quinta-feira, 25 de agosto de 2022

'A floresta produz mais riqueza do que o gado'

Em uma pequena vala no meio do pasto, Claudia dos Santos para o carro. Na beira do caminho, há uma grande cruz de madeira e, ao lado, os restos de uma placa de pedra destruída. "Eles atiraram nela", conta Santos. "O nome do meu tio e da minha tia estavam gravados na pedra. Até hoje somos ameaçados porque protegemos a floresta."

A jovem de 20 anos é sobrinha de José Cláudio Ribeiro, que junto com sua mulher, Maria do Espírito Santo, foi alvejado por dois pistoleiros neste local. O casal liderava uma comunidade extrativista no sudeste do Pará. Os extrativistas coletam e processam frutos da Amazônia, são os agricultores da floresta. Mas o Pará vem sendo desmatado a um ritmo raramente visto em outros lugares do Brasil. José Cláudio e Maria resistiam à destruição e denunciavam madeireiros e pecuaristas ilegais. Até esse contra-ataque brutal.

Um dos pistoleiros foi condenado, assim como dois dos mandantes. Porém, o assassino conseguiu fugir da prisão, e um dos mandantes – um pecuarista que estava de olho em terras da reserva – escapou da polícia. "Vivemos com medo", afirma Claudia dos Santos.

A castanha-do-pará não pode ser cultivada em plantações, ela dá apenas na floresta

O Pará abriga a segunda maior porção da Amazônia brasileira. Mas madeireiros, pecuaristas, sojeiros e garimpeiros ilegais avançam há anos sobre a floresta, invadindo áreas protegidas, reservas indígenas e territórios de extrativistas. Desde a posse do presidente Jair Bolsonaro, em 2019, eles ficaram mais agressivos. O número de conflitos por terras no Pará é extremamente alto – ambientalistas, indígenas e comunidades tradicionais vivem perigosamente.

O termo extrativismo descreve a coleta de frutos que a natureza oferece. A prática é uma resposta importante para a pergunta sobre como é possível viver na região da Floresta Amazônica sem destruir o meio ambiente. "Meu tio e minha tia provaram que o extrativismo funciona", afirma Santos. "Por isso, eles precisaram morrer. Eles mostraram que uma floresta intacta produz mais riqueza do que o gado."

A jovem cresceu numa família de quatro integrantes na comunidade Praia Alta-Piranheira, famosa por suas castanhas-do-pará e que, em 1997, foi declarada reserva agroextrativista pelo Estado. José Cláudio Ribeiro e sua esposa desempenharam um importante papel para que isso ocorresse. Contudo, a demarcação não impediu madeireiros e pecuaristas de continuar invadindo os 22 mil hectares de área protegida. O Estado está em grande parte ausente na Amazônia e, em várias regiões, o que vale é a lei do mais forte.

Há também uma guerra cultural no Pará. Em muitas partes do Brasil, a natureza ainda é considerada algo atrasado e importuno, que deve ser domado e de preferência eliminado para abrir espaço para o desenvolvimento econômico. Bolsonaro encarna esse ponto de vista por excelência, ele fala de "árvores de merda" e defende garimpeiros e madeireiros ilegais. Para ele, aqueles que defendem a floresta são baderneiros. Os recordes de desmatamento na Amazônia sob o governo Bolsonaro não são uma coincidência.

Depois dos assassinatos de José Cláudio e Maria, Santos e sua mãe, que também recebeu ameaças de morte, se mudaram para Marabá, que fica a duas horas e meia de carro da reserva. Lá Santos estuda e trabalha no instituto Zé Cláudio e Maria – uma ONG fundada por sua mãe para ajudar a manter de pé a luta por Justiça e a memória dos mártires socioambientais.

Nesta tarde, ela vai à reserva para visitar a tia, Claudecir dos Santos, que deu continuidade à tradição do extrativismo. Depois de um longo trajeto numa estrada de terra e ao longo de pastagens, ela chega à área protegida, fácil de reconhecer devido à mata fechada. Para recebê-la, Claudecir matou uma galinha que prepara num fogão à lenha numa cozinha aberta. "Estou satisfeita com a minha vida", diz a viúva de 57 anos.

Na manhã seguinte, a mulher pequena e musculosa entra na floresta com um facão e uma cesta nas costas – cerca de 30 hectares de mata pertencem ao seu quintal. Ela conta que há quatro ou cinco frutos que a ajudam a ganhar a vida.

Em primeiro lugar, está a castanha-do-pará. Elas crescem em castanheiras e, em ouriços que parecem balas de canhão, as castanhas amadurecem envoltas cada uma em uma casca dura. A castanha-do-pará não pode ser cultivada em plantações, ela dá apenas na floresta. Essa é uma das razões para o alto preço de venda desse produto no mercado. Nutritivas, as castanhas possuem um elevado teor de proteína e gordura, além de muitos minerais.

Cada uma das dezenas de castanheiras na floresta produz por safra castanhas no valor de cerca de R$ 500, segundo Claudecir. Ela acrescenta que, ao longo dos anos, isso rende muito mais do que se derrubassem a árvore e vendessem sua valiosa madeira. Apesar de o corte da espécie ser proibido pela legislação brasileira, madeireiros continuam derrubando castanheiras. Eles simplesmente declararam a madeira como de outro tipo.

Igualmente importante para a renda de Claudecir é a andiroba, de cujas sementes é extraído um valioso óleo, que tem efeitos antissépticos e é usado na fabricação de sabonetes. Em sua oficina, Claudecir mostra como funciona o processo de extração do óleo. Ela se uniu com outras mulheres da reserva numa cooperativa para comercializarem juntas o óleo.

Açaí, cacau e cupuaçu também são coletados e vendidos. Já mamão, manga e limão são para consumo próprio. Além disso, Claudecir planta mandioca, feijão, cana-de-açúcar e ervilha. O quintal dela parece um paraíso autossuficiente. Mas é claro que não cresce tudo que é necessário para viver na floresta.

Claudecir, que recebe ajuda de um irmão mais novo para cuidar da plantação, compra açúcar, sal, arroz, café e óleo na cidade. "Mas eu não gosto da cidade", diz. "A floresta me dá tudo que eu preciso. Ver como ela é viva me dá coragem. Apesar de tudo."

Faz dois anos que a mãe de Claudecir, que vive em Marabá, recebeu uma carta na qual estava escrito com letras recortadas: "Vamos acabar com o resto da família". E essa não foi a única ameaça.

Ao anoitecer, vestindo jeans e chinelos de dedo, Claudia dos Santos atravessa um riacho do qual vem a água usada por sua tia. As cigarras já começaram com sua cantoria ensurdecedora, e longe um grupo de bugios grita. Santos senta embaixo de uma castanheira imponente, que emerge para o céu de uma clareira. A idade da poderosa árvore é estimada entre 350 e 400 anos, ela conta. Sua família a batizou com o nome de Majestade. "Eu venho aqui para encontrar minha paz. Essa clareira é minha catedral."

Santos conta que há dois anos, na volta de uma visita à reserva com uma amiga, elas foram seguidas por uma pick-up com luz alta que chegava cada vez mais perto. "Entramos em pânico e aceleramos até que nosso carro quase capotou numa curva." A jovem acredita que um pecuarista que tem uma fazenda na divisa com a reserva esteja por trás do episódio.

O extrativismo, como o praticado por Claudecir e sua família, é uma provocação. A economia predominante na região é a pecuária, que também se espalhou pela reserva extrativista. De 400 famílias que moram no local, apenas 20 ainda praticam a silvicultura. As outras possuem gado, o que contradiz o objetivo da reserva, mas é a realidade.

"Querem lucro rápido. Pensam que só os que têm gado contam", afirma Suena Nascimento, de 28 anos, que é professora numa escola rural e presidente do coletivo de extrativistas do qual 15 mulheres fazem parte.

"Nós, mulheres, pensamos a longo prazo", afirma a professora. "Algumas famílias que começaram a criar gado já se arrependeram", diz, apontando que elas não calcularam os custos de fertilizantes para as pastagens, ração, vacinas e outros. "As primeiras a mudar de ideia são as mulheres. Os homens precisam de mais tempo. Mas o mais tardar quando a água se torna escassa e o solo esgotado, eles percebem que algo não vai bem. É preciso se aliar à natureza para sobreviver na Amazônia", ressalta.

Quem pagará parte da conta do 7 de setembro bolsonarista

Do bolso dele, naturalmente, não sairá um tostão – raramente sai, só entra. Desta vez, o cartão corporativo que financia todos os seus gastos lícitos e outros menos não pagará nenhuma despesa. Para o desfile militar, há verbas previstas no Orçamento da União.

Para despesas paralelas que possam transformar o desfile num comício bolsonarista em Brasília e no Rio, ele conta com a ajuda dos seus fiéis devotos. Todos esperam ser ressarcidos no futuro pelos favores prestados à luta do bem contra o mal do comunismo.

Ruralistas, segundo a Folha de São Paulo, deverão enviar 28 tratores para participar do 7 de setembro em Brasília, além de um carro de som. Os tratores desfilarão junto com os militares para mostrar a pujança do agronegócio que apoia a reeleição dele.

O carro de som ficará do lado oposto ao desfile. Se bolsonaristas comparecerem em grande quantidade, e é o que se espera, de cima do carro o presidente lhes falará, sobre o quê talvez só ele saiba. Um discurso, certamente, repleto de “forças de expressão”.

Caberá aos pastores e denominações evangélicas (você leu denominações, não demonizações) arcar com os custos da motociata no Rio, transporte das ovelhas, bandeirinhas do Brasil em profusão e talvez um carro de som, se necessário.
Ricardo Noblat

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Brasil no cafezinho

 


Tempo de virtudes cívicas

Quando a História acelera e a política toma rumos imprevisíveis, é comum que se sucedam os instantes que, segundo o espanhol Javier Cercas, merecem os cuidados de uma aula clássica de anatomia. No seu país, com as feridas ainda mal curadas décadas depois do flagelo da guerra civil, a irrupção de um vulgar militar golpista no Parlamento, no inverno de 1981, pôs em questão a transição pós-franquista, intimidando os deputados e colocando a Espanha mais uma vez na encruzilhada. De pé, inscrevendo corajosamente seus nomes na “religião civil” que nem a mais secular das democracias dispensa, só o primeiro-ministro Adolfo Suárez, o vice, general Gutiérrez Mellado, e o eurocomunista Santiago Carrillo. A democracia seguiria adiante, como sabemos.

Poucos anos antes, do lado de cá do Atlântico, outra transição também inspirava gestos de alto valor cívico, como a cerimônia ecumênica por Vladimir Herzog ou, dois anos mais tarde, a carta lida por Goffredo Telles nas arcadas da Faculdade de Direito da USP. Ao mesmo tempo, assimilávamos um vocabulário inédito, no qual se destacava um conceito-chave da teoria moderna, o de “sociedade civil”. Tal conceito podia ser declinado de variadas formas, mas o certo é que ele afastava a ideia da política seja como expressão passiva da economia, seja como mero disfarce da força bruta. Estávamos literalmente obrigados a ir além dos modos e costumes do autoritarismo.

O aprendizado coletivo consistia no fato de que, na democracia que se entrevia, seria preciso vencer e convencer – e também perder, como é próprio da rotina de qualquer comunidade civilizada. E todo este movimento desaguaria mais adiante na Constituinte, em cujo ponto mais solene o herói-fundador diria, de modo lapidar, que “traidor da Constituição é traidor da Pátria”. Os contornos da nossa religião cívica estavam assim delineados por muitas décadas afora.


Pondo entre parênteses a diversidade de contextos, vivemos agora uma inesperada repetição. Há pouco, Dom Pedro Stringhini, em comovente ato inter-religioso na Sé paulista, evocou o grande cardeal de 1975, ali sepultado, ao celebrar Dom Phillips e Bruno Araújo Pereira, assassinados numa Amazônia dolosamente convertida em terra sem lei. E a “sociedade civil” se reergueu nas mesmas arcadas do Largo de São Francisco, com documentos – um dos próprios juristas, outro das “classes produtoras” reunidas na Fiesp – que recolheram centenas de milhares de assinaturas e, por esta e outras razões, têm como alma a ampla frente democrática que possibilitou a saída pacífica do regime militar.

Nos últimos anos, antes do pacto entre Executivo e Centrão tramado nos desvãos do “orçamento secreto”, tivemos muitos chamados ao fechamento do Congresso e, ainda, continuados lances de agressão ao Supremo Tribunal Federal (STF). Ensaios de golpe ao velho estilo, ora provavelmente arquivados, eles foram substituídos por tentativas reiteradas de sabotar as “instituições invisíveis” da República (Pierre Rosanvallon), como a confiança nas eleições e na sua legitimidade. Isso, que é do conhecimento geral, prefigura os perigos de um eventual segundo mandato do governante autocrata, de resto abundantemente escrutinados na literatura internacional sobre as recorrentes e diversificadas manifestações da extrema-direita populista.

O espírito da frente democrática vai muito além das fronteiras de qualquer partido, mesmo daquele mais organicamente estruturado e que, por isso, apresenta a candidatura mais forte entre as que se opõem à reeleição do autocrata. Em tese, parece não haver tempo para uma alternativa viável no campo oposicionista, ainda que tal circunstância não vá cancelar a pluralidade de programas e visões de futuro. A observância dessa pluralidade é que avalizará a indispensável “ida ao centro” pela esquerda, e não, naturalmente, a escolha de um “vice decorativo” ou a cooptação de políticos avulsos, acima e além do diálogo entre partidos e suas direções regularmente constituídas. E isso para não falar da aguda compreensão, mais do que nunca necessária, das múltiplas faces da “sociedade civil”, irredutível a pretensões de mando ou controle faccioso, sejam quais forem.

Sem menosprezar o desafio eleitoral, que anuncia sobressaltos de montanha-russa, o embate mais árduo virá depois, quando se tratar de reconstruir pouco a pouco as instituições e promover o resgate das promessas da civilização brasileira. Num cenário de terra arrasada, virtudes cívicas diferentes, como a paciência e a vontade permanente de diálogo, deverão, então, ser continuamente mobilizadas. Caso se confirme nas urnas – o que não está dado de antemão! –, um novo governo capitaneado pela esquerda terá de recorrer às artes de um heroísmo cotidiano, nada retórico, ultrapassando o círculo do interesse próprio e pondo-se decididamente a serviço da República. Há quem diga que, até hoje, nos governos anteriores esta travessia corajosa rumo ao interesse comum nem sempre se realizou com a maestria esperada. Outra razão forte para começar a empreendê-la desde agora.

O desmantelamento do Estado brasileiro

Escrevo esta coluna em Atalaia do Norte, na Amazônia. Este é o local até onde Bruno Pereira e Dom Philips jamais conseguiram chegar. No caminho até aqui, o indigenista brasileiro e o jornalista britânico foram assassinados no rio Itaquaí. Seus corpos foram queimados, esquartejados e enterrados na floresta.

Desde então, a polícia prendeu vários suspeitos. Mas os indígenas que vivem em Atalaia do Norte e estão engajados na União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) ainda vivem com medo. Quando nos encontramos, eles pediram que não tirássemos fotos e não citássemos os nomes deles. Eles não acreditam que o Estado seja capaz ou tenha a intenção de protegê-los.

Mesmo que os assassinos possam estar presos em Manaus, os indígenas sabem que a Terra Indígena do Vale do Javari continua sendo alvo de uma máfia de pescadores, caçadores e madeireiros ilegais. Garimpeiros também invadem o território.

Fomos alertados a ter muito cuidado navegando pela rota que Dom e Bruno percorreram em sua última viagem. Ela começa na base da Funai em Ituí-Itaquí, na entrada do Vale do Javari, a reserva com o maior número de povos indígenas isolados em todo o mundo. Depois de a base ter sido alvo de diversos ataques armados em 2019, quatro soldados da Força Nacional foram posicionados ali para proteger os funcionários da Funai, que não andam armados.

Ao chegarmos à base da Funai, notamos dois barcos em um hangar. Eles tinham motores de 40 e 15 hp, e nos perguntamos como a Funai pretende fazer o monitoramento e fiscalização efetiva da Terra Indígena com essas embarcações.

O barco dos assassinos de Dom e Bruno tinha um motor de 60 hp. Eles costumavam entrar no vale através de rotas secretas para pescar ilegalmente. O Estado brasileiro está, portanto, em desvantagem em relação aos criminosos já no que diz respeito a equipamentos.

Soubemos que também há uma escassez crônica de combustível na base. Pediram que levássemos um antropólogo da Funai, que trabalha com povos isolados e acabara de passar 60 dias na selva, de volta para Atalaia em nosso barco, numa viagem de duas horas e meia. Quando passamos pelos povoados onde moravam os assassinos de Dom e Bruno, o funcionário confessou que está com muito medo.

Ele também disse que dependia dessa carona – o que nos levou a pensar no que acontece com o Estado brasileiro, que subfinancia suas agências e abandona seus funcionários. Há, no entanto, algumas exceções: sob Bolsonaro, as Forças Armadas receberam Viagra e leite condensado.

Mas, por que estou contando tudo isso? Porque um dos resultados de quatro anos de Bolsonaro é a destruição de parte do Estado brasileiro. O presidente não somente reduziu os recursos financeiros, mas também o número de funcionários e as competências de algumas agências federais, construídas durante anos.


Cargos de gerenciamento foram ocupados por militares e bolsonaristas que, com frequência, possuem pouca competência, mas muito radicalismo. Muitas vezes, o que se viu foi uma deturpação da função dos respectivos órgãos, como foi o caso no Ibama, ICMbio e na Funai. Assim, em vez de proteger o meio ambiente, passaram a proteger os destruidores do meio ambiente, como fazia o ex-ministro Ricardo Salles.

Resultado: os criminosos foram encorajados, e as máfias, fortalecidas, enquanto o funcionalismo do governo foi enfraquecido. Não é coincidência que o funcionário da Funai Maxciel Pereira tenha sido morto a tiros em plena rua em Tabatinga, durante o governo Bolsonaro.

Quando Bruno Pereira foi assassinado, o azar dos assassinos foi que Dom Philips, um correspondente internacional, estava com ele. Se não estivesse, o crime contra Bruno teria, provavelmente, ficado sem solução, assim como o de Maxciel. Essa é a opinião unânime de todos com quem conversamos na região de Atalaia do Norte.

É notável como um presidente que se coloca como dedicado à lei e a ordem se tornou um aliado de criminosos: grileiros, incendiários, madeireiros, pescadores e caçadores ilegais.

Isso pode até ser menos perceptível no resto do Brasil, mas é um desdobramento claro na Amazônia. O governo Bolsonaro, que sempre ressalta que "a Amazônia é nossa", entregou a floresta à máfia ambiental, enfraquecendo deliberadamente o Estado.

Raiz dos males


A crença de que existe apenas uma verdade, e de que você próprio está em posse dela, é a raiz de todos os males do mundo
Max Born

Sobre urnas e votos

Uma poderosa reflexão sobre as urnas como um instrumento de escolha de governantes foi feita por Machado de Assis no conto A Sereníssima República, publicado em 1882. É Richard Moneygrand, meu velho mentor harvardiano, indignado com a tentativa de ilegitimar a urna eletrônica feita por Bolsonaro, quem fala num e-mail.

Você analisou esse conto, diz meu amigo, que tem um pouco de Kipling e antecede Kafka, porque o seu centro é a comunicação de um erudito Cônego com aranhas. Tendo aprendido o idioma das aranhas, o pesquisador - a pedido delas - sugere a adoção do regime republicano no qual o poder passa por meio de urnas e votos. É obvio, portanto, que a urna e o voto sejam envoltos numa atmosfera peculiar, porque são substituídos da velha sucessão por sangue, feita nas casas reais.


Mas, aponta Moneygrand, no Brasil, o sistema republicano enfrenta os costumes de uma sociedade aristocrática. Vocês ficam como as aranhas de Machado, acusando as urnas, em vez de enxergar os vossos reais problemas.

O Brasil não muda como sociedade, diz, com exagero, o velho mestre, sem abandonar sua preocupação com o conspirador e arrogante “trumpismo”. O Brasil não muda e não é porque há uma “direita muito forte ou resiliente”, como se diz. Não anda, porque o mesmo modelo de governar foi também adotado pela esquerda. Em ambos os casos, há um secular legalismo que garante privilégios: a lei privada protege cargos e segmentos.

A diferença dos discursos impressionava, mas as práticas (que distorcem as leis em favor de pessoas) são idênticas. A direita usava os elos de família ligada à velha aristocracia; a esquerda entronizou os partidários e aristocratizou o seu líder. A direita aristocrática era dona absoluta do Brasil, a esquerda recuperou o tempo perdido aristocratizando-se no poder e tentando o mesmo absolutismo com o coletivismo populista.

Não se pode esquecer, reitera Moneygrand, que tanto um lado como outro é hierarquizado. Têm seus intocáveis e têm suas castas. “Ambos criaram suas fidalguias que imobilizam o todo e impedem a modernização igualitária do sistema, que segue miseravelmente injusto. Ademais, o sonho de todo brasileiro mais ou menos oportunista é usar a malandragem a qual, conforme você disse faz tempo no seu Carnavais, Malandros e Heróis, é um modo estabelecido de navegação social. O alvo da malandragem é o costumeiro ‘arrumar-se’ ou ‘arranjar-se’, uma figura que consiste em enganar os ingênuos.”

No mundo civilizado, primeiro se arruma o país; no Brasil, primeiro nós, os vencedores, nos arrumamos. Os outros que se danem...

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Pensamento do Dia

 


Nosso Guerra e Paz

A leitura das 1.584 páginas dos três volumes do livro Escravidão, de Laurentino Gomes, passa a sensação das 1.575 páginas (na edição Nova Aguilar) do Guerra e paz, de Tolstói: um gostinho de quero mais. O leitor fica instigado a conhecer mais do tema e a continuar o prazer de ler. No caso de Guerra e paz, o leitor quer conhecer a continuação da história do povo russo. Com o Escravidão, queremos saber sobre a continuação desse sistema, mesmo depois da abolição. O próprio Laurentino Gomes conclui o livro com o capítulo "O dia seguinte", ao Treze de Maio, mostrando a abolição incompleta, 130 anos depois. Ele indica a desigualdade nas condições de vida entre negros e brancos e afirma que "o racismo se mantém como um traço característico da sociedade brasileira".

Fica faltando a história da escravidão no pós-abolição, como se os três volumes não bastassem para contar a saga do escravismo não terminado, cuja maldade tem o porte da barbárie do holocausto, do apartheid, persistindo sob a forma da desigualdade crescente, e durou muito mais e atingiu mais pessoas. A Lei Áurea foi duplamente escamoteada: não ofereceu educação, que não contemplava, e pagou indenização, que prometeu não fazer.


Uma escravidão moderna continuou por 100 anos sob a forma da negação de escola para os descendentes sociais dos escravos. Até o século 21, quando entram em vigor a lei do Piso Nacional Salarial do Professor e a obrigatoriedade de vaga em escola pública dos quatro aos 17 anos, mas mantém o sistema de educação dividido entre "escolas senzala" e "escolas casa grande", conforme a origem social do aluno. Essa desigualdade é uma trincheira do escravismo.

Rui Barbosa decidiu queimar os arquivos da escravidão para impedir que os escravistas e seus descendentes cobrassem e recebessem indenização por causa da desapropriação do direito adquirido de possuir seres humanos que tinham sido comprados. Mas, desde então, cada orçamento público brasileiro é uma transferência de renda para investir em benefício dos descendentes sociais dos donos dos escravos, tirando recursos de projetos sociais que beneficiariam os pobres, descendentes sociais dos escravos, na sua maioria descendentes também raciais.

No ano 134° da Abolição, um único item, secreto (de R$ 20 bilhões) no orçamento, e sem benefícios claros para a vida dos pobres, permite indenizar aos descendentes atuais de seus donos, com R$ 25 mil para cada um dos 800 mil escravos cativos em 1888. Soma-se a isso os subsídios e investimentos para a parcela rica: ao longo de três décadas percebe-se que a indenização continua sendo paga, em montantes muito maiores do que se imaginava à época. Por toda nossa história, a República tira dinheiro que deveria ser investido na educação, saúde, moradia, emprego dos descendentes dos escravos e os utiliza para financiar conforto e patrimônio de classes privilegiadas.

Tolstói não escreveu uma complementação para Guerra e paz, mas esperamos o quarto volume do livro Escravidão: os anos seguintes à Abolição. Enquanto esse novo volume não vem, cada casa brasileira deveria ter os três primeiros para contar a saga escravocrata, que durou quase todo o tempo de nossa história. Nos fazer perceber que quase todos os problemas que atravessamos — uma barreira ao progresso e um lamaçal na política — decorrem daqueles 400 anos que Laurentino nos descreve desde o primeiro leilão na cidade de Lagos, em Portugal. Cada criança deveria aprender a ler conhecendo essa chaga sobre a qual o Brasil foi construído. Esta seria uma maneira de ensinar, pelas informações, passar gosto por ler, graças ao belo texto do livro, e despertar indignação com as maldades sociais que nossa elite política e econômica pratica há séculos. Além disso, usar o livro como um despertador moral e político para querermos fazer o Brasil melhor e mais belo, completando a Abolição.

A alma de um povo é construída por seus escritores, artistas e poetas quando eles são capazes de reunir rigor no conhecimento histórico com genialidade para escrever bem. Ainda mais quando suas informações e textos passam empatia pelo lado injustiçado da população. Escravidão é para ser lido e relido, porque está escrito com a qualificação de um investigador e a maestria de um escritor: consegue o rigor da análise, com a beleza do texto, sem esconder o horror do tema. Com essa saga, o Brasil tem seu Guerra e paz, descrevendo uma realidade que parece ficção, tanto quanto Tolstói escreveu uma ficção que parece realidade.

Nem Bolsonaro gostou do seu desempenho no Jornal Nacional

Era para Bolsonaro ter falado mal de Lula e do PT na entrevista de 40 minutos ao Jornal Nacional. Assim fora orientado por seus assessores de campanha, mas acabou não falando.


Era também para ter falado das realizações do seu governo, mas não o fez pelo menos da forma combinada. Era para ter falado diretamente às mulheres e aos mais pobres, mas calou-se.


E por que? Porque ficou surpreso com as perguntas iniciais dos jornalistas William Bonner e Renata Vasconcelos e passou à defensiva, tendo que dar explicações que não gostaria de dar.

Esteve acuado durante parte da entrevista, atormentado com o risco de soltar os freios de repente, abandonar o figurino que vestia e deixar emergir seus instintos mais primitivos.

A verdade é que ele não gostou do seu desempenho, por mais que tenha ouvido elogios dos que o acompanhavam. E assim, apressou-se a fazer logo uma live sobre o próximo dia 7 de setembro.

Não foi propriamente uma fala, mas uma convocação. Convocou seus eleitores para o desfile militar em Brasília e o comício, que não chamou de comício, a realizar-se em Copacabana, no Rio.

Mencionou algumas das atrações que animarão o comício às portas do Forte de Copacabana: bandas de música do Exército, Marinha e Aeronáutica, paraquedistas e a Esquadrilha da Fumaça.

Se outra vez der ouvidos aos que o cercam, na ocasião não desqualificará as urnas eletrônicas nem o sistema de apuração de votos, muito menos atacará ministros dos tribunais superiores.

Está em modo de enganar o distinto público, embora isso não seja de hoje. Até quando?

Não rolou beijo na Globo

A entrevista de Jair Messias Bolsonaro ao Jornal Nacional (JN) nesta segunda-feira não trouxe novidades. Já conhecíamos as perguntas dos apresentadores e as respostas do presidente. As únicas notícias da noite foram a barba branca de William Bonner e uma batata frita famosa na Zona Norte do Rio.

Houve tempos no Brasil em que a grande pergunta era: vai rolar um beijo gay na novela? Nesta segunda, Bolsonaro ameaçou dar um beijo no Bonner. Mas não deu! Num vídeo publicado antes da entrevista com o presidente, alguém comenta com Bolsonaro: "Olha a cara do presidente preocupado com o JN." Aí Bolsonaro ri e diz que vai dar um beijo no apresentador. Mas quando começou a sabatina no Jornal Nacional, vimos Bolsonaro de cara amarrada.

Bonner, por sua vez, estava alegre, sorridente. Eu não me lembrava de ter visto a barba dele tão branca. Perguntou ao presidente o que ele pretende ao xingar ministros do STF. Bolsonaro logo acusou o apresentador de fake news. Nunca houve xingamento, disse o presidente. Houve sim, replicou Bonner, fazendo uma pausa teatral e, então, dizendo: "O senhor xingou um ministro do Supremo de canalha." Bolsonaro só conseguiu murmurar: "Ele vinha fazendo contra mim…" O sorriso de Bonner sinalizou: pegamos o presidente na mentira, logo na primeira pergunta!

E por aí foi. Os apresentadores lembrando as frases polêmicas do presidente, que todos nos já conhecemos, e Bolsonaro tentando se defender o tempo todo com os mesmos argumentos de sempre.


Bonner lembrou que os apoiadores de Bolsonaro pedem o fechamento do STF e uma intervenção militar "com Bolsonaro". "Liberdade de expressão", respondeu o presidente.

Promover medicamentos ineficazes contra a covid? Bolsonaro: o grande erro foi a grande mídia, como a Globo, desestimular o tratamento precoce, "que é conhecido como liberdade do médico".

Desestimular a vacinação dizendo que quem fosse imunizado viraria jacaré? "Usei uma figura de linguagem, ‘jacaré’."

Mas a covid já é passado. Hoje, a grande pergunta parece ser como melhorar a economia no meio das turbulências globais causadas pela guerra na Ucrânia. Bolsonaro relaxou, pois eis um tema em que ele tem bons argumentos. Comparado com muitos outros países do mundo, o Brasil está indo melhor, economicamente. Graças aos benefícios sociais distribuídos pelo governo, diz.

E as queimadas na Amazônia? Olha lá a França e a Califórnia pegando fogo, aponta o presidente. "No Brasil, infelizmente, não é diferente. Acontece."

Lembrei-me de quando o Museu Nacional pegou fogo, em 2018. A reação de Bolsonaro foi a mesma. "Já está feito, já pegou fogo, quer que faça o quê? O meu nome é Messias, mas eu não tenho como fazer milagre."

Como não faz milagres, não sabia das verdadeiras intenções dos diversos ministros do MEC nomeados por ele. Havia um que até distribuiu dinheiro público através de pastores. Bolsonaro: "As pessoas se revelam quando chegam." Parece que a frase tão querida dele e da sua esposa de que "Deus capacita os escolhidos" só se aplica a ele, Bolsonaro, e não a seus ministros. Azar do Brasil!

"Já acabou?", perguntou Bolsonaro, quando foi anunciado o fim da entrevista. "Eu queria ficar algumas horas com vocês aí", confessou. Mas, aparentemente, seu desejo não foi correspondido por William Bonner e Renata Vasconcellos.

Rechaçado pelos apresentadores globais, o presidente teve de se contentar com uma batata frita, supostamente famosa, na Zona Norte do Rio, dividida com seu filho Flávio Bolsonaro. Para o senador, a noite deve ter sido muito boa. Afinal, nem falaram de rachadinha ou do Queiroz na Globo.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Miséria de Brasil

 


Não há ateus na política

Demonstrações oportunistas de fé no Altíssimo e apreço à baixa gastronomia são tão tradicionais nas campanhas políticas quanto a troca de ofensas entre os novos adversários e de afagos entre os ofendidos na eleição passada.

Deus é testemunha de que, no Estado laico em que vivemos, campanha que se preze tem de ter candidato comendo pastel de feira e/ou em pose contrita — sempre de joelhos, se possível de mãos postas —, invocando a intercessão divina para ganhar mais voto do que peso. Pode até haver ateus em aviões que despencam — na propaganda eleitoral, jamais.

Tecnicamente, Estado e Igreja estão separados no Brasil desde 1891. Mas a atual Constituição foi promulgada “sob a proteção de Deus”. Nas cédulas, há a recomendação de que “Deus seja louvado”. O presidente de turno chegou ao poder com o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. É um Deus nos acuda em tempo integral.


Para fazer jus à cidadania brasileira, o Todo-Poderoso teve de se licenciar de suas inefáveis funções e virar cabo eleitoral na peleja de 2022. Ele se sentirá em casa por estar, desde a queda de Lúcifer, engajado nessa luta do Bem contra o Mal. A diferença é que, aqui, o Mal tem o dom da bilocação — está ao mesmo tempo nos dois cantos do ringue.

Michelle Bolsonaro tem dito que “o Brasil é do Senhor”, que “Deus tem promessas para o Brasil”, que “aquele lugar [o Palácio do Planalto] era consagrado a demônios”. Como o inferno são os outros, para Lula, “se há alguém possuído pelo demônio, é esse Bolsonaro”.

O petista atacou o uso da religião por parte de seu oponente: “É heresia falar o nome de Deus em vão como fala esse cidadão (...) que está mais para fariseu que para cristão”. Contudo se permitiu pregar: “A gente tem que olhar a Bíblia e ela tem que ser cumprida”. A que preceitos bíblicos estará se referindo? Aos que punem a homossexualidade e mandam apedrejar mulheres que não chegam virgens ao casamento? Aos mandamentos que condenam o roubo, o falso testemunho? Deve-se obediência coletiva a livros sagrados apenas nas teocracias — o que não é o caso. Porém levantamento feito pelo GLOBO revela que são 902 os candidatos que se declararam sacerdotes ou integrantes de ordem ou seita religiosa — um quarto a mais que em 2018. Majoritariamente evangélicos, vêm reforçar a bancada do dízimo — conservadora e pouco sensível a questões ligadas à laicidade do Estado ou à tolerância para com a fé alheia.

Rezam as feiquenius difundidas por bolsonaristas que, em caso de vitória do PT, “brasileiros serão impedidos de falar em Deus” (restrição que viria a calhar em relação aos que exercem cargos públicos) e que “templos serão fechados”. Interditar estabelecimentos caça-níqueis, que enriquecem os empresários da fé com “doações” obtidas mediante fraude, venda de caneta ungida (para passar em concurso) e de grão de feijão que cura Covid-19 seria uma ação legítima contra o estelionato. Mas, para dar cabo dos vendilhões do templo, só Jesus na causa.

Quando se faz o diabo para conseguir votos, lambuzar-se na gordurama do pastel de feira por puro populismo chega a ser um pecado menor.

Poder dos insensatos

Não é minha intenção discutir convosco os danos causados à liberdade humana e as possibilidades de justificação pela razão de Estado. Mas o combate pela verdade científica, afastado dos problemas concretos da vida cotidiana, deveria ser considerado intocável pelo poder político. Não será de bom aviso deixar que os servidores sinceros da verdade vivam em paz o tempo necessário?
Albert Einstein, "Como Vejo o Mundo"

O coração de D. Pedro I simboliza a necropolítica no Bicentenário

Ganha um pastel de Belém quem souber onde fica a Rua D. Pedro I no Rio de Janeiro, a cidade que acolheu o jovem príncipe no exílio, em 1808, e o transformou no primeiro imperador do Brasil, às vésperas de completar 24 anos, em 7 de setembro de 1822. Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon era herdeiro da casa real portuguesa, filho de D. João VI, regente de Portugal, e da princesa espanhola Carlota Joaquina, que viriam a se tornar rei e rainha de Portugal em 1816, com a morte da rainha Maria I.

O seu protagonismo político na formação do Brasil como nação não pode ser ignorado nas comemorações do Bicentenário da Independência. Com esse objetivo, amanhã, chega ao Brasil o coração de D. Pedro I, que será exposto no Palácio do Itamaraty, em Brasília, como ponto alto das comemorações oficiais do Bicentenário da Independência. A data magna também servirá para a realização de grandes manifestações de apoio ao presidente Jair Bolsonaro e seu projeto de reeleição; a unidade nacional e a coesão social de nosso país estão fora de questão. Essa forma de comemoração merece uma reflexão crítica, porque simboliza o sequestro da identidade nacional e do nosso futuro pelo presidente Jair Bolsonaro com propósitos eleitorais e regressistas.

Quase como uma piada pronta, a morbidez da programação reforça a ideia de que vivemos tempos de “necropolítica”. As negociações para o empréstimo do coração levaram cerca de quatro meses e envolveram o governo português, a Câmara do Porto e representantes da Irmandade da Lapa, entidade religiosa que guarda a relíquia. Mantido em um pote de vidro, imerso numa substância dourada, o coração do D. Pedro será recebido no Palácio do Planalto com honras de chefe de Estado, com salvas de canhão e escoltado pelos Dragões da Independência; depois, ficará em exposição pública no Palácio do Itamaraty.


Até o começo de 1821, D. João VI manteve D. Pedro afastado da política. Com a Revolução Liberal do Porto, foi obrigado a voltar a Lisboa e deixou-o como príncipe regente do Brasil. Essa ação fez com que assumisse protagonismo político, convertendo-se em líder da Independência, em contraposição às Cortes portuguesas, que exigiam sua volta ao país. Em 9 de janeiro de 1822, D. Pedro anunciou sua permanência no Brasil, evento que ficou conhecido como Dia do Fico.

Daí em diante, o processo de ruptura se acelerou, e a hostilidade nas relações entre Brasil e Portugal aumentou. Em 7 setembro de 1822, Dom Pedro estava em viagem a São Paulo e, no trajeto Santos-São Paulo, próximo ao riacho do Ipiranga, recebeu uma carta assinada por sua esposa e por José Bonifácio, seu conselheiro pessoal, com as novas ordens enviadas por Portugal. D. Pedro aproveitou a situação para declarar a independência. Em 1º de dezembro de 1822, D. Pedro foi coroado imperador.

Ao contrário de todos os demais países das Américas, que se tornaram republicanos a partir da independência — com exceção do México, que teve três impérios brevíssimos —, o Brasil optou por uma monarquia, que nos legou um Estado historicamente constituído e nossa integridade territorial, embora a nação fosse ainda um projeto em construção. A razão de ser da nossa monarquia estava mais associada à manutenção da escravidão e ao projeto de reunificação do Império colonial português, cuja personificação seria o próprio D. Pedro I.

Seu autoritarismo e intransigência resultaram na sucessão de crises que marcaram o Primeiro Reinado. D. Pedro fechou a Constituinte de 1823, rasgou a chamada Constituição da Mandioca e nos outorgou a Constituição liberal de 1824, na qual o direito à propriedade privada foi introduzido com o claro objetivo de blindar a escravidão.

A insatisfação foi enorme. No Nordeste, deu origem a uma revolta de caráter separatista, a Confederação do Equador. D. Pedro I decidiu declarar guerra contra as Províncias Unidas em virtude de uma revolta em curso na Cisplatina. A guerra afetou a economia brasileira e resultou na independência do Uruguai. A derrota moeu a popularidade de D. Pedro, que perdeu apoio dos militares e da população pobre. O assassinato do jornalista italiano Líbero Badaró, que lhe fazia dura oposição, em novembro de 1830, em São Paulo, tornou a situação insustentável.

D. Pedro I foi acusado de proteger os assassinos do jornalista, e o confronto entre seus defensores e críticos nas ruas do Rio de Janeiro explodiu em março de 1831. A Noite das Garrafadas fez com que renunciasse ao trono, em 7 de abril de 1831, para que seu filho, Pedro de Alcântara, pudesse assumir quando completasse 18 anos.

Em 1831, D. Pedro I mudou-se para Portugal com o objetivo de participar da Guerra Civil Portuguesa e defender o direito de sua filha, D. Maria II, de assumir o trono do país. Lutou contra o seu irmão D. Miguel pelo trono e venceu esse conflito. Maria foi restaurada no trono de Portugal em 1834, e D. Miguel fugiu em exílio. Durante a guerra, D. Pedro I contraiu tuberculose, doença que se agravou e o levou à morte em 24 de setembro de 1834.

No Brasil, o conturbado Período Regencial que se seguiu à abdicação de D. Pedro I, até o Golpe da Maioridade de D. Pedro II, em 1840, foi fundamental, porém, para consolidar a União e plantar, no parlamento brasileiro, as sementes do nosso federalismo e, nele, em contrapartida, a cultura de conciliação de nossas elites. D. Pedro jamais recuperou sua popularidade.

A personalização do poder

Abro a reflexão com uma questão: que programa de governo o eleitor enxerga no perfil dos candidatos à presidência da República? A imagem que chega aos segmentos sociais é a de que o candidato A é esquerdista, o candidato B é direitista, o candidato C é centrista, outros candidatos são amorfos, inodoros e insossos, ou seja, “não fedem nem cheiram”, como se diz na linguagem popular.

Até que, para uns, há certos desdobramentos. Ele dá bolsas de auxílio (Bolsonaro), o outro criou uma bolsa para as famílias (Lula), aquele ali é boquirroto (ou será que todos são boquirrotos?). Sob essa sombra esgarçada, são conhecidos candidatos e candidatas, mas nenhum deles é embrulhado em um pacote de ideias sobre as demandas nacionais. A mídia noticiou sobre o plano de um protagonista (Ciro), mas a informação se diluiu na algaravia deste início de campanha eleitoral.


O fato é que a política ganha a aura da personalização. O voto é dado a beltranos e sicranos, não a programas, projetos, ideários. Daí a dualidade que temos de enfrentar: Lula versus Bolsonaro, Ciro e Tebet contra os dois, os outros – poucos sabem seus nomes – a favor de si mesmos, eis que a campanha oferece um palco para que possam ser conhecidos.

Essa é a política estática, que se amarra na árvore do grupismo, do companheirismo, das claques, milícias e militantes.

Um pouco de conceito.

A sociedade pós-industrial abre o teatro da espetacularização. No Estado Espetáculo, emerge o fulanismo. Por meio da legislação eleitoral, os contendores entram na moldura das candidaturas, passando a povoar os amplos espaços dos meios de comunicação. Alcançam, em função de intensa exposição pública.

A mídia tem interesse em endeusá-los, glorificá-los ou mostrar seus “pecados”, principalmente em momentos de tensão e transição, quando rixas e querelas acendem fogueiras e formam “exércitos” em seu entorno.

As trupes dos dois principais candidatos cumprem o roteiro da peça, organizando uma comprida agenda pelo território, com direito a investidas dos “guerreiros” sobre os combatentes, como se viu, esta semana, no cercadinho do Palácio da Alvorada. O presidente Bolsonaro, chamado por um trombeteiro de “tchutchuca do Centrão”, avançou sobre ele para tirar-lhe o iphone. Uma cena hilária. Eleição é também comédia.

Já Luiz Ignácio é mostrado como uma pessoa “tomada pelos demônios”, flagrado em um candomblé, dançando com pais de santo. Coisa natural, manifestação típica da cultura afro-brasileira, que os evangélicos de Bolsonaro, a partir da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, denunciam como ritos do demônio.

Emergirão fatos do passado. Estrepolias, gafes, frases fora do contexto fazem parte da narrativa eleitoral. Ciro Gomes, então, é alvo predileto dos captadores de flagrantes polêmicos.

Volto aos conceitos. Na sociedade de massa, o poder escapole das estruturas clássicas de autoridade e converge para pessoas e grupos. O processo é simbólico: personaliza-se o poder, expressando a propensão das comunidades para encontrar a figura do pai, do irmão protetor, do grande amigo, do guerreiro, do vilão, do larápio, do mocinho e do bandido. Nos dutos da sociedade pós-industrial, estas figuras, muitas sem carisma, se apoiam na bengala do populismo.

E os partidos? Ora, são domínios de A, B e C. Escopos doutrinários? Ora, são substituídos por visões estreitas e individualistas.

Esse cipoal puxa a degradação da política. A estampa dos homens públicos se apresenta esboroada. A canalhice e mediocridade inundam os espaços públicos. A despolitização e a desideologização se expandem.

O que fazer para limpar a sujeira que borra a imagem do homem público? Primeiro passo: o homem público deve cumprir rigorosamente o papel que lhe cabe. Segundo: punir os que saem da linha. Terceiro: revogam-se as disposições em contrário.

Está tudo dominado

"Elite Capture", do filósofo nigeriano-americano Olúfémi O. Táíwò, é um livro interessante. O texto é daqueles bem militantes, contrastando um pouco por minha preferência por obras mais analíticas. Mas Táíwò, que é professor na Universidade Georgetown, levanta problemas relevantes, que frequentemente passam despercebidos.

Para Táíwò, está tudo dominado. Para início de conversa, as estruturas sociais são desenhadas para sempre favorecer as elites. É o que ele chama de capitalismo racial. Mas, como se isso não bastasse, vemos agora essas mesmas elites se apropriando da política de identidade, originalmente um movimento de resistência, para fazer avançar seus interesses, num fenômeno que o autor batizou de política de deferência.


Hoje, a fina flor do capitalismo mundial, isto é, grandes bancos e "big techs", não só encampa o discurso identitário como também promove a elite dos grupos marginalizados a posições privilegiadas. Os diretamente envolvidos ganham. Os empresários sinalizam sua virtude, os promovidos ficam com a promoção, mas a maior parte dos marginalizados continua marginalizada. No Brasil, as cotas em universidades fazem um pouco isso. A sociedade fica com a sensação de dever cumprido por ter instituído essa política e os bons estudantes negros ganham vagas em boas escolas. Mas os mais discriminados, isto é, o garoto negro que não consegue concluir o ensino fundamental e acaba em subempregos ou no crime, continua quase tão discriminado quanto seus trisavós escravizados.

O que me incomodou no livro é que Táíwò não deixa muito espaço para respostas que difiram da sua. Precisamos necessariamente ver os empresários como cínicos tentando faturar em cima dos movimentos identitários? Não dá para imaginar que um "capitalista" considere o racismo imoral e esteja disposto a agir contra ele, embora sem deflagrar um movimento revolucionário, que é o que o autor cobra?

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Promessas vazias e retrocesso


Os candidatos tratam os eleitores brasileiros com a certeza de que eles gostam mesmo é de ser enganados. Tudo indica que é a pura verdade

O major e o capitão

Morreu Sebastião Curió, um dos mais notórios carrascos da ditadura militar. Em 1973, ele foi destacado para reprimir a Guerrilha do Araguaia. Comandou o sequestro e o assassinato de dezenas de militantes na floresta.

A operação pode ser resumida como um massacre. A ordem do Exército era não fazer prisioneiros. Os guerrilheiros eram capturados, levados para centros de tortura e executados.

Documentos militares mostram que os superiores do major o elogiavam pela “coragem e arrojo” na “árdua tarefa de combate à subversão”. Sem a proteção da ditadura, Curió não se mostrou tão destemido assim. Convocado pela Comissão da Verdade, apresentou três atestados médicos para não depor. Também se esquivou de ser ouvido em casa ou num hospital.

A rigor, seu depoimento nem seria necessário. Em 2009, Curió confirmou ao jornal O Estado de S. Paulo a execução de 41 militantes presos e desarmados. Com frieza, comparou o extermínio à limpeza de uma lavoura. “Quando se capina, não se corta a erva daninha só pelo caule. É preciso arrancá-la pela raiz”, afirmou.


O Ministério Público Federal apresentou sete denúncias criminais contra Curió. Todas foram arquivadas sem julgamento. Se tivesse nascido na Argentina ou no Chile, o major teria terminado seus dias na cadeia. Como nasceu no Brasil, morreu impune, aos 87 anos. Foi beneficiado por uma interpretação controversa da Lei da Anistia, que blinda os militares que praticaram terrorismo de Estado.

Protegido da Justiça, Curió ainda se aventurou na política. Depois de chefiar o garimpo em Serra Pelada, elegeu-se deputado e prefeito. Em maio de 2020, foi recebido com honras por Jair Bolsonaro. Num ato de escárnio com as famílias dos desaparecidos, a Secretaria de Comunicação da Presidência o chamou de “herói do Brasil”.

A relação entre o major e o capitão vinha de longe. Em 1986, Curió enviou uma carta a Bolsonaro, que ainda sonhava disputar sua primeira eleição para vereador. Em papel timbrado da Câmara, manifestou o desejo de “passar o bastão” ao “jovem companheiro”.

O documento foi localizado no Arquivo Nacional pelo historiador Lucas Pedretti. No texto, Curió se revela um visionário: foi o primeiro a identificar Bolsonaro como o legítimo herdeiro dos porões.

Brasil paga bem os patriotas

 


Michelle Bolsonaro e a esposa de Assuero

A pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta assinalou que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria hoje 32% dos votos de evangélicos e 47% da preferência total. No caso do presidente Jair Bolsonaro, o apoio no meio evangélico sobe para 49% e entre o público em geral, 32%.

O resultado mostra que evangélicos e não evangélicos parecem viver em mundos diferentes, um é o avesso do outro. No mundo evangélico quem está às portas da vitória no primeiro turno é Bolsonaro. Não há sinal mais eloquente para se constatar que neste segmento específico da população a decisão de voto é tomada de forma muito diferente do que no do restante da população.

Os evangélicos a si mesmos se denominam de rebanho, e os pastores desse rebanho, muitas vezes, recomendam o voto em Bolsonaro. É tentadora a explicação de que a preferência por Bolsonaro se deve a alguma espécie de obediência cega dos fiéis a guias como Edir Macedo, Silas Malafaia, bispo Waldomiro, apóstolo Estevam, reverendo R. R Soares e outros. Tão tentador quanto enganoso.


Sociólogo e pastor da Primeira Igreja Presbiteriana Independente, uma confissão brasileira surgida de um cisma presbiteriano em 1903, Valdinei Ferreira, de São Paulo, afirma que vem de baixo, do chão dos templos e não dos púlpitos, uma posição política contra a esquerda e, por exclusão, a favor de Bolsonaro.

“Fala-se muito na adesão dos pentecostais a Bolsonaro, mas nos evangélicos das denominações históricas isso é ainda mais forte”, comenta.

Outra pesquisadora, a antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira, professora da UnB e pesquisadora do Cebrap, participou de pesquisas qualitativas com mulheres evangélicas em parceria com o Iser, do Rio de Janeiro, e atesta: as pessoas não decidem o voto em Bolsonaro apenas porque o líder de sua comunidade recomendou. Só o fazem quando recebem informações, falsas ou verdadeiras, que indicam que qualquer outra opção que não Bolsonaro podem colocar em xeque políticas que elas apoiam. É uma diferença sutil: não há o voto de curral, mas há o voto de um público sugestionável a mensagens que chegam no idioma que se entende na comunidade.

Bolsonaro fala a língua que é compreendida dentro de uma narrativa muito antiga. Se encaixa na tradição da luta do bem contra o mal, do conflito com o reino do materialismo, da promiscuidade, de Satanás. Um maniqueísmo onde, conforme observa o pastor Ferreira, se esquece de um preceito teológico, o de que o mal está dentro de cada um, e não exteriorizado em um outro.

Neste sentido, segundo Ferreira, é impossível entender a força de Bolsonaro entre os evangélicos sem lançar os olhos para a sua mulher, Michelle. Bolsonaro, frise-se, é um político católico, que até cerca de dez anos atrás nunca se notabilizou pela defesa das bandeiras tradicionais do conservadorismo religioso e nem demonstrava essa religiosidade em sua vida privada.

Michelle é uma evangélica raiz, como se diz atualmente. Neste sentido, ela é a representante do povo de Deus dentro do Palácio. Segundo o pastor, se assemelha no imaginário bíblico à figura de Ester, do Antigo Testamento.

Ester, judia, casou-se com Assuero, o rei dos medos e dos persas, um déspota afeito a alguns dos sete pecados. Tornou-se a rainha. A sua capacidade de persuasão levou Assuero a se tornar de perseguidor em protetor dos judeus, para desespero de seus adversários. Ester guiou a ação de Assuero, sem nunca substituí-lo.

“O evangélico tende a se imaginar dentro da Bíblia. Uma figura como Michelle é fundamental para garantir a aderência ao projeto bolsonarista. Ela é a evangélica. Ele não”, comenta o pastor Ferreira.

A associação entre Michelle e a rainha Ester também apareceu nos grupos de qualitativa com mulheres evangélicas, segundo Jaqueline Teixeira. “É a figura que representa o compromisso com valores maiores, já que o marido tem defeitos amplamente reconhecidos dentro da comunidade”, diz.

Há ainda uma questão de identificação. O antropólogo Juliano Spyer, pesquisador da UFRJ e criador do Observatório Evangélico, um portal de informações, lembra que a onda evangélica no Brasil é recente, tem suas raízes na migração do meio rural para as grandes cidades de uma massa com baixa instrução e valores conservadores que se chocou com a cultura das grandes cidades. Um aluvião humano que a Igreja Católica foi incapaz de acompanhar.

Neste universo a pessoa evangélica típica é mulher, não branca, distante das leituras. Reúne categorias do eleitorado muito propensas a votar em Lula. É um contingente ainda relativamente jovem, na faixa de 30 a 45 anos.

O peso do Nordeste é crescente. Não é possível vislumbrar hegemonia evangélica em nenhuma região do Brasil, mas especialistas apontam que é no Nordeste, um reduto lulista, que os evangélicos se expandem com maior velocidade. Se o petista conta com cerca de um terço das preferências no segmento evangélico, a razão principal aí está: nas mulheres, nordestinas, pretas e pardas, de baixa instrução e baixa renda, muitas vezes chefes da família e altamente sensíveis a políticas públicas na área social, como transferência de renda, educação e saúde.

A principal arma que Bolsonaro tem para sensibilizar um público com características tão próximas ao lulismo é a primeira-dama.

“Michelle se aproxima muito desse perfil. Ela não é alguém que aparece agora, desde o início do governo Bolsonaro tem visibilidade com causas como direitos a portadores de deficiência. Então seu surgimento na campanha não soa como estratégia eleitoreira”, diz Jaqueline.

A mulher evangélica, diz a pesquisadora, é permeável a um tipo de agenda que não é a vocalizada pelo presidente, mas pode ser representada pela sua cônjuge. É bom lembrar que Michelle, ao contrário do marido, se vacinou contra a covid-19 e, de acordo com o próprio Bolsonaro, tem aversão a armas.

A ditadura moderna

A diferença [entre a ditadura convencional e a do capitalismo] é que não é a ditadura como nós conhecemos. É o que eu chamo de ‘capitalismo autoritário’. A ditadura tinha cara, e nós dizíamos é aquele, ou aqueles militares, o Hitler, o Franco, o Pinochet, mas agora não tem cara. E como não tem cara não sabemos contra quem lutar. Não há contra quem lutar. O mercado não tem cara, só tem nome. Está em toda parte e não podemos identificá-lo, dizer ‘eis tu’. Mesmo as pessoas que lutaram contra a ditadura, entrando na democracia acham que não têm mais que lutar. E os problemas estão todos aí. O mercado pode se tornar uma ditadura.

José Saramago, "As palavras de Saramago"

O Brasil, colônia de si mesmo

Ao completar 200 anos de idade, o Brasil ainda peleja no divã da história para se libertar de sua personalidade colonial. O volume 3 da trilogia Escravidão, transcreve trechos do abolicionista Joaquim Nabuco, que vestem perfeitamente no Brasil atual.

“Um país já velho… com paisagem marcada pelo abandono… cultiva o desprezo pelos interesses do futuro e a ambição de tirar o maior lucro imediato…, qualquer que seja o prejuízo das gerações futuras… Queimou, plantou e abandonou… não edificou escolas, não construiu pontes, nem melhorou rios… não concorreu para progresso algum na zona circunvizinha”.
(O Abolicionismo, 1883)

O que Nabuco descreve acima se aplicaria ao modelo colonial europeu em geral, como fonte inesgotável de riquezas às custas do meio ambiente e da vida de povos originários e africanos.

Contudo, não custa refletir se o Brasil não seria um projeto inacabado de República, no qual interesses políticos e econômicos irresponsáveis aliam-se, vez por outra, aos costumes arcaicos da sociedade, como se ainda fossem mercadores, apenas de passagem pela colônia.

Nesse sentido, cabe lembrar que, em pleno século XIX, quando outras colônias e monarquias tradicionais já iam longe na instalação de suas instituições democráticas, o Brasil insistia no sentido oposto.

Os Estados Unidos já eram república, a Revolução Francesa dava frutos, o Haiti fervia liderado por negros, a revolução industrial transformava as sociedades, e a escravidão era abolida mundo afora.


Enquanto isso, em 1822, o Brasil torna-se, não uma república, mas, um império na América (cujo imperador ‘independente’ era o herdeiro do trono colonizador!).

Não foi à toa que, enquanto o mundo criava tecnologias como a máquina a vapor, o telefone, a eletricidade, vacinas, e diferentes formas de democracia, o Brasil seguiu convictamente agrário e escravista.

Por isso, não surpreende que, até hoje, em plena emergência climática, o País continue na contramão, sem um plano de desenvolvimento (ou sobrevivência) que corresponda à estatura e à gravidade do desafio global.

Quando finalmente a escravidão foi abolida no Brasil, quase no séc. XX, cerca de 5 milhões de africanos (e quantidade semelhante de indígenas) haviam sido sequestrados, escravizados ou mortos (número de fazer inveja a qualquer holocausto).

A República só chegaria um ano depois, por meio de um golpe de Estado patrocinado pelos escravocratas ressentidos, que remodelaram seus negócios e suas relações de poder.

Escravidão III destaca que o conceito de República utilizado no século XIX ainda era dissociado da definição de Democracia (até então, considerada uma ideia anárquica demais).

Quem sabe, essa visão de república autocrática e positivista não persista no DNA brasileiro.

E, quem sabe, justifique, ainda hoje, o abandono da população negra ao próprio azar, o extermínio de indígenas, a devastação ambiental, a violência e os vaivéns da democracia.

Com empresários golpistas, Bolsonaro realiza o sonho da elite própria

Em menos de uma semana, Jair Bolsonaro conseguiu preencher uma cartela com o repúdio de quatro grupos influentes da vida nacional. Na quinta passada (11), um manifesto encabeçado por intelectuais e pela elite econômica denunciou as ameaças golpistas do presidente. Cinco dias depois, cardeais da política e dos tribunais se opuseram aos ataques do capitão e aplaudiram as urnas eletrônicas em cerimônia no TSE.

Bolsonaro disputou a última eleição com o figurino de um candidato que desafiava os interesses dos ricos e poderosos. O presidente tenta renovar a imagem sempre que se vê isolado por esses grupos: andou dizendo que os bancos só defendem a democracia porque perderam dinheiro com a criação do Pix e alega que o establishment trabalha contra ele porque seu governo não cedeu a velhos conchavos.


A ideia é a mesma desde a campanha passada: assumir o rótulo de um movimento antielitista e reivindicar uma suposta legitimidade popular a favor de seus interesses políticos. Essa linha vale tanto para o discurso eleitoral clássico como para suas incansáveis propostas de ruptura ("eu faço o que o povo quiser").

Apesar de aproveitar o personagem, Bolsonaro está muito bem servido por uma elite que parece disposta a ficar a seu lado para o que der e vier. Não são poucos os endinheirados que apostam numa vitória do capitão, enquanto outros querem que ele permaneça no poder mesmo que seja derrotado nas urnas.

Há meses, um grupo de empresários lidera uma torcida organizada do golpismo pelo WhatsApp. Segundo uma reportagem do site Metrópoles, estão lá o notório Luciano Hang e os donos das marcas Multiplan e Coco Bambu, entre outros. Um deles disse abertamente preferir um "golpe do que a volta do PT".

Com empresários amigos, políticos poderosos alimentados com verba pública e aliados em postos-chave, Bolsonaro realizou o sonho da elite própria. Resta saber se essa turma está disposta a pagar a conta dos delírios autoritários do capitão.

Bolsonaro embalsamado

Enquanto Bolsonaro tinha de engolir sem água o discurso de posse do ministro Alexandre de Moraes na presidência do TSE, sua tropa nas redes sociais disparava milhares de mensagens convocando para ataques ao mesmo TSE nas arruaças de 7 de Setembro. Esses disparos eram como o braço mecânico do "Dr. Fantástico", personagem de Peter Sellers no filme de Stanley Kubrick, automático, incontrolável, programado para fazer sem parar a saudação nazista, e seriam as senhas para um possível golpe contra as eleições. Mas, como Bolsonaro percebeu, a fala de Moraes foi um direto de muay thai contra seu projeto.


O significativo é que a mensagem do discurso —a garantia de que qualquer ameaça às instituições será rechaçada por elas— foi feita na presença dos representantes dessas instituições. Ali estavam os três Poderes da República, a sociedade civil e as missões estrangeiras, o que cobre praticamente o leque. Todos aplaudindo de pé, para constrangimento de Bolsonaro, rígido como uma múmia recém-embalsamada. E houve o que me calou mais fundo: Moraes e demais oradores fizeram uma incisiva pregação antigolpe sem usar a palavra golpe.

Não foi preciso. A ideia de golpe já está no ar há muito tempo, o que anula certas condições indispensáveis para torná-lo possível: a conspiração, o segredo, a surpresa. Todo mundo, inclusive lá fora, sabe hoje que Bolsonaro é golpista.

Quando falei em golpe pela primeira vez neste espaço, na coluna "Remédio para azia", de 13 de dezembro de 2019, leitores me acusaram de estar vendo fantasmas. Ainda se achava que Bolsonaro era só um destrambelhado. Mas ali já se via que, por trás do destrambelho, havia um projeto. Um projeto de golpe.
Desde então, perdi a conta de quantas vezes usei aqui essa palavra. Sempre achei que, quanto mais se falasse de golpe, mais difícil seria tentá-lo. E talvez ainda não se tenha falado o suficiente.