quinta-feira, 21 de julho de 2022

Campanha manchada de sangue, eivada de crimes

Que vergonha! Jair Bolsonaro cometeu (mais um) crime ao reunir na tarde de terça-feira, em Brasilia, embaixadores de vários países (nomes não foram divulgados) para tentar emporcalhar mais uma vez a imagem do Brasil e do nosso sistema eleitoral. Usou dependências oficiais da Presidência da República para investir contra as urnas eletrônicas, Lula, os ministros do STF, e sabe-se lá quem mais.

Agenda inútil. Tiro no pé. Instruídos a não dar munição a um presidente escandalosamente mal visto mundo afora, os diplomatas fizeram silêncio constrangedor ao final dos insultos de Bolsonaro. Perverso, obviamente o sujeito não vai desistir. Insistirá na guerra insana contra as eleições de 2022.

Vejamos. Nos últimos dias, uma avalanche de números falsos, pesquisas distorcidas, cenários fabricados, invadiram as redes sociais, sobremaneira entre bolsonaristas. Enquanto Lula se mantém à frente de Bolsonaro, com reais chances de chegar ao segundo turno – podendo vencer no primeiro – adeptos do presidente praticaram o que de melhor sabem fazer: espalhar mentiras.

Reportagem desse domingo,17, em O Globo, assinada por Marlen Couto e Jessica Marques, mostrou casos de textos falsos atribuídos a institutos de pesquisa dando vitória esmagadora a Bolsonaro. Segundo a noticia falsa atribuída ao Paraná Pesquisas, o negacionista ganharia com 70% em vários estados brasileiros. Não há um estado que dê tal proporção a ele.


O próprio instituto desmentiu a matéria. A pedido do Globo, a Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas verificou os dados e pontuou que, entre 1º de junho e 5 de julho, a mensagem sobre a vitória de Bolsonaro no primeiro turno apareceu 35 vezes em 25 grupos de WhatsApp, em um universo de 172 grupos públicos monitorados.

A mentira está ali para mexer com a emoção das pessoas. Ouvido pelo Globo, o Diretor de análises públicas da FGV, Marco Aurélio Ruediger chama a atenção para esse componente. “Não é para fazer o eleitor pensar, é para que ele pegue essa informação falsa, acredite nela e compartilhe com os amigos”, diz Ruediger.

Bolsonaristas são experts em produzir mentiras. O exemplo vem de cima. Nunca se viu um presidente que mente tanto quanto Bolsonaro. Quando não mente, decreta sigilo de 100 anos para suas estrepolias, ou para as diabruras dos filhotes, caso Flavio e a Receita Federal. Só não conseguiu esconder o gasto extraordinário no cartão corporativo da Presidência, em dois anos: $ 26 milhões, ou 37 mil cestas básicas a $ 700.

Bolsonaristas são violentos. Na campanha, em 2018, o fulano exibiu uma arma num palanque, conclamando a população a “fuzilar a petralhada”. Foi no Acre. Houve morte em 2018. Assassinado por motivos políticos, Moa do Katendê foi esfaqueado porque não gostava de Bolsonaro. Foi na Bahia.

Em 2022, o ódio disseminado pelo Presidente fez a primeira vítima: no Paraná. O tesoureiro do PT em Foz do Iguaçu, Marcelo Aloizio de Arruda, foi assassinado pelo policial bolsonarista José da Rocha Garanho. O assassino gritou: “aqui, é Bolsonaro”, e matou Marcelo, a sangue frio, em sua festa de aniversário. Ontem, foi encontrado o corpo de Claudinei Coco Esquarcini, 44. Tratado como suicidio, muito provavelmente conectado ao crime de Foz. Diretor da associação onde ocorreu a festa de Marcelo, Claudinei seria o encarregado pelo sistema de câmeras de vigilância no local do crime.

Diante de tanta violência e fraudes, a facada de 2018, até hoje mal explicada, mal investigada, terá sido apenas uma sandice. Teorias conspiratórias à esquerda e à direita questionam a facada da qual Bolsonaro tirou muito proveito. Tira até hoje. Nada impedirá que explore mais ainda em 2022. Este ano, foi internado duas vezes, alegando consequencias da facada. Eram camarões não mastigados. Aff. O caso foi reaberto em novembro. Aguardemos.

Nesse cenário de filme de terror, trilher de suspense e dor, vamos as urnas daqui a 76 dias. Nada será fácil. Lidamos com um sujeito maquiavélico, que tem a caneta e as chaves do cofre (distribuiu bilhões aos seus parlamentares de estimação, a começar por Arthur Lira). Nos atormenta, é natural, o medo diante de tantos crimes, manobras, mentiras, distribuição de dinheiro publico para compra de votos.

Haja esperança. Haja coragem. Falta pouco.

Pensamento de (todo) Dia

 


Ser militar hoje

Se compararmos os temas guerra e paz na literatura universal, a guerra é o assunto favorito. Cito apenas três clássicos: A Arte da Guerra de Sun Tzu, clássico chinês de cinco mil anos. Servidão e Grandeza Militares de Alfred de Vigny e ainda o Da Guerra de Carl von Clausewitz. Resta o consolo de que o filósofo chinês disse que o objetivo da guerra é a paz. E que se for possível ganhar uma guerra sem necessidade de matar nenhum soldado inimigo isso deve ser feito. Chego a me perguntar se Sun Tzu era mesmo um filósofo da guerra ou da paz. E para não concluir este parágrafo sem mencionar nem um livrinho sobre a paz, faço-o e recomendo O Homem e a Paz, um livro de bolso da Editora da FVG, RJ, 1981. Uma publicação d'O Correio da Unesco. O que tem de pequeno tem de bom. A capa é o quadro de Picasso Vive la paix.

Segundo César Benjamin. "Todas as sociedades delegam a um subgrupo de cidadãos a especialíssima prerrogativa de deter e manejar, com exclusividade, os meios de fazer a guerra. Trata-se, pois, de um subgrupo muito poderoso. Justamente por isso, ao lado da formação técnica, as sociedades investem pesadamente em sua formação intelectual e moral, para que ele compreenda bem a missão que tem e atue de forma harmoniosa com as demais instituições, praticando uma permanente auto limitação do uso de sua força.

Forças Armadas que perdem essas referências deixam de ser instituições nacionais. Degeneram em milícias.

Um dos valores mais caros à formação militar é o da lealdade. Sem ela, no mais alto grau, não se pode atuar de modo eficaz em uma guerra".

No meu tempo de soldado não era bem assim e entre nós, soldados, valia o lema: "Ordem maluca não se cumpre". E foi o que ocorreu quando Bolsonaro pediu ao Comandante da Aeronáutica para dar voos rasantes com um supersônico com o objetivo de quebrar as vidraças do Supremo Tribunal Federal. Fiquei curioso para saber o que pensam os três novos comandantes em relação às maluquices do Comandante Supremo.

Por falar nele já verbalizou que sua especialidade é matar, referindo-se à sua condição de militar.

Antigamente a guerra gozava de bom conceito. A guerra já foi exaltada como imperativo religioso (guerra santa) e patriótico e até como esporte de reis. Ser militar era algo enobrecedor, houve exércitos especiais que recrutavam seus guerreiros entre fugitivos, perseguidos ou mercenários. E ao se alistar no exército seu passado comprometedor era esquecido e o sujeito passava a gozar do prestígio de ser um militar. Durante muito tempo a guerra era apanágio de militar. Existia um código de honra militar, alvos civis eram respeitados. Com o advento dos armamentos modernos e especialmente os de destruição em massa, os civis entraram na dança da guerra. Cidades passaram a ser alvos de bombardeios militares.

A partir do século XIX o militarismo e a guerra começaram a perder prestígio. Isso se manifestou na nomenclatura. Ministério da Guerra virou Ministério da Defesa. Em instalações militares americanas lê-se a inscrição: "Our task is peace" (Nossa tarefa é a paz). Hoje um militar é uma espécie de terrorista fardado. Peguemos como exemplos duas guerras atuais as que ocorrem entre Israel e os palestinos da Faixa de Gaza e a invasão da Ucrânia pela Rússia. Quando o exército israelense quer abater dirigentes do Hamas e eles se encontram reunidos dentro de um hospital ou uma escola. Israel bombardeia a escola ou o hospital sem se importar com as mortes de médicos, enfermeiras e doentes ou de professoras e alunos. O Hamas foi terrorista ao usar cidadãos como escudos e os militares israelenses foram igualmente terroristas ao abater cidadãos palestinos. O mesmo vale para a guerra da Ucrânia na qual cidadãos são usados como escudos e bombardeados como alvos militares. E o pior é que a intelligentsia militar assume essa barbaridade. O maior exemplo é a recusa dos americanos a pedir desculpas ao povo japonês por ter jogado bombas atômicas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki.

Resta saber como se comportarão nossas Forças Armadas. Como instituição nacional que são, prevalecerá sua formação intelectual e moral de lealdade ao povo brasileiro? Ou sucumbirá diante do golpismo bolsonarista?

Bestializados, assistimos aos preparativos

Em 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca, monarquista de raiz e amigo do Imperador Dom Pedro II, foi retirado de sua casa, no Rio, e levado adoentado até a Praça da Aclamação para subir em um cavalo e bradar: “Viva a República”.

O que o povo assistiu “bestializado, sem compreender o que se passava, julgando ver talvez uma parada militar”, segundo o republicano Aristides Lobo, era o golpe político-militar que pôs fim ao regime imperial. E assim nasceu a República.

Bestializados ou não, já assistimos muitas coisas desde então, sabendo ou ignorando o que de fato se passava. Os últimos 3 anos foram pródigos em fatos bestiais, o mais recente a pandemia que por omissão do governo matou mais de 675 mil pessoas.

Como foi possível contemplarmos, inertes, um governo dar passe livre à Covid-19, receitar drogas comprovadamente ineficazes para combatê-la enquanto pessoas morriam por falta de oxigênio em hospitais, e retardar o mais que pôde a compra de vacinas?

Outra vez indiferentes ou bestializados testemunhamos o presidente da República conspirar a céu aberto contra a democracia que tantas vezes já nos foi negada – a última delas, por tristes 21 anos ininterruptos. E em nome do que aconteceu?

Em nome de proteger a democracia ameaçada pelo fantasma do comunismo. Torturou-se, matou-se, suspendeu-se todo tipo de liberdade para salvar-se a democracia. Uma vez salva, novamente ela está em perigo. A Rússia de Vladimir Putin já não é comunista.

A China, que se diz comunista, é nosso maior parceiro comercial. Cuba de Fidel Castro e Che Guevara deixou de existir. Agora, é um delirante ex-capitão, expulso do Exército por ser um mau militar, que ameaça a democracia aqui restabelecida há apenas 37 anos.

Seria uma piada se não fosse verdade. Seria difícil de crer, mas não diante da estupefação das instituições que se limitam a confrontá-lo por meio de notas de repúdio. Cartas de amor são ridículas, disse o poeta Fernando Pessoa. Notas de repúdio, também.

Se antes era o controle remoto que nos tornava cativos de um aparelho onde imaginávamos ver o mundo, agora é o celular que se presta ao mesmo papel. A internet virou nossa trincheira. Por ela respondemos ao fogo inimigo que mata de morte morrida.

A 74 dias das eleições, a Justiça pouco fará para impedir a escalada do golpismo escancarado. Ela não sabe o que poderia ser pior: fazer o jogo do ex-capitão e dos seus asseclas punindo-os, ou deixar que vão em frente, torcendo para que sejam malsucedidos.

Do Congresso comprado com o Orçamento Secreto, nada se deve esperar. Das Forças Armadas cooptadas por Bolsonaro, se muito, que respeitem o resultado das urnas. No mais, que seja o que Deus quiser, embora ele não se meta nas coisas dos homens.

O golpe de Bolsonaro não virá: apenas continua

O golpe de Jair Bolsonaro está em curso pelo menos desde o início de 2020. Ficou explícito na reunião ministerial de 22 de abril daquele ano, como se viu no vídeo publicado por ordem do STF. O progresso golpista está evidente no fato de que um delinquente como Bolsonaro pode cometer crimes de responsabilidade em série e impunemente. Nem sequer é processado por isso.

Agora, gente de Brasília diz que pedidos de processos contra o mais recente vomitório antidemocrático não apenas vão dar em nada, bidu, como não é conveniente que deem em alguma coisa. No momento, segundo essa tese, seria como dar trela à conversa de que há uma conspiração, uma tentativa de cassar a candidatura de Bolsonaro, um temor real e declarado do elemento que ocupa a cadeira de presidente da República.

Isto é, no fim das contas, melhor deixar quieto, em uma espécie de resignação tática.

No entanto, assim, a campanha golpista progride, a situação política se degrada e o caminho fica aberto para a próxima tentativa de arruinar a democracia. Tudo se passa como se, não havendo propriamente institucionalização do golpe (uma ordem autoritária formalizada), a ordem democrática não se desvanecesse. Mas se desvanece. Bolsonaro, ao menos até agora, opera por meio da desativação das instituições da democracia, de Estado etc.

A Procuradoria-Geral da República não existe para os fins a que se destina. A Polícia Federal foi desarticulada. Com outros objetivos imediatos, a Saúde, a Educação, o Ibama, a Funai, a Receita, o Coaf ou o Itamaraty fossem lobotomizados ou transformados em órgãos de propaganda.

O Congresso se tornou um instrumento de partido, no sentido amplo, do centrão. Sim, é óbvio que maiorias governistas votam com o governo. Mas o Congresso sob a regência do centrão-bolsonarismo se tornou um instrumento de desmonte ou apropriação do Estado, do vale-tudo, da avacalhação legal, do regimento legislativo à Constituição.

Para se manter no cargo, Bolsonaro entregou à Câmara o que resta de aparência de governo, que, nas mãos de Arthur Lira (PP-AL) e outros cúmplices, é um meio cru de eternização no poder.

Se diz por aí que não haverá golpe no sentido estrito. Primeiro, porque as Forças Armadas não teriam interesse ou teriam receio de se apoderar de um país dividido ou não seriam mais adeptas de ditadura à moda antiga. Segundo, porque os próprios parlamentares não teriam interesse em desmoralizar as urnas que os levaram ao Congresso ou temem a perda de poderes em uma ditadura "tout court".

Suponha-se, por mero exercício otimista, que as coisas sejam simples assim. Bolsonaro não tem escrúpulo algum e prosseguirá em sua campanha golpista.

Caso seja capaz de algum cálculo racional, pode desistir de quarteladas ou de sublevações populares violentas caso esses ataques subversivos não tenham poder suficiente de dar a Bolsonaro o que ele quer. Mas a fedentina da chantagem, da ameaça, empesteia cada vez mais o ar.

Na última hora, Bolsonaro pode tentar trocar a ameaça de baderna por um acordão, com o Congresso, com o Supremo, com tudo. O delinquente e seus cúmplices generais sairiam impunes, anistiados, em retirada, para reorganizar tropas e voltar ao ataque assim que possível.

Os generais "legalistas" barganhariam a continuidade da boquinha rica e a tutela militar permaneceria, um pouco como ocorreu no início da dita Nova República, que estaria ainda mais morta nesse estado de sítio eternizado, sob a ameaça permanente da horda huna bolsonarista impune.

A originalidade de Bolsonaro

A obra de destruição presidida por Bolsonaro está quase completa, e falta apenas provocar a “convulsão social” – a caminho, que ninguém se iluda – por conta da provável derrota eleitoral. Essa obra se compõe da dissolução da institucionalidade e da formidável expansão do patrimonialismo, com suas velhas marcas de corrupção. Só teve dois aspectos originais.

Bolsonaro não foi muito criativo. O empenho em atacar a imprensa, por exemplo, é parte de um fenômeno mais amplo do desgaste da mídia profissional em seu papel tradicional como guardiã da veracidade objetiva dos fatos. Daí o destaque alcançado por fake news, e a presença desproporcional no debate público brasileiro de celebridades projetadas por redes sociais.


O atual presidente já encontrou o STF como uma instância política e não foi o iniciador do desequilíbrio entre os Poderes, um processo de longo curso. É discussão do tipo ovo ou a galinha determinar se o STF assumiu o presente protagonismo político por deliberada vontade de seus integrantes ou se ocupou o vazio deixado por outros Poderes (especialmente o Legislativo). Não importa quem tem razão, no embate aprofundou-se o enorme e destrutivo desarranjo institucional.

Bolsonaro também nada exibiu de original na sanha de demonização do adversário político, uma marca sobretudo petista no período pós-ditadura militar. Usou as mesmas ferramentas profissionais e os métodos de seus adversários, embora a belicosidade e a boçalidade bolsonaristas tenham “estilo” próprio. É um populista autoritário de feições convencionais, sem preocupação em manter coerência entre palavras e ações, ou cumprir promessas eleitorais.

Mas trouxe duas relevantes contribuições originais à obra destrutiva. A primeira foi o emporcalhamento da credibilidade das Forças Armadas. Conscientes disso ou não, ao emprestarem ao governo Bolsonaro o prestígio pacientemente reconquistado, os comandantes militares margearam o abismo da aventura política e danificaram a imagem da própria instituição. Não adianta reiterar que generais fardados ou de pijama, dentro ou fora do governo, são indivíduos falando em nome próprio, que não representam as Forças Armadas. O público não faz essa distinção.

A segunda “contribuição” foi o emporcalhamento da imagem externa do Brasil. Bolsonaro já trilhava esse caminho subordinando-se a Trump e nas posturas públicas em relação a meio ambiente, entre outras. Mas não há memória de um chefe de Estado que tivesse convocado ao palácio onde mora embaixadores do mundo inteiro para falar mal do próprio país. Bolsonaro garantiu lugar original na história. 

terça-feira, 19 de julho de 2022

A moto que move o Brasil

 


Liberdade pessoal e os perigos da ditadura digital

Será que a humanidade está criando o seu próprio fim? Será que somos umas das últimas gerações da espécie Homo sapiens, que, em breve, será suplantada por seres cibernéticos que mal se parecem com seus criadores (nós)? No dia 24 de janeiro de 2018, o historiador e autor Yuval Harari apresentou sua visão do futuro no Fórum Mundial de Economia em Davos, na Suíça.

Harari é famoso no Brasil por seus best-sellers Sapiens: uma breve história da humanidade e Homo Deus: uma breve história do amanhã. Numa apresentação fascinante, Harari construiu um futuro terrível – mas possível – baseado na sua tese de que estamos, agora, na terceira grande revolução, o controle da informação, que segue o controle da terra (Revolução Agrária) e o controle das máquinas (Revolução Industrial).

O fim da nossa espécie, segundo ele, ocorrerá quando for possível extrair de cada indivíduo dados biométricos de alta precisão que serão, então, analisados por um sistema centralizado de decisões controlado por governos ou corporações (ou ambos). Dados biométricos incluem, por exemplo, o batimento cardíaco, a pressão arterial, a composição do suor, a dilatação das pupilas etc.; uma espécie de detector de mentiras de alta sofisticação que permite mapear fisiologicamente as emoções.


Imagine, sugeriu Harari, que o governo da Coreia do Norte force seus cidadãos a usar um bracelete que transmite dados biométricos aos centros de dados do governo. Com isso, o governo poderá monitorar o que as pessoas pensam do seu líder e, essencialmente, como vivem o seu dia a dia. Poderão, até, saber mais sobre você do que você mesmo, visto que muitas vezes nem sabemos o que está ocorrendo com nossas emoções.

A visão apocalíptica de Harari ecoa, com tons de historiador, a chegada da “Singularidade” do inventor americano Ray Kurzweil, desprovida da expectativa um tanto romântica de Kurzweil de que a tecnologia nos trará a imortalidade. (Ao menos, uma versão de imortalidade, com nossa essência, a informação de quem somos, transferida a computadores com capacidade de emular nosso consciente. Veja o ensaio “O homem que quer ser Deus”.)

Convido os leitores que querem saber mais sobre Kurzweil a assistir ao documentário Transcendent Man (Homem Transcendente). A ideia central de Harari é que estamos próximos a conseguir modificar o “programa informático da vida”: se pensarmos em organismos como sendo algoritmos, basta termos capacidade de computação e acumular dados biométricos suficientes para criarmos qualquer tipo de criatura viva. Afinal, se a vida é como um programa de computador (o software) que roda nas reações bioquímicas que definem nosso metabolismo (o hardware), podemos modificar o programa e criar novos algoritmos correspondendo a outros tipos de criatura.

Juntando a isso os avanços na área da inteligência artificial, podemos contemplar o fim da nossa espécie, que se tornaria obsoleta. Outro modo de se ver isso: pela primeira vez na história, podemos controlar as rédeas da evolução das espécies, que deixa de depender da seleção natural. As questões essenciais, portanto, são:

Quem controlará esses dados?
Como essa nova fonte de riqueza será regulada? Temos leis que regulam a possessão da terra e das máquinas.
Quais as leis que regulam os dados e a privacidade das pessoas?


Harari especula que a maioria das pessoas doará suas informações privadas de graça, inclusive os seus dados biométricos, especialmente em troca de uma saúde melhor. Ou, numa ditadura, talvez não tenham outra opção. Ou, ainda, e mais pertinente com o que já está acontecendo, pessoas fornecerão dados biométricos em troca de serviços oferecidos por empresas: "Receba suas entregas de graça em casa e muitas outras ofertas se você nos passar os dados biométricos registrados no seu relógio esportivo ou Fitbit.”

Harari é corretamente vago ao prever quando isso vai ocorrer: décadas, talvez um século, disse. Porém, na sua visão, como na de Kurzweil, esse futuro é inevitável. Obviamente, ninguém pode prever o futuro. O que podemos fazer é extrapolar o que sabemos no presente da melhor forma possível. Não há dúvida de que computadores serão cada vez mais poderosos, e que a genética e a bioengenharia continuarão a avançar rapidamente.

A ciência de dados (do inglês, data science), que atende principalmente aos interesses de empresas e governos, vai ficar cada vez mais sofisticada. Forças de mercado e a gana dos investidores vão continuar a alimentar a nova revolução. Será que não existem outras tendências, capazes de equilibrar essa inevitabilidade? Felizmente, acho que sim.

Os tempos estão mudando de várias formas. Em primeiro lugar, estamos testemunhando o surgimento da ética empresarial. Um número cada vez maior de empresas está percebendo que, se não alinharem seus valores com os dos seus clientes, irá perdê-los. Um exemplo recente nos EUA é o boicote de várias empresas à Associação Nacional do Rifle, que promulga o direito do cidadão ao porte de armas de fogo. (Lamentavelmente, um projeto do Senado Federal no Brasil propôs a revogação do Estatuto do Desarmamento no Brasil.

Não existe modelo a ser copiado pior do que o americano, dados os constantes massacres em escolas e lugares públicos. Mas este é um assunto para outro ensaio.) O consumidor tem poder, mais do que imagina. Empresas e instituições com padrões éticos baixos podem ser forçadas a mudar de posição.

Outro ponto essencial é que a ciência tem limites, em particular em relação a quanto podemos saber do mundo e de nós mesmos. A convicção, inclusive de Harari, de que a ciência irá saber tudo, conquistar tudo, não tem nenhum respaldo na prática ou historicamente. A onisciência é reservada aos deuses; a tecnologia é limitada, mesmo se avança sempre. Monitorar a atividade de 85 bilhões de neurônios e dos neurotransmissores fluindo através de trilhões de sinapses no cérebro humano é impraticável.

No máximo, podemos ter um mapa incompleto do que ocorre no nosso corpo e cérebro. Harari parece confundir o mapa (como descrevemos o mundo) com o território (o mundo como ele de fato é), um erro típico de uma cultura que defende o triunfalismo científico como uma espécie de nova religião. Nossa percepção da realidade depende fundamentalmente do quanto podemos ver do mundo, algo que explorei em detalhe em meu livro A ilha do conhecimento. A ciência jamais responderá a todas as perguntas pelo simples motivo de que jamais saberemos todas as perguntas que podem ser feitas! Ao avançar, a ciência encontra novas perguntas que não poderia ter antecipado.

De qualquer forma, mesmo com dados biométricos limitados, governos e empresas podem causar sérios danos. Concordo com Harari que precisamos começar essa conversa sobre nosso futuro coletivo imediatamente. Concordo, também, que de forma alguma essa conversa pode ser relegada aos políticos que, tipicamente, pouco ou nada sabem sobre os avanços científicos.

Sendo assim, quem, então, irá controlar o armazenamento de dados pessoais? Quais os limites e salvaguardas que devem ser impostos para garantir nossa liberdade na era da ditadura digital? Precisamos de uma pluralidade de opiniões: cientistas, humanistas, empresários, artistas, advogados, líderes comunitários.
O perigo maior é a apatia, é o não fazer nada. Historicamente, as maiores tensões sociais ocorreram quando o controle da terra e das máquinas ficou na mão de poucos. Com os dados, temos o mesmo desafio, e com um bem muito mais fluido, muito mais difícil de controlar do que a terra a ser arada ou as máquinas industriais.

No meio-tempo, cuidado com os seus dados biométricos, aqueles que você capta no seu Fitbit ou relógio esportivo e divide inocentemente na rede, achando que só você e seus amigos têm interesse neles.
Marcelo Gleiser, "O caldeirão azul"

Seu santo nome em vão

Dizem que Deus é brasileiro. Talvez dissidente, diante do farto uso de seu nome em vão. Está no preâmbulo da Constituição de 1988 – “sob a proteção de Deus” – , a mesma que define o Brasil como estado laico. Abre as sessões dos parlamentos e decora com o crucifixo de seu filho milhares de repartições públicas país afora. Mas nunca antes Ele foi tão explorado como nos tempos de Jair Bolsonaro. Do slogan do presidente às participações cada vez mais frequentes em cultos de campanha, em pleno horário de trabalho, de preferência associados a motociatas, o “mito” não se envergonha de abusar do Senhor. Algo, decididamente, nada divino.


Planejado, o movimento de campanha envolvendo evangélicos é contínuo. Na sexta-feira, Bolsonaro usou a 43ª Assembleia Geral das Assembleias de Deus do Ministério de Madureira para voltar a Juiz de Fora, 1.408 dias depois do atentado que sofreu na cidade. Procurou sem sucesso desviar o foco do assassinato brutal do tesoureiro do PT de Foz de Iguaçu, que comemorava seu aniversário quando foi morto a tiros por um bolsonarista. Visitou também a Santa Casa que prestou a ele o primeiro atendimento após a facada. Antes, em clima de euforia, nada parecido com a comoção ensaiada que apresentou mais tarde, havia curtido uma motociata com apoiadores. Tudo em dia de batente, custeado pelos impostos dos brasileiros.

E nada acontece, nem mesmo um puxãozinho de orelha. Assim como fez com o Senado e a Câmara no episódio de aprovação da PEC kamikaze, no qual usou os pobres para constranger os parlamentares, Bolsonaro desafia a Justiça com ameaças golpistas, inibindo iniciativas de processos, multas e de impedimento de sua candidatura por desrespeito à legislação eleitoral. Instiga o temor da ruptura democrática para minar a democracia.

De meados de abril para cá, essa foi a 15ª participação de Bolsonaro em cerimônias evangélicas, sete delas em dia de semana, sem qualquer preocupação de casar a agenda religiosa-eleitoral com compromissos formais de governo.

Além da presença, que confere prestígio aos eventos e aos pastores que os lideram, Bolsonaro tem feito o diabo para garantir o apoio irrestrito de representações evangélicas. Anulou dívidas e promulgou isenções de impostos, em um movimento de engana-bobo grotesco – primeiro vetou o perdão de mais de R$ 1 bilhão devido pelas igrejas e depois fez de tudo para que o Congresso derrubasse o veto. Nomeou um ministro “terrivelmente evangélico” para o STF e abriu as portas do Palácio do Planalto para pastores lobistas flagrados em relações nada republicanas entre o Ministério da Educação e prefeituras. Mais: no dia 12, editou um decreto que modifica o Código Nacional de Telecomunicações, permitindo que emissoras de rádio e televisão possam vender até 100% de seu tempo, antiga reivindicação das igrejas. Pai como este, nem nos céus.

Bolsonaro é originalmente católico, evangélico por influência da mulher Michelle e conveniência eleitoral. Batizou-se no Rio Jordão e passou a ter como queridinho o pastor Silas Malafaia, que parece atrelar a fidelidade não a Deus, mas ao bolso. Em 2012 apoiou o candidato José Serra do PSDB, mesmo partido do presidente Fernando Henrique Cardoso, que Bolsonaro sugeriu ser “fuzilado” por cometer o crime de privatizar estatais. Agora, o mesmo Bolsonaro diz querer privatizar a Petrobras para baixar o preço dos combustíveis, como se o investidor privado fosse abrir mão de políticas de mercado. Algo de fazer até Deus gargalhar.

Para agradar aos evangélicos e à turba conservadora, nas pautas comportamentais Bolsonaro também deu uma guinada incrível: afirma ser radicalmente contra o aborto. Bem diferente de 2000, quando assegurava que essa deveria ser “uma decisão do casal”. Ou seja, suas crenças são de mentira, do jeito que o capeta gosta.

Apesar da ação intensa para assegurar a preferência dos evangélicos – único público em que Bolsonaro detém intenção de votos superior à do adversário Luiz Inácio Lula da Silva -, o embate continua duro. De acordo com o último Datafolha, entre os fiéis, Bolsonaro detém a preferência de 40%. Outros 35% optam por Lula.

Os números refletem um cenário que vai muito além da religiosidade. A maioria dos evangélicos é pobre e a maioria dos pobres rejeita Bolsonaro. São os dados que a campanha de reeleição do presidente tenta inverter com bondades temporárias – aumento no Auxílio Brasil, bolsa-gás, bolsa-caminhoneiro autônomo, troco para taxistas, caixas-d’água, tratores… – e com abuso sem limites da fé.

Mas há um consolo: Deus tudo vê.

A ineptocracia

Clima tenso é o estado natural das competições. Nas eleições, a disputa é a ambicionada taça do poder.

Neste jogo, emerge o que temos de nobre e perverso. Nobre é confiar a outrem a capacidade de agir em nome de legítimos interesses individuais e coletivos. Perverso é o comportamento afrontoso às instituições, às regras do jogo e ao uso criminoso da violência no ambiente democrático.

O Observatório da Violência Política e Eleitoral da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Unirio) registrou no primeiro semestre deste ano 214 casos de violência política, 32% maior do que 161 episódios (ameaças, homicídios, atentados e agressões físicas) no mesmo período do ano eleitoral de 2020.

O levantamento revela que a violência se espalha pelo território nacional e por vários partidos, atingindo de forma mais significativa integrantes do PSD, 19 episódios, Republicanos, 18, PT e PL, 17, no primeiro semestre.


A retórica eleitoral reacenderá os assassinatos brutais da vereadora Marielle Franco, do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira. O misterioso caso de Celso Daniel virá à tona assim como o atentado ao então candidato Bolsonaro.

O que virá pela frente? Mais ódio. No sábado 09/7 o bolsonarista Jorge Guaranho invadiu a festa de aniversário e “fuzilou” o lulista Marcelo Arruda, em Foz do Iguaçu. Em Diadema, Lula agradeceu ao ex-vereador Maninho de PT que, em 2018, reagiu às ofensas do empresário Carlos Alberto Betoni e foi condenado por tentativa de homicídio.

Ao longo do mandato, o Presidente Bolsonaro não buscou construir uma cultura de paz. Pelo contrário, o discurso, o gestual e a mensagem simbólica contribuíram para o atual ambiente de intolerância e conflito.

No plano institucional, constitucionalizado o populismo fiscal, os poderes instauram uma forma degenerada de governo: a INEPTOCRACIA, título de autoria incerta entre o filósofo francês Jean D’Ormesson (1925-2017) e Ayn Rand (1905-1982), filósofa americana de origem judaico-russa, que definiu: “Quando você perceber que, para produzir precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho e que as leis não nos protegem deles, mas pelo contrário, são estes que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada e a honestidade se converte em auto sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada”.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Não somos ainda uma nação

A imensa maré de lama que envolve políticos na recém aprovada PEC dos Benefícios, a violência policial estampada pelas telas de TV, a partir do horripilante estupro de parturientes vulneráveis, as negociações que jogam candidatos em negociações escandalosas, a gestão sem rumo, a administração federal entregue à volúpia dos donos do poder, fazem parte do mesmo tecido institucional: o do Brasil das trevas, o Brasil sob máscara, o Brasil das milícias.

A PEC dos Benefícios contém um estratagema: a aprovação de estado de emergência. Em outras palavras, será permitido ao governante adotar medidas extremas para ajudar as massas carentes, significando isso orçamentos extraordinários, inserção de milhões de famílias nos pacotes assistenciais, estouro das contas públicas. Não se pode deixar à mingua populações famintas, hoje somando quase 50 milhões de brasileiros. Mas, por que só agora a pouco menos de três meses das eleições? Cooptar eleitor com a sopa do assistencialismo é crime. Daí a necessidade de se aprovar uma PEC para driblar a ordem constitucional.

Desse modo, realizaremos uma eleição com artifícios e ferramentas de pressão. O Brasil mascarado irá às urnas. E em sua caminhada, carregará, a par de gente séria (temos de admitir que ainda dispomos dessa espécie), usurpadores, criminosos, pilantras, cínicos, vivaldinos e laranjas, categoria em expansão, essa gente que fornece o óleo para lubrificação dos esquemas de apropriação ilícita do dinheiro público.


O poder invisível está estocando seus arsenais. Mais de 40 bilhões de reais encherão os dutos eleitorais. Mas a estratégia de combate aos poderes invisíveis, voltados para a arbitrariedade e a rapinagem, requer a força da pressão coletiva, mais que simples castigos aos criminosos. Pois toda mudança de cultura se ampara na vontade geral. E sabemos que para limpar a cara do Brasil que dá vergonha, é preciso que os sentimentos do povo se irmanem aos poderes normativos. Sob esse prisma, vemos a sociedade ainda estagnada, observando a paisagem, mesmo com organizações fazendo questionamentos. O Judiciário, por sua vez, é questionado. Jogam sujeira em sua imagem.

No campo do Brasil Arbitrário e Violento, o campeonato é disputado, entre outros, por contingentes das extremidades do arco ideológico, que inserem o país numa disputa de cabo de guerra. O que um lado fará se ganhar a eleição? Pôr lenha na fogueira? Convocar militares para reverter os resultados do pleito?

O fato é que um véu de incerteza teima em cobrir o espírito nacional, adensando as expectativas, aumentando as angústias e diminuindo a crença nas instituições políticas e sociais. Em quase todos os aspectos da vida nacional, impera a dúvida. Não sabemos até onde irão os limites da Constituição ou como serão as formas para se chegar ao consenso sobre questões centrais. Ignoramos o intrincado jogo de poder. O que se sabe é que a desconfiança no processo eleitoral está disseminada. Um dano à democracia.

Vive-se em um ambiente de caos. Ninguém sabe, mas todos se aventuram a garantir suas verdades. Versões e fofocas se espalham. As Forças Armadas parecem ter tomado gosto pelo poder. Foram embora o respeito, a disciplina, a ordem, a ética, a força do compromisso, a dignidade. A improvisação campeia. Poucos se lembram dos hinos pátrios. Desprezamos ou não damos o devido valor ao conceito de Nação. O que nos importa é um pedaço de terra, uma propina, um alto salário, um feudo na área pública. Felizmente, na área privada, os empreendedores se dedicam ao labor.

Ora, Nação é um conjunto de valores, que reúne amor ao espaço físico e espiritual, solidariedade, orgulho pelo país, civismo e atavismo. Onde estão as bandeiras brasileiras nas portas das casas? Onde e quando se canta o hino nacional? Quem sabe contar histórias sobre os nossos antepassados?

Só é notícia o que é deslize. O torto, o errado, o inusitado vence a coisa certa. A violência nivela a cultura por baixo. Sem rumo, o povo banaliza a criminalidade. Morreu fulano, beltrano? Ah, uma briga de rua.

É triste. Não somos, ainda, uma Nação.

Militares são inimigos de meio Brasil?

Sou um cidadão brasileiro que vota na esquerda. Tenho uma pergunta para as Forças Armadas brasileiras: vocês são um exército que eu compartilho com meus compatriotas de direita, ou são o braço armado dos meus adversários nas eleições?

As Forças Armadas ainda são brasileiras, ou aceitaram o papel de braço armado da extrema-direita que Jair Bolsonaro lhes ofereceu? São o exército de uma república democrática ou uma milícia de direita sustentada com dinheiro público?

Pergunto pelo seguinte: está cada vez mais claro que há gente nas Forças Armadas do Brasil tentando roubar a eleição para Jair Bolsonaro.


É fácil identificá-los. Se um militar está dando palpite sobre urna eletrônica ou TSE é porque é um político bolsonarista infiltrado nos quartéis. Como todo político bolsonarista, quer dar um golpe de estado para roubar dinheiro público e matar trabalhadores, na bala, na fome ou por falta de vacina.

O ano de 2022, aliás, é especial para a ala golpista das Forças Armadas. Esse ano o escândalo Proconsult comemora seu 40º aniversário.

Ninguém nunca viu fraude na urna eletrônica, mas todo mundo já viu militares brasileiros tentando roubar uma eleição: foi em 1982, no Rio de Janeiro, quando a ditadura tentou fraudar a eleição para governador que Leonel Brizola havia ganho. Para fazê-lo, usaram uma empresa corrupta para contabilizar os votos, a Proconsult. Para comemorar os 40 anos do escândalo Proconsult, os bolsonaristas agora pedem "apuração paralela".

Como em 1982, é tudo bandidagem, é tudo roubalheira.

No dia de hoje, bem mais que a metade do povo brasileiro pretende votar contra Jair Bolsonaro. Cerca de metade dos brasileiros pretende votar em Lula. Pouco mais de 10% pretende votar em Ciro, Tebet, ou nos outros candidatos.

Os militares pretendem roubar a voz e os votos, o dinheiro e os direitos de mais do que metade dos brasileiros? Pretendem fazer isso e continuar sendo sustentados pelo imposto de 100% dos brasileiros?

No caso dos militares que criticam urna eletrônica e TSE, a resposta é obviamente sim. Eles querem roubar mais da metade do Brasil.

Em uma república funcional, o cidadão não pode ter um segundo de dúvida de que as Forças Armadas são politicamente neutras.

Se o Brasil entrar em guerra, eu tenho que me apresentar para lutar. Se na trincheira meu oficial me der a ordem de me jogar sobre uma granada para salvar meus camaradas de armas, eu tenho que pular para a morte. Se entre a ordem e o salto eu gastar um segundo pensando "por que ele não mandou um direitista saltar?", a bomba explode e a trincheira toda morre.

Se membros graduados das Forças Armadas continuarem seus ataques ao TSE, essa relação de confiança entre mais da metade do Brasil e os compatriotas a quem confiamos a guarda das armas da República demorará décadas para ser restaurada, mesmo se o golpe de Bolsonaro der errado.

Se os ataques ao TSE continuarem, a farda brasileira será reduzida a uniforme de um partido político especialmente vagabundo, o bolsonarismo. Para Bolsonaro, a farda é só o uniforme de um tipo de funcionário público que mela eleição quando a direita perde. Retomando a pergunta do começo do texto: eu gostaria de saber se ele tem razão.

Brasil em tempo de semear

 


Tripla insensatez

Há livros dedicados a analisar a estupidez política de líderes do passado. Não conheço livro que analise a insensatez múltipla de dirigentes e opositores, promovendo tragédia histórica. O Brasil de 2022 será um tema de análise da tripla insensatez na política.

De um lado, o Presidente com a estupidez de anunciar com meses de antecedência que não respeitará o resultado das urnas. Insensato aos fatos, porque para ter sucesso, o golpe exige surpresa; e porque, se tiver êxito, é muito provavelmente que seja descartado, uma vez que não liderará as Forças Armadas, depois que rasgar 56 milhões de votos e a Constituição que lhe dá legitimidade para compensar sua total falta de liderança. Além disto, basta ler história para saber que nenhuma ruptura do pacto constitucional provoca coesão e rumo duradouro para o país.


Ao lado, a insanidade dos comandantes militares, que certamente conhecem mais história do que o capitão que expulsaram e os eleitores fizeram presidente. Sabem o risco que o país sofrerá se a Constituição for rasgada, se um presidente despreparado for imposto, ou se este for destituído, e no lugar for imposto um comandante militar sem votos. Mesmo se o golpe for vitorioso e ficar 21 anos, graças à tortura e ditadura, não será benéfico para o país nem para as Forças Armadas.

Os generais comandantes parecem não ter aprendido a importância da surpresa na execução de uma estratégia. Já manifestam que não respeitarão o resultado das eleições se as urnas não estiverem de acordo com o que eles querem. Desmoralizam a democracia ao tentar tutelar o processo eleitoral, e com isto desmoralizam as Forças Armadas por se transformarem em milícias politiqueiras. Aceitaram estas urnas em dez eleições anteriores, agora, insensatamente, avisam que usarão este argumento para recusar o resultado das eleições se não for o que eles desejam. É uma estupidez, mas estão praticando sem respeito aos juramentos, à história nem aos julgamentos que receberão no futuro.

Demonstram estupidez ao deixarem, óbvio a qualquer inteligência, como será o golpe, com roteiro que consiste em: compactuar com um fundo secreto para comprar votos com dinheiro público, se isto não der o resultado que esperam, usam o estado de emergência já aprovado pelos parlamentares, denunciam que o resultado não é confiável, desconectam a energia durante a noite da apuração, milícias impedem a circulação de transporte, especialmente no Nordeste e outras áreas reconhecidamente a favor de outro candidato, usam as denúncias feitas contra o candidato Lula por personalidades progressistas, convocam o Congresso, dificultam a presença de parlamentares opositores, deslegitimam as votações e convocam novas para daqui a dois anos, prorrogam os mandatos de todos os atuais dirigentes, muitos dos quais perderam a eleição; se não for suficiente a compra dos parlamentares por dentro, cercam o Congresso e o STF, e as casas onde moram os líderes da oposição “para protege-los”: medida aceita sobretudo se antes ocorrerem atos de violência, como o assassinato do tesoureiro do PT em Foz do Iguaçu.

Sabendo disto, as oposições se comportam de forma igualmente insensata: sabem o que pode acontecer, mas não sabem o que fazer para barrar o golpe. Não se unem, não fazem um manifesto conjunto em defesa da democracia, se acusam mutuamente, detonam pontes que seriam necessárias no segundo turno, não elaboram um programa comum tal como: fim da reeleição, combate à inflação, medidas para gerar emprego, defesa da Amazônia, recuperação do prestígio internacional, enfrentar as sequelas do covid, fim do sigilo de processos por corrupção, regras que vacinem o governo contra corruptos.

A história mostra insensatez de muitos governantes. O Brasil mostra insensatez tripla: das Forças Armadas, do governante e dos líderes da oposição.

Religião e ciência

Todas as ações e todas as imaginações humanas têm em vista satisfazer as necessidades dos homens e trazer lenitivo a suas dores. Recusar esta evidência é não compreender a vida do espírito e seu progresso. Porque experimentar e desejar constituem os impulsos primários do ser, antes mesmo de considerar a majestosa criação desejada. Sendo assim, que sentimentos e condicionamentos levaram os homens a pensamentos religiosos e os incitaram a crer, no sentido mais forte da palavra? Descubro logo que as raízes da ideia e da experiência religiosa se revelam múltiplas. No primitivo, por exemplo, o temor suscita representações religiosas para atenuar a angústia da fome, o medo das feras, das doenças e da morte. Neste momento da história da vida, a compreensão das relações causais mostra-se limitada e o espírito humano tem de inventar seres mais ou menos à sua imagem. Transfere para a vontade e o poder deles as experiências dolorosas e trágicas de seu destino. Acredita mesmo poder obter sentimentos propícios desses seres pela realização de ritos ou de sacrifícios.


Porque a memória das gerações passadas lhe faz crer no poder propiciatório do rito para alcançar as boas graças de seres que ele próprio criou. A religião é vivida antes de tudo como angústia. Não é inventada, mas essencialmente estruturada pela casta sacerdotal, que institui o papel de intermediário entre seres temíveis e o povo, fundando assim sua hegemonia. Com frequência o chefe, o monarca ou uma classe privilegiada, de acordo com os elementos de seu poder e para salvaguardar a soberania temporal, se arrogam as funções sacerdotais. Ou então, entre a casta política dominante e a casta sacerdotal se estabelece uma comunidade de interesses.

Os sentimentos sociais constituem a segunda causa dos. fantasmas religiosos. Porque o pai, a mãe ou o chefe de imensos grupos humanos, todos enfim, são falíveis e mortais. Então a paixão do poder, do amor e da forma impele a imaginar um conceito moral ou social de Deus. Deus-Providência, ele preside ao destino, socorre, recompensa e castiga. Segundo a imaginação humana, esse Deus-Providência ama e favorece a tribo, a humanidade, a vida, consola na adversidade e no malogro, protege a alma dos mortos. É este o sentido da religião vivida de acordo com o conceito social ou moral de Deus. Nas Sagradas Escrituras do povo judeu manifesta-se claramente a passagem de uma religião-angústia para uma religião-moral. As religiões de todos os povos civilizados, particularmente dos povos orientais, se manifestam basicamente morais. O progresso de um grau ao outro constitui a vida dos povos. Por isto desconfiamos do preconceito que define as religiões primitivas como religiões de angústia e as religiões dos povos civilizados como morais. Todas as simbioses existem mas a religião-moral predomina onde a vida social atinge um nível superior. Estes dois tipos de religião traduzem uma ideia de Deus pela imaginação do homem. Somente indivíduos particularmente ricos, comunidades particularmente sublimes se esforçam por ultrapassar esta experiência religiosa. Todos, no entanto, podem atingir a religião em um último grau, raramente acessível em sua pureza total. Dou a isto o nome de religiosidade cósmica e não posso falar dela com facilidade já que se trata de uma noção muito nova, à qual não corresponde conceito algum de um Deus antropomórfico. O ser experimenta o nada das aspirações e vontades humanas, descobre a ordem e a perfeição onde o mundo da natureza corresponde ao mundo do pensamento. A existência individual é vivida então como uma espécie de prisão e o ser deseja provar a totalidade do Ente como um todo perfeitamente inteligível. Notam-se exemplos desta religião cósmica nos primeiros momentos da evolução em alguns salmos de Davi ou em alguns profetas. Em grau infinitamente mais elevado, o budismo organiza os dados do cosmos, que os maravilhosos textos de Schopenhauer nos ensinaram a decifrar. Ora, os gênios-religiosos de todos os tempos se distinguiram por esta religiosidade ante o cosmos. Ela não tem dogmas nem Deus concebido à imagem do homem, portanto nenhuma Igreja ensina a religião cósmica. Temos também a impressão de que os hereges de todos os tempos da história humana se nutriam com esta forma superior de religião. Contudo, seus contemporâneos muitas vezes os tinham por suspeitos de ateísmo, e às vezes, também, de santidade. Considerados deste ponto de vista, homens como Demócrito, Francisco de Assis, Spinoza se assemelham profundamente.

Como poderá comunicar-se de homem a homem esta religiosidade, uma vez que não pode chegar a nenhum conceito determinado de Deus, a nenhuma teologia? Para mim, o papel mais importante da arte e da ciência consiste em despertar e manter desperto o sentimento dela naqueles que lhe estão abertos. Estamos começando a conceber a relação entre a ciência e a religião de um modo totalmente diferente da concepção clássica. A interpretação histórica considera adversários irreconciliáveis ciência e religião, por uma razão fácil de ser percebida. Aquele que está convencido de que a lei causal rege todo acontecimento não pode absolutamente encarar a ideia de um ser a intervir no processo cósmico, que lhe permita refletir seriamente sobre a hipótese da causalidade. Não pode encontrar um lugar para um Deus-angústia, nem mesmo para uma religião social ou moral: de modo algum pode conceber um Deus que recompensa e castiga, já que o homem age segundo leis rigorosas internas e externas, que lhe proíbem rejeitar a responsabilidade sobre a hipótese-Deus, do mesmo modo que um objeto inanimado é irresponsável por seus movimentos. Por este motivo, a ciência foi acusada de prejudicar a moral. Coisa absolutamente injustificável. E como o comportamento moral do homem se fundamenta eficazmente sobre a simpatia ou os compromissos sociais, de modo algum implica uma base religiosa. A condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte.

É portanto compreensível que as Igrejas tenham, em todos os tempos, combatido a Ciência e perseguido seus adeptos. Mas eu afirmo com todo o vigor que a religião cósmica é o móvel mais poderoso e mais generoso da pesquisa científica. Somente aquele que pode avaliar os gigantescos esforços e, antes de tudo, a paixão sem os quais as criações intelectuais científicas inovadoras não existiriam, pode pesar a força do sentimento, único a criar um trabalho totalmente desligado da vida prática. Que confiança profunda na inteligibilidade da arquitetura do mundo e que vontade de compreender, nem que seja uma parcela minúscula da inteligência a se desvendar no mundo, devia animar Kepler e Newton para que tenham podido explicar os mecanismos da mecânica celeste, por um trabalho solitário de muitos anos. Aquele que só conhece a pesquisa científica por seus efeitos práticos vê depressa demais e incompletamente a mentalidade de homens que, rodeados de contemporâneos céticos, indicaram caminhos aos indivíduos que pensavam como eles. Ora, eles estão dispersos no tempo e no espaço. Aquele que devotou sua vida a idênticas finalidades é o único a possuir uma imaginação compreensiva destes homens, daquilo que os anima, lhes insufla a força de conservar seu ideal, apesar de inúmeros malogros. A religiosidade cósmica prodigaliza tais forças. Um contemporâneo declarava, não sem razão, que em nossa época, instalada no materialismo, reconhece-se nos sábios escrupulosamente honestos os únicos espíritos profundamente religiosos.
Albert Einstein, "Como Vejo o Mundo"

E aquela do Nelson?

Nelson Rodrigues nos ensinou que toda unanimidade é burra, que sofremos do complexo de vira-lata e só os profetas enxergam o óbvio. E muitas outras frases que as pessoas repetem já sem saber da autoria. Menos famosas são as que ele escreveu sobre o Brasil nos anos 70 e ainda fazem total sentido. Exemplos.

"Outrora os melhores pensavam pelos idiotas. Hoje os idiotas pensam pelos melhores." "O brasileiro tem suas trevas interiores. Convém não provocá-las. Ninguém sabe o que existe lá dentro." "Com o tempo e o uso, todas as palavras se degradam. Por exemplo: ‘liberdade’. Hoje, ‘liberdade’ é a mais prostituída das palavras."

"O ‘homem de bem’ é um cadáver mal informado. Não sabe que já morreu." "Tomem nota: ainda seremos o maior povo ex-católico do mundo." "Não há no mundo elites mais alienadas do que as nossas." "Subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos." "Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo." "No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte."


"O Brasil gaba-se de ser uma democracia racial. No entanto, poderíamos indagar uns dos outros: ‘E os negros? Onde estão os negros?’ É uma pergunta sem resposta. As casacas estão aí, e os vestidos de baile, os cargos, as funções, as estátuas. Mas, no Brasil, nunca se viu um negro de casaca, nunca se viu uma estátua equestre de negro, nunca se viu um grã-fino negro. Enquanto um sábio negro não puder ser nosso embaixador em Paris, nós seremos o pré-Brasil."

"Em Brasília, todos são inocentes e todos são cúmplices." "O Brasil deixou de ser o Brasil. Hoje estamos sendo esmagados pelo anti-Brasil." E esta, que profetiza o nosso momento de hoje e que devia nos fazer pensar: "Quando os amigos deixam de jantar com os amigos por causa da ideologia, é porque o país está maduro para a carnificina."

Bolsonaro, o patriota de mentira

Está marcada para logo mais a partir das 16h no Palácio da Alvorada a mais escandalosa demonstração do que é ser patriota à moda Bolsonaro e seus afins. O país nunca viu nada parecido.

A convite dele, cerca de 40 embaixadores dos mais importantes países do mundo se reunirão para ouvi-lo falar sobre sua falta de confiança no sistema eleitoral brasileiro.

Não importa que o mesmo sistema que hoje ele tanto emporcalha lhe tenha dado 7 mandatos de deputado e um de presidente. A 76 dias das próximas eleições, Bolsonaro tenta desacreditá-lo.

Em 1970, na fase mais violenta da ditadura militar instalada no país 6 anos antes, dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, foi a Paris para uma palestra no Palácio dos Esportes.

E ali, diante de 10 mil pessoas, denunciou que no Brasil a ditadura torturava e matava. Na volta, foi batizado de “bispo vermelho” pelos militares e proibido de falar em público.

Pelos 9 anos seguintes, a imprensa não pôde citar mais o nome do arcebispo, acusado de mentir e de não ser um patriota. O governo sabotou sua indicação para o Prêmio Nobel da Paz.

“É absurdo e antipatriótico o presidente convidar embaixadores para questionar uma instituição nacional, o Poder Judiciário”, observa Flávio Dino (PSB), ex-governador do Maranhão.

À época da palestra de dom Hélder, havia fartas provas de torturas, mortes e desaparecimentos de presos políticos. Bolsonaro não tem uma única prova de fraude em 26 anos de voto eletrônico.

Se tem, jamais apresentou. Se tivesse, já deveria tê-las remetido ao exame da Justiça Eleitoral, a quem cabe pela Constituição garantir a realização de eleições seguras, limpas e justas.

As de outubro, decididamente serão justas, mas não pelo que Bolsonaro diz e não prova, mas pelo que ele fez com o apoio do Congresso ao emendar a Constituição para se beneficiar.

Os candidatos têm o direito de disputar eleições em iguais condições. A recente emenda dá vantagens a Bolsonaro e a todos que os que mamam nas tetas do Orçamento Secreto da União.

Os militares se comportam como se eles, mais do que os civis, fossem patriotas, pessoas que amam sua pátria, que agem em sua defesa e que normalmente não enxergam defeitos em seu país.

Censuraram dom Hélder por entender que ele não poderia falar mal do seu país no exterior. Calam-se e apoiam Bolsonaro quando ele está pronto a fazê-lo diante de representantes de outros países.

O que pretende Bolsonaro com a peça que encena esta tarde para deleite ou assombro do mundo? Antecipar que não aceitará os resultados das eleições de outubro caso seja derrotado?

Não se dá conta de que será o protagonista de mais um ato digno de uma República de Bananas? Que o Brasil se cobrirá de vergonha por causa disso? Ou está pouco se lixando?

A ditadura de 64 acabou depois de 21 anos, mas o golpismo que fazia parte do DNA dos militares continua a circular nas veias dos que um dia expulsaram Bolsonaro do Exército por má conduta.

Talvez tenham se arrependido.

domingo, 17 de julho de 2022

Pensamento do Dia

 


O vexame das Forças Armadas

O script em que o capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro enredou as Forças Armadas vai adquirindo ares de vexame histórico à medida que generais embarcam sem pudor na narrativa da suscetibilidade do sistema eleitoral a fraudes, algo já refutado por dados, fatos e auditorias de diferentes órgãos.

O capítulo desta quinta-feira foi um dos mais gritantes desse papelão. E em nome de quê? De dar razão à conspiração desejada por um ex-militar expulso da corporação justamente por… conspirar contra ela!

O ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, usou uma audiência pública do Senado Federal para defender uma tese capenga do ponto de vista técnico, segundo a qual um teste de “integridade” em papel, feito no dia da eleição, com eleitores pinçados em algumas seções, poderia ser mais eficiente e preciso que as exaustivas etapas a que a Justiça Eleitoral submete as urnas e todo o sistema de apuração há quase três décadas!


Munido de um constrangedor gráfico em que o passo a passo do teste tabajara era mostrado, no qual se pespegou sem dó o brasão da República e a marca d’água do Ministério da Defesa, o general se enrolou todo ao falar ora em votação paralela em papel, ora em teste.

Só faltou responder a uma pergunta simples, que poderia ser formulada por um colegial, mas escapou aos senadores, figurantes nesse enredo em que as instituições são tratadas como fantoches: o que garante que o eleitor “X”, escolhido para votar na urna eletrônica e depois em cédula, dará o mesmo voto nas duas ocasiões? Basta que uma das cobaias do teste decida tirar onda (merecida) com a cara de quem teve essa ideia para que algum esperto brade: “Ah, olha lá a fraude!”.

Não pode ser séria uma proposta como essa. É grave que um general investido de um cargo (civil) no primeiro escalão do Executivo se disponha a passar esse vexame diante da nação para atender aos caprichos do presidente.

A proposta ligeira, sem amparo algum na lógica mais trivial, foi feita um dia depois de o Tribunal de Contas da União, um órgão, este sim, credenciado a realizar auditorias e fiscalizações, divulgar um alentado relatório, o terceiro, atestando a segurança das urnas e as boas práticas da Justiça Eleitoral em todas as etapas que cercam a eleição.

Não se trata de preocupação genuína das Forças Armadas com a lisura do sistema eletrônico de votação, pois, se fosse isso, o atestado de técnicos de um órgão submetido a outro Poder, o Legislativo, deveria bastar para que os generais se julgassem atendidos e reconhecessem algo que o próprio TSE vem lhes demonstrando com relatórios oficiais há meses.

Mais: a proposta inacreditável feita pelo general diante do Senado omite que o próprio Congresso derrubou em votação de uma Proposta de Emenda à Constituição a ideia de retroceder ao voto impresso no Brasil.

Significa que, para os militares, nem a Justiça, nem os órgãos de controle, tampouco o Legislativo têm legitimidade ou credibilidade para conduzir, auditar ou legislar sobre as eleições. Essas instituições aceitarão caladas até quando que suas manifestações sejam ignoradas?

Que tipo de regime se tem quando se imagina que apenas as Forças Armadas são legítimas para assegurar o que quer que seja? Certamente não uma democracia plena, seguramente não a democracia prescrita na Constituição de 1988, que ainda vigora no Brasil.

Já avançou demais esse ensaio de coturno e farda para além daquilo que a Carta preceitua serem as atribuições das Forças Armadas. Além de não haver ambiente interno e externo para um golpe, esses flertes com teorias da conspiração corroem a credibilidade que os militares vinham recuperando junto à sociedade civil depois de protagonizar uma ditadura de duas décadas. Basta, generais.

Platitudes planejadas

O comentário mais ousado feito até agora sobre o assassinato do petista Marcelo de Arruda pelo bolsonarista Jorge Guaranho no sábado (9), em Foz do Iguaçu, foi o de que não passou de uma briga de bêbados, típica dos fins de semana. Partiu do general Hamilton Mourão, vice-presidente da República, que não parece, mas desempenha importante papel no governo Bolsonaro. Sempre que uma ignomínia de Bolsonaro ou de um aliado ameaça gerar uma crise, Mourão surge nos telejornais descendo de um carro, abotoando o paletó e dizendo uma platitude que reduza a ignomínia a uma trivialidade.


Fez isso outro dia ao analisar o fuzilamento na Amazônia do jornalista britânico Dom Philips, que acompanhava o indigenista Bruno Pereira: "Deve ter sido um comerciante da área, que se sentiu prejudicado pela ação do Bruno. O Dom entrou de gaiato nessa história". A mesma Amazônia em chamas aos olhos do mundo já rendeu a Mourão esta frase: "Agosto, setembro e outubro são meses de seca e queimada. É igual ao 7 de Setembro, tem todo ano". E quando lhe perguntaram sobre a apuração dos crimes de tortura na ditadura: "Apurar o quê? Os caras já morreram tudo, pô! Vai trazer os caras do túmulo de volta?".

Mourão acha tudo muito natural. Nada o perturba. Parafraseando Nelson Rodrigues, se um dia lhe servirem ensopado de ratazana ao jantar, ele levará o guardanapo ao pescoço e apenas pedirá à pessoa ao lado que lhe passe o sal. Mas, ao definir o assassinato de Marcelo de Arruda, superou a si mesmo.

Como ele sabe, Bolsonaro está dividindo de propósito o país e armando seus seguidores para eternizá-lo no poder. Mas, com a facilidade com que se compram armas hoje no Brasil, quem impedirá que seus adversários também se armem e partam para o confronto? O nome disso, pelos compêndios, é guerra civil.

Para o brejeiro Mourão, no entanto, guerra civil deve ser só uma grande briga de bêbados.

Brasil perdeu quase 800 bibliotecas públicas em 5 anos

Entre 2015 e 2020, o Brasil perdeu ao menos 764 bibliotecas públicas, segundo dados do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), mantido pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo.

Em 2015, a base de dados contava 6.057 bibliotecas públicas no Brasil, número que caiu para 5.293 em 2020, dado mais recente disponível no site do SNBP.

Para especialistas em biblioteconomia, a queda no número de bibliotecas revela um descaso do poder público com a população mais vulnerável, que não tem acesso a livrarias.

Eles também alertam que o número de bibliotecas fechadas pode ser ainda maior, devido à atual fragilidade do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, após a extinção do Ministério da Cultura, e da falta de controle efetivo pelos sistemas estaduais, cujos dados alimentam o sistema nacional.

Bibliotecas públicas são aquelas mantidas pelos municípios, Estados, Distrito Federal ou governo federal, que atendem a todos os públicos. São consideradas equipamentos culturais e, portanto, estão no âmbito das políticas públicas do governo federal — antes, sob o Ministério da Cultura e atualmente, com a extinção da pasta, sob a Secretaria Especial da Cultura.

Não entram nessa conta as bibliotecas escolares e universitárias, que têm como público-alvo alunos, professores e funcionários das instituições de ensino.


Procurada pela BBC News Brasil, a Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo não respondeu a questionamento sobre o que explica o fechamento de centenas de bibliotecas públicas nos últimos anos, nem qual a política do governo Jair Bolsonaro (PL) para bibliotecas.

O Plano Nacional de Cultura, conjunto de objetivos para o setor em vigência desde 2010 cuja validade foi prorrogada por Bolsonaro até 2024, tem como uma das metas "garantir a implantação e manutenção de bibliotecas em todos os municípios brasileiros".

A perda de mais de 700 bibliotecas nos últimos anos deixa o país cada vez mais distante desta meta.

Das 764 bibliotecas públicas fechadas em cinco anos, 698 (ou 91% do total) estavam localizadas nos Estados de São Paulo e Minas Gerais, sendo em sua maioria bibliotecas municipais.

São Paulo tinha 842 bibliotecas públicas em 2015, segundo o SNBP, número que caiu para 304 em 2020, com a perda de 538 unidades em cinco anos. O montante representa 70% de todas as bibliotecas fechadas no país no período.

A SP Leituras, organização social atualmente responsável pela gestão do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de São Paulo (SisEB), confirmou que os números registrados no sistema nacional estão corretos e foram fornecidos pelo SisEB, ponderando, porém, que podem tratar-se de dados intermediários e não do recadastramento oficial feito ao final de cada ano.

Segundo a organização, parte da queda no número de bibliotecas é explicada pela pandemia, que levou ao fechamento provisório ou permanente de diversas unidades.

Questionada sobre os motivos dos fechamentos desde 2015, antes da pandemia, a SP Leituras remeteu o questionamento à Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo.

"É difícil concluir o motivo da variação (ou queda) de número de instituições. Sabemos que, infelizmente, muitas bibliotecas foram sendo fechadas ano após ano, mas não podemos afirmar, com certeza absoluta que estes são os números finais", respondeu a pasta, por e-mail.

São Paulo tinha 842 bibliotecas públicas em 2015, número que caiu para 304 em 2020, segundo o SNBP

Minas Gerais, por sua vez, somava 888 bibliotecas públicas em 2015, número que caiu para 728 em 2020, uma perda de 160 bibliotecas em cinco anos, conforme os dados do SNBP.

Procurada para comentar a queda no número de bibliotecas, a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais respondeu que "o Governo de Minas se responsabiliza pelos dados do cadastro estadual, sendo que em Minas Gerais, o número de bibliotecas públicas cadastradas no Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas, no dia de hoje [12/7] é de 752 equipamentos".

Ainda conforme a pasta, a atualização é realizada a cada quatro anos e o novo recadastramento será feito em dezembro de 2022. "Outros cadastros são de responsabilidade dos entes pelos quais são gerados e, cabe aos municípios participarem ou não dos mesmos", completou a secretaria.

O fechamento de bibliotecas entre 2015 e 2020 no país reverte tendência de anos anteriores.

De 2004 a 2011, período em que durou o Programa Livro Aberto do governo federal em parceria com municípios, 1.705 novas bibliotecas foram criadas no Brasil e 682 modernizadas, segundo informações do próprio site do SNBP.

A BBC News Brasil solicitou ao SNBP a série histórica do cadastro de bibliotecas públicas em funcionamento no Brasil ano a ano, mas não obteve resposta.

O levantamento foi feito então comparando os dados referentes a 2015 disponíveis no antigo site do SNBP arquivado pelo projeto Internet Archive e os dados referentes a 2020, disponíveis atualmente no site do Ministério do Turismo.

Fábio Cordeiro, presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB), avalia que o fechamento de bibliotecas no Brasil nos últimos anos é explicado por uma série de fatores.

"Bibliotecas são equipamentos culturais e, durante esse último período, tivemos a eliminação do Ministério da Cultura e uma falta de valorização desses equipamentos", afirma Cordeiro. "O fechamento das bibliotecas públicas revela a falta de investimento e de interesse do governo."

Ele cita ainda um descaso com a população de baixa renda, que depende mais das bibliotecas.

"Há uma falta de políticas voltadas para a parte mais vulnerável da população, que não tem acesso a livrarias, não tem renda para poder comprar livros. Justamente quem mais precisa de bibliotecas são as pessoas mais vulneráveis, que não tem o acesso tão fácil ao livro."

As vendas de livros no Brasil caem ano após ano. Em 2013, ano de melhor desempenho do mercado livreiro nacional na última década, as vendas das editoras para livrarias somaram 279,7 milhões de exemplares, segundo levantamento realizado pela Nielsen BookData para a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel).

No ano passado, foram 191 milhões de livros vendidos, uma queda de 1% em relação aos 193 milhões de livros vendidos em 2020 e recuo de 32% em relação ao pico de 2013.

Também em 2021, o rendimento médio mensal dos brasileiros caiu ao menor patamar desde 2012, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), para R$ 1.353.

Ainda conforme o IBGE, o percentual de municípios brasileiros com bibliotecas públicas caiu de 97,7% em 2014, para 87,7% em 2018, segundo a edição mais recente da Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic) que incluiu este tema. O percentual subia ano a ano até 2014, quando passou a cair.

Cordeiro cita ainda o avanço das novas tecnologias como um fator que tem reduzido o público das bibliotecas.

Segundo a pesquisa Retratos da Leitura do Instituto Pró-Livro, em 2019, 68% dos brasileiros diziam nunca frequentar bibliotecas.

Mas o fechamento de unidades parece também influenciar nisso, já que, naquele ano, 45% dos entrevistados diziam não existir biblioteca pública em sua cidade ou bairro, acima dos 20% que davam essa mesma resposta em 2007.

Adriana Ferrari, diretora técnica da Biblioteca Florestan Fernandes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e vice-presidente da Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários (Febab), avalia que há uma fragilidade nos dados disponibilizados pelo SNBP, porque não há uma coleta efetiva de informações.

Atualmente, segundo o SNBP, a coleta é feita em parceria com os Sistemas Estaduais e Distrital de Bibliotecas Públicas.


"Alguns Estados têm um controle mais eficaz sobre seus sistemas estaduais, outros têm um controle mais frágil. Então essa queda maior na região Sudeste pode ser um resultado da qualidade da coleta de dados", afirma.

"Não me sinto segura em assumir que foram só essas [764] bibliotecas que fecharam. Acredito que esse número pode ser ainda maior, porque vemos um sucateamento há anos de todo o sistema de acesso à informação, à leitura, à cultura e das bibliotecas em si", diz Ferrari.

'Não me sinto segura em assumir que foram só essas bibliotecas que fecharam. Acredito que esse número pode ser ainda maior', diz Adriana Ferrari, vice-presidente da Febab

A bibliotecária observa que o Plano Nacional de Cultura nunca foi cumprido. E, mesmo após a aprovação da Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE), conhecida como Lei Castilho (Lei 13.696/18), sancionada por Michel Temer (MDB), o objetivo de "universalização do direito ao acesso ao livro, à leitura, à escrita, à literatura e às bibliotecas" em nada avançou.

"Não temos nenhuma política pública em pé, não temos o Ministério da Cultura, que é a pasta que gerencia o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas. Então, o sistema existe, mas com uma estrutura extremamente fragilizada. Por isso, não avançamos. Pelo contrário, a gente vem retrocedendo", afirma.

"A biblioteca não é só um espaço do livro e da leitura, ela é uma porta de infinitas possibilidades, de abertura de repertórios culturais. São espaços de encontros, de pertencimento, então elas vão além das coleções", diz Ferrari, que defende o fortalecimento das políticas públicas para reverter esse cenário de retrocessos.

Durante a Bienal do Livro, realizada neste mês de julho em São Paulo, a CFB lançou a campanha #SouBibliotecaEscolar, que busca o cumprimento da Lei nº 12.244/2010 (Lei da Universalização das Bibliotecas Escolares), que determinou que todas as instituições públicas e privadas de ensino do país passem a contar com bibliotecas, com acervo mínimo de um título por aluno matriculado.

O prazo de cumprimento da lei se esgotou em 2020, sem que a meta fosse atingida.

Já a Febab lança em breve uma plataforma com o objetivo de mapear todas as bibliotecas, de todos os tipos (públicas, escolares, universitárias e comunitárias) do país. A ideia é poder monitorar e ajudar os sistemas estaduais a ter dados mais consistentes sobre esses equipamentos públicos.

Ó Pátria armada, Brasil!

Instituição dedicada a questões emergentes de segurança e desenvolvimento, o Instituto Igarapé informa: 3 anos depois do início da flexibilização do acesso a armas por Bolsonaro, o Brasil tem 46 milhões de permissões concedidas a caçadores e atiradores.

Cada uma das permissões dá direito à compra de uma arma; o total é 1.451% maior do que seria possível em 2018. Um caçador pode ter até 30 armas, e um atirador esportivo até 60.

Hoje, 605,3 mil pessoas, incluídos os colecionadores, têm carteirinhas ativas para acesso a armamento, inclusive pesado, e munição. É o dobro do total de efetivo de policiais militares (406,3 mil) ou de militares em serviço nas Forças Armadas (357 mil).

Em 2020, o Exército só fiscalizou 2,3% dos 311.908 dos locais que deveriam ter sido fiscalizados. Desde que assumiu a presidência da República, Bolsonaro assinou 32 atos, entre decretos, portarias e projetos de lei para favorecer o acesso às armas.

No momento, nas Assembleias Legislativas dos Estados, tramitam 25 projetos de lei com o mesmo objetivo. O filho Zero Três de Bolsonaro, o deputado federal Eduardo (PL-SP), foi encarregado pelo pai de articular a aprovação dos projetos.

Eduardo comemorou seu aniversário de 38 anos soprando as velinhas de um bolo em formato de revólver. Bolsonaro não perde a chance de pregar que uma população armada não será escrava de ninguém e que poderá defender sua liberdade.

A Pátria Amada do hino nacional está em acelerado processo para transformar-se em uma Pátria Armada. Será uma das poucas realizações do atual governo.