segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

O perigo das teorias da conspiração

Para Hélio Angotti Neto, secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, a prova de que as vacinas contra a Covid não funcionam está no fato de que elas são recomendadas por entidades médicas e de que a indústria farmacêutica financia estudos a respeito de sua eficácia.

Com a hidroxicloroquina, acontece o contrário: como especialistas negam a sua eficácia e os testes sobre ela não são “predominantemente financiados pela indústria”, Angotti Neto a considera o remédio realmente útil para combater a pandemia.

Minha proposta neste post é levar Angotti Neto a sério.

Calma. Não são as declarações do médico olavista sobre vacinas e o “kit covid” que eu proponho levar a sério, mas apenas a possibilidade de que ele acredite de verdade no que está dizendo: que laboratórios e instituições científicas do mundo todo estão mentindo para os 8 bilhões de habitantes da Terra, com a finalidade de ganhar dinheiro, ou até mesmo realizar um plano ainda mais sinistro…

Dando crédito a Angotti Neto nesse sentido específico, entramos no mundo lisérgico das teorias da conspiração, onde parecem viver, em desassossego perpétuo, grandes fatias do bolsonarismo.

Alguém vai perguntar: para que fazer isso? A razão é simples, segundo um dos mais conhecidos estudiosos da “mente conspiratória”, o filósofo inglês Quassim Cassam, da Universidade de Warwick: teorias da conspiração se tornaram perigosas.


Pode até ter existido um tempo em que elas não passavam de maluquices sem consequências, mas episódios como a invasão do Capitólio por adeptos da seita Q-Anon e o falatório do movimento antivacina em meio à pandemia mostram que não é mais assim.

Além de perigosas, teorias da conspiração não podem ser combatidas apenas com informação técnica. Não adianta tirar do bolso o melhor estudo de todos os tempos para embasar um argumento, se o seu interlocutor acha que os autores do estudo são desonestos e têm objetivos malignos.

Sim, gente que pensa desse jeito existe mesmo. Em 2014, pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, ouviram americanos a respeito de suas percepções sobre o trabalho científico. O resultado mostrou que as pessoas que mais rejeitam os consensos da ciência sobre temas como vacinas ou aquecimento global não são aquelas que têm menos informação sobre esses assuntos, mas as que desconfiam dos cientistas e acreditam que há motivações secretas por trás do seu trabalho.

Uma das linhas de estudo sobre o pensamento conspiratório vai em busca das causas psicológicas e cognitivas que fazem uma pessoa olhar o mundo desse jeito. Cassam contribui com essas investigações, especialmente as que dizem respeito aos “vícios intelectuais”.

Ele afirma que há um padrão de pensamento comum na origem de todas as teorias da conspiração. Esse padrão tem cinco elementos: ele é pré-moderno (“há um punhado de pessoas que controla o mundo”), esotérico (“há causas inimagináveis por trás de tudo”), especulativo (baseado em conjecturas e não em conhecimento), amadorístico (não se importa com as fontes da informação), e “do contra” (“se é óbvio, não pode ser verdade”).

Mas, em “Conspiracy Theories” (2021), Cassam apresenta uma sexta característica das teorias da conspiração, que ele considera fundamental: elas sempre têm um objetivo ideológico.

“O fato de uma pessoa acreditar sinceramente em teorias da conspiração não é incompatível com o fato de aquilo ser propaganda”, diz o autor. “A função real da teoria é promover uma agenda política.” Segundo pesquisas citadas no livro, essa agenda em geral é extremista.

Nada disso deve surpreender um leitor brasileiro. São explicações estruturadas de coisas que já ficaram claras intuitivamente, depois de três anos de bolsonarismo.

Tendo em vista o conjunto de traços do conspiracionismo, Cassam menciona três armas que precisam ser usadas em conjunto para combatê-lo. A primeira é a educação. Eliminar os vícios intelectuais que tornam as pessoas mais inclinadas ao conspiracionismo deve ser uma das tarefas do ensino.

As outras duas armas são para uso em discussões concretas. É preciso ser obstinado e refutar cada informação errada divulgada pelos teóricos da conspiração, pois isso evita que os erros se propaguem. Além disso, é preciso questionar, sempre, o pensamento político e os propósitos de um conspiracionista.

“A batalha contra as teorias da conspiração não acaba nunca”, diz Cassam.

Pois é. As loucuras do bolsonarismo terão de ser refutadas e denunciadas até o final de seu mandato.

E depois talvez venham outras, sobre as artimanhas do imperialismo, ou sobre como os Estados Unidos usaram a Lava Jato para derrubar um governo de esquerda.

Se for assim, a batalha continua. Esperemos que não.

Um quase Brasil

Em uma foto que viralizou, Tawy Zo’é, um jovem indígena, carrega nas costas Wahu Zo’é, seu pai. O médico Erik Jennings, sob o impacto da imagem, tratou de registrá-la sem saber ainda que o filho carregara o pai durante uma caminhada, floresta adentro, de seis horas. O motivo de tamanho sacrifício? Vacinar o idoso contra a Covid-19. O fato ocorreu no norte do Pará, onde vive a etnia Zo’é, que, segundo o médico, não teve nenhum dos seus infectado pelo vírus.


Em seu livro mais recente, “As doenças do Brasil” (Biblioteca Azul), o português Valter Hugo Mãe narra uma história que se passa em um território indígena à época em que os portugueses começaram a explorar o interior. A grande sacada de Mãe é a de promover a aliança entre um indígena mestiço (mãe indígena estuprada por um branco), de nome Honra, e um negro, o Meio da Noite. Até se chegar ao pacto que levará os dois a lutarem contra os brancos em defesa dos “abaeté”, muitas arestas são aparadas: Honra tem de se sentir indígena, perder a culpa de ser também branco; Meio da Noite, que havia sido capturado e poupado da morte, tem de ser reconhecido como humano pelos indígenas. Além disso, um deve confiar no outro, uma dificuldade quando a língua que serve aos dois não é a de nenhum deles, mas a do homem branco. No romance, a linguagem é radical (me faz pensar em Guimarães Rosa), e serve ao propósito de Mãe escrever a partir dos valores e modos de ver o mundo dos autóctones. Assim, diálogos entre eles e os rios ou os animais é uma coisa dada, natural, não é magia, nada disso. Leio o livro como se ele viesse nos dizer que, se respeitados os habitantes originais ou se indígenas e negros houvessem se aliado desde sempre, o Brasil seria outro. Talvez o mundo fosse outro.

Havia lido, antes de Mãe, “Viva o povo brasileiro” (Nova Fronteira), de João Ubaldo Ribeiro. Ora com ironia, ora em delírio, sempre com senso estético apurado, Ribeiro pincela caminhos que poderiam dar em um Brasil diferente do que temos. Pessimista, ele deixa claro que o que vinga em nossa história é um país cujo futuro é o paredão da rua sem saída. O livro foi lançado na década de 1980, ainda na ditadura, momento que justificava o pessimismo. Mas a abertura já acontecia, algum lume de otimismo estava aceso, o que não foi suficiente para o livro ser alegre, apesar de divertido (sabemos rir de nossas mazelas). De todo modo, se, com suas revoltas, os negros houvessem forjado mudanças de fato, se lideranças femininas multiplicassem-se história afora, se tivéssemos respeitado as religiões de matriz africana, se os dissidentes brancos — ou seja, aqueles que entendem que desfrutam de privilégios inimagináveis e estão dispostos a abrir mão deles — fossem em número, o Brasil agônico não teria triunfado.

Assisti aos cinco episódios de “O canto livre de Nara Leão” (Globoplay), de Renato Terra. Com seus 13, 14 anos, Nara se enturmou com uma moçada de Copacabana que tinha talento especial para a música. Foram eles que, na casa da futura cantora, “inventaram” a bossa nova. Quando seu namorado Ronaldo Bôscoli a trocou por Maysa, Nara abandonou a turma e voltou os olhos para o samba. Ela conta então que, aos 15 anos, descobriu que havia favela, pobre e fome no Brasil, começando assim a sua conscientização política. De voz mansa, mas assertiva, Nara não deixou de se posicionar. Quando em entrevista disse que o exército (já no poder) não servia para nada — ela já estava na mira por protagonizar, com Zé Keti e João do Vale, o espetáculo “Opinião” —, passou a ser perseguida. Então casada com Cacá Diegues, mudou-se para a França. Na volta, aproximou-se da turma do Ceará que chegava ao Rio no começo da década de 1970 e, em seu disco “… e que tudo mais vá pro inferno”, gravou Roberto e Erasmo, o que irritou antigos parceiros, como Dori Caymmi e Edu Lobo. A diversidade e a independência a ajudaram a construir uma carreira sólida, de qualidade e curta (Nara morreu aos 47 anos, em 1989). O documentário joga luz num momento terrível, a ditadura, e mostra como sempre houve, da parte dos artistas, resistência. Nara foi uma liderança entre os que resistiram.

O indígena carregando o pai horas a fio para se vacinar é fiapo de um Brasil potente. Os livros de Mãe e Ubaldo, a vida de Nara (e o documentário de Terra) estão cheios de outros fiapos de potência.

Mas o Brasil não existe, o que existe é um quase Brasil.
Alexandre Brandão

As fake news que alimentam o racismo

Não é de hoje que fake news invadem nosso cotidiano.

No início, elas pareciam ser mais uma brincadeira de mau gosto, fanfarronices da famosa "galera do fundão", que viam nessas notícias falsas uma forma de "descontração". Entretanto, rapidamente as fake news revelaram sua verdadeira face: uma forma espúria e perigosa de fazer política, usada a serviço de um projeto de sociedade muito bem delineado.

Em meio a notícias falsas, eleições foram definidas, e a ciência passou a ser abertamente confrontada por uma enxurrada de mentiras, que repetidas, compartilhadas e retuitadas à exaustão se tornaram verdades para um número significativo de pessoas.


Tudo isso misturado à onda egoico-narcisista potencializada pelas redes sociais, que permite que indivíduos transformem suas opiniões (muitas vezes infundadas) em verdades incontestáveis. "O que eu penso, o que eu acho" tem valido mais do que séculos de conhecimento acumulado. Uma dinâmica perigosa, que coloca à prova a vida coletiva.

Terraplanistas de plantão – que, é preciso dizer, sempre existiram – tiveram suas vozes amplificadas, disputando com astrônomos e astrofísicos qual seria o verdadeiro formato do planeta Terra. O movimento antivacina cresceu de maneira assombrosa, justamente quando a humanidade foi sangrada por uma pandemia que parece não ter fim – e mesmo com vacinas eficientes disponíveis para boa parte da população.

Mas não são apenas as chamadas ciências duras que estão sendo injuriadas pelas fake news. Dinâmicas sociais, relações de poder e fatos históricos também entraram nesse balaio das notícias que são falsas e propositadamente mentirosas. E, como era de se esperar de um país formado pela desigualdade e exclusão racial, no Brasil, o racismo também se tornou um desses temas passíveis de terem sua existência questionada. Além de comprovar que a Terra é redonda e defender o "Zé Gotinha", por essas bandas também se tornou necessário vociferar que a escravidão existiu e foi profundamente violenta e que não, não existe racismo reverso.

É profundamente cansativo ter que lidar com essa dinâmica negacionista. E o cansaço não se dá pela suposta falta de informação daqueles que propagam as fake news. Não estamos numa cruzada educativa, combatendo a ignorância gestada por décadas. Estamos tendo que nos posicionar e confrontar um projeto político que se aproveita da desinformação de muitos para perpetuar uma sociedade cada vez mais desigual. Um país que precisa voltar a combater a fome e o medo dela. Que precisa repensar e viabilizar a vida dos jovens, ao mesmo tempo que deve assegurar a dignidade dos aposentados. Um país que precisa parar de destruir suas florestas e rios, caso queria continuar a existir num futuro próximo. Um país que continua matando a torto e a direito a sua população negra e mestiça, nessa política de morte abertamente instaurada.

Nesta semana, dois episódios ganharam significativa repercussão. O primeiro deles foi um artigo sem nenhum tipo de fundamentação científica, que defendia que negros podiam sim ser racistas contra brancos, validando a existência do racismo reverso. O outro foi uma fala infeliz de uma "nova celebridade" de reality show argumentando que a escravização de africanos nas Américas se deveu à sua maior eficiência, que por sua vez, era consequência da maior força física das populações negras que viviam na África.

Não me interessa tanto discutir as autorias dessas falas, que foram muito bem criticadas ao longo da semana. Mas sim chamar a atenção para o fato de ambas terem sido divulgadas em dois dos maiores veículos de comunicação do país, que, em tese, se apresentam como apoiadores da luta antirracista e combatentes das fake news. Qual é o ganho em propagar em rede nacional ideias e premissas falsas sobre a lógica do racismo e a justificação da escravização de africanos?

Muitos diriam que esse tipo de artigo e de fala geram polêmica, o que significa lucro para os dois veículos. E tais pessoas estão cobertas de razão. Mas é preciso ir além. Porque essa polêmica sempre tem endereço certo: a desqualificação dos movimentos negros e a diminuição do peso estrutural do racismo. Há uma liberdade outorgada em desqualificar a luta antirracista sob o manto de um debate democrático que nunca existiu.

Fake news sustentam o ideal de mundo ultraconservador, que dentre outras coisas, alimenta a estrutura racista que há tanto nos ordena. Propagá-las, sob qualquer pretexto, é abraçar uma terra plana, na qual a humanidade continua sendo enxergada de forma desigual e hierarquizada.

O marketing é um retrocesso para a espécie e deveria parar de mentir

Se uma propaganda vende pra você um carro e faz você sentir que, comprando este carro, pode ir a uma cachoeira de difícil acesso —no caso de um carro ter tração nas quatro rodas—, ela não está mentindo. Mas se um comercial de banking diz que se você abrir uma conta no banco X, você será o tipo de jovem que deixará “sua marca no mundo”, ele está mentindo.

Qual a diferença entre um comercial e outro? Por que um deles mente e o outro não? A diferença está no alcance da promessa. Alcançar cachoeiras difíceis é algo de pequeno impacto na percepção que alguém tem de si mesmo, da sua vida, da sua personalidade e das suas expectativas.

Quando dizemos a um jovem que ele, comprando um produto X, deixará uma marca no mundo, estamos mentindo sobre seu futuro: quase zero por cento da humanidade deixa alguma marca no mundo —algumas delas péssimas—, ao passo que embutir essa expectativa como estilo de vida tem um custo altíssimo em termos do cotidiano que alguém vive.

Parte da pré-história e da história da nossa espécie foi gasta num esforço descomunal para fazermos a diferença entre realidade e fantasia, por motivos, principalmente, de sobrevivência. Mas essa questão da sobrevivência nos escapa da consciência hoje.

Pavel Constantin 

Por exemplo, nossos ancestrais, idênticos a nós, passaram quase o tempo todo de suas vidas com fome e hoje as maiores frescuras do mundo se relacionam a comida. Só a fartura sustenta a frescura com alimentação.

Quando o mundo faz a guinada que está fazendo, e o marketing assume a liderança das narrativas, assumimos que existem em nós super-heróis, mitos, deuses e deusas, demônios e efeitos sobrenaturais, o que, evidentemente, não existe. Brincamos com danos psicológicos e sociais empacotados ​pra presente.

O marketing é um retrocesso cognitivo na evolução da espécie. O Homo sapiens sem uma cognição aguçada é como um pássaro com a asa quebrada.

No momento em que o marketing se fez disciplina existencial, passando a vender estilos de vida, identidades sexuais e outras, valores morais, projetos políticos —aqui a mentira é facilmente detectada para quem tem olhos pra ver— e significados para a vida, ele passou a se constituir numa percepção de realidade de alto risco, estragando a capacidade de fazermos a diferença entre fato e ficção. É como se o mundo fosse um eterno Carnaval em que a Quarta-Feira de Cinzas nunca chega.

O capitalismo avançado apenas quer vender. Tendo saturado as sociedades ricas de produtos materiais, ele passa a vender produtos imateriais, e, com esse passo, ele opera uma ruptura metafísica, digamos, em que optamos por viver num mundo em que nós mesmos somos mera ficção — a melhor ficção possível, claro, mas nem por isso, menos irreal.

Todas as realidades psíquicas passam pelo crivo da fantasia e saem do outro lado como a “melhor versão de mim mesmo”. Mentira. Posso me reinventar. Mentira. Deixarei minha marca no mundo. Mentira. A prosperidade é uma questão de assertividade. Mentira: a esmagadora maioria foi, é e continuará sendo pobre.

A maior chance é que você envelhecerá só e que terá tido uma vida absolutamente irrelevante, se a sociologia estiver certa. O arquétipo da mentira aqui é que você seja uma pessoa diferente, especial, única. Mentira. Você é apenas banal. Esse arquétipo tem a parceria dos pais, que são os primeiros a comprar o marketing de “deixar uma marca no mundo”.

Muitos profissionais da área não têm a mínima ideia de tudo isso porque a formação é muito fraca. Munidos de teorias psicológicas miseravelmente comportamentais, reforçam apenas os mecanismos fantasiosos na relação com a realidade e com nós mesmos. Com a entrada do digital, o processo eleva sua agressividade mitológica ao nível da vida privada como mercadoria e do sujeito como commodity.

Por outro lado, o marketing poderia ser de fato “disruptivo” e elevar o nível da reflexão, como alguns profissionais têm tentado, e parar de mentir. Muitos adultos estão ávidos por pessoas que mintam menos para eles. Estão cansados de serem tratados como retardados mentais.

domingo, 23 de janeiro de 2022

A Covid e os bilionários

Foi o próprio Fórum Econômico Mundial que alertou: a cada 26 horas o mundo ganha um novo bilionário e a cada quatro segundos morre uma pessoa por conta da desigualdade, Choca, mas não surpreende. O capitalismo mostrou todas as suas garras desde o começo da pandemia. As estatísticas são terríveis e reveladoras. Mais de 17 milhões de pessoas morreram, isso contando por baixo e os 2755 bilionários do mundo viram sua fortuna crescer durante a pandemia mais do que nos últimos 14 anos.

Isso nos dá ideia de como interessa a certos grupos mais selvagens a continuidade da pandemia. Ser contra as máscaras e a vacina passa a fazer sentido diante desses números. Segundo levantamento do jornal o Globo, a ONG Oxfam calculou que a fortuna dos 10 mais ricos do mundo dobrou de 700 bilhões de dólares para 1,5 trilhão, 99% da população teve perda de renda, 160 milhões de pessoas foram empurradas para a pobreza e o Brasil ganhou 10 bilionários enquanto a fome aumentou a níveis de 17 anos atrás. Foi neste período que começou a ser combatida com o Bolsa Família, agora extinto e o governo Lula conseguiu tirar o país do mapa da fome.


Os bens de luxo voltaram a ser disputados por esses mais ricos e os ossos pelos mais pobres. Vivemos uma situação em que a miséria não causa mais nenhum efeito naqueles que se aproveitam justamente dessa desigualdade vergonhosa para ficarem mais ricos. Só há uma solução para essa discrepância e até mesmo as organizações internacionais como a Oxfam sugerem taxar as grandes fortunas, agora com a pandemia, ainda maiores. A mesma pesquisa diz que se os dez homens mais ricos do mundo perdessem 99,99% da sua riqueza, continuariam mais ricos que 99% da população. Não dá nem para calcular esses números à luz do humanismo, mas é verdade.

Além de ser uma opção política, a taxação das grandes fortunas, e mais a instituição da renda básica do ex-senador Eduardo Suplicy, passam a ser determinantes para a mudança desse quadro e passa a ser determinante também a mudança de orientação, começando aqui pelo Brasil, dessa política.

É uma tarefa longa, mas se continuarmos andando para trás como vem acontecendo vai ficar cada dia mais difícil. Acabar com a pandemia ou transformá-la numa endemia é a tarefa inicial, mas deve vir acompanhada de uma transformação política e econômica. Mais pandemias virão e é fundamental estarmos preparados, pelos menos com menos desigualdade, para enfrentarmos novamente essa seleção nada natural da vida. As eleições estão aí para concretizar essa mudança.

Ficamos nós

Já se passaram 75 anos desde que W.H.Auden escreveu o ambicioso poema “A era da ansiedade”, obra com dimensão de livro (200 e tantas páginas, dependendo da edição) que lhe rendeu o que talvez seja, até hoje, o Prêmio Pulitzer mais citado e menos lido da história. A obra em seis partes transcorre num bar nova-iorquino onde quatro desconhecidos discorrem sobre a vida, suas tormentas, perdas e sonhos. Descrito assim, soa a leitura fácil. Na verdade, excetuando estudiosos e privilegiados, a maioria de quem nela mergulha abandona a empreitada já na primeira parte (a signatária inclusive) — e vai procurar versos menos barrocos, menos alegóricos do poeta. Talvez, numa nova tentativa...

Mas foi justo com essa obra mamute de 1947, que versa sobre a teimosia humana em se entender como gente depois da Segunda Guerra, que Auden cunhou o que nos define hoje. Vivemos uma era da ansiedade continuada, pandêmica, agarrados ao que éramos sem saber se resta tempo para mudar. Num dos versos mais cativantes do poema, o personagem Quant diz que o mundo também precisaria de um bom banho , além de uma semana de descanso, para se recuperar do que fazemos com ele.

Vivemos aos sobressaltos, alternando espasmos de assombro com as catástrofes da hora. Sequer temos tempo para digerir as várias dores, coletivas ou privadas, que a todo momento disputam nossa atenção. A ansiedade surda, pesada e pegajosa que dá poucos sinais de se dissolver sozinha ora nos coloca em alerta máximo à espera de um Godot, ora nos prostra em estado de sonambulismo cívico para poder digerir o que passou. Isso não é viver, convenhamos.

Retirantes, Cândido Portinari

Merece admiração irrestrita quem consegue manter o foco e não se dispersa com o jorrar ininterrupto de notícias que se empilham e nos tapam a visão. Foi muito impactante assistir ao recente descarrego emocional do coordenador da Agência Humanitária e Ajuda Emergencial da ONU, Martin Griffiths, durante entrevista concedida ao site Democracy Now. “Um milhão de crianças sofrendo de desnutrição extrema! Um milhão de crianças!”, disse Griffiths com indignação incontida. Números são sempre abstratos quando em escala tão enorme, mas 1 milhão de crianças à beira da inanição num país de 23 milhões de habitantes nada tinha de abstrato. Ele referia-se ao alerta de que, a prosseguirem as sanções econômicas dos Estados Unidos contra o novo regime de Cabul, e a retenção de fundos afegãos pelo Banco Mundial com a volta do Talibã ao poder, ali poderão morrer, só este ano, mais civis que durante os 20 anos de guerra.

Menos de cinco meses atrás, estávamos todos grudados nas imagens do dramático desenrolar do abandono à própria desgraça daquele povo. Hoje, a pauta é outra. Sempre foi assim, apenas a notícia corria em ritmo mais lento. Parecia haver uma hecatombe ambiental aqui, um terremoto devastador acolá, alguma chacina macabra alhures, pensávamos compreender. Foi a instantaneidade e disseminação planetária do fluxo noticioso que nos desenraizou do viver de ontem, sem ainda aprendermos a viver no amanhã. Quanto ao presente, o sentimos em suspenso.

A ensaísta franco-cubano-americana Anaïs Nin, no primeiro volume do seu “Diário (1931-1934)”, se debruçou sobre outro tipo de desperdício humano: transitar por um mundo em que você hiberna pensando estar a viver e onde a ausência de prazer e alegria pode parecer uma doença inócua. “Milhões vivem assim (ou morrem assim ) sem sabê-lo”, escreveu. Trabalham em escritórios. Dirigem carros. Passeiam no parque em família. Criam os filhos. Por vezes, até acordam graças a algum tratamento de choque — o encontro com alguém, a descoberta de um livro, a mágica de ouvir uma canção —e são salvos da morte. Mas alguns nunca despertam.

Preâmbulo longo para conclusão telegráfica: entrou em estado vegetativo terminal o presidente da República que nem piscou para a despedida da mulher-raiz da alma nacional, Elza Soares. Ela, ao contrário, deixa uma teimosa sinfonia de permanecer viva para sempre.

Opção pelo conformismo

Neste ano em que o Brasil completa seu bicentenário, Darcy Ribeiro completaria 100 anos de idade. É dele a frase: “Ou nos indignamos, ou nos conformamos”. Durante nossa história, nos conformamos com a escravidão, com a corrupção, com a desigualdade, com o desflorestamento, a deseducação, com a persistência da pobreza. Nos conformamos com estas tristes características da economia e da sociedade, e não construímos um país com eficiência, justiça e sustentabilidade. Por 350 anos, a escravidão das pessoas era tão aceita que o fato não era percebido como uma anormalidade moral.

Agora, no nosso bicentenário, vemos como normal a realidade que nos transmite a televisão: lado a lado a fome que maltrata e mata 20 milhões de pessoas famintas, e notícias de que somos o celeiro do mundo, o maior exportador de alimentos; ao lado também de farta propaganda de alimentos para convencer quem já come a comer mais; e também programas de culinária,novelas e reality shows onde os personagens passam parte do tempo esbanjando comida, ao redor de mesas ou em frente de geladeiras e fogões.

Diante deste quadro, Darcy diria: “Ou nos conformamos, ou nos indignamos com a simultaneidade da fome com o excesso de comida. Aparentemente, a opção brasileira continua pelo conformismo. Salvo para grupos de pessoas de boa vontade, que as televisões também mostram, exercendo a generosidade de levar comida para alguns dos que não têm. Graças a estas pessoas e empresas que não se conformam, centenas de de pessoas recebem comida uma ou outra vez, durante um dia ou outro dia. Mas estes gestos pessoais de boa vontade que alimentam alguns não são capazes de transformar o país para que a fome não ocorra em nosso território.

No conjunto, a sociedade brasileira optou pelo conformismo, que mantém as perversidades tão toleradas que nem são percebidas como imorais. Tanto quanto a escravidão era aceita, “porque os escravos são negros”, a educação de qualidade é negada porque “a criança é pobre”, a fome ao lado da gastronomia porque “uns têm, outros não”. As pessoas se conformam com a realidade injusta moralmente, até absurda logicamente, mas real e permanente porque aceita como uma opção coletiva pelo conformismo.

Brasileiros ricos passam bem pela pandemia

Eles representam cerca de 2% da população brasileira, mas seus gastos são equivalentes a quase 20% do consumo nacional.

Em meio à pandemia, enquanto a maior parte do país sofria com perda de renda, em meio ao avanço do desemprego e da inflação, os brasileiros mais ricos se viram impedidos de gastar em viagens internacionais e em compras nas principais capitais do consumo do mundo.

Com uma "poupança forçada" pela mudança de hábitos, eles gastaram em luxos no mercado nacional e investiram volume recorde de dinheiro no exterior.

Assim, enquanto parte da população fazia fila para receber ossos no açougue, em meio aos preços recordes da carne e ao avanço da fome, outra parcela — bem menor — aguardava na fila para comprar um helicóptero.


Segundo um fabricante ouvido pela BBC News Brasil, a espera por uma aeronave nova chegou a 20 meses, dependendo do modelo, em meio a um salto de demanda.

A fabricante de carros de luxo Porsche bateu recordes de vendas no país em 2020 e 2021, enquanto o setor imobiliário de luxo e super luxo — de apartamentos acima de R$ 1 milhão e R$ 2 milhões, respectivamente — registrou um crescimento de mais de 80% nos lançamentos e de 47% nas vendas.

Segundo a empresa de pesquisa de mercado Euromonitor, a chamada "classe A" brasileira representava 2% da população em 2021.

São pessoas com renda familiar anual acima de US$ 45 mil (R$ 248 mil ao ano ou cerca de R$ 21 mil por mês, ao câmbio atual), cujos gastos equivaleram no ano passado a 19,4% do consumo nacional.

Embora a classe A tenha diminuído após dois anos de pandemia (ela representava 2,7% da população em 2019, segundo a Euromonitor), o consumo dessa parcela de maior renda foi bem menos afetado pela crise sanitária do que o restante da população.

"Os consumidores ricos acumularam reservas involuntárias importantes por conta das opções de lazer reduzidas e das limitações sociais impostas pela pandemia", observa Guilherme Machado, gerente de pesquisa da Euromonitor International.

"A maioria dos brasileiros desses grupos de maior renda está acostumada a viajar para o exterior e comprar itens de luxo nos principais centros globais de consumo, como Nova York, Paris e Londres. Mas, com o fechamento de fronteiras, esses consumidores têm buscado o prazer no mercado de luxo local, resultando em níveis de faturamento sem precedentes para algumas marcas de luxo", destaca o pesquisador.

Uma dessas marcas foi a Porsche. Enquanto a venda de automóveis de passageiros em geral no Brasil despencou 28% em 2020 e caiu mais 3,6% em 2021, em meio a paradas de produção provocadas por uma escassez global de semicondutores, a marca de luxo bateu recordes de vendas no país nos dois anos da pandemia.

Os compradores têm enfrentado filas de espera superiores aos 3 a 6 meses normalmente necessários para a customização dos carros que são sinônimo de ostentação.

"Em 2021, nós vendemos 3.079 veículos aqui no Brasil, um crescimento de 24% em relação a 2020, quando havíamos vendido 2.487 unidades", conta Leandro Rodrigues, gerente comunicação e relações públicas da Porsche no Brasil.

"2020 era o nosso recorde anterior, batemos recordes em 2020 e 2021", destaca, lembrando que a empresa passou a operar diretamente no Brasil em 2015 e tem crescido a uma média de 27% ao ano desde então. A trajetória de alta não foi abalada pela pandemia.

"Quando você tem clientes que tinham uma parcela grande de consumo no exterior e de repente esse consumo não acontece, naturalmente eles têm recursos disponíveis para a compra de produtos aqui no Brasil", avalia Rodrigues.

O executivo destaca ainda as restrições de opções de lazer mesmo dentro do país como outro fator que explica o impulso nas vendas.

"Naturalmente, alguns clientes buscaram outras maneiras de se manterem entretidos e realizarem seus sonhos e suas vontades. Isso são fatores que ajudam a explicar essa demanda", conclui o executivo.

Os consumidores não se abalaram nem com o efeito do câmbio sobre o preço dos carros. Com fábrica na Alemanha, a operação da Porsche no Brasil foi impactada pela valorização de 40% do euro em relação ao real desde o período anterior à pandemia.

"Parte dessa alta precisou ser repassada aos preços", diz o porta-voz. O Porsche 911, modelo mais vendido pela montadora, tem valores que variam de R$ 800 mil a mais de R$ 1 milhão.

Em meio a um salto de demanda, o mercado brasileiro de helicópteros e jatos executivos viu a fila de espera pelos produtos chegar a até 20 meses durante a pandemia.

"O mercado vinha represado há um tempo devido aos problemas econômicos brasileiros. Com o advento da covid e do lockdown, houve uma demanda maior, principalmente em helicópteros na área VIP e o que chamamos de 'para público', como polícia e bombeiros", diz Rubens Cortellazzo, gerente de vendas da fabricante italiana Leonardo Helicópteros.

"Área VIP são operadores civis, como empresas de grande porte, empresários e táxi aéreo", explica o executivo, sobre o sentido no mercado de helicópteros da sigla que em inglês quer dizer "very important person" (pessoa muito importante).

Segundo Cortellazzo, as vendas para o segmento privado foram impulsionadas pelo medo de contágio e pela redução na oferta de voos comerciais durante a pandemia.

Conforme o executivo, o mercado brasileiro civil de helicópteros monoturbina e biturbina de médio porte cresceu 26% em número de entregas em 2021, em relação a 2020.

"Muitos clientes ficaram com recursos represados. Com a restrição de viagens internacionais e o medo da pandemia, houve mais apetite para investir em equipamentos para utilizar no mercado local", conta o gerente.

"A espera para compra, que antes era de 12 meses, chegou a 15 ou 16 meses, dependendo do modelo. Tem modelo em que estamos falando já em 20 meses de espera."

Cortellazzo diz que os compradores usam os helicópteros principalmente para trabalho.

"A gente brinca que o helicóptero é uma 'máquina do tempo'. Você economiza muito tempo no deslocamento de uma reunião para outra, de São Paulo para o interior, de uma capital a outra. Então o helicóptero é uma ferramenta muito interessante para esses empresários."

A aeronave de entrada da Leonardo (isto é, seu modelo mais básico), chamada AW119 Koala, tem preço médio de 4,3 milhões euros (cerca de R$ 27 milhões).

Para o mercado VIP, que vai até aeronaves de médio porte, o valor pode chegar a 15 milhões de euros (cerca de R$ 94 milhões).

As vendas de apartamentos de luxo e super luxo bateram recorde nos primeiros nove meses de 2021.

São empreendimentos com três ou quatro suítes, metragens amplas acima dos 100 m², janelas e pés direitos generosos e grande número de vagas na garagem.

Em janeiro e setembro do ano passado, os lançamentos neste mercado chegaram a 7,6 mil unidades, alta de 81% em relação a igual período de 2020. No mercado imobiliário brasileiro em geral, os lançamentos cresceram 30% na mesma base de comparação.

Em vendas, o avanço do mercado de luxo e super luxo foi de 47% nos nove primeiros meses de 2021, com mais de 10 mil unidades comercializadas, superando R$ 15,4 bilhões em valor geral de vendas, segundo dados da Brain Inteligência Estratégica, consultoria especializada no mercado imobiliário.

Para Marcos Kahtalian, sócio fundador da Brain, um dos fatores que impulsionou as vendas no mercado imobiliário de alto padrão no período recente foi a taxa de juros em nível baixo — a Selic (a taxa básica, determinada pelo Banco Central) começou 2021 em 2%, menor percentual da história.

"Isso injetou uma grande liquidez no mercado e atraiu recursos ao setor imobiliário, já que outros investimentos estavam com retornos muito baixos", diz Kahtalian.

"Outro fator, foi comportamental: em função da pandemia, houve uma busca intensa — para aquelas pessoas que tinham renda, evidentemente — por moradias maiores, mais amplas, mais confortáveis, tanto nas capitais, quanto fora delas. Houve um movimento em busca de espaço e qualidade", observa o consultor.

São Paulo e Rio de Janeiro são os dois principais mercados para os empreendimentos de luxo, com destaque para bairros como Jardins, Vila Nova Conceição e Moema na capital paulista e Zona Sul e Barra da Tijuca na metrópole fluminense.

Nas cidades do interior, se destaca a busca por empreendimentos horizontais, como condomínios de lotes ou condomínios fechados de casas de alto padrão.

Em 2022, a alta de juros pode desacelerar um pouco esse mercado, acredita Kahtalian.

"Para o mercado de luxo, a alta de juros faz menos diferença do que para a classe média, mas faz alguma diferença", diz o consultor.

"Faz menos diferença porque normalmente o comprador não financia o imóvel, ou financia pouco. Mas faz alguma diferença porque há uma atratividade para o capital ser investido de outra forma", afirma, citando como exemplo os investimentos de renda fixa, como títulos públicos, que têm baixo risco e se tornam mais interessantes com a Selic próxima dos 10%.

Também esse ano, devido à forte alta recente dos preços no mercado imobiliário, a definição de luxo e super luxo deve ser revista, subindo para empreendimentos a partir de R$ 1,5 milhão e R$ 3 milhões, respectivamente.

"O mercado de luxo e super luxo é pouco representativo em unidades — cerca de 7% do total nos últimos nove meses. Mas é mais ou menos 33% do valor lançado e 40% do valor total vendido. Ou seja, é um mercado de menos volume, mas de muito valor", diz o sócio da Brain.

Por fim, um último dado que mostra como o chamado andar de cima passou com tranquilidade pela pandemia vem do mercado financeiro.

Segundo dados do Banco Central, o investimento financeiro brasileiro no exterior superou os US$ 18 bilhões (R$ 100 bilhões) entre janeiro e novembro do ano passado, alta de 76% em relação a igual período de 2020 e recorde da série histórica iniciada em 1995.

Conforme Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV (Fundação Getulio Vargas), isso se deve à maior facilidade atual para investir em produtos internacionais e à forte alta recente do dólar em relação ao real, que leva investidores a buscarem a segurança de ter parte do seu dinheiro fora dos riscos da economia brasileira.

"Esse tipo de investimento se popularizou de alguma maneira, saiu daquele cliente 'private' com milhões de reais. Mas ainda não é um produto que qualquer brasileiro tem, estamos falando das camadas mais ricas, de um segmento de varejo de alta renda", diz a professora.

"É um público que tem o dólar como uma moeda importante no seu dia a dia, em viagens de férias ou hábitos de consumo atrelados ao dólar, como itens de luxo e vinhos. Então, para essas pessoas, ter uma parte do seu investimento em moeda forte ajuda, como uma forma de diversificar e de se proteger de altas de preços", observa a especialista em finanças.

"São pessoas que em sua maioria não perderam renda na pandemia e reduziram suas despesas, porque gastam muito com restaurantes, entretenimento e viagens de férias no exterior. Com o distanciamento, essas pessoas conseguiram guardar mais dinheiro."

Para Yoshinaga, apesar de a alta do dólar deixar os investimentos no exterior mais caros e a alta de juros no Brasil tornar os investimentos locais mais atrativos, a volatilidade do ano eleitoral deve continuar estimulando brasileiros a buscar investimentos no exterior, como uma forma de diminuir sua dependência do que acontece na economia nacional.

Flagelo convergente

Os seguidores de Lula e os de Bolsonaro detestam que seus respectivos chefes sejam comparados entre si. Sim, são gritantes as diferenças, mas ambos convergem em ponto crucial. Os líderes das pesquisas não apresentaram até aqui um conjunto de ideias coordenado de como tirar o País da estagnação.

Cada um ajudou a aprofundar aquilo que o professor e economista da FGV Fernando de Holanda Barbosa deu o título em recente publicação de “flagelo da economia de privilégios”. Os privilegiados, segundo o autor, são empresários obtendo subsídios, tratamento fiscal diferenciado, conjuntos de trabalhadores com tratamentos especiais, funcionários dos três Poderes com salários acima do setor privado, além de aposentadorias e pensões também especiais.

O “conflito social” entre enormes grupos de privilegiados e o resto produz as cíclicas crises fiscais das quais a atual está longe ainda de ter sido debelada. E ela precisa ser resolvida logo, sob o risco de tirar qualquer perspectiva de futuro para o País.


A manutenção do sistema de privilégios é também o pano de fundo para se entender o embate político no Brasil que, no extremo, não passa de disputa cada vez mais acirrada (pois os cofres quebraram) por extrair renda do Estado. A esfera da política, em especial a do Legislativo, reflete essas “escolhas” pelo voto, e sustenta o cenário macro no qual falta investimento pois falta poupança e falta poupança pois não há uma “escolha” política nesse sentido.

A convergência entre os personagens políticos Lula e Bolsonaro se dá, portanto, no fato de representarem a manutenção do “status quo” – algo que enfurece as respectivas claques, especialmente a acadêmica, mas que todo dia encontra exemplos no noticiário sobre a facilidade com que os grupos de privilegiados pulam de um lado para o outro do espectro político.

A rigor, as próximas eleições deveriam ser vistas como o verdadeiro choque entre as forças empenhadas em mover o País para fora do flagelo dos privilégios e o “sistema”, que dá sinais de estar confortável com Lula ou Bolsonaro (o Centrão vai mandar tanto faz qual dos dois). Mas essas forças, chamadas de “terceira via”, estão desarticuladas, ainda que tenham cabeças brilhantes, think tanks excelentes e diagnósticos precisos.

É necessário reconhecer que não se trata apenas de sucesso eleitoral em prazo historicamente muito curto. O problema maior é enfrentar a situação de um país que dá preferência a consumo em vez de poupança, e está desprovido de uma noção geral de justiça social e combate à desigualdade.

sábado, 22 de janeiro de 2022

Pensamento do Dia

 


Estava escrito nas estrelas

A escritora e astróloga Marcia Mattos publica desde o ano 2000 o mais famoso anuário da astrologia brasileira, o Livro da Lua. Seus acertos são incontáveis e os erros quase todos justificáveis. Por isso, ela é ouvida por muita gente importante no Brasil. Claro que Marcia não fala sobre seus clientes, mas sabe-se que em anos bicudos como este, seus principais ouvintes são empresários e políticos abismados com o mar de incerteza que divisam no horizonte. Nesta semana, Marcia falou para um grupo de mais de 40 CEOs de grandes empresas nacionais reunidos pela Vistage Worldwide, uma organização especializada em “mentoria para executivos”. A palestra foi levada a sério pelos CEOs, que anotaram todas as suas previsões. Afinal, em se tratando de 2022, é bom não facilitar e ir coletando todas as dicas disponíveis no mercado.

Marcia não confirma a palestra, mas executivos presentes ao evento contam que ouviram dela a leitura dos mapas astrais do mundo e do Brasil. Já no primeiro minuto da palestra escutaram o que já sabiam, e os mapas confirmam, o mundo vai mal, mas o Brasil vai ainda pior. Segundo a astróloga, o país passa por “tensões planetárias particulares”. O fundo do poço, claro, foi em 2020, quando explodiu a pandemia de coronavírus. Para os que acham que é óbvio falar sobre o leite derramado, vale lembrar o que o mais famoso e importante astrólogo francês, Andre Barbeau, previu em 1987. Analisando astros e estrelas, Barbeau avisou que 2020 seria o pior ano do século XXI e que uma pandemia se espalharia pelo mundo matando milhões de pessoas.

Em 2021 se estabeleceu um platô na curva astral do planeta, que se apresenta visualmente como se fosse um gráfico da Bolsa. Depois da queda exponencial do ano anterior, houve certa estabilidade.

A boa notícia é que está chegando ao fim a fase dos extremos, da polarização, dos antagonismos desmedidos. Fase que não deu nenhuma chance ao centro, onde todos se sentiam obrigados a tomar uma posição contra ou a favor de alguma coisa. O esvaziamento do centro, segundo Marcia Mattos, ocorreu no mundo inteiro e, pela consulta dos mapas astrais, deve ser lido de maneira filosófica, mas também pode ser entendido politicamente. Ela explicou que o caminho do meio que se lê nos mapas é um conceito budista milenar, onde um indivíduo ou uma comunidade encontra total equilíbrio e controle sobre seus impulsos e comportamentos diários. Esta fase volta em 2023, disse Marcia aos atentos CEOs.


Ao longo do ano em curso, as tensões polarizadas seguem até outubro, que no Brasil é justamente o mês das eleições. Haverá momentos extremados pelo menos até agosto deste ano. O ano astral, disse Marcia ao seu público de executivos, será de “destronamentos”. A tendência apontada pelos astros é que países que realizarem eleições este ano, como o Brasil, mudem seus governantes. Este “destronamento” é interpretado pela astróloga como uma evocação da mitologia grega, em que o filho mata o pai rei e assume a sua dinastia. No caso concreto dos tempos modernos, significa o fim de uma era. “Em outubro, no Brasil, vai haver uma virada de jogo, uma mudança radical, a interrupção de uma direção”.

Você pode não acreditar em nada disso, tudo bem, mas tem um pouco mais. Segundo a astróloga, de 2023 a 2030 as curvas astrais subirão ininterruptamente, sobrevindo um período de forte “produção de bem estar”. Ainda assim, alguns problemas gerados na pior fase não serão resolvidos nesta época de bonança. No Brasil, por exemplo, a casa dois do mapa, que rege a economia, mostra o descontrole das finanças públicas, a derrama de dinheiro sem critério e sem acompanhamento de aplicação. A regência de Netuno indica que o dinheiro público se “dissolve” ao longo desta fase.

Pela leitura de Marcia, o pior é que “vai ficar por isso mesmo”. A mudança de direção inequívoca apontada pelos astros para 2023 não será acompanhada por cobranças e punições por erros e crimes cometidos nos anos anteriores. Márcia não pode dizer se a mudança será o “destronamento” de Bolsonaro por Lula, como indicam as pesquisas, porque Lula não tem mapa astral. A verdadeira data de seu nascimento é desconhecida, são quatro e nenhuma delas é confiável. Mas pelo que se viu, deve ser Lula mesmo. Ao final, ele vai se aliar ao Centrão para governar passando uma borracha nos desembolsos orçamentários escandalosos.

O velho e o mar

É uma história maravilhosa. É um mito homérico adaptado à nossa época. O mundo está repleto de tubarões prontos para disputar os peixes-espada que os homens bons tão corajosos vão pescar longe das costas da mediocridade.

René Depestre, "Aleluia para uma mulher-jardim"

A pandemia da desigualdade

A Oxfam, organização inglesa criada há 80 anos, publicou neste mês o relatório – “Desigualdade Mata”, com um dado de contraste assustador: durante os dois anos de pandemia de covid-19 o mundo registrou um novo bilionário a cada 26 horas, ao mesmo tempo em que quase 200 milhões de indivíduos passaram a integrar as estatísticas de pobreza.

O estudo informa que as dez maiores fortunas pessoais do planeta cresceram acima de 100%, somando mais de um bilhão de dólares por dia, enquanto caíam os ganhos de 99% da humanidade, ao longo do período de pandemia.

Os dados da publicação indicam ainda que a taxa de elevação das grandes fortunas foi maior nos dois últimos anos do que nos 14 anteriores, no maior salto de riqueza desse grupo desde o início da série histórica.

Isso mostra que a ciência, o capital e o Estado foram capazes de diagnosticar, prevenir e curar doenças que dizimaram populações ao longo de eras. Até mesmo o câncer hoje registra risco de morte inferior ao de poucas décadas atrás.

Contudo, um milhão de anos de existência do ser humano não foram suficientes para sequer atenuar a pior e mais antiga doença que já assolou a nossa espécie – a desigualdade social.


A Terra de Santa Cruz, que não costuma ficar para trás quando se trata de más notícias, também deu sua cota de contribuição à pandemia da desigualdade, incorporando dez novos bilionários ao time dos abastados durante a Covid, enquanto 90% dos brasileiros sofreram redução na renda.

A humanidade vem enfrentando no curso do tempo, com muito esforço, incontáveis moléstias letais como a lepra, a peste, a gripe espanhola, Aids, ebola, varíola, cólera – e luta para controlar a covid-19.

Vale lembrar nesse contexto que o presidente Franklin Roosevelt, mesmo governando a maior potência do planeta por mais de uma década, não escapou de complicações decorrentes da poliomielite.

Ao contrário do que acontece com o coronavírus em suas diferentes versões, a pandemia da desigualdade é intencional desde sua origem. Quem sabe, suas primeiras cepas datem do princípio de tudo.

Talvez tenha passado despercebido ao autor do Gênesis que Adão já planejasse comandar o paraíso, mesmo antes de sua costela comer a maçã. Da mesma forma, Darwin não notou que a primeira ideia do pithecantrophus, ao caminhar ereto, foi passar na frente dos seus semelhantes. De lá para cá, valeu a lei do mais forte (ou mais rico).

A desigualdade é o drama primordial do ser humano. Salvo exceções (meteoros, por exemplo), os demais problemas decorrem da desigualdade, alguns como parte da causa, outros como efeito.

A desigualdade se mostrou também na distribuição de doses. Milhões de habitantes de países e regiões pobres não têm acesso nem à primeira dose para grupos de risco, enquanto países e regiões privilegiadas já adquirem a terceira dose para toda sua população.

As lideranças econômicas e políticas conhecem a vacina e o remédio contra a implacável pandemia de desigualdade social que já chega a caracterizar a humanidade, cristalizando-se como pilar da estrutura das sociedades humanas, ou como ingrediente original da nossa índole.

Não há justificativa aceitável. A culpa não foi da serpente do Éden. Negar-se a tratar com urgência a desigualdade social é uma escolha de cunho moral indisfarçável.

O passado do país se foi de vez

É possível derrotar Bolsonaro nas urnas e virar esta página infame da história brasileira. Mais: é provável que isso venha a acontecer em outubro que vem, embora o caminho até lá seja tudo menos tranquilo, mesmo para quem, como o desafiante Lula, desfruta de folgada dianteira nas pesquisas.

Afirmar que a derrota espreita o ex-capitão não significa ignorar que ele fará o que puder "dentro das quatro linhas constitucionais", se bastar, e além delas, se necessário, para tumultuar o processo eleitoral e desqualificar os resultados caso lhe sejam adversos a fim de continuar no Planalto a qualquer preço, tratorando as instituições democráticas.

Além disso, mesmo que o império das leis e a força dos fatos o obriguem a passar a faixa ao sucessor, continuará existindo espaço político para a extrema direita, sob sua liderança ou de outro político do gênero.


Tem razão o professor Oliver Stuenkel (FGV-SP) ao ressaltar, em artigo na edição eletrônica da revista Piauí de 11 de janeiro, que o fortalecimento político de Donald Trump, nesses 12 meses desde a malograda invasão do Capitólio, ensina que a derrota eleitoral não zera o jogo e que a aposta continuada na radicalização pode recompensar quem aspira a conduzir forças extremistas.

Na verdade, por circunstanciais que possam ter sido seus resultados, as eleições brasileiras de 2018 produziram uma liderança nacional para as falanges do ódio, da violência, da ignorância prepotente e do irremissível atraso existentes no país. Até então, tinham expressão política dispersa em organizações e indivíduos militando nas redes sociais, nos meios de comunicação, nas eleições legislativas, nutrindo assim as reservas do baixo clero, desde as câmaras municipais ao Congresso.

A prolongada crise política da década passada tirou o PT da Presidência, mas também destruiu a capacidade do PSDB de aglutinar, para fins da disputa presidencial --e só para ela--, os partidos perfilados do centro à extrema direita do espectro político.

Ativistas e eleitores sem compromisso com regras e valores democráticos, antes participantes indistinguíveis da grande fronda antipetista, adquiriram visibilidade e expressão nacional própria.

É difícil imaginar que uma possível derrota eleitoral de seu mais autêntico representante torne a colocar a escolha do titular do governo nos trilhos da competição relativamente civilizada entre candidatos dos dois lados do centro.

Com ou sem Jair Bolsonaro, o extremismo antidemocrático, embora minoritário, continuará a ser uma presença visível, atuante e ameaçadora no país.

O passado se foi de vez.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Notas de um janeiro chuvoso

A chuva é o imprevisto mais rotineiro de nossas vidas. Maviosa como um adorável chuvisco, pode virar furiosa tempestade que não acaba, como a TV ou a luz, por meio do botão controlado por nossa vontade. Teimosa e inesperada, obriga a usar o guarda-chuva e impede grandes e pequenas coisas como ir à praia ou dar um passeio.

Nos bairros pobres, ela destrói e rotineiramente leva nas suas enxurradas as posses de grupos familiares inteiros. O que nos obriga a recitar a ladainha da ausência de políticas públicas...

O “tempo”, mesmo com “previsão”, tem seu imprevisível.

A Operação Lava-Jato foi morta, mas a corrupção continua viva. O sistema legalizante foi feito para ela. Seria a roubalheira um mecanismo ligado ao que chamamos de “política” no Brasil e noutros lugares? Ou seria simplesmente um hábito ou costume de certos grupos e classes sociais, um aproveitar-se de cargos — um “arranjar-se”, como no atualíssimo livro de Manuel Antônio de Almeida...

Disse e repito: roubar o que é de todos (a “verba”, o dinheiro impessoal que é de todos) não é uma fraude, é uma pilhagem suscitada por uma oportunidade ou, quem sabe, um direito. Uma cota-parte: os fiscais têm direito a uma parcela do imposto pago pela população. A questão é o controle de um velho hábito aristocrático e republicanicamente legitimado?


Ficar velho é redescobrir que certos órgãos tinham múltiplas funções...

Num filme antigo, um ditador latino-americano ensina para o mocinho (naturalmente americano e democrata, cuja ética médica obriga a operá-lo) a razão do seu autoritarismo: no seu país, explica, quando uma pessoa vê uma placa ordenando “não cuspa na calçada”, não há problema; aqui, porém, eles cospem na placa!

Como explicar que desobedecemos à lei sem compreender que, no Brasil, a lei não é feita para todos, mas para alguns grupos, categorias ou pessoas. Os negros e índios, os mestiços com cara de bandidos...

Quantas vezes você ouviu que a regra não havia sido feita para você? E quantas vezes verificou que a posição social (dada por dinheiro, cargo político, relação familiar, aparência e cor da pele — o tal “jeito”) não era coerente com a lei porque era incoerente com essa posição?

A lei, do mesmo modo que o trabalho, lido como castigo e pouco como vocação, foi feita “para negros”, como uma categoria geral que podia abrigar quem duvidasse de certos padrões e expectativas.

Você se lembra do samba carnavalesco de 1946 “Trabalhar, eu não”, cuja letra explica: Eu trabalhei como um louco / Até fiz calo na mão / O meu patrão ficou rico / E eu pobre sem tostão / Foi por isso que agora / Eu mudei de opinião? Foi composto por Aníbal Alves de Almeida. Almeidinha — sem Hegel, Marx e Engels — decifrou e carnavalizou o segredo do capitalismo nacional.

"Open Health de Queiroga atende a empresários da saúde'

O “Open Health”, como foi batizado por Queiroga, é considerado “oportunista e inconstitucional” e uma política que beneficia empresários da saúde.

“A proposta é oportunista e inconstitucional. Não tem cabimento o ministro Queiroga tentar agradar o setor empresarial, em plena nova onda da pandemia, em meio à falta de testes de Covid na rede privada, escândalo de operadora acusada pela CPI do Senado Federal, e previsão de mais um aumento das mensalidades dos planos de saúde acima da inflação. O titular da pasta da Saúde, que deveria estar à frente da condução de respostas ao recrudescimento de casos de Covid-19, registra, assim, mais um malogro de sua gestão”, afirmam a professora Ligia Bahia, da UFRJ, e o professor Mário Scheffer, da USP, em nota conjunta. Ambos coordenam grupos de estudos sobre planos de saúde em suas instituições.

Alfredo Martirena (Cuba)

O compartilhamento de dados de usuários entre essas empresas, previsto por Queiroga para “ampliar a concorrência no setor”, é duramente atacado por Bahia e Scheffer.

“Ao prever a circulação livre de dados dos pacientes entre as operadoras, a medida tem dois propósitos explícitos: permitir a seleção de risco, para que as empresas possam escolher aquelas pessoas que não têm nenhuma doença; e facilitar a venda de planos ‘customizados’, de menor cobertura, baseados no histórico passado do paciente, sem considerar a imprevisibilidade futura das necessidades de saúde das pessoas.”

Para eles, não cabe ao Ministério da Saúde definir legislação sobre o setor, e eventual medida provisória a ser baixada sobre esse assunto será contestada no Supremo Tribunal Federal (STF). Os especialistas dizem ainda que o “Open Health” do ministro viola a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e a Constituição, que protege a privacidade dos cidadãos.

“No lugar de atender aos interesses de empresários da saúde em ano de eleição, o ministro Marcelo Queiroga devia, no momento, ocupar-se da vacinação de crianças e coordenar efetivamente os esforços para o controle da nova onda de Covid, que ameaça colapsar o sistema de saúde mais uma vez.”

Maracugina para Queiroga

Marcelo Queiroga, ex-médico e atual porta-voz do presidente e ministro da Saúde Jair Bolsonaro, está muito irritadinho no cargo. A qualquer pergunta descontrola-se, faz má-criação ou abandona a entrevista. Em setembro de 2021, em Nova York, quando ajudou a carregar as malas de Bolsonaro na visita deste à ONU para um esquete humorístico, Queiroga estomagou-se com um protesto e mostrou o dedo para as câmeras. Era caso de Maracugina na veia.

Disse há tempos que espera "um bom julgamento da história". Tarde demais. Seu antecessor Eduardo Pazuello entregou-lhe o país com 11,5 milhões de casos de Covid e 280 mil mortos. Queiroga já elevou esses números para, até agora, 23 milhões de casos e 620 mil mortos. Números, aliás, são um problema para ele. Sempre que tem de citar algum, embarafusta-se com os zeros e erra por milhares ou milhões.


Outro dia, disse que o Brasil tinha 4.000 mortos por uso da vacina antiCovid. Mas, segundo seu próprio ministério, só uma pessoa morreu disso, donde Queiroga errou por 4.000%. Quando ele anuncia que 20 milhões de testes ou 40 milhões de vacinas vão chegar no dia tal, é bom dividir os números pela metade e multiplicar os prazos por dois. Neste momento, atendendo à voz do dono, está sentado nas traseiras, tentando adiar a vacinação das crianças.

Queiroga quer ser governador ou senador por seu estado, a Paraíba. Num comício em João Pessoa, anunciou que Bolsonaro tinha "chamado outro paraibano para vencer uma pandemia". Referia-se ao presidente Epitácio Pessoa, que "governou o país na época da Gripe Espanhola". Errou. A Espanhola foi de setembro a novembro de 1918. O presidente era Wenceslau Braz. Na época, Epitácio estava na França, tomando champanhe e preparando-se para fazer figuração na Conferência de Paz, em Versalhes. "Eleito" (votos fraudados) em 13 de abril de 1919, só tomaria posse em 28 de julho.

Em "narrativa", Queiroga é doutor.

Pensamento do Dia

 


Corrupção pega, vicia e arruína

Há seis anos a república da impunidade reinante no Brasil sofreu profundo abalo com a consequência prática produzida pela adesão do País, governado em sequência por Fernando Henrique, Lula, Dilma Rousseff e, até certo ponto, Michel Temer, a acordos internacionais de combate à corrupção. A atuação de procuradores da Operação Lava Jato, juízes federais como Sérgio Moro e Marcelo Bretas e do Tribunal Federal da 4.ª Região, em Porto Alegre, levou a consequências inusitadas, como a prisão de um empresário tope (e torpe), a condenação do mais popular ex-presidente da República e penas de 400 anos para um ex-governador. A adoção da delação premiada, a permissão de condenação de réus, após a segunda instância, e uma onda de popularidade de agentes do Estado envolvidos nessa ação, contudo, não impediram a sabotagem de chefões partidários e funcionários dos altos escalões de polícias e tribunais superiores as destroçarem em três anos do desgoverno da extrema direita deficiente e delinquente. Hoje, a elite dirigente política nacional suspeita, processada, condenada e aprisionada pisa nos destroços desses esforços abandonados pela cúpula dos Três Poderes da República aviltada.


O ápice da vitória consagradora dos réus acusados e condenados em dois grandes processos julgados no Supremo Tribunal Federal (STF) é o processo eleitoral em trâmite das eleições gerais deste ano, em que se elegerá o sucessor no poder máximo. A julgar pelo que contam as pesquisas de opinião, Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente por dois mandatos e grande inspirador da titular eleita para mais dois, mas que perdeu metade do segundo num processo de impeachment baseado em mágicas fiscais de fazerem Houdini e Paulo Maluf corarem de vergonha por nunca terem chegado a tanto. O segundo candidato à reeleição propriamente dita, Jair Bolsonaro, como o oponente provável no segundo turno previsto pelas pesquisas, escapou de carregar capivara e prontuário na campanha, que promete ter nível abaixo da crítica, mercê do foro privilegiado propiciado pelo mandato presidencial. Assim como os filhos zero-zero-um, o Flávio, e zero-zero-dois, o Carlos. Mas, segundo revelou seu ex-segurança e tesoureiro, hoje deputado federal, Julian Lemos, no Nêumanne entrevista, publicado no sábado, 14 de janeiro, no Blog do Nêumanne no portal do Estadão, está longe de ter ser uma vestal grega.

Certo é que ambos estão cometendo crimes de várias espécies na disputa do pleito presidencial, a serem julgados na Justiça Eleitoral, embora seus doutos membros não pareçam muito dispostos a punir, em campanhas descaradas. Lula, por exemplo, recebeu apoiadores em jantar na semana passada, no qual um grande criminalista paulistano, o célebre Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, repetiu, só que agora de forma mais explícita e em tom mais candente, o lema que bem pode servir de base teórica, não apenas para a disputa atual, mas também para a terceira gestão dele e sexta do partido na república perpétua da corrupção legalizada: “O crime já aconteceu, de que adianta punir? (...) Que não se ache que a punição irá (sic) combater a corrupção”.

O interessante é que essa afirmação coincidiu com outra, feita pelo candidato oposto, Jair Bolsonaro, que acrescentou a suas mentiras proferidas em quantidade astronômica uma que pode ser encontrada em qualquer arquivo analógico: a de que jamais prometeu combater a corrupção. Como se houvesse outra explicação razoável para a escolha do ex-juiz da Lava Jato, Sérgio Moro, para seu governo, agora prestes a ter expelido outro apêndice, o discípulo do tirano chileno Pinochet, que anda por aí enrolando farialimers, para usar termo da moda no noticiário político e econômico da campanha, Paulo Guedes, ex-posto Ipiranga, atual calo do liberalismo fake, no qual o sindicalista do soldo de caserna jamais foi sequer vendedor de feira livre.

O interessante nessas coincidências que fazem do bolsolulismo o produto em voga do mercado eleiçoeiro da república da corrupção perpétua é que a frase aplaudida com entusiasmo no palanque-banquete da prosperidade própria em nome do socialismo dos militontos também tem usufruto a peso de ouro nas motociatas abandonadas do fascismo de botequim da direita estupefaciente, cujo mito/minto nunca passou de um capitão-terrorista. As palavras do jurista favorito dos garantistas do STF, muito ao gosto do lulismo de militantos, cabem muito bem nos votos de solta-solta do general Gilmar, do extinto tucanismo de longo bico e ventre gordo, assegurando, em teoria, a passagem pelo segundo turno da polarização conveniente para a concessão quadrienal de indulgências plenas do reino do venha a nós e o resto que se dane, em cujo trono um se senta e o outro fica esperando a vez e ocupar.

Urge compreender que a corrupção da república perpétua só tem a oferecer fome, miséria e ruínas a quem não é convidado nem para lamber as migalhas do banquete exclusivo das elites dirigentes, do qual são excluídos aqueles que os carcarás perpétuos do “pega, mata e come” renegam desde sempre. E assim não seja mais!

E o bolsonarismo, também se tornará endêmico?

Com a variante ômicron se espalhando cada vez mais rápido, há quem diga que a covid-19 logo pode se tornar endêmica: quer dizer, ela veio para ficar, mas como doença comum e menos agressiva. Vamos conviver com o coronavírus, que fará parte das nossas vidas. E o bolsonarismo, outro fenômeno que apareceu e se espalhou rapidamente pelo Brasil inteiro nos últimos anos? Também veio para ficar ? E em que grau?

Nos Estados Unidos, o trumpismo se mostra forte e persistente, mesmo mais de um ano depois da derrota eleitoral de Donald Trump e exatamente um ano depois da saída dele do poder. Parece que o trumpismo realmente veio para ficar, ou, melhor dizendo, para voltar ao poder. As chances de isso acontecer em 2024 parecem razoavelmente grandes. Até com uma figura principal que não seja o próprio Trump, mas um ou uma aliada como representante oficial do trumpismo.

Mas e o bolsonarismo, que surgiu como cópia tropical e tupiniquim do trumpismo? Pelas pesquisas de opinião, o próprio Jair Messias Bolsonaro pode sofrer, nas eleições do fim deste ano de 2022, uma derrota de dimensões bem maiores do que a do próprio Trump. Ou, em outras palavras: Bolsonaro pode nem chegar ao segundo turno, em outubro. Corre risco de perder no primeiro turno de Lula, seu maior rival. Bolsonaro sobreviveria a isso politicamente? Voltaria como candidato forte outra vez em 2026? Ou com um herdeiro em seu lugar?

Acontece que há uma grande e - provavelmente - decisiva diferença entre o trumpismo e o bolsonarismo. O trumpismo hoje domina o Partido Republicano quase por completo. Assim, controla metade do sistema partidário americano. No partido, quem dá as cartas é o próprio Trump. Candidatos contrários a ele quase não têm chance de serem oficializados nas próximas eleições. E com sua própria rede social, a ser lançada em fevereiro, Trump ganhará ainda mais influência.

Já o bolsonarismo nem sequer conseguiu criar um partido novo próprio. A ideia de transformar a Aliança pelo Brasil em partido não vingou, e achar uma legenda alternativa para se abrigar tem sido difícil. E ao invés de dominar um partido (como o PL, que abriga Bolsonaro agora), o Centrão se aproveita da fraqueza do presidente. Assim, é o contrário do que a gente vê com os republicanos americanos e Trump.


Bolsonaro tampouco teve êxito na criação de algum mito fundador ou unificador de um movimento. Nos Estados Unidos, a lenda das eleições roubadas tem apelo entre milhões. E mesmo sendo bilionário, Trump virou mito entre uma grande parte dos cidadãos decepcionados, como figura de vingador. Mas e no Brasil? Qual o mito criado pelo "mito" que veio para ficar? Seria a facada de setembro de 2018 e a suposta grande conspiração por trás dela o mito unificador ou criador do bolsonarismo? Improvável.

E o discurso do perigo comunista, que Bolsonaro copiou de Trump? Cola apenas nas mentes dos fanáticos, dificilmente funciona com a grande massa. E posar de político honesto fica cada vez mais difícil com tantas rachadinhas aparecendo. Qual seria, portanto, a mensagem principal do bolsonarismo? Ou seria bolsonarismo apenas uma palavra vazia?

Outra grande diferença entre o The Real Donald Trump e o Trump tropical (Bolsonaro) é o dinheiro. Trump já era rico antes de entrar para a política, e agora pode trazer sua riqueza para dentro da sua campanha. Para ele, a política parece servir à sua vaidade.

Enquanto isso, Bolsonaro e sua família enriqueceram com os cargos públicos que o sistema político brasileiro oferece aos políticos. Em outras palavras: Bolsonaro entrou na política para ficar rico. E o fez de forma pouco camuflada e muito descarada. A maioria dos brasileiros vai querer repetir a dose em 2026? Duvido.
Thomas Milz

Antes que só restem as fake news

Ainda faltam quase dez meses para as eleições, mas no deserto da política brasileira há muito pouco espaço para alguma esperança esclarecida. Nosso sistema político é um edifício em ruínas, que abriga homens sem imaginação e sem grandeza, onde, citando os versos de Yeats, o grande poeta irlandês, os melhores perderam toda a convicção, enquanto os piores estão cheios de uma intensidade apaixonada.

As instituições democráticas estão em crise em quase toda a parte, porque foram construídas para um ambiente social completamente diferente do que existe hoje. Até duas ou três décadas atrás, o fluxo das informações era centralizado.

Existia, até então, uma base comum de fatos sobre a qual se formavam as opiniões. O essencial da discussão política estava na disputa de opiniões, não nos fatos em si. Os chamados fatos alternativos não tinham meios para circular e geralmente desapareciam logo ao nascer.

Hoje todos têm seus próprios fatos e os meios para divulgá-los. Não há mais lugar para o diálogo entre opiniões, aquilo que constitui a essência do processo político. Nesse sentido, não seria absurdo dizer que estamos nos aproximando do fim da política, tal como existe pelo menos desde a Grécia clássica.

Esta seja talvez a natureza da transição que vivemos, quando o velho agoniza sem que o novo já esteja à vista.


Os dois grupos principais que parecem, pelo menos até agora, polarizar o processo eleitoral têm especialização em manobrar neste ambiente de fatos alternativos, o que ameaça tornar as eleições um confronto entre fantasias e irrealidades.

Ambos investem na manipulação da memória, procurando reescrever a história com silêncios e afirmações que se ajustem aos seus discursos. Nisso eles não inovam, pois todos os regimes totalitários do século XX tentaram a mesma coisa.

O governo Bolsonaro, conforme a maioria das pesquisas de opinião, tem a aprovação de menos de 25% da população, depois de três anos de mandato. É pouco provável que esses índices sejam revertidos para que, ao final, ele alcance uma maioria absoluta no segundo turno. Nosso presidente é homem de idéias fixas e não mostra disposição de mudar o seu discurso, muito pelo contrário.

Se as pesquisas estão certas, o favorito para ganhar as eleições é Lula e o seu partido. Lula e o PT têm um passado e não é possível esquecê-lo. Há quem os prefira justamente por este passado, mas há quem possa julgá-lo imperdoável. Por isso todo ele tem que vir à tona na sua pureza de fato histórico.

Em 1985, o PT se recusou a votar em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, que encerrava sem sangue o regime militar. O que queria o partido naquele momento? Derrubar o regime pela força? Não, apenas deixar que os outros fizessem o trabalho impuro enquanto mantinha a santidade do discurso, já sabedores do desfecho. Nos dicionários, isto se chama hipocrisia.

Na votação do Plano Real, a bancada votou em peso para derrubá-lo, porque ele acabaria com a inflação e turbinaria a candidatura oficial à Presidência, quando as pesquisas davam a Lula 41% das intenções de voto. Se na pandemia Bolsonaro ficou do lado da doença, na luta final contra a inflação Lula e o PT ficaram do lado da inflação, que os beneficiaria na luta pelo poder.

Na sua origem o PT foi o partido anti-corrupção, implacável com os adversários, quando ainda era oposição em toda a parte. No governo, comandava o país durante o maior episódio de corrupção já desvendado em toda a nossa história. Apesar dos erros dos processos judiciais, o fato é que o assalto à Petrobrás ocorreu de fato, conforme as provas e as confissões.

Em homenagem aos que desfrutam da liberdade que nasceu no Colégio Eleitoral, aos que se livraram da inflação que confiscava seus salários e aos que nunca se envolveram em tenebrosas transações, Lula e o PT precisam confessar o seu arrependimento e pedir perdão aos brasileiros. Sem isso as eleições serão a escolha entre dois infortúnios. Os brasileiros não merecem.