sábado, 5 de fevereiro de 2022

A cidade que vive nas ruas

Quem caminha pela região central de São Paulo certamente já notou. Aumentou enormemente a população de rua na cidade. O novo Censo da População em Situação de Rua tenta medir o tamanho do problema: são 32 mil pessoas que o desemprego e a falta de moradia empurraram para as calçadas. O número é o dobro daquele que havia em 2015, no início da crise econômica, e é considerado subestimado por organizações sociais que atendem a esse público.

É vergonhoso que tenhamos tanta gente na rua. E, como não se via há muito tempo, temos agora famílias inteiras, com crianças. Vinte e oito por cento dos moradores de rua de São Paulo estão com a família, e há quase mil crianças e adolescentes na rua.


Setenta e um por cento dessa população são negros ou pardos, quase o dobro do percentual no total da cidade (37%). Vinte e sete por cento deste contingente estão na rua há menos de dois anos, um período difícil, no qual a economia e o emprego sofreram o impacto da pandemia. Outros 29% estão nas ruas entre dois e cinco anos, mais ou menos o período de nossa crise econômica.

Quarenta e três por cento das pessoas em situação de rua não trabalham, e 34% vivem de bico. Entre os que têm algum tipo de trabalho, 79% ganham menos de um salário mínimo. A maioria não consegue um emprego regular, pois, além da competição com outros desempregados, não pode se candidatar a um posto por não ter residência fixa. Falta de moradia e desemprego se retroalimentam, num círculo vicioso.

Sem nenhuma surpresa, a solução, segundo as próprias pessoas em situação de rua, é oferecer moradia e emprego dignos. Quarenta e seis por cento acreditam que a solução é ganhar moradia permanente, e 23% creem que é receber emprego. Enquanto isso não vem, esse enorme contingente só pode contar com abrigos, restaurantes populares e as políticas de transferência de renda.

É muito triste termos mais de 30 mil morando nas ruas de São Paulo. São pessoas que precisam optar entre viver em barracas ou se submeter às severas e inflexíveis regras dos abrigos. São pessoas que precisam enfrentar as filas dos restaurantes populares e torcer para que mudanças bruscas nas políticas sociais não as deixem sem o jantar ou ter o que comer no fim de semana. São pessoas que não têm acesso a um banho regular, nem à água potável.

Uma parte desses mais de 30 mil é de cidadãos, como você e eu, que perderam o emprego e foram despejados das suas casas. Outra parte é de pessoas que brigaram com a família e terminaram na rua ou que têm algum problema mental ou dificuldade com álcool ou drogas —como muitos nas nossas famílias.

Somos um país de renda média e, se quisermos, temos condições para tirar essas pessoas das ruas. Gente vivendo na rua pode ser um problema pequeno e difícil de resolver, como mostra a experiência de países com boas políticas sociais. Mas, nesta escala, de dezenas de milhares, nós sabemos bem como enfrentar: precisamos oferecer moradia e emprego — e, na impossibilidade de emprego, dar algum tipo de renda. Política habitacional e política de transferência de renda já compõem o nosso repertório de políticas públicas. É preciso empenho.

“Não me matem”

Seu nome era Moise Mugenyi Kabagambe, o congolês de 24 anos que foi linchado na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, em frente ao quiosque Tropicália em 24 de janeiro. Apesar de os brasileiros estarem tristemente acostumados a conviver com uma das maiores taxas de homicídios do mundo, desta vez, a severidade do crime comoveu o país inteiro. O grito do jovem antes de morrer, “Não me mate!”, continua a ressoar nas redes sociais e na consciência de quem, apesar de tudo, aposta e trabalha todos os dias a favor da paz e da harmonia.

De acordo com o promotor que analisa o caso, que foi gravado pelas câmeras de segurança do quiosque, “constata-se uma ação do mais alto grau de crueldade, perversidade, desprezo pela vida”. O jovem que trabalhava como garçom no quiosque é descrito pelos clientes como “alegre e educado”. Ele perdeu a vida apenas por ter pedido ao dono do bar da praia que lhe pagasse 200 reais (33 euros ou pouco menos de 38 dólares) que lhe devia.

O jovem que gritava para não ser morto foi linchado por cinco homens com chutes, socos e golpes de madeira. De acordo com exames médicos, Moise entrou em agonia 10 minutos antes de morrer e foi encontrado com as mãos e os pés amarrados, com os olhos ainda abertos.

Talvez a execução brutal realizada na areia da bela praia do Rio, a inveja do mundo, esteja causando dupla indignação na sociedade e tenha explodido nas redes sociais porque o país vive politicamente em um clima onde o governo do fascista Jair Bolsonaro tem como lema que o “melhor bandido é o bandido morto”. Se for executado, melhor ainda.



O presidente é defensor da tortura e da pena de morte. Sua política, seus gostos, seus esportes estão todos relacionados às armas, cujo mercado facilitou porque seu sonho é que todo o país esteja armado. Seu gesto favorito é simular com as mãos o ato de disparar um revólver. Durante a campanha eleitoral, uma cena em que o candidato a presidente do país pega uma menina de cinco anos nos braços e a ensina a imitar, rindo alegremente, o ato de disparar uma arma com a mão inocente, foi ultrajante.

Toda essa paixão pelas armas do chefe de Estado vem criando um clima no país em que a violência e as execuções sumárias se tornaram normal. Eu diria desportivo, se o adjetivo não me machucasse na boca.

Alguns teorizam que o Brasil sempre foi um país violento. É apenas parcialmente verdade. É que hoje essa violência é institucional, alimentada pelos instintos de morte de um presidente que zomba, por exemplo, daqueles que se protegem da pandemia, considerando-os “covardes”.

Estou neste país há 20 anos e sou testemunha de que a violência de hoje mudou de cara porque é alimentada por quem está no poder com o desprezo pela vida e a exaltação da ditadura militar. Hoje, talvez como reação a esse clima de morte que se instalou, cresce um movimento de solidariedade sem precedentes em todo o país, com o aumento de moradores de rua que vivem e morrem na rua.

Talvez o excesso de falta de humanidade do presidente esteja despertando na sociedade um movimento de defesa da vida, de acolher os deixados à própria sorte pela grave crise econômica. Aquele Brasil que reage à violência com sentimentos de compaixão e ajuda os que ficaram para trás na vida lembra-me a cena que presenciei quando cheguei aqui. Foi na praia de Copacabana, no Rio, quando uma idosa caiu inconsciente. Em poucos segundos, uma dezena de pessoas se reuniu com seus celulares na mão chamando uma ambulância. No Consulado me disseram então que os espanhóis que vieram para o Brasil queriam ficar. Eles comentaram que aqui “as pessoas são gentis, alegres e solidárias”.

Hoje, essa alegria e esse espírito acolhedor se perdem em meio à fumaça dos sentimentos de hostilidade, desconfiança e violência instigados por quem está no poder. Como disse o ex-presidente Lula da Silva, que aparece nas pesquisas como o candidato mais forte para derrotar Bolsonaro, “o Brasil precisa recuperar a alegria perdida”.

O grito do jovem trabalhador congolês de “Não me mate!” que continua ressoando na areia branca das praias do Rio onde foi executado vilmente e morreu de olhos abertos, talvez sirva, um triste paradoxo, para que quando chegar a hora de ir às urnas, os brasileiros decidam desta vez devolver ao país a felicidade perdida depois de ter se libertado do pesadelo do que já é considerado o pior e mais violento dos governos democráticos deste país.

O poder da descrença

Em ano eleitoral, os candidatos esperam que o eleitor se comporte como se estivesse diante da televisão na hora da novela; no teatro esperando abrirem-se as cortinas; no cinema, serem apagadas as luzes —e então se dê o milagre da suspensão voluntária da descrença.

Poderiam avisar, como Orson Welles em “Verdades e mentiras”, que o que vem a seguir é sobre trapaça, fraude e mentiras, mas que o filme, em si, é baseado em fatos sólidos. Seria pelo menos meia verdade.

Suspendemos a descrença para mergulhar, sem amarras, na arte. Para nos iludir com a perspectiva e aceitar a terceira dimensão numa tela plana. Ver o personagem por trás da máscara do ator, admitir que o tempo passe noutro ritmo, que uma sugestão no palco se torne um cenário completo. Para deixar que palavras escritas se transfigurem em personagens não só de carne e osso, mas com mais alma que a maioria de nós.

É preciso descrer das evidências para transcender e penetrar no mundo superiormente interessante da arte.


Isso quando o gatilho é um Fassbinder, a nos mentir a 24 quadros por segundo. Uma Hilda Hilst, nos arrastando em seu vórtice; um Sérgio Ferro, um José Miguel Wisnik, um Antunes Filho, um Sebastião Salgado. Em ano eleitoral quem entra em cena é o marqueteiro.

A essa figura compete nos convencer da troca da realidade por um simulacro, uma versão unidimensional — e infinitamente inferior — de si mesma.

O artista nos catapulta; o marqueteiro quer porque quer nos achatar. Não é culpa dele, coitado, que está só tentando ganhar a vida honestamente nos empurrando uma fraudezinha disfarçada de boas intenções, uma mentira sincera aqui e uma semiverdade marota acolá.

Tanto quanto o artista, ele atua na chave do ilusionismo. Mas se ilusão da arte tem a ver com o lúdico (a origem etimológica é a mesma); a do marqueteiro se ancora na percepção distorcida.

Ele vai tentar nos convencer de que o candidato X defende valores cristãos, mesmo tendo sido desonesto, desleal, intolerante, insensível ao sofrimento alheio. Que é um paladino da família, em luta contra a degeneração dos costumes — enquanto tratou foi de salvar a pele da própria prole, tendo feito do seu lar um antro de falcatruas. Exibirá como resultado de seu governo uma imunização em massa que salvou milhões de vidas — escamoteando sua luta incessante contra as vacinas.

Vai suar a camisa para demonstrar o apreço democrático do candidato Y, que defende regimes de força e não esconde o desdém pela imprensa livre, pelo livre mercado, pela liberdade de pensamento. Que insistirá em repetir o que já deu errado, e que não tem como dar certo, nem nunca terá. Vai, num jogo de espelhos, fazer desaparecer o governo mais desastroso que este país já teve. (Nota mental: lembrar onde foi que li que Dilma é a pior presidente do Brasil; Bolsonaro é apenas o pior presidente da galáxia).

E ainda há o encarregado de provar que uma penca de candidatos Z quer a união em torno de uma terceira via.

A suspensão da descrença nos permite a arte, a marquetagem política e a religião. Que saibamos quando usá-la com discernimento — ou sem moderação.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Virou farofa

 


Os ricos, os tributos e a hipocrisia

Em janeiro passado, na reunião anual do Fórum Econômico Mundial, um grupo de mais de 100 milionários, autodesignado Milionários Patriotas, divulgou carta em que reconheciam que suas fortunas cresceram com a pandemia e que os sistemas tributários eram injustos. Piedosamente, pediam para ser mais tributados.

Logo me veio à lembrança a frase atribuída ao pensador francês La Rochefoucauld (1613-1680): “a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”.


É certo que os ricos, especialmente os milionários, pagam desproporcionalmente menos impostos que os demais contribuintes. Porém é igualmente certo que as leis tributárias, que lhes permitem pagar menos impostos, não decorrem, por óbvio, de pressão política dos pobres. Ao contrário, como se constata na forte oposição, no Congresso norte-americano, às propostas tributárias do Presidente Biden.

Para evitar o pagamento de impostos, grandes multinacionais e milionários não praticam a vulgar sonegação. Recorrem a talentosos e bem remunerados especialistas que produzem requintados planejamentos tributários, invulneráveis a alíquotas nominais elevadas ou a pretensões de tributação das fortunas. Essa arma, não tão secreta, ainda que desconhecida para os leigos, é um agente formidável na geração de desigualdades entre pessoas e países.

Compungidamente, os que se valem do planejamento abusivo alegam que tão somente lançam mão de brechas na legislação tributária, como se elas nascessem por geração espontânea.

Dia após dia, são divulgadas informações que atestam o que vem a ser, no meu entender, o maior escândalo da história da tributação.

Em 2021, Chuck Collins, professor do Institute for Policy Studies, em Washington, publicou um livro (The Wealth Hoarders) em que mostra como os bilionários pagam milhões para esconder trilhões e assim acumular riquezas, por meio de astuciosos planejamentos.

Assinala o autor, entre muitos exemplos, que quase a metade das empresas norte-americanas têm inscrição fiscal em Delaware, conhecido paraíso fiscal. Acrescenta que um único endereço em Wilmington, mais populosa cidade daquele Estado, é o domicílio fiscal de 285 mil empresas.

Em maio do ano passado, com base em dados oficiais, os jornalistas investigativos do site ProPublica demonstraram que os 25 maiores bilionários norte-americanos, entre 2014 e 2018, pagaram imposto de renda à alíquota efetiva média de 3,4%, bem inferior à média dos demais contribuintes. Os Milionários Patriotas, timidamente, não reagiram.

Pátria assassina

Dia desses mataram alegria, grávida de quatorze semanas, bala perdida, digo, bala encontrada. O bom senso, que já andava capenga, foi morto a pauladas atrás de um quiosque no Rio de Janeiro ao cobrar o seu sustento. A empatia também foi estrangulada no estacionamento de um supermercado. O afeto saiu pra trabalhar e não voltou mais, não encontraram o corpo até hoje. Ajuntamento na esquina da Assis Brasil com a Sertório, cena forte, compaixão destroçada no asfalto quente, pernas e braços amputados, foi atingida por um carro na contramão, o motorista fugiu sem prestar socorro. Alguém serviu pra boa fé, moradora de rua, um prato de comida misturada com pó de vidro. Gratidão morreu de sede. Coragem suicidou-se. Autoestima pulou do terraço de salto alto, do prédio mais alto, da Avenida Paulista. A generosidade foi vista a última vez, doente, todos os dentes podres, pedindo esmola na Cracolândia. Com a tolerância foi cirrose, nem transplante de fígado a salvou. O carinho adoeceu de repente, foi definhando, definhando, amarelou, perdeu os cabelos, já não se alimentava mais, até que não resistiu. No atestado de óbito do encantamento dizia: morte por causas naturais. Doação afogou-se na última enchente. Compreensão pegou fogo, incêndio criminoso. Esfaquearam a dignidade em plena luz do dia, ninguém fez nada. O respeito perdeu-se por completo, não foi mais visto nem é lembrado. Com o perdão foi latrocínio. Felicidades morreu de saudade. A liberdade está sendo caçada, dois olhos arregalados, esconde-se como pode. Perdão pegou perpétua, tuberculoso, agachado no canto de uma cela fedorenta. A fé teve morte cerebral. A humanidade não encontrou vaga na UTI, não há previsão de melhora. Esperança, entubada, ainda resiste ligada em aparelhos.

Lula não é minha mãe

Fui ouvir a entrevista que Lula (foto) concedeu hoje a rádios do Paraná e, lá pelos 11 minutos da conversa, senti aquilo que minha tia Albertina chamava de “arrepio nos dentes”. O presidenciável petista estava dizendo que deu atenção especial aos pobres em seus dois mandatos. Então, ele usou uma metáfora.

“Nós fizemos o que faz uma mãe”, disse Lula. “Ou seja, ela cuida de todos os filhos em igualdade de condições, mas aquele que está mais fragilizado é aquele que ela vai fazer um cafuné a mais, que ela vai cuidar melhor, que ela vai dar um pedaço de carne a mais, um copo de leite a mais.”



Foi como voltar ao início dos anos 2000, quando as metáforas de Lula atingiam você em rajadas, dia sim e outro também, todas elas sobre família e futebol. Lembrei mais uma das razões por que não quero que o PT retorne ao governo.

Essa não é, obviamente, a principal razão. Há coisas muito mais graves. Não acredito nas soluções estatizantes do partido para a economia. Além disso, ouço Gleisi Hoffmann dizer que o PT nunca fez nada de errado na Petrobras, e sinto que eles não hesitarão em corromper o sistema político mais uma vez, como no mensalão e no petrolão, quando sentirem aquela tentaçãozinha de permanecer no poder pelos próximos sete mil anos.

Não acho, porém, que as escolhas retóricas de um político sejam totalmente irrelevantes.

Essa ideia do governante paizão ou mãezona, que zela pelo bem estar da meninada, é especialmente perniciosa. Ela eleva o político e diminui os cidadãos.

Lula não é minha mãe. O estado não é nosso pai. E o Código Eleitoral não é o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Não vou discorrer sobre a retórica de Bolsonaro. Digo apenas que não desejo ao Brasil outros quatro anos de vulgaridade ululante e metáforas matrimoniais. Por isso, continuo torcendo pela Terceira Via e pela eleição de alguém que não seja nem pai, nem mãe, nem herói, nem vingador, nem salvador da pátria. Basta que seja um bom presidente.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Brasil sempre com a mesma cara

 


Bolsoriarty ou Mabusonaro

Jair Bolsonaro acaba de nomear mais um aliado para um cargo-chave na administração. Desta vez, trata-se de um indivíduo com autoridade para bloquear, ignorar ou mesmo apagar as investigações contra um de seus filhos pela extorsão de funcionários chamada "rachadinha". Qual é a novidade? Todo dia, Bolsonaro infiltra em cargos-chave elementos de sua confiança. É sua prerrogativa, mas nunca um presidente amarrou tão bem o sistema visando a proteger-se, assegurar impunidade ou eternizar-se no cargo.


Bolsonaro já se garantiu na rede de procuradorias, corregedorias, controladorias, delegacias, órgãos públicos de busca e informação e até no STF, no qual implantou dois pinos. Tem pelo menos um cúmplice em cada tribunal. Foi fazendo isso aos poucos, em silêncio, enquanto nos distraía com a chusma de militares, nem tão decisivos, que transplantou para o governo. O resultado desse enraizamento está na tranquilidade com que afronta diariamente a lei e sai assobiando, como se se soubesse fora do alcance dela.

A literatura e o cinema criaram dois personagens igualmente sinistros: o professor Moriarty, arqui-inimigo de Sherlock Holmes, e o Dr. Mabuse, imortalizado em três filmes de Fritz Lang. O primeiro controlava Londres; o segundo, a partir de Berlim, fitava o mundo. O alcance de ambos compreendia desde uma carteira furtada no metrô até a manipulação de leis, passando pelo hipnotismo de gente influente, espionagem eletrônica e controle de organismos essenciais.

Quando, ao fim de uma história, achava-se que Moriarty e Mabuse estavam mortos ou derrotados, crimes como os deles continuavam acontecendo. Eram de seus auxiliares deixados impunes ou de estudiosos de seus métodos e que conseguiam replicá-los. O terror não tinha fim.

Bolsonaro, um dia, descerá da cadeira e responderá por seus crimes. Resta ver até que ponto os homens que impregnou no sistema impedirão que pague por eles.

Uma democracia de poucos

Volto a um tema presente em muitos dos meus artigos, mas cuja discussão é cada vez mais urgente: a qualidade da nossa vida democrática. O Brasil é um enigma difícil de ser decifrado. Temos os recursos e as condições para ser uma das nações mais ricas do mundo.

Temos uma grande agricultura, toda a energia de que precisamos – água em abundância, energia, petróleo e minerais, tudo o que é escasso em quase toda a parte. Mas permanecemos um país pobre que cresce menos que a maioria das nações. Uma das causas só pode ser a impotência do Estado devido à má qualidade da nossa vida democrática.

Nossa população deveria estar sempre indignada e numa busca incessante por algo realmente novo para transformar o país. Mas se as pesquisas de intenção de voto para as próximas eleições estiverem corretas, parece que os brasileiros estão em sua grande maioria dispostos, sem muita reflexão, a voltar ao passado, tal o horror que sentem do presente.

O sentimento dominante tornou-se a procura do mal menor, um dos disfarces preferidos do conformismo e da apatia social.

A impressão é que as novas gerações de brasileiros são gerações sem esperança. É a explicação que me ocorre para a passividade e até para o cinismo político das nossas maiorias eleitorais. Creio que o pensamento dominante está contido numa passagem de Shakespeare: o que ficou irremediável, se tornou indiferente.


Há alguma razão para isso, pois nosso sistema político é um ambiente à parte da vida do país. O debate político não contém praticamente nada de interesse público como políticas de crescimento e de proteção social, por exemplo, tudo que diz respeito à vida das pessoas numa sociedade tão privada de tudo e tão dependente do Estado.

Nada disso separa os partidos que, na verdade, não têm ideologia, nem ideias, nem posições. Seu único propósito é participar dos condomínios do poder e o fazem sem nenhum pudor e com grande competência.

A conclusão é que a classe política na sua maioria, pois há exceções à regra nos dois lados do espectro político, embora bastante minoritárias, apropriou-se do Estado, seus recursos e seus instrumentos, apenas em benefício próprio, passando ao largo do interesse comum.

Em alguma medida isto sempre ocorreu, mas numa escala infinitamente menor. Hoje, a dominação do Estado pela corte política assumiu proporções sem precedentes, mesmo para a história de nossa velha cultura patrimonialista.

Deputados e senadores sempre tiveram um pequeno limite no orçamento para beneficiar as suas bases. Agora, além destes recursos, o Parlamento criou uma rubrica de grande valor para ser distribuída aos parlamentares de forma secreta, como se fossem recursos privados.

A soma das emendas, secretas e públicas, em 2022, está próxima de 40 bilhões de reais, enquanto o total dos investimentos públicos não chega a 45 bilhões. De um lado o país, com seus 200 milhões de habitantes, de outro, nossos 500 parlamentares, em pé de igualdade no orçamento da República. Não é mais uma República.

Como é sabido, o apoio parlamentar ao governo tem como contrapartida a indicação, por deputados e senadores, de nomes para preencher os melhores cargos da administração federal. Por que pessoas eleitas para fazer as leis tem interesse nestas nomeações? É uma pergunta que fica no ar.

Nesta semana, o Ministro da Economia solicitou à Controladoria Geral da União a criação de um sistema que revele os nomes dos “padrinhos” de cada indicação, para conhecimento de todos. A Controladoria não respondeu e as lideranças políticas se indignaram com a ingenuidade ou a falta de tato do Ministro. Quem prefere as sombras para agir, certamente tem motivos muito fortes.

São apenas dois exemplos. Há muitos outros, sempre a demonstrar que a democracia brasileira tem donos e estes donos são poucos. Que a devolução do Estado à população não esteja na pauta de nenhum dos candidatos é um sinal de que muito pouca coisa vai mudar nas eleições de outubro.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Pensamento do Dia

 


Silêncio. Atenção. Roda. Em cartaz, Bolsonaro, um homem do povo

No curto período de 72 horas, Bolsonaro deu-se ao luxo de protagonizar dois episódios desastrosos para sua imagem. O primeiro aconteceu no último domingo.

Um vídeo de menos de um minuto, postado nas redes sociais mal acabara de ser rodado, mostra Bolsonaro sentado numa cadeira à beira de uma calçada, em Brasília, a empanturrar-se de frango e farofa comidos com as mãos. A ideia era apresentar o presidente da República como um autêntico “homem do povo”, mas acabou servindo para popularizar a hashtag #BolsonaroPorco.

Quem disse que o brasileiro pobre aprecia comer com as mãos e em locais públicos? Só o faz quando não tem talheres, nem espaço adequado, nem tempo para alimentar-se. A comida é tão racionada que ele evita o desperdício. Enquanto arrancava nacos de carne dos ossos do frango com os dentes, a farofa escorria pelo corpo de Bolsonaro, sujando seu casaco, suas calças e botas. O pior, porém, foi quando começou a circular outro vídeo que registrou os bastidores do primeiro.


Sob o comando do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), o filho Zero Dois do presidente, uma equipe de cinegrafistas e de assessores cuidava para que tudo desse certo, enquanto Bolsonaro procedia com a naturalidade exigida de um bom ator. Ele foi filmado de vários ângulos, ora em uma mesa próxima do balcão de comidas, ora em outra separada. A peça de propaganda saiu barata. Os que se envolveram com ela são pagos com dinheiro público.

Corta! Menos de 48 horas depois. Bolsonaro está em São Paulo. Foi sobrevoar municípios atingidos por fortes chuvas. Em dezembro último, preferiu tirar férias e passear de jet sky a sobrevoar municípios baianos e mineiros onde as chuvas matavam e desabrigavam milhares de pessoas. Pegou muito mal para ele que não quis incorrer no mesmo erro desta vez – escolheu outro, como se saberá adiante. De resto, São Paulo é o maior colégio eleitoral do país, que em 2018 lhe deu 60% dos seus votos no segundo turno. Hoje, ali, segundo pesquisas, ele está atrás de Lula.

Encerrado o sobrevoo, Bolsonaro concedeu uma entrevista coletiva à imprensa, prometeu recursos aos prefeitos que lhe pedirem diretamente, negou um pedido de recursos encaminhado pelo governador João Doria (PSDB), seu desafeto, e… Bolsonaro não seria o que é se não tivesse dito alguma coisa que o prejudicasse. Disse que “faltou visão de futuro” às pessoas que construíram suas casas em áreas de risco, sujeitas a deslizamentos de encostas. Em seguida, tentou corrigir-se: “Muitas vezes constroem a sua residência por necessidade”. Mas era tarde. O estrago estava feito.

Quem, podendo construir sua casa em lugar seguro, escolhe construí-la onde ela pode desabar se chover muito? Por que cidades de grande e médio porte estão repletas de favelas onde moram milhões de pessoas e onde a presença do Estado é praticamente nenhuma? Rico ou remediado não mora em favela, quem mora é pobre, que não pode ser culpado por suas desgraças. A malsucedida viagem de Bolsonaro a São Paulo foi também pretexto para que ele fugisse da sessão de reabertura do Supremo Tribunal Federal, onde responde a vários processos.

Assim funciona

Estou cansado de ouvir dizer que a democracia não funciona. Claro que não funciona. Presume-se que somos nós quem a faz funcionar
Alexander Woolcott

Milionários patrióticos

“Hoje, nós, os milionários e bilionários que assinam esta carta, pedimos aos nossos governos que aumentem nossos impostos. Imediatamente. Substancialmente. Permanentemente”. Logo após o término do confinamento contra a Covid-19 no primeiro semestre de 2020, cerca de 90 pessoas sortudas com sua riqueza fizeram essa demanda veemente dos políticos. Desde então, pouco se moveu no campo tributário; apenas um acordo mínimo para estabelecer uma alíquota global de 15% no imposto sobre o lucro das empresas, que ainda deve entrar em vigor no próximo ano.

Essa epístola foi caracterizada por uma urgência agonizante. É oportuno reproduzir alguns de seus parágrafos sem qualquer glosa: “Não estamos conduzindo as ambulâncias que levam os doentes aos hospitais, nem reabastecendo as prateleiras dos supermercados, nem entregando comida de porta em porta (…). Mas temos dinheiro, muito dinheiro, que é desesperadamente necessário agora.” Esses super-ricos se autodenominavam milionários patrióticos e reapareceram um ano e meio depois – com mais vinte adesões ao grupo – no Fórum de Davos, convocado sob o slogan politicamente correto de “Acionistas por um mundo mais coeso e sustentável”.


A maioria desses milionários são americanos: os 0,1% mais ricos dos americanos agora controlam mais dinheiro do que em qualquer momento desde 1929. E eles também agora usaram o método de carta aberta sob o lema repetido de “Tax us rich people and do it now”. Eles não são marxistas desclassificados, mas pessoas que tiveram muito sucesso no sistema e querem salvar o capitalismo de seus excessos mais extremos. Suas demandas giram, em geral, em torno do aumento do imposto sobre a riqueza, da revisão das brechas fiscais por meio das quais os impostos são evadidos legalmente e até mesmo da exigência de aumento do salário mínimo.

O medo de ser uma extravagância certamente está presente nesse apelo desesperado por impostos mais altos. A principal crítica a Davos geralmente se concentra no vazio das palavras que ali são invocadas, ano após ano, e no cinismo de muitos de seus oradores aparentemente mais críticos. Milionários patrióticos também cobram de alguns empresários da moda como Elon Musk ou Jeff Bezos, quando acreditam que a confiança não se constrói em espaços fechados que só podem ser acessados pelos mais ricos e poderosos: “[A confiança] não é construída por viajantes espaciais bilionários que fazem uma fortuna com uma pandemia, mas não pagam quase nada em impostos.” Para esses milionários, o sistema tributário internacional “foi projetado deliberadamente para enriquecer ainda mais os ricos”, e a pandemia de covid-19 serviu para multiplicar sua posição de poder: embora o mundo tenha passado por um imenso sofrimento nos últimos dois anos, eles aumentaram sua riqueza, mas “poucos, se houver, podem dizer honestamente que pagamos nossa parte justa de impostos”.

Este diagnóstico coincide com o relatório apresentado em Davos pela Oxfam Intermón, intitulado “Desigualdades matam”. Com esta frase, a desigualdade mata, o sociólogo sueco Göran Therborn iniciou seu livro de referência The Death Camps of Inequality (Fund for Economic Culture). De acordo com esse relatório, durante a pandemia, os 10 homens mais ricos do mundo dobraram sua fortuna pessoal, passando de 700.000 para 1,5 trilhão de dólares (a uma taxa de 1,3 bilhão por dia), enquanto no outro extremo da escala caíram 160 milhões de pessoas. ao nível de pobreza (com menos de 5,5 dólares por dia) em relação ao período anterior ao coronavírus. Um dos representantes da Oxfam resumiu bem a situação: está sendo uma pandemia de luxo; Enquanto os bancos centrais e governos dos países ricos injetaram trilhões de dólares para salvar a economia, grande parte parece ter ido parar nos bolsos dos mais ricos, que aproveitaram o boom das bolsas e outros ativos. O resultado, mais riqueza para alguns e mais dívida pública para todos.

Tempos eleitoreiros

Em tempos eleitorais, tempos de mudanças inversas ou reversas, de ajustes de contradições e permanência disfarçada; tempos nos quais mudamos nomes e inventamos partidos, mas não pensamos nisso como um costume destinado a não transformar os jeitinhos, os assassinatos de caráter, as notícias mentirosas, falsas, fantasiosas, caluniosas, criminosas — enfim, tudo que cabe na noção de fake surge como um sol de verão.

Em tempos eleitorais, falamos de “candidatos” e postulantes. Dos que pretendem ser eleitos numa competição teoricamente igualitária. E tal princípio alheio à vida cotidiana produz uma multidão de discursos conjunturais, transformando-se numa verdadeira “economia política eleitoral”, na qual se produz uma matemática de relações. Uma álgebra que poderá revelar se A vai com X ou Y, e se o partido Z vai com G, T ou K. O campo político eleitoreiro vira uma crônica de Lima Barreto ou um manicômio de Machado de Assis. Nele, só não ficam loucos os pré-candidatos, perdidos numa competição cuja única regra é ganhar porque, conforme sabemos, “em política vale tudo”, até mesmo trair juramentos constitucionais, como é rotineiro em Bolsonaro. Dito isso, vale observar a ferocidade com a qual se tenta, neste jogo sujo, eliminar o “centro” bloqueador eventual de uma infame repetição.


Aliás, hoje, os jornais estão perdendo para as telas digitais dos iPhones, iMacs e iPods. Esses “eus” em rede que formam uma selva de ignorância e má-fé, numa mistura de péssimo alvitre entre a carta anônima e o trote telefônico...

Os argumentos mais complexos — a civilização sem o professor, o papel ou o livro que lhe dava concretude ou “peso”, como se dizia no meu tempo —passaram a ser ignorados e a ter que competir com uma superfície lisa, um vidro no qual algumas linhas ou um filmete conta uma piada, passa um segredo, uma “informação de cocheira” dada por um companheiro fanático que se apresenta como guru de uma seita. Com isso, a rede, em vez de abrir democraticamente os fatos, se fecha na sua ignorância.

Exageros e mentiras passam, entretanto, por verdade ou falsidade —por fake — e, com tamanha irresponsabilidade, tais “novidades” engordam ainda mais os polos como espaços exclusivos.

O chamado smartphone — que é telefone, confessionário, formulador de revolução e de opinião, dicionário, comediante, cinema pornô, Bíblia Sagrada, teoria política da mais alta e baixa qualidade, álbum de fotografia das pessoas que mais amamos — é de fato e de direito o espelho mais perfeito da nossa abominável pobreza e da nossa grata riqueza. Neste aparelho — que põe no nosso bolso toda a obra de Shakespeare, ao lado do canto forte de Elis, Ella e Billie; ao lado das sinfonias de Beethoven, das fugas de Bach, bem como os mapas do mundo — resume-se, repito, o nervo pós-moderno de nossas vidas.

Ele mostra o mínimo e o máximo, o plano e o redondo do planeta. Refletindo sobre ele, você entende por que a Terra é representada, para uma seita, como efetivamente plana, tesa e reta. A rejeição do esférico e do redondo é afim com a imobilidade e o absolutismo, pois a esfera, conforme sugere Thomas Mann, tem a “revolução” dela, é o movimento que irrita os autoritários paralisadores do mundo. Sem a esfera, não há dia e noite...

Democracias têm um dinamismo esférico, pois, girando sobre si mesmas, nelas sempre estamos por cima e por baixo. A esfera é alternadamente celestial e terrena. Não é por mero acaso que o bolsonarismo, como todo fanatismo lamentavelmente implantado no Brasil, adora a linha reta das grades de um cárcere.

A possibilidade de arredondamento de um sistema político achatado, com os superiores em cima e a “massa” e os negros em baixo, como dizia Anísio Teixeira, equivale a transformar uma pirâmide aristocrática numa bola democrática. No fundo, toda polarização não só é chata, mas deseja achatar!

Há um ponto final a ser mencionado. Não sou contra a digitalização ou as redes. Para mim, o computador, que uso desde 1986, é um instrumento indispensável. Mas isso não significa que tecnologias da comunicação não possam ser pervertidas como polos de um absolutismo desvairado, de negacionismo mútuo. De um brutal fanatismo.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Brasil farofeiro

 


Na floresta de pedra

Em Itatiaia, na casa de campo de um amigo, gravei um depoimento para o canal “Acontece nos Livros” (do Youtube), de Whisner Fraga. Minha conversinha fiada e a leitura de uns poemas enfrentaram a concorrência de passarinhos e galinhas, em particular do galo e sua barulhenta forma de querer se impor como dono do terreiro. Seja como for, a trilha sonora aviária foi um simpático complemento a meu pequeno testemunho.


Quando o vídeo foi a público, além de estar longe daquele paraíso, eu adiava minha volta à rua, esperando que a mais nova onda da pandemia regredisse. É um sem-fim essa tormenta. Mas eis que um passarinho começou a piar aqui nas redondezas da verdadeira floresta de pedra que é Botafogo. Não é raro que algum cante. Às vezes, no início da manhã, um grupo de maritacas — com destino ao Aterro, onde promove verdadeiros encontros, com debate, degustação de sementes e voos coreográficos — passa apressado e ruidoso diante da janela do meu quarto. Que liberdade gozam os não molestados pelo vírus. É comum ouvir também o trinado de um bem-te-vi. Digo um bem-te-vi, pois, apesar de nunca o ter visto, sua voz não me engana. Bem, se é único, melhor nomeá-lo. Te batizo, em nome de ninguém, deus ou mortal, de Pafúncio.

A Bia percebeu logo que o tal passarinho não era nem uma das maritacas nem o Pafúncio, e aquele mavioso gorjeio, ininterrupto, não demorou a nos chatear. Esse bichinho não voava, não se juntava aos seus em tertúlias sob árvores? O porteiro esclareceu o mistério: um dos apartamentos havia sido alugado por temporada — pequena, ele garantiu —, e o locatário tinha um trinca-ferro engaiolado. Ó, meu Deus, como é melancólico (e maçante) o pio de pássaros presos.

Uma escritora andou desabafando no Facebook: está cansada do confinamento. Quem não está? Se cantássemos, agora que estamos encarcerados por um vírus que vivia quieto nas florestas chinesas até o homem ir lá e cutucá-lo, seríamos esse trinca-ferro incansável, triste, tedioso e torturado. Ele canta? Não, lamenta.
Alexandre Brandão

A quem interessa a liberdade de expressão irrestrita?

A liberdade de expressão é um valor inegociável, mas é preciso impor limites. Quando a expressão de uma opinião, ou ainda de uma informação falsa, coloca em risco outros direitos, como o direito à vida, é evidente que ela deve ser tolhida. Ninguém pode gritar "fogo!" em um cinema lotado.

A pandemia sublinhou o dilema. Notícias falsas tiraram vidas. Isolamento social, máscara, até vacinas; tudo foi alvo de fake news. Vidas foram perdidas em nome de uma fictícia liberdade de mentir e enganar.

E se aceitamos essa lógica com a pandemia da Covid, é evidente que devemos aplicá-la também a outros perigos. Nem só de Covid morre a humanidade. Machismo, racismo, LGBTfobia, fanatismo religioso, desigualdade social e tantas outras injustiças também matam. Não vamos fazer nada?​

É uma visão ingênua —embora nada inocente— acreditar num debate público idealizado, em que o que importa são argumentos. Na realidade, opiniões refletem os conflitos de poder da sociedade, mal disfarçados por construtos teóricos.


Alguns buscam a igualdade e o bem comum; outros, manter seus interesses e privilégios. Quando um branco questiona consensos estabelecidos da pauta antirracista, isso não é liberdade de expressão, é racismo. Quando um autor (ou autora) cis questiona se mulheres trans devam ser tratadas como mulheres, isso não é liberdade de expressão, é discurso de ódio.

Esse tipo de questionamento "teórico" é uma ameaça concreta aos mais vulneráveis. Saber que ele existe no interior de algumas mentes retrógradas é odioso. Permitir que seja lido ou ouvido, criminoso. De nada adianta publicar ao lado um artiguinho contrário, que ninguém lerá, para criar um falso equilíbrio. Pessoas são mortas e violentadas nas ruas por causa desse tipo de discurso. Defender a tal liberdade irrestrita é defender que um jornal possa matar e violentar pessoas.

Os bons sentimentos dos magnatas do Vale do Silício e dos barões da velha mídia —que juram combater fake news e extremismo— só vão até a página dois. No momento em que têm que escolher entre verdade e lucro, é óbvio para que lado irão. Trump só foi banido das redes depois de perder a eleição. Joe Rogan segue veiculando seu podcast criminoso no Spotify. Da Folha, então, eu nem saberia por onde começar.

Enquanto reformas de longo prazo da educação não levarem o povo a abandonar seus gurus e charlatães e a seguir apenas intelectuais bem embasados, é preciso que nos resguardemos contra retrocessos. Quando empresas vacilam, o Direito Penal deve ser decisivo: separar o joio do trigo, dizer quem pode e não pode ter espaço nas plataformas e tomar medidas contra as que continuam a dar palco para discursos perigosos.

Poderíamos formar algo como um comitê de notáveis, apenas com referências indiscutíveis das ciências (exatas, biológicas e humanas), com a devida representatividade de todas as minorias sociais, para julgar previamente artigos, podcasts ou vídeos que possam ter conteúdo problemático. É isso ou a barbárie. Aliás, se nada for feito, e rápido, contra aplicativos como o Telegram, Bolsonaro pode até vencer as eleições. Estão vendo aonde leva essa "liberdade"?

Apenas o que defende o bem comum, que luta contra injustiças, que se pauta pelo rigor da ciência, que acompanha a marcha da História, deve ter espaço. Mentira e injustiça não têm espaço numa sociedade democrática. Fora isso, a liberdade de expressão deve ser irrestrita.

Direita não sabe para onde correr

O conservadorismo no Brasil sorriu e soltou fogos entre 2016 e 2018. Assistiu ao impeachment de Dilma e à posse do ministério de Temer. Veio a eleição de 2018 e a esquerda foi derrubada no voto. Lula preso pelo futuro ministro da Justiça, e daí? A direita assumia o poder, ainda que liderada por um ex-capitão chucro, que só tinha espaço nos extintos programas CQC e Luciana Gimenez. O comunismo, seja lá o que isso signifique, estava enfim derrotado.

Passaram pouco mais de cinco anos do impeachment. Eduardo Cunha foi preso, Aécio desapareceu, o PSDB desmanchando nas mãos de Doria, as pedaladas fiscais se tornaram lei. Os personagens do impeachment foram engolidos pelo bolsonarismo e tornaram-se reféns nas eleições de 2018.


Desde que a família de milícias e rachadinhas tomou Brasília, só se ouve o som dos botes deixando o navio. Primeiro por falta de espaço no governo ou “decepções ideológicas”. Veio a pandemia e o negacionismo do presidente ofendeu qualquer cidadão com um mínimo de bom senso. Enfim, em 2021 Bolsonaro consolidou sua volta ao Centrão. O eleitor conservador, bolsonarista de ocasião, sentiu o baque. Sente mais vergonha de defender Bolsonaro do que dizer que seu plano é Prevent Senior por um desconto na farmácia.

Seja com Bolsonaro, Moro, Doria ou Tebet, o que a direita tem a dizer nas próximas eleições presidenciais? O antipetismo é o que sobrou, com as lembranças do mensalão, petrolão e a crise econômica durante Dilma. Há o tema da segurança, mas muito mais local do que nacional – a esquerda simplesmente ignora o assunto e a direita tem trânsito livre, com policiais eleitos por todo o país.

Corrupção? Consegue imaginar Bolsonaro enfurecido em um debate tentando explicar as rachadinhas, os gastos do cartão corporativo, o orçamento secreto? A Lava Jato é capa de jornal velho ou de sua própria imprensa, boa de rede social, mas ruim de rua. Moro, se mantiver a candidatura, vai sofrer quando as campanhas de seus adversários oferecem ao grande público os detalhes de sua atuação como juiz e seu trabalho como “consultor” nos EUA.

Privatizações e responsabilidade fiscal são argumentos para os leitores da seção de Economia. Crescimento e emprego é o que todo mundo quer ouvir, mas todos os candidatos dirão o mesmo exatamente porque não têm nada a dizer.

Com a rejeição de Bolsonaro crescente, Moro empacado e Doria não ganhando nem para síndico em São Paulo, a desinformação das fake news se transformou na única arma da direita para as eleições deste ano.

O ciclo do PT se estabeleceu com um discurso de direitos sociais em contraposição aos governos FHC. O ciclo do bolsonarismo foi a voz do moralista anticorrupção. Esgotou-se em pouco tempo. Podemos viver o que a Espanha vivenciou por décadas. Direita e esquerda sem líderes ou discursos renovados, alternando-se no poder ao sabor de seus próprios fracassos econômicos.

Sob Bolsonaro, prevaricação é descuido cívico

Num esforço para imunizar Bolsonaro contra a desmoralização no caso Covaxin, o governo construiu no ano passado um enredo desconexo. O esforço revelou-se desnecessário.

A Polícia Federal chegou à inusitada conclusão de que o presidente da República não comete crime de prevaricação quando ignora uma denúncia de corrupção que lhe chega ao conhecimento.


O chefe da nação pode ser acusado, no máximo, de descumprir um "dever cívico", anotou o delegado federal William Tito Schuman Marinho no seu relatório final. Em pensar que o governo havia elaborado três versões para blindar Bolsonaro!

O presidente deu de ombros para uma denúncia. Foi levada à biblioteca do Alvorada pelo deputado bolsonarista Luis Miranda e o irmão dele, Luis Ricardo, que flagrou a tentativa de pagamento antecipado de US$ 45 milhões por uma vacina indiana mais cara do que as outras e jamais aprovada pela Anvisa.

Diante do escândalo, o então ministro palaciano Onyx Lorenzoni e o coronel Elcio Franco, número 2 da gestão do general Eduardo Pazuello na Saúde, desqualificaram os irmãos Miranda. Acusaram-nos de usar uma nota fiscal falsa. Não colou. O documento era autêntico.

Alegou-se, então, que Bolsonaro avisou Pazuello sobre os malfeitos. Fez isso às vésperas da saída do general do ministério da Saúde. Não convenceu. Informou-se na sequência que Pazuello encomendou providências ao seu braço direito Elcio Franco, que permaneceria por mais alguns dias na pasta.

Nessa versão, o coronel teria constatado, com a velocidade de um raio, que não havia irregularidades na compra das vacinas que custariam R$ 1,6 bilhão ao governo. Posteriormente, Marcelo Queiroga, o substituto de Pazuello anunciaria, por irregularidades insanáveis, a anulação do contrato. Esse balé de elefantes revelou-se um gasto inútil de criatividade e energia.

O inquérito policial foi remetido nesta segunda-feira à ministra Rosa Weber, do Supremo. Descerá também à mesa do procurador-geral Augusto Aras. O delegado William Marinho dispensou até o interrogatório do presidente. No final de um processo com mais de 2 mil páginas, anotou que não faz parte do "dever funcional" de Bolsonaro "comunicar eventuais irregularidades de que tenha tido conhecimento" aos órgãos de investigação como a Polícia Federal

Se prevalecer essa posição, ficará entendido que todo funcionário público tem o dever de agir quando souber de irregularidades, sob pena de prevaricar. Mas o presidente, servidor número um do país, pode ignorar os malfeitos ao redor. Não será acusado senão de desatenção com o seu "dever cívico".

Não é que o crime não compensa. A questão é que, quando compensa, é chamado de descuido cívico.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Vale a pena roubar no Brasil. Vale a pena roubar o Brasil

Como publicamos, em entrevista ao programa Canal Livre, da Rede Bandeirantes, Sergio Moro comentou a anulação das condenações de Lula e todo o desmonte das conquistas na luta contra a corrupção. Ele afirmou: “A grande verdade é que o recado que está sendo dado hoje em dia no Brasil, não estou dizendo pelo Supremo, mas pelo contexto, é ‘vale a pena roubar’, ‘o crime compensa’. Eu não concordo com isso.”

Sergio Moro pode não concordar, eu também discordo e imagino que você, leitor deste site, também fique contrariado com tudo a que estamos assistindo, mas a verdade mais evidente que pode ser dita sobre o país é que, sim, no Brasil vale a pena roubar. Mais do que valer a pena, o crime compensa, e como compensa. A realidade é incontornável. Pior: os desonestos são aplaudidos e invejados. Admirados, mesmo.


Boa parte dos logradouros públicos brasileiros tem nome de ladrão — seja ladrão político ou ladrão que comprou político. Todos devidamente homenageados. Tem ladrão de esquerda, tem ladrão de direita, tem ladrão de centro e tem ladrão de muito pelo contrário: roubam os cidadãos de tudo o que é lado, em raro espetáculo de democracia absoluta. Roubam no pequeno dinheiro das verbas de gabinete, nas emendas parlamentares e nos gigantescos contratos governamentais. A Lava Jato foi um ponto tão extraordinariamente fora da curva no caso brasileiro que chamou a atenção do mundo — e sofreu a reação em curso.

A ladroagem é tão explícita que ninguém mais enxerga a ladroagem. Veja-se, por exemplo, as mansões do Lago Sul, em Brasília. Quem com o teto de salário de político, juiz ou funcionário público pode ter uma casa daquelas? Ah, é que o sujeito já tinha patrimônio antes. Uma ova. São muito poucos os que eram ricos antes de se lambuzar com dinheiro público. Ah, mas o dinheiro é da mulher ou do marido, profissionais de sucesso, ou dos filhos, que se provaram gênios da raça. Vão à merda.

Um romano de 2 mil anos atrás, não lembro o nome, disse: “Nenhum homem de bem se torna rico de repente”. O problema não é ser rico, é a locução adverbial. Há muitos “ricos de repente” no Brasil, e não só no meio político. Uma penca de malandros da iniciativa vaso sanitário, também conhecida como privada, aprendeu a fazer ótimos negócios em Brasília e adjacências estaduais ou municipais. Além de abrigar advogados especializados em embargos auriculares, esse ecossistema conta com gafanhotos conhecidos como consultores ou mediadores de crises, cuja tarefa consiste em tirar ladrão dos holofotes da imprensa. Outra chusma especula no mercado financeiro em cima da desgraça alheia. Somos o país da locupletação adverbial.

Sim, vale a pena roubar no Brasil, sempre valeu. Sim, o crime compensa no Brasil, sempre compensou. Mas tudo bem: depois eles, do esgoto público ou da iniciativa vaso sanitário, devolvem uma parte ínfima do que embolsaram, aprovando esmolas assistenciais, promovendo circos para o povo ou patrocinando ações caritativas com o dinheiro do pagador de impostos que surrupiaram. O quadro é emoldurado por aqueles que choram lágrimas de crocodilo em vídeos na internet ou passeiam de helicóptero para ver pobre se ferrando em enchentes que não são desastres naturais, mas desastres de desumanidade em cidades precárias e horrendas. Ah, mas nos Estados Unidos também havia os robber barons, é uma etapa necessária. Vão à merda.

Eu os mando à merda, mas a merda é nossa. Vale a pena roubar no Brasil. Vale a pena roubar o Brasil.

A arma da ofensa e a arte da retórica

Caso inédito: Bolsonaro é líder da oposição ao próprio governo. Gerou recorrentes crises políticas e desafiou a contradição insuperável de ser e não ser ao mesmo tempo. Inicia o último ano do mandato com a gestão desaprovada pela maioria dos brasileiros. Faz do confronto estratégia política. Disseminou socialmente o ódio e abriu caminho para completar sua obra-prima que é eliminar as possibilidades eleitorais do centro político.

O clima de animosidade, o inverso do debate civilizado e fecundo, descamba para ofensas pessoais, insinuações e rótulos injuriosos: corrupto, ladrão, quadrilha, canalha, racista, homofóbico, assassino em série, comunista, fascistas e por aí vai.


Não é à toa que a obra de Schopenhauer “Como vencer um debate sem precisar ter razão”, no trigésimo oitavo e último estratagema, recomenda “o uso de ofensas pessoais”. É a chamada dialética erística. A introdução, notas e comentários são de autoria de Olavo de Carvalho.

Impaciente e constrangido com o uso impróprio da linguagem e a profanação do discurso político, busquei um refúgio. Por sorte, tive momentos de alívio e prazer, com a leitura da preciosa obra de Ruy Castro, "As vozes da metrópole – uma antologia do Rio dos anos 20" (Companhia das Letras).

A pergunta é: o que tem isso a ver com a proposta inicial do artigo? Contrapor a elaboração aristotélica da arte da retórica à estupidez. O autor, declarado crítico do modernismo, com base em pesquisa gigantesca, demonstra que o Rio sempre foi moderno e resgata 41 autores, muitos, fora de circulação e moda.


Deles, reproduz crônicas, ficção, poesia, frases e provocações, nem sempre sutis, porém bem construídas. E o mais importante: versavam sobre temas ainda hoje em pauta.

“A burrice é contagiosa. O talento, não”. “Persisto em andar pelas ruas do Rio. A rua é a melhor das bibliotecas”. “Lendo Dostoiévski descobrimos a jaula horrível que cada um trás dentro de si” (Agrippino Grieco), crítico temível pela estocada das provocações a exemplo da frase cruel sobre os livros do integralista Gustavo Barroso: “Dignos de serem encadernados na pele do próprio autor”.

“Não acredito em dragões. Hoje, São Jorge mataria, por exemplo, um automóvel” (Jayme Ovalle).

“Quem derruba uma árvore mata a nossa irmãzinha de tranças” (Gilberto Amado).

“Esqueci o berço. Não esqueci o colo”. “Que mau gosto, odiar. Que beleza, querer bem!” (Álvaro Moreyra).

Brasil sem presidência

 


Bolsonaro e seus acólitos estúpidos destroem saúde pública impunemente

A Justiça precisa punir os criminosos que atentam contra a saúde pública. Se continuar de braços cruzados, tem que explicar para a sociedade por que razão não o faz.

No último fim de semana fui convidado a participar de um abaixo-assinado redigido por professores da USP, em repúdio a um documento do Ministério da Saúde que teve o descaramento de insistir na farsa da eficácia da hidroxicloroquina, característica que faltaria às vacinas, segundo eles.

Assinei, claro, como o fizeram 45 mil colegas nas primeiras 24 horas.

Apesar da adesão em massa, estou certo de que será mais uma ação incapaz de alterar o rumo das políticas adotadas por um ministério desmoralizado, comandado por um lambe-botas incompetente, com credibilidade abaixo de zero, que envergonha a nossa profissão sob o olhar subserviente do Conselho Federal de Medicina.


Há um ano, jornalistas, médicos e cientistas aparecem nos meios de comunicação de massa para repetir à exaustão que as vacinas são seguras e protegem contra as formas graves da doença, afirmações defendidas por todas as sociedades médicas. Não conheço um único médico com um mínimo de formação científica que conteste a necessidade de vacinarmos a população; os que atacam as vacinas na internet ou no governo são ignorantes, curtos de inteligência ou mal intencionados, não há quarta alternativa.

Em contraposição, o ministro e seus auxiliares encarregados do trabalho sujo fazem o possível para desacreditar a vacinação e semear dúvidas sobre a segurança das preparações aprovadas pela Anvisa, uma das agências mais respeitadas do mundo.

O empenho em confundir o povo é tão grande que o ministro da Saúde, acompanhado da ministra que teve o privilégio de receber Jesus no alto de uma goiabeira, viajaram para Lençóis Paulista decididos a explorar o caso de uma menina que teve parada cardíaca horas depois de receber a vacina.

A ministra se apressou a divulgar a “suspeita” pelo Twitter, sem mencionar que o laudo médico já havia concluído que o episódio não guardava relação com a vacina. Na mesma plataforma, o ministro curtiu a mensagem da colega.

Para completar o show de horrores e de oportunismo rasteiro, o próprio presidente da República se deu ao trabalho de telefonar para os familiares da criança, em contraste com o desprezo às 623 mil famílias brasileiras que perderam entes queridos na pandemia.

Enquanto na Inglaterra o primeiro-ministro pode cair por causa de uma festinha que contrariou as recomendações oficiais de isolamento social, no Brasil, o presidente, o ministro da Saúde e seus acólitos escolhidos a dedo nas catacumbas da estupidez humana conspiram contra a saúde pública sem que nada lhes aconteça.

Essa pandemia é mais prolongada do que esperávamos. A variante ômicron se dissemina numa velocidade impressionante. Em mais de 50 anos de medicina nunca vi virose tão contagiosa. Os mais velhos diziam que a varíola era assim, mas não cheguei a ver porque a vacinação varreu o vírus da face da Terra.

Não podemos nos iludir, essa variante não vai nos imunizar coletivamente. Tenho vários pacientes que tiveram Covid, receberam as três doses da vacina e adoeceram outra vez nas últimas semanas, embora com sintomatologia discreta.

Se a doença provocada pelas variantes anteriores não produziu níveis de anticorpos suficientes para evitar a infecção pela ômicron, que certeza pode haver de que não emergirá uma nova cepa capaz de driblar a imunidade induzida por ela? O SARS-CoV-2 permanecerá entre nós.

Quanto mais contagiosa for a variante e mais pessoas não vacinadas disseminarem o vírus, mais tempo ele terá para sofrer novas mutações.

Enfrentar epidemia de tal complexidade exige especialistas competentes, coordenação centralizada, serviços de saúde organizados e políticos conscientes de suas responsabilidades, para convencer a população de que todos devem se vacinar e tomar os demais cuidados para reduzir ao máximo a transmissão.

Admitir que autoridades inescrupulosas se dediquem a fazer exatamente o oposto, pondo em risco a saúde e a vida de todos impunemente, é um péssimo exemplo para lidar com esta e com as futuras epidemias. A Justiça não tem o direito de se omitir, precisa deixar claro para as próximas gerações que crimes contra a saúde pública devem ser punidos com rigor em nosso país.

Apodrecimento político

A tessitura política brasileira tem hoje laços tênues com a arte de governar. Instalouse um desgoverno, voltado apenas para a reeleição do atual titular e para a defesa dos grupos encastelados no Poder. Os privilégios dos mais diferentes tipos são mantidos e, mesmo, fortalecidos, enquanto o País padece do desemprego, da ausência de expectativas, da baixa renda e da miséria visível nas ruas. A narrativa presidencial e governamental, procurando velar o que acontece, se compadece na criação de fatos midiáticos, quando não fantasiosos, de modo que a discussão se faça dentro de uma bolha artificialmente criada e propagandeada pelas redes sociais “amigas”.

Vacinas e campanhas de vacinação não deveriam, a rigor, ser objeto de discussão, salvo evidentemente as científicas, segundo seus critérios e protocolos. Aliás, o ambiente da sociedade é particularmente propício para que isto aconteça, visto que há adesão maciça da população à vacina, apesar de todas as tentativas governamentais para desacreditá-la. Vacinar não é um problema, salvo para pessoas em postos de comando que tergiversam sobre tudo, inclusive sobre a verdade. Mentiras ganham corpo no espaço público, produzindo o estilhaçamento do bem coletivo. O presidente empenha-se contra a vacinação de crianças, chegando inclusive a dizer que crianças não morreram devido à covid, quando os números oficiais remontam a mais de 300, uma enormidade. Isto é insano!


O ministro da Saúde, obediente, não segue os critérios da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), empenhando-se em criar audiências públicas inúteis para retardar esse processo. Seu ministério chega a divulgar documento declarando que a vacina não está cientificamente comprovada, enquanto a hidroxicloroquina teria passado por todos os testes, como se fosse comprovadamente eficaz no combate a essa doença. É melhor dizer com todas as letras: trata-se de um crime contra a saúde pública, que deveria ser devidamente julgado. Um ministro médico não honra o seu título. Ciência e saúde não podem ser objeto de politicagem.

A aprovação do Orçamento da União é mais uma amostra do apodrecimento da política. Preliminarmente, em sua elaboração, houve o calote dos precatórios para supostamente haver atendimento de necessidades sociais, sobretudo em tempos de pandemia. O que se viu, no entanto? A abertura de espaço orçamentário para novas emendas parlamentares, o tal do orçamento secreto que, de tão sigiloso, não pode nem ser visto pela sociedade e pelos órgãos de controle. Bilhões faltam para a saúde e a educação, mas os parlamentares amigos têm todos os seus apetites saciados. Chegam a babar de tão satisfeitos, enquanto imensa parte da população vive de migalhas. Claro, nem poderia faltar o atendimento de interesses corporativos caros ao presidente, como os policiais federais, aos quais aumento de salários foi prometido. Condizente com tal postura, novas categorias da elite do funcionalismo pedem isonomicamente o mesmo tratamento, deixando ao léu os estratos inferiores. O País vive no teatro do horror.

A tradução de uma política capenga é sua progressiva judicialização. Ou seja, como o governo e autores e partidos políticos não conseguem negociar entre si, incapazes que são de equacionarem os seus próprios problemas e, ainda pior, os do País, recorrem incessantemente às instâncias jurídicas, em particular ao Supremo. Na verdade, o Supremo Tribunal Federal (STF) foi politizado pelos próprios políticos. Resultado: os ministros tomaram gosto de ser provocados, passando a se manifestar sobre qualquer assunto, muitos deles agindo nos bastidores, externando suas preferências partidárias e atuando publicamente como se políticos fossem. O círculo tornou-se propriamente vicioso. De última instância constitucional, o STF veio a ser uma espécie de outra instância da luta política. Discute-se quem será um novo ministro, não em virtude de sua competência, de sua probidade, de seu saber, mas em função de a quais interesses estaria disposto a atender. E tudo isto em conivência com o Senado, que se mostra incapaz de atuar conforme a sua missão.

Talvez um dos piores legados do atual governo seja este empobrecimento da política, a sua completa evacuação das noções de bem coletivo, de equacionamento de conflitos, de colocação dos verdadeiros problemas do País. Tudo é motivo de tergiversação, de criação de bolhas digitais, de invenção de falsos problemas. A articulação política tornou-se meramente uma negociação de cargos, emendas e outras coisinhas mais. Se isto ainda se fizesse visando à aprovação de projetos importantes para o País, seria uma contribuição que o vício pagaria à virtude. Mas não! Servem apenas para projetos eleitorais, tendo como único mote a manutenção do status quo, com a garantia de que nada mude. Ministros se honra tivessem já deveriam ter abandonado os seus cargos, como alguns fizeram, dando o exemplo de que as coisas podem ser diferentes, sempre e quando haja vontade de mudar.

Dias piores virão

Depois de três anos sob a presidência de Jair Bolsonaro, há apenas uma certeza: tudo sempre pode piorar. Agora, não apenas ele, que abriu a campanha pela reeleição no dia da posse, mas também seus auxiliares aumentam o tom das imbecilidades. Buscam consolidar candidaturas regionais patrocinando um campeonato de sandices que seria até risível, não fosse nefasto, abominável, acintoso.

Embora não sejam as únicas, as principais estrelas desse show de horrores têm sido os ministros da Saúde, Marcelo Queiroga, que deseja ser candidato na Paraíba, seu estado natal, Ciro Nogueira, o novo dono do cofre, Damares Alves, candidata ao Senado, e o até então bem comportado João Roma, pretendente ao governo da Bahia.

Quase imbatível no capachismo ao chefe e atrás de votos da base radical do presidente, o médico Queiroga há muito rasgou o juramento que fez, tornando-se protagonista de disparates em série.

Da consulta pública sobre vacinação infantil – como se o uso de um imunizante fosse papo de botequim e pudesse ser decidido por leigos -, ao aval à inominável nota técnica pró-hidroxicloroquina e anti-vacina editada por seu Ministério, Queiroga passou a ser comemorado pela turma bolsonarista. É patético vê-lo defender a vacinação e a testagem em massa em entrevistas e, ao mesmo tempo, boicotar ambos.

Parceiro da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos na funesta visita a um hospital de Botucatu, Queiroga também pareceu torcer para que a parada cardíaca de uma menina de 10 anos fosse reação à vacina. Especialmente no estado de São Paulo, terra de João Doria, que tinha recém aprovado o uso emergencial da CoronaVac para o público entre 5 e 11 anos.

O mal não foi causado pela vacina. Mas nem Queiroga nem Damares, que usou o Twitter para alertar sobre os “perigos do imunizante infantil”, se desculparam ao saber que a criança sofria de uma síndrome rara. Muito menos Bolsonaro, que chegou a telefonar para os pais da menina. Uma tremenda mobilização para um governo que se notabilizou pelo desdém diante das centenas de milhares de famílias atingidas pela pandemia.

Ao contrário. Damares, que Bolsonaro gostaria de ver candidata ao Senado por São Paulo, mas que provavelmente vai tentar uma vaga de menor risco no Amapá, intensificou sua cruzada antivax.

Na semana passada, publicou uma portaria em que “instrui” os pais e responsáveis de que a vacina infantil contra a Covid seria facultativa, não inclusa entre os imunizantes obrigatórios para as crianças. A partir desse entendimento, considerou ser uma afronta aos direitos de ir e vir a exigência de comprovante de vacinação. E abriu o canal Disque 100, dedicado às denúncias contra direitos humanos, para os não vacinados que se considerem discriminados.

Isso no momento de explosão da variante Ômicron, no qual os não vacinados respondem por mais de 80% das internações – em alguns casos, 90%, como no Distrito Federal – em um sistema de saúde esgotado, engordando as estatísticas de mortalidade. Pior: deliberadamente atrasando o fim da pandemia que já matou mais de 625 mil brasileiros.

As ofensivas de Ciro e de Roma são mais elaboradas. O ministro-chefe da Casa Civil, que já foi Lula de carteirinha e agora é bolsonarista desde criancinha, tem mandato de senador até 2027. Não é candidato, mas tem deixado claro que é o manda-chuva do governo. Não por outro motivo, se diz para-raio do fragilizado Paulo Guedes, ex-super ministro da Economia. Divide e reparte o bolo e, como diz o ditado, deve ficar com a maior parte. Todos os candidatos governistas estão nas mãos dele.

Roma tem posto as manguinhas de fora com vagar. Sua pasta, a Cidadania, arrebanhou um orçamento invejável e é a responsável pelos programas sociais do governo. Nada mal para quem pretende disputar o cobiçado governo da Bahia.

Discreto e com cara de bom moço, aprendeu os modos com ACM Neto, de quem foi chefe de gabinete na Prefeitura de Salvador. Na sexta-feira, estreou em rede de rádio e TV como bom bolsonarista, mentindo já no primeiro parágrafo de seus quase 6 minutos de fala. Disse que o Auxílio Brasil é o “maior programa permanente de transferência de renda do país”, quando se sabe que o pagamento de R$ 400 ao mês para os elegíveis do Bolsa Família só vale para este ano. Deu-se a partir da PEC do calote nos precatórios, e não tem receita para ser “permanente”. No mínimo, Roma incorreu em propaganda enganosa, com o triplo agravante de ser publicidade eleitoral custeada pelo pagador de impostos, antecipada e falsa.

Neste ano de eleições, tudo tende a piorar. Bolsonaro e os seus vão continuar demolindo o que existe, desafiando as instituições e testando todos os limites para destruir um pouco mais. Trata-se de um método. Só a resistência nos meses que faltam e as urnas podem clarear tempos tão sombrios.