoas que, mesmo sabendo das violentas aberrações de Bolsonaro e da desolação que ele criou no país, votaram nele novamente .

O que começa a ficar claro é que há milhões de pessoas no mundo, talvez desinformadas, que se sentem envergonhadas e indignadas com os usos e abusos cometidos por políticos ditos democráticos, não raras vezes com a conivência da própria justiça que participa da mesma festa. Isso leva as pessoas mais simples a dizerem com desdém que “todos são iguais”.

Não o são, mas é verdade que o crescimento da nova extrema-direita começa a surgir como resposta ao descrédito universal em que caíram os verdadeiros valores da democracia e das liberdades individuais e coletivas. Essas pessoas, desanimadas, manifestam seus piores instintos de violência.

São aqueles instintos que todos carregamos conosco desde o surgimento do Homo sapiens e diante dos quais somente os valores da cultura, do diálogo e da solidariedade universal podem servir de dique seguro contra a onda de violência, de todos os matizes, que ameaça nosso pequeno planeta invisível e acaba envenenando nossa convivência.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Ordem no Brasil

 


Conjunto da obra bolsonarista mais se assemelha a um país-fantasia

Era uma vez um país chamado Brasil, presidido por um capitão chamado Jair Bolsonaro, que deveria comandar a nau pátria até o último dia de mandato, 31 de dezembro de 2022. Só que o capitão sumiu desde que Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito seu sucessor. E o conjunto da obra bolsonarista, entregue a conta-gotas e de má vontade à equipe de transição de Lula, mais se assemelha a um país-fantasia. Fantasia por falido, e falido no sentido múltiplo do termo — financeiro, social, gerencial, moral. A julgar pelos primeiros relatórios de alguns dos 30 grupos temáticos da transição, a desgraceira é monumental. Por enquanto, o impacto nacional decorrente dessa ruína ainda é pouco percebido — nada consegue competir com o feitiço da sucessão de zebras, surpresas e reviravoltas de uma Copa do Mundo. E a do Catar só termina no domingo 18 de dezembro, já às vésperas do Natal. Portanto, na prática, até a posse de Lula no Palácio da Alvorada, o país continuará navegando à deriva. Algum dia, talvez, será possível computar quanto do futuro do Brasil foi perversamente esbanjado ou destruído na era Bolsonaro.


É do jogo político que toda equipe de transição desfie queixas e aponte falhas quanto ao estado real do país que lhe é entregue pela administração anterior. Não raro, para justificar futuros percalços ou não cumprimento de promessas de campanha. Outras vezes, o descalabro é do tamanho da grita. Na transição americana de 2020, a equipe leal ao derrotado Donald Trump ficou os primeiros 16 dias pós-eleição sem sequer atender telefonemas da equipe vencedora de Joe Biden. Muitos funcionários públicos de carreira, temendo que alguns bancos de dados científicos viessem a ser manipulados antes da troca de poder, chegaram a armazenar conteúdos em nuvens fora do alcance trumpista. Jamais na história política dos Estados Unidos ocorreu uma transferência mais envenenada das ferramentas do Estado. Mas Estado havia.

E aqui? Aqui há falência. Os grupos temáticos amontoados pelo vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, para a elaboração de uma radiografia nacional, parecem atordoados. Há os que engatinham, os que já percorreram meio caminho e os altamente preparados para a tarefa. Todos têm em comum garimpar nos escombros do que já foi um país com políticas públicas.

O testemunho mais contundente da semana veio durante a entrevista coletiva do grupo de trabalho de meio ambiente. Trata-se do grupo dos sonhos de qualquer governo, dada a proficiência e o conhecimento de seus integrantes. Na quinta-feira, o microfone foi passando de mão em mão até chegar a vez de Izabella Teixeira fazer seu resumo.

Formada em biologia e doutora em planejamento energético, ex-ministra do Meio Ambiente nos governos Lula e Dilma Rousseff e coringa das Nações Unidas para a crise climática, quando essa servidora pública fala, a gente presta atenção dupla. Até porque sua voz de contralto é forte. (Seria até impiedoso imaginar um debate entre ela e Ricardo Salles — aquele que ocupou a mesma cadeira no governo Bolsonaro e dela foi exonerado após acusações de envolvimento em exportação ilegal de madeira da região amazônica. A terraplenagem intelectual seria épica.)

— Não é exagero, não é drama. Todo mundo sabe que sou muito pragmática, mas levei muitos sustos vendo os documentos — esclareceu a ex-ministra. — Não é uma questão de ineficiência ou incompetência [do governo Bolsonaro]. Houve uma decisão política de destruir.

Alegrou-se, porém, com a solidariedade encontrada junto ao corpo técnico do ministério e de outras 200 instituições que forneceram dados e foram ouvidos pelo grupo. Nunca vira tamanha força da sociedade civil:

— Vieram de forma colaborativa, engajada, produtiva. Não vieram reclamando.

Ela acredita que o Brasil dessa nova envergadura tem força para reconstruir o diálogo — até porque, “sem a força da sociedade e de vocês [a imprensa] comprometidas com a transparência e a verdade, o Brasil não fica de pé”. Em resumo:

— Não tem dinheiro para prevenção alguma. Acabou. Aliás, acabou de sair um ofício do presidente do Ibama suspendendo todas as atividades por falta de dinheiro. Acabou o licenciamento ... não tem fiscalização. Está por escrito, em ofício enviado ao secretário executivo do Meio Ambiente explicando as razões do bloqueio de todo o dinheiro disponível. Então me parece que o Ibama vai trabalhar virtualmente ... Feliz Natal para os grileiros e para os criminosos neste país do crime ambiental, porque é isso que está sendo dito.

Se todos os grupos de trabalho da transição forem tão eficazes e produtivos quanto o do meio ambiente, o governo Lula pelo menos saberá em que pântano estará pisando. E o que fazer para, mais adiante no futuro, poder proporcionar um Feliz Natal para o Brasilzão que merece.

Não podemos esquecer

Começamos pelo presidente Lula mantido preso por uma artimanha do ex-juiz ladrão. Depois, o povo reunido após o resultado na Barra da Tijuca na frente do condomínio onde ele mora. Só gente branca, bem vestida, heterossexual na sua maioria e muita gritaria. Nenhuma canção cantada. Em seguida, a cerimônia no interior da casa com o ex- senador Magno Malta comandando uma oração de agradecimento e as pessoas em volta. Que vergonha da cena. Aí veio o trauma que ficou em todos nós. A sensação de desespero que nos tomou e a perspectiva dos 4 anos que viriam pela frente. A escolha dos ministros nem me lembro direito porque eram todos pessoas desconhecidas, saídas de que porão eu não sei. Transição não houve. Era passar o bastão como numa corrida de revezamento que começou no golpe que tirou a Presidenta Dilma.

Temer fez questão de facilitar as coisas no dia da posse, depois do desfile ridículo com Carluxo na carona do Rolls-Royce presidencial. Passou a faixa e se retirou para o lixo da História. Ainda apareceu algumas vezes para confirmar que seu destino deveria ser aquele mesmo. E começou então a sucessão de barbaridades que passo a elencar aqui sem compromisso de ordem ou lógica como foi, aliás, o governo que passou.

Decretos e mais decretos tentando desmontar tudo aquilo que a duras penas tinha sido erguido para alavancar o país no chamado mundo ocidental desenvolvido. O Brasil foi saindo de cena devagarinho e o mundo olhava abismado para o que acontecia aqui. Parece que o grande decreto dizia nas entrelinhas que estava liberada a falta de pudor, a violência e o fascismo. O caminho ficou mais fácil. Ninguém mais tinha vergonha de ser de extrema direita. O mercado parecia em êxtase. Paulo Guedes apesar de não ser nem para o Mercado uma pessoa confiável recebia todos os reconhecimentos.


O ministério do exterior nos envergonhava diante do mundo. O do meio Ambiente era ainda pior. Começou a vender madeira ilegal por conta própria e no passar da boiada revelado naquela reunião fatídica de ....deu início ao processo de espoliação das nossas matas, florestas e reservas. A educação virou a casa da mãe Joana. O trabalho virou secretaria e a saúde encontrou no meio do caminho que iria facilitar ainda mais a vida dos planos de saúde, a pandemia da Covid- 19 que mudou a história não só do Brasil, como do mundo inteiro.

Aqui ele debochou, fez pouco caso, adiou a compra de vacinas e foi responsabilizado pela morte de mais de 200 mil pessoas entre as 700 mil que morreram. Foi negacionista, vendedor de Cloroquina e contrário ao uso de máscara ou isolamento social. Imitou quem morria sufocado e acirrou a luta por um pouco de oxigênio que assolava Manaus.

Daí pra frente foi um festival de desgraças e fracassos. A economia, como não podia deixar de ser, parou. O trabalho virou um salve-se quem puder no maior processo de uberização que este país já viu. Sindicatos fecharam e a negociação ficou nas mãos dos patrões. A Previdência tirou o dinheiro dos mais pobres e transformou a aposentadoria numa esmola dada de favor. O auxílio emergencial que deveria vir para ajudar na pandemia foi distribuído com endereço certo e o pouco que foi parar nas mãos de quem precisa, usado como moeda eleitoreira. A violência virou linguagem, as armas foram liberadas e nas eleições nem o dinheiro jorrado nos candidatos da situação e na organização das fake news adiantou. Apesar de tudo isso ele perdeu. Tentou contestar, ameaçou dar golpe desde muito tempo antes do voto, fez cara feia, ficou ridicularizado no mundo e aqui teve que se isolar no palácio em depressão profunda que demonstra sua total falta de recurso político.

Mas escapamos de boa. Escapamos de ter um STF aos poucos trabalhando para legitimar a falta da democracia, uma política ambiental predadora e comercial, um mercado também ameaçado por uma política incerta e burra, uma saúde dedicada a matar o povo, uma condição social que chegaria a números tremendos de fome e desemprego. Esse seria o país da meritocracia, do desrespeito às diferenças, da violência de gênero, da militarização das escolas e do achatamento da cultura e da educação. Viraríamos uma espécie de feudo dessa gente que acabaria transformando o Brasil numa imensa fazenda produtora de mentiras, falsos números e uma riqueza infinita para quem a apoiasse. Escapamos de boa, repito e não podemos esquecer o que passamos. Viva os novos tempos.

Respeito ao próximo


Hoje a liberdade é tida como um direito absoluto. Mas não há liberdade absoluta. A liberdade não é sequer um direito. A liberdade é um dever, um dever fortíssimo. A liberdade é o respeito pelo próximo
Manoel de Oliveira

A 'ambição de poder' e a volta dos militares à caserna

A volta dos militares às suas funções constitucionais específicas é o caminho para despolitizar as Forças Armadas, historicamente contaminadas pela velha compreensão positivista de que são a expressão armada e a liderança moral do povo brasileiro desde a vitória de Guararapes contra os holandeses, o mito fundador do Exército nacional. Em razão disso, muitos militares ainda acreditam que, em nome do povo, devem exercer a tutela sobre os Poderes republicanos e as demais instituições da vida pública.

Essa compreensão vem dos governos de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, que consolidaram o regime republicano e operaram uma transição na qual o poder político do país saiu das mãos da aristocracia imperial e passou aos grandes fazendeiros de café, não apenas por isso, mas quase que como uma indenização pela abolição da escravidão pela monarquia constitucionalista. Mas havia uma compreensão clara na República Velha, a partir do governo de Prudente de Moraes, de que a democracia era um poder civil, apesar de todos os problemas.

A Revolução de 1930 virou tudo de pernas para o ar. Foi um golpe de Estado que depôs o presidente Washington Luís, em 24 de outubro de 1930, articulado pelos estados de Minas Gerais, da Paraíba e do Rio Grande do Sul para impedir a posse do presidente eleito Júlio Prestes, sob alegação de fraude eleitoral. A crise econômica de 1929, que repercutiu fortemente na economia cafeeira, e o assassinato do político paraibano João Pessoa — um crime passional que se transformou numa catarse política — embalaram a conspiração liderada pelo gaúcho Getúlio Vargas com apoio do mineiro Antônio Carlos. Lideranças oriundas do movimento tenentista deram ao golpe a sustentação militar de que precisava.

Em 3 de outubro, militares liderados por Getúlio Vargas, no Sul, e Juarez Távora, no Nordeste, convergiram para o Rio de Janeiro. Getúlio Vargas tornou-se chefe do Governo Provisório com amplos poderes, revogou a Constituição de 1891 e governou por decretos. Nomeou seus aliados como interventores nos estados. Os políticos esperavam que o novo presidente convocasse eleições gerais para formar uma assembleia constituinte, mas não foi o que aconteceu. Com a derrota da Revolução Constitucionalista de 1932, na qual os paulistas tentaram destituir Vargas, a ditadura se consolidou, principalmente, a partir de 1937, com o chamado Estado Novo.

A ditadura Vargas durou 15 anos, mas não foi um regime militar, apesar do amálgama positivista do florianismo com o castilhismo gaúcho. Getúlio era um populista, que contava com grande apoio popular, por criar o salário-mínimo e instituir a legislação trabalhista. Por ironia da História, após a redemocratização de 1945, o golpismo que o levou ao poder migrou para um partido de origem liberal, criado em São Paulo para se opor a Getúlio, que passou a contar com forte apoio militar, a União Democrática Nacional (UDN). Com a fim da guerra e a destituição de Getúlio Vargas, o país passou por sucessivas crises, nas quais os militares tutelaram a política como se fossem um “poder moderador” que, na monarquia, fora exercido por D. Pedro II.


Mas não havia ainda uma “ambição de poder” consolidada nas Forças Armadas como instituição. Isso somente viria a ocorrer após o golpe militar de 1964, que resultou numa ditadura na qual os generais se revezaram na Presidência da República. Com a redemocratização, após a eleição de Tancredo Neves, em 1985, e o governo de José Sarney, os militares voltaram gradativamente aos seus afazeres constitucionais, porém, numa espécie de limbo doutrinário: a Guerra das Malvinas e o fim da Guerra Fria, respectivamente, subverteram os seus vetustos planos de Estado Maior, que viam na Argentina e na antiga União Soviética (e nos comunistas, por meio de uma “guerra interna, subversiva, psicológica e permanente”), os inimigos da Nação.

A eleição de Jair Bolsonaro exumou velhos conceitos e fez renascer das cinzas a “ambição de poder” da geração de militares saudosos dos 20 anos de ditadura, nos quais a carreira era uma via de ascensão política para mandar e desmandar no país. Esse é o problema com que o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva se depara ao assumir o governo, porque há uma contradição entre esse sentimento agora difuso nas Forças Armadas, reforçado pela suposta presença de 8 mil militares, aproximadamente, em cargos comissionados do governo federal, e a democracia como poder civil, consagrada pela Constituição de 1988.

“Desmilitarizar” o governo e reposicionar as Forças Armadas não será uma tarefa fácil, ainda mais se uma nova doutrina militar mais democrática, já esboçada na Política Nacional de Defesa, não for consolidada. O próprio Ministério da Defesa, como instituição civil, precisa ser reformado, assunto para outra coluna. Militares geralmente são austeros, disciplinados, estudiosos, leais, patriotas e probos, mas muitos têm cacoete mandonista e nem sempre estão preparados para exercer funções tipicamente civis. Reformados, são cidadãos com os mesmos direitos de qualquer servidor público e, portanto, aptos a permanecer no governo, se for preciso, desde que para exercer cargos compatíveis com a respectiva formação. O principal problema são militares da ativa em cargos públicos não ligados à Defesa e em desvio de função, como foi o caso do general Pazuello, hoje deputado federal eleito, no Ministério da Saúde, e a militância política por militares da ativa, dentro e fora das organizações militares, que subvertem a hierarquia e a disciplina. Isso não deveria ocorrer.

O Brasil não chora por Bolsonaro. Ele é que chora por ele

O pastor evangélico Magno Malta (PL-ES), agora eleito senador, foi uma das primeiras pessoas a penetrar na sala do hospital de Juiz de Fora na noite de 6 de setembro de 2018, quando Bolsonaro, candidato a presidente da República, recuperava-se da cirurgia depois da facada que quase o matara.

Malta puxou várias orações e, enquanto o fazia, descobriu o corpo do enfermo e tirou uma fotografia para mostrar a extensão da cicatriz que acompanharia Bolsonaro pelo resto da vida. Postada nas redes sociais, a fotografia viralizou e até hoje reaparece de vez em quando. Bolsonaro ficou-lhe grato pela ideia que teve.



É, pois, com a autoridade de quem sempre esteve perto de Bolsonaro, que Malta, depois de visitar recentemente o único presidente brasileiro que tentou se reeleger e acabou derrotado, confidenciou a Valdemar Costa Neto, chefe do PL: “Bolsonaro já era”. Foi a impressão que ele lhe deu. Costa Neto ouviu calado.

Malta não é um caso de infidelidade a Bolsonaro, mas Tarcísio de Freitas (Republicanos), eleito governador de São Paulo com o apoio do presidente amorfo, deprimido e, como se não bastasse, vítima de uma crise de erisipela, pode, sim, ser considerado um caso de infidelidade. Em entrevista à CNN, Freitas disse:

“Eu nunca fui bolsonarista raiz. Comungo das ideias econômicas do governo Bolsonaro. A valorização da livre iniciativa, os estímulos ao empreendedorismo, a busca do capital privado, a visão liberal. Sou cristão, contra aborto, contra liberação de drogas, mas não vou entrar em guerra ideológica e cultural”.

É porque perdeu que Bolsonaro chora, como se viu ao receber, no Clube Naval de Brasília, os cumprimentos de fim de ano dos mais altos oficiais das Forças Armadas. Foi a terceira aparição pública dele em eventos militares nos últimos 10 dias. Se tivesse chorado pelos que morreram de Covid, talvez seu destino fosse outro.

Mas não. Além de não ter chorado, além de ter receitado drogas ineficazes para combater a pandemia, além de ter retardado a compra de vacinas, em março do ano passado, quando o país lidava com uma média de 4 mil mortos por dia, Bolsonaro afirmou em um vídeo inesquecível:

“Chega de frescura, de mimimi, vão ficar chorando até quando?”

Dissera antes:

“Eu não sou coveiro”.

Foi o coveiro de sua própria candidatura. É por essas e outras que o país não chora por ele.